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História Eu vejo você - Capítulo 1



Notas do Autor


Ok, antes a nota tava pronta mas perdi ela, ent vou tentar lembrar dela certinho.
Começando pelo shipp: resolvi entrar na vibe de sair da minha zona de conforto e decidi fazer um shipp q nunca escrevi, mas não satisfeita, escolhi um q sequer li sobre, sério, NUNCA li. Eu ia regaçar mais ainda e pegar comédia p shipp namhope, porém eu achei q já tava saindo demais da minha caverna e decidi maneirar, quem sabe um dia aparece aqui uma de comédia.
P essa fanfic a minha pesquisa de campo (lê-se tio Google) foi baseada completamente nas personalidades MBTI oficial dos meninos, namjoon é o Ativista (ENFP) e o hoseok é o Cônsul (ESFJ) e usei tanto os pontos bons quanto ruins do Hoseok pra criar o drama.
Esses pontos ruins foram: vulnerável a críticas, relutante em improvisar ou inovar, precisam se sentir apreciados ou irão tentar reassegurar o quanto eles são valorosos, pensa mais no bem dos outros do q o próprio, preocupam-se com a imagem social deles. Agr os bons q no contexto da fic se tornaram ruins vou por o contexto entre parênteses: um enorme senso de dever (corresponder às altura as expectativas daqueles q ama), cuidadoso para não ofender ou machucar (aqueles q ama), tenta sempre manter o status quo (o tava bom antes deve continuar).
A personalidade do Nam eu falo nas notas finais (pq n tem tanta importância agr msm).
Enfim, tenham uma boa leitura nos vemos nas notas finais bebês!
Trailer da Fanfic:
https://www.youtube.com/watch?v=RP3W5D1FH2E

Capítulo 1 - E o seu sorriso nunca me enganou


Fanfic / Fanfiction Eu vejo você - Capítulo 1 - E o seu sorriso nunca me enganou

— Namjoon, o que você tá fazendo aqui cara? — Jackson perguntou alto quando viu o amigo na balada mais popular da faculdade.

Kim Namjoon não gostava dos sons altos, cheiro de bebida, suor e muito menos de muitas pessoas juntas. O que fez o loiro sair de seu estúdio em plena quinta-feira? Simplesmente não fazia sentido para Jackson o universitário de Arte estar num lugar improvável como aquele.

— Adivinha? — Namjoon revirou os olhos, indicando com a cabeça para um Taehyung dançando loucamente na pista com uma mulher. — Vim cuidar da peste do meu irmão, obviamente. — Bufou.

— Quer ficar junto comigo, bro? — o chinês perguntou, apontando a mesa onde estavam e o coreano negou.

— Vou ficar aqui no bar pra olhar ele de perto cara, sua mesa tá longe demais e ele já bebeu muito. — Não demorou para Jackson ser puxado de volta para sua rodinha de amigos por Mark, despedindo-se precariamente de Namjoon.

Um suspiro de tédio deixou os lábios do Kim e ele levou o copo aos lábios, buscando o irmão com os olhos. Vagou com cautela entre os corpos dançantes e bêbados, sem encontrar a pessoa de quem deveria estar cuidando. Praguejou baixo e largou sua bebida sem álcool no balcão, agradecendo ao barman.

Merda, foi só um minuto, Namjoon pensou enquanto andava até os banheiros procurando pelo mais novo. Como esperado, o garoto não estava lá e o Kim voltou para a pista tentando se manter calmo para não passar raiva desnecessária.

— Merda! — deixou o xingamento escapar, bagunçando seus próprios cabelos dourados.

Namjoon optou por continuar onde estava antes, perto do bar, e com muita sorte seu irmão lembraria onde ele estava em meio à bebedeira. No entanto, não era lá uma ideia muito boa confiar na memória defasada de Taehyung, principalmente com álcool correndo em suas veias.

Passou a observar os rostos desconhecidos à procura de um específico e de olhos verdes como os seus. Entre um olhar turvo e outro, o Kim sentiu o peso intenso de um olhar. Procurou discretamente por quem quer que lhe olhasse, encontrando as orbes de um castanho profundo cravadas em si.

Manteve a encarada de modo firme, sentindo seu corpo arrepiar pela intensidade daquele homem estranho. Não conseguia desviar ou prestar atenção em outra pessoa naquela balada abafada e lotada. Era como se um deles fosse um ímã fortíssimo e o outro um metal, atraindo-se um para o outro naturalmente.

Enquanto Namjoon estava no banco do bar, o outro estava em pé ao lado de uma mesa próxima à pista de dança com algumas pessoas. Estavam a bons metros de distância, porém o Kim era capaz de vê-lo muito bem sob as diversas luzes coloridas e piscantes. 

