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História Estocolmo blues - Capítulo 3


Escrita por: MADEISE

Notas do Autor


Pessoal, mil desculpas pela demora de quase um ano. Não sei nem o que dizer. Espero que vocês ainda estejam por aqui.

Capítulo 3 - Máscaras de oxigênio


 

Ele deveria ter negado, poderia e queria negar. Mas não fez. Quiçá fosse a curiosidade de conhecer sua futura vítima, ou simplesmente o fato de estar ali e não querer voltar para a pensão fedida onde passaria o resto da noite. Obito a olhou de cima a baixo, demorando-se dentro dos olhos verdes da mulher que segurava a porta, sorrindo gentilmente para ele. Seu rosto parecia não assustá-la. Pelo contrário, ela não se importava com sua aparência, continuava a sorrir contrariando a experiência que teve no aeroporto mais cedo. 

— Vamos lá, entre — Insistiu, abrindo passagem para o interior da loja. 

Mais uma vez, Obito quis negar. Ele deveria negar. Quem era a garota? Sakura? Não parecia inteligente ter contato com a mesma antes do sequestro. Mas por alguma razão que não soube explicar, ele aceitou conhecer a pequena loja de discos, que apesar de localizada em um bairro pobre de Tóquio, era um estabelecimento moderno e decorado com muito bom gosto. Obito passou pela garota de cabelos exóticos, sentindo o aroma doce de lavanda incendiar o ambiente repleto de artefatos referentes a instrumentos musicais. A música vinda da vitrola era ainda mais audível do interior da loja, soando uma canção agradável aos tímpanos acostumados ao tilintar das cápsulas de balas caindo no chão. De costas para a garota, Obito vagou pelo local, reparando nos discos pendurados na parede, fotos de artistas em posters colados em murais e as luminárias temáticas numa língua estrangeira. Algo minimalista e ao mesmo tempo repleto de cores. Em silêncio, seus olhos deslizavam através das prateleiras de gêneros musicais, esquecendo por um segundo os olhos faiscantes que o mirava. Os discos estavam separados por álbuns diversos. Quando jovem, uma vez, Rin o fez entrar numa dessas lojas à procura do seu disco preferido. Ela era irrefutavelmente curiosa em torno da cultura americana, adorava blues, amava Jenis Joplin e Etta James. 

— Está à procura de algo específico? Temos variedades em produtos vintage, vitrolas, discos de vinil raros, trompetes da década de setenta. Digamos que a nossa loja é completa em tudo que se diz ultrapassado — A mulher sorrir, mostrando a fileira de dentes brancos.

Obito circundou seus olhos pelas paredes decoradas de discos de vinil. Um álbum o chamou atenção, Stickin’ to my Guns

— Oh, você gosta de blues?  — Notando o interesse de Obito pelo disco, a garota o pegou da prateleira recém-polida — Este não está à venda, mas podemos ouvi-lo se quiser — Havia um certo entusiasmo em seus olhos que o Uchiha reconheceu dos seus dias de solteiro nas boates sujas de Tokyo. Um interruptor se acende em sua cabeça e ele teria que recuar. Perigoso demais.

— Estava apenas de passagem. Preciso ir agora — Dando as costas para a loja e a garota, Obito empurrou a porta que fez um barulho de campainha estridente. 

— Ei, espere. Eu sei que parece estranho, mas eu não ligo para quem você seja… Eu realmente não me importo co-

Obito se virou para a garota e encarou seus olhos verdes floresta. Ela parecia jovem, mas não imatura a ponto de não ver jornais, programas de televisão e as notícias na internet. Ela era como muitas outras antes de Rin, tantas que perdeu a conta, apenas mais um buraco quente em busca de um pouco de emoção nos braços de um homem como ele, alguém capaz de acabar com a vida da própria com um só movimento de braço, então bum, ela seria outra vitima de assassinato nos becos de uma viela ao lado da pequena loja de discos de vinil. 

— Você sabe que tipo de homem eu sou, certo? — sua voz ríspida, fez com que ela segurasse firme o álbum contra os seios.

