1. Spirit Fanfics >
  2. Estrelas Perdidas - Naruhina >
  3. Dia atípico

História Estrelas Perdidas - Naruhina - Capítulo 2


Escrita por:


Notas do Autor


Olá, meus queridos!
Aqui está o primeiro capítulo dessa história. Ele está mais para a ambientação das tramas que se desenvolverão a partir dele. Espero que gostem e por favor, me digam o que acharam nos comentários.
Esta não é exatamente uma songfic, mas existe uma música na qual me inspirei para o enredo e o título da história. O nome é "Lost Stars" do Adam Levine. Espero que possam lembrar dessa fic todas as vezes que ouvirem essa música.

Aqui está o link da minha fanfic anterior, pra quem quiser dar uma viajada por lá: https://www.spiritfanfiction.com/historia/o-alcance-da-promessa--naruhina-18435213


Tenham uma boa leitura!

Capítulo 2 - Dia atípico


Hinata

Décima quarta estrela cadente que eu havia avistado naquele ano. Anotei em meu relatório com um sorriso saudoso. Eu já sabia que não se tratava de uma estrela que se mexia, e sim de um rastro de luz formado pelo atrito de um meteoro com o ar em atmosfera terrestre. Mas era gostoso recordar a época em que acreditei nisso. Lembrei-me de anotar isso também: “Estrelas cadentes realizam quaisquer desejos de seu coração, até que a ciência prove o contrário”.

Voltei-me para o meu amado telescópio newtoniano, ainda saudosa com a lembrança de quando fui frustrada pela ciência, pela primeira vez. Agora, aos 23, eu estudo o céu a finco. Não me refiro ao plano extraterrestre que nos circunda, mas a tudo o que ele compreende. Os astros e corpos celestes. Coisa que o curso de astronomia me convidava a explorar. O meu trabalho de conclusão de curso vinha me custando boas noites de sono nos últimos três meses, mas eu ainda conseguia encontrar prazer no que fazia.

- Hinata, ainda está aí? Está muito tarde – A voz alarmante de meu pai não foi o suficiente para me distrair da observação telescópica – Você tem aula amanhã.

- Eu já estou terminando. – Respondi sem tirar o olho da ocular.

- Você sempre já está terminando – Ele ironizou.

Senti o toque da mão de meu pai em meu ombro, como quem pedisse licença. Não contive o riso, já sabendo do que se tratava. Afastei-me do telescópio dando passagem para que ele pudesse também observar o céu.

- Alpha Centauri está perfeitamente alinhada com Vênus e Júpiter. – Ele constatava comicamente – Pode anotar isso no seu caderno. Vai ser uma monografia e tanto!

- É só uma ilusão de ótica, senhor Hiashi – Rolei os olhos, rindo de sua piada – Se estivesse observando isso em marte, seria uma completa bagunça. E você sabe disso melhor que ninguém.

- Bom... – Ele se afastou do telescópio – É legal pensar que a terra é o centro do universo, de vez em quando.

Caímos na gargalhada. Quem quer que assistisse nossas conversas acerca do espaço pensaria que somos completos idiotas.

- Vá dormir, já está tarde – Ele depositou gentilmente um beijo em minha testa – Meu carro quebrou e vou usar o do Neji para trabalhar amanhã. Pode dar uma carona à ele e Hanabi?

- E eu tenho escolha? – Respondi, já me enfiando entre os lençóis de minha cama – Diga que o combustível é por conta dele.

- Ah, claro... – Ele debochou, apagando a luz – De todo o jeito isso vai acabar saindo do meu bolso. Enfim, descanse! Amanhã será a inauguração de mais uma filial e quero todos os meus filhos sorrindo nas fotos e sem nenhuma olheirinha.

- Aí você quer demais. – Sorri para ele – Está bem, pai. Boa noite!

- Boa noite, filhinha. – Ele saiu de meu quarto, fechando a porta atrás de si.