Namjoon viu o homem soltando uma lufada pesada de ar, evidenciando o peitoral definido e não se conteve ao analisar o corpo dele. Parecia alto, ainda que chutasse ser alguns centímetros mais baixo que si, numa postura esbelta. Tinha um belo bronzeado, diferenciando-o do pálido padrão coreano de beleza.

Além dos chamativos olhos de um tom escuro de marrom, os lábios eram vermelhinhos e muito bem contornados. O nariz era fino e o Kim pôde ver o brilho de vários piercings entre os fios de cabelo avermelhados. Era de uma beleza única e ainda nem havia citado os braços fortes e as coxas torneadas.

Namjoon voltou a conectar as íris, mordendo os seus lábios ao perceber o olhar fixo do homem naquela parte de seu corpo. Sorriu ladino e deixou seu interesse evidente para o outro. Não deixou de notar o leve constrangimento dele, fazendo o desconhecido desviar os olhos por alguns míseros segundos.

Respirou fundo e apoiou os cotovelos na bancada atrás de si, ainda sendo observado pelo ruivo. O Kim viu a discreta troca de base dele, mudando o peso do corpo de um pé para o outro em uma resposta à sua provocação. Foi sutil, mas evidente como o homem havia sido afetado por seu ato completamente premeditado.

Sentiu-se tentado ser mais indiscreto e espaçar suas coxas no banco alto onde estava sentado, porém conteve o impulso. Não iria apelar logo de cara e muito menos tinha pressa em ir para o quarto com alguém. Seu estilo de flerte era como um jogo de resistência silencioso, lento ao ponto de torturar, mas prazeroso.

Quando voltou a prestar atenção naquele ruivo viu uma leve centelha de desconforto no rosto harmônico. Suspirou alto e deixou de lado a ideia de investir nele, resignado. Provavelmente o desconhecido não havia gostado de sua insinuação, talvez Namjoon não fosse seu tipo ou ele estivesse acompanhado.

Virou-se para o barman e pediu outro drink sem álcool, logo tendo um copo colorido em sua mão. Lembrou então do irmão e de como deveria estar procurando por ele ao invés de estar seduzindo um estranho. Aquele pirralho enorme iria dar trabalho, Namjoon sentia em seu interior com sua intuição de irmão.

Concluiu consigo mesmo não ser desagradável esperar alguns minutos pelo mais novo. Poderia beber mais alguns copos e também deixar seus olhos apreciarem o ruivinho. Porque olhar não arrancaria pedaço e não estava sendo safado, apenas admirando uma bela arte personificada como um bom estudante de Arte.

Alguns minutos tornaram-se uma hora completa, que por sua vez virou duas e, na terceira, Namjoon sentiu seu telefone vibrar no bolso da calça. Pegou o aparelho com a mão livre, ainda deixando seu olhar cair vez ou outra no homem mais interessante daquele lugar claustrofóbico.

 

Filhote de praga

Online

 

(12:40) Oppa, é a Nayeon

(12:40) Taehyung-ssi tá cmg

(12:41)A gente tá na área VIP, quer que eu libere a sua entrada pra você vir pra cá?

 

Tem como trazer ele no bar? (12:41)

Vou levar ele pra casa já (12:42)

 

(12:43) Tô levando ele junto com o Gukkie

 

Namjoon não se deu o trabalho de responder a amiga do irmão, pois procurou em meio aos rostos aquele que tanto chamou a sua atenção. Era inevitável não ser atraído pelo ímã daquele olhar escuro e intenso. Conseguiu pegar no flagra o ruivo fitando-lhe e mordendo o lábio inferior numa expressão sensual demais para ser ignorada.

Namjoon arqueou uma sobrancelha, confuso pela demonstração recente de interesse do homem. Poucas horas antes ficou constrangido e desconfortável consigo, mas agora estava praticamente lhe secando? Isso não fazia sentido nenhum para o Kim.

O loiro levou o drink até a boca, bebendo todo o conteúdo em uma única golada ao jogar a cabeça para trás. Sabia muito bem como as pessoas ficavam hipnotizadas nesse ato em específico. Estava ciente de como deveria usar sua sensualidade natural completamente a seu favor.

A linha de seu maxilar era definida, o pescoço longo e a pele bronzeada na medida certa. Seu corpo era forte e seus braços musculosos estavam expostos pela camisa social quase transparente. E o pior, ou talvez melhor a depender da situação: sabia ter uma mania fodidamente sexy de lamber os lábios após beber algo.

Ok, talvez Namjoon estivesse sendo um pouquinho malvado e tentando tirar uma atitude do desconhecido? Testar o território e ver em qual time o ruivinho jogava? Sim, claro ou com absoluta certeza?

