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História Espero por você (percabeth) - Capítulo 22


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Capítulo 22 - Capítulo 22


O enjoo persistiu e se transformou em uma gripe nojenta e cheia de tosse que tratei obsessivamente com todos os remédios conhecidos pelo homem. No primeiro dia do semestre da primavera, ainda estava tossindo, mas me sentia bem o suficiente para ir à aula.

                Antes de descer as escadas, criei coragem e fui até o apartamento de Percy, pois tinha que agradecê-lo cara a cara, não por mensagem de texto. Com o coração palpitando como se tivesse descido e subido as escadas correndo, bati em sua porta.

                Passos fortes soaram do outro lado da porta, segundos antes de abrir, revelando Grover em toda a sua glória maltrapilha. Um sorriso sonolento surgiu em seus lábios.

                — Oi! Que bom vê-la andando por aí.

                — Obrigada. — Senti meu rosto esquentando. — Percy está por aí?

                — Espere, vou dar uma olhada. Só um segundo. — Ele deixou a porta entreaberta e desapareceu no apartamento. Alguns momentos depois (momentos que pareceram uma eternidade), voltou, um pouco menos amarrotado. — Na verdade, ele, é... já foi para a aula.

                — Ah... — Eu sorri para esconder a decepção. — Bem, eu... vejo você por aí.

                — Claro. — Grover balançou a cabeça e passou a mão pelos cabelos.

                — Annabeth, espero que esteja se sentindo melhor.

                — Estou, sim. Obrigada.

                Acenando levemente para ele, arrumei a alça da minha bolsa nova e, então, tirei as luvas, desci as escadas e fui para fora, numa manhã gelada e luminosa.

                Parei algumas vagas antes do meu carro, com o coração pulando.

                Lá estava — a caminhonete de Percy.

                Ele não tinha ido à aula. Estava no apartamento. A verdade era fria como o tempo lá fora. Grover tinha falado com ele e Percy não quisera me ver.

 

* * *

 

                Vi Percy pelo campus várias vezes nas semanas seguintes. Parecia que tínhamos uma agenda que nos colocava próximos um do outro, e, toda vez que o via, ele estava com Tyson ou, como no dia anterior, com Rachel.

                Sempre que o via com ela, tinha uma sensação esquisita no estômago. Eu não tinha direito a sentir aquilo. Sabia disso, mas não me impedia de querer partir para cima de Rachel e cortá-la em vários pedaços.

                Porém, essa não era a pior parte de encontrar com ele. Na maioria das vezes, ele me via, e, se nossos olhares se cruzassem, ele sempre desviava. Era como se não tivéssemos sido amigos por quase cinco meses ou dividido qualquer momento de intimidade. Era como se nem sequer nos conhecêssemos.

                Lembrou-me de como as coisas ficaram com meus amigos no Ensino Médio depois da festa de Halloween. Como se nosso tempo juntos tivesse sido apagado.

                Na sexta-feira, ocorreu uma pequena abertura. Percy estava sozinho, atravessando a rua principal, indo para o Knutti, com a cabeça baixa e as mãos nos bolsos do moletom.

                — Percy! — gritei o nome dele tão repentinamente que acabou causando um som patético misturado com tosse, que era resquício da minha gripe.

                Ele parou, levantando o queixo. Mechas de cabelo escuro enrolavam-se por baixo de seu boné.

                Lutei para subir o restante da ladeira, com o peito e as pernas ardendo. Sem fôlego, parei na frente dele.

                — Desculpe — disse esbaforida, respirando várias vezes. — Preciso de um segundo.

                Ele franziu as sobrancelhas.

                — Você está um caco.

                — Pois é... Parece a Peste Negra e não quer ir embora.

                Pigarreei, forçando meus olhos a se encontrarem com os dele. Por um instante, ao encarar aqueles olhos cristalinos, esqueci por que eu o havia chamado.

                Algo surgiu em seu rosto e, então, ele desviou o olhar, contraindo o músculo da mandíbula.

                — Preciso ir para a aula, então...

                Percy apressado para ir à aula? O apocalipse estava chegando. Lutei contra o ímpeto de sair andando, porque estava na cara que ele não tinha nenhum interesse naquela conversa, mas cravei os pés ali. Eu devia isso a ele.

                — Eu só queria agradecer por você ter ajudado Thalia quando eu estava doente.

                Seus lábios se contraíram conforme olhou para algo além de mim.

                — Não foi nada.

                — Foi para mim — eu disse baixinho, querendo que ele olhasse para mim. — Então, obrigada.

                Percy acenou de maneira cortês e respirou profundamente. Ele olhou para mim e depois, para longe. Seus ombros ficaram tensos.

                — De nada.

                — Bem... — Não tive forças para falar, porque tudo que me vinha à mente não deveria ser dito. Tipo, desculpe por eu ser uma filha da mãe, e queria que você não tivesse visto minha cicatriz.

                — Eu tenho que ir — ele disse finalmente, voltando-se para a entrada lateral do prédio, onde vários alunos fumavam. — Vejo você por aí.