Lembro-me bem de ver o relógio marcando 3h30, quando finalmente fechei os olhos. Foi como se tivessem passado apenas poucos minutos, quando o despertador tocou. 6h20 da manhã. Eu realmente havia dormido? Parecia que sequer tinha pregado os olhos. Droga! Eu teria um longo dia pela frente e sabia disso. Mesmo assim preferi dormir tarde e adiantar mais um pouco da pesquisa para o meu tcc. “Sacrifícios, Hinata. Sacrifícios. Levante-se!”. Precisei saltar da cama de uma só vez antes que desistisse de ir à aula. Eu precisava estar disposta, afinal, Hanabi e Neji precisariam de minha carona. Meu grupo de trabalho da faculdade também contava comigo, sem falar do meu doce e carente pai que fizera tanta questão de nossa presença no evento da empresa. Eu precisava dar conta de tudo. “O dia vai passar logo. Só se acalme e tenha coragem!”

Deixei que a água gelada do chuveiro fizesse o trabalho de me despertar. Fiz a besteira de lavar os cabelos mesmo sabendo que não teria tempo de secá-los. Escovei os dentes e me vesti simultaneamente na tentativa de ganhar tempo, mas acho que acabei por me atrasar ainda mais. Desci as escadas correndo, escorregando os pés molhados no último degrau e, quase caindo, se não fosse pelo amparo da mão de Neji.

- Pra quê tanta pressa? – Ele indagou, um pouco assustado. Sua mão me segurava com firmeza. Seus olhos estranhavam o meu comportamento – Vá secar esse cabelo, você está toda molhada!

- Não temos tempo, nii-san. Hanabi já tomou café? – perguntei, conferindo os livros em minha bolsa – Vamos sair em quinze minutos.

- Hinata, você ficou doida? Faltam dez minutos para as seis ainda. A Miyaki ainda está preparando o nosso café da manhã.

- Não são sete horas? – Indaguei tão surpresa que acabei falando mais alto do que gostaria – Como assim? – Voltei a vasculhar minha bolsa freneticamente, em busca de meu celular – Eu vi meu celular despertar às seis e vinte, eu não estou ficando maluca!

- Hinata... – Neji pegou em minha mão, me pausando de todo aquele alvoroço que eu causava em minha bolsa – Relaxa... Ainda temos tempo – E ergueu o seu celular que marcava 5h51.

- Mas por que eu acordei tão cedo? Por que meu celular...?

- Eu não sei. – Ele deu um riso divertido – A Hanabi já levantou e está aqui embaixo escovando os dentes. Vá se secar com calma e depois desça pra tomarmos o café juntos. – Ele me observava claramente preocupado, enquanto eu coçava a cabeça sem entender que raios havia acontecido. – Acho que você precisa relaxar, Hina. Esse tcc está te tirando dos eixos.

- Jura mesmo, nii-san? – Lancei-lhe um olhar debochado enquanto um risinho sem graça saía de meus lábios – Eu não acredito que perdi uma hora de sono inteira.

Dei as costas a meu irmão e subi novamente as escadas. Lá de cima pude ouvir sua risada junto à de Hanabi, provavelmente às minhas custas. Depois de suspirar profundamente umas cinco vezes, também achei um pouco de graça. Eu ainda me sentia uma tola, entretanto. Pior do que ter a minha família me dizendo para pegar leve era o fato de eles estarem cobertos de razão. Eu só não queria admitir. Pelo lado bom, eu pude me trocar e escolher melhor o que vestir, agora que tinha tempo. Sequei meus cabelos e consegui até fazer uma maquiagem básica para disfarçar a noite mal dormida. Olhei-me no espelho e nem pareceu que naquele reflexo havia uma mulher exausta, preocupada, ansiosa e com muito sono. Era só mais uma manhã, dentre muitas, assim. Eu já havia me acostumado com o ritmo do último período.

 

Minha aula começava às sete e meia e, mesmo após ter deixado Hanabi na escola, consegui chegar na faculdade com meia hora de antecedência.

- Obrigado pela carona, Hina. – Neji agradeceu, descendo do carro.

- De nada, mais tarde você abastece o meu carro – Pisquei para ele, descendo logo em seguida.

- Espere mesmo por isso. – Ele sorriu jocoso, enquanto caminhava em minha direção – Vou estar no bloco C. Qualquer coisa, me liga. – E me deu um beijo na testa.

