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História Eu só quero fazer parte da sua sinfonia - Catradora - Capítulo 8


Escrita por:


Notas do Autor


Voolteeeeeeeeei, faz dois dias que eu vi a última temporada mas ainda estou em estado de pura euforia com tudo que aconteceu! (e pra você que não viu ainda vai olhar porque já lançou nos sites piratas, seu criminoso).
Esse capítulo foi meio demorado pra fazer, então espero que gostem >u<

Capítulo 8 - Conversas, ou a ausência de uma


 

– Diminua. Catra, diminua! PARE!

Freei no tempo certo, se tivesse demorado mais um segundo teria passado da linha cavada na terra. Lá estava eu, sobre uma motocicleta honda biz prateada daquelas velhas e quadradas, com fita adesiva cobrindo o velocímetro na parte acima da marca de 40, ideia do Hordak pra impedir que eu me animasse demais. No primeiro dia ele fez questão de me levar para o autódromo só pra uma aula teórica, um monte de baboseira sobre ângulos da roda e inclinação, sempre terminando com “e é assim que você faz se não quiser cair com a cara na lama”. No segundo dia não podia passar de 20, manobras simples de avançar, dar ré, fazer curvas abertas, distâncias máximas de vinte metros.

Hoje mais 20, pro velocímetro e pras rodas correrem, mas não parece o suficiente. O autódromo tinha a forma e um enorme quadrado, mas curvas traiçoeiras serpenteavam por dentro dele junto com morros, pra quem perdesse o controle não era uma questão de talvez bater contra um deles e capotar, depois de vários acidentes e até mortes esse é o principal motivo do fechamento da instalação, mesmo que ninguém tenha se preocupado em realmente trancar os portões.

Acho que pessoas normais estariam felizes que seu tutor magicamente decidiu ser útil e ensinar alguma coisa. Mas eu realmente não estou a fim de ficar presa até essa linha imposta sem minha permissão. Tem mais tantos metros para correr que parece até uma estrada pedindo pra eu pisar no acelerador, e eu quero. Mas Hordak não pensa como eu.

– Catra! Essa é a terceira vez que você não me obedece! O objetivo é você conseguir frear devagar e continuamente, não como uma louca!

Àquela altura eu já não estava mais importando com muita coisa, então apenas concordei com a cabeça.

Isso pareceu deixá-lo desconfiado e por fim mais relaxado.

– Vai escurecer daqui uma hora e ainda temos um longo caminho com essa lambreta, hora de ir.

Não me movi. Antes que Hordak pudesse fazer qualquer coisa, desliguei a moto e peguei a chave, rodando-a entre os dedos. Entrei em um estado entorpecente, daqueles que sua visão se confunde entre o que está realmente na sua frente e o que está na sua cabeça, a única parte do corpo que sinto é a ponta dos dedos contra o metal.

– Como a Adora foi adotada?

Parece uma pergunta boba. Sabe, se eu tivesse perguntado isso tantos anos atrás, quando a dor era uma sensação quente como ferro incandescente contra meu coração e meus olhos até que não seria uma pergunta boba, eu era uma criança na época. Agora eu cresci tanto, mas uma sensação ainda me persegue, acho que no fim eu estava apenas tentando ignorar que sempre que penso nela sinto o ar mais frio ao meu redor, mas depois de vê-la e ouvi-la é como mergulhar em uma banheira com gelo toda vez.

E quando penso que ela se foi e não há como voltar atrás nisso, já está na hora de perguntar.

– Por quê?

Hordak não responde de imediato. Mas logo se aproxima, pousando uma mão no guidão.

– Foi Samanta, ou Sombria, como queira chamá-la, que cuidou de toda a papelada, não discutimos muito sobre isso e no fim concordamos que qualquer lugar longe daqui seria bom. Foi de repente, o celular tocou e um casal disse estar com Adora e dispostos a adotá-la. Samanta foi ao cartório, os três se encontraram e com algumas assinaturas estava tudo feito.

– Simples assim?

– Simples assim.