— Quem você tá tentando matar do coração, oppa? — Nayeon perguntou sapeca, enquanto Jeongguk apoiava um Taehyung mole e sem equilíbrio.

Namjoon soltou a primeira risada da noite com a brincadeirinha besta da mulher. Revirou os olhos depois de deixar um tapa estalado em sua própria perna e sem querer viu uma carranca. O desconhecido olhava para si e os recém-chegados com um desagrado palpável.

— Carrega ele pra mim? — questionou com um sorrisinho sacana, sabendo que era encarado por uma pessoa do outro lado da balada.

Hyung, olha só esses seus braços, carrega você, o irmão é seu! — Jeongguk chiou, apertando mais a mão na cintura delgada de Taehyung.

— E você quem queria trazer ele pra beber, criança. — Namjoon manteve o tom descontraído ao falar, refutando o argumento de Jeongguk.

O mais novo saiu arrastando o irmão de Namjoon, enquanto o Kim ficou para agradecer a ajuda de Nayeon em cuidar do caçula. A garota entregou o celular do amigo e deixou-se ser abraçada, finalmente rumando de volta para a área VIP, onde estava com seus amigos.

Namjoon então pagou por tudo o que tinha consumido e também pelas bebidas de Taehyung. Agradeceu mais uma vez a pessoa na qual havia recebido o dinheiro. Virou-se uma última vez para o homem desconhecido e piscou para ele, fazendo uma reverência mínima com a cabeça.

Aquela foi a primeira vez que se deparou com os olhos castanhos e durante dias ainda sentia o peso único daquele olhar. Pegou-se pensando frequentemente em como seria desvendar os segredos de seu dono. Mas essa chance não lhe foi dada tão cedo, porque só voltou a reencontrá-lo meses depois.

Tinha sido arrastado à força por Chanyeol para uma confraternização lotada de pessoas dos cursos de humanas. O motivo de seu amigo estar indo para lá era confuso, porque nem dessa área ele era, já que fazia Matemática e jogava basquete com o pessoal de Educação Física. Mas lá estava o Park com o Kim à tiracolo.

A reunião era na casa de Min Yoongi, um veterano de Música, que já fazia carreira em seu ramo ao vender suas composições para empresas de entretenimento. Ele também jogava no time de basquete vez ou outra e por isso conhecia Chanyeol, apesar de ser um tanto quanto fechado.

Quando foram recebidos pelo anfitrião e seu melhor amigo, Namjoon pensou estar de novo tendo um sonho muito realístico. Entretanto, não era nenhuma ilusão de seu inconsciente fértil e a realidade bateu à porta ao ser apresentado formalmente para o ruivo lindíssimo da boate.

Jung Hoseok era ainda mais belo quando visto de perto e ninguém conseguiria provar o contrário para o Kim. Maravilhou-se com o entusiasmado sorriso de coração dele e com a personalidade energética. Seria perfeito, se não fosse pelos seus olhos inacreditavelmente castanhos.

Olhando de longe, sob as luzes piscantes e coloridas da boate, achou que a densidade no olhar dele era desejo em excesso sendo contido. No entanto, vendo de perto, percebia claramente como o peso daquelas orbes era o mais puro e profundo vazio.

Tão profundo que era capaz de arrepiar Namjoon da cabeça aos pés pela sua intensidade.

Mas o Kim notou que ninguém havia reparado naquilo, algo tão dolorosamente aparente em sua opinião. Talvez porque não quisessem ver o sofrimento alheio e ter de lidar com isso ou então por causa do maldito sorriso de coração dele a mascarar toda aquela lacuna.

Namjoon não soube como agir pela primeira vez em anos e limitou-se a dizer seu nome depois de se enrolar um pouco. Passou o resto da noite alternando entre dar o mínimo de atenção para Chanyeol e observar Hoseok não tão discretamente quanto deveria fazer.

Foi pego no flagra algumas poucas vezes mas em nenhuma delas desviou os olhos. Viu o Jung aprumar a postura em uma e passar os dedos pelo antebraço, como se estivesse com frio. Porém era uma noite quente, sem vento, e o reflexo dele foi devido a um arrepio.

 

[...]

 

Quando tiveram a oportunidade de conversar pela primeira vez, Hoseok se sentiu acuado de uma forma estranha. Namjoon tinha uma postura imponente e sempre seus olhos fixos nos seus, como se enxergasse sua alma. Era uma sensação de vulnerabilidade extrema ser alvo do foco do loiro.

Não que já não tivesse sido observado pelas íris verdes, como no dia da boate, porém estar próximo a ele dava uma sensação maior de desconforto. Era como se fosse pequeno diante dele e, de fato, era em relação à altura, mas não era por essa diferença estrutural.

