História Espectro - Capítulo 1


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Categorias Histórias Originais
Tags Autismo
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Palavras 600
Terminada Sim
LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Drama (Tragédia)

Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Coloquei "drama" porque é necessário ao menos um gênero para a história ser aceita.

Por favor, leiam as notas finais.

Capítulo 1 - Os remédios não são capazes de curar o mal do ser humano


Daniel nunca esquecia. Dentre suas características que os especialistas mais admiravam, era a memória. Exatamente como um computador, guardando tudo em seus mais profundos arquivos, com um armazenamento interminável.

Daniel, aos três anos, ainda não falava. Quando os pais falavam consigo, ele não os olhava nos olhos, procurando um ponto aleatório para fixar seus pensamentos.

Daniel foi crescendo, conhecendo novas pessoas que se intitulavam com o mesmo nome: “doutor”. Algumas conversavam de modo estranho, como se estivessem falando com um extraterrestre. Em um dia, conheceu Maiara, a “doutora” que lhe tratou de outra maneira. E gostou dela. Passou a vê-la todas as semanas, recebendo perguntas, dando respostas e iniciando conversas. Ela era uma boa amiga.

Daniel gostava muito de computadores, celulares e máquinas no geral. De modo surpreendente, aprendia mais rápido do que qualquer outro.

Às vezes, Daniel se irritava. Em alguns momentos, eram as pessoas que falavam alto demais ou algo que não lhe agradou; uma música num volume muito alto; duas televisões ligadas dentro da mesma casa, compartilhando o som. Mas, principalmente, quando era contrariado. Ouvir a palavra “não” direcionada à sua pessoa lhe deixava furioso, ele simplesmente não conseguia controlar.

Sua relação com as pessoas melhorou quando a risperidona foi trocada por aripiprazol e cloridrato de metilfenidato. De tanta experiência, desde bem pequeno, afinal, conseguia engolir comprimidos até mesmo sem água; mas sabia que era errado e não o fazia.

Não era antissocial. Gostava de se enturmar, falava com qualquer desconhecido que quisesse, começando amizades de uma hora esperando com a mãe em uma fila de banco.

Era consciente do que acontecia. Os pais e a irmã evitavam falar “autismo” na sua frente, mas ele sabia do que se tratava; não exatamente o que significava, mas que era portador. E não entendeu quando, na escola, ouviu um colega rir da brincadeira estúpida de um amigo, chamando-o de “autista” num tom zombeteiro.

Outra vez, em uma sala de jogos, viu um rapaz mostrar um vídeo engraçado a uma menina, dizendo “veja, Sara, olha só como esse vídeo é autista”, aos risos.

Daniel nunca conseguiu entender por que usavam o termo como um xingamento ou característico daquilo que é “idiota”, muito menos por que riam tanto.

Esse é Daniel.

Daniel é um ser humano, assim como qualquer outro. Ele está por aí, em qualquer lugar, porém, usando outros nomes. Uma mãe teve condições de pagar por um tratamento na rede privada, mas outra não teve, enfrentando filas públicas desde a madrugada para conseguir um laudo e uma caixa de risperidona. Outra mãe sabia da existência de medicamentos melhores, mas o governo só lhe dava a risperidona, e ela não tinha como gastar quase mil reais por mês com remédios para o filho. Uma acabou de sair do tribunal porque, mês passado, a diretora disse que Daniel não podia mais permanecer na escola. Outra está feliz, pois conheceu boas professoras dispostas a cuidar de seu filho, dando-lhe uma atenção especial. E há outra aos prantos, pois não tem recursos para iniciar um processo. Mais uma está calada, porque não conhece seus direitos.

Um tem acompanhamento, outro não. Um gosta de conversar, outro não. Um se irrita facilmente, outro não. Uma mãe lida bem, outra não. Um pai entende, outro não.

Você não tem direito de moldá-lo à sua maneira, como se estivesse cuidando de um personagem fictício já existente. Você jamais irá entendê-lo baseando-se em suas pesquisas feitas na Internet ou com os comentários que ouve por aí. Pare de usá-lo, você não tem esse direito.

Existem muitos Daniels – e nenhum deles é igual, muito menos parte do seu show. 


Notas Finais


Isto é um grito. Mais um. As pessoas costumam fingir que são surdas.

Para aqueles de consciência limpa, agradeço por ter lido até aqui. Para o resto:
Revejam o tratamento que vocês oferecem a Daniel.

Autismo não é piada, não é um xingamento, não é engraçado; assim como também não é um mais um tema qualquer para você explorar em suas fanfics apenas para conseguir popularidade ou ser visto como uma pessoa consciente. PARE. Você não está ajudando. Importa-se com o autismo? Então não o molde à sua maneira e pense bem antes de falar sobre.


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