História Eu Sou Alice - Capítulo 24


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Categorias Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland), Bangtan Boys (BTS), EXO, Girls' Generation, Zico
Personagens Absolem, a Lagarta, Baekhyun, Chanyeol, Chen, D.O, Jeon Jungkook (Jungkook), Jessica, Jung Hoseok (J-Hope), Kai, Kim Namjoon (RM), Kim Seokjin (Jin), Kim Taehyung (V), Kris Wu, Min Yoongi (Suga), Park Jimin (Jimin), Personagens Originais, Taeyeon, Tiffany, Xiumin, Yuri, Zico
Tags 2jin, Alice, Chapeleiro Louco, Coelho Branco, Fantasia, Gato De Cheshire, Hopega, Hoseok, Jeongguk, J-hope, Jimin, Jin, J-suga, Jungkook, Kidoh, Lebre Maluca, Namjin, Namjoon, País Das Maravilhas, Rainha De Copas, Seokjin, Sobi, Sope, Suga, Sugahope, Taegi, Taehyung, Vmin, Wonderland, Yoongi, Yoonmin, Yoonseok
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Palavras 9.644
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Crossover, Drama (Tragédia), Fantasia, Festa, Ficção, Lemon, Luta, Magia, Romance e Novela, Shonen-Ai, Slash, Sobrenatural, Universo Alternativo, Violência, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Cross-dresser, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Pansexualidade, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


As promised, here.

Capítulo 24 - O Livro de Alice Liddell pt. I


Do you live
Do you die
Do you bleed
For the fantasy?

 

Min Yoongi até queria ter feito várias coisas com Hoseok assim que conseguiram escapar da festa e chegar ao quarto dele, porém a verdade é que estava cansado e no momento em que tiraram as roupas suntuosas e se deitaram na cama espaçosa, Yoongi pediu, a voz carregada de manha:

— Podemos só dormir abraçadinhos? Eu ‘tô cansado.

— Sem problemas, querido. — Hoseok foi carinhoso ao abraçá-lo por trás. Enroscaram-se rapidamente debaixo das cobertas, só de cueca e com as peles em contato.

Para Yoongi, era extremamente gostosa a sensação do peito nu do Chapeleiro contra as suas costas, e os braços dele ao redor de si. Hoseok é tão quente, drogaera o tipo de coisa que passava pela cabeça dele enquanto o outro o embalava nos braços, como se o protegesse, pronto para velar seu sono. Qual é, Yoongi poderia literalmente derreter ali e não reclamaria. Não tinha como reclamar. Hoseok era maravilhoso. A despeito de tudo o que podia sair de sua boca… contudo, o Min já o havia perdoado. Sempre o perdoaria.

Também foi extremamente gostoso só dormir. Pela manhã, Taehyung não vem acordá-lo desta vez, o que é um alívio — o loiro não estava mesmo nem um pouco afim de começar seu dia já com uma discussão, coisa que provavelmente aconteceria entre Taehyung e Hoseok.

Não havia e nunca haveria palavras boas o suficiente para descreverem a sensação sem igual de acordar nos braços de seu Chapeleiro, sentindo a respiração dele em seus cabelos, aninhado em seu peito quente e ouvindo-o ressonar suave — embora não tão baixo. Por mais apaixonado que esteja, Yoongi não poderia nunca negar que Hoseok ronca. Mas não é um problema, e nunca será. Ele gosta, até.

Ao abrir os olhos e dar de cara com um Hoseok inchado e com a pele oleosa, o Min apenas sente-se apaixonar ainda mais, se é que é possível. Ele tem dificuldades, porém consegue sair da cama sem acordar o maior. Cambaleia, ainda letárgico, até as janelas e abre uma fresta na cortina, apenas o suficiente para conseguir enxergar dentro do cômodo, já que não queria acordar seu Chapeleiro. Seu Chapeleiro, ele sorri com o pensamento. Hoseok é meu, assim como eu sou de Hoseok.

Yoongi veste uma calça de algodão preta e uma camisa azul de mangas compridas, lava o rosto rapidamente no banheiro e suspira. Sabe que será outro dia longo, principalmente por causa de Seokjin. Noite passada, na festa, a Rainha havia lhe dito para ir cedo pela manhã à sala do trono. Após deixar um beijo carinhoso na testa bonita de Hoseok e cobri-lo propriamente com a coberta — tentando ignorar o medo de perdê-lo —, Yoongi calça seus — únicos — tênis preferidos, estes que novamente foram lavados, e sai porta afora, fechando-a com cuidado para não atrapalhar o sono do Chapeleiro. A passos firmes, caminha sem hesitação à sala do trono. Até que já conhece bem o palácio; ao menos, os locais pelos quais circula constantemente.

O Castelo de Copas já acordou. Criados andam para lá e para cá, iniciando mais um dia de serviço. A luz matinal trespassa portas e janelas, iluminando os corredores pelos quais Yoongi caminha com este tom alaranjado e quente. Dá para se ouvir os pássaros cantando do lado de fora mesmo em meio aos sons do trabalho dos serviçais. O Min chega às grandes e exageradamente ornamentadas portas da sala do trono e os guardas, em suas armaduras polidas do mais negro aço, imediatamente descruzam suas lanças e abrem passagem para a Alice. No mesmo instante em que as portas pesadas e grandes se afastam e Yoongi dá um passo para dentro do recinto, ouve a voz de Seokjin num tom não muito contente:

— Está atrasado, Alice.

Ele atravessa a sala grande, sobre o tapete vermelho, e logo se coloca à frente da Rainha, ajoelhando-se perante a presença deste:

— Eu sinto muito, Majestade.

Seokjin dá uma gargalhada doce, olhando-o de cima, sentado com as pernas cruzadas em seu trono enfeitado e com o cetro na mão esquerda. Ele larga o objeto ao lado do assento dourado e se levanta. Desce do tablado, apoiando a mão no ombro do menor com um ar divertido. Está lindo — como sempre, aliás — naquelas roupas vermelhas pomposas e de mangas bufantes. A coroa dourada enfeita os cabelos negros e lustrosos e um sorriso torto redesenha seus lábios bonitos e cobertos de vermelho. Yoongi não consegue fazer nada senão admirá-lo de perto, agraciado pela forma como Seokjin o trata como um irmão mais novo.

— Isso foi estranho. Nunca mais faremos isto, está bem? Formalidade não é algo que combine com nós dois. Ao menos, não quando estivermos sozinhos.

— De acordo, Alteza. — Diz ainda mais uma vez e ganha um revirar de olhos do mais alto.

Ainda segurando em seu ombro, Seokjin o guia para longe dali, em direção à sala na qual começarão os estudos. Passam pelo corredor onde, Seokjin lhe explica, ficam os aposentos reais. Então após estes, virando à esquerda, chegam a seu destino. Assim que adentram o cômodo, a Rainha deixa claro:

— Tenho milhares de deveres como Rainha e poderia muito bem apenas deixar que os sacerdotes da corte lhe explicassem tudo enquanto cumpro minhas obrigações, mas é de praxe que Alice e a Rainha compartilhem seu tempo, e além do mais… eles não podem entrar aqui.

— O que é tudo isso? — Yoongi indaga, surpreso.

A sala ao seu redor é um aglomerado confuso de informações. Apesar de tudo parecer estar em seu lugar, é muita coisa, então aquela composição cheia parece bagunçada, devido à poluição visual. Muitos livros cobrem as paredes laterais e a única janela está coberta pela cortina. Há apenas uma mesa vazia no centro, as outras, espalhadas pelo cômodo, estão apuradas de objetos. Pilhas de documentos, mais livros, alguns desenhos — Yoongi se impressiona, pois não fazia ideia de que Seokjin tivesse tal inclinação artística —, instrumentos como astrolábios e coisas do tipo. Há até mesmo uma maquete do Castelo de Copas.

