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História Estrada para as trevas - Capítulo 1


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Notas do Autor


Reboot de Diário sobrenatural. Mais legal, mais organizado, mas o as cenas pastelonas e exageradas ainda são reais. Aproveitem!

Capítulo 1 - Uma noite na estrada


   O frio ar da noite estava delicioso e agradável àquela hora, porém a escuridão era quase total devido a infinidade de folhas que os compridos galhos das aroeiras lançavam sobre a estrada. O asfalto estava coberto de folhas marrons e laranjas que esvoaçavam quando o velhaco carro de Tonha passava sobre elas em alta velocidade. A garota dirigia descuidadamente dançando conforme a música da playlist e fechando os olhos por alguns momentos para apreciar o som enquanto cantava junto. Nesses intervalos ela não conseguia enxergar as furtivas sombras de figuras de capuz preto que adentravam na mata sorrateiramente e, vez ou outra, encaravam-na se remexer no banco feito uma minhoca.

- I put a spell on you...!!! – cantava Tonha desafinadamente até que um urro rouco e animalesco a assustou e a fez prestar atenção na estrada.

   O urro cessou e tornou a soar fazendo-a estremecer e gelar. Ela aumentou o volume da música para tentar abafar aquele som terrível, bebeu alguns goles de sua lata de refrigerante e continuou a cantar atenta a direção. Tinha se sacudido demais e seus longos cabelos castanhos tinham assanhado e caído em seus olhos escuros. Mais uma vez a criatura dona daquele berro medonho soltou a voz e sua bexiga quase explodiu com o susto. Ela precisava se aliviar rápido, mas não havia um banheiro por ali, no meio da estrada, e os estabelecimentos mais próximos ficavam há vários minutos na direção contrária. A garota encostou o carro perto de uma placa de velocidade.

   Faria por ali mesmo, no meio do mato. Ninguém veria por causa do escuro e ademais, não devia haver moradores por ali. O vilarejo mais próximo ficava a cinco quilômetros e dificilmente um deles apareceria ali para perguntar o que fazia acocorada sobre o arbusto. Ela desligou a música, mas deteve-se antes de descer. O urro bestial do que quer que fosse ainda ecoava em sua mente e lhe acovardava. Teve vontade de mijar ali mesmo no banco do motorista para não ter que sair. Claro, o bicho devia estar longe a julgar pelo volume de sua voz... ou seria a música que estava muito alta? De qualquer maneira devia estar perto e ela não queria arriscar a sorte com uma criatura que produzia um som tão horrível. O que seria, aliás? Não se parecia com o som de nenhum animal que conhecia. Isto é, lembrava um mugido de boi, porém mais rouco, mais profundo e mais anormal.

   Pela quarta vez ouviu aquele urro e teve a certeza absoluta: o bicho estava ao seu lado, embrenhado na floresta. O som amedrontador entrou por seu ouvido esquerdo de modo tão violento que ela soltou um grito agudo e fechou os olhos, os dedos retesados sobre o volante. Um minuto se passou e nada aconteceu. Ela abriu os olhos lentamente e encontrou a estrada à frente vazia e tranquila como sempre.

   Um ser saltou de dentro da mata e deu de cara no vidro da janela ao seu lado, a assustando imediatamente e a arrancando-lhe gritos de pavor e horror com seu rosto deformado com vários olhos negros que se movimentavam enlouquecidos em várias direções, sua boca enorme e torta cujo fundo da garganta ficava a uma distância imensa e um ruído rouco era emitido de lá. Uma sombra caiu sobre o carro – a criatura devia ser gigante – e Tonha não teve tempo de desafivelar o cinto, pois os dentes tortos e pontudos do ser mastigavam a porta com uma rapidez voraz e sentindo que logo seria deglutida, Tonha fechou os olhos e começou a gritar inutilmente. A última coisa que sentiu foi o hálito quente e nojento do bicho antes de apagar.

 

   Estava bem mais escuro agora porque seus olhos estavam fechados. Tonha tinha voltado a si e, para sua surpresa estava viva. Encontrava-se deitada de bruços no capim que irritava sua pele nua e um crepitar sugeria que ali perto havia fogo. Vozes sussurravam algo em uma língua desconhecida como uma espécie de cântico macabro repetidas vezes. Ela abriu os olhos lentamente e pôde distinguir uma pira em chamas, algumas árvores desfocadas e um círculo de pessoas de túnicas negras com capuz abaixado murmurando aquelas palavras estranhas que a faziam estremecer. Antes que pudesse se perguntar alguma coisa uma das figuras de túnica veio em sua direção e retirou uma adaga das vestes. A lâmina era levemente curva, afiada e brilhante e cortou sua garganta em questão de segundos. Tonha sentiu um pouco de seu sangue se espalhar pelo corpo antes de cair no sono da morte.

