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História Estrelas da Escuridão - Capítulo 2


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Capítulo 2 - Capítulo 2 - Thyra


Fanfic / Fanfiction Estrelas da Escuridão - Capítulo 2 - Capítulo 2 - Thyra

 Minha mãe, Dyana, era descendente de uma matilha muito importante em Panthea; a matilha Nychta, a qual deu origem a maldição dos lobisomens. Há muitos anos, não passávamos de humanos normais, vivendo nas Terras dos Estepes Lupinos, onde várias aldeias se formavam. Éramos chamados de tribo Hipérion e adorávamos a Lua e ao Sol, assim como nosso nome. Lutávamos bravamente e compartilhávamos o pão e a carne da caça entre todos; nas noites de veraneio, naquelas montanhas, todos deitávamos na grama esverdeada quase seca, e observávamos a Lua e as Estrelas, cantando, dançando, oferecendo orações e frutas à mais bela dama da noite. Porém, certo dia, toda a alegria e paz de nossa tribo fora abalada pelo nascimento de, até então, a pior criatura vista. A criança, de pele bronzeada e dourada – que era cintilante ao leito do Sol – com seus olhos em um puro e profundo ônix, que desvendavam uma escuridão nunca vista antes, com seus lábios carnudos e avermelhados e com os cabelos lisos, foi chamada de Persé. Aos poucos, quando crescia, foram notados aspectos que não encaixavam-se naquele casamento. Que não encaixavam-se nas características de nossa tribo; éramos humanos, que faziam orações e rituais de magia branca, mas que, jamais, conseguiriam mover objetos apenas com o olhar como Persé era capaz. Quanto mais ela crescia, mais poder ela dominava e mais indecifráveis tornavam-se seus dons. Os deuses não mais desciam para fazer amor com humanos, não como antes. Depois de um longo tempo analisando a garota, descobriram que sua mãe havia cometido uma infidelidade contra seu parceiro, engravidando de um bruxo da aldeia. Um bruxo. Aquilo assustara tanto os Hipérion que para eles, a única saída era matar a garota e extinguir sua magia e maldade do mundo. Fora um sacrifício tremendo e horrível, sangue escarlate jorrava da menina de 15 anos enquanto cortavam seus tornozelos, seus glúteos, os pulsos, e então, o pescoço. Todavia, antes que realizassem o golpe final para entregá-la a morte e pedirem que o deus Hipérion cuidasse de sua alma, a garota nos lançou uma maldição, quase tão terrível quanto a barbaridade que fora realizada com Persé naquela noite.


-Fes matos tribum, Nas ex veras, Turn enim animalibus statim in confidebat, Fes matos tribum! – ela repetira a sentença milhares de vezes, aumentando, aos poucos, a intensidade de sua voz, e nossos pobres descendentes, sem compreender o que estava acontecendo, apenas permaneceram a olhando, enquanto gritava tais palavras em seus rostos imundos.


 As palavras que Persé recitara antes da morte, foram seu escape final. Ela os transformara nos animais que eles mais confiavam...os lobos. E então, teve-se início a maldição do Lobisomem, a partir de minha tribo, a tribo Hipérion, que depois do acontecido, ficou conhecida como matilha Nychta – ou, matilha da Noite. Toda Lua cheia, quando ela encontra seu ápice – onde, antigamente, costumávamos comemorar – todos que possuíam nosso sangue, transformam-se em lobisomens e então, eram obrigados a quebrarem seus 206 ossos para atingir a metamorfose de um monstruoso lobo. Era sua vingança, contra todos nós. 

 Todos sabiam que, alguma das futuras crianças herdariam os dons de Persé, caso ela não viesse de um casamento puro entre Nychtas. Novamente, sua condenação fora cumprida. E fora eu quem herdara os dons de bruxaria, já misturados aos dons de metamorfose de minha mãe. E, ainda assim, havia meu DNA paterno, dotado dos dons de sugar magia. Era uma tri-híbrida, banhada de maldições e superstições. Consequentemente, fui enclausurada em casa, onde aprenderia a controlar meus poderes e domá-los de todo mal, evitando que Persé um dia reencarnasse- se em minhas veias. Ou, evitando que uma inimiga muito mais antiga tomasse posse...a Morte.