- Pode deixar. Boa aula, nii-san!

Fui até a mala de meu carro, enquanto assistia Neji ir sumindo na multidão de alunos no térreo do bloco C. Peguei meu telescópio e apoiei a alça de sua capa em meu ombro, deixando as mãos livres para pegar minha pasta, minha bolsa e minha maquete. A vida de um astrônomo acadêmico não era assim tão simples. Nessas horas eu dava graças a Kami por ter feito a revisão do meu carro recentemente.

Carregar peso e volume era algo que eu estava acostumada a fazer, após cinco anos de curso. A minha turma era muito agradável também, embora sempre houvesse o grupinho seleto de pessoas arrogantes e metidas a intelectuais que faziam a ciência parecer uma guerra de “quem sabia mais”. Mas até mesmo eles eram sociáveis e colaboravam com o restante da turma. A astronomia tinha essa vantagem. Tudo cooperava pelo bem da ciência e, portanto, todo o tipo de gente se misturava em prol disso. Por essa característica, nosso curso era considerado a parte excêntrica do Campus. Éramos taxados de “nerds interessantes”. Não que eu ligasse para rótulos, mas isso nos dava a vantagem de não sermos perturbados pelos alunos de exatas, de biológicas e os de humanas. Afinal, éramos um pouco dos três.

Senti que algo havia caído da minha bolsa. “Sério? Justo agora?” Ainda bem que eu estava com tempo. Apoiei em cima do carro todas as tralhas que eu carregava e abaixei para ver que a caixinha dos meus óculos estava espatifada no chão. Por sorte não o havia quebrado. Coloquei o acessório em meu rosto para não precisar guarda-lo na bolsa e segui caminho para o bloco “B”. Nada de novo. As mesmas escadas e os mesmos veteranos de direito atazanando a vida das calouras. Dei uma risada discreta. Eram tão imaturos que sequer faziam ideia das besteiras que estavam dizendo. Uma ou outra correspondia à provocação, mas a grande maioria sensata fingia de surda, temendo as barbaridades que falavam. Fiquei imaginando se Hanabi visse tal cena. Feminista que é, ficaria aborrecida a ponto de ir tirar satisfações com eles. Algo que eu apreciaria muito assistir. Tudo bem que eles fossem bonitos, especialmente Naruto Uzumaki. Mas os três eram extremamente lindos, tanto quanto eram desagradáveis. E nada era pior do que quando trombavam com os de medicina. Não havia uma única vez que não houvesse briga ou a promessa de uma. A eterna rivalidade entre medicina e direito era uma lenda do Campus. Algo que davam muita atenção desnecessária. O suficiente para tornar estes garotos os mais populares, desejáveis e insuportáveis. Eles até competiam. Organizavam as próprias disputas, às escondidas, pelo campus, com torcida organizada e tudo. Às vezes esportes, ou, como trogloditas, guerras de comida, de cuspe, rachas de carro e qualquer outra baboseira derivada. Hanabi teria rolado os olhos. Eu apenas achava engraçadinho o modo como eles resolviam suas vidas. Contudo, eu precisava passar por eles todos os dias se quisesse calcular a influência dos satélites naturais dos asteroides em sua velocidade constante. Mas como eu disse, a astronomia tinha suas vantagens.

- Eaí, Hinata? Bom dia! – Sasuke Uchiha me cumprimentou com sua habitual voz provocativa – Que tal a minha companhia para o almoço?

- Não mexe com ela, cara. É a irmã do Neji. – Naruto Uzumaki interveio, talvez não em meu favor, mas em defesa do próprio amigo.

Meu irmão era o mais estimado dentre os caras de medicina. Neji mal se envolvia com as rixas, mas impusera tanto respeito com sua personalidade calma e séria que os alunos de ambos os cursos o admiravam.

- Bom dia, meninos! – Respondi educadamente, sem parar pra olhar para eles.

- Além de gata é educada. Gosto assim! – Sasuke retrucou a tempo de eu ouvir.

Sala 203B. Primeira aula do dia. Eu mal havia colocado meus pertences na carteira e já estava sentindo os olhos pesados de sono. “Vai ser difícil me concentrar em apresentar esse trabalho”.