Piada. Era isso que parecia. Vocês duas crescem por anos na mesma casa juntas em meio a todos os problemas e dores e, de um dia para outro, quem você ama começa uma nova vida pelo decreto de um papel idiota. Você pode ser substituído como se não tivesse valor suficiente simples assim.

– Catra, – ele me chamou, mas hesitou por um momento. Respirou e continuou. – sabe quem é seu tutor judicialmente?

– Você e a Sombria. – não respondi com muito ânimo, mas ergui os olhos em sua direção.

– Não exatamente. A minha palavra sobre a sua guarda é lei independente do que Sombria decidir porque, legalmente, eu fui o seu primeiro tutor desde que nasceu, ela só é levada em consideração porque temos uma união estável.

– Então a minha falsa mãe é uma falsa madrasta malvada, que ironia.

Ficaram em silêncio mais um tempo. Ele também parecia estar pensativo. E essa conversa também fez se erguer uma dúvida até que antiga:

– Olha, eu sei porquê eu sempre chamei aquela mulher horrorosa de Sombria, mas por que você a chama assim? É sua esposa, ou alguma coisa assim.

– Nunca acredite no que uma folha de papel idiota diz. Segundo essas porcarias, você é como uma filha e o meu nome é Hordrius. Eu tenho cara de pai e de Hordrius?

– Não, você tem cara de um cadáver vampirizado sem descendentes e de Hordak mesmo.

– E, no momento, você tem cara de um cadáver atropelado.

– Por uma maldita lambreta.

– Dirigida por uma mulher horrorosa.

– Com a minha antiga irmãzinha na garupa.

– Usando uma tiara de brilhos.

– Você viu aquela porcaria?

– Foi o maior evento da cidade em anos, tinha como não ver?

– É, não tinha.

Silêncio, mas dessa vez parecia mais tranquilizante. A sensação na ponta dos dedos era mais forte e minha mente estava mais centralizada na conversa e em Hordak. Por todo esse tempo nossas interações se resumiram a ele falar coisas como “Por que você não vai ver a grama crescer lá fora?” ou “Catra, você tem um quarto só seu pra sair da minha vista”, mas agora... Ele não parecia receoso de falar e esse mero fato já diminua muito a pressão na atmosfera.

– Quero dormir na Scorpia. – comentei.

– Então vamos te deixar lá.

– Sem discussões? Minha apresentação é amanhã.

– Você não irá perder a oportunidade, precisa provar que é mais forte do que uma gata assustada. Agora vamos, e é sério, não gosto de dirigir de noite no meio desses buracos.

Deslizei para a garupa e ele montou, pegando a chave da minha mão. Segurei nos ferros, apesar da conversa mil vezes mais animadora do que qualquer outra que já tivemos não estou no clima para melação, e ele deu partida. Pensei que o caminho ia demorar, mas ele olhou para mim por sobre o ombro com um... sorriso?

– Segure-se.

Arrancou as fitas do velocímetro e logo a agulha já estava no oitenta, subindo pro cem com uma velocidade que eu nunca imaginei daquela lambreta velha. O vento no corpo, me empurrando para trás, a adrenalina de ter que me segurar para não ser derrubada... Adorei.

 

. . .

– Ansiosa?

Mesmo que a pergunta tenha vindo da Scorpia, era ela que não parava de suar frio, sorte que a fase do fedor de gambá ficou na adolescência. Estamos no corredor debaixo do palco, quem canta agora é Bianca com uma voz que estremece o teto, mas sinceramente esse ritmo acelerado e caótico me trás calma.

– Relaxa Scorpia, é como outro show qualquer em que eu darei o meu melhor e, por consequência, farei todos os queixos caírem.

– Gente, até quantos decibéis vocês acham que essa guria chega? – Entrapta estava encima dos ombros da Scorpia tentando colar a orelha no teto.

– Mais alto do que você pelo menos, baixinha. – provoquei, vendo a cara meio confusa no começo e depois emburrada dela enquanto não desistia de se esticar.