 A única ponte que me unia a Persé era a magia pela qual herdei. Minha aparência era semelhante a família de meu pai, dizia minha mãe. Meus cabelos eram extremamente lisos até as pontas, onde finos e pequenos cachos tentavam se manter; eles alcançavam o meio da coluna em tom de avelã com algumas mexas mais claras, mexas essas que brilhavam ao Sol. Minha pele era clara, apesar do fundo dourado reluzente, herdado pelo moreno de minha mãe, bronzeado que sempre quis. Meus olhos eram médios, pintados de verde esmeralda, contornados por uma linha marrom madeira de contraste. Minhas bochechas eram largas, abrindo espaço para boca carnuda – idêntica a de Persé, dissera minha mãe. Era alta, possuindo pernas longas e coxas gordas.


O retrato da beleza mais cruel, uma arma em meu arsenal.


-Afaste seus pensamentos dela, Thiny. – disse minha mãe, enquanto penteava meus cabelos recém molhados. – Continue treinando, levante e abaixe a barreira em sua mente, evite que outros que assemelhem-se à você, possam ter acessos as suas memórias e sentimentos. Pois...                                                                                                                                                                                                                          –Isso causaria o caos em eternidade. Eu sei, Dyana. – disse, a interrompendo. Nossa relação havia virado tão rígida em meio à tantas lições de sobrevivência a Morte que eu já não a chamava mais de mãe, desde meus 9 anos.                                                                                                             -Tudo que você realiza aqui, é para meu bem, tenho conhecimento disso. Acalme-se, não me transformarei em algo similar a Persé. – disse com calmaria e elegância. Mal sabia eu que, o que eu me transformaria, seria muito pior do que Persé, ou do que qualquer monstro que um dia pisou em Panthea, a terra sagrada, chegariam a ser.                                                                                                                                                                                       -Muito bem, eu vou pedir a ajuda de Nyse para o jantar, permaneça aqui treinando as habilidades mentais, quando estiver pronto eu lhe chamo. Caso ouvir algo...                                                   –Grite. – disse, completando a frase tão familiar a meus ouvidos. Ela sorriu, assentindo e então, saiu, deixando a porta levemente encostada, mas sem fechá-la, por medo do que pudesse ocorrer comigo sobre a escuridão da noite.


  Dyana contava-me histórias da época em que sua mãe, minha vó – Kynthia – era apenas uma criança. Época em que o medo por Persé ainda não era tão estrondoso. As crianças corriam por entre o bosque, felizes e sorrindo ao luar. Os adultos, uniam-se no pequeno pátio próximo as tendas para dançar, comer, beber e rir, comemorando a chegada da Lua Cheia. Tudo era festa e esperança para eles, e nada, na tribo Hipérion, afetava-os, nem mesmo a chuva ou as tempestades. Eles apreciavam a noite como a dama mais bela da Corte, e as estrelas reluzentes douradas e azuis do céu eram a única iluminação. Em nossa colina, a noite era a mais majestosa de todas, viam o céu tingidos em tons de um azul quase negro, lilás, esmeralda e em alguns locais, onde haviam aglomerados de nuvens, salpicados de um branco quase prateado. Momentos e costumes que se perderam, principalmente, após meu nascimento. Minha irmã mais velha, Nyse, guardou um rancor por mim por conta disso, ela dizia que ela e Dyana, antes de meu nascimento, costumavam manter a tradição de festejar em Lua Cheia, e observar a escuridão mórbida misturada ao brilho protuberante. Faziam preces e encontravam na noite esperanças para continuar. Porém, eu destruíra tudo. Às vezes, não conseguia distinguir qual era o pior monstro da casa, o tri-híbrido residente em mim, que podia desmoronar cidades com um piscar de olhos e matar a própria Morte – talvez por isso sua ira por mim -, ou, o monstro frio e insensível de Nyse. Éramos distintas, em todo e qualquer ponto. Seus olhos eram do mais puro azul acinzentado quase preto, e apesar do brilho que às vezes era refletido neles, sobre sua íris, era guardado o mais puro gelo. Suas feições eram indecifráveis, ela jamais sorrira; ao menos, não depois de minha chegada. Sua pele era bronzeada como a de minha mãe, quase tão bronzeada quanto a cor da madeira de um carvalho, e sobre o sol, ou qualquer luz amarelada, ela brilhava em dourado puro. Seu cabelo, era assentado da raiz até seus lóbulos, e próximo ao ombro, faziam pequenos rodopios, dando um aspecto ondulado a ele. Curto, assim como o amor em seu coração. O tom era de um âmbar puro, e suas pontas um pouco avermelhadas. Talvez quase tão em chamas quanto seus olhos. Os lábios, eram uma linha fina, abrindo espaço para uma mandíbula saltada. Nyse era o pecado em pessoa. Apesar da feição indecifrável e do ódio nos olhos, era notável que sua beleza era avassaladora, ela poderia ter qualquer rei em toda Panthea ao seus pés, apenas com um piscar de olhos. Uma beleza digna de rainha cruel. O destino, pelo meu infortúnio, havia trocado os papéis. Nyse sobreviveria facilmente a um ataque da Morte, já eu, tinha um pingo de receio.