— É a minha… sala de estudos. — A voz fina diz atrás de Yoongi.

O Min caminha até uma das mesas, observando alguns dos esboços da Rainha. Há desenhos de seus flamingos de estimação, um do jardim extenso do palácio, um autorretrato… Jimin. Jeongguk.

— São muito bons.

— Obrigado. — Seokjin se aproxima por trás dele, olhando os desenhos com carinho. É perceptível a dedicação em cada traço, e Yoongi sorri. — Estes são só esboços. Queria ter mais tempo para isto.

Yoongi resiste à vontade de dizer, brincando, a frase “Pinte-me como uma de suas garotas francesas”mesmo porque Seokjin não teria como compreender, e qual é a graça de fazer uma piada que só você entende? O loiro, após olhar mais uma vez a sala ao redor, acaba se sentando na mesa vazia ao centro.

— Não seja mal educado, Alice. — A Rainha de Copas o adverte e ele, bufando, tira a bunda da mesa e puxa uma cadeira para se sentar.

Seokjin faz o mesmo à sua frente e ambos apoiam os braços na superfície lisa do móvel de mogno escuro.

— E então?

A Rainha suspira e se vira na cadeira, pegando algo numa das mesas atrás de si. Quando volta o olhar para Alice, está segurando um caderno pequeno, do tamanho de um livro, uma pena e um pequeno pote com tinta nanquim.

— Anote o máximo de coisas que conseguir. A manhã será longa.

 

 

 

Não era tão difícil usar uma pena no lugar de um lápis ou uma caneta. Difícil mesmo era fazer anotações acompanhando Seokjin. A Rainha desatou a falar muito, e a falar rápido. Se o menor conseguiu anotar algo, foi no desespero e de forma completamente desorganizada.

Seokjin o coloca à par da situação socioeconômica do Reino. Há um bom tempo que reduziram os impostos e estão indo bem assim. A taxa de desemprego é baixíssima, a população raramente reclama nas audiências, a mortalidade infantil decaiu e a longevidade aumentou. O País das Maravilhas está mais próspero que nunca, apesar dos problemas que vêm enfrentando com relação ao combate ao crime, em especial ao tráfico de drogas. Seokjin não menciona a Lebre, portanto Yoongi evita de sugerir que ele converse sobre isso com Namjoon. Talvez fosse mesmo uma péssima ideia, talvez não.

Também há a questão da eterna desavença com o País vizinho, também conhecido como País das Alegrias. Seokjin explica que este outro País é mais novo que o País das Maravilhas e não foi criado por Alice, e sim por rebeldes que, cerca de cem anos após a morte de Alice Liddell, decidiram fugir do País e fundar seu próprio em terras longínquas. Desde então, há guerras ocasionais. A Rainha também conta que Alice criou praticamente um mundo inteiro — tendo o País das Maravilhas como centro, como núcleo — e que há muita coisa que não conhecem ainda.

— Seu papel é, sobretudo, trazer esperança para a população em tempos difíceis. Nunca se sabe quando vai se iniciar outra guerra, Alice.

O Min começava a ficar com dor de cabeça, pensando seriamente se aquilo tudo não era pior que seus desafios. Por toda a manhã, Seokjin só soube falar, falar e falar; brigar com Yoongi quando este se distraía; olhá-lo feio quando o Min lhe pedia que repetisse algo. Ele deu aulas de História e, mesmo no almoço, continuava falando enquanto comia. Entre uma garfada e outra sobre a farta mesa na sala das refeições particulares da Rainha, Seokjin contava sobre a batalha na qual foi morta a Alice número 159 cerca de duzentos anos antes. Neste ponto, o Min queria apenas enfiar os garfos nos próprios ouvidos, porque sinceramente, estava farto do monólogo de Seokjin. Ao ver que o loiro já andava se distraindo demais, o maior suspirou e resolveu que seria uma boa ideia presentear Yoongi com uma folga após a refeição, e foi a primeira vez que o Min sorriu.

Assim que acaba de comer, Alice segue sua vontade de ir direto para os braços de seu Chapeleiro. Praticamente corre por entre os corredores, tropeçando nos próprios pés e ocasionalmente esbarrando em alguns criados e nobres. Ele não liga e sequer faz questão de se desculpar propriamente, quer somente encontrar Hoseok. Acaba até mesmo por perder-se duas vezes por causa da afobação e no entanto, quando abre a porta de seu quarto, depara-se com o mesmo vazio.

Bom, é claro que Hoseok não ficaria aqui me esperando para sempre, pensa, resignado. Com um bico triste, Yoongi bate até mesmo à porta do quarto do Chapeleiro, porém este também não tem a presença dele, já que ninguém o responde. Ignorando qualquer pensamento de insegurança que insiste em aparecer por sua mente dizendo que Hoseok o deixou, Yoongi simplesmente retorna para a sala de estudos da Rainha, com as mãos nos bolsos e o olhar cabisbaixo. Como a Rainha não está lá, ele senta-se à mesa e resolve aguardar. Assim que o faz, entretanto, começa a ouvir um silvo.

É suave e baixinho, contudo se destaca na sala silenciosa. O loiro olha ao redor, procurando pela origem do som, até que seu olhar é atraído para um espelho. Está pendurado na parede a cerca de cinco metros à esquerda da porta pela qual entrou. Ele não tinha o visto ali antes porque, como percebe, o mesmo estava coberto com um pano preto — este que agora encontra-se no chão. O espelho tem formato oval e uma moldura barroca, coberta de arabescos numa madeira pintada de dourado. Há algo de atrativo nele que o Min não consegue decifrar. Ele se levanta e anda até a parede, parando a dois metros do objeto. Ao olhar de perto, vendo-se refletido no mesmo assim como o resto da sala, o loiro nota que a superfície ondula. Literalmente, é como se fosse água ao invés de vidro, reflete a sala cheia de coisas como se fosse líquido. O Min se aproxima ainda mais, curioso.

O silvo torna-se mais forte, mais alto.

Está a centímetros de tocá-lo, quando uma mão em seu ombro o interrompe. O som que ouvia cessa de repente, o espelho para de ondular e pelo reflexo, o loiro vê que é a Rainha. Seokjin está muito sério, parece até bravo. Yoongi franze o cenho ao que o maior o afasta do objeto na parede com certa brusquidão.

— Fique bem longe deste espelho, Alice. Não chegue perto dele. Resista à tentação, por mais que ele o chame. Não importa o que ele lhe mostre, não toque nele, está me ouvindo?

O Min suspira e concorda com a cabeça, não ousando abrir a boca para questionar. Quer saber mais sobre o espelho, mas agora não parece ser a melhor hora para perguntar. Tem a impressão de que Seokjin não vai lhe dizer nada, de qualquer forma. O mais alto pega o pano preto do chão e torna a cobrir o objeto, resmungando:

— Ele sempre se descobre. Talvez eu devesse jogá-lo num cofre, ou algo do tipo.

Yoongi estranha, contudo mais uma vez não questiona. Assim que termina seu trabalho, Seokjin suspira e, com as mãos na cintura, para para observá-lo.

— Não me olhe assim, como se eu estivesse brigando com você. — A Rainha faz bico e anda até uma das estantes, procurando um livro específico ali.

Incrível como ele consegue fazer Yoongi se sentir uma criança às vezes. O Min o acompanha com o olhar até que o maior vem até ele novamente, deixando em suas mãos um livro velho, empoeirado, grosso e surpreendentemente pesado.