 

2.

 

Lissa.

 

Querido diário

   Hoje vai ser o dia mais feliz da minha vida! Nada pode dar errado! Hoje vão sair minhas notas do vestibular e eu vou finalmente ter coragem de dizer pros meus pais que escolhi fazer medicina. Eles querem que eu faça direito, mas é só pra dizer pros outros que eles têm uma filha que vai ser juíza. Eu penei pra conseguir a nota, mas tenho medo que eles me forcem a usar pra o curso de direito. As duas tem quase o mesmo peso. Hoje também vai ter a festa da Poli e eu vou me encontrar com o Clóvis lá. Ele me chamou pra festa pessoalmente, então talvez a gente acabe dando um selinho no final! Tô tão feliz!

   Por outro lado, nem tudo são flores. A Beca disse no grupo que vai viajar com um amigo por aí e não sabe quando volta. Vou sentir muita falta dela nesse tempo, mas ela prometeu que vai continuar a postar no blog e fazer vídeos pra gente. Então hoje a festa vai ser tipo o bota-fora dela. Todo mundo vai pra lá. Menos a Vi, eu acho. Ela ainda não confirmou no grupo, então eu acho que a mãe dela não deixou, mas eu dou uma ligada pra dona Gerusa e peço com jeitinho. Hoje o dia vai ser superlegal e nada, absolutamente nada vai dar errado! Vai ser pura magia!!!

 

   Lissa fechou o diário com um sorriso e foi para o banheiro se aprontar para o dia mágico que dizia que teria. Ainda precisava escolher a roupa que usaria naquela noite. Ela prendeu os cabelos pretos num coque simples para refrescar o pescoço e vestiu algo leve por causa do calor. Seus pais estavam prontos para sair, mas a esperavam na sala.

- Finalmente acordou! – disse a mãe – Dorme mais que uma preguiça.

- O resultado sai hoje, né, minha filha? – perguntou o pai.

- Sim, mas... eu tô meio nervosa – admitiu Lissa.

- É bom você ter passado em direito, hein! – falou a mãe com irritação e erguendo o dedo indicador para ela, acusadora – É o terceiro ano que você faz essa prova e toda vez com história de ansiedade, de “deu um branco” ... Não criei filha vagabunda, não! Espero mesmo que você passe, porque se não...

   A mulher deixou a frase no ar.

- Tem que estudar, Lissa – disse o pai como se desse um grande conselho filosófico.

- Certo... – Lissa já sentia o coração acelerar de pânico e as pernas tremerem.

- A gente já vai indo – anunciou a mãe – A Gerusa já mandou mensagem perguntando da gente. Quando eu chegar quero ver esse boletim, hein? Tchau!

   O casal saiu e Lissa se aquietou ao ouvir a garagem ser fechada e o carro se distanciar. Mas não ficaria para baixo. Era o dia especial dela! Nada ia dar errado! Ela foi para a cozinha e preparou um café saboroso para começar aquele dia. Repetia em sua mente como um mantra: nada ia dar errado.

   Resolveu que iria fritar panquecas e caminhou até geladeira nova (sua mãe tinha feito um escândalo para tomarem cuidado com ela). A geladeira era prateada e espelhava seu rosto sorridente antes de abri-la, mas depois que retirou todo o necessário e a fechou não viu apenas ela. Um garoto um pouco mais alto que ela própria a encarava com olhos escuros e profundos vestido num traje formal do século passado e uma luminescência azul o contornava.

   Lissa olhou para trás e não o encontrou; olhou para a geladeira e também não o viu. Estaria alucinando? Seu celular tocou e Gui havia enviado uma mensagem. Tensa, ela pegou o aparelho e leu triste a mensagem que perguntava carinhosamente se ela queria ir junto com ele a festa. Lissa não queria que Clóvis a visse com outro garoto, então deu uma desculpa esfarrapada e voltou sua atenção às panquecas, sempre atenta a geladeira para o caso de o garoto surgir novamente. Aquele dia estava passando de mágico para medonho.

 

Beca.

 

   O dia seria puxado para Beca. A garota tinha acordado bem tarde por causa da preparação da bagagem na madrugada e ainda precisava buscar Diego; e se este ainda não tivesse feito as malas e preparado a Kombi ainda teria mais trabalho pela frente. Ela se levantou no momento em que abriu os olhos e pulou da cama que estava fervendo e correu para o banheiro a fim de se refrescar. Eram oito da manhã e o quarto já estava um forno. Seus cabelos curtos ondulados estavam ensopados de suor por causa da touca com pompom e brilhavam dourados no espelho, gotejando. Olheiras profundas cercavam seus olhos castanhos pontilhados suavemente de verde e sua pele levemente morena ardia de calor.