– Ok ok, – Scorpia chamou atenção enquanto balançava de um lado para o outro tentando não perder o equilíbrio, mas com o olhar fixo em mim. – deixando isso de altura e decibéis de lado, você tem certeza do que vai fazer Catra? Você pode só colocar pra tocar e deixar.

– Não tem graça se for fácil. Além do mais, é só três ou quatro efeitos que vou mexer manualmente, o resto já tá gravado.

– Senhoritas? – um garoto com cara de dezesseis movido puramente por cafeína chegou até nós com uma prancheta na mão, percebi então que o teto havia parado de vibrar. – A apresentação da DJ Felina é a próxima.

Agradecemos o aviso e logo ele foi embora. Não demorou muito pra Bianca aparecer.

– Pode subir a hora que quiser, mas já aviso que vai se surpreender. Boa sorte, Felina.

Sorri, vendo como meus dentes pontudos chamavam atenção. Diferente da Adora, eu não sou ingênua para pôr minha identidade a público, então cá estou eu totalmente estilizada. Scorpia estava uma pilha de nervos, quase chorando, então agarrou as pernas de Entrapta com tanta força que as duas começaram a lutar contra o choro juntas, eu estaria gargalhando se não estivesse comprometida em ser perfeita.

Subi no palco, era um sensação estranha e bem assustadora estar de frente para aquele mar de gente com a lanterna dos seus celulares brilhando como estrelas que caíram em um mar negro, mas não é a primeira vez que preciso fazer algo parecido, então apenas aceno com um sorriso e começo a mexer nos botões (felizmente deixaram que eu fizesse com meu sistema pobre). Estava ali, esperando os primeiros segundos de calmaria antes do estouro passarem, e acabei encontrando algo que chamou minha atenção, o mesmo trio de gurias que haviam ido no meu último show com os anéis de tucum, agora elas usavam tiaras e maquiagem de gato, sorrindo e acenando desesperadamente. De repente, uma em cada três pessoas nas primeiras fileiras pareciam comigo, e apesar da música eu conseguia ler em seus lábios coisas como “Vai Felina, arrasa!”.

Mas, dessa vez, eu não torço para que Adora pudesse me ver, porque eu sei que ela está me vendo. Olho para uma câmera com o sorriso mais debochado e começo a tocar.

A música pareceu durar um ano e ao mesmo tempo trinta segundos. Desci do palco, recolheram meu equipamento e alguns minutos depois o resultado apareceu em um sistema computando todo o campeonato. Troquei alguns cumprimentos com Bianca, mas ela não parecia triste em ter perdido pra mim e até disse que foi a melhor forma de sair, ninguém se surpreendeu com meu nome nas oitavas de final e pude ouvir muitos já falando que a final estava feita. Olhei para o outro lado, o eterniano, e o nome dela parecia ter um brilho a mais. She-ra também estava nas oitavas.

E ela também estava no estacionamento.

Ela quase sumia dentro do moletom cinza com planetas e constelações pretas, usando uma calça jeans tão branca que dava dor nos olhos e tênis azul-claro com contornos de flores e plantas em preto também, parecia customizado. E um boné cinza que escondia seus olhos completamente. Parecia uma estátua com as mãos no bolso do moletom, sentado no capô do Sandero da Entrapta.

Aquela cena foi ao mesmo tempo estranha e tranquilizante. Nenhuma de nós sabe o que fazer, afinal.

– Hey, Adora. Esse não parece ser o seu carro.

Lentamente, o rosto dela se virou para o assento do motorista, que graças à seriedade com a qual Entrapta levava sua privacidade era impossível ver através do vidro escuro.

– E nem é o seu.

Fiquei surpresa com aquelas palavras, como ela ousava falar comigo desse jeito? Então as coisas fizeram sentido quando a porta se abriu e outra cabeça de madeixas douradas apareceu.

– Qual é Adora, a sua parte no plano era bem simples: ficar calada pra eu poder dar um susto em todo mundo.

Adora bufou como se não estivesse com disposição para discussão: – Ah, desculpa então.

– Espera, Double Trouble! – Entrapta teleportou pro lado dele num segundo, com um... sorriso? – Você sabe arrombar carros??? Todos os modelos ou só alguns??? Tem alguma dica de uma super tranca pra eu instalar??? Me ensina???