— Talvez algo aqui lhe interesse. Não precisa assistir à tudo, mas… vai mantê-lo ocupado. Está liberado para o resto da tarde, está bem? Continuaremos amanhã.

Assistir? Yoongi franze o cenho, todavia novamente não pergunta nada em voz alta. A Rainha o empurra para fora da sala e o acompanha até uma parte do corredor:

— Aliás, este livro é secreto. Mantenha-o longe das vistas de todos.

Yoongi volta para seu quarto após um longo banho que mostra-se bem útil para aliviá-lo de todo o estresse da manhã. Ele veste um conjunto branco confortável que estava em sua cômoda. Havia pedido, mais cedo, para a criadagem deixar roupas limpas ali, já que planejava nunca mais tocar no armário de Alice — uma das informações interessantes que Seokjin  lhe deu, inclusive, foi aquela sobre o armário. A Rainha contou que as roupas mais usadas das Alices eram guardadas ali por motivos de recordação e história, como pequenos memorandos com seus respectivos nomes informados. E no entanto, quando Yoongi perguntou o motivo de as roupas fazerem-no passar mal, em especial a de Alice Liddell, Seokjin não soube responder nada além de “talvez este seja um problema que só afete Alices e aspirantes.” O que Yoongi sabe, com certeza, é que suas roupas preferidas ficarão ali também, após sua morte.

O loiro deita-se na cama, permitindo-se relaxar todo o corpo. Entretanto, não está com sono. Vira de lado com certa manha e vê o livro que Seokjin lhe deu sobre o criado-mudo como se o encarasse de volta. Querendo ser lido. Ele se levanta e abre completamente as cortinas para que a claridade do começo de tarde entre pela janela. Dá a volta no móvel, vai até a porta e a tranca. Senta-se na cama, se ajeitando sob as cobertas — mesmo que não esteja frio, é sempre mais confortável ficar debaixo de algum cobertor. O loiro inspira profundamente e pega o livro velho nas mãos trêmulas, sem sequer saber quando foi que começou a ficar nervoso. Ele está ansioso demais. A capa azul está gasta e fosca e ao que parece, há algumas páginas soltas em seu interior. Um sentimento estranho se apossa dele. Suspeita que, depois que o abrir, não terá mais volta.

E é por isso que ele abre o livro. Na primeira página, está escrito à mão, numa caligrafia bonita e floreada: O País das Maravilhas, por Alice Liddell. O Min se detém diante aquele título e reluta em virar a próxima página. O que será que ele vai encontrar ali? E por que está tão nervoso? Após estalar os dedos, decide apenas acabar com aquilo rápido. Mordendo o lábio, vira a página mais uma vez.

Não há dedicatória nem nada do tipo. Yoongi passa por desenhos de planícies e montanhas, nomes de lugares e pelo Castelo de Copas. Rios, cachoeiras — inclusive, uma em especial, bem conhecida por Yoongi — e florestas. São várias páginas falando sobre a criação de todo um mundo — fadas, raças de híbridos, lagartos gigantes e muito mais. É completamente fascinante.

Há na seção seguinte um retrato realista muito bom, e com um calafrio a lhe arranhar a espinha, o Min reconhece o rosto retratado no desenho. É em preto e branco, porém, de algum modo, ele começa a ver as cores… É a face de uma menina, entretanto desta vez, vê-la não lhe traz um sentimento ruim, não de todo. Ele só não gosta de reconhecê-la. Alice Liddell tem nos traços um meio sorriso torto e cativante, o nariz empinado e as bochechas coradas. Os cabelos emolduram o rosto juvenil em cascatas loiras. É um autorretrato?

Há palavras escritas logo embaixo do desenho, as quais ele pretendia ler, contudo a imagem o captura. As páginas se alargam numa confusão colorida e vão o engolindo, levando-o a um transe. Min Yoongi sente-se dividido. Como se uma parte sua estivesse na cama, ainda segurando o livro; e a outra parte, dentro do mesmo. Alice Liddell sorri encantadoramente e de repente ela não é só mais um desenho; a garota está ali, parada à sua frente, em meio à um campo de verde vivo em algum lugar da Inglaterra. Veste um vestido branco e azul no estilo lolita, com babados e mangas bufantes e um belo laço no centro do peito. Aparenta estar em seus 18 anos, auge de sua mocidade.

A pele da garota reluz ao calor do sol do meio dia e por algum momento, Alice parece vê-lo; porém é algo corriqueiro e logo a menina está correndo para dentro de casa. Yoongi a segue dentro do livro, apertando as páginas na mão sentado em sua cama e tentando evitar a dissociação. É como se ele estivesse assistindo um filme, de dentro dele, mas sem realmente estar presente ali. Confuso? Yoongi sentia que teria um mental breakdown a qualquer momento.

A casa é uma construção burguesa e vitoriana, grande e espaçosa. Quando ele passa pela porta logo depois de Alice, a garota parece ter voltado no tempo: é agora uma garotinha pequena, aparentemente ainda na fase de letramento.

— Alice Liddell! — Uma garota alguns anos mais velha a segura pela orelha, mas não parece ser na intenção de machucá-la. — Onde se meteu? Não me ouviu chamá-la?

— Ora, estava apenas seguindo um coelhinho, Edith! Solte-me! — A criança se agita nos braços da outra.

Edith a pega no colo.

— Fique mais atenta, Alice. Às vezes parece que está em outro mundo.

O cenário muda. Yoongi está então no que parece ser o quarto de uma menina, talvez o quarto da própria Alice. Há excesso de rosa por todos os lados, mas o azul tenta se infiltrar em alguns objetos de uso pessoal. Dentre os vestidos pendurados no armário aberto, aliás, não há nenhum que combine com o rosa das paredes. Está claro que Alice gosta mais de azul. Há bichinhos de pelúcia na cama, assim como um gato preto. A garota entra correndo no quarto. Ela cresceu, aparenta agora estar na puberdade; talvez uns quinze anos?

— Dinah, querida! — Alice anda até a gata ao notar sua presença na cama. — Estou fugindo de Edith esta tarde, quer vir comigo?

O animal se levanta, desce da cama num salto e sai rapidamente do quarto. Alice faz uma careta emburrada.

— Ora, Dinah, não seja assim! — Ela vai até o criado-mudo ao lado da cama e abre a primeira gaveta. De lá, tira alguns cadernos e uma caixa de lápis de cor, além de um saco cheio de velas e uma caixa de fósforo. — Tudo bem, então, quem sai perdendo é você! Não vou levá-la para o meu país!

O loiro franze o cenho, apertando ainda mais as páginas gastas entre os dedos. Ela só pode estar falando do País das Maravilhas. Antes de sair do quarto segurando todos aqueles materiais contra o peito, Alice para e seu olhar se fixa em Yoongi, os olhos amendoados expressando mais que qualquer palavra. Ele pisca duas vezes, não pode ser real. Quando percebe, a garota já está correndo porta afora e ele vai atrás mesmo sem querer.

Alice corre pelos campos de grama muito verde até as margens de uma floresta. Lá, continua correndo, desviando-se de galhos e percorrendo uma trilha que talvez já lhe seja conhecida. É real demais: o Min pode sentir o cheiro do orvalho e da relva fresca e ouvir os pássaros cantando mesmo dentro de seu quarto. E quando Alice finalmente chega a seu destino, ela para abruptamente.

