História Eu a amo... (Jeon Jungkook) - Capítulo 14


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Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Jeon Jeongguk (Jungkook), Kim Namjoon (RM), Park Jimin (Jimin)
Visualizações 11
Palavras 4.595
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Comédia, Drama (Tragédia), Policial, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Violência
Avisos: Álcool, Drogas, Estupro, Linguagem Imprópria, Sexo, Suicídio, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 14 - Menina problema.


Havia adultos o bastante para acompanhar os meninos até a escola. Ravena levou o casaco e a mochila de Jeon para o armário dela. Não sabia o que fazer com eles.

Não sabia também o que fazer consigo mesma. Não sabia o que sentir.

Devia sentir-se feliz por Jeon ter dito que ela era namorada dele? Não que ele tivesse perguntado o que ela achava dessa história de namoro. E não que ele tivesse dito com felicidade. Disse com a cabeça baixa, com o rosto pingando sangue.

Ela deveria se preocupar com ele? Será que tinha ficado com alguma sequela no cérebro, mesmo falando normalmente? Será que teria um acesso e entraria em coma? Sempre que alguém na família dela brigava, a mãe começava a gritar: “Na cabeça não, na cabeça não!”.

Além disso, era errado sentir-se preocupada com o rosto dele?
Namjoon tinha um tipo de rosto que podia ficar sem um ou dois dentes. Algumas lacunas no sorriso dele apenas incrementariam o estilo monstrengo brutamontes que ele almejava.

Mas o rosto de Jeon era uma peça de arte. Não aquele tipo esquisito, feio de arte. Jeon tinha o estilo de rosto que alguém pinta por não querer que a história o esqueça.

E será que Ravena deveria continuar brava com ele? Deveria ficar indignada? Deveria gritar com ele quando o visse na aula de Inglês, dizendo: “Foi por minha causa? Ou por você mesmo?”.

Ela pendurou o casaco dele no armário, e inclinou-se lá dentro para respirar fundo. O cheiro era de Irish Spring com um toque de potpourri, mais um cheiro que ela não conseguia descrever com uma palavra que não fosse garoto.

* * * 


Jeon não foi à aula de Inglês, nem à de História, e não entrou no ônibus depois da aula.

Namjoon também não. Lisa passou pelo lugar em que Ravena se sentava com o queixo para o alto; Ravena desviou o olhar. Todo mundo no ônibus conversava sobre a briga.

– Kung Fu, mano, David Carradine.

– Que David Carradine? Chuck Norris, velho.
Eleanor desceu no ponto em que Jeon descia.

Park 


Ele a vira brava assim com o Josh, ocasião em que chegou a jogar um vaso de flores na cabeça do irmão, mas nunca com ele.

– Que feio – disse ela –, muito feio! Não acredito que você fez isso!

O pai tentou colocar a mão no ombro da esposa, mas ela o repeliu.
– Pega um bife pro menino, Harold – disse a avó, sentando Jeon à mesa da cozinha e inspecionando o rosto dele.

– Não vou desperdiçar bife com isso – respondeu o avô.

O pai abriu um armário para pegar analgésico e um copo de água para o filho. 


– Consegue respirar? – perguntou a avó. 


– Pela boca – respondeu o garoto. 


– Seu pai quebrou o nariz tantas vezes que só consegue respirar por uma narina. Por isso que ele ronca feito um trem de carga.

– Chega de taekwondo – disse a mãe. – Chega de luta.

– Mindy... – argumentou o pai. – Foi só uma briga. Ele estava defendendo uma menina com quem todo mundo mexe.

– Não é uma menina – Jeon grunhiu, e sua voz fez todos os ossos de seu rosto vibrarem de dor. – É minha namorada.

Pelo menos ele achava que era.

– É a Morena? – perguntou a avó.

– Ravena – disse ele. – O nome dela... é Ravena.

– Nada de namorada, nada – falou a mãe, cruzando os braços. – Castigo.
Ravena

Quando Ravena tocou a campainha, o cara do Magnum P. I. atendeu à porta.

– Oi – disse ela, tentando sorrir. – Eu estudo com o Jeon. Estou com os livros e as coisas dele.

O pai de Jeon mediu a garota de alto a baixo, mas não como se a estivesse admirando, felizmente. Estava mais analisando mesmo. (O que foi igualmente desconfortável.)

– Você é a Raquel? – perguntou ele.Levou dois dias de suspensão.

