História Eu a amo... (Jeon Jungkook) - Capítulo 11


Postado
Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Jeon Jeongguk (Jungkook), Kim Namjoon (RM), Park Jimin (Jimin)
Visualizações 8
Palavras 3.881
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Comédia, Drama (Tragédia), Policial, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Violência
Avisos: Álcool, Drogas, Estupro, Linguagem Imprópria, Sexo, Suicídio, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 11 - Apenas um toque


Ravena

A mãe ficou no quarto, na manhã seguinte, enquanto Ravena se arrumava.

– Aqui – sussurrou, pegando uma escova e prendendo o cabelo da filha num rabo de

cavalo, sem desfazer o cacheado. – Ravena...

– Sei por que você está aqui – Ravena disse, afastando-se. – Não quero falar sobre isso.

– Escute.

– Não. Eu sei. Ele não vai voltar, tá bem? Não convidei, mas vou falar com ele, e ele não

vai voltar.

– Tá, bem... melhor – sussurrou a mãe, dobrando os braços. – É que você é tão nova.

– Não – Ravena retrucou –, não é isso. Mas não importa. Ele não vai voltar, tá bom? As

coisas nem estão desse jeito também.

A mãe saiu do quarto. Daniel ainda estava em casa. Ravena saiu pela porta da frente

quando o ouviu abrir a torneira do banheiro.

As coisas nem estão desse jeito, ela pensou enquanto caminhava até o ponto de ônibus. E

o pensamento lhe deu vontade de chorar, porque ela sabia que era verdade.

E a vontade de chorar virou raiva.

Porque, se ela ia chorar por uma coisa, seria pelo fato de sua vida ser uma droga completa, e não porque um garoto legal e bonitinho não gostava dela desse jeito.

Principalmente considerando que ser amiga de Jeon era, basicamente, a melhor coisa que

já lhe acontecera na vida.

Ela devia estar parecendo muito irritada quando subiu no ônibus, pois Jeon nem disse oi

assim que ela se sentou.

Ravena ficou olhando para o corredor.

Depois de alguns segundos, ele pôs a mão no lenço de seda amarrado no pulso dela e brincou com ele.

– Desculpa – disse.

– Pelo quê? – ela até parecia brava. Gente, como era idiota.

– Sei lá – ele respondeu. – Fiquei com medo de você ter levado bronca ontem à noite...

Ele puxou o lenço de novo, então ela o olhou.

Tentou não parecer brava, mas preferia

parecer brava a parecer ter passado a noite inteira pensando em quão belos eram os lábios

dele.

– Aquele era o seu pai? – ele perguntou.

Ela jogou a cabeça para trás.

– Não. Era o meu... o marido da minha mãe. Ele não é nada meu. Meu problema, talvez.

– Você levou bronca?

– Mais ou menos. – Ela não queria falar com Jeon sobre Daniel. Acabara de limpar toda a

presença dele do lugar ocupado por Jeon sua mente.

– Desculpa – ele disse de novo.

– Tudo bem – ela afirmou. – Não foi culpa sua.

De qualquer forma, obrigada por trazer o

Watchmen. Fiquei feliz por ter podido ler.

– Foi legal, né?

– Ah, sim. Meio brutal. Quero dizer, a parte do Comediante...

– É... Foi mal...

– Não, não quis dizer isso. Quero dizer... Acho que eu precisava reler.

– Reli duas vezes ontem à noite. Pode levar pra você hoje.

– Mesmo? Obrigada.

Jeon ainda segurava a ponta do lenço, esfregando a seda entre os dedos. Ela o observava.

Se ele olhasse para o rosto de Ravena naquele momento, veria quão idiota ela era. Dava

para sentir seu rosto ficando todo risonho e abobado. Se Ravena a olhasse naquele momento,

sacaria tudo.

Ele não olhou. Enrolou a seda em torno de seus dedos até que a mão dela ficou pendurada

no espaço entre eles.

Então, deslizou seda e dedos para dentro da palma da mão dela.

E Ravena desintegrou-se.

Segurar a mão de Ravena era como segurar uma borboleta. Ou um coração a bater. Como

segurar algo completo, e completamente vivo.

* * *

Assim que a tocou, perguntou-se como aguentara tanto tempo sem fazê-lo. Passou o dedão

pela palma e pelos dedos dela, ciente de cada respiração de Ravena.