Kim Namjoon não precisava chamar a atenção com sorrisos largos, gestos elaborados ou frases escandalosas. Ele, apenas com sua presença calma, conseguia atrair a atenção de todos sem dedicar esforço algum. A aura dele era suficiente para quererem se aproximar.

Eram diferentes o suficiente para não se darem um com o outro. Ou pelo menos, era o que Hoseok dizia para si mesmo, porque se deram muito bem. Os assuntos iam e vinham, a conversa fluía e mesmo as opiniões distintas conseguiam entrar em algum acordo.

Porém as perguntas tornam-se mais pessoais conforme os encontros ocorriam nas semanas seguintes, cada vez aprofundando um pouco mais na personalidade alheia. Então, o menor travou e tentou mudar de forma sutil o foco dos diálogos para a vida pessoal do Kim. Em partes deu certo, pois não falaram de si, no entanto viu como Namjoon notou sua fuga.

Gostou da presença do platinado e o manteve por perto depois disso. Em outras palavras, o Kim resolveu se aproximar de Hoseok e seu grupo, e o Jung não impediu. Deveria fazer, entretanto, não o fez por conta de um genuíno capricho seu: sentia uma tranquilidade boa.

Estar junto dele virou rotina, um hábito saudável e ao mesmo tempo prejudicial para Hoseok. Sentia-se acolhido quando ele sorria mostrando suas covinhas e, ao mesmo tempo, ficava acuado com os olhares analíticos dele. O Kim deixava o Jung confuso e instável de uma forma avassaladora.

Era como uma faca de dois gumes, restava saber com qual deles seria acertado.

Hoseok sabia que se comportava como um bicho do mato, selvagem, receoso e arisco. Observava Namjoon, media a periculosidade e avançava um curto passo. Mas então o Kim movia-se com cuidado, o Jung recuava dois metros e o ciclo recomeçava, incansavelmente.

— Uma vez me disseram que quando não gostamos de uma pessoa nós tendemos a manter ela falando, pra tentar encontrar pontos nela que nos façam gostar dela verdadeiramente — o Kim murmurou ao seu lado.

Estavam deitados na cama de Namjoon, observando o teto branco e sem nenhum adorno. Não conversavam dessa vez, Hoseok não se sentia disposto a falar nada e apenas queria uma boa companhia. Estava cansado de proferir palavras vazias e distribuir sorrisos forçados.

Queria deixar a máscara de lado por apenas uma tarde.

O Kim como o bom observador que era logo reparou, não insistindo quando se deitaram e passaram a ver o branco desinteressante. Era exatamente aquilo que precisava: alguém que não lhe forçasse. O ruivo não sabia há quantas horas permaneciam naquela mesma pose e sequer fazia questão de descobrir. 

Hoseok murmurou uma concordância, desviando seus olhos marrons do teto para o rosto acobreado do maior. O mais alto tinha os olhos fechados e um sorriso ínfimo nos lábios, mostrando a covinha direita. O Jung espelhou o terno ato inconscientemente, o segundo sorriso espontâneo do dia.

— Então, quando nós gostamos de alguém, podemos ficar horas em silêncio ao lado dela — Namjoon completou sua lógica e, por fim, calou-se.

O Jung sequer cogitou responder, o silêncio diria por si só aquilo que não conseguia pôr para fora com palavras. Havia entendido a indireta dele, ambos sabiam disso. Mas naquele instante o ruivo não conseguiria externar esse sentimento, nem se quisesse, pois sairia artificial como tudo em sua vida.

Gostava de Namjoon, de estar na presença acalentadora dele, de sua companhia silenciosa e também de suas conversas inteligentes. Gostava de quando os olhos verdes perdiam-se entre uma divagação e outra, a voz baixava algumas oitavas sem completar a frase ou as covinhas apareciam naquele sorriso adorável.

Era gentil, afável, sutil e incrivelmente quentinho, como um cobertor fofinho numa tarde muito fria e chuvosa. Ele era um teto em uma chuva torrencial, uma segurança, um abrigo a indicar a esperança de estar sempre ali para proteger Hoseok da água.

Mas ao mesmo tempo, era desconfortável porque não conseguia lidar com as emoções em seu interior. Não estava pronto ainda para cair de cabeça na imensidão do Kim, menos ainda para deixá-lo submergir em suas águas tão profundas e embaçadas.

Era como se Hoseok estivesse no meio da chuva, pois a ventania constante e imprevisível arremessava a água por baixo do teto, tornando-o inútil. Então, era açoitado pelas gotas impetuosas e impedido de escapar por uma enxurrada intransponível.