   O dia seria quente e insuportavelmente calorento. Isso era uma coisa boa, de certo modo, pois em dias de calor os irmãos da noite de Diego deixavam a escuridão e frieza da mansão Toledo para dar um mergulho na piscina e sair um pouco da rotina vampírica. Isso significava que haveria um banquete boca livre que seria reposto o dia inteiro com todo tipo de iguaria saborosa e ela jamais deixaria passar a oportunidade de encher a barriga de graça.

   A jovem blogueira desceu as escadas para a cozinha e encontrou os pais tomando café.

- Bom-dia, Beca – disse o pai lendo algo no celular – Tá pronta?

- Quase – Beca sentou-se e serviu-se de uma caneca de café fumegante e um pão de queijo – Ainda preciso de alguns ingredientes de emergência e flechas pra balestra.

- Tem uma aljava inteira na despensa – disse a mãe um pouco irritada – Eu falei tanto pra você ontem.

- Eu tava ocupada carregando a Kombi – argumentou Beca – Você sabe quanta coisa é necessária pra uma viagem dessas, né?

- Sei, mas você devia priorizar essas coisas. Nunca se sabe quando vai achar uma alcateia ou um cardume de sereias carnívoras.

- Sua mãe está certa, Beca – concordou o pai – E quais ingredientes faltam? Talvez tenha na despensa também.

- Não tem, eu já vi – disse a mãe – Você vai repor o estoque de tudo hoje e arrumar esses ingredientes – a mulher mexeu rapidamente em seu celular e o pôs de lado – Pronto, a lista já está no grupo.

- Então eu passo aqui pra pegar isso depois? Eu ainda preciso buscar o Diego e, vocês sabem... Vampiros, dia de sol...

- Desde que traga comida de lá para o almoço não vejo problema – disse a mãe – Não estou a fim de ligar o fogão com o inferno que está o sol hoje. Quantos graus devem estar lá fora?

- 451° Fahrenheit? – falou o pai, distraído.

- Acho que bem mais que isso – disse Beca.

   A garota terminou o café e recolheu as flechas na despensa. Depois de arrumar devidamente ao lado da balestra, Beca entrou no carro e ligou com alegria o ar condicionado. Deixou-se refrescar por alguns minutos antes de tirar uma selfie para as redes sociais, girar a chave e pisar no acelerador rumo a Mansão Toledo.

 

Viviane.

 

   A garota ressonava tranquilamente e vez ou outra ouvia os gritos apressados nos outros quartos, mas logo fechava os olhos e voltava a dormir. Quando sentiu o mormaço a atingir começou a despertar. O suor se acumulava em sua pele negra e seus cabelos ondulados estavam sebosos com a substância; ela queria um banho demorado urgente. Se movimentou para se levantar, mas uma sombra surgiu atrás de si e a atacou.

- Levanta, preguiçosa! – a mãe desceu a sandália em seu traseiro e ela gritou – Acorda, acorda, acorda! A gente já está saindo e eu quero aquele banheiro lavado e as suas calcinhas cagadas brilhando!!!

- Ai, não, mãe... – reclamou Vi, sonolenta.

- Sai dessa cama, Viviane! Você quis ficar em casa, então vai ter que fazer as coisas enquanto eu estiver fora. Ai de você se eu chegar aqui e estiver tudo sujo, viu?

- Tá certo – disse a garota se espreguiçando – A que horas vocês chegam?

- Não interessa! Eu quero isso tudo limpo, ouviu?

- Sim, mas eu não posso deixar a casa sozinha, né! – bufou Viviane – Esqueceu que a Poli vai dar uma festa e pediu minha ajuda? Aliás, eu posso ir?

- Pode, mas só depois de fazer o que eu mandei. E antes de sair liga pra sua tia vir ficar tomando conta da casa.

- Tá bom... divirtam-se na praia.

- Tchau, fica com Deus! – despediu-se a mãe ajeitando o chapéu de sol e gritando para os outros entrarem no carro.

   Viviane sentou-se na cama e encarou o vazio por algum tempo, mas correu para o banheiro assim que uma gota de suor pingou no chão. Não era dia de lavar o cabelo, mas ela precisava urgente de um trato depois daquela noite. Sentou-se na privada para fazer suas necessidades e começou a responder as mensagens no celular; confirmou no grupo sua presença na festa, respondeu a Poli que não parava de perguntar se ela vinha. Finalmente, depois, entrou no chuveiro e sentiu os filetes d’água gelada sobre o corpo.

   Quando saiu, notou que Gui tinha mandado uma mensagem perguntando se podia ir ajudar com a festa. Era um pedido inusitado e estranho da parte do garoto, mas ela não recusaria um par extra de braços ajudando com as coisas.

 



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