Jeon já dera a mão para outras meninas. Meninas da Skateland. Uma menina no baile do

nono ano, no ano anterior. (Beijaram-se enquanto esperavam que o pai dela fosse buscá-la.)

Chegara até a pegar na mão da Tina, quando “saíam” no sétimo ano.

Até então, havia sido legal. Nada muito diferente do que segurar a mão de Josh, quando

eram pequenos, para atravessar a rua. Ou segurar na mão da avó a caminho da igreja. Talvez

um pouco mais tenso, mais embaraçoso.

Quando beijou a menina no ano anterior, com a boca seca e os olhos praticamente abertos, Jeon chegou a imaginar se havia algo errado com ele.

Chegou a supor – verdade, enquanto a beijava, chegou a supor – que fosse gay. Só que ele

não tinha vontade de beijar meninos também. E, se ele pensasse na Mulher-Hulk ou na

Tempestade (em vez de pensar na garota em questão, a Dawn), o beijo ficava bem melhor.

Talvez eu não sinta atração por meninas de verdade, pensou ele na época. Talvez eu seja

uma espécie de tarado por gibis.

Ou talvez, pensou ele mais tarde, ele não reconhecesse todas as outras garotas. Do mesmo jeito que um computador cospe fora um disquete se não lhe reconhecer o formato.

Quando tocou a mão de Ravena, ele a reconheceu. Ele soube.

Ravena

Desintegrada.

Como se tivesse dado algo errado em seu teletransporte para a Enterprise.

Se você, alguma vez, já parou para pensar na sensação de ser teletransportado, concluira que é muito similar a derreter, só que mais violento.

Mesmo estilhaçada em milhões de pedaços, Ravena ainda sentia o toque de Jeon em sua

mão. Sentia o dedão dele explorando-lhe a palma. Ficou sentada, completamente imóvel,

porque não tinha opção. Tentava lembrar-se de quais animais paralisavam a presa antes de

devorá-la.

Talvez Jeon a paralisara usando magia ninja, seu punho vulcano, e estava prestes a devorá- la.

Isso seria incrível.

Jeon

Soltaram as mãos quando o ônibus parou. Jeon foi inundado pela realidade, e olhou ao

redor, preocupado, para ver se alguém os estava observando. Depois, olhou para Ravena,

preocupado, para ver se ela o notara olhando ao redor.

Ela continuava com os olhos no chão, mesmo quando pegou a mochila e parou no corredor.

Se alguém o estivera observando, o que teria visto? Jeon não conseguia imaginar como seu

rosto tinha ficado enquanto ele tocava Ravena. Como alguém que dá o primeiro gole num

comercial de Pepsi Diet. Alegria extrema.

Jeon ficou atrás de Ravena no corredor. Ela tinha quase a mesma altura que ele. O cabelo

estava puxado para cima, e a nuca, ruborizada, toda pintadinha. Ele resistiu à vontade de encostar o rosto ali.

Acompanhou-a até o armário dela, e recostou-se na parede enquanto ela o abria. Eleanor

não disse nada, apenas rearranjou alguns livros lá dentro e tirou outros.

Conforme o prazer de tocá-la se dissipou, ele começou a reparar que ela não fizera nada

para tocá-lo também. Não dobrara seus dedos sobre os dele. Não olhara para ele. Ainda não

olhara para ele. Como assim?

Ele bateu gentilmente na porta do armário.

– Toc-toc.

Ela fechou a porta.

– Oi, e aí? – ela disse.

– Tudo certo? – Ela fez que sim. – Te vejo na aula de Inglês?

Ela fez que sim e saiu andando.

Puxa.

Ravena

Durante a primeira, a segunda e a terceira aulas, Ravena acariciou a palma da mão.

Não sentiu nada.

Como era possível que houvesse tantas terminações nervosas num só lugar?

E ficavam sempre ali ou simplesmente se ativavam quando tinham vontade? Porque, se

sempre estiveram ali, como ela conseguia girar uma maçaneta sem desmaiar?

Talvez fosse esse o motivo pelo qual tanta gente afirmasse ser mais gostoso dirigir carro

com câmbio manual.

Jeon

Puxa. Será que dava para estuprar a mão de alguém?

Ravena não conseguiu olhar para Jeon durante as aulas de Inglês e de História. Ele foi até

o armário dela depois da aula, mas ela não estava lá.