– Ahn, sim, todos os modelos, qualquer coisa é melhor que essa e nem fodendo.

– Nhaaaaaaa, mas Doooouble.

Começaram a discutir um possível e ao mesmo tempo inviável acordo, por um segundo até me esqueci de Adora, mas quando a encarei consegui ver seus olhos, tão pálidos que pareciam até nuvens cinzentas, fixos em Scorpia. Os olhos de Scorpia, por outro lado, pareciam quentes como brasas, não queimavam e também não se apagavam.

Por fim, Adora quebrou o silêncio:

– Scorpia, sei que não confia em mim, mas vamos lá, você concorda que todos merecem uma chance de se redimir.

– Concordar não é gostar.

Silêncio. Ok, isso está começando a me irritar.

– Ei, eu não sei no que vocês estão pensando, mas se a Adora realmente está aqui para tentar reatar magicamente qualquer coisa que tínhamos não são vocês duas que deveriam ficar de briguinha. Scorpia, quanto mais cedo você deixar ela quebrar a cara, mais cedo nos livramos disso. E quanto a você...! – a encarei, mas seus olhos estavam escondidos de novo. Isso me deixou com mais raiva, mas se quero dar o exemplo de como me vingar friamente de alguém sem ter um surto infantil, então é isso que preciso fazer. – O que quer?

Tirou uma mão do bolso, junto de três ingressos. Ou melhor, pareciam ingressos. Assim que Entrapta viu aqueles papéis coloridos com uma linha prateada brilhante sua voz sumiu, deixando Double falando sozinhe.

– … que não se deve usar essas trancas medío-... Entrapta?

– Eu não acredito nisso. Adora, você é incrível! Como conseguiu??? Tem ideia de o quanto essas coisas são extremamente difíceis?!

– Estou lutando a catorze meses, então sim Entrapta.

– Uau, catorze meses! Teve ajuda?

– Isso... – ela travou, olhou para mim por um breve momento e depois voltou a olhar pro chão, constrangida. – Eles não vêm ao caso. Quer ir junto ou não?

– Sim! Sim! Sim! – ela saltitou até Scorpia e começou a rodá-la com pulos. – Vamos Scorpia, vamos, vamos, vamos!

– Vamos aonde? – perguntei, depois que percebi que Scorpia não parecia confusa.

– Credo, madame, até parece que você nunca saiu daquele poço de sombras. – Double pegou um bilhete e olhou com as sobrancelhas erguidas em satisfação. – É um cupom de uma padaria bem famosa, ela tem várias filiais espalhadas por todo o estado, uma delas é a apenas a umas quadras daqui. Ah, e já falei que é cara? Cupoms desses dão para aqueles que já gastaram três mil reais, e como você tem três então é só fazer a conta.

– Espera, você gastou nove mil numa padaria??!! Sério, Adora??!!

Adora se desconcertou, coçando a nuca em nervosismo.

– Tive a ajuda de uns amigos e, como disse, estou nisso a catorze meses.

– A Adora que eu conhecia demoraria catorze anos pra juntar cem reais.

– E a Catra também, mas vendo pelas suas roupas que não saíram de brechós acho que evoluímos nesse quesito.

Senti uma veia latejando na minha testa. Adora parece ter desenvolvido um certo prazer em retrucar minhas acusações com um tom tão passivo que chega a irritar, às vezes ela poderia ser um pouco mais explosiva para que pelo menos tivéssemos uma briga decente, se é assim que tem que ser.

Então me toquei de uma coisa.

– Acho que seus amigos não vão gostar de você saindo por aí oferecendo o prêmio deles para as primeiras pessoas que aparecem na sua frente.

Ela murmurou baixinho alguma coisa. Quando recebeu um empurrãozinho de ombro de Double, coçou a garganta.

– Na verdade a ideia foi deles. De duas deles, na verdade, e o resto concordou. Vocês... Você quer ir?

“Você quer ir?”, que bela escolha de palavras hein.

