História Estava Perdido - Capítulo 3


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LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Famí­lia

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Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 3 - Cap Um


Fanfic / Fanfiction Estava Perdido - Capítulo 3 - Cap Um

Sabe aquele barulho estranhamente alto que você ouve quando acorda após quase morrer?

Não, não o barulho de batidas de coração. Esse é típico e imprevisível demais.

Estou falando de outro tipo de barulho. Um que se parece como um apito, agudo e alto, que vai do nível do chão até o céu afim de te deixar completamente surdo.

Eu já ouvi esse som estridente, cortante e desesperador. Mas, só em filmes. Embora imaginasse que fosse ele quem desse as boas-vindas á vida, percebi automaticamente que estava errado.

Porque o único barulho estranho que ouvi quando retomei meus próprios controles corporais e senti o ar trabalhar em meus pulmões, foi a música de um piano. 

Calma, mas alta. Sonora, embora sem um ritmo certo. Eram badaladas, depois acordes. Então tornava-se apenas algo fixo, para, somente assim, vir criando tons novos em ondas suaves.

Quando meus olhos enxergaram a lampada vacilante que pendia no teto descascado e baixo, eu soube que estava com dor de cabeça. Não só pela música que mergulhava meus ouvidos e os afogava sem a menor dó. Mas também porque minha última e vaga lembrança foi, dessa mesma cabeça dura e irresponsável, ter batido no chão antes de tudo ficar escuro. 

Mas ali estava ela. Mesmo depois de ter voltado comigo, fazia questão de dar em um embrulho de presente as consequências das minhas estúpidas ações. Com, imagino eu, um olhar culposo e satisfeito que dizia apenas aceite docinho, não há como se defender disso. 

Minhas costas estalaram quando eu me arrastei pela cama para sentar. Não foi apenas um estalo, pareceram vinte estalos. Como se meus ossos reclamassem do quanto esperavam por aquilo, embora estivessem sem esperanças. 

O travesseiro era irritantemente baixo, senti a raiva aumentar quanto notei a falta de uma cabeceira na cama. 

E mais raiva ainda quando deixei o travesseiro cair no chão.

— Argh, seu idiota — Murmurei para mim mesmo.

Então ouvi passos apressados pararem no batente da porta branca de madeira enquanto eu estava dobrado em mim mesmo tentando encontrar o tecido fino com os meus dedos. Levantei um pouco os olhos, mas a voz chegou antes de mim:

— Oh meu Deus, você acordou — Gritou ela, seja lá quem era ela — Sra.Donnan, o Isra acordou!

Olhei para o rosto delicado, pálido e assustadoramente sorridente da garota em pé, me surpreendendo com o jeito que, de repente, ela começou a correr até mim.

E, me surpreendi duas vezes mais quando começou a me agarrar.

— Eu sabia que você ia voltar para mim — Disse ela, não ligando para a minha provável expressão confusa e idiota.    

A garota colou o corpo ao meu e, junto a ele, colou também seus lábios nos meus. Apertando-os com os seus com uma vontade duvidosa e um prazer de dar medo.

Quem é essa lunática? Eu me perguntei naquele momento. Mas imaginei que, pela visível intimidade comigo, deveria ser minha namorada. 

Eu não conseguia me lembrar de nada. 

Ela moveu os lábios com os meus em ondas lentas e tensas. Não fazia ideia do que fazer, eu tinha acabado de acordar e não sentia nem mesmo os meus pés. Resolvi devolver o beijo, mesmo que em uma intensidade menor que aquela. 

Quando ela afastou a boca faminta de mim, disse:

— Agora nós podemos nos casar.

Oh, céus.

Senti um botão de alerta sendo acionado em alguma parte do meu cérebro. Como se aquele fosse um assunto que gerasse mais discussões que acordos. Meus nervos me enviavam mensagens, como alerta perigo área proibida. 

Passei a língua nos lábios, frustrado com a expressão animada que aquela garota me olhava.

— Eu preciso descansar — Eu disse, como se fosse o suficiente para ela me deixar em paz.

Mas, pelo o visto, a única mudança que lhe ocorreu foi no olhar. Que passou de vou te engolir para ora, deixe de ser modesto. 