Quando ele entrou no ônibus, ela já estava sentada no banco de sempre... mas no lugar

dele, perto da parede. Ele ficou envergonhado demais para dizer qualquer coisa. Sentou-se ao

lado dela e pousou as mãos no meio das pernas.

Sendo assim, ela teve de ir longe para alcançar o pulso dele, puxar sua mão e segurá-la.

Entrelaçou seus dedos nos dele e tocou-lhe a palma com seu dedão.

Os dedos de Ravena tremiam.

Jeon ajeitou-se no banco e ficou de costas para o corredor.

– Tudo certo? – ela sussurrou.

Ele fez que sim, respirando fundo. Os dois olharam para suas mãos.

Puxa.

Ravena

Os sábados eram os piores dias.

Nos domingos, Ravena pensava o dia todo em quão perto já estava a segunda. Mas os

sábados levavam dez anos para passar.

Já terminara de fazer a lição de casa. Algum doente escrevera “eu te deixo molhadinha?”

no livro de geografia dela, então passou bastante tempo cobrindo a frase com caneta preta.

Tentou transformá-la em alguma flor.

Assistiu a desenhos animados com os irmãos menores até começar a passar o golfe, depois

jogou paciência de dupla com Maisie, a ponto de ambas se sentirem entediadas ao extremo.

Mais tarde, escutou música. Guardara as duas últimas pilhas que Jeon lhe dera para que

pudesse escutar a fita naquele dia, em que mais sentia saudades dele. Estava com cinco fitas, o

que significava que, se as pilhas durassem, ela teria 450 minutos para passar com Jeon em sua

mente, segurando sua mão.

Podia parecer bobagem, mas era o que fazia com ele, até nas fantasias, nas quais tudo era

possível. Até onde ela sabia, isso mostrava quão maravilhoso era segurar a mão de Jeon.

(Além disso, eles não ficavam apenas de mãos dadas. Jeon tocava as mãos dela como se

fossem algo raro e precioso, como se seus dedos estivessem intimamente conectados com o

restante de seu corpo. O que, é claro, era fato. Difícil explicar. Ele a fazia sentir como se ela

fosse mais do que a soma de suas partes.)

A única coisa chata da nova rotina dos dois no ônibus era que ela interrompera totalmente

as conversas. Ravela mal conseguia olhar para Jeon enquanto estavam se tocando. E Jeon

vinha tendo dificuldade de concluir suas frases. (O que significava que ele gostava dela. Ah!)

No dia anterior, a caminho de casa, o ônibus teve de dar uma volta de quinze minutos

devido a um encanamento estourado. Namjoon começou a reclamar porque precisava chegar ao

posto de gasolina em que trabalhava. Então, Jeon disse:

– Uau...

– O quê? – Ravena passara a se sentar na janela, onde se sentia mais segura, menos

exposta, como se pudesse de fato fingir, às vezes, que o ônibus era só deles.

– Posso estourar canos com a mente.

– Mas que mutação mais limitada – disse ela. – Qual é seu codinome?

– Meu codinome... hum... – e aí ele começou a rir e puxou um dos cachinhos dela. (Esta

era a supernovidade, o toque nos cabelos. Às vezes, ele vinha por trás dela na escola e lhe

puxava o rabo de cavalo ou lhe dava um tapinha no coque.)

– Hum... Não sei qual seria meu codinome – ele falou.

– Que tal Funcionário Público? – disse ela, colocando sua mão sobre a dele, dedo com

dedo. Os dela eram bem menores, mal passando da metade dos dele. Devia ser a única parte

dela que era menor do que ele.

– Você é mesmo uma menininha – ele comentou.

– O que quer dizer?

– Suas mãos. Elas são tão... – Ele tomou uma das mãos dela dentro das dele. – Sei lá... vulneráveis.

– Mestre dos Canos – ela sussurrou.

– Oi?

– Seu codinome de super-herói. Não, espera, Encanador. Tipo o Super Mario!

Ele riu e puxou outro cachinho.

Essa fora a mais longa conversa que tiveram em duas semanas. Ela começou a escrever-

lhe uma carta – começou um milhão de vezes –, mas parecia uma coisa tão oitavo ano. O que

poderia escrever?

“Querido Jeon, gosto de você. Seu cabelo é muito bonito.”

