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História Eu sou preto e ele amarelo - Capítulo 1



Capítulo 1 - Capítulo Único


— Primeira consulta, não é mesmo? — Confirmei assentiu desconfortável. 

A tensão em seus ombros dava a perceber que ela não conseguia relaxar. Fazia um tempo desde que eu realmente encontrei alguém que não ficasse à vontade na minha beira. De algum modo, era interessante.

— Nervosa? — Ela ficava passando as mãos umas nas outras na esperança que isso lhe confortasse.

— Não é isso... — Ela diz com a voz trêmula.

— Não veio forçada, veio? — Perguntei a Yan Bin, agora não vendo mais graça nenhuma no ambiente.

— Eu não confio em você. — Sua resposta foi surpreendente. Não teve como eu não arquear as sobrancelhas.

— Não confia em mim. — Repeti pra mim mesmo. — Posso perguntar o porquê?

— Confiança se constrói com o tempo e com o que sabemos um do outro. — Sorri.

— Quer saber algo sobre mim pra ficarmos quites?

— Quero saber se você é o tipo de pessoa em que podemos contar tudo.

Deixei minha posição mais séria de lado a procura de relaxar mais o ambiente e dar um ar de naturalidade.

— Como assim?

— Se for apenas pra me trazer aqui e fingir ser meu amigo eu já tenho muitas pessoas que fazem isso.

— Estou aqui pra ajudá-la.

— Vai me ajudar quando eu estiver do lado de fora, vai manter contato, vai me distrair pra que não faça besteiras? — Entendi o que ela quis dizer. Ela precisava de alguém em que pudesse confiar, pudesse se apoiar. Queria um confidente. Algo mais que um amigo. Alguém que a compreendesse e não a abandonasse.

— Trouxe celular? — Ela abriu a bolsa que estava em seu, e colocou o mesmo em cima da mesa.

— Já está no silencioso. — Ela diz achando que minha intenção era verificar que ninguém iria nos interromper.

Peguei o celular e abri os contatos. Adicionei meu número e salvei. Depois virei o celular pra ela ainda no perfil do meu contato.

— Se estiver chateada, se sentindo sozinha ou apenas quiser ser ouvida pode me ligar. Salvei meu número e assim poderemos ser amigos — Ela olhou pro celular e depois pra mim.

— Já que confiança tem que ser conquistada, vou conquistar a sua! — Ela deu um meio sorriso e então vi que em sua volta tudo ficou mais leve.

— Você é um rapaz bonito, por que escolheu ser psicólogo?

— Na verdade nem sei explicar. Uma vez que eu me tornei voluntário do Setembro Amarelo eu decidi ser psicólogo, minha natureza sempre teve uma paciência enorme pra lidar com as pessoas e um dom especial pra fazê-las sentirem-se confortáveis.

— Se depender da minha paciência, eu acho que terei que trabalhar como boxeadora. — Minha vez de sorrir.

— Por que isso? É uma pessoa tão explosiva?

— Eu só não tenho paciência nem pique pra aceitar provocações. Resolvo tudo, aqui e agora.

— Assim, acho que já sei que não devo irritar você ou vou apanhar. — Outro meio sorriso dela.

— Acho que não vai precisar se preocupar com isso. Nunca vai sair comigo pra poder me irritar. — Ela disse, um toque de tristeza teve transparência em seu tom. Eu ia abrir a boca e perguntar como ela se sentia em relação a isso, mas a tela do seu celular ligou cobrando, uma ligação.

— Pode atender. — Eu disse e ela pegou o mesmo e atendeu ali na minha frente.

— Se a consulta já terminou?

Olhei pro relógio no braço. Como era primeira consulta, tínhamos de uma hora e meia do seu horário de atendimento. Já tinham se passado duas horas e trinta e quatro minutos. Assinto pra ela.

— Sim. Já terminou... Pode vir. — Ela disse e depois desligou. — Acho que está na hora de ir.

— Tudo bem. — Eu disse e então me levantei indo até a porta.

— O que acha de sairmos pra jogar alguma coisa outro dia?

— Jogar? — Seus olhos brilharam.

— Sim.

Ela parou na porta e eu fiquei segurando a mesma.

— Gosta de jogos?

— Gosto de Go.

— Infelizmente sinto lhe avisar que sou bom em Go.

— Então vou caprichar até o dia em que nos vermos de novo.

— Claro!

Eu disse e uma moto buzinou do lado de fora. A observei ir embora e montar na mesma colocando o capacete e partindo. Comum de mais um dia trabalhoso!


