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História Eu Odeio Vôlei - Kuroo Tetsuro - Capítulo 5


Escrita por:


Notas do Autor


Só tristeza no coração dessa gente, cruz credo🤡


ALERTA GATILHO⚠
Ambiente familiar tóxico, abuso psicológico e complexo de inferioridade

Capítulo 5 - Distopia


 

“Você não precisa de muito para matar uma pessoa; Basta convencê-la de que ninguém precisa do que ela faz” - Fiódor Dostoiévski

 

Penso nessa frase enquanto entro no quarto logo após o banho, ela se repete como ciclos na minha mente, sem parar de apontar meus erros de covardia cometidos no passado. E eu acabo por deitar e dormir com essas dores de cabeça que tanto me atormentam nessa noite quente e escura. 

 

Mamãe está sentada na sala folheando uma revista, enquanto eu ando até ela, mostrando minha ficha de inscrição no clube de atletismo. Bem, eu não fui uma criança atlética, mas sempre levei as demais atividades da escola bem a sério, ainda mais pelas exigências de minha mãe no quesito de boas notas.

 

 —  Me convidaram pra entrar no clube de corrida da escola… —  digo com receio, era assim na maior parte de nossas conversas, tanto que eu comecei a entender que quando ela me fazia uma pergunta x, ela queria uma resposta y em troca. 

 

— Isso vai te ajudar na sua carreira profissional? — ela perguntou, mas eu não respondi —  você não sabe, não é?

 

Senti minha garganta seca, e os batimentos cardíacos acelerados à medida que ela me encarava de volta. Aquela sim era uma verdadeira postura inabalável; o rosto perfeito dela era como uma belíssima máscara de porcelana, ela nunca se deixava abalar na frente dos olhos alheios, e nem sequer demonstrava compaixão em suas palavras duras. 

 

— [Nome], —  meu nome saiu arrastado dos lábios dela, logo eu senti que ela estava exausta de me dar mais lições de moral —   eu já te disse, você não precisa dessas coisas inúteis. Você não precisa de nada que não te dê lucros no futuro, você por acaso é boa em esportes? Pense bem nisso, mas se quiser entrar, eu não posso fazer nada a respeito. Mas você não vai querer passar vergonha, não e? 

 

—  Entendi… —  assenti, sentindo a garganta doer enquanto forçava a voz para que as palavras não saíssem trêmulas.   

Eu era tão covarde...

Sai da sala, deixando o papel no criado-mudo ao lado dela. Mushiro Kouyo era uma mulher impetuosa e rude, sua arrogância não passava despercebida, e mesmo assim, eu pensei que no fundo ela me amasse tanto quanto eu a amava.  

 

O amor dela conseguia ser como uma facada no coração, isso porque claramente meu sentimento por ela não era compartilhado. Não tínhamos essa conexão de mãe e filha.

 

 

Aquele dia estava sufocante, o ar parecia preso, penetrando meus pulmões desesperadamente em busca de saídas de ar. Aquela sensação de falha; quando eu estava perto dela, evitava cometer qualquer erro, pois sabia que isso teria consequências no futuro. Ela odiava erros, e eu temia errar exatamente por isso, aprendi a temer as escolhas erradas.

 

—  Então, [Nome], como foi o dia na escola? —  ela quebrou o silêncio mortífero, olhando diretamente em minha direção, fitando profundamente os meus olhos, buscando alguma resposta. 

 

—  Foi legal, eu acho… —  respondo vaga, sentindo o pesar de minhas palavras postas sobre minhas contas. 

 

—  Você acha? Quantas vezes eu já te disse? Só existem duas respostas: sim ou não, bom e ruim e etc. "Eu acho" não é resposta. —  ela voltou a atenção ao prato mais uma vez, estalando a ponta da língua com escarnia, por algum motivo eu morria de medo de quando ela desconfiava ou desacreditava de mim; era como se eu realmente tivesse feito algo de errado. 

 

—  Mushiro, [Nome] não está se sentindo à vontade, deixe que ela termine de jantar em paz —  nesse tipo de situação meu pai tentava intervir e cortar a aura pesada da casa, mas ela sempre dava um jeito de contornar as palavras dele. 