É um buraco no chão, escondido com algumas folhas. Ela enfia-se lá dentro e o loiro vai atrás. Parece uma toca de coelho grande demaisTalvez Alice tenha a encontrado e modificado, ele nunca saberá. Alice então começa a escrever e a desenhar copiosamente, sem indícios de que um dia vá parar. Parece que suas mãos não se cansam, e o máximo que faz interromper sua atividade é quando troca de posição. O tempo passa de forma distorcida e apesar de não ter exatamente essa percepção, Yoongi sabe que já se passaram alguns dias. Alice está suja, mas ainda não parou. À noite, se não dormia, escrevia e desenhava com a luz das velas. Aliás, dorme muito pouco, e o tempo em que fica acordada, é para passar vidrada nos cadernos e, especialmente, no principal, o maior deles. Yoongi reconhece o livro que ele mesmo está segurando nas mãos da garota, os desenhos sendo feitos. Seriam estes todos os detalhes sobre o País das Maravilhas? Foi assim que Alice criou seu mundo, durante dias mal dormidos dentro de uma toca de coelho?

Quando Alice finalmente acaba, dá um suspiro longo e arruma os cadernos. Deixa o Livro de Alice Liddell com cuidado sobre os demais e sai da toca, finalmente respirando o ar puro diretamente. Assim que ela retorna para casa, uma briga com os pais e uma das irmãs — A mais próxima dela, Edith — é tudo o que a aguarda. Uma ordem e um castigo que soa desumano: ela não poderá sair de casa até completar seus dezoito anos. Portanto, pelo que o Min pode ver, ela passa três longos anos confinada em sua casa, tendo deixado seus cadernos, seu País, tudo no que trabalhou árdua e penosamente dentro daquela mesma toca.

Há algo nestes três anos que lhe é estranho: em meio à vários acontecimentos que ele pode ver, em algum momento, ela parece perdida olhando em algum ponto vago na parede. Alice a atravessa — ou atravessa algo que está na parede, ele não pode ter certeza. Não consegue segui-la para lá e então é tudo um borrão disforme, acontecimentos embaçados e sem sentido num lugar desconhecido. Duas Rainhas opostas, preto e branco, um monstro horrendo num flash. Passa tudo rápido demais e só quando acaba, com Alice de volta a seu quarto, é que Yoongi vê na parede o que, exatamente, tragou a menina:

É aquele espelho. Aquele mesmo maldito espelho da sala de Seokjin. Ele reconhece com um espanto tão grande que solta o livro, porém o livro não o solta. Yoongi continua preso na vida de Alice. Por um momento, o loiro se questiona como diabos aquele espelho anormal foi parar no País das Maravilhas, sendo que veio de seu mundo, contudo Alice tira-lhe esta dúvida quando completa dezoito anos.

Alice Liddell não fez uma mala. Ela não deixou uma carta e nem se despediu propriamente, fosse dos pais ou da irmã ou sequer da gata que agora estava mais perto da velhice. Alice apenas vestiu seu melhor vestido, enrolou o espelho num pano e o colocou sob o braço e saiu de casa na primeira oportunidade que teve. O máximo que ela fez além disso foi dizer, enquanto andava e sem olhar para trás:

— Me desculpe papai, me desculpe, mamãe. Edith… até mesmo Dinah. Eu preciso ir para o meu País agora. Preciso ir para os braços do meu Chapeleiro. Espero que me perdoem.

Quando chega àquela mesma toca de três anos antes, seus livros não estavam mais ali. O que Alice encontra, ao invés de tocos de vela, materiais gastos e cadernos preenchidos por desenhos, é um abismo. Então ela cai. E Yoongi já sabe onde esta queda vai dar.

Ele reúne toda sua força de vontade e fecha o livro bruscamente, afastando-o de si. Isso tudo é simplesmente demais para Yoongi aguentar. Inspira profundamente, como se acabasse de emergir da água, a sensação libertadora que vive é semelhante. E no entanto, não contava que a própria Alice Liddell o estivesse olhando, de pé, próxima a cama, imóvel como um fantasma. Yoongi grita agudo uma única vez, encolhendo-se contra a cabeceira — a única coisa que Alice faz é sorrir. Não de forma ameaçadora, entretanto. É só um sorriso gentil.

— Quer saber a história deles, Min Yoongi?

— Quê? — Yoongi franze o cenho.

Pensou que Hoseok tivesse matado o fantasma dela. Se está ali novamente, será que não vai fazer mal a ele? O loiro resiste ao impulso de gritar pelo Chapeleiro à medida em que percebe que a presença consigo no quarto não é ameaçadora. Contudo, puxa as cobertas e se enrola nelas como forma de proteção. Alice Liddell se senta na cama, próxima a ele, mas não tão perto assim para que Yoongi não se sinta desconfortável, já que o loiro aparentemente não sabe como não demonstrar seu medo.

— Perguntei se quer saber a história deles, dos seus amigos. Taehyung, Namjoon, Jeongguk, Hoseok. Tudo sobre eles está neste livro, você só tem que abri-lo novamente.

Ignorando a fala da moça, o Min apenas questiona, ainda com todos os músculos do corpo tensionados e sem conseguir evitar arrepios ocasionais:

— Por que você ‘tá aqui? Como você ‘tá aqui? Pensei que Hoseok tivesse…

— Me matado? — Liddell apoia as mãos no colchão atrás de si e lhe olha séria por cima do ombro. O loiro engole em seco, confirmando com a cabeça, e Alice suspira, entediada. — Eu só vou explicar uma vez, Yoongi, então trate de entender. A essência fantasma de Alice Liddell se foi para sempre quando seu namorado atirou nela. — Alice sorri ao se referir à Hoseok daquela forma. — Entretanto, eu não sou ela. Eu sou puramente a essência que ela colocou neste livro. E eu nunca desaparecerei enquanto este livro existir. Também faço parte da vida do próprio País, embora minha vitalidade esteja ligada diretamente ao livro. Nada pode acontecer com ele, sabe? Se a Rainha lhe deu isto, é porque confia muito em você.

— Espera. ‘Tá me dizendo que se você sumir, o País some também, mesmo que ele tenha uma Alice?

Alice para de fitá-lo e olha para a janela, com uma expressão difícil de decifrar.

— Não, isso não. Eu faço parte da vida do País, mas ela não faz parte de mim. Ele poderia até se enfraquecer, mas com uma Alice forte, não seria um problema muito grande. Seria apenas triste a perda de todas as histórias deste livro. Ele se escreve sozinho, sabia? — A garota se joga de costas, deitando-se no colchão e esticando-se como uma gatinha manhosa; e de gatinhos manhosos Min Yoongi entende muito bem. Suas pernas ficam à mostra quando o vestido sobe e ele apenas desvia o olhar. — Mas e então, qual é sua escolha? Quer saber das histórias dos seus amigos?

— Posso simplesmente fazer isso, só por curiosidade?

Alice dá uma risada doce.

— Não banque o santo, Yoongi. Sei o bastante sobre você, e curiosidade não é um impulso que consiga controlar. Ah, não quer conhecê-los? Não quer conhecer a história de Hoseok? Não quer saber sobre May Lee?

— Você ‘tá me persuadindo? — Yoongi consegue enfim relaxar os músculos e se senta propriamente, esticando as pernas. Alice se levanta e se aproxima dele, engatinhando em sua direção.

— Talvez. — A garota sorri de forma diabolicamente sedutora. — Eu me fortaleço quando o livro é lido, sabe. É divertido como cócegas na barriga e então sentir-se capaz de fazer tudo!

Alice tenta beijá-lo e Yoongi automaticamente vira o rosto; ela faz bico.

— Já beijou pessoas demais desde que chegou aqui, não é?