- Café, senhora? – A voz familiar que eu precisava ouvir. Tenten me abraçou por trás, estendendo um grande copo de café expresso do Starbucks.

- Já disse que te amo? – Abracei-a de volta, sentindo as esperanças voltarem ao meu corpo sonolento – Ah, Tenten! – Meus olhos brilharam de puro amor por aquele café – Você caiu do céu!

- Neji me contou da sua trapalhada essa manhã – Ela advertiu, cruzando os braços. Sua feição oscilando entre séria e brincalhona.

- Até você, Ten? Me dá um tempo! – Resmunguei, tomando um gole do meu café.

- Amiga, você está vivendo duzentos por cento pra esse tcc. Eu entendo a importância de se dedicar, mas você precisa dormir pelo menos.

- Mas eu durmo... quando dá – Fracassei em me defender. – Mas então, vocês conversaram? – Perguntei, sugestiva – Quer dizer que já posso te chamar de cunhada?

- Não sei... Acho que ainda não. Mas não muda de assunto! – Ela me fuzilava com o olhar – É melhor se cuidar porque não quero que você seja o principal assunto entre mim e Neji. Você está atrapalhando meu esquema.

- Nossa, me desculpe. – Ergui as mãos, em defesa. Não pude conter a risada. – Prometo não empatar mais!

 

Naruto

Mais uma manhã acordando sem a necessidade de um despertador. Os gritos de meus pais tinham hora certa para começarem. 6h. Briga de rotina. Suspirei fundo. Eu costumava acordar assustado com a gritaria, no início, mas hoje eu estranharia se em nossa casa houvesse silêncio. Tomei uma ducha rápida e fiz a higiene matinal. Vesti-me em tempo recorde, enchi-me de perfume e perdi uns bons minutos na frente do espelho para arrumar o meu cabelo rebelde.

- Bom dia! – declarei, passando por meus pais na sala de estar, mas certo de que não me ouviram.

Fui até a cozinha e fiz o meu próprio café. Fritei ovos. Coloquei comida para o meu gato. Era uma grande cozinha de um apartamento igualmente enorme. Eu morava com meus pais, mas fazia meses que me sentia completamente solitário naquele lugar. Voltei ao meu quarto para buscar a minha mochila e a chave do carro.

- Bom dia, filho! Já está de pé? – Minha mãe perguntou, quando passei pela terceira vez na sala de estar – Vou preparar o seu café. 

- Não precisa, mãe. Eu já estou de saída. – Declarei, seguindo em direção a porta.

- Se quiser, eu posso te levar pra aula – Meu pai sugeriu.

- Não, obrigado. Vou com o meu carro.

Segui o ritual de ligar o som assim que girei a chave na ignição. Estava numa rádio qualquer com uma música animada. Suspirei fundo. Eu me sentia monstruosamente sufocado em minha própria casa. Ir para a faculdade era a melhor parte do dia. E ultimamente, vinha sendo a melhor parte da minha vida. Estacionei bem na frente da entrada do Bloco “B” em tempo de encontrar com Sasuke e Shikamaru. Meu humor mudou somente em avistar aqueles dois babacas. Saí do carro como quem saísse de uma bolha.

- Eaí, minha loirinha gostosa! – Shikamaru me cumprimentou com nosso toque de mão – Chegou tarde. A cerveja até esquentou.

- Não ligo. Me passa uma aí – Estendi a mão para Sasuke, que me deu uma coronhada na cabeça.

- Só se você prometer que vai sair de novo com a Shion, hoje à noite. – Sasuke pediu.

- Eu passo! – Resmunguei, arrancando risadas dos dois. – A Shion é chata pra caralho. E eu já fiz isso por vocês.

- Você fala como se não tivesse gostado nem um pouco. – Sasuke declarou, dando uma longa golada em sua garrafa.

- Qual é, Naruto? – Shikamaru reclamou, pegando uma garrafa que deveria ser para mim – As meninas de estética só vão topar sair com a gente se você for também.

- Então podem começar a procurar por vídeos, porque hoje vocês vão ficar na mão! – Arranquei a garrafa da mão de Shikamaru e recostei-me no carro. – Estou precisando sossegar o meu facho.