– Ravena.

– Ravena, isso... Só um minuto.

Antes que ela pudesse dizer que só queria deixar as coisas de Jeon, o homem saiu andando. Deixou a porta aberta, por isso Ravena conseguiu ouvi-lo falando com alguém, provavelmente na cozinha, devia ser a mãe do Jeon. “Ah, vai, Mindy...”, depois: “Só alguns minutos...”, e um pouco antes de ele voltar à porta: “Com aquele apelido, pensava que ela era muito maior”.

– Eu só vim trazer isto – disse Ravena, quando ele abriu a tela da porta.

– Obrigado – ele respondeu –; entre. – Ravena abraçou a mochila de Jeon. – É sério, filha – disse ele. – Entre e entregue pra ele você mesma. Tenho certeza de que ele quer te ver.

Não tenha, pensou ela.

Contudo, Ravena o acompanhou pela sala, cruzando o corredor até o quarto de Jeon. O pai dele bateu de leve à porta e olhou lá dentro.

– Ei, Maguila. Tem visita pra você. Quer passar pó no nariz primeiro?

Ele abriu a porta para Ravena, depois saiu andando.

O quarto de Jeon era pequeno, e atolado de coisas. Pilhas de livros e fitas e gibis.

Miniaturas de avião. Miniaturas de carro. Jogos de tabuleiro. Havia um sistema solar que rodava pendurado por cima da cama dele como uma daquelas coisas que se penduram sobre um berço.

Jeon estava na cama, tentando erguer-se pelos cotovelos, quando ela entrou.

Ela se assustou quando viu o rosto dele, muito pior do que antes.
Um dos olhos estava fechado, de tão inchado, e o nariz, grande e roxo. Deu vontade de chorar. E de beijá-lo. (Porque, pelo visto, qualquer coisa dava vontade de beijá-lo. Jeon podia dizer que ele tinha piolho e lepra e vermes parasitas vivendo em sua boca, e mesmoassim ela usaria gloss de menta. Nossa.)

– Você tá bem? – ela perguntou. Jeon fez que sim e sentou-se, recostando-se na cabeceira.

Ela largou os livros e o casaco dele e foi até a cama. Ele abriu espaço para ela, e ela se sentou. – Uau – ela disse, e caiu de costas, batendo em Jeon. Ele gemeu e segurou o braço dela. – Desculpa. Ai, meu Deus, você tá bem? Não sabia que era cama de água. – Só de falar isso, deu vontade de rir. Jeon um pouco também. Pareceu mais um ronco.

– Minha mãe comprou – disse ele. – Ela acha que faz bem para as costas.

Ele mantinha os olhos fechados quase por completo, até mesmo o que não estava machucado, e não abria a boca ao falar.

– Tá doendo muito? – ela perguntou.

Ele fez que sim. Não soltou o braço dela, mesmo depois que ela recobrou o equilíbrio. Na verdade, estava segurando-o com mais força ainda.

Ela ergueu a outra mão e tocou de leve o cabelo dele. Afastou-o da testa. Era uma sensação de maciez e vigor ao mesmo tempo, como se ela pudesse sentir cada fio com seus dedos.

– Desculpa – ele disse.

Ela não perguntou por quê.
Havia lágrimas brotando da fresta aberta do olho esquerdo dele, e outra escorrendo pela bochecha direita. Ela pensou em limpá-las, mas não quis tocar-lhe o rosto.

– Tudo bem... – disse somente. E apoiou a mão no colo.

Ficou imaginando se ele ainda estava tentando terminar com ela. Se sim, ela não criaria caso.

– Estraguei tudo? – ele perguntou.

– Tudo o quê? – ela sussurrou, com receio de que até suas palavras fossem doloridas.
– Tudo da gente.
Ela fez que não, ainda que provavelmente não a estivesse vendo.
– Não. Impossível – ela respondeu. Ele percorreu o braço de Ravena com a mão e apertou a dela. Ela pôde ver os músculos contraindo-se no antebraço dele e por baixo da manga da camiseta. – Acho que estragou seu rosto – continuou ela. Ele gemeu. – O que não tem problema – ela disse –, porque você era bonito demais pra mim, afinal.

– Você me acha bonito? – ele perguntou, sério, puxando a mão dela.

Ela ficou feliz por ele não poder ver sua expressão.
– Eu acho...
Lindo. De tirar o fôlego. Como a pessoa, num mito grego, que faz um dos deuses não se importar mais em ser um deus.