— Eu só que-

— Tome cuidado com quem flerta durante a noite, mulher.

A mulher assentiu lentamente como se temesse fazer qualquer movimento errado. Ele acalmou suas expressões ásperas, vendo-a soltar o ar pela boca. O movimento do seu peito dá a ele um flash do crachá escondido em seu decote de visão ampla.

“ Yuna” 

Não era ela, ele pensou. Não era Haruno Sakura.

Obito fechou a porta atrás de si em um clique suave, deixando para trás a mulher que nada lhe devia. A caminho da pensão, o Uchiha avistou uma loja de construção, e não perdeu tempo em adentrá-la. Lá dentro, ele encontrou quase tudo que precisava para o início do seu plano: Cordas grossas, material de isolação acústica, alicates… a única coisa que o faltava era fazer uma visita ao cativeiro. A casa onde viveu com Rin. 

...

O bar estava especialmente quente naquela noite, ela podia sentir o odor de cigarro que tanto detestava do beco sujo proveniente da negligência do lado de Tokyo que apenas coexistiam e não eram vistas pelas autoridades. A música alta e pessoas de todos os gêneros, corpos e etnias, entravam e saiam da pequena taverna conhecida por seus jogos de azar bancados por membros de facções criminosas. Caindo de mergulho no bar, o ar quente e picante atingiu seu nariz, fazendo suas cilias eriçarem com a fumaça invadindo seus pulmões.

Ela odiava os fumantes. Odiava ainda mais se submeter a frequentar bares que apoiavam a prática ilegal de jogos de azar e serviam bebida alcoólica a menores de idade. No entanto, aquela seria a noite das garotas, e uma garota em especial, Yuna, amava se arriscar. Afundando no banco um pouco alto para sua baixa estatura, Sakura sinalizou pedindo uma cerveja. O barman, proprietário de meia-idade, ocidental e barba cheia, passou a ela uma cerveja com o rótulo escrito em inglês, e esperou por uma conversa trivial. Mas ela apenas bebeu a cerveja em silêncio, então ele sorriu e passou para o próximo cliente. 

Após mais alguns goles fartos, ela busca fios tingidos de roxo e olhos verdes floresta, mas não encontra nenhuma mulher com essas características, apenas bêbados em mesas de sinuca e uma mulher escolhendo música na jukebox. O bar estilo ocidental, anos setenta, não tinha nada de especial, apenas algumas mesas de bilhar e maquinas casaninques localizadas em cantos estrategicos. À sua volta estava tudo escuro, alguns homens sentados numa mesa afastada, e outros que seus olhos cansados não podiam enxergar, fumavam seus charutos numa roda com mulheres em seu colo e garrafas de bebida espalhadas no carpete. Ela tomou outro gole farto, e pediu mais uma cerveja. Se Yuna não chegasse em meia hora, ela pagaria sua bebida e mandaria mensagem questionando a falta de compromisso da mesma em apenas trancar a loja de discos e encontrá-la no bar imundo após o expediente. 

Exatamente, quando estava no seu penúltimo gole, um grito alto vindo da mesa dos homens de charuto e garotas no colo chama sua atenção. A cena rápida e borrada de um homem de terno erguendo uma espada no ato e cortando a cabeça de outro, aparta-se em completo estado de choque e paralisia. Homens e mulheres correm, derrubando mesas e cadeiras, e deixando-a sozinha, afundada naquele banco com uma cerveja na mão e olhos esbugalhados. O sangue esguichando da cabeça do recém-decepada, enquanto o assassino limpava sua lâmina com um lenço bordado em branco virgem. O barman, há tempo havia largado o balcão. O homem caído no chão, antes rodeado por amigos, agora jazia em sua própria poça de sangue, com nada além de seu charuto ainda queimando na ponta do tabaco. 