- Eu não estou acreditando nisso – Sasuke riu, debochado – Parece que está fazendo isso só pelo puro prazer de empatar a gente.

- Que nada, eu iria na maior boa vontade com vocês – Dei uma golada em minha cerveja – Mas meus pais me pediram para estar em casa cedo, hoje. Acho que vamos sair juntos. O clima lá em casa está péssimo, então não quis contrariar. E para o que ela oferece, eu não ligaria em ter que ouvir a Shion falar merda a noite inteira.

- Isso é inegável – Shikamaru sorriu de esguelha.

De certa forma eu estava animado em poder sair com meus pais. Eu tinha esperanças de que isso pudesse nos reaproximar como família e talvez até extinguir as discussões constantes. Eu estava sonhando alto e sabia disso. Mas se conseguíssemos apenas amenizar o estresse em casa, já valeria de alguma coisa.

- Que foi, Sasuke? – Shikamaru perguntou, estranhando o olhar perdido do Uchiha – Que cara é essa? Você só tomou duas cervejas.

- Já entendi tudo – Constatei, vendo Sakura atravessar o estacionamento.

- Ah não. A Haruno de novo? – Shikamaru debochou.

- Aquela ali eu casava! – Sasuke declarou categoricamente, acompanhando com os olhos a rosada que entrava no bloco “C”. Sakura Haruno. Aluna de medicina. Território proibido para nós, de direito. Sasuke sabia disso. E eu sabia o quanto ele se frustrava por isso.

- Relaxa, amigão. – Caçoei de sua feição atormentada – Você pode usar a criatividade com a Karin e pedir pra ela usar uma peruca rosa.

- Mas não é a mesma coisa – Ele murchou, tomando um grande gole que quase esvaziou sua garrafa por completo – Nunca vai ser.

- Então já tentou, né – Shikamaru caçoou – Você é foda, meu amigo. Nunca conseguiu nem chegar na Haruno, mas está completamente cego de paixão. Não dá nem pra entender.

Eu até que conseguia entender, sim. Sasuke não estava exatamente apaixonado, mas encantado por alguém que, aparentemente lhe despertava coisas desconhecidas. Unindo isso à frustração de não poder sequer ter a chance de se envolver, só o fazia querer ainda mais. Eu sabia o que era se sentir assim, porque há mais ou menos cinco anos vi pela primeira vez Hinata Hyuga. Não era um sentimento como “gostar”. Eu nem mesmo a conhecia. Mas daquele dia em diante, foi impossível não observá-la. A sua beleza estonteante, a forma como ela caminhava tão segura de si, os cabelos negros esvoaçantes, os óculos que usava vez ou outra, combinando com sua personalidade atraente, cativante, dócil, intelectual. Eu sabia de tudo isso ao vê-la, mas a única coisa que realmente sabia a seu respeito era que Hinata era a irmã mais nova de nosso arquirrival de medicina. Território “quase” proibido. Desde então, eu me resumi a fazer o que podia para pelo menos estar o mais perto possível. Não que eu acreditasse na possibilidade de uma aproximação, mas porque havia algo inexplicável nela que me impedia de simplesmente ignorá-la. Às vezes eu tinha a sorte de chegar cedo e conseguir estacionar bem na frente do bloco B. Era bom poder vê-la passar. Eu sabia que isso era uma grande bobeira, mas me contentava que aquele fosse o máximo possível que eu teria de Hinata, enquanto ela não se formasse.

Quase me distraí com as provocações de Sasuke e Shikamaru para com as calouras que passavam. Eu gargalhava com as caras de pau deles. E mais ainda com o rubor delas. Eu também me juntava a eles, vez ou outra, não vou mentir. Mas era mais por diversão que qualquer outra coisa. Eu não me apegava muito a isso. Essa coisa de relacionamento não era pra mim.

De longe, avistei o carro dela.

Estacionou. Saiu de lá junto à Neji, aos risos e abraços. Os dois tinham uma relação de muito apego. Fiquei me perguntando se em sua casa havia o mesmo nível de afeto com o restante da família. Provavelmente sim. Não pude conter um sorriso, com o pensamento. Uma pontinha de inveja me surgiu também. Ela era uma garota feliz. Sempre sorrindo. Involuntariamente desejei ter, algum dia, por um momento, aquele sorriso.