De algum modo, os hematomas e o inchaço deixavam Jeon ainda mais lindo. Seu rosto parecia pronto para romper o casulo e libertar-se.

– Eles vão continuar tirando sarro de mim – ela soltou. – A briga não muda nada. Você não pode sair batendo nas pessoas toda vez que alguém me achar estranha ou feia... Promete que não vai acontecer de novo? Promete que vai tentar não se importar?

Ele puxou a mão dela de novo, e balançou a cabeça devagar.

– Porque não importa pra mim, Jeon. Se você gostar de mim – ela disse –, eu juro por Deus, nada mais importa.

Ele se encostou na cabeceira e puxou-a para seu peito.

– Ravena, quantas vezes tenho que te dizer – ele falou por entre os dentes – que não gosto de você?

* * *

Jeon estava de castigo, e não voltaria à escola até a sexta-feira.

Mas ninguém incomodou Ravena no dia seguinte, no ônibus. Nem no restante do dia.

Depois da aula de Educação Física, ela deparou com mais bobagens escritas em seu livro de química: “vai, dá logo”, num roxo brilhante. Em vez de apagar, Ravena rasgou a capa e jogou-a fora. Podia não ter grana e ser uma pateta, mas se virava muito bem com um saco de papel pardo.

Quando Ravena chegou em casa, depois da escola, a mãe a acompanhou até o quarto dos irmãos. Havia dois pares novos de jeans da Goodwill sobre a cama dela.

– Achei um dinheirinho quando estava lavando roupa – disse a mãe. O que significava que Daniel deixara acidentalmente a quantia nas calças. Se ele chegasse bêbado em casa, jamais perguntaria sobre o dinheiro; julgaria somente que o gastara no bar.

Sempre que a mãe de Ravena encontrava algum dinheiro, tentava gastar com coisas que Daniel jamais notaria. Roupas para Ravena. Cuecas novas para o Ben. Latas de atum e pacotes de farinha. Coisas que ficariam escondidas em gavetas e armários. Sua mãe tinha se tornado uma espécie de agente duplo genial desde que começou a se relacionar com Daniel.

Era como se ela mantivesse todos ali vivos apesar dele.

Eleanor provou as calças antes que chegasse alguém em casa. Estavam um pouco largas, mas eram muito melhores do que tudo mais que ela tinha. Todas as outras calças tinham algum defeito – zíper quebrado ou rasgo no cavalo –, algum probleminha que ela tinha de esconder o tempo todo, puxando a camisa para baixo. Seria legal usar calças que não tinham nada mais de errado além do tamanho exagerado.

O presente para Maisie foi uma sacola de Barbies com pouca roupa. Quando a garota chegou em casa, deitou as bonecas na cama de baixo do beliche e ficou tentando reunir peças para completar um ou dois conjuntinhos.

Ravena sentou-se na cama com ela e ajudou-a a pentear e a prender os cabelos frisados das bonecas.

– Queria um Ken também – disse Maisie.

* * *
Na sexta, pela manhã, quando Ravena chegou ao ponto de ônibus, Jeon já estava lá, esperando por ela.

Jeon


O olho dele passara de roxo para azul para verde para amarelo. 


– Quanto tempo de castigo? – perguntou ele à mãe. 


– Tempo suficiente pra você se arrepender da briga. 


– Eu já me arrependi – ele retrucou. 


Mas não era verdade. A briga transformara alguma coisa no ônibus. Jeon passara a sentir-se menos ansioso, mais relaxado. Talvez por ter enfrentado Namjoon. Talvez por não ter mais nada a esconder...

Além disso, ninguém da galera do ônibus tinha visto alguém chutar daquele jeito antes.

– Foi fantástico – disse Ravena no caminho para a escola, alguns dias depois da briga. –

Onde aprendeu a fazer aquilo? 


– Meu pai me faz aprender taekwondo desde que eu entrei no jardim de infância... Foi meio que um chute babaca, convencido. Se Namjoon tivesse usado a cabeça, podia ter agarrado a minha perna ou me puxado.

– Se Namjoon usasse a cabeça... – ela disse.

– Pensei que você tivesse achado ruim. 


– Achei. 


– Ruim e fantástico? 


– São seus nomes do meio... 


– Quero tentar de novo. 


– Tentar o que de novo? Esse golpe de Karate Kid? Acho que isso seria menos fantástico. 