Ele está muito perto de implorar a ela, o que quer que ela seja, para deixá-lo em paz. Põe as mãos em sua cintura e tenta afastá-la; não contente com a reluta do loiro, a garota leva os lábios até seu ouvido e diz, baixinho:

— Mergulhe no livro, Yoongi, ao menos nas páginas sobre seus amigos. Não é muito que estou pedindo... Faça isto e ficarei feliz, sim?

E então some, tão rápido quanto apareceu. Yoongi desencosta da cabeceira e olha ao redor, procurando onde ela possa ter ido. É quando seu olhar se cruza novamente com o livro e ele ouve uma risada doce a seu lado, como se Alice ainda estivesse ali. Confuso e cansado, fita a capa azul desbotada do livro velho com as sobrancelhas unidas, pensando se deve ou não fazer aquilo. Como seus amigos se sentiriam se soubessem que ele espiou suas histórias, até mesmo os detalhes mais sórdidos destas? Os segredos mais íntimos…

Por outro lado, Alice Liddell é uma maldita persuasiva. Após alguns segundos, a curiosidade vence o Min — a garota estava certa, afinal — e ele toma o livro nas mãos novamente.

Depois de compreender que ali estão todas as histórias de todas as Alices, Gatos de Cheshire, Coelhos Brancos, Lebres e Chapeleiros; nesta ordem; Yoongi vai direto para o final do livro. Passa direto pela história de May Lee, pois decide que sobre isso ele não quer saber de nada, a não ser o que diz respeito a Hoseok. Também pula a própria história — desta, ele já está exausto — e se ajeita novamente na cama, fitando o retrato de Taehyung. É quando começa a ser levado para longe naqueles olhos felinos…

 

 

 

Taehyung é uma criança bagunceira. É engraçado vê-lo correndo pela enorme mansão da família do Gato de Cheshire — espevitado, frequentemente derrubando as coisas e quebrando alguns vasos. Entretanto, também é muito doce: sempre que vê que erra, pede desculpas na hora com uma voz baixinha, os olhos pregados no chão. Adorável. Ele também gosta de brincar ao ar livre, correr sob o sol até que sua pele fique a ponto de descascar. Gosta de dar voltas e voltas pelo jardim e olhar a casa na qual vive de longe. É uma construção inglesa antiga, a fachada no estilo vitoriano, por fora é toda em roxo e azul. Taehyung sente orgulho de viver ali e ser da família do importante Gato de Cheshire — o último foi seu tio.

Aos oito anos, o híbrido que Yoongi conhece bem está brincando com um outro menininho-gato, este que parece alguns anos mais velho, e é seu primo. Este outro garoto tem a pelagem de um castanho um tanto mais escuro e eles vestem pijamas. Estão na sala de estar, brincando de lutinha, embolando-se no chão. Há adultos conversando no cômodo ao lado, porém a conversa não é de tema para as crianças, então os pequenos simplesmente ignoram tudo.

Isto é, até que ouve-se uma voz feminina dizer, num tom de quase pânico:

— O meu Taehyung, não!

Taehyung para ao ouvir seu nome na conversa, as orelhinhas mexendo-se rapidamente na direção do som. Um silêncio toma toda a mansão, e o murmúrio que sai por entre os lábios do pequeno híbrido é um miado baixinho:

— Mamãe?

Mesmo quando seu primo tenta impedi-lo, Taehyung se levanta e vai andando devagar até a porta. O outro cômodo, no qual os adultos conversam, é a sala de jantar. Uma bela híbrida é a mais próxima da porta, de costas para ele, e Taehyung coloca apenas a cabeça para dentro da sala, as orelhinhas atentas. Sua mãe é ruiva e alta, o rosto é coberto de sardas e a cauda comprida balança frenética atrás de si, demonstrando todo seu nervosismo. Ela tem os braços cruzados e apesar das lágrimas, sua expressão é firme em meio aos machos do recinto.

— Talvez os sinais de Taeyong tenham apenas atrasado…

— Pare de tentar enganar a si mesma, Yangmi. — O pai de Taehyung se aproxima e a abraça, mas ela repudia, o afastando.

Ele tem os cabelos num corte social, a pelagem negra, e veste paletó, contrastando com o vestido simples da esposa.

— Querido! Não é você o Gato de Cheshire, foi seu irmão! Não é Taehyung que tem que carregar a maldição, e sim Taeyong!

— Gosta do sal na ferida dos outros, Yangmi? — Yoongi entende que a híbrida que fala agora só pode ser a mãe de Taeyong, primo de Taehyung. Ela é a única sentada à mesa comprida e o Min não a tinha visto, a princípio, entre tantos homens de pé. — Seria Taehyung mais inocente que o meu filho? Menos… merecedor de um mal assim?

A mãe de Taehyung balança a cabeça para os lados, o rosto adquirindo vermelhidão à medida em que ela não consegue segurar as lágrimas.

— Não é isso… Mas Taehyung ainda é tão pequeno, eu não quero que nada de ruim aconteça a ele…

— Mamãe? — O pequeno híbrido não resiste ao impulso e segura na barra do vestido floral da híbrida.

Todos no cômodo ficam em silêncio, não ousando sequer respirar. A mãe de Taehyung arfa e se vira para ele, abaixando-se para olhá-lo nos olhos. Taehyung segura o rosto dela com as mãozinhas pequenas, fazendo carinho em suas bochechas avermelhadas, os dedinhos enxugando as lágrimas.

— Eu estou bem, mamãe, nada de ruim vai me acontecer. — Dita, sério, com uma expressão determinada e fofa. Ninguém além deles ainda ousou fazer qualquer som, e a híbrida abraça seu filhote de maneira firme.

— Ah, Taehyung…

E naquela noite ele não entende porque sua mãe chora em seu ombro, apertando-o com força como se ele pudesse a qualquer momento escapar de seus braços.

 

Taehyung chora.

Chora copiosamente, o líquido de seu nariz escorre e o ranho se mistura às lágrimas grossas e salgadas em seu queixo. Soluços fortes e altos cortam sua respiração afobada ao meio, ele tenta dizer algo entre o choro, porém mal consegue balbuciar. Aperta um cadáver de passarinho contra o peito, como se pudesse dar a vida de novo a ele ao fazer isso. Se pudesse, trocaria sua vida pela do animal sem pensar duas vezes; mas seus erros, que custaram a vida do canário, estão no passado agora — embora frescos em sua memória.

Ele já tem seus quinze anos recém conquistados. Não é a primeira vez que faz uma coisa ruim, contudo é a primeira vez que isto custa uma vida inocente. O híbrido grita, sentado na grama verde e fofa do jardim da mansão. Foi ele quem fez isso. Foi ele quem matou o canário.

Sua mãe o encontra e carrega um semblante de pura preocupação. Quando o vê com as mãos ensaguentadas, logo se senta ao lado dele, curiosa e apreensiva.

— O que aconteceu, querido?

— Eu… — Taehyung engasga e tosse.

A mais velha apenas espera pacientemente que ele consiga falar, as sobrancelhas ruivas unidas e os lábios crispados. Yoongi não pode entender a dor de Taehyung, mas sente uma parcela da dor dela. Quando a tosse passa, com os olhinhos inchados Taehyung apenas estende as mãos, mostrando o canário morto entre os dedos. Sua mãe solta um arfar de surpresa.

— Fui eu quem fiz isso, mamãe. Eu não sou um monstro! — Ele diz, a voz embargada como se algo estivesse entalado em sua garganta. — Fui eu, foram as minhas mãos, foram as minhas garras, mas não era eu fazendo… e...