 

Cheguei em casa e Derry, meu cachorro, me recebeu super feliz. Como já estava no final da tarde fui dar uma corrida pela calçada da cidade e o levei comigo pra andar. O Derry adorava andar comigo, normalmente me obedecia, mas hoje tinha feito diferente.

Assim que soltei ele pra ir fazer suas necessidades, ele saiu correndo.

— Derry! — Gritei ele e o mesmo me ignorou.

Corri atrás dele na esperança de alcançá-lo, mas ele era mais rápido e depois de alguns minutos correndo atrás dele eu o perdi de vista sem fôlego.

Decidi o esperar voltar pra casa, mas como fazia um tempo que não caminhávamos juntos e também a Praça era de outra comunidade que não estávamos acostumados a frequentar, fiquei ali mesmo esperando ele voltar.

A noite já tinha caído e nada dele. Esperei tanto que acordei com uma sombra em frente à luz que me iluminava.

— Derry! — Me abaixo e brinquei com meu pequeno ele lembro meu rosto me sujando todo animado.

Então botei ele na soleira e olhei pro homem que tinha trazido ele pra mim.

— Qual seu nome?

— RM. — Ele disse e então meus olhos ficaram em seu estilo diferente e sombrio.

Ele vestia uma camisa preta sem desenho algum e por cima uma jaqueta de couro preta também. Sua calça não era diferente. Era um jeans preto folgado com algumas linhas desejadas em cima da calça.

Fechei os olhos e balancei a cabeça pra me recuperar e quando abri mais olhos ele não estava mais lá. Olhei de um lado pro outro e não encontrei mais ele.

— Eu hein.

Assim voltei pra casa, mas tinha a sensação forte de estar sendo seguido por dois pares de olhos, mas toda vez que eu olhava, não tinha ninguém o que me faz pensar que eu estava ficando paranóico.

Comi algumas sobras do almoço e então fiquei até tarde assistindo televisão. Quando fui me deitar, ouvi um barulho estranho na minha cozinha o que me fez ficar assustado.

— O que foi isso?

Não podia ser o Derry porque ele estava dando uma volta na rua, então não tinha como entrar em casa.

Peguei a vassoura dentro do banheiro e devagar me aproximei da cozinha em modo de defesa. Quando abri a luz, o cara que estava na cozinha gritou o que me fez gritar também.

— Você me assustou!

Levo minha mão ao coração que estava a mil. Olhei pra porta do fundo e a mesma estava fechada.

— Como entrou na minha casa? — Ele continuou mexendo a parte de cima do meu armário.

— Deixou a porta aberta.

— Eu não... — Caminhei até a mesma e abri a porta, ela realmente estava aberta. Passei a chave na porta pra trancar a mesma. — Mas o que faz aqui? Me seguiu? Não é um assalto, é? — Perguntei desconfiado das intenções dele. Como um cara invade a casa do outro e é uma pessoa de bem?

— Minha irmã quer me forçar a comer com ela. — Ele pegou meu pacote de cereais e abriu a geladeira pegando leite e um prato no escorredor e logo se sentou na mesa se servindo.

— O que tem de demais em comer com sua irmã? — Isso me pareceu um problema familiar, então, mesmo que estivesse fora da minha hora de trabalho e bem mais do horário que devia, decidi ajudá-lo.

— Ela é uma péssima cozinheira, mas ama comer.

— Ah! — Esse era um bom motivo pra não comer com ela.– Então porque você não cozinha?

— Por que eu não sei e a Yan Bin me faz de cobaia pra suas comidas.

— Você disse Yan Bin?

— Sim, ela se atende com você, não é mesmo? — Ele disse já na metade do prato.

— Sim, agora é uma amiga também — Ele terminou de comer e beber o leite virando o prato na boca.

— Estou satisfeito! — Ele diz sorrindo e eu acabei sorrindo também. Então ficamos um tempo em silêncio. Ele ficou me encarando então decidi agir. Peguei o prato e fui lavar.

Eu ainda podia sentir seus olhos nas minhas costas, mas o ignorei. Terminei de lavar, sequei e lavei. Peguei o cereal e devolvi ao armário. Então ele se levantou.

— Já está indo? — Ele assentiu. Eu o levei até a porta da frente, ele aprecia atento a cada detalhe da minha casa. Ela não era bem decorada então não sabia o que ele tinha visto de interessante.

Quando abri a porta ele me encarou nos olhos, seus olhos eram escuros e sombrios, era como se penetrasse meu corpo e por um segundo senti medo dele.