Você tem que aprender quando é hora de deixar quieto... 


– Não, quero que vá lá em casa de novo. Quer ir? 


– Não tem por quê. Você tá de castigo.

– É...

Ravena


Todos na escola sabiam que Ravena era o motivo pelo qual Jeon jungkook tinha chutado Namjoon Dixon na boca.

Havia todo um novo murmurar quando ela passava pelos corredores.
Um aluno na aula de Geografia perguntou-lhe se era verdade que os dois a estavam disputando.

– Não – ela disse –, pelo amor de Deus.

Mais tarde, desejou ter dito “Sim!”, porque, se a história chegasse até a Lisa, ela ficaria furiosa.

No dia da briga, Gy e Beebi queriam que Eleanor contasse cada detalhe sangrento.

(Principalmente os detalhes sangrentos.) Acompanharam Ravena na hora do almoço e se

sentaram com ela. Gy comprou um sorvete para Ravena, para comemorar.

– Qualquer um que acabe com o Dixon é meu amigo – disse Gy.

– Eu nem cheguei perto do Steve – Ravena explicou.

– Mas você foi a causa do acabamento – disse Gy. – Ouvi dizer que seu boy chutou o Namjoon com tanta força que ele chorou sangue.

– Não é verdade – Ravena retrucou.

– Gata, você tem que aprender uma lição sobre usar seu próprio brilho – disse Gy. –

Se meu Jonesy acabasse com o Namjoon, eu andaria por este lugar cantando aquela música do

Rocky. Nã-nã-nããã, nã-nã-nããã... 


Isso fez Beebi dar uma risadinha. Tudo que Gy dizia fazia Beebi dar uma risadinha.

Eram melhores amigas desde o Ensino Fundamental, e quanto mais Ravena as conhecia, mais se sentia honrada por permitirem que ela entrasse para a turma.

Apesar de tratar-se de uma turma esquisita.

Gy estava usando um de seus macacões, uma camiseta rosa por baixo, faixas amarelas e cor-de-rosa nos cabelos e uma bandana rosa amarrada ao redor da perna. Quando estavam na fila para o sorvete, um garoto passou e disse que ela parecia uma Punky, “a levada da breca”, negra.

Gy nem lhe deu atenção.

– Não me preocupo com essa gentalha – disse ela a Ravena. – Já tenho namorado.

Jonesy e Gy estavam noivos. Ele já se formara e trabalhava como assistente da gerência na ShopKo. Pretendiam se casar assim que Gy atingisse a maioridade.

– E seu namorado é uma graça – disse Beebi, dando uma risadinha.

Quando Beebi ria, Ravena ria junto. O riso dela era tão contagiante. E ela vivia com uma expressão maníaca de surpresa, aquela expressão de quem não consegue ficar sério jamais.

– Ravena não deve concordar – DeNice provocou. – Ela só se interessa por assassinos de sangue-frio.

Jeon


– Quanto tempo de castigo? – Jeon perguntou ao pai.

– Não sou eu que mando; é sua mãe. 


O pai estava sentado no sofá, lendo a revista Soldier of Fortune. 


– Ela disse que é pra sempre – Jeon falou.

– Então, acho que é pra sempre. 


Já estavam chegando as férias de Natal. Se Jeon continuasse de castigo durante o Natal, teria que passar três semanas sem ver Ravena.

– Pai...

– Tenho uma ideia – disse o pai, pondo a revista de lado. – Você pode sair do castigo assim que aprender a dirigir o carro manual. Então vai poder dirigir por aí com a namorada...

– Que namorada? – perguntou a mãe. Ela veio da porta de entrada da casa, trazendo compras. Jeon levantou-se para ajudá-la. O pai levantou-se para recebê-la com um beijo de língua.

– Eu disse ao Jeon que vou tirá-lo do castigo se ele aprender a dirigir carro manual.

– Eu sei dirigir – Jeon gritou da cozinha.

– Aprender a dirigir em carro automático é como aprender a fazer flexão de menina – o pai retrucou.

– Nada de menina – disse a mãe. – Tá de castigo.

– Mas até quando? – Park perguntou, voltando à sala. Os pais estavam sentados no sofá. – Não podem me deixar de castigo pra sempre.

– Podemos sim – disse o pai.

– Por quê? – perguntou o garoto. 


A mãe parecia nervosa. 


– Vai ficar de castigo até parar de pensar nessa menina problema. 


