História A Estátua de Anúbis - Capítulo 1


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Categorias Histórias Originais
Tags Horror, Sobrenatural, Terror
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Palavras 1.518
Terminada Sim
LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Sobrenatural, Terror e Horror

Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Boa leitura!

Capítulo 1 - Capítulo Único


Era uma criança na época. Por volta dos meus quatro ou cinco anos. Estava na festa de fim de ano da creche. A transição para a, enfim, vida escolar. Pipoca. Cachorro quente. Refrigerante. Muito refrigerante(crianças gostam afinal). Doces. Salgados. Coisinhas simples para uma comemoração simples. Mas significativa. Era a despedida. Muitos ali eu não veria outra vez. E não vi. Nem faço questão de ver. Já não fazia muita questão na época, é o que eu demonstrava. O que se passava na cabeça de uma criança isolada, naquele tempo? Não lembro. Mas não era psicologicamente saudável. Não mesmo.Decidi me levantar e caminhar um pouco. Ficar ali não ia adiantar de nada. Não vieram falar comigo até aquele momento, por que o fariam depois?

Fui me afastando da área onde estava tendo a festa. Os corredores e salas, pintados com cores vivas. As salinhas de recreação com cores fortes. Os quartinhos para as horas de dormir com cores frias, por motivos óbvios. Tudo muito vazio. Só eu e meus supérfluos pensamentos infantis vagueavamos pelos corredores. Talvez pela estatura e idade, mas as paredes me pareciam grandes muralhas, enquanto o teto, um céu tão distante e inalcançável quanto o paraíso para um vadio mundano qualquer.
     Conforme ia mais e mais adentro na creche, cada vez mais distante da festa, tanto que a música e a gritaria mal eram audíveis, ia ficando escuro. As cores vivas já não tão vivas. As portas das salinha, bem abertas, agora trancadas. A madeira gasta acumulava mofo na base e próximo às dobradiças. A umidade do ar ia se tornando perceptível, quase palpável. O cheiro de poeira e mofo foi ficando mais forte.
     Quando virei a direita, vi o mundo ficando mais escuro, a falta de iluminação deixou o breu tomar conta aos poucos, ao longo do corredor. As cores se tornaram cinzentas e negras. A atmosfera densa e pesada, o mofo nas paredes camadas mais grossas. Uma brisa forte e gélida me abraçou, os pelinhos se erguendo na minha nuca. O sopro macabro pareceu vir de algo à frente, algo que vi desde que virei a direita lá atrás: uma porta. Era tão escuro lá dentro que parecia mais um buraco retangular na parede do que uma porta. Uma escuridão tão densa que parecia material. Os pelos da nuca não desciam. E a brisa não havia soprado outra vez. 
     Há quem diga que a curiosidade matou o gato. Bom, não sou um gato. Provavelmente foi o que passou pela minha cabeça naquele momento, porque eu segui em frente. Conforme prosseguia, a porta parecia cada vez mais alta, maior do que aquelas muralhas à minha volta. Maior do que qualquer outra coisa ao redor. Tive a sensação de que aquilo estava, de alguma forma, vivo. Aquele buraco retangular imenso na parede. Olhando de tão perto, já não parecia mais uma porta(não que já parecesse olhando de longe), algo no meu íntimo associou aquilo à bocarra de alguma coisa inominável, apenas esperando que eu entrasse para se fechar. E nunca mais abrir. Mas eu não parei. Segui em frente. A mesma sensação que me perturbava era a que me puxava.