 

— Por que? Só estou conversando normalmente com a minha filha, não é [Nome]? —  retrucou simplista, sorrindo em minha direção, e eu só pude concordar com um aceno baixo e um pequeno sorriso tristonho.   

 

Ela tinha um alter ego impressionante, mudava da água para o vinho em questão de segundos, e embora eu tentasse, nunca conseguia entender o que se passava na mente dela. E sempre que estávamos juntas, eu sentia que automaticamente um gigantesco penhasco se formava entre nós, e essa lacuna só aumentava cada vez mais. 

 

 

 

Até isso chegar nos ouvidos da professora do fundamental…

 

— [Nome], você tem passado mais tempo que o necessário fazendo as atividades do clube —  ela contou preocupada, vendo alguns arranhões nas minhas canelas, andei mais chutando os obstáculos de corrida do que pulando eles —  precisa ir pra casa mais cedo, isso vai te fazer mal no futuro!

 

—  Eu não gosto muito de ficar em casa —  respondo com desdém, e ela me olha séria. 

 

Depois disso eu parei de ficar até tarde fazendo as atividades de atletismo, a euforia da corrida era bem menos agonizante que a pressão psicológica da minha mãe. 

E foi assim até o penúltimo ano do fundamental. Ela ainda questionava o porquê de eu frequentar o clube, mesmo sendo ruim em esportes. Com coisas como “tem certeza que isso vai te ajudar no seu futuro?” ou “Tá tudo bem mesmo continuar tentando? Você nem é boa nisso, não tem nem porque continuar se você não o talento pra essas coisas”. 

 

Ter cada uma das minhas decisões questionadas e refutadas por cada um daqueles comentários abertos a milhares de possibilidades negativas, se fez presente na minha personalidade até os dias atuais. E hoje em dia, eu sou a pessoa que desmerece minhas decisões antes mesmo de pôr elas em prática, no fim das contas, não é porque ela foi embora que a angústia da indecisão foi junto. Ela ainda continua aqui, intacta. Essa grande distopia nunca vai acabar. 

 

Nunca mesmo…

 

E eu tenho quase certeza de que essa culpa é toda minha. Por ter me deixado levar pela intuição e pelas escolhas dela, por querer criar um projeto de filha decente. Na tentativa de tornar algo o mais perfeito possível, ela acabou por terminar de quebrar minhas engrenagens principais. Me tornando uma pseudo-fracassada. 

 

Uma mecânica que apresenta falhas. Diversas e incontáveis falhas.  



 

(...)

 

Acordo sentindo o suor presente em minha testa, os batimentos pesados só tornava o aperto no peito cada vez maior. Uma dor pontiaguda e perfurante, só fazendo com que a vontade de chorar só se tornasse mais forte. Um imensurável vazio, alarmante e insano; seria essa a carência do ‘amor materno’? Não, aquilo era só o vão das minhas lembranças voltando para me assombrar nos dias atuais. 

 

Por fim, eu permiti que as lágrimas rolassem, como uma cachoeira inundando a cidadezinha que era meu coração de manteiga. Quem diria, onde estaria agora minha “postura inabalável”?

 

E lá estava eu, em uma madrugada, sentada na cama sendo consolada pelo meu eu amanteigado, relembro alguns dos ocorridos amedrontadores da minha vida, por um momento me permito sorrir fraca, pensando ter superado pelo menos alguns desses problemas. Em muito tempo eu não sorria genuína assim, e eu esperava poder colorir um pouco mais a minha minha mente com essas sensações leves de superação. Por mais pequenas e insignificantes fossem essas superações.

 

Sequei minhas lágrimas e olhei o celular na cabeceira da cama, liguei a tela e o brilho ofuscante quase me fez perder a visão, quando baixei a iluminação vi que se tratava de quatro e meia da manhã. Agradeci mentalmente por não ter de ir à escola. 

 

Aproveitando que eu já estava acordada, deitei e encarei o teto por alguns minutos de reflexão. Quando me dei conta percebi que minha garganta estava seca, seca que dói. Com a maior calma do mundo, levantei bem devagar, um passo de cada vez. Abri a porta do quarto e desci as escadas evitando acordar meu pai - e talvez o resto da vizinhança junto. 