Jeon e o pai interromperam sua discussão para fitar a mãe.

– Que menina problema? – Park perguntou. 


– A Morena? – o pai perguntou em seguida.

– Não gosto dela – disse a mãe, dura feito aço.


– Ela vem à minha casa e chora, muito esquisita a menina, e de uma hora pra outra você chuta amigo e a escola liga, rosto quebrado...

E todo mundo, todo mundo me diz que a família é problema. Só problema. Não quero.

Jeon respirou fundo e se conteve. Seu interior estava todo quente demais para que ele dissesse algo.

– Mindy... – disse o pai, erguendo o dedo para o filho, como quem diz “Espere um minuto”.

– Não – disse ela – e não. Nada de menina branca esquisita em casa.

– Não sei se você reparou, mas meninas brancas esquisitas são minha única opção – disse
Jeon o mais alto que pôde. Mesmo irritado como estava, não conseguia gritar com a mãe.

– Tem outras meninas – disse ela. – Boas meninas. 


– Ela é uma boa menina – Jeon argumentou. – Você nem a conhece.

O pai estava em pé, empurrando Jeon para a porta.

– Vá – disse ele, gentilmente. – Vá jogar basquete ou outra coisa. 


– Boas meninas não se vestem que nem meninos – retrucou a mãe.

 
– Vá – disse o pai. 


Jeon não estava com vontade de jogar basquete, e fazia frio demais lá fora para ficar sem casaco. Ele ficou parado em frente a casa por alguns minutos, depois disparou em direção à dos avós. Bateu à porta, em seguida a abriu; eles nunca trancavam a casa.

Os dois estavam na cozinha, assistindo a Family Feud. A avó fazia linguiça polonesa.

– Jeon! – exclamou ela. – Parece até que eu sabia que você viria. Fiz um monte de batata frita.

– Pensei que estivesse de castigo – disse o avô. 


– Xiu, Harold, não tem essa de castigo com os avós... Tudo bem com você, filho? Tá todo vermelho.

– Só tô com frio – respondeu Jeon.

– Vai ficar pro jantar? 


– Vou. 


Depois do jantar, ficaram assistindo a Matlock. A avó fazia crochê. Trabalhava num cobertor para um chá de bebê. Jeon fitava a TV, mas não absorvia nada.

A avó enchera a parede detrás da TV com fotografias de oito por dez. Havia fotos do pai dele e do irmão mais velho deste, que morrera no Vietnã, e fotos de Jeon e Josh de cada ano escolar. Havia uma foto menor dos pais dele, no dia do casamento. O pai usava o uniforme, e a mãe, uma minissaia rosa. Alguém escrevera “Seul, 1970” no canto. O pai tinha 23 anos. A mãe, somente 18, apenas dois anos a mais que Jeon.

Todos pensaram que ela devia estar grávida, segundo o pai dele. Mas não estava.

– Praticamente grávida – disse o pai –, mas é diferente... Só estávamos apaixonados. 


Jeon não esperava que sua mãe gostasse de Ravena, não logo de cara, mas não esperava que a rejeitasse. Ela era tão legal com todo mundo. “Sua mãe é um anjo”, dizia sempre a avó.

Era o que todos diziam.

Os avós o mandaram de volta para casa depois de Hill Street Blues.
A mãe já havia ido para a cama, mas o pai estava sentado no sofá, esperando por ele. Jeon tentou passar direto.

– Sente-se aí. – Jeon se sentou. – Não está mais de castigo – disse o pai.

– Por que não?


– Não importa por quê. Não está de castigo, e sua mãe pediu desculpas, viu? Pelo que ela disse.

– Tá falando da boca pra fora.

O pai suspirou. 


– Bom, talvez sim. Mas também não importa. Sua mãe quer o melhor pra você, certo? Não foi sempre assim?

– Acho que sim..

– Então, ela só está preocupada com você. Acha que pode ajudá-lo a escolher uma

namorada do mesmo jeito que ajuda a escolher suas aulas e suas roupas... 


– Ela não escolhe as minhas roupas. 


– Nossa, Jeon, dá pra ficar quieto e escutar –Jeon ficou calado, sentado na poltrona azul.

– Isso é novidade pra gente, sabe? Sua mãe pediu desculpas. Por ter magoado você, e quer que você convide sua namorada pra jantar.

– Pra fazê-la se sentir mal e esquisita?