                — Sinto muito — falei sem pensar, com o coração saltando.

                Percy se virou, com os olhos fixos em mim, e foi como se estivesse esperando por alguma coisa, mas apenas balançou a cabeça.

                — Eu também.

                Eu não o parei de novo.

                Lágrimas queimaram na minha garganta e, de alguma forma, cheguei à aula de Inglês, que era no mesmo prédio dele. Amanhã estava levemente nebulosa, e, quando encontrei com Thalia e Will no refeitório para o almoço, mal consegui acompanhar a conversa deles, simplesmente comendo meu sanduíche. Mas acho que estavam acostumados com aquele meu jeito, porque nenhum dos dois falou nada.

                Quando eu e Thalia fomos para o Whitehall para a aula de Economia, contei a ela sobre minha conversa com Percy.

                — Ele não queria nem olhar na minha cara.

                — Eu não acho que seja o caso, Annie.

                — Ah, é, sim. Ele estava com pressa para sair de perto de mim. Na verdade, ele disse que não podia se atrasar para a aula, e vamos combinar que Percy nunca liga para isso.

                Thalia puxou o gorro para cobrir as orelhas ao pararmos perto do pavilhão em frente ao prédio das Ciências Sociais.

                — Posso ser sincera com você?

                — Pode.

                Ela juntou as mãos cobertas com luvas.

                — Você sabe que eu amo você, certo? Então vou falar de uma vez. Você evitou Percy desde o Dia de Ação de Graças, e para mim, para ele e até para o menino Jesus, parecia que era isso o que você queria. Que ele se afastasse.

                Abri a boca, mas o que podia dizer? Era isso o que eu queria.

                — Então ele se afastou. Você não pode culpá-lo por isso. O cara só está correspondendo ao que você demonstrou, sabe? — Ela mordeu os lábios. — E, depois de ser ignorado por todo aquele tempo, ele não deve estar muito empolgado para falar com você.

                — Eu sei — admiti. — É que...

                — Você finalmente acordou para a vida e agora está preocupada que seja tarde demais?

                Seria isso? Eu não tinha certeza, mas esperava que não, porque, pelo menos, dormindo para a vida, era menos deprimente.

                — Dê-lhe algum tempo — disse ela, colocando um braço sobre meus ombros. — Se ele não mudar de ideia, foda-se ele.

                — Foda-se ele — repeti, mas não era o que estava sentindo.

                Thalia me apertou assim mesmo.

                — Essa é a minha garota.

 

* * *

 

                Sexta à noite, olhei para meu dever de Economia, convencida de que aquela era uma língua completamente diferente, feita para confundir as pessoas. Permanecer concentrada estava difícil demais, por diversas razões. Muitas vezes eu me pegava olhando para a televisão, sem prestar atenção no que estava passando, com a mente indo em diferentes direções, a maioria delas levando a Percy.

                Eu estava enjoada de mim mesma.

                Meu telefone de repente tocou no fundo da bolsa. Quando o encontrei, gemi ao ver o nome de quem estava ligando. Meu primo. Fiquei um tanto surpresa por ele me ligar, depois das dezenas de e-mails que eu havia ignorado.

                Mas o fato de ele estar ligando para mim deixou-me com a pulga atrás da orelha, por isso atendi.

                — Alô? — eu disse, com uma voz sem expressão.

                Houve um silêncio, e em seguida:

                — Você atendeu o telefone?

                — Por que não atenderia? — É, isso foi ridículo até para mim. — E aí, David?

                — Leu algum dos meus e-mails? — A arrogância, que era normal em seu tom de voz, estava ausente. Chocante.

                — Ah, eu li um ou dois, mas tenho estado ocupada com a faculdade e tudo mais. — Fiquei de pé e empurrei a bolsa para baixo da mesa. — E então...

                O suspiro de David foi bastante audível.

                — Você não sabe de nada? Seus pais tentaram entrar em contato com você?

                Torci o nariz.

                — É, não. Eles esqueceram meu aniversário.

                — Sinto muito — respondeu ele, e quase pude ver sua expressão comiserada.

                — Achei que eles tivessem tentado falar com você sobre o que anda acontecendo por aqui. Meio que tem a ver com você.

                Caminhando até a cozinha, franzi a testa ao pegar um refrigerante da geladeira.

                — Como é que alguma coisa daí tem a ver comigo?

                Houve uma pausa e a bomba das bombas foi jogada.

                — Tem a ver com Luke Castellan. Ele foi preso.

                A lata de refrigerante escapou dos meus dedos e caiu no chão, rolando para baixo da mesa. Fiquei ali imóvel, olhando para a geladeira.

                — O quê?

                — Ele foi preso, Annabeth. É por isso que tenho tentado falar com você. Achei... sei lá, achei que você gostaria de saber.

                Minhas pernas ficaram fracas, então me virei e me apoiei sobre o balcão com uma mão. O cômodo girou como se eu estivesse doente de novo.

                — Annabeth, você está aí?

                — Estou. — Engoli em seco. — O que houve?