O híbrido não consegue dizer mais nada. Yangmi o abraça, envolvendo-o, protetora. Yoongi imagina o que ela sente. Ela quer que Taehyung pare de sofrer. Ela quer que ele não tenha mais motivos para chorar. Que possa ser livre, apesar do destino tê-lo amaldiçoado. E, no entanto, isto é tudo o que ela não pode fazer.

— Precisamos conversar, Taehyung.

 

O mais novo Gato de Cheshire do País das Maravilhas acaba de fugir de casa.

Após ter aquela conversa com seus pais, na qual lhe revelaram seu destino de carregar uma maldição; como se seu dia já não estivesse ruim demais, uma visita um tanto quanto… excêntrica ainda apareceu na Casa do Gato de Cheshire. Toda a família, incluindo Taeyong, o tratou com o máximo de respeito e cordialidade possível. Taehyung parecia ser o único que não sabia quem era aquele cara.

Era um homem adulto que aparentava estar na casa dos quarenta anos, e se vestia de forma estranha. Parecia que havia pegado inúmeros trapos velhos e se enfiado em todos eles. Seus braços eram enfaixados e os cabelos brancos presos num rabo de cavalo frouxo, usava sandálias puídas e tinha uma voz tão rouca que era quase impossível de entender. Ele disse que era o Oráculo do País, chefe dos sacerdotes, encarregado de anunciar as posições do País. E que era por isto que estava ali; tinha que consagrar Taehyung como o Gato de Cheshire.

Taehyung tinha cara de quem estava achando tudo aquilo bem bobo. O velho passou a mão na testa dele ali mesmo; fazendo um sinal invisível; na sala do chá, e falou várias esquisitices. Taehyung não sentiu nenhuma diferença naquele dia.

O problema foi que a longo prazo as crises pioraram a tal ponto que ele sequer sabia direito quem era, exatamente. Às vezes, um mal sem limites se apossava dele e mesmo não querendo fazer coisas ruins, Taehyung não tinha controle de seu próprio corpo nesse momentos. O dia em que machucou sua própria mãe foi a gota d’água para ele. Sem levar nada consigo, Taehyung apenas fugiu de casa, indo para a rua. Agora, morava debaixo da marquise de uma relojoaria abandonada. Já fazia duas semanas. Duas semanas sem tomar banho. Duas semanas vivendo de comer restos que encontrava no lixo. Duas semanas em que era invisível. Duas semanas em que perdia o controle e fazia o mal, mas ninguém estava a seu lado para ver isto.

Pessoas iam e vinham e ninguém o enxergava. Apesar de ter ascendência nobre, lá estava ele jogado na rua, já magro e encolhido em si mesmo, como um gato vira-latas. As roupas haviam rasgado em várias partes e ele fedia a urina. Não sabia por quanto tempo continuaria aquilo, não tinha perspectiva alguma de melhora. Não sabia se estavam procurando por ele, se sua mãe sentia sua falta. Gostaria muito que ela o fizesse, mas não tanto, para que não ficasse triste.

Até que um dia, alguém o viu.

Um garoto ruivo, assim como Yangmi, entretanto sem sardas no rosto redondinho e corado, carrega um saco de farinha contra o peito com certo esforço. Ele é engraçadinho, andando desta forma desajeitada enquanto tenta levar o saco grande demais. Quando Yoongi o reconhece, aperta o livro com força, sentindo os dedos amassarem algumas páginas. É Jimin, sem sombra de dúvidas.

Taehyung observa-o com olhar curioso, sua cauda balança e as orelhinhas castanhas se agitam, interessadas. É a primeira criança que ele vê andando sozinha. Quando Jimin o vê, seus lábios fartos e rosadinhos fazem o perfeito formato de um “O”. Ele vai até Taehyung, que está jogado em trapos sob a marquise. É cedo pela manhã e nem todos os estabelecimentos abriram naquela rua comercial. Entretanto, lá está Jimin, às seis, comprando farinha sozinho.

— Ei… Oi. — Ele se aproxima, coloca o saco no chão e se abaixa para ficar na mesma altura que o outro.

Taehyung se encolhe, desconfiado. Arisco. Mas Jimin sorri. Um sorriso doce e acolhedor que faz seus olhinhos fecharem quase que completamente; aquilo faria qualquer um derreter. Bom, Yoongi derrete… e Taehyung também.

— Quer vir para casa comigo? — Jimin faz uma proposta irrecusável e estende a mão em direção ao híbrido sujo. Taehyung reluta de início, mas parece hipnotizado pelo garotinho.

Ele desvia o olhar de Jimin para avaliar a si mesmo, parece averiguar sua situação. Está maltrapilho, cansado e faminto. Analisa suas opções: a rua é ruim, mas Jimin parece ser bom. Taehyung pega a mão do menor e o toque de seus dedos é suave, todavia, firme o suficiente para dar ao híbrido, logo no primeiro encontro, a certeza de que Jimin nunca o abandonaria.

 

Desde então, era só Jimin.

Jimin lhe levou para o Castelo de Copas. Foi difícil conseguir a aprovação necessária para Taehyung ficar ali, porém no fim a mãe de Jimin, a condessa Park da casa de Paus, foi quem resolveu se responsabilizar pelo pequeno híbrido, fazendo a vontade de seu filho.

Passaram a fazer tudo juntos. O menor havia lhe dado comida, casa e a si mesmo. Taehyung vivia grudado nele e o seguia por todas as partes, sempre querendo saber de tudo sobre seu mundo, ajudando-o com os bolos e tortas, passatempo de Jimin desde esta idade. O Gato de Cheshire omitiu a verdade sobre sua ascendência, dizendo que era apenas um gato de rua, entretanto uma hora a verdade viria à tona.

Foi por Jimin que Taehyung conheceu Hoseok e Seokjin, também. Yoongi sorri ao reconhecê-los nesta… visão? Talvez a palavra certa seja imersão. Ele submerge na história, afundando num passado que não é seu, porém que ali está; completamente à sua disposição para explorá-lo; entre seus dedos em papéis gastos.

Hoseok é bem mais bochechudo com seus treze anos. Seokjin, o mais velho do trio — agora quarteto —, tem dezesseis. Ele é o que mais chama atenção, principalmente ao andar com os garotos, já que supostamente as moças da corte são criadas de outra forma. Contudo, lá está Seokjin, vestido em roupas femininas, os cabelos compridos cascateando sobre os ombros, agindo como uma dama. Além do fato de que eles são seus amigos, também é como se assim ele demonstrasse sua rebeldia — sutil, mas presente — por não poder ser quem realmente é.

Apesar de tudo parecer ir bem, Taehyung ainda é ele mesmo. Ainda é o Gato de Cheshire. E ainda machuca quem gosta. Hoseok sente antipatia por Taehyung, pois sabe que é ele quem causa aqueles arranhões no corpo de seu amigo ruivo. Seokjin também, porém ele por sua vez trata Taehyung o mais normalmente possível, porque sente pena. Yoongi acha que ele já deduziu quem Taehyung realmente é, mesmo que este nunca tenha se revelado como Gato de Cheshire.

Mas Jimin nunca reclama quando Taehyung tem suas crises. Nunca sequer levanta a voz. Ele apenas observa tudo, triste, e deixa Taehyung explodir todas as vezes apenas tentando acalmá-lo ou fazer com que ele volte a si. Quando não consegue ajudar, simplesmente espera o tempo que for necessário. E Taehyung sempre se arrepende e pede desculpas, contudo, sem contar a verdade.

Eles dividiam a cama no quarto de Jimin. No começo, sequer se tocavam, mas com o tempo Taehyung foi chegando cada vez mais perto, como um gatinho carente, até que passaram a dormir juntinhos todas as noites, abraçados ou só de mãos dadas.