— Tome cuidado com o que você faz. É melhor não se apegar demais as coisas. Você pode acabar se frustrando com o que você mais ama isso pode acabar com o que você é e destruir o que um dia você planeja ser

Ele diz e sem mais nem menos me dá as costas e some na escuridão da rua.

Eu queria muito perguntar por que ele disse aquilo, mas eu tinha medo da resposta. Ele parecia saber de algo que eu não sabia, isso era meio estranho e perturbador. Preferi esquecer isso, mas eu não tive sucesso nessa missão.

 

Os dias que seguiram se passaram rapidamente e eu ainda estava com a frase de RM na mente. Eu poderia continuar pensando olhando fixamente pro nada se alguém não tivesse se posto na minha frente.

— RM? — Perguntei levantando a cabeça, mas não era ele. Era sua irmã. — Yan Bin?

— Dando uma volta? — Ela perguntou com um sorriso. Nós caminhávamos lentamente enquanto ela chutava pedras imaginárias continuando calada.

— Você me acha uma garota feia? — Ela perguntou do nada. Olhei pra ela ainda assimilando a pergunta.

— Não acho que é feia.

— Mas não me considera uma garota bonita, não é? — Olhei pra ela e novamente aquele rostinho demonstrava tristeza.

— O que aconteceu com você?

As últimas semanas passaram rápido, eu consegui conquistar a confiança de uma paciente extremamente difícil. Até mesmo a encontrei no meio da noite porque ela estava sem sono e sem saber acabamos pegando um eclipse lindo, saímos pra tomar sorvete porque ela estava sozinha e tive que buscá-la numa boate porque havia feito besteira.

— Lembra o cara que eu disse que estava namorando? Ele disse que eu não servia mais pra nada e eu fiquei com muita raiva. — De repente eu senti a necessidade de perguntar.

— Não fez nenhuma besteira não é? — Ela cruzou os braços e apertou os mesmos no corpo. Parei de andar e fiquei a olhando. Quando percebeu que eu não a acompanhava ela parou e olhou pra trás.

— Acho que umas das causas que me tornam não normal são minha bipolaridade e meu jeito anormal de lidar com a raiva. — Ela disse sorrindo, mas não havia nada agradável naquilo. Ela era masoquista.

— Eu já disse que é pra parar com isso? — Ela desfez o sorriso. Me aproximei dela e peguei seu braço. — Isso é coisa que uma pessoa normal faça? — Aquilo me deixava irritado, não era a primeira vez que ela fazia isso. Cada vez ficava pior.

— Se eu fosse normal não teria que ir a um psicólogo. — Ela puxou seu braço. — Agora gosta menos de mim? Me odeia pelo que eu faço? Vai me julgar como as outras pessoas fazem? — Ela agora estava alterada e com razão, eu não devia ter me sobressaltado.

— Yan Bin... — Tentei me aproximar dela, mas ela se afastou ao mesmo passo que eu dei.

— Não me toque, está bem? De preferência nem fale mais comigo! — Minha cabeça estava explodindo, não sabia se aquilo era raiva, fúria ou alguma outra coisa, normalmente eu era racional.

— Esqueceu que quem sempre me procurou foi você? É você que se mete em roubada e depois vem correndo pra mim, não o contrário. — Ela bufou e então deu meia volta frustrada.

— Eu não devia ter confiado em você! — Ela disse bem perto do meu rosto cerrando seus dentes e em seguida saiu me deixando sozinha. Eu cogitei ir atrás dela, mas estava tão chateado quanto ela.


 

Voltei pra casa e quebrei alguns vasos de vidro e mais alguns copos, eu sabia que aquilo não era nada que normalmente eu fazia, mas eu precisava deixar de ser certinho apenas uma vez.

Gritei, me descabelei, chorei, fiz tudo o que eu tinha direito naquele momento e o que não tinha também. Nunca havia me sentido tão furioso. Ainda por cima por uma paciente. Não, não era apenas uma paciente. Eu sentia algo por ela, se não sentisse não ficaria daquele jeito, eu nunca fiquei.

Fiquei sentado no sofá com minha frustração até que caí no sono. Acordei com o celular tocando, meus olhos estavam inchados de tanto chorar, então eu apenas atendi sem ver quem era.

— Alô?

— JB? — Reconheci sua voz na hora, mas estava muito magoado pra ter qualquer tipo de reação feliz por ela ter ligado.

— Está com problema? — Perguntei com cinismo na voz.