                — Foi no começo do verão, mas o assunto foi mantido em sigilo até meados de agosto, quando ele foi preso. Houve uma festa e estavam lá algumas pessoas mais novas, pelo que eu soube — ele explicou, e eu fechei os olhos. — Foi uma garota que ia para a escola com você. Acho que era um ano mais nova que você: Piper Mclean.

                Lembrei-me de ter visto o nome dela em um dos e-mails, imaginando algo totalmente diferente.

                — O que... ele fez?

                David não respondeu de imediato.

                — Ele foi acusado por abuso sexual e várias outras agressões. Ele vai a julgamento em junho, mas foi liberado com fiança. Não está muito bom para o lado dele. Há muitas provas contrárias. O único motivo para eu estar sabendo disso é porque o pai dele procurou o meu para representá-lo na causa. Meu pai recusou e eu queria que você soubesse disso.

                Eu não sabia o que dizer. Obrigada por não representar o canalha? Eu não sabia mesmo o que dizer. Fiquei atônita. Sempre me perguntei se Luke teria feito o que fez comigo com outra pessoa, e se meu silêncio o teria encorajado a fazer aquilo novamente. Tive a esperança de que não — rezei para que esse não fosse o caso.

                — A garota que ele... estuprou contatou sua família.

                Eu não sabia o que me chocava mais: o fato de a garota ter contatado minha família ou que David tivesse usado a palavra “estupro”.

                — O quê? Por quê? Eu não disse nada. Eu mantive minha...

                — Eu sei, Annabeth. Eu sei que você não disse nada, mas ela frequentou a mesma escola que você. Ela ouviu boatos sobre você e Luke e, bem, ela juntou dois mais dois. Ela foi primeiro até seus pais e tenho certeza de que você já imagina como foi a coisa.

                Eu precisava me sentar antes que caísse dura no chão.

                — Quando eles se recusaram a sequer conversar com a garota, ela veio até mim. — David fez uma pausa. — Eu não contei nada a ela, Annabeth. Não cabia a mim, mas acho que ela está tentando entrar em contato com você. Não sei como ela conseguiu seus contatos.

                — Não acho que ela tenha. — Eu me joguei no sofá. Porém, deletava quase todos os e-mails que não reconhecia. — A garota? Ela está... bem? Digo, ela parecia estar bem?

                David pigarreou.

                — Sinceramente? Não.

                Esfregando minha sobrancelha, expirei longamente.

                — É claro que não. Que pergunta idiota.

                — Acho que seria uma boa você dar uma olhada no seu e-mail. Ela parecia mesmo querer falar com você, e isso foi em agosto.

                — Não posso contar nada a ela. Se eu o fizer e a coisa vier à tona, a família dele vai processar a mim e minha família na ordem de milhões. — Senti um gosto horrível na boca. — Faz parte do meu acordo de sigilo.

                — Eu sei — respondeu David. — Mas, como eu disse, achei que você gostaria de saber o que está acontecendo.

                Minha cabeça estava tão cheia que eu não conseguia pensar em nenhuma pergunta.

                — E as acusações? Você acha que são fundamentadas? Que ele vai mesmo para a cadeia?

                — Pelo que meu pai viu, as acusações são fortes. Ele vai para a prisão, Annabeth, por muitos anos, no mínimo.

                Meus olhos se abriram. Senti um alívio imenso, como se uma tonelada de tijolos tivesse sido tirada de cima do meu peito. Jamais imaginei que algo assim pudesse acontecer. Luke não ia para a cadeia pelo que fizera comigo, mas a justiça estava sendo feita. Finalmente. Só não gostava do fato de que aquilo tivera que acontecer com outra garota — uma garota que, provavelmente, enfrentaramuita censura para revelar seu segredo, mas se mantivera firme no propósito.

                Um pouco do alívio se transformou em culpa e vergonha. E se eu tivesse dito não aos meus pais? E se eu tivesse batido o pé? Isso não teria acontecido com Piper. E só Deus sabia quantas outras garotas teriam sofrido o mesmo, e sobre as quais nunca teríamos notícia. Meu estômago roncou só de pensar nisso.

                — De qualquer forma — David voltou a falar —, eu só queria que você soubesse.

                — Obrigada — respondi, de coração. — Sinto muito por não ter respondido. Achei... bem, não importa o que eu achei.

                — Eu sei o que você achou. Eu nunca lhe dei motivo para pensar nada diferente disso. — Ele fez uma pausa e meus olhos se arregalaram. — Olha, eu queria dizer que sinto muito.

                — O quê?

                — Todos esses anos, bem, eu nunca soube o que realmente tinha acontecido, mas deveria ter feito alguma coisa — ele disse. — Sinto muito. Sinto muito pelo que você teve que suportar.

                A emoção subiu à garganta. Algo incrível tinha acontecido. Não só David havia sido removido da minha “lista negra” imaginária, aquelas duas palavras, duas simples palavras, representaram uma luz no meio da escuridão. Meus dedos tremeram em volta do telefone. 

                Fechei os olhos com força, mas uma lágrima escapou.

                — Obrigada — sussurrei com a voz rouca. — Obrigada.



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