 Apesar de toda força e poder que corria sobre minhas veias, eu ainda tinha medo. Ainda sentia amor por minha mãe e irmã, pela vida. Tinha esperanças que um dia eu sairia daquele quarto...daquele calabouço que estava presa há tanto tempo. Caminharia por entre as ruas da terra sagrada e sentiria a magia emanar por outros Leucotheanos, como eu. Sentiria o cheiro de orvalho e jasmim de minha terra, deitaria no gramado com um garoto e, observaríamos a beleza que revestia a noite. E, não teria medo da escuridão, ou de enfrentá-la. Em meio a tanta coisa, eu tinha compaixão pelos que caíam e se machucavam, e pena dos necessitados; pedia a Hipérion e a tantos deuses mais que um dia foram de crença de meu povo que os ajudasse...os salvasse, como um dia desejei. E, bem ao fundo, havia alegria em mim, apenas por ter a honra de sonhar. De olhar para as estrelas e acreditar em um mundo melhor. Por um instante, me deixei levar por todo aquele sentimento abrangente dentro de mim, que duplicava meu coração e floria minha alma. Me deixei ouvir ao remoto aquela música que tocavam na praça, a melodia linda, invadindo meu corpo e me fazendo flutuar. Me deixei imaginar como seria dançar e dançar e dançar, por entre pessoas queridas. Me deixei estruturar como seria beijar, ou tocar outra pessoa que não estivesse dentro de minha ca...fortaleza. Deixei com que a brisa de veraneio entrasse por uma brecha da janela. Fora meu maior erro.

Dyana sempre me avisou, “nunca entregue-se ao sentimento, ele te corrói e abre espaço para Ela entrar”; mas eu precisava naquele momento, eu precisava sentir algo, ao menos uma vez sequer. Acabei abrindo uma brecha e derrubando o escudo de meu coração.


