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História Eu e minha bicicleta imaginária - Capítulo 17


Escrita por: UcancallmeA

Capítulo 17 - Que deja vu


Eu não conseguia me concentrar na conversa. Pior, mesmo se eu me concentrasse, eu não poderia falar nada: o nó na minha garganta deixava claro que eu estava quase chorando.

 

E tudo o que alguém fez foi no meio de uma conversa perguntar se eu estava bem. "Eu não quis dizer o que você tem feito ultimamente", foi a resposta quando contei de minhas provas, "mas como você está emocionalmente".

 

Duas lágrimas caíram no colchão. Simplesmente caíram. A vista borrou e clareou tão rápido quando a pergunta foi feita.

 

Não lembro tudo o que eu disse. Acho que não menti. Disse que estava triste. Mencionei uma nota baixa numa prova importante como justificativa. Uma verdade. Mas… não era nem a ponta do iceberg.

 

E ouvi consolos. Entravam por um ouvido e saíam pelo outro.

 

Minha mente racional apenas analisava: "Agora ele está me dando outras soluções. Ah, agora ele está tentando me lembrar de motivos para não desistir. E agora ele…" ao mesmo tempo que minha mente emocional gritava alguma coisa com lágrimas silenciosas. Não tenho certeza do que ela estava dizendo, mas gritava. As lágrimas continuavam a cair.

 

De vez em quando eu afastava o telefone para que o microfone não transmitisse minha respiração pesada. E ele, na chamada, continuava falando, ouvindo a si mesmo. Encontrei conforto na solidão, acompanhado apenas de minha tristeza. De não estar só, mas estar a sós com ela. Precisava pensar no que fazer para não ficar mais triste. Dificilmente consigo fazer isso quando ao mesmo tempo tenho que explicar por que estou triste para alguém.

 

O por quê às vezes nem é sobre a causa, mas mais uma justificativa. "Por que se eu arrancar suas unhas você sente dor? Se você não tivesse unhas, isso não aconteceria", é como soa. 

 

É como andar em círculos. 

 

E não é como acontece todas as vezes. Essa é uma generalização que eu criei para evitar me machucar.

 

Talvez minhas expectativas de que as pessoas tanto me machuquem quanto me amem sejam confusas para elas. Talvez seja isso que as mantenha distantes. Quem sabe? Talvez seja por isso que "não me importo".

 

Mesmo enquanto escrevo isso, estou pensando racionalmente: Tipo de apego desorganizado. Foco em memórias ruins. Sabia que o cérebro humano é feito para focar mais nas memórias ruins do que nas boas, porque na antiguidade, era isso o que garantia sobrevivência? Afinal, lembrar de tudo de negativo que existe permitiria a ele evitar essas coisas e assim, correr menos riscos de morrer. Era essencial, já que boas memórias equivaleriam a paz e paz não contém riscos a serem aprendidos.

 

Da mesma forma que eu pensava em como relaxar minha língua para ela não me dar a sensação que minha garganta estava fechando. Pensava em qual concha nasal estava ligada à glândula lacrimal, e como relaxar a área ao redor dos meus olhos para evitar que ela se espremesse em choro. Eu lembrava de como funcionava a condução do ar para os pulmões e ajeitava a postura para não haver obstruções, e assim eu não sentir que estava morrendo. Ainda assim, eu sentia algo queimando dentro de mim, uma pedra pesando… a localização parecia ser do estômago. O incentivo a produção de ácidos devido ao estresse. Lembrei que estresse induz à gastrite. Tentei pensar em coisas boas, e quando isso não funcionou, tentei não pensar em nada. Isso funcionou.

 

Eu estava fazendo de tudo e ainda assim, quando a ligação acabou, encostei a cabeça em minha mesa de estudo e vi gotas pingarem de meu nariz. Brilhavam pelos raios de sol refletidos. Achei lindo, mas não pensei muito nisso. Algo me comia vivo por dentro e estava além de meu controle.

 

Então fiquei ali, deixando que me devorasse.


Notas Finais


Eu estou bem, esse é um texto antigo. Encontrei ele em uma pasta de documentos que nem lembrava que tinha, e fiquei "uau". É um que merece ver a luz do dia.


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