— Me desculpe. — Ela disse e então abri meus olhos.

— O quê?

— Me desculpe por ter magoado você... — Sua voz era rouca, ela estava chorando, arrependida talvez. Não. Aquela voz emitia mais alguma coisa.

— Eu fiz besteira de novo. — Ri comigo mesmo sem ver nenhuma graça. Por acaso eu era o bombeiro dela? Ela só me chamava quando tudo estava pegando fogo.

— Que pena. — Falei num tom de desprezo. Eu não ia ceder, não mesmo.

— Estou na frente da sua clínica... Pode vir me ver? Eu acho que dessa vez eu não escapo. — Sua voz era embriagada, parecia estar bêbada, eu não iria lá.

— Você não deveria ter escapado em nenhuma das outras vezes.

— Estou te esperando.

— Vai morrer me esperando então! — Falei minha sentença e desliguei. Joguei o celular na parede e o mesmo fez um barulho, a tela provavelmente tinha quebrado se é que ele ainda prestaria.

De repente as luzes da minha casa começaram a piscar. Olhei pela janela e tudo lá fora estava escuro.

— O que está acontecendo? — Vi vultos começarem a me rondar pelo sofá, eu estava ficando louco? Era isso, só podia ser.

Abracei minhas próprias pernas e coloquei as mãos aos ouvidos no intuito de que eu iria acordar a qualquer momento porque só “podia” ser um pesadelo.

Então tudo se acalmou. As luzes pararam de piscar. Como eu desconfiava, foi coisa da minha mente. Abri meus olhos e então toda minha calma foi por água abaixo.

— RM? — Ele estava todo de preto, como sempre. Ele havia sumido depois de invadir minha casa, quando perguntei sobre ele a Yan Bin, ela disse que ele só estava por perto porque ela queria que tivesse, queria ter um irmão e apelou muito pra que ele fosse o dela.

— Se eu fosse você se preparava. — Coloquei os pés no chão me levantando com cautela.

— O que quer dizer?

— Você era o único que podia salvá-la. — Me mantive firme.

— Do que está falando? - Eu tinha uma ideia do que era e morria de medo da resposta.

— Onde está a Yan Bin? — Quando ia tocar nele, a luz caiu e ascendeu, mas ele desapareceu em um segundo. Aquilo era real? Era possível que esse tipo de coisa existisse? Não, eu só podia estar louco!

Meu celular começou a tocar do nada. Pelo jeito minha raiva não foi suficiente pra ele parar de prestar. Peguei o celular no chão e atendi, uma película de vidro realmente fazia diferença na vida de um celular.

— Tem uma garota morta em frente a sua clínica! — Fiquei pasmo. Afastei o celular do ouvido deixando meus braços caírem ao lado do corpo. Lembrei de tudo o que havia acontecido hoje.

A maneira como a Yan Bin descontava a raiva, sua expressão ao ir embora, sua ligação pra que eu a encontrasse, as coisas sinistras que aconteceram aqui e o aparecimento e desaparecimento repentino do RM.

— Não... É mentira... A Yan Bin está bem... Ela tem que estar... — Meus olhos jorravam de lágrimas. Caí no chão de joelhos e sentei em cima das minhas pernas

— Eu avisei. — Olhei pro lado e lá estava ele de novo.

— Sabia que isso ia acontecer? — Perguntei tentando não entrar em desespero.

— Eu disse pra não se apegar. Eu já sabia pra onde ela iria, eu apenas atendi seu pedido. Fiquei ao lado dela.

— O que quer aqui?

— Você é o próximo.

— De quê?

— Que vai me implorar pra que eu te leve, pra que eu te acompanhe até sua morte.

— Como pode ter certeza?

— Vai conseguir viver sem ela?


 

Com o tempo, percebi que ele tinha razão. Eu não podia viver sem ela, eu havia me apegado e pior ainda, eu era o único que podia salvá-la e a deixei morrer com meu orgulho.

Acabei sendo afastado da minha profissão. Ainda bem que meus pais moravam longe, tudo que eu menos precisava era que eles me vissem daquela maneira deplorável.

Eu havia passado a me trancar dentro de casa. Comia porque o RM passou a viver lado a lado comigo. Ele era silencioso. Às vezes eu nem percebia que estava ali.

Lembrar do que ele disse me fazia entender cada vez mais quem ele era. Com certeza ele não era humano.

Em meio a mais um dos dias de silêncio. Ele estava lá sentado no chão encostado à porta me encarando. Eu passava maior parte do tempo deitado na cama debaixo do lençol.