-Olá, pequenina. – uma voz, grossa e rouca, peculiar e horrorosa sussurrou, muito próxima aos meus ouvidos, me causou medo. Pensei em gritar para Dyana ou Nyse, todavia, aquela era a minha chance de mostrar meu poder e enfrentá-la para sempre.                                                                       –O que deseja? – disse, tornando minha feição indecifrável, como vi minha irmã mais velha fazer inúmeras vezes. A voz, estava baixa e gélida, mas ainda assim com garra e autoridade. Ela não me venceria, não desta vez.                                                                                             Eu te desejo, bobinha. E todo seu poder. Você pertence a mim, sabe disso. – disse ela, passando para o lado direito de meu corpo, senti, a escuridão planar por cima de meus ombros, senti o calafrio que tomou conta de meu organismo. Senti o seu desejo e o quanto ela esperava por aquele momento. Travei. O medo sempre fora meu maior inimigo, tentei acalmar-me, sem deixar pistas do sentimento que agora radiava minha alma.                                                    –Vá embora, antes que eu te destrua! – aumentei o tom da voz, ainda assim gélida e seca, como uma manhã invernal. Podia jurar que vi a Morte sorrir. Um sorriso desafiador e cruel...muito cruel.                                                                                                                                             Tente, querida, mostre-me do que é capaz. – uma cilada. Uma, verdadeira, cilada. Eu sabia disso no fundo de meu coração, sabia disso depois de tanto tempo lendo tantos livros e desfrutando de tantas lições. Eu sabia. E mesmo assim me deixei levar pelo ódio que agora fervilhava em meu interior. Pela raiva. Ela era a culpada de tudo aquilo, por me transformar em uma prisioneira covarde. Eu desejei a destruir, com todas as minhas forças. Contudo, nem sabia por onde começar; nunca tive essa lição, pois não achava necessária. Mas eu não a deixaria ganhar, não com tudo que me fez passar. Não com as chamas que se incendiavam em meus olhos, transformando o verde esmeralda em um rubi intenso. A choquei, com um pouco do poder que possuía nas veias, repetindo um feitiço de defesa: -----Phesmatos ex veras, Ut iniuriam hie pleno existente! – exclamei, apontando um dedo sobre aquela sombra negra irradiante em meu quarto. Era o que ela precisava, de uma gota, apenas uma gota para me destruir.                                                                                                                     –Não devia ter faltado às aulas de proteção, lindinha. – foram suas últimas palavras cruéis, antes de planar até minha direção e ultrapassar para meu interior. Eu senti, a dor de ter tudo retirado de mim. Senti o amor, a esperança, a alegria e a compaixão se transformarem em fumaça e escuridão. Minha alma, não se passava de sombras. Eu me transformei na vastidão do luar, repleta do ódio e rancor colocados pela Morte.


 -Bem vinda à sua nova vida, Thyra, deusa do caos e da morte. As regras são simples, agora você é uma qua-híbrida: vampira, lobisomem, bruxa e esponja de magia. Seu trabalho é me alimentar com o máximo de almas inocentes que conseguir, ou, sangrará pela eternidade.


                     Aquelas palavras não me afetaram, não como antes. Eu me debati no início, mas, depois, tudo estava em calmaria, oco e vazio. Dyana, suspeitando de algo, fora correndo ao meu quarto, aparentemente, ajudar-me.                 


-O quê houve, Thiny? – disse ela, com um olhar preocupado. Eu apenas ri com deboche. Bom, minha nova eu riu com deboche, olhando firme para Dyana; um olhar gélido e seco, sem nenhuma luz ou amor.                                                                                                                            –Meu nome não é Thiny, mais. Eu. Me. Chamo. Thyra. – disse, fazendo pausas prolongadas, para que ela pudesse perceber o que havia ocorrido, que me poupasse das explicações.                                                                                                                                                      –Não. Não. Não. Não – disse ela, levantando a voz em desespero. – Não há maneiras, não depois de todo treinamento que fizemos. – falou, elevando a mão à mente, como se tentasse se recordar de algum erro. Uma falha. Uma brecha.                                                                                                                                     –Seu erro, Dyana, foi deixá-la sentir. Thiny foi criada a muito amor, amor demais. Lembre-se, querida, amor é cura, mas em excesso, pode ser veneno. E aliás, você fez um erro vindo até aqui, pois eu estou faminta. – corri, mais veloz do que nunca antes, até o pescoço de Dyana, lhe sugando cada gota do líquido vermelho que percorria suas veias alimentando meu novo corpo imortal e a escuridão em meu interior. Percorri em passos lentos e preguiçosos até a porta principal, para sair daquela fortaleza. Nyse se aproximou de mim, apontou aquele dedo longo e magro em meu rosto, quando estava a ponto de me ameaçar, apenas revirei meus olhos esmeraldas de novo – agora contendo frieza – a calando com um feitiço, selando sua boca e a mantendo calada para todo sempre.                                                                   –Me poupe de reclamações idiotas, Nyse, já as aturei o suficiente. Apodreça junto ao corpo de Dyana. – e saí, selando a porta com um cadeado infernal, em um dialeto que ela jamais conseguiria destruir.

Aquele fora meu primeiro crime como Thyra, contudo, mesmo tendo carregado e levado o posto de assassina de minha própria mãe, eu não me importava para isso, ou para qualquer outra coisa. Ao menos, não mais.



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