Ela vinha na direção da entrada do bloco. As curvas perfeitamente encaixadas em roupas que pareciam terem sido feitas para o molde de seu corpo. O rosto mais angelical e expressivo que eu já vira. Eu sempre ficava embasbacado, me encorajando a dizer qualquer coisa. Nem que fosse um “oi”, ou um “bom dia”, mas em todos esses anos, tudo o que consegui foi ficar calado, olhando para ela. Qualquer coisa que eu dissesse não faria a menor diferença. Ainda seria pouco. Quase insignificante. Sasuke foi mais corajoso que eu, por fim. 

- Eaí, Hinata? Bom dia! – Ele a cumprimentou sugestivamente – Que tal a minha companhia para o almoço?

- Não mexe com ela, cara. É a irmã do Neji. – O adverti. E logo me repreendi mentalmente. Por que eu tinha feito aquilo?

- E você se importa? – Shikamaru indagou, confuso.

- Bom dia, meninos! – Ela respondeu, sem perder o sorriso e a compostura.

Fiquei a observando se dirigir para dentro do prédio. Como ela conseguia?

- Além de gata é educada. Gosto assim! – Sasuke acrescentou, tão impressionado com a presença dela quanto eu – Isso sim que é mulher, viu.

- Hinata Hyuga é tão... tão... Eu nem sei dizer – Shikamaru arfou, sorrindo abobalhadamente – Linda é pouco... Gostosa é pouco... Só sei que ela é o pote de ouro no fim do arco íris. Imagina só, poder tirar aqueles óculos e o jaleco bem devagar.

- Você só fala merda, Shikamaru. – O repreendi, forjando certo descaso.

- Vai me dizer que nunca imaginou isso? – Ele perguntou, surpreso – Qual é o seu problema?

- Não é isso... – Tentei me respaldar, perdido nas palavras – É claro que ela é linda, eu só... não acho ela isso tudo.

- Porra, Naruto! Tá brincando comigo? – Shikamaru riu, indignado.

- Se liguem só – Sasuke, que até então ficara quieto, resolveu abrir a boca – Até o final do semestre eu vou ficar com a Hinata e dizer pra vocês como foi.

 

Hinata

Apresentar o trabalho de astrofísica não foi um fracasso, graças a compreensão do meu grupo e ao divino café que Tenten me trouxe. Fiquei tão feliz com a nossa nota que me senti até mais desperta depois disso. Eu sabia que depois do almoço eu voltaria a desejar a minha cama mais que qualquer outra coisa, entretanto, enquanto Tenten estivesse ao meu lado, ela não me deixaria sequer cochilar. Ou talvez ela ficasse entretida demais para se lembrar do mundo à sua volta.

- Neji vem almoçar com a gente? – Indaguei para a menina boba a minha frente, que não sabia parar de sorrir enquanto lia as mensagens em seu celular – Eaí, o que ele disse?

- Oi? – Tenten acordou do transe, finalmente percebendo que eu lhe havia feito uma pergunta – Ah, sim.... Ele vem sim. Ele e Sakura.

- Ótimo. Podemos ir para o refeitório ou você vai continuar agindo como se eu não existisse? – Franzi o cenho com um falso descontentamento.

- Calma, ciumentinha! – Ela riu com certo deboche, enquanto me puxava pelo ombro para fora da sala – Tem Tenten para todo mundo!

- Só não esqueça que eu cheguei primeiro na sua vida – rolei os olhos, implicante – Não acredito que estou perdendo minha melhor amiga para o meu irmão.

- Para de choramingar, Hina. Você sabe que eu te amo mais! – Ela declarou, sem desgrudar os olhos do celular durante todo o caminho.

- Ah, então você já ama o Neji? – Provoquei, sem esconder o riso sugestivo – Olha só, como a gente descobre as coisas!

- Eu não quis dizer isso, sua palhaça! – Ela ria de nervoso – Olha... o Neji está dizendo que vai se atrasar um pouco. Pode indo na frente, Hina? Eu vou até ele e nós encontramos você no refeitório. Pode ser?

