História Eu Estive Aqui - Capítulo 26


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Categorias Sou Luna
Personagens Ámbar Benson, Emília, Simón
Tags Amilia, Emilia, Eu Estive Aqui, Simbar, Similia, Sou Luna
Visualizações 60
Palavras 1.106
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Romance e Novela
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Suicídio
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 26 - Twenty Six


All_BS não demora muito para responder à minha mensagem, embora não faça isso da maneira que eu esperava: enviando para mim os arquivos que suponho que ele tenha enviado à Emi. Em vez disso, recebo uma citação de Martin Luther King Jr.: “Ter fé significa dar o primeiro passo quando você não consegue ver todos os degraus da escada.” E ele acrescenta: Você já deu o primeiro passo ao tomar sua decisão. Em seguida, vejo um link que abre uma espécie de diretório com diversas opções: comprimidos, venenos, armas de fogo, asfixia, estrangulamento, afogamento, monóxido de carbono, saltar de lugares altos, enforcamento. Quando você clica em cada um deles, há uma lista detalhada — detalhada mesmo — dos prós e contras, bem como estatísticas apresentando as taxas de sucesso de cada método. É um documento parecido com o que encontrei pela primeira vez encriptado na lixeira do computador de Emi, mas não exatamente o mesmo.

Ao longo da semana, recebo mais mensagens:

 

“Quando percebe que nada é permanente, você não busca se agarrar a nada. Quando não teme a morte, nada mais é inalcançável.” — Lao-Tsé

Você sabe o que isso significa? Livrar-se do medo? A morte não é um fim, mas um começo. Não consigo deixar de pensar no nome que você escolheu usar: Repete. Suponho que não seja por acaso. Você deve perceber que repetir é exatamente o que está fazendo. É a mesma coisa. Só quando estamos dispostos a fazer algo corajoso, algo de diferente, nossa vida pode realmente mudar.

 

Ele está orgulhoso de mim, dá para perceber. O que me faz sentir orgulho de mim mesma.

Sei que não deveria. Mas não consigo evitar.

Continuo esperando que ele me envie instruções específicas. Passei horas analisando a lista de compras dos suicidas, então, mesmo sem querer, meio que planejei como faria — ou melhor, me imaginei fazendo da mesma forma que Emi fez. Obtendo a licença comercial falsa. Encomendando o veneno. Mandando que ele fosse entregue em uma caixa postal. Escrevendo um testamento. Arrumando meu quarto. Indo ao banco para sacar uma nota de 50 dólares para a gorjeta da arrumadeira. Escrevendo o e-mail. Programando a data de envio. Fazendo checkin no motel.

A informação nos sites que All_BS me passou é tão detalhada que sei qual seria a sensação de ingerir o veneno. A queimação na garganta, depois no estômago; o formigamento nos pés que indicaria que estava começando a fazer efeito; então as cólicas, seguidas pelo frio que marcaria o início do processo de cianose.

A esta altura, já imaginei isso tantas vezes, primeiro com Emi, e agora comigo, que é como sempre costumava ser antes, quando eu não conseguia nos diferenciar uma da outra — quando eu não queria fazer isso.

Então, quero que All_BS me pergunte se eu pensei em algum método, porque, se fizer isso, eu poderei lhe dizer, e acho que ele ficará satisfeito com a resposta.

Mas ele não pergunta.

Portanto, continuo apenas planejando.

 

° ° °

 

Certa tarde, estou me preparando para tomar banho depois do trabalho e, enquanto reviro o armário de remédios em busca de uma gilete nova, vejo um dos frascos enormes de Tylenol que Sylvana costuma comprar na farmácia. Graças à minha pesquisa, sei que Tylenol é uma forma terrivelmente dolorosa, mas barata, de se matar. Desligo o chuveiro. Vou para o meu quarto. Espalho os tabletes brancos na minha colcha. Eu deveria tomar quantos? Quantos eu consigo engolir de uma só vez? Como impedir que acabe vomitando tudo?

Olhando para os comprimidos, parece muito fácil. Algo que eu poderia fazer. Agora mesmo. Engolir um monte de remédios. Saltar de um viaduto. Encontrar a arma carregada de alguém. Você não quer morrer, preciso me lembrar. Mas, se quisesse, responde uma vozinha, pense só como seria simples...

A campainha toca, me dando um susto, e eu coro no mesmo instante. Devolvo rapidamente os comprimidos ao frasco e torno a guardá-lo no armário. A campainha toca outra vez.

É Gastón, segurando Samsom pela coleira e chutando algumas folhas secas que se acumularam debaixo do capacho. Ele olha para a minha camisa amarrotada, que está com um cheiro azedo.

— Você estava dormindo? — pergunta ele.

— Não.

Não tenho dormido muito ultimamente, e isso me faz ficar o tempo todo com cara de quem acabou de acordar. Ainda estou um pouco abalada por conta do Tylenol, então, quando Gastón me pergunta se eu quero sair para dar um passeio com ele e Samson, quase pulo para fora de casa. Saímos andando sob a luz do crepúsculo. Estou agitada agora, uma máquina de puxar assunto. Pergunto a Gastón sobre a escola, mas ele me recorda que estamos no recesso de verão. Pergunto o que está fazendo este verão e ele me lembra que vai para a colônia de férias. Eu deveria saber disso, pois é o que ele faz todos os anos, como Emi quando era mais nova. Eu costumava implorar a Sylvana que me enviasse para lá também, mas ela dizia que se recusava a gastar dinheiro com uma colônia de férias se estava livre durante o dia, então meus verões se resumiam a contar as horas até os Reynauds chegarem em casa.

Gastón continua andando e eu continuo fazendo perguntas inúteis. Quando não consigo pensar em mais nenhuma, quase pergunto se ele tem uma piada nova no estilo “Toc, toc, quem é?”. Ele e Emi costumavam inventar as mais absurdas e sem sentido de todas — Toc, toc. Quem é? É o final. Final do quê? Da piada — e eles riam e riam até alguém acabar chorando ou peidando. Quando eu balançava a cabeça e os chamava de porcos, eles diziam que eu não tinha o gene do humor idiota. Eu sabia que estavam só brincando, mas, assim mesmo, ficava um pouco sentida.

Fico sem assunto. A esta altura, já demos a volta na cidade e Samson já fez dois cocôs, que Gastón catou mecanicamente com sacos plásticos.

— Você está procurando? — pergunta ele.

— Procurando o quê?

— Pela pessoa. Do bilhete. Que ajudou minha irmã.

Não sei por que estou tão surpresa que Gastón saiba disso. Tinha sido ele o primeiro a compreender.

Minha expressão deve entregar alguma coisa, pois ele meneia um pouco a cabeça, como se tivesse entendido.

— Que bom — diz, enfim.

Na esquina da sua rua, ele solta Samson da coleira.

— Pega ele — pede Gastón. Ele parece estar falando com o cão, mas percebo que, na verdade, é comigo.

Quando chego em casa, tiro o Tylenol do armário de remédios, jogo os comprimidos na privada e enterro o frasco no lixo. Alguns dias depois, quando Sylvana fica menstruada e sai procurando o remédio enlouquecidamente, eu me faço de idiota.

 



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