As gotas eram suas numerosas incertezas e a enxurrada eram seus medos materializados, impedindo-lhe de seguir em frente como qualquer outra pessoa faria. E o teto, ineficaz, ainda estava sobre sua cabeça, sem conseguir bloquear a água de entrar pelos lados.

Sentiu Namjoon puxar-lhe para perto, acabando por acomodar sua cabeça no peitoral dele. Ouvia o compasso ritmado do coração alheio, os dedos ágeis acariciando seus fios vermelhos. Assim, preso naquele afago, Hoseok deixou-se cair no mundo dos sonhos como Alice no País das Maravilhas.

Pela primeira vez em tempos, dormiu um sono tranquilo e sem temores. Descansou mais naquelas três míseras horas do que quando dormia dopado por soníferos. Acordou sentindo o calor agradável de Namjoon, o corpo moldando-se ao seu próprio corpo de uma forma íntima demais.

A respiração pesada do maior evidenciava um sono tão pesado quanto o seu foi. O nariz do Kim resvalava em sua nuca, as mãos seguravam sua cintura com uma firmeza involuntária. O peito firme dele tocava suas costas a cada inspiração profunda e compassada, sendo a concha maior.

Queria encostar-se mais no corpo maior, admirar as mãos grandes em sua cintura e sentir o nariz acarinhar mais sua nuca. Desejava estar com o loiro, dar mais abertura para ele e poder contar seus medos. Pois a presença dele trazia uma calmaria bem-vinda e esperada para sua tempestade ininterrupta.

Mas então, como se escutasse um simples galho sendo partido, Hoseok recuou como um animal apavorado.

Sentiu seus pelos arrepiarem e pulou para fora da cama numa velocidade absurda, assustando o outro homem deitado no móvel aconchegante. Sua mente trabalhava rápido, num nível tão acelerado que os pensamentos embolaram-se e não eram sequer finalizados.

Não deveria ter esses tipos de pensamentos, esses desejos e essas atitudes. Não queria ser machucado novamente, não agora que estava melhor ou pelo menos conseguia fingir estar. Era muito cedo, muito recente e a ferida aberta ainda sangrava constantemente.

Não, não podia. Não conseguiria, pois eram desejos impossíveis. Não deveria alimentar essas atrocidades, esse coração tolo e esse sentimento falso de acolhimento. Era tudo passageiro e quando findasse, restaria somente a dor dos insultos e violências verbais destilados por todos.

Sem sequer reparar, as mãos de Hoseok começaram a tremer compulsivamente. Sua visão turvou tanto quanto seu mar interno, não lhe deixando discernir as formas à sua frente. Os pés atrapalharam-se e os músculos das pernas falharam em mantê-lo em pé, fazendo ele cair no piso duro.

Prensou os lábios, tentando conter os sons de saírem e fechou os olhos para as gotas cristalinas não serem puxadas pela gravidade. Seus punhos estavam comprimidos com ferocidade, numa vã ação para conter o choro e cessar os pensamentos conturbados.

Era demais e naquele momento Hoseok estava em meio ao vendaval de sua mente. Era arrastado pela enxurrada, violentado pelas gotas e não tinha mais a proteção do teto. Talvez nem quisesse ter, para não puxá-lo junto consigo, essa era a melhor escolha a ser feita: ficar sozinho.

Sentiu a presença do Kim e ergueu seus olhos marejados, tentando ver o rosto dele. Porém, não conseguiu distinguir mais do que os fios amarelos e o dourado da pele do mais alto. Abaixou a cabeça, deixando a dor fluir para fora com maior intensidade, como nunca antes.

Observou Namjoon hesitar, esticando a mão na direção de seu rosto longo e parando no ar. O Kim franziu as sobrancelhas em preocupação e os lábios viraram uma linha fina, só então tocando sua bochecha. Não rejeitou ou afastou, não poderia o empurrar nem se tivesse forças nos braços.

Tomado por uma súbita confiança, o Kim ajoelhou-se no chão duro e circundou os braços pelo seu corpo menor. Afagou seus cabelos ruivos, as costas largas e o rosto extremamente vermelho pelo choro contínuo. Deixou-lhe sentir a dor e se permitir expressar ela.

E logo o Jung se viu sob a proteção do teto, no meio da tempestade congelante. Deu-se o luxo de agarrar o pilar de sustentação da estrutura, como se precisasse de um apoio e, de fato, precisava. Chorou por horas a fio, sendo acalentado pelo homem de olhos verdes até conseguir parar por definitivo.

Entretanto, a água ainda continuava ali, aos montes, e continuaria. Porque a única pessoa a acabar com ela era ele mesmo, em seu próprio ritmo.