Num dia, Taehyung abre os olhos e assim que se vira para Jimin e não o vê, faz um muxoxo. É a primeira vez em que desperta com tal vazio na cama grande e fica triste por não poder acordar o ruivo com beijinhos no rosto como vem fazendo há um tempo. Ele se levanta já indisposto e desanimado, senta na cama e coça atrás das orelhas felpudas, olhando ao redor no quarto decorado quase todo com lilás como se Jimin fosse sair detrás de algum dos móveis e dizer que era uma brincadeira. Ele tem um semblante tristinho de abandono que só é alterado quando, alguns segundos depois, Jimin entra no quarto.

O ruivo já está bem desperto e veste suas roupas de sair. Taehyung sequer sabia que estava chorando até que o mais novo vem rapidamente em sua direção com uma expressão fofa e preocupada nas bochechas que andaram diminuindo. As mãozinhas lhe seguram o rosto e o Gato de Cheshire suspira, fechando os olhos.

— Eu já estou aqui. Não precisa chorar. — Diz delicadamente, passando os dedos pelos caminhos de lágrima recente que percorreram as maçãs da face do moreno. — Está tudo bem, meu gatinho.

— Fiquei com medo de você me abandonar, Jimin. — A voz de alguém que está passando pela puberdade fica quase engraçada embargada desta forma, pois também oscila entre o grave e o agudo, contrastando de forma desafinada.

Jimin se ajoelha na cama e abraça Taehyung, que é mais alto que ele.

— Eu fui apenas buscar algo para você. Não abra os olhos ainda. — Jimin diz ao pegar algo no bolso e dar a volta com algum objeto pelo pescoço de Taehyung, tendo dificuldade para fechá-lo.

O ruivo pequeno transmite tamanha tranquilidade para o híbrido que é agradável de se ver. É impossível medir a quantidade de confiança, carinho e afeto que passa por entre eles, intrínseco no ar que respiram. Ao fim, o menor pega um espelho que havia sobre seu criado mudo e estende na frente do Gato de Cheshire.

— Abra os olhos.

Ao redor do pescoço de Taehyung, envolvendo-o como uma identificação, está agora uma coleira de couro com uma argola no centro, bem no meio, abaixo do pomo de adão do maior.

— O que é isso?

— Uma coleira. — Jimin sorri, simplista, enquanto o outro brinca com os dedinhos curiosos por entre a argola de ferro.

— E o que ela significa?

Taehyung tem um olhar inocente e ansioso em direção a Jimin. O mais novo sorri e se deita no colo do híbrido, o rosto próximo ao ventre alheio, abraçando-lhe a cintura.

— Significa que você é meu, Taehyung. Você me pertence e enquanto eu viver, ninguém pode mudar isso.

O Gato de Cheshire sorri com a resposta, ronronando alto. É uma cena tão bonita e pura que, imerso nela, Yoongi se esquece de que aquilo tudo já aconteceu e que não está realmente presente no quarto. O Min acaba por prender a respiração no medo de interrompê-los.

De repente, Taehyung franze o cenho. Ele cutuca Jimin em seu colo; o ruivo já tinha fechado os olhinhos, pronto para dormir sobre as pernas de Taehyung. Seu olhar se encontra com o do híbrido.

— O que foi, Taehyung?

— Se eu sou seu… e quanto à você?

O menor solta uma risada doce com a pergunta inocente e de certa forma tímida. Yoongi acha aqueles dois uma graça. Sinceramente, queria protegê-los de todo o mal.

Queria poder ter protegido.

— Eu? Que pergunta boba, Taehyung. — Ele se levanta e joga os braços ao redor do pescoço do mais velho, presenteando-o com aquele sorriso maravilhoso que só ele era capaz de dar. — Eu simplesmente pertenci à você no momento em que te vi nos meus sonhos.

 

Se tem uma coisa que Taehyung não percebe em seus dias no Castelo, é o quanto Jimin está adoecendo aos poucos. Não nota que Jimin está comendo cada vez menos. Seus pulsos já estão finos assim como o resto de seu corpo e ele teima em fingir, na maior parte do tempo, que seu organismo não precisa de comida.

Após ter ido morar no Castelo de Copas, Taehyung visitava sua família algumas vezes, entretanto, sem intenção alguma de voltar para casa. Em todas as visitas, era extremamente bem recebido por todos. Especialmente sua mãe, o anjo da vida dele. No palácio, Hoseok não gostava dele, e com razão. Nas crises, Taehyung não tinha controle sobre o próprio corpo. E, quando percebia, Jimin já estava marcado de novo.

Jimin já estava coberto de arranhões de novo.

Jimin já estava cheio de hematomas de novo.

E ele se odiava profundamente por isso.

Por mais que o filho da Condessa sempre lhe dissesse que não se importava, Taehyung não suportava se recuperar de mais uma crise e descobrir que o havia machucado de novo.

Seokjin, por sua vez, num geral era legal com o híbrido, porém às vezes o olhava com pena. Como se ele já soubesse, por mais que Taehyung não tivesse contado a ninguém ainda.

Chegou o dia em que, devido à doença do Park, a Condessa decidiu por comprar uma casa na cidade e se mudarem para lá. É claro que Taehyung foi junto. A partir daí, Jimin continuava fazendo seus bolos e tortas, mas era Taehyung quem os levava para seus amigos.

Taehyung sequer percebera que estava bem. Ele não prestava atenção a seu redor para saber que novamente tinham uma Alice.

Demorou um pouco para que ele descobrisse que Jimin tinha visões. Foi assim que ficou sabendo também que o ruivo tinha consciência de que ele era o Gato de Cheshire alguns dias antes mesmo de conhecê-lo. Havia percebido que às vezes ele sabia de coisas antes de elas acontecerem. E, em outras, Taehyung acabara presenciando em diversas ocasiões os momentos em que Jimin estava tendo as visões. Ele entrava em um transe de alguns segundos, sem piscar, olhando para o nada — sempre que voltava a si, seu olhar alarmado o denunciava.

E foi assim que ele disse, uma vez, para Taehyung, que se beijariam.

O filho da Condessa tinha então 14 anos e o Gato de Cheshire, 19. Disse isso numa manhã, assim que o híbrido acordou. Geralmente era o mais velho a acordar primeiro, estavam ambos acostumados assim. E no entanto, naquele dia, Jimin desperta antes do híbrido e o observa dormir, quietinho. Repousa a cabeça no ombro do mais velho, olhando-o fixamente. Assim que Taehyung abre os olhinhos sonolentos, a primeira frase de Jimin é:

— Você vai me beijar hoje à tarde.

Taehyung quase engasga, leva a mão ao rosto para tossir algumas vezes. O ruivo está completamente sério enquanto o encara, como para demonstrar que não está brincando. Que teve uma visão. Que isto vai acontecer.

Pela tarde, o reino está alvoroçado. Algo importante aconteceu mais cedo e o híbrido não tem como saber o que. Taehyung ajuda Jimin a carregar os ingredientes para seus bolos por todo o trajeto desde a feira até sua casa. A esta altura, ele já está completamente ciente da doença de Jimin e até tenta fazê-lo comer. Na maioria das vezes, Jimin faz o que ele quer, porém em outras ele também apenas o olha feio, como se Taehyung devesse saber que ele não quer comer no momento. Assim que colocam as mercadorias na cozinha, Jimin se senta na enorme mesa e o mais velho ergue uma sobrancelha.

— Lembra-se do que eu disse hoje cedo? — Questiona.