Ele tinha mesmo um cabelo muito bonito. Muito, muito. Curtinho atrás, mas meio longo e

bagunçado na frente. Era quase totalmente liso e quase totalmente negro, o que, em Jeon,

parecia ser uma espécie de escolha de estilo de vida. Ele sempre usava preto, praticamente

dos pés à cabeça. Camisetas pretas de punk rock por baixo de camisas de manga comprida

pretas. Tênis pretos. Jeans azul. Quase tudo preto, quase todo dia. (Ele tinha uma camiseta

branca, mas com os dizeres “Bandeira preta” na frente, em grandes letras pretas.)

Sempre que Ravena usava preto, sua mãe dizia que parecia que ela estava indo a um funeral, num caixão. Enfim, era normal ela dizer esse tipo de coisa quando notava, vez ou outra, o que Ravena estava vestindo. Ravena teve de usar alfinetes do kit de costura da mãe para prender retalhos de seda e de veludo a fim de tampar os buracos dos jeans, e a mãe nem comentou nada.

Jeon ficava bem de preto. Parecia um desenho feito a carvão. Sobrancelhas grossas e

arqueadas. Cílios curtos e negros. Bochechas salientes, brilhantes.

“Querido Jeon, gosto muito de você. Você tem bochechas muito bonitas.”

Apenas não gostava de pensar sobre Jeon o que raios ele poderia ter visto nela.

Jeon

A picape ficava morrendo.

O pai de Jeon não dizia nada, mas o garoto sabia que ele estava ficando irritado.

– Tente de novo – disse o pai. – E só escutar o motor, depois trocar de marcha.

Era a simplificação mais simplificadora que Jeon já ouvira. Escutar o motor, pisar a

embreagem, pôr a marcha, pisar o acelerador, soltar a embreagem, manobrar, checar os

espelhos, dar a seta, olhar duas vezes para ver se vinham motos...

O mais chato era que ele tinha certeza de que se sairia muito bem se o pai não estivesse

sentado ao lado, fumegando. Jeon se imaginava fazendo tudo aquilo com muita eficiência.

Às vezes, acontecia o mesmo no taekwondo. Jeon nunca conseguia dominar uma técnica

nova se fosse o pai quem estivesse ensinando.

Embreagem, marcha, acelerador.

A picape morreu.

– Você pensa demais – o pai atacou, como sempre dizia.

Quando Jeon era criança, tentava argumentar:

– Não consigo não pensar – justificativa, em meio a uma aula de taekwondo. – Não

consigo desligar o cérebro.

– Se lutar desse jeito, alguém vai desligá-lo por você.

Embreagem, marcha, tremelique.

– Ligue de novo... Agora, não pense; só coloque a marcha... Eu disse: Não pense.

O automóvel morreu de novo. Jeon segurou o volante pelas laterais e deitou a cabeça nele,

desistindo. O pai irradiava frustração.

– Caramba, Jeon. Não sei o que fazer com você. Estou te ensinando já faz um ano. Ensinei

seu irmão a dirigir em duas semanas.

Se a mãe estivesse ali, teria marcado a falta.

– Não faz isso – diria ela. – Dois meninos. Diferentes.

E o pai rangeria os dentes.

– Acho que é fácil pro Josh não pensar.

– Pode chamar seu irmão de burro quanto quiser – falou o pai. – Ele consegue dirigir um

carro manual.

– Mas eu só vou dirigir o Impala na vida – Jeon murmurou, espontaneamente –, e é automático.

– A questão não é essa – comentou o pai, quase gritando.

Se a mãe estivesse ali, teria dito:

– Ei, ei, ei, não é assim que se fala. Vá lá fora e grite com o céu, seu nervosinho.

O que significava essa vontade de Jeon de ter a mãe por perto para defendê-lo?

Que ele era um bocó.

Era isso que o pai achava. Era provavelmente o que estava pensando naquele momento.

Pelo visto, estava tão calado justamente porque se controlava para não dizer isso em voz alta.

– Tente de novo – disse ele.

– Não, chega.

– Chega quando eu disser que chega.

– Não – disse Jeon. – Não quero mais.

– Bom, não vou dirigir até em casa. Tente de novo.

Jeon deu a partida na picape. Morreu de novo. O pai desferiu um tapa com sua mão gigante

no porta-luvas. Jeon abriu a porta da picape e saltou para o chão. O pai o chamou, gritando,

mas ele continuou andando. Estavam a apenas alguns quilômetros de casa.