 

[...]

 

Hoseok teve outras crises como a primeira, algumas mais fortes, outras mais brandas. Era muito instável e intenso, como a própria chuva era, indo e vindo sem hora exata. Tudo dependia do gatilho, de como ele estava no determinado dia e se era na casa de Namjoon ou não.

Percebeu que o ruivo sempre contia o choro em sua própria casa, como se não pudesse demonstrar sua aflição em seu lar. Era de cortar o coração e inflar a preocupação, porque Hoseok só se permitia sofrer na casa do Kim ou em cantos desconhecidos longe de todos.

Nunca na própria casa. Era uma trava e o mais alto não demorou a perceber isso.

Não conversaram sobre os ataques, havia uma regra implícita de manter o silêncio e o loiro acatou ela. Esperava, pacientemente, pelo momento em que o menor se sentiria confortável para contar. E se não viesse, também estava tudo bem, não pressionaria ele de forma alguma.

Era estranha a sensação de saber, mais do que antes, como o sorriso não chegava aos olhos castanhos. A intensidade do vazio era pior agora, porque tinha acesso a um lado oculto do ruivo. Um desconhecido pela maioria de seu círculo de amizades, era uma exclusividade do Kim.

Não conseguia reprimir seu coração de bater dolorido ao ver as lágrimas cristalinas escorrerem. Menos ainda dele acelerar tolamente ao ver um sorriso mínimo nos lábios de coração. As malditas borboletas faziam a festa em seu estômago, sentindo um frio no pé da barriga tão desconhecido por si.

Suas mãos desastradas suavam em nervosismo e não conseguiam se manter longe do menor. Os lábios eram prensados uns contra os outros para reprimir os sorrisos frouxos. Alegrava-se com cada mera possibilidade de estar na presença do ruivo, como um bobo apaixonado.

Entretanto, não era como se seu corpo fosse discreto em suas reações diante do Jung. Era um refém de seus sentimentos e cativo da personalidade alheia. E, infeliz ou felizmente, não sentia vontade nenhuma de fugir das correntes que o ligavam à inevitável causa de suas palpitações.

Sentia-se muitas vezes um grande ridículo, porque Hoseok não estava em condições de corresponder qualquer sentimento. 

Ele não conseguia nem lidar com seus próprios fantasmas, quem diria arcar com a responsabilidade de um... Um amor. Namjoon não gostava de admitir ter passado do estágio da paixão para o mais profundo amor. Foi muito tênue cair por Hoseok, como uma folha alaranjada despencando do galho no outono.

Acreditava que o ver em um estado tão frágil e quebradiço havia acelerado o processo. Não queria aceitar como cairia, na mesma velocidade e intensidade, ao fundo de seu penhasco pelo Jung. Mas, no fundo, sabia a verdade: apaixonaria por Hoseok outras mil vezes da exata forma como na primeira.

Céus, era tão natural amar Hoseok quanto uma semente de dente de leão ser carregada pelo vento. Simplesmente era para ser, independente de qual fosse a primavera. Mesmo tendo estações rigorosas em boa parte do ano, o dente de leão sempre iria voltar a desabrochar, inevitavelmente.

— Não me olhe assim, como se visse minha alma. — Hoseok falou brincando, vestindo novamente aquela máscara quebrada que não encobria o vazio dos olhos por completo.

— Sabe que não consigo. — sua resposta foi ambígua, não especificando o que não conseguia, de fato, fazer e o ruivo arrepiou.

Namjoon então o viu desviar os olhos para a televisão, onde passava um dorama místico. Suspirou resignado e voltou a assistir a mulher interpretar perfeitamente seu papel triste. Não gostava daquela máscara feia e superficial do ruivo, mas não reclamava disso em hipótese alguma.

Mordeu seu lábio inferior e buscou a canhota alheia, brincando com os dedos longos de Hoseok. Completamente imerso em acarinhar a pele macia e dedilhar as extremidades das falanges, não notou quando a série acabou.

Saiu fora de órbita e perdeu-se pensando sobre o astro no qual era Jung Hoseok. O Kim era como um explorador, um amante do incompreendido e alguém com curiosidade. Queria desvendar as camadas do menor, saber de quais elementos eram feitas, as reações de combustão, a frequência luminosa emitida e todas as nuances que lhe fossem permitidas.

Desejava, mais do que todas as outras coisas naquele momento, ajudá-lo a ser ainda mais radiante. Ver aquele sol brilhar verdadeiramente e não por trás de uma máscara fajuta e despedaçada. Queria presenciar a alegria inundar os olhos marrons e bonitos de Hoseok, sem parecer uma reação forçada.