— Bobinho, é óbvio que você vai descansar — Disse ela, me cutucando no braço — Não quero que o meu noivo não aguente fica em pé no altar.

Noivo, altar. 

Tive arrepios. 

— Isra? — Disse uma senhora entrando no quarto, reconheci seu rosto materno e insubstituível logo de cara — Ainda bem.    

Ainda bem você, eu quis dizer. Essa maluca aqui nem esperou eu acordar direito e já esta falando de casamento. 

— Obrigada por me avisar, Alissa — Disse ela á garota que eu agora sabia o nome — Pode me deixar um pouco a sós com ele? 

Ela assentiu com um sorriso largo e fechado, como se tivesse salvado a pátria e aquele reconhecimento lhe fosse de extremo agrado. Então se levantou, deu um beijo teatral e longo na minha testa e, antes de sair, sussurrou algo para minha mãe.

— Cuide bem do meu noivo, sogrinha — Ouvi, mesmo não querendo.

Minha mãe assentiu e me lançou um olhar surpreso e debochado.

— Eu sei, também tenho medo dela — Respondi quando Alissa saiu.

Ela riu baixo, como era de seu costume e de sua postura educada e bem controlada. Arrumou a saia longa e marrom e se sentou na poltrona ao lado da cama, me observando com uma análise rápida e completa.

— Que bom que você está aqui — Eu disse, sentindo mais do que alivio — Eu tenho muitas perguntas.

Ela fechou os olhos e sorriu.

— Eu sei que tem — Respondeu apenas — Vou deixar que as faça.

Senti um deja-vu intenso bater dentro de mim. Como se aquela atitude tivesse ocorrido a minha vida toda.      

— Primeiro, porque eu não consigo me lembrar de nada?

Ela passou a mão pela saia, alisou-a com cuidado e precisão. Respondeu sem me olhar:

— É o efeito dos analgésicos e da cirurgia. Disseram que fariam tudo o que estivesse ao alcance deles, mas, infelizmente, não podia evitar as consequencias. Afinal, é o mínimo que se espera de quem bateu a cabeça no chão.

Consequências, eu entendia bem dessa palavra.

— Certo... — Eu disse, tentando organizar as perguntas mais importantes para faze-las primeiro — Como eu... Fui ficar com... A Alissa? 

Outro sorriso. Minha mãe parecia sábia demais quando os lançava para mim. Era como se tivesse avisado tudo aquilo, antes de eu fazer o que não devia.

— Zoológico— Ela respondeu— Te levei quando tinha oito anos. Ela era a filha do dono, vocês começaram a brincar juntos e aos 12 ela te pediu em namoro.

Olhei para o rosto dela, confuso.

 — Ela me pediu em namoro? 

Ela assentiu.

— Alissa não gostava que os outros tomassem atitudes por ela. Como você sempre foi... Obediente, ela tomou isso para si e veio me pedir sua mão.

Sinistro, eu pensei.

Alissa era mais sinistra do que eu imaginava. 

Refleti brevemente sobre as palavras que estavam na minha boca, ainda me decidindo se iria soltá-las. 

— E eu... Eu gosto dela?

Minha mãe levantou as sobrancelhas com o sorriso fechado. Eu sabia a resposta, embora preferisse que ela mesma me contasse. 

— Você gostava, aos 13 — Respondeu finalmente— Mas aos 16 decidiu que queria conhecer outras garotas e terminou com Alissa. Ela ficou uma fera, claro. Mas era persuasiva quando queria. Aos 18 vocês estavam juntos novamente, embora você nunca mais tenha gostado dela do mesmo jeito.

Então eu estava com ela por... Pena? Ou eu tinha medo? Ela me dava medo.

Na verdade, me dava calafrios. 

— Quando vou começar a me lembrar das coisas de novo? — Eu perguntei, mesmo que aquilo não fosse tão importante no momento.

— Logo, querido — Respondeu mamãe, mudando sua postura á vontade para uma reta e alarmada — Mas, antes que isso aconteça, eu preciso te dizer uma coisa. 

Aquele tom de voz me pegou de surpresa. Senti a necessidade de chegar mais perto dela para ouvir. Foi automático, natural. Imaginei que fizesse isso sempre que ela tinha algo importante para me contar.