– Bom, ela é meio esquisita, né? – Jeon não tinha mais energia para se irritar. Suspirou e deixou a cabeça pender na poltrona. O pai continuou a falar: – Mas não é por isso que você gostou dela?

* * *

Jeon sabia que ainda devia estar bravo.

Sabia que boa parte da situação permanecia totalmente errada e fora do lugar.
Mas não estava mais de castigo; poderia passar mais tempo com Ravena... Talvez até conseguissem ficar sozinhos. Jeon mal podia esperar para contar isso a ela. Não podia esperar até a manhã seguinte.

Ravena


Era algo terrível de se admitir. Mas, às vezes, Ravena conseguia dormir em meio à gritaria.

Principalmente passados alguns meses depois que voltara a morar com eles. Se fosse acordar toda vez que Daniel ficava bravo... Se ficasse com medo toda vez que ouvisse gritos no quarto ao lado...

Às vezes, Maisie a acordava, subindo na cama de cima. A menina não deixava que

Ravena a visse chorando durante o dia, mas tremia feito um bebê e chupava o dedo à noite.

Todos os cinco aprenderam a chorar sem fazer barulho.
– Tudo bem – dizia Ravena, abraçando-a. – Tudo bem.

Naquela noite, quando Ravena acordou, percebeu algo diferente.

Ouviu a porta dos fundos abrindo com tudo. E notou que, antes de estar completamente desperta, ouvira vozes de homens lá fora. Homens xingando.

Ouviu mais trancos na cozinha. Depois, tiros. Eleanor sabia que eram tiros de revólver, ainda que nunca tivesse ouvido um.

Uma gangue, pensou ela. Traficantes. Estupradores. Uma gangue de traficantes estupradores. Dava para imaginar milhares de pessoas abomináveis que queriam arrancar um pedaço do crânio de Daniel; até os amigos dele eram de dar medo.

Ravena pôs-se a caminho da porta assim que ouviu o tiroteio. Foi até a cama de baixo, engatinhando por cima de Maisie.

– Fique aqui – ela sussurrou, sem ter certeza se a menina estava acordada.

Ravena abriu a janela apenas o bastante para poder passar. Não havia tela antimosquito.

Então saltou e correu suavemente para fora da varanda. Parou na porta do vizinho, um velhinho chamado Gil, que usava suspensórios e camisetas e olhava esquisito para eles quando saía para varrer a calçada.

Gil levou séculos para atender, e, quando o fez, Ravena percebeu que usara toda a adrenalina que tinha para bater à porta.

– Oi – ela disse, sem forças. O cara parecia malvado e maluco feito o diabo. Do tipo que se insinua até para uma criança, querendo maltratá-la.

– Posso usar seu telefone? – ela perguntou. – Preciso ligar pra polícia.

– O quê? – Gil grunhiu. O cabelo dele estava todo ensebado, e o cara usava suspensório até com pijama.

– Preciso ligar pro 911 – ela disse. As palavras soaram como se estivesse pedindo uma xícara de açúcar. – Ou talvez você poderia ligar por mim? Tem gente na minha casa... Gente armada. Por favor.

Gil não pareceu impressionado, mas deixou-a entrar. A casa era bem legal por dentro.

Ravena imaginou se ele tinha esposa ou se era ele mesmo que gostava de babados. O telefone ficava na cozinha.

– Acho que tem gente na minha casa – disse Eleanor ao atendente do 911. – Ouvi tiros.

Gil não a mandou sair, então ela esperou pela polícia na cozinha. Tinha uma panela cheia de brownies sobre o balcão, mas ele não lhe ofereceu nada. A geladeira era coberta de ímãs em forma de estados, e havia um relógio em formato de galinha. Ele se sentou à mesa e acendeu um cigarro. Também não lhe ofereceu um.

Quando a polícia chegou, Ravena saiu da casa, sentindo-se, de repente, tola por estar
descalça. Gil fechou a porta assim que ela passou.

Os tiras não saíram do carro.

– Você ligou pro 911? – um deles perguntou. 


– Acho que tem alguém na minha casa – ela disse, trêmula. – Ouvi pessoas gritando e tiros. 


– Tá bem – afirmou ele. – Espere um minuto, e vamos com você. 


Comigo?, pensou Ravena. Não pretendia voltar para a casa de jeito nenhum. O que diria para quem quer que encontrasse na sala de estar?