Sentia estar conseguindo, pelo menos em partes pequenas e bastante escassas. Já considerava uma vitória Hoseok não se obrigar a sorrir forçosamente em sua presença, nem sustentar aquela máscara falsa e ofuscante.

Estava minimamente satisfeito por poder ver uma pequena porção do interior quebrado.

Era um privilégio seu que nenhuma outra pessoa tinha e Namjoon orgulhava-se de ser importante para o ruivo. Sua enorme vontade de apoiar e consolar alguém estava realizada. Sentia o coração esquentar por poder ser o porto-seguro de Hoseok e esforçava-se para esperar o tempo dele.

E não foi fácil segurar todo o ímpeto de iniciar um interrogatório após cada choro. Quase não conseguia reprimir suas perguntas mentais desenfreadas e precisava morder a língua para que elas não escapassem sem querer. Precisava dar o espaço necessário ao Jung.

Então, na sétima crise, dois meses depois da primeira, Hoseok contou uma pequena informação. Foram poucas palavras, mas de um peso tão árduo que Namjoon não conseguiu formular nenhum pensamento coerente após ouvir o ruivo murmurar contra seu pescoço.

A voz era tão sofrida quanto o choro e os soluços falhados. Os dedos estavam fincados nos braços fortes do loiro, enquanto tinha os fios vermelhos acariciados com ternura. Se não estivesse prestando atenção no pequeno ser encolhido em seu colo o Kim não teria escutado: eles s-sentem no-jo de mim.

Não perguntou quem eram "eles", por mais que o verme da curiosidade roesse seu interior. Por certo que Hoseok não esperava sequer ser escutado em sua lamentação baixíssima. Entretanto, Namjoon não podia desouvir aquilo, embora pudesse fingir não ter ouvido por respeito ao Jung.

Queria perguntar também o porquê dessas tais pessoas sentirem nojo de alguém tão bom quanto Hoseok. Era inaceitável na opinião do loiro alguém cultivar isso pelo ruivinho. Não quando ele tinha uma luz maravilhosa, ainda que distorcida em partes pela máscara vestida em seu rosto.

Mas Namjoon não precisou de muito mais tempo para ligar os pontos em sua mente. Hoseok não chorava em casa, não levava os amigos para lá e muito menos gostava de ficar naquele lugar, sempre arranjando um jeito de passear. O Jung passava a maioria do tempo fora do próprio lar.

Namjoon nem sequer sabia se aquilo realmente era um lar, tamanha era a obstinação do ruivo em ficar longe dali.

Supôs que "eles" eram os pais ou a família do Jung. Deveria, ao menos, ser alguém muito próximo para causar um estrago de tal magnitude no sol. Então, para tirar a prova de suas suposições, Namjoon passou a observar mais o menor falando sobre seus amigos e outras pessoas.

Hoseok parecia ter uma boa relação com Min Yoongi, o cara da Música. Uma cumplicidade evidente era percebida entre eles, mas não aparentava ressentimento algum para com ele e menos ainda com outros amigos. Citava muito a irmã mais velha, Dawon, e como eram grandes irmãos.

Entretanto, nunca conversava sobre o resto da família, os pais, tios ou primos. Também desviava do assunto "relacionamentos passados", por mais que o próprio Jung tenha dito uma vez que já havia tido um relacionamento sério. Quando questionado quem ele namorou, o ruivo sorria e dava de ombros.

Era tão artificial e automática a forma na qual ele fugia descaradamente do assunto. Talvez fosse outra trava, outro trauma a diminuir o brilho intenso daquele magnífico sol. Mas estava tudo bem, Namjoon esperaria o tempo necessário para desvendar esse lado escondido do Jung.

Entretanto, enquanto isso não acontecia, o Kim contentava-se em sentir o calor ameno irradiado por entre as rachaduras da máscara. Sorria por ver ele sorrindo verdadeiramente, perdendo uma parte da consciência ao encarar o sol. Seus olhos doíam, porém não conseguiam deixar de procurar a luz.

— Namjoon! — Hoseok chamou alto com as bochechas levemente rosadas, simplesmente adorável. — Para de me olhar assim, seu esquisito! Com esse seu olhar de psicopata! — Fingiu um tremor violento enquanto abraçava o próprio corpo. — Parece o Jeongguk olhando pro nada... Só que olhando pra mim.

O loiro revirou os olhos e largou a mochila no vão entre o chão e a parede onde estava escorado. Estavam no corredor ligado ao ginásio, esperando Yoongi e Chanyeol voltarem do vestiário. Maldita hora em que decidiram ir almoçar com os jogadores de basquete! Poderiam estar na casa de Namjoon, deitados e agarrados um no outro.

— Deixa de drama, Seok. — murmurou e soltou um suspiro ao final da frase.