- Não acredito... – Parei bruscamente, de frente a ela – Você vai me deixar sozinha pra ir se agarrar com o meu irmão?

- Você só vai ficar sozinha se quiser... – Uma voz roucamente grave e masculina nos interrompia. Um tom levemente sedutor.

Virei-me a tempo de notar a inconfundível presença de Sasuke Uchiha. Os cabelos negros perfeitamente alinhados e caídos ao rosto. Aquele ar de mistério. Ele era realmente lindo, mas precisava admitir que sua aparência me assustava um pouco. Misterioso demais. Drástico demais. Talvez um pouco exagerado demais.

- Oi, Sasuke – Lhe cumprimentei educadamente.

- Almoça comigo, Hyuga? – Ele perguntou quase sussurrando, tão grave era a sua voz.

Eu não tinha motivo algum pra recusar o convite do Uchiha, exceto o incômodo de ter Tenten me perturbando com isso pelo resto da semana, ou do mês... Ou da minha vida. Seu rosto estava ficando quase roxo com a gargalhada entalada. Nossa intimidade era tão grande que eu podia ler o escárnio nos olhos dela. Magrela safada!

- Bom almoço, Hinata! – Tenten declarou entre risinhos que não pôde controlar. E como se não fosse constrangedor o bastante, deu dois tapinhas no ombro de Sasuke antes de se retirar – Cuide bem dela, Uchiha.

Que filha da puta!
Tenten tinha muita sorte por eu não ser uma pessoa vingativa. Mas ela iria me escutar muito, muito mesmo.

- Me desculpe pela Tenten, ela não regula direito – Tentei soar o mais natural possível para não transparecer a vergonha que eu estava sentindo.

- Sem problemas. Achei ela divertida, até – Ele sorriu afável, como quem tentasse me tranquilizar – Vocês são veteranas também, certo?

- Sim, isso – Respondi, prontamente – Nono período de Astronomia.

- Bem bacana. Acho muito legal “essas paradas” sobre universo. – Ele sorriu, desajeitado – Gosto de ver o céu e ficar imaginando tudo o que existe e que a gente ainda não conhece.

Sem querer, o Uchiha havia ganhado bons pontos comigo. Podia ser um cafajeste e um pouco imaturo, mas tinha um bom papo. Seguimos conversando agradavelmente até o refeitório. Estávamos tão conectados pelo assunto que mal notei que já estava me sentando com ele numa mesa e com nossas bandejas cheias. Sasuke encarava surpreso os meus três sanduíches, a super porção de batata e o milkshake tamanho G.

- Nossa, você come bem! – Ele declarou, espantado. – Uma cientista que come essas porcarias?

- Mesmo com todo o avanço nessas últimas décadas, a ciência ainda não foi capaz de desvendar o tamanho da minha fome – brinquei, arrancando uma breve gargalhada do Uchiha. – E esse cachorro quente na sua bandeja? Não me parece comida de advogado.

- É porque eu luto pelo direito das salsichas – Ele devolveu, sacana. Não pude conter a risada.

- Você é um canalha, Uchiha. – Peguei algumas batatas da minha generosa porção e as enfiei na boca – Tenho que admitir que pensei que seria o almoço mais desagradável da minha vida, mas você até que é divertido.

- Nossa, Hyuga! – Ele pôs uma mão no peito, como quem estivesse profundamente ofendido – Pensou isso de mim? O que tem ouvido acerca da minha reputação?

- Quer mesmo saber? – Sorri descaradamente – Tenho ouvido o quanto você é lindo, gato, bom de cama... Bem, pelo menos é o que dizem quase todas as calouras do Campus. Mas sinceramente, eu vejo só um rapaz que parece que ainda não saiu da puberdade e quer bater o próprio recorde de transas só para satisfazer o próprio ego.

- Você é bem esquisita, Hyuga. – Ele deu uma golada no meu refrigerante, de propósito. – Parece ser daquelas que teve um ex namorado bem babaca que a fez sofrer.