Se o pai passou por ele de carro, indo para casa, Jeon nem reparou. Quando chegou a seu

bairro, no fim do dia, Jeon foi para a rua de Ravena, em vez da sua. Havia duas crianças meio

ruivinhas brincando no jardim, embora fizesse um pouco de frio.

Não dava para enxergar dentro da casa. Talvez, se ele ficasse ali fora por bastante tempo,

ela o visse pela janela. Jeon só queria ver seu rosto. Os grandes olhos castanhos, os lábios

rosados. A boca se parecia um pouco com a do Coringa, dependendo de quem o desenhava:

bem larga e curvada. Não psicótica, é claro...

Melhor Jeon jamais dizer-lhe isso. Não soava

nem um pouco como elogio.

Ravena não olhou pela janela. Quem olhou foram as crianças, então Jeon foi para casa.

Os sábados eram os piores dias de todos.

Ravena

As segundas-feiras eram os melhores dias de todos.

Naquela, quando Ravena entrou no ônibus, Jeon sorriu muito para ela. Tipo, sorriu o

tempo todo enquanto ela caminhava pelo corredor.

Ravena não conseguiu retornar o sorriso direto para ele, não na frente de todo mundo. Mas

não podia evitar sorrir, então o fez para o chão e olhou de vez em quando para ver se ele ainda

estava olhando para ela.

E ele estava.

Lisa também a estava olhando, mas a ignorou.

Jeon levantou-se quando ela chegou ao banco deles e, assim que se sentou, ele tomou a

mão dela e a beijou. Aconteceu tão rápido que ela nem teve tempo de morrer de êxtase ou de

vergonha.

Ela apenas deitou o rosto, por alguns segundos, sobre o ombro dele, sobre a manga de seu

casaco preto. Ele segurou a mão dela.

– Tava com saudade – Jeon sussurrou. Ela sentiu lágrimas lhe surgirem nos seus olhos e

virou-se para a janela.

Não disseram mais nada durante todo o trajeto até a escola. Jeon acompanhou Ravena até

o armário dela, e ambos ficaram ali, quietos, encostados na parede, quase até a hora em que o

sinal tocou. O corredor estava praticamente vazio

Então, Jeon ergueu a mão e enrolou um dos cachinhos dela no dedo.

– Já estou com saudade – disse, soltando-o.

* * *

Ravena atrasou-se para a chamada e não ouviu quando o Sr. Phelps lhe disse que ela tinha que ir à sala da orientadora. Ele jogou uma pasta na carteira dela.

– Ravena, acorde! A orientadora quer que você veja isso com ela.

Nossa, que cara idiota! Muito bom que estivesse ali só para fazer a chamada. No caminho

até a sala da orientadora, a garota foi tamborilando os dedos na parede, cantarolando uma canção que Jeon lhe mostrara.

Estava tão encantada que até sorriu para a Sra. Dunne quando chegou ao seu destino.

– Ravena – disse a orientadora, abraçando a garota. A Sra. Dunne era chegada num

abraço. Abraçaram-se logo na primeira vez em que se viram. – Como vai você?

– Vou bem.

– Boa aparência – comentou a Sra. Dunne.

Ravena olhou para baixo, para sua blusa (certeza de que um cara muito gordo a comprara

para jogar golfe em meados de 1968) e a calça jeans rasgada. Nossa, será que estava assim

tão mal-vestida?

– Ah, obrigada – agradeceu, meio em dúvida, rindo.

– Andei conversando com seus professores – explicou a moça. – Sabia que vai tirar nota

máxima em quase todas as matérias? – Ravena deu de ombros. Não tinha TV a cabo nem

telefone, e era como se morasse no subsolo da própria casa... Havia tempo de sobra para a

lição de casa. – Bom, você vai – continuou a orientadora. – Estou tão orgulhosa de você.

Ravena ficou feliz por haver uma mesa entre as duas nesse momento. A Sra. Dunne

parecia armada para atacá-la com outro abraço.

– Mas não foi por isso que chamei você aqui. O motivo aqui é que recebi uma ligação para

você agora de manhã. Um homem ligou... Ele disse ser seu pai... E ligou aqui porque não tinha

o seu telefone de casa..

.

– Na verdade, não tenho telefone – contou Eleanor.

– Ah – disse a outra –, entendo. Seu pai não sabe disso?