Céus, Hoseok estava lindo naquela manhã, até mais do que o habitual. Sua maquiagem era leve, seus olhos dotados com uma lente castanha clara e os lábios-coração rosados. As bochechas ainda coradinhas pela encarada e as orelhas cheias dos mais diversos piercings.

O cabelo, sempre liso, estava ondulado em cachinhos púrpuras encantadores. A gargantilha preta e grossa circundava o pescoço esbelto com uma perfeição desmedida. Os dedos longos eram decorados por inúmeros anéis prateados, algo incomum para o Jung no cotidiano.

E, porra, a roupa ainda nem havia sido citada! Uma fodida calça de couro marcava as coxas torneadas pela academia e continha alguns rasgos. A camiseta social conseguia ser despojada, com os três primeiros botões abertos, e as mangas dobradas na altura dos cotovelos.

Era impossível Namjoon se concentrar, porque seus pensamentos só giravam em torno daquela figura pecaminosa com um sorriso fofo. O homem mais baixo estava uma verdadeira perdição pulando animadinho de um lado para o outro. Fodidamente dual e hipnotizante.

— Namjoon... Se você for me matar, por favor, cuida do Mickey, é a sua responsabilidade como assassino! — brincou, vendo como o maior ainda estava perdido lhe olhando.

— Relaxa, te matar é a última coisa que tá passando pela minha cabeça agora, Seok. — falou ao revirar os olhos novamente, porque o que queria mesmo era beijar aquela boca rosada e sorridente.

— Ah é? Então tá pensando no quê? — questionou, cruzando os braços na frente do corpo enquanto mudava o peso do corpo.

— Isso você não vai querer saber. — Namjoon conectou seus olhos verdes nos castanhos claros, deixando clara a veracidade de sua afirmação.

— E por que não? — desafiou, arqueando uma sobrancelha.

O Kim bufou alto e desencostou da parede, apanhando sua mochila esquecida no chão sujo. Não tinha paciência nenhuma para aguentar as provocações alheias. Não quando, muito provavelmente, cairia no joguinho baixo do ruivo e cederia ao desejo crescente por ficar com o menor.

Mas então, antes que pudesse se afastar e ir até o vestiário apressar os amigos, Hoseok segurou seu braço. Foi puxado para ficar de frente com o Jung, numa proximidade arriscada. O Kim precisou piscar duas vezes e respirar fundo, tentando manter em mente a situação delicada do ruivo.

— Por que eu não vou querer saber? — perguntou incisivo, olhando atentamente no rosto do universitário de Arte.

Foi inevitável dar um curto passo a frente para Namjoon e impossível para Hoseok não recuar a mesma distância. Após quatro passadas sincronizadas dos dois homens o Jung já não tinha para onde fugir, por estar colado à parede do corredor. Não podia escapar do olhar sério do Kim.

A canhota do maior apoiou-se no canto esquerdo ao lado da cabeleireira vermelha, enquanto a perna direita impedia o Jung de sair pelo outro lado. Não precisou encostar em Hoseok para notar a respiração presa dele e sentir a sua própria pesar. Aproximou sua boca da orelha e deixou o ar escapar por ela, vendo os pelos arrepiarem.

— Eu tenho certeza que você não vai querer saber, Hoseok — sussurrou grave, ainda sem tocar no Jung.

Um arfar afetado fugiu do ruivo, descompassando seu ritmo respiratório e partindo os lábios em busca de fôlego. Namjoon travou o próprio maxilar para manter o controle de suas ações após sentir o calor emanar das bochechas alheias. As mãos trêmulas do menor fincaram-se no braço do Kim, como quem precisa de um apoio.

— Talvez... — Hoseok falou num fio de voz, após dois minutos em puro silêncio. — Talvez... Eu queira saber e só não sei como mostrar...

Namjoon conectou os olhos e com determinação, que não sabia ter, respondeu:

— Talvez não é suficiente, Hoseok. — Viu os lábios do ruivo tornarem-se uma linha e os olhos arregalarem. — Eu preciso de certezas — livrou o corpo menor de sua prisão ao falar sério. — Quando você tiver a certeza, e não o talvez, eu deixo você saber.

 

[...]

 

As coisas não estavam estranhas entre Hoseok e Namjoon, como o menor previa que aconteceria. O Kim continuou a retribuir os carinhos e, mesmo tendo hesitado, o ruivo tornou a buscar pelos toques do loiro. Sentia-se seguro dentro daquele abraço e envolto na presença calma.

Mas, mesmo tudo estando como era antes, não fez Hoseok parar de pensar incansavelmente sobre a frase do outro. Ele entendia o ponto de Namjoon sobre