Parei a centímetros da porta. Encarei o interior daquele abismo vertical à minha frente por alguns segundos. Mas juro por tudo que me é sagrado, eu sei que foram segundos, meu corpo ficou ali, estagnado, por um tempo insignificante de curto, mas eu juro, para minha mente, pareceram longos minutos. Começou a chover. Não tem como chover de repente de um segundo pro outro. Nuvens precisam se formar e a água cai aos poucos antes de se tornar o caos que se tornou aquela tempestade lá fora. Mas não. Segundos.
Dei passos lentos e hesitantes adiante. Cheguei a sentir o que pareceu ser o escuro acariciar minha pele, como quem vê e toca algo sagrado pela ponta dos dedos, com medo de que se quebre ou acabe profanando o que há de divino naquilo.
     O clarão do relâmpago, seguido de um trovão distante, revelou as janelas daquela sala, antes impossíveis de serem vistas. Sabendo melhor em que parte da sala eu estava, segui em frente. A escuridão me cegava, senti que caminhava num vazio infinito. Cheguei a olhar para trás, confirmando que não havia caminhado mais do que alguns metros adentro. Busquei com as mãos algo que pudesse ser tocado, uma mesinha, uma estante, lápis, qualquer coisa. Mas o lugar parecia realmente oco e sem fim.
     Um raio caiu ali por perto, o trovão foi estridente e imediato, cheguei a tapar as orelhas. Senti as vibrações viajarem pela sala inteira, tão forte foi o som. E assim como ele, ligeiro foi o relâmpago, que iluminou a sala inteira por alguns segundos, tempo suficiente para eu ver que já estava na outra extremidade da sala, diante da enorme estátua de um homem com cabeça de chacal. Era tão alto quanto a porta, esculpido num mineral negro e liso como mármore. As orelhas da cabeça eram longas, assim como o focinho. Os olhos bem abertos e atentos, encarando o nada, fizeram algo frio deslizar pela minha nuca. Ao ressoar de um novo trovão, precedido por outro relâmpago, consegui contemplar novamente aquela obra tão sombria e bela ao mesmo tempo. Uma beleza que evocava admiração e temor ao meu cerne. Ela emanava uma atmosfera de conflito entre o que nela havia de divino e de diabólico.
     Fui com a mão de encontro à estátua, para sentir suas poucas imperfeições em pequenas rachaduras, os relevos naturais e inevitáveis da rocha em que fora esculpida. Mas acima de tudo, algo em mim queria toca-la para sentir. O quê? Não sabia e não sei ao certo até hoje. Assim como a enferma que se permitiu ser pisoteada apenas para ser capaz de tocar as vestes de Cristo, porque sabia que apenas esse singelo ato lhe curaria, eu creio que queria tocar a estátua apenas para ter contato com o que havia de divino ali.
     Minha mão estava perto. Eu senti que estava, posso afirmar que a ponta dos dedos a tocaram. Contudo, assim que um novo raio fez o relâmpago iluminar a sala mais uma vez, a estátua havia sumido. Onde estava!? Mesmo quando o breu voltou, tal qual uma barata tonta, eu olhei ao meu redor, buscando em vão pela estátua.
     O barulho da chuva foi ficando distante até cessar por completo. O silêncio absoluto perdurou, mas buscava pela estátua tão fervorosamente que mal notei. Apenas o som da minha respiração se fez presente. Estava mais pesada que o normal. Cheguava a bufar.
Chegava a bufar.
Chegava a... bufar...? Foi quando estranhei e me dei conta: não era a minha respiração. Ela vinha de um canto distante da sala. Me afastei devagar. O coração batia rápido e forte, o sentia na minha garganta. Agora, sim, ouvia minha respiração.
     Ouvi um baque surdo e algo se arrastando. Outro baque e novamente o arrastar. E mais outro. E outro. Outro. Outro, outro outrooutrooutrooutrooutro...! Um raio, de repente, clareou a sala e me permitiu ver aquela coisa se arrastando muito rápido até mim. Corri! Berrei. Saí da sala e ainda ouvia aquela monstruosidade se arrastando, cada vez mais perto. O estalo de seus dentes se abrindo e fechando, buscando a minha carne bem à sua frente, o chicotear da sua língua serpenteando no ar, fizeram meus olhos se encherem de lágrimas. Eu gritei mais alto. Minha garganta começara a doer.  O choro já não me permitia enxergar o caminho, apenas corria. O Diabo estava logo atrás de mim. Me perseguia. E estava com fome.
     Senti algo me envolvendo. Debati em desespero, aquela coisa me pegou, ia me devorar! Destroçar meus ossos e rasgar minha carne numa abocanhada, me sacudir com violência e espalhar minhas vísceras! Não tive coragem de abrir os olhos, mas o fiz quando percebi que uma voz familiar me chamava. Era uma das moças que cuidavam de nós, das crianças. E elas estavam ali também, todos encharcados pela chuva que caia. Estávamos no pátio. Aparentemente eu passei por eles durante minha fuga e eles foram atrás de mim, até ali. Vasculhei o lugar com os olhos, com pressa, procurando pela coisa que me seguia, porém, não vi nada. Segundos depois, um raio caiu na área da festa e fez o teto ali desabar. Por sorte, havia ninguém lá. Estavam todos ali no pátio, na chuva, comigo.

Ontem eu me lembrei dessa história e voltei à creche para verificar se a estátua ainda estava na sala onde a encontrei naquele maldito dia. Bom, na verdade, o corredor nem mesmo continuava pra direita. Ele terminava ali mesmo, numa parede sem porta, apenas com uma janela inox e uns bonequinhos de papelão da Turma da Mônica de enfeite.
     Esse episódio me fez pensar: há demônios que tomam a forma de coisas boas e belas para causar o mal, nos tentar e atormentar. Mas, será que os anjos são capazes de se manifestar como coisas más ou feias, assustadoras, para fazer o bem, auxiliar e salvar?
Não sei, mas uma coisa é certa: aquela coisa, anjo ou demônio, nos salvou daquele raio.


Notas Finais


Obrigado por ter lido!


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