— Você não pode mais ficar aqui, em GrandVille — Disse ela, encarando meus olhos como se estivesse me repreendendo — Sei que quer saber tudo o que ocorreu aqui e, felizmente, há pessoas que te esperam sair recuperado, gente que se importa com você. Mas há uma coisa que eu temo, mesmo que tudo isso tenha ocorrido e mudado alguns fins e começos.

— O que? — Questionei curioso — O que pode acontecer? 

Ela limpou os lábios rosados de batom e chegou perto o suficiente para que sua mão chegasse ao meu braço.

— Temo que as pessoas que queriam te machucar não tenham desistido. E são elas, meu filho, que vão querer, de todo o jeito, que você se torne aquilo que foi há dois meses atrás. Elas querem não só te deixar paranoico e depressivo, querem deixá-lo em um coma sem milagre. 

Senti minha costa inteira se arrepiar.

— A vida que você construiu antes de chegar aqui estava errada. Você começou errado e desistiu de voltar e tentar de novo. Mas agora você tem uma nova chance. Você pode sair e fazer coisas novas, aprender coisas novas. Você aprende rápido e absorve sempre o conhecimento necessário para agir. Sei que o que falo pode parecer pesado demais para que sua mente aguente, mas se for o certo para faze-lo sair daqui, eu o direi quantas vezes puder.

Parei. Pensando sobre aquilo.

Recolhi e anotei poucas das informações que me chamaram mais atenção. 

Mesmo que eu não me lembrasse, eu sabia que havia vivido uma vida ruim e doentia. Mas não sentia peso algum na consciência, nem no coração.

E se havia gente má, que queria o meu mal, eu tinha certeza de que não era ninguém simples e comum. 

Minha cabeça estava uma bagunça.

— Eu esperei 23 anos, Israel — Continuou ela, com a voz calma — Você decidir um rumo. Eu estava pronta para o que você fosse propor. Mesmo que fosse algo grande. Uma mãe faz o impossível pelos seus filhos, mas eu estava pronta para fazer mais do que isso. E ainda estou. Se me der, uma só palavra positiva, eu preparo tudo o que precisar.    

Olhei os olhos azuis, quase transparentes, do rosto dela. 

Eram olhos fortes, maduros. Olhos de quem enfrentou coisas inimagináveis e ainda estava ali, de pé. 

— A senhora vai comigo, se eu aceitar? 

Ela sorriu, passou a mão nos meus cabelos e deu um suspiro calmo de dar desespero.

— A salvação é individual, meu bem — Senti a dor escondida nas palavras — Eu posso ajudar, mas não posso participar.

Uma onda de abandono e solidão me preencheu.      

— Eu estou salva desde o dia que você nasceu — Continuou, ainda passando os dedos gentis em meu cabelo — A partir dai, minha única missão era te ajudar a se encontrar.    

Sim, eu precisava me encontrar.

Eu precisava urgentemente me encontrar.

Ela se levantou e limpou o rosto limpo, como se tivesse chorado muito. Apertou a manta pequena sob os ombros me encarou.

— Você tem muito o que pensar agora — Sua expressão de liderança era incrivelmente impressionante — Sei que ainda tem muitas perguntas, mas não vou responde-las até que tenha se decidido. Manterei Alissa ocupada enquanto preparo seu café da manhã. Quando se decidir, é só me chamar.

Assenti.

Meus olhos procuravam refugio e respostas. 

Eu estava perdido, em todos os sentidos.

Olhei a saia de minha mãe se arrastar pelo chão e me senti apavorado quando ela deu as costas para mim. 

— Mãe — Chamei. Embora tenha saído baixo, dentro de mim foi como um grito.

Ela me encarou.

— Isra? — Respondeu, me incentivando a continuar.

Levantei os olhos para os seus, sabendo que, enquanto tivesse eles, nada temeria. 

Ela aguardou, como se o mundo tivesse congelado.

Suspirei, relaxei e então soltei:

— Eu quero. Eu quero sair daqui. 

E minha resposta foi, embora apressada, lenta e difícil de se digerir.     

— Eu sabia disso antes de você, querido — Disse ela, tirando passagens e documentos do bolso da saia — Mães estão sempre um passo á frente.

E ela estava. 

Ela realmente estava.

 



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