– Não deve saber – respondeu Ravena. Já era estranho ele saber em que escola ela

estudava.

– Gostaria de ligar para ele? Pode usar o telefone do escritório.

Se gostaria de ligar para ele? Por que raios ele ligara para ela? Talvez alguma coisa

horrível (alguma coisa horrível mesmo) acontecera. Talvez a avó tivesse morrido.

Caramba.

– Claro... – disse Ravena.

– Sabe – falou a Sra. Dunne –, pode usar meu telefone sempre que quiser. – Ela se

levantou e sentou-se na ponta da mesa, e descansou a mão no joelho de Ravena. A garota

estava a um triz de pedir uma escova de dentes, mas pensou que isso levaria a uma maratona

de abraços e afagos no joelho.

– Obrigada – agradeceu somente.

– Certo – a orientadora falou, radiante. – Volto já. Vou só retocar o batom.

Quando ela saiu, Ravena discou o número do pai, surpresa em ainda sabê-lo de cor. Ele

atendeu no terceiro toque.

– Oi, pai. É a Ravena.

– Oi, filha, tudo bem com você?

Ela considerou, por um instante, contar-lhe a verdade toda.

– Tudo – disse.

– Como estão todos?

– Bem.

– Vocês nunca ligam.

Nem adiantava dizer-lhe que eles não tinham telefone. Ou comentar que ele nunca retornara a ligação quando eles ainda tinham e ligavam. Ou até mesmo dizer que era ele quem devia encontrar um jeito de falar com eles, sendo que tinha telefone, carro e uma vida própria.

Não adiantava dizer nada ao pai. Ravena sabia disso fazia tanto tempo que nem se lembrava de quando compreendera o fato.

– Olha, tenho uma proposta legal pra lhe fazer – ele disse. – Pensei que você podia vir aqui na sexta à noite – a voz dele parecia com a de um desses caras da TV, desses que tentam

vender discos de coletânea. Os melhores disco dos anos 70 ou a mais nova coleção Time Life.

– Donna quer que eu vá a um casamento aí – ele continuou –, e eu lhe disse que talvez você

pudesse cuidar do Matt. Pensei que ia querer ganhar uma graninha.

– Quem é Donna?

– Ué, a Donna. Donna, minha noiva. Vocês a conheceram da última vez que vieram aqui.

Fazia quase um ano.

– Sua vizinha? – perguntou Ravena.

– Isso, Donna. Você pode vir e passar a noite aqui. Cuida do Matt, come uma pizza, fica no

telefone... Vão ser os dez dólares mais fáceis da sua vida.

E provavelmente os primeiros.

– Tá bom – disse Ravena. – Você vem buscar a gente? Sabe onde a gente mora agora?

– Busco você na escola; desta vez, só você. Não quero que fique com uma casa lotada de

crianças pra tomar conta. A que horas você sai da escola?

– Às três.

– Legal. Te encontro na sexta, às três.

– Tá bem.

– Bom, então tá. Te amo, filha, estude bastante.

A Sra. Dunne esperava encostada na porta, de braços abertos.

Bem, pensou Ravena, enquanto cruzava o corredor. Estava tudo bem. Todo mundo estava

bem. Ela beijou as costas da mão só para sentir os próprios lábios.

Jeon

– Não vou mais ao baile de formatura – disse Jeon.

– Claro que não. Ao baile – disse Cal. – Quero dizer, tá tarde demais pra alugar o

smoking, afinal.

Estavam adiantados para a aula de Inglês. Cal sentava-se dois lugares atrás dele, por isso

Jeon tinha de ficar olhando para trás o tempo todo para ver se Ravena já chegara.

– Vai alugar smoking? – perguntou Jeon.

– Ah, sim.

– Ninguém aluga smoking pra formatura.

– Então quem vai ser o cara mais classudo? E outra, você sabe alguma coisa de baile?

Você nem vai... ao baile, quero dizer. Agora, o jogo de futebol... outra história.

– Nem gosto de futebol – disse Jeon, olhando para a porta.

– Dá pra parar de ser o pior amigo do mundo por, tipo, uns cinco minutos?

Jeon olhou para o relógio.

– Claro.

– Por favor – pediu Cal –, faça esse único favor pra mim. Vai toda uma turma de gente

legal, e, se você for, a Kim vai se sentar com a gente. Você é tipo um ímã de Kim.



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...