Estava formulando não uma resposta, mas um fora, um daqueles que faria ela voltar para Etérnia com o rabo entre as pernas, acho que minha cara deixou isso claro porque Double soltou um “psiu” e fez outra das suas caretas de advertência.

E eu fiz minha cara de deboche.

E elu reforçou a careta.

E nós acabamos entediados.

– Catra, acredite em mim, aquela padaria é como um pedaço dos céus na terra, você nunca se arrependerá .

Bufei, mas acenei com a cabeça um sim. Scorpia e Entrapta começaram a saltitar, mas logo acabei com a farra delas para a gente andar logo. Como, pra “variar”, parecia que todas as vagas de carro do centro estavam lotadas optamos por ir de a pé. Double e Adora iam na frente, às vezes ele parecia cochichar alguma coisa que ela respondia de maneira curta, enquanto eu e minhas amigas íamos um pouco mais atrás conversando sobre as maravilhas dessa tal padaria. É estranho, estar perto de Adora e ao mesmo tempo não tê-la olhando diretamente pra mim, me sinto como se estivesse presa a lembrar que ela existia sem poder me afastar para o mais longe possível, acho que é assim que a lua se sente com a Terra.

Logo chegamos no estabelecimento que de fora, com toda a fachada em mármore e relevos de doces e salgados encrustados de pedras coloridas para fazer de conta que eram temperos e confetes, já deixava claro que não era para qualquer um. Entramos e o lugar parecia mais um restaurante chique, muito chique, com mesas redondas de madeira escura e sofás vermelhos (ou poltronas??? ou simplesmente assentos??? nenhuma palavra parece chique suficiente para descrever) também circulares que abraçavam toda a mesa, com exceção é claro de uma ou duas aberturas para passagem. As paredes eram de uma cor de creme quase branca decoradas com várias pinturas de paisagens e artes mortas, lâmpadas leds amarelas imitavam velas nos lustres dourados, refletindo pelas paredes e teto de um modo que todo o ambiente parecia brilhar. Haviam algumas outras pessoas dentro, todas mexendo seus cafés com colheres de prata e cortando os bolos delicadamente, ombros rígidos e expressões neutras.

Eu queria fugir e queria ficar.

Senti a mão de alguém me puxando pelo pulso, era Double, nos guiando até uma mesa que ficava na quina das paredes, ao lado da janela, de onde podíamos ver a rua como se o vidro nem existisse. Como um peixe deslizando com a maré, apenas me sentei entre Entrapta e Scorpia em uma ponta com Double e Adora na outra, em menos de três segundos um garçom que parecia um mordomo em roupas de tons pastéis amarelo e rosa apareceu entregando... Cardápios???

– Que tipo de padaria tem cardápio??? – perguntei assim que ele foi embora.

– O tipo que cobra trinta reais pela fatia da torta holandesa. – observou Entrapta, apontando para a foto de uma deliciosa fatia extremamente cara. – Ah, olha, eles têm cupcakes e palitos de brigadeiro em miniatura!

Olhei para Scorpia buscando socorro, mas ela me lançou um sorriso meio desconcertado.

– É, eu sei, eu só vi esse lugar por fotos e ouvi falar das coisas por conhecidos. Meio extravagante, não?

– SCORPIA...! – ela tapou a minha boca com uma mão antes que eu pudesse continuar gritando, mesmo assim consegui chamar a atenção de quase todas as pessoas, algumas que encararam com surpresa e outras com aborrecimento. Double sorriu e acenou para elas, enquanto eu puxava a mão dessa brutamonte de cima da minha boca. – Trinta reais, Scorpia. Trinta reais! Por um pedaço de torta!

– É por isso que nós vamos aproveitar os cupoms de 100% de desconto pra comer o máximo que pudermos! De graça, Catra, de graça!