Taehyung engole em seco, desviando o olhar. Quando Jimin repete a pergunta, ele faz que sim com a cabeça, as bochechas corando. Jimin ri da timidez alheia.

— Venha cá, Taehyung, eu não mordo.

O mais velho se aproxima a passos lentos, parando bem à frente do ruivo e se acomodando entre suas pernas abertas; ninguém fala nada por um tempo. Jimin leva as mãos pequenas aos cabelos da nuca do híbrido, passando a brincar com os dedinhos em meio aos fios castanhos. Taehyung ronrona involuntariamente e sua cauda balança, agitada pelo prazer. Jimin, que até então encarava seus olhos, desvia o olhar para a boca carnuda do Gato de Cheshire.

— Jimin…

— Shh. — O mais novo lhe faz um carinho na bochecha, admirando as proporções de seu rosto bonito. — Você quer?

Taehyung engole em seco mais uma vez, causando um som oco. Leva as mãos grandes à mesa de madeira, deixando-as ao lado da cintura do menor. Ele finalmente levanta também os próprios orbes, parando de fitar o chão e olhando o ruivo diretamente nos olhos.

— Quero.

Jimin o puxa para um beijo; Taehyung não se afasta.

Naquela manhã, o que acontecera foi que a até então Alice havia morrido. Provavelmente, Jimin previra aquilo também. A partir daí, o inferno retornaria.

 

De tão mergulhado na história, Yoongi sequer percebe que deve parar de olhar quando as coisas entre eles, numa noite entre várias, começam a esquentar — bom, mais do que já o faziam. Fechar os olhos não adianta, porque aquilo tudo acontece dentro de sua cabeça. Ele solta o livro, o empurra, porém o efeito de cortar o transe é nulo e ele não consegue deixá-lo mais longe de si.

Ou seja, está preso na visão de Taehyung e Jimin aos amassos.

Acontece que desta vez é diferente das outras porque Jimin por pouco fez dezoito anos. Taehyung está agora com 22 e por mais que, tecnicamente, ele possa, ainda parece limitar a si mesmo. Estão se beijando na cama de Jimin; a luz cálida da lua ilumina fracamente tudo no cômodo, inclusive as duas silhuetas agitadas. O ruivo está por cima, sentado sobre o colo do híbrido, que está deitado na cama. Ainda estão vestidos, provavelmente por pouco tempo. É como ver um filme pornô em XD. Como imaginava, Taehyung não é um exemplo de pessoa carinhosa nesses momentos. Jimin geme, quebrado e entorpecido pelo prazer que o híbrido lhe proporciona, não dando nenhum indício de que não esteja gostando — muito pelo contrário. Seus dois orgamos provam o quanto ele, definitivamente, não está desgostando daquilo.

Taehyung é bruto, dominante. Ao fim do ato, ele se afasta de Jimin como se houvesse acabado de cometer um erro imperdoável, e é aí que começa, Yoongi percebe, um dos grandes problemas na relação deles.

— O que foi? — Jimin pergunta preocupado. Taehyung se levanta da cama, a cauda peluda se enroscando pelo torso como se fosse capaz de cobrir toda sua nudez.

— Eu te machuquei de novo? — É um murmúrio dado pela voz grossa e rouca.

Jimin não mente.

— Bem, um pouco… mas não foi ruim, querido. Venha cá.

— Jimin… eu te machuquei de novo.

— Está tudo bem. — O ruivo insiste, se levantando. — Taehyung, me ouça, está tudo bem, eu gostei, está bem? Foi bom.

— Não está tudo bem.

— Não foi ruim. — Jimin repete após um suspiro e com um gesto, chama o outro para deitar-se ao lado dele novamente. — Eu sempre vou gostar se for com você. Pode só vir aqui? Por favor?

Taehyung esconde o rosto nas mãos por alguns segundos. Quando volta a olhar para Jimin, está com os orbes marejados. Ele se precipita e, rapidamente, coloca suas roupas de novo enquanto o ruivo, nu na cama, o encara com pena, sem saber o que fazer.

— Me desculpe, Jimin.

— Taehyung...

Taehyung nunca se perdoou. A partir daí, sempre que Jimin queria fazer, ele negava. Com muita força de vontade, recusava o ruivo dono de seus suspiros, de seu amor... dono de si. E, bem, quando seus hormônios enlouqueciam por se privar tanto tempo, Taehyung fugia. Fugia para o colo — enfim, o corpo — das prostitutas na calada da noite, deixando Jimin de coração partido sozinho em sua cama. Ele era inocente demais para compreender que certas feridas são muito piores que as da carne. E é por saber disso que Jimin nunca fez nada.

— Eu te amo tanto que preciso te proteger, Jimin, incluindo de mim mesmo.

Era o que ele dizia. E Jimin acreditava, porque era verdade. Taehyung sempre fora extremamente sincero, principalmente com relação a seus sentimentos.

 

Um dia, Taehyung melhorou de novo; foi quando May Lee tornou-se Alice. Eles estavam na cerimônia, Hoseok estava acompanhado de uma mulher linda e eram só sorrisos. Entretanto, Yoongi só a vê de relance — arrisca dizer que é porque esta é outra história, mas talvez seja porque ela não fosse de muita importância para o Gato.

No entanto, a alegria dura pouco. Eles sabiam que ela estava grávida, e era só o que tinham conhecimento sobre sua condição. Mas naquela tarde, a maldição de Taehyung voltou minutos após Jimin ter um sonho ruim com a atual Alice.

Foi quando May Lee morreu.

 

Mesmo meses após isso, algo de muito errado acontecia com Hoseok. Taehyung passou a tentar fazer o bem salvando os aspirantes dele, porém quando o Chapeleiro concordava em deixá-los viver, ou eles eram mortos pelos desafios, ou o lado mau de Taehyung acabava machucando-os de forma irremediável, como quando ele empurrou um aspirante da sacada. Jimin enxugou todas suas lágrimas naquela noite, porque a existência do Gato de Cheshire vinha se tornando um acúmulo de arrependimentos e decisões que soavam mais como autoflagelo.

E por mais que ele bata, empurre, arranhe e machuque Jimin — e claro, chore muito, se arrependa, se ajoelhe pedindo perdão —, o ruivo sempre está lá, paciente, chorando junto, contudo firme. Até que Jimin faz uma música e decide cantá-la para Taehyung, para ajudá-lo nas crises. Funciona mais que o esperado e eles conseguem manter certas coisas sob controle sempre que o híbrido se lembra de cantar a música — isto é, quando Jimin não está por perto para cantá-la por conta própria — em suas crises.

Então vem Yoongi. Jimin tem a visão do Min chegando ao País e é ele quem manda Taehyung recepcioná-lo, antes que Hoseok tenha a chance.

A morte de Jimin não é o tipo de coisa que o Min gostaria de rever, mas não tem opção senão assistir a tragédia novamente, vendo a si mesmo na cena, correndo com Taehyung. E ele sente que está chorando, mas não consegue nem mesmo enxugar as lágrimas.

Yoongi se esforça. Reúne tanto a força de vontade quanto a física para conseguir virar aquela página, bem no momento em que Taehyung está prestes a se matar com uma faca na garganta — a última coisa que Yoongi vê daquela página, é o híbrido soltando a faca para sentir a coleira em seu pescoço, e desistindo da ideia. Aquilo foi algumas horas antes de ele correr atrás de Yoongi para se juntar à Caçada, e o loiro fica extremamente triste em ver que o híbrido considerou realmente tirar a própria vida, se forçando a lembrar de que Taehyung agora está bem, continua vivo e foi liberto de sua maldição.

Então ele chega a outra página, outra história.

 

♤♡◇♧


Notas Finais




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