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História Espíritos da Magia - Capítulo 3


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Capítulo 3 - Capítulo Dois


Fanfic / Fanfiction Espíritos da Magia - Capítulo 3 - Capítulo Dois

Lembre-se.

-O que acha desse? – A voz suave da princesa Helena a despertou de seu devaneio, seu coração batia forte no peito, havia se perdido em pensamentos novamente, era um costume que lady Agnes, sua antiga tutora, odiava nela, mas era simplesmente algo que não conseguia evitar.

Olhou para o espelho, a princesa estava magnifica, com um vestido salmão que evidenciava sua bela cor de ébano. Os cabelos estavam presos em um coque trançado e sustentava no colo dos seios um colar de pequenas esmeraldas. Ela sorria, ansiosa pela resposta.

Karleen, a dama de companhia da princesa, sorriu e fez um sinal de aprovação. A princesa de Deheoul bateu palmas.

Helena continuou a tagarelar, Karleen a observava em silêncio, um de seus livros deitado sobre seu colo, notando os movimentos fluidos da princesa enquanto a ajudavam a colocar um vestido não menos exuberante.

-Estou ansiosa – comentou finalmente, sentando-se ao lado de Karleen no grande sofá do quarto de vestir da princesa. – Para o baile de minha mãe, você não?

A princesa voltou os olhos cor de âmbar para ela, era uma beldade de expressões fortes, princesa de um reino duro, mas que nunca fora tocada pela sua dureza. Vivia cercada de bajuladores, bailes e risadas. O sorriso de Helena era uma provocação, Karleen detestava bailes.

Mesmo assim, Karleen sorriu.

-Com certeza servirá para eu me entupir de chocolate.

Helena soltou uma risadinha sonora e encostou nos ombros de Karleen, empurrando-a levemente.

-Você é péssima, Karleen. Como só pode pensar nisso? Como posso ter você como minha preferida se não gosta de nada nessa corte?

Karleen deu de ombros.

-Sabe que sou mais inteligente e sincera que as pombinhas que te seguem por ai.

-Elas são boas garotas, tente ser menos presunçosa – respondeu a princesa e se levantou, caminhando até uma das cadeiras e vestindo sua capa de peles pesada.

Karleen acompanhou seus movimentos, pronta para atender suas necessidades, havia sido treinada para conhecer a princesa, era a única das damas que não vinha de uma linhagem nobre, havia conquistado o coração e a bondade da princesa desde que eram crianças o que lhe valeu um lugar de prestigio ao lado dela, mas isso só a afastava de todas aquelas que competiam a atenção de Helena e a fazia ter que se esforçar ainda mais para provar seu valor.

-Tenho que ir para o jardim, café da tarde com as pombinhas – contou Helena e lançou um olhar travesso para sua dama de companhia.

Karleen soltou um leve suspiro e levantou, deixando o livro sobre o aparador.

-Lá vamos nós.

A princesa gargalhou e se aproximou de Karleen, tocando de leve seu ombro.

As duas se distinguiam tanto em questão de modos quanto porte físico. Helena era frágil e bela, com seus lábios sensuais e carnudos, o tom escuro da pele, os belos olhos exóticos. Enquanto Karleen era mais robusta, sua forma mais esguia. Tinha longos cabelos pretos, a tez era dourada, como se tomasse muito sol, e os olhos grandes eram verdes como as esmeraldas da rainha.

-Não seria uma nobre cheia de virtudes se infligisse esse tipo de tortura na minha amiga mais fiel. – Helena lançou uma piscadela e pegou o livro, lançando o olhar sobre a capa e enrugando a testa, mas não comentou nada – Tome, entretenha- se. – devolveu o livro a Karleen e caminhou até a porta, o tecido bufante de seu vestido a seguindo.

Karleen olhou para a capa do livro e passou o dedo pelo título. Era sobre as famílias de Deheoul, todas as suas descendências, mesmo não sabendo seu sobrenome esperava encontrar alguma informação, talvez uma família com olhos verdes como os seus, tão incomuns naquele reino.

Até mesmo a princesa sabia o quanto frustrava Karleen não saber quem eram seus pais. Ela sempre teria Yvette, que a criara e tratava como filha e se dava a liberdade de considerar Helena como sua irmã de coração, mas isso nunca havia preenchido o vazio de ter sido deixada na cozinha do castelo, abandonada e sozinha, quando ainda tinha três anos.

Lembre-se.

Ela apertou o livro com força e fechou os olhos.

Estou tentando.

Mas não sabia o que havia para lembrar.

 

Karleen saiu do quarto e caminhou pelos corredores do castelo. Deheoul era um reino frio, e a capital, For Grass era conhecida pelos seus ventos que pareciam uivar, por isso as janelas eram altas e protegidas por cortinas de tecidos pesados, as paredes eram de tijolos de barro, que evitavam a passagem do frio, revestidas com cimento batido e grosso, mas mesmo assim todos sempre se vestiam com muitas camadas de roupa. Há muito tempo ouvira que Deheoul era frio pois havia caçado aqueles que adoravam os antigos deuses e esses deuses haviam amaldiçoado os humanos, com frio congelante e terras escassas, restando somente a pesca como forma de sobrevivência, mas Karleen não podia nem pensar naquelas lendas, aqueles que cultuavam os deuses pagãos haviam sido a muito extintos pelos antepassados de Helena.