Hum... Olhei para Adora, mas ela estava mais distraída lendo o cardápio ou fingindo. Double parecia feliz, cantarolando de boca fechada enquanto passava o dedo encima de cada coisa. Contra minha vontade, meus olhos puxaram para Adora novamente. Eu nunca fui de temer muita coisa por questão de pura teimosia, já Adora era do tipo que tinha uma coragem de nascença, nada parecia abalar e mesmo se algo desse errado ela simplesmente se levantava, cuidava dos arranhões e continuava, acho que é por isso que sempre teve uma aura brilhante ao seu redor. Mas agora não vejo essa aura, ela parece uma garotinha tentando fingir inutilmente que não estava assustada, tentando parecer que sabia o que estava fazendo, isso é desconcertante suficiente para fazer minha raiva diminuir um pouco, eu disse um pouco.

– Senhoritas? – o garçom, ou atendente, sei la, apareceu de novo.

Antes que qualquer uma pudesse falar Double chamou atenção com um aceno de mão e sorriso exagerado.

– Meu bom moço, por favor traga-nos dois baldes médios de espetinhos, um de doces e outro de salgados, todos os sabores de mini cupcakes, o seu kit luxo salgado com cinco itens de cada, um pastel assado de camarão, a torre king de bombons e um cheesecake de oreo. Ah, e uma garrafa 2L de coca-cola e uma 1L de água.

O garçom anotou tudo como um robô, mas quando começou a recitar os pedidos pareceu se dar conta da quantidade de tudo. Ele ergueu uma sobrancelha para Double, que devolveu com o sorriso mais falsamente inocente possível.

– Para comer aqui. Acho melhor correr, moço.

Ele pareceu levar um choque com essas palavras e saiu apressado para duas portas duplas no final do salão, certamente para a cozinha. Quando ele passou pela porta Adora saiu do estado de estupor.

– Espera, eu nem pedi ainda!

– Relaxa querida, eu pedi por todo mundo, afinal os gostos baixos que vocês adquiriram em padarias de quinta nunca conseguiriam encontrar os verdadeiros tesouros desse lugar.

Rangi os dentes, às vezes quase esqueço o quanto Double consegue ser arrogante.

Elu trocou um olhar entre eu e Adora sem tirar aquele sorriso maquiavélico do rosto.

– Então Adora, como está indo a faculdade? O que você estuda mesmo?

– Faculdade, né? – Adora abriu a carteira folheando as notas de todas as cores. – Eu ainda estou no terceiro do ensino médio, acabei reprovando algumas vezes. Provável que eu tente alguma faculdade pra DJ de qualquer jeito.

– Que eu me lembre, Etérnia tem uma uma universidade para músicos de respeito. Nesse caso, talvez você e Catra acabem estudando juntas.

Nós nos entreolhamos.

Definitivamente não.

Ela pareceu ler meus pensamentos e desviou o olhar.

– Possivelmente eu não conseguiria passar, pois eles só aceitam os melhores alunos.

Bufei, chamando atenção:

– Sua tentativa de exaltar minhas habilidades é realmente comovente, caso fosse verdadeira.

– Está falando que suas habilidades não são dignas de serem exaltadas? – Double riu quando percebeu minha cara de ódio.

– Senhoritas. – o garçom apareceu com mais dois colegas para largar os pedidos, em dez segundos eu me sentia na festa do filho de um rei. – Qualquer coisa estamos sempre à disposição.

Enquanto Double delicadamente pegava seu pastel de camarão com um guardanapo de borda dourada, Scorpia e Entrapta só faltavam explodir de felicidade só de observar tudo aquilo. Peguei um dos pratinhos com flores amarelas e comecei a enxê-lo de doces, daqueles com desenhos cuidadosamente elaborados que você come só com o olhar.

Todo mundo estava se empanturrando, menos Adora que havia pego apenas uma fatia do cheesecake. Ela estava com vergonha de agir como a patricinha gasteira que detona com o cartão de crédito dos pais justo agora?

– Hey Adora, pensei que você estaria tagalerando sobre algum nojinho de princesinha chique ou reclamando de algo insignificante, como as outras garotas de onde você vem.

– Tecnicamente você sabe de onde eu realmente vim, e digamos que já gastei minhas extravagâncias do mês.

– Que isso, loura. – Double cutucou Adora com o ombro enquanto lambia o canto da boca. – Vai por minha conta, à vontade.