- Talvez. – Dei uma risada descontraída – E eu espero realmente que não esteja pensando que vai me colocar na sua lista para chegar a esse objetivo despudorado. – Dei uma dentada no sanduíche – Não quero que se frustre, Uchiha. Você vai perder o seu tempo.

Ele parou por um tempo, me observando com atenção. Talvez uma pitada de frustração tivesse nascido em seus olhos. No fundo, Sasuke sabia que não conseguiria me fazer cair tão fácil assim na sua conversa. Eu não era como as meninas que ele estava acostumado a lidar. E ele havia se dado conta disso antes de começar a insistir.

- Não vou ganhar nem um beijo? – Ele tentou uma última vez, mas já admitindo sua própria derrota.

- Tudo bem... – Resmunguei, rolando os olhos – Ergui-me da cadeira onde estava e fui até ele, depositando um beijo em seu rosto. – Você é um cara legal, Uchiha. Devia se valorizar mais. Por que não tenta algo sério com uma garota que goste?

Sasuke sorriu para mim de forma afável e logo vi seu olhar se perder, como quem estivesse com o pensamento longe. Quase que simultaneamente, Neji chegou à nossa mesa com Tenten e Sakura atrás de si.

- Sasuke Uchiha? – Neji indagou surpreso ao se deparar com o moreno tão próximo a mim – Vai nos dar a honra de sua ilustre presença durante o almoço?

Não sei como ou onde começou, mas de repente todas as pessoas do refeitório começaram a se levantar e olhar para a nossa mesa. Alunos de direito começaram a gritar frases de incentivo a Sasuke. E os de medicina fizeram o mesmo por Neji. Acredito que estavam esperando por uma briga.

- Eu só estava fazendo companhia a Hinata enquanto vocês não chegavam – Sasuke respondeu, se levantando e me lançando um olhar de agradecimento – Mas eu já estava de saída, e...

- Fica com a gente – Neji pediu, deixando uma porção de interrogações nas testas das pessoas a nossa volta – Não precisa sair da mesa. Você já estava comendo, quando chegamos.

Sasuke olhou para Neji com um pouco de receio e, logo depois, seus olhos pousaram em Sakura, de forma mais demorada que o considerado normal. Havia um brilho diferente ali. Algo que jamais foi possível notar nos olhos do Uchiha, antes. Por fim ele me encarou como quem esperasse pela minha opinião. Então eu assenti, encorajando-o a ficar.

- Bom, se vocês não veem problemas... – E sentou-se desajeitadamente em sua cadeira novamente.

No mesmo instante o falatório se intensificou. Pessoas tiravam fotos nossas, espantadas. Aquele com certeza seria o assunto da semana por todo o Campus. Os rivais de Medicina e Direito almoçando juntos. Uma grande baboseira! Sakura, entretanto, estava quase surtando com todo aquele alvoroço. E sem aguentar mais, levantou-se extremamente irritada.

- Vocês querem parar com essa putaria dos infernos? – Ela gritou para a multidão. Tenten levou um susto tão grande que deixou o garfo cair no chão. Neji deu uma risadinha discreta. Sakura era cômica naturalmente, mas quando se irritava... – A gente só quer almoçar em paz.  Peguem as porras desses celulares e enfiem no cu de vocês! – deu um longo suspiro e sentou-se novamente, parecendo bem mais leve e satisfeita. – Podemos comer agora, gente.

Começamos a rir até nossas barrigas doerem. Já estávamos acostumados com o temperamento da rosada, mas nunca perdia a graça. Sasuke sorria como quem tivesse apreciado muito aquela cena. Ele a olhava demais. Abobalhadamente. Eu podia estar delirando, mas acho que daquele mato saía coelho. Chutei a perna de Sasuke por debaixo da mesa, recebendo sua mais pura expressão de dor, em resposta.

- Acabou de levar o meu fora e já está de olho em outra? – Sussurrei para que apenas ele ouvisse. – Você age rápido.

Sasuke franziu o cenho com a cara mais lavada do mundo, como se não tivesse entendido a minha insinuação. Quase não contive uma risada. Sasuke era um cínico, mas eu estava feliz que tivéssemos nos aproximado naquele dia.


Notas Finais


O que acharam dessa ambientação inicial? Obrigada por sua leitura!
Beijos.


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...