A lenda pelo menos estava certa sobre o calor, pelo que parecia.

Empurrou os pensamentos para o mais profundo buraco, eles contrariavam tudo no que Karleen fora ensinada a acreditar.

Mas a verdade, com lendas ou não, era que o povo de Deheoul passava por dificuldades por conta do tempo e da terra árida que se estendiam pelas três províncias e na capital. Mesmo assim o rei gostava de exibir sua riqueza, conquistada sobre os caros impostos e tributos cobrados e era por isso que ela detestava os bailes.

Se perguntou como o povo ainda não havia se levantado para reclamar dos impostos, mas imaginou que os muitos guardas que o rei mantinha deviam assusta-los o suficiente para mantê-los calados. Por enquanto.

Era por isso que preferia ficar nas cozinhas, lugar para o qual agora caminhava, com o livro ainda seguro em suas mãos. Além de ser o melhor lugar que podia encontrar para ficar, o lugar ao qual achava que pertencia, a cozinha de Yvette era o lugar mais quente do castelo.

Era um cômodo largo aquecido pelos muitos fogões e fornos que nunca ficavam apagados. Tinha cheiro de temperos e farinha, som de passos e gritos de ordem de sua mãe de criação, a cozinheira chefe da corte.

Tinha cheiro de lar.

Karleen desceu as escadas que vinham do grande salão, passou pela entrada da cozinha e logo notou o borrão que era Yvette correndo de um lado para o outro, checando cada preparação que as moças que a ajudavam faziam. Nada passava despercebido e nenhuma refeição saia da cozinha sem que passasse por essa inspeção.

Assim que entrou Yvette levantou o olhar para Karleen, de alguma forma a cozinheira sempre sabia que a menina estava perto.

-Sua Alteza deseja cinquenta folhados para o chá. – resmungou a cozinheira com a cara fechada – Sabe que horas começa esse chá? Daqui quinze minutos. Quinze minutos!

-Quer ajuda? – perguntou a garota, mesmo sabendo que resposta a mulher iria dar.

A cozinheira chefe do castelo a dispensou com a mão, era alta, com os cabelos curtos e castanhos sempre presos num coque minúsculo, as mãos eram extremamente talentosas, com dedos finos e ágeis, mas o que sempre impressionara Karleen eram os olhos dela, brilhantes e de um castanho claro que continham um tipo de sabedoria que as vezes assustava a jovem.

-Sente-se ai e pegue um desses bolinhos. Você está muito magra, precisa se alimentar.

Karleen fez o que a mulher mais velha mandou. Escolheu a cadeira de sempre, não muito longe dos fogões, mas não tão perto para atrapalhar, com um dos deliciosos bolinhos na mão e abriu o livro. Sorriu para as moças que ajudavam a cozinheira e elas sorriram de volta. Era conhecida por toda a equipe do castelo, por ser uma dama sem títulos e por ser protegida de Yvette. Não sabia qual das noções de reconhecimento detestava mais.

Depois de algum tempo sentiu o olhar de Yvette sobre ela, fechou o livro envergonhada. Ela estava com as mãos na cintura, o avental sujo de farinha, mas os cabelos se mantinham firmes e presos, nenhuma ponta solta.

A cozinheira estudava a jovem com interesse.

-Eu sinto muito – começou Karleen, mas Yvette negou levemente, lançando um olhar triste para a moça. Yvette sabia que ela queria descobrir quem eram seus pais, mesmo com sua eterna gratidão e carinho pela cozinheira, sabia que algo incomodava o fundo da alma da menina.

Karleen segurou uma vontade avassaladora de chorar e sentiu a aproximação e o toque de Yvette em seu rosto. Era quente como as fornalhas e cheirava a todos os aromas que Karleen amava.

-Não tem problemas em sentir que deve buscar por respostas. – começou a mulher, olhando fundo nos olhos de Karleen com aquela sabedoria que pareciam queimar. – mas talvez as esteja procurando nos lugares errados.

Antes que pudesse perguntar do que Yvette estava falando, a cozinheira girou nos calcanhares, gritando ordens e gesticulando, deixando a dama de companhia sozinha.

Que tipo de lugar ou resposta deveria encontrar. Já havia visitado a biblioteca do castelo milhares de vezes e também orado ao Um Deus para que algum dia alguém viesse busca-la, lhe contasse seu passado. Era assombrada por sonhos, sonhos que pediam para que ela se lembrasse e também perturbada por aquela sensação de não pertencer a nenhum lugar.

Queria perguntar por que a cozinheira havia lhe dito aquelas palavras, mas uma sensação de medo tomou sua garganta. A verdade era que talvez não soubesse o que fazer com a resposta.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



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