Ela pareceu considerar um pouco, mas concordou... E encheu o prato com o que parecia ser metade da mesa. Todos olhamos para ela quando terminou de colocar na boca o terceiro espetinho de cinco bolas de felicidade em forma de doce em menos de dez segundos, e Adora devolveu como se não soubesse o motivo do espanto.

– Que foi? Eu fico com fome quando estou nervosa.

– Tradução: você não poderia passar três dias perto da Catra que viraria uma bola.

Eu, Entrapta e Scorpia mordemos os lábios tentando abafar o riso, mas foi só a gente se encarar pensando em uma versão balão de gás hélio caricaturesca da Adora que caímos na risada. Scorpia começou a reclamar de alguma dor nas bochechas e Entrapta tentava falar algo sobre como ela tinha que fazer esse experimento, mas quando olhei para Adora, em vez de uma pessoa envergonhada, ela estava sorrindo também. Mas não era um sorriso de alguém que entrou na brincadeira, era como se ela estivesse contente com algo, e estava olhando bem nos meus olhos.

Assim que fechei a cara ela teve um sobressalto e voltou a comer encarando as próprias mãos. Mas seu momento de constrangimento não durou muito, seu celular começou a apitar, pensei que fosse uma ligação mas assim que ela tirou ele do bolso (aliás um celular nem um pouco barato pelo visto) ficou claro que era uma melodia de despertador, ela só desligou e guardou de novo.

Double ergueu uma sobrancelha.

– Você não tem nenhum remédio para tomar, mocinha?

– Esqueci em casa, então vai ter que ficar pra depois.

– Hum... – aquilo não lhe trouxe satisfação, algo em sua cara, com aquele leve brilho de preocupação nas entrelinhas do olhar, me fez ficar com a pulga atrás da orelha. – Essa marca é boa e tals, mas você devia pegar o que custa 128 reais. É bem mais caro, mas vale muito mais a pena.

– Que? Você, Double Trouble, já botou um desses na boca?

– Eu já botei muita porcaria na boca e não estou falando só de homens e bebidas, então aquieta aí e ouve a recomendação.

Adora bufou e apertou um pouco os olhos com um sorriso zombeteiro.

– Ué, preocupadinhe com minha pessoa agora? Quem diria que no fundo dessa armadura de sarcasmo tinha um coração tão grande.

Obviamente, essas duas crianças de cabelo claro começaram a implicar uma com a outra, mas algo naquele comportamento me incomoda. A dinâmica, a maneira como pareciam saber exatamente quais palavras usar. Então um estalo aconteceu na minha cabeça: essas duas pragas já se conheciam há algum tempo.

– Catra? – Double sorriu de maneira diabólica para mim. – Tem algo a dizer para nós? Se me permite a observação, você está muito pensativa e silenciosa, madame.

Alternei o olhar entre ambos... Mas deve ser só paranóia minha. Adora sempre foi mais amigável e educada, não sei qual foi a aula de etiqueta que deram pra ela nessa sua nova casa, mas não muda o fato de que ela sempre soube como fazer amizade melhor do que eu.

– Nada não. Sabe Adora, pode ser meio problemático ficar esquecendo o anticoncepcional.

Por um segundo ela ficou paralisada, e pelo segundo seguinte ela tentou puxar ar pra responder e acabou aspirando alguma migalha, e pelos outros dez minutos seguinte nós ficamos em uma mistura de desespero e risadas enquanto Adora tossia como uma asmática com um sorriso também.

De repente algum sexto ou vigéssimo sentido em mim apitou, olhei para o lado e Scorpia estava ali gargalhando também, mas tinha algo de diferente. Normalmente seus ombros tremem com a risada escandalosa, mas estavam parados, e sabe aquela velha história das rugas que se formam no canto dos olhos? Então, não estavam lá. Ela estava fingindo rir, muito bem por sinal.

 

. . .