— RM? — O chamei pra ter certeza que me ouvia? Ele caminhou e se sentou ao meu lado na cama.

— Estou ouvindo.

— Por que não vai embora? — Ele devia ter mais o que fazer, seja lá o que ele fosse, ele não podia ficar o tempo todo comigo.

— Você não quer que eu vá. — Me sentei na cama devagar e o encarei. Seus olhos eram diferentes agora. Seus olhos não eram mais tão sombrios. Na verdade tinha uma luz que algum tempo atrás eu jamais imaginei que poderia ter e que agora eu jamais entenderia.

— Não pedi pra que ficasse.

— Mas desejou que eu o levasse.

— Quem é você?

Todo brilho que ele tinha em seus olhos sumiu quando ele abriu sua boca pra me responder.

— Eu sou a Morte, encarregada de carregar as almas dos suicidas. — Eu arqueei as sobrancelhas, mas então baixei meu olhar e abracei minhas pernas.

— Quando vou me juntar a ela?

— Não sei. Eu acompanho aqueles que me desejam, não sou eu quem causa a morte de vocês, mas sim vocês mesmos.

— Então pode ouvir meus pensamentos? Sabe cada coisa que penso?

— Não, sei cada um dos seus desejos, mas não deixe seu desejo de se juntar com ela o mate. Você tem tanto pra viver. — Se ele era mesmo a “Morte”, ele não deveria me incentivar a me matar logo e acabar com tudo isso?

— Não devia me dizer o contrário?

— Eu simplesmente não consigo ver você como mais uma alma que irei levar. Você tem que viver, tem que sair dessa. Depressão não é brincadeira, e todas que conheci eu levei, mas não quero levar você. Sobreviva a isso. — Ver ele me incentivando a viver era horrível.

— Pode sair?

— Por que eu faria isso?

— É meu desejo — Ele me olhou por mais alguns segundos e então se levantou, abriu a porta e saiu a fechando. Me levantei pra conferir que ele tinha ido embora quando abri a porta ele não estava mais dentro de casa. Eu já estava acostumado com sua ida e volta repentina.

Voltei pro quarto e abri meu guarda-roupa. Aquela era minha única oportunidade que eu tinha pra poder sair sem ele no meu pé. Normalmente eu vestia roupas mais claras e eu tinha certo fanatismo por amarelo, mas naquele dia peguei uma roupa que nunca usei antes, preto.

Vesti uma camisa, calça e sapato preto, depois peguei meu capote moletom e vesti por cima da camisa.

Sai pelas ruas sem destino. Quando me dei conta eu passava em cada lugar onde eu já tinha ido com a Yan Bin. Na clínica, na sorveteria, no parque, na boate e por fim, no dique onde eu corria.

Parei exatamente onde eu a vi partir pela última vez. Uma grande tristeza me tomou novamente. Caminhei até o paralelo do Dique e subi em cima do mesmo. Olhei pra baixo e a água verde escura estava calma, serena.

Do que adianta mesmo viver aqui sem ela?

Eu não tinha a intenção de me suicidar, mas lá embaixo parecia mais confortável, parecia a forma mais rápida de chegar até ela.

Respirei fundo e fechei meus olhos. A brisa do vento batendo nos cabelos era refrescante, mas eu não queria sentir mais nada, foi a minha escolha. Deixei meu corpo leve e simplesmente joguei-me.

Então quando pensei que tudo acabaria e senti alguém me pegar pelo colarinho e fiquei pendurado do lado de fora do paralelo.

— É idiota por acaso?! — Olhei pra ele mais que surpreso. O que ele fazia aqui?

— Se segure em mim. — Ele disse e quando viu que eu não faria isso me passou um olhar sério. Segurei seus braços e ele me puxou de volta.

Ele se jogou cansado no chão e então vi algo surpreendente, sua roupa estava amarela agora. Quando percebeu o que eu encarava ele olhou pra si mesmo e então fez cara de surpresa.

— Isso é possível? Será que foi porque salvei sua vida? — Percebendo a burrice que eu podia ter feito tentei segurar minhas lágrimas. RM me olhou e então se aproximou de mim. — Não precisa ser forte. — Desabei.

Tudo que tinha guardado desde quando a Yan Bin se matou agora estava saindo. Era como se todo aquele peso desaparecesse. Quando me acalmei, RM levantou e me estendeu uma mão.

— Vamos você não está sozinho!

 


Notas Finais


Capa por @stanproduce


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