Sua garganta prendia as palavras de ajuda, seu corpo implorava para se mover, mas tudo que ela fez, foi derrubar a garrafa de sua mão e chamar a atenção do homem que limpava a arma, para si mesma. Ela não tinha certeza se sentiu o momento que sua alma saiu do corpo, pois tudo que pensava era que a próxima cabeça a rolar pelo chão sujo daquele maldito bar, seria a sua. 

Um suspiro de surpresa escapou dos lábios do homem segurando sua arma branca. Uma torção de lábios, não exatamente um sorriso, contraiu o canto de sua boca. Sakura murmurou internamente um pedido de misericórdia quando seu olhar pousou no líder do grupo armado. Três homens a encaravam como se ela fosse um contraste estranho em meio ao sangue e gritos que vinham do lado de fora. Ela não piscou quando um deles, o que movia uma senbon na boca, pega uma garrafa de bourbon da mesa e a abre para dar um gole.

Felizmente, o assassino, que não desviou o olhar, guardou a arma em sinal de apaziguamento, fazendo-a entender que ela não tinha a ver com a situação. Seus punhos encontravam-se expostos para não sujar com o sangue do falecido, dando a ela o esboço das tatuagens exibidas orgulhosamente em seus antebraços. Yakuza, ela soube de imediato. 

Ela pisca outra vez, escorregando do banco, prestes a correr, não dando a chance de voltarem atrás, quando o assassino em sua perplexidade chamou-lhe atenção. Sakura caiu de joelhos, a voz rouca chamando-a por um nome que não era seu. Ele andou até ela, seu cheiro era quase entorpecente. Sangue, perfume, cigarro. Ele cheirava a perigo e morte, indo contra seu cabelo de cor incomum, prata como uma noite de lua minguante. Ela deixou sua cabeça cair, seus fios rosados pintando o chão escuro e entrando na poça de cacos de vidro e cerveja que ela mesma havia criado. Então ela lembra do seu passado, com homens como aquele empurrando seu pai no chão, cuspindo-o e revirando a casa deles, entrando no seu quarto e... 

O cheiro deles. Todos tinham o mesmo cheiro de fumaça. Ela os odiava. Odiava tanto que precisou fugir de casa para não vê-los nunca mais. 

Finalmente os passos cessaram, mas olhando para cima, ela depara-se com algo pior. O braço estendido à sua frente esta marcado com o símbolo que a assombrou desde aquela noite. O leque vermelho e as chamas de fogo, era a confirmação de que, em algum momento, ele a encontraria de novo. 

“Uchiha” 

— Rin…

Ela o ouviu dizer embargado. Entorpecido. A mão dele toca o seu queixo, levantando seu rosto. Ela não teve reação, todos os seus pensamentos foram sugados para dentro do buraco negro. Ela estava de volta ao seu antigo quarto. O peso do corpo adulto esmagando seus membros em formação. O cheiro dele de cigarro. Seu interior sendo revirado em sequências de estocadas cruéis. Em meio a dor, o sangue, as súplicas para o mínimo de alívio entre suas pernas, ela se agarrava a tatuagem de leque em seu braço musculoso, arranhando-o em frenesi em sua busca de ar, mas tudo que respirava era o cheiro de fumaça dele, e tudo que podia ser visto na escuridão, foi o vermelho-escuro da sua tatuagem. 

— Rin — Ele a chama outra vez. 

Ela encontrava-se dormente. 

— Kakashi, essa garota não é a Rin — outra voz ecoa no mundo paralelo de dois corpos submersos no passado — Temos que ir — o homem da senbon avisa. 

Logo ela não tem mais seus dedos, apenas o frio. Os homens vão embora em silêncio, enquanto Sakura submerge do trauma, salvo pelo toque cafona do celular. Era Yuna. Ela abraça os joelhos, deixando o grito sufocado escapar da garganta. Os minutos passam, seu celular começa a vibrar novamente.

Quando finalmente ela consegue deslizar os dedos trêmulos no display, Yuna está desesperada do outro lado da linha: 

 

“ Sakura, você está bem?” 

 


Notas Finais


ALGO muito sombrio aconteceu com Sakura no passado.


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