 

Quando cheguei na cozinha, acendi uma única luz e enchi um copo de água direto da torneira mesmo. Sentei no balcão, e em outros cenários, eu provavelmente seria um bêbado amargurado e desprezado, chorando por uma mulher - algo que não estava muito longe da realidade, porém, obviamente seriam com circunstâncias e decepções diferentes. 

 

Bebi o conteúdo de uma vez, esquecendo que se tratava de água e não refrigerante, então a sensação de frustração e tristeza só veio maior ainda. 

 

Logo, alguns passos na escada se tornaram audíveis, e eu me mantive em alerta, peguei uma frigideira no armário e esperei qualquer surpresa que fosse. Logo vi meu pai aparecendo de uma vez, com o cabo da vassoura nas mãos, e eu me encolhi atrás do balcão na esperança de não ser atingida. 

 

— Ah… [Nome] o que você tá fazendo acordada uma hora dessas? São quatro e pouco da manhã! —  perguntou, mas assim que viu meus olhos inchados e o rosto com alguns resquícios de lágrimas, ele se assustou —  aconteceu alguma coisa?

 

— Pesadelos. —  bebi mais um pouco de água, evitando o contato visual. Ele esfregou bem os olhos. Kosuke, um homem que teve o coração despedaçado pela esposa, eu não o culpo por sermos tão infelizes às vezes, e admiro a tentativa dele de tornar esse novo ambiente familiar agradável. 

 

— Ok, já que acordamos cedo hoje, o que vai querer de café?

 

— Acho que só o café mesmo, amargo, igual meus pesadelos —  um bocejo veio, e algumas lágrimas de sonho vieram a preencher meus olhos, hoje realmente é o dia do choro. 

 

—  Você é jovem, deveria aproveitar seu estômago forte e comer quantas besteiras conseguir antes de chegar na minha idade —  o comentário veio acompanhado de um riso fraco, mesmo em situação que podem ser consideradas delicadas ele sempre consegue aliviar o ambiente com uma piadinha de ‘tiozão’ —  quando você chegar na casa dos trinta, não vai nem conseguir olhar uma porção de batata frita sem sentir enjoo.

 

—  Vou esperar pra ver isso acontecer —  um riso fraco escapou dos meus lábios, de certo não demoraria muito para chegar nos trinta.

 Enxuguei minhas lágrimas de sono com a manga do moletom.

 

—  Vai rindo… — debochou, pegando ovos na geladeira —  a frigideira por favor. 

 

Estendi a panela, nem tinha reparado que estava com ela nas mãos até agora. 

 

—  “Sua irresponsabilidade vai te levar ao declínio” — repito em voz alta, lembro-me de ter ouvido essas palavras justamente de uma das pessoas que eu mais amava, digamos que foi como uma facada nas costas —  o que o senhor acha dessa frase?

 

Ele murmurou um “hum…” durante alguns segundos, até me responder. 

 

— Acho ela primitiva e desnecessária — respondeu sem mais nem menos, no geral eu achava essa frase icônica e metafórica, levei ela na minha cabeça durante um bom tempo, essa mesma frase me fez abrir mão de muitas coisas. Embora eu não me arrependa muito. Arrependimentos não são necessários.

 

Ele fez o café da manhã, já eu, me aninhava no balcão da cozinha, usando os braços como travesseiro. 

 

Mas algo ainda me intriga; ele nunca me disse para onde ela foi ou o que aconteceu com ela depois da separação, e eu também nunca toquei no assunto. Pode ser que as engrenagens se soltem por inteiro se eu encontrá-la novamente, e eu não preciso que a mesma pessoa venha destruir minha mecânica pela segunda vez.

 

...Não preciso mesmo.

Acho que se for para terminar de me destruir, prefiro fazer isso sozinha. Assim eu não precisaria culpar. 

 

Eu acho...


Notas Finais


*Mommy issues entrou no chat*

"Antes eu sofria, hoje eu sou fria"
- [Nome]-chan 2021


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