Os policiais, dois caras grandes que usavam longas botas pretas, estacionaram e acompanharam a garota até a varanda.

– Vá em frente – disse um –; abra a porta.

– Não dá. Tá trancada. 


– Como você saiu?

– Pela janela.

– Então volte pela janela. 


Na próxima vez que ligasse para o 911, ela pediria que enviassem tiras que não a mandassem entrar num recinto invadido. Será que os bombeiros agiam da mesma forma? Ei, garota, entre primeiro e destranque a porta.

Ela pulou a janela, passou por cima de Maisie (que ainda dormia), correu pela sala, abriu a porta, depois correu de volta para o quarto e sentou-se na cama de baixo do beliche.

– Aqui é a polícia – ela ouviu.

Em seguida, escutou Daniel reclamando:

– Que brincadeira é essa? 


E a mãe: 


– O que tá acontecendo? 


– Aqui é a polícia. 


Os irmãos foram acordando e amontoando-se, frenéticos. Alguém pisou no bebê, que começou a chorar.

Ravena ouviu os policiais pisando firme ao redor da casa. Ouviu Daniel gritando. A porta do quarto foi escancarada, e a mãe entrou feito a esposa do Sr. Rochester, usando uma camisola branca comprida e rasgada.

– Foi você que chamou? – ela perguntou a Ravena.

Ravena fez que sim.

– Ouvi tiros – falou. 


– Xiiiu – disse a mãe, correndo até a cama e abafando a voz da garota com força, pondo- lhe a mão sobre a boca. – Não diga mais nada – sibilou. – Se perguntarem, diga que foi engano. Foi tudo um mal-entendido.

A porta se abriu, e a mãe a soltou. Dois feixes de lanterna invadiram o quarto. Os irmãos estavam todos acordados, chorando. Seus olhos refletiam a luz feito os de um gato.

– Só estão com medo – afirmou a mãe. – Não sabem o que está acontecendo. 


– Não tem ninguém aqui – o tira disse a Ravena, apontando a lanterna para ela. –

Checamos o quintal e o porão. 


Foi mais para acusar do que para tranquilizar. 


– Desculpe – ela murmurou. – Pensei ter ouvido algo...

As luzes se apagaram, e Ravena escutou os três homens conversando na sala de estar.

Ouviu os policiais na varanda, com as botas pesadas, e ouviu quando se foram. A janela continuava aberta.

Daniel entrou no quarto em seguida, e ele nunca fazia isso. Ravena sentiu novo jorro de adrenalina.

– Onde estava com a cabeça? – perguntou ele, suavemente.

Ela não respondeu. A mãe segurava-lhe a mão, Ravena não abria a boca.

– Daniel, ela não sabia – disse a mãe. – Só ouviu o tiro.

– Que saco! – exclamou ele, esmurrando a porta. Rachou a fórmica. 


– Pensou que estava protegendo a gente; foi só um engano. 


– Você tá tentando se livrar de mim? – ele gritou. – Tá pensando que pode se livrar de mim?

Ravena escondeu o rosto no ombro da mãe. Não para se proteger. Era como tentar se proteger escondendo-se atrás da coisa mais provável de apanhar naquele quarto.

– Foi um engano – a mãe falou gentilmente. – Estava tentando ajudar.

– Nunca mais ligue pra eles – disse ele a Eleanor, quase sem voz, olhos em fervor. –
Nunca mais. – E depois, gritando: – Posso me livrar de vocês todos.

E saiu, batendo a porta.

– Voltem pra cama – disse a mãe. – Todo mundo. 


– Mas mãe... – Ravena sussurrou.

– Pra cama – repetiu a mãe, ajudando Ravena a subir a escada para a cama de cima.

Depois, a mãe inclinou-se sobre ela, quase tocando seu ouvido com a boca. – Foi o Daniel –ela sussurrou. – Tinha uns meninos jogando bola no parquinho, fazendo barulho... Ele quis assustá-los. Mas não tem permissão pra ter arma, e tem mais coisas aqui em casa... Ele podia ter sido preso. Chega por hoje. Nem um pio.

Ela se ajoelhou junto aos meninos e ficou ali por um minuto, acalmando-os, depois flutuou para fora do quarto.

Ravena podia jurar que dava para ouvir cinco corações acelerados. Todos procuravam conter o soluço. Choravam por dentro. Ela desceu para a cama de Maisie.

– Tudo bem – sussurrou para os demais. – Agora tá tudo bem.



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