Depois que percebi que Scorpia não estava realmente feliz meus sentidos não pararam de apitar. Double e Adora continuaram na dinâmica estranhamente repentina deles, às vezes Double soltava algo sobre o meu passado e Adora ficava tão nervosa que derrubava alguma coisa ou sujava a cara de chocolate/recheios de salgados. Entrapta por mais que estivesse interagindo não parava de mexer no celular por debaixo da mesa, e sim depois de muitas horas de prática ela sabe digitar em qualquer tipo de teclado relativamente bem sem olhar para a tela. E Scorpia... Ela parecia ser a mais estranha, uma vez fingi esbarrar nela e consegui sentir a rigidez de todos os músculos do seu braço tensionados. E quando o silêncio reinava nem que fosse por um segundo, eu podia ouvir os pés de Adora batucando em ritmo acelerado contra o chão.

Continuamos, ou melhor, continuaram conversando até acabarmos com tudo na mesa. Na hora de pagar houve um problema, porque aparentemente tínhamos que ter pedido uma comanda para cada cupom em vez de tudo numa só, mas a doce alma podre de rica de Double pagou os mais de mil reais (MIL REAIS POR PASTÉIS E BRIGADEIROS!) então conseguimos escapar antes que eu tivesse um ataque de nervos e estragasse a cara daquele funcionário de nariz empinado.

Ainda faltava um tempo pra anoitecer, então achei que seria legal ficar esse tempo na casa da Scorpia, de novo. Depois de tanto tempo longe dela e de Entrapta, as odiando por estar escondendo coisas de mim, quando a Adora apareceu e todo o passado resurgiu eu tive que admitir que não conseguiria ficar sozinha, mentindo ou não para mim a companhia delas é a única coisa que faz eu sentir que está tudo normal.

Durante o caminho na garupa a moto dela fiquei pensando sobre o que aconteceu a apenas alguns minutos. Eu estive no mesmo lugar por mais de hora com Adora e pareceu como se ela nem tivesse existido, como se eu estivesse olhando para um mulher que algum dia conheci pela tela de uma televisão invisível. Essa é a tentativa real dela? Agir como se estivesse tudo bem, como se estar no mesmo ambiente que eu fosse suficiente, como se nós não tivéssemos tanta coisa pra conversar e pra discutir e pra gritar e pra jogar na cara uma da outra até que a única saída fosse admitir tudo? Tudo que.... Eu não sei. Eu sinto esse formigamento na minha cabeça, um pouco atrás da minha orelha direita, e de repente não sei de mais nada do que eu e Adora somos ou sequer fomos.

Vendo os carros passando, era assim que vi Adora essa tarde, como uma figura levemente familiar que apenas passou sem fazer questão de me levar junto ou apenas de parar e dizer “ei, eu senti sua falta”. Eu nunca tive tudo que queria, mas esse é o grande momento da minha vida em que mais me sinto vazia e insignificante, quando ela passa por mim e não tem nem coragem de olhar nos meus olhos, como se não tivesse certeza de que valia a pena se esforçar por mim.

Será que algum dia nós vamos dar certo?

 


Notas Finais


Eu não vou dizer que estou 100% contente com o que escrevi, porque não estou, maaaaaas eu acho que se do nada as coisas começassem a dar certo e a Adora magicamente caísse de cabeça em consertar sua amizade com a Catra acima de tudo eu estaria apressando muita coisa, além de que a Catra é minha personagem favorita e eu quero "explorar" mais dos sentimentos que eu posso trazer pra ela sem a Adora colada no cangote e quero fazer vice-versa com a Adora também, entããão... Eu quero ver elas juntas nessa fanfic também mas paciência, devagar e sempre.

Ah, mais uma coisa! Aqui está o link do remix de Courtesy Call que a Catra toca:
https://www.youtube.com/watch?v=JQwo5YzJMqk

Pra você que leu o episódio La Da Dee e não tinha nenhuma música nas notas finais e quiser saber exatamente qual era que a Adora tava tocando pra Catra, volta lá que eu vou colocar o link agora porque tinha esquecido. Sempre que eu mencionar alguma música em um capítulo e não falar nada nas notas finais sobre ela, por favor puxem minha orelha nos comentários. Obrigado e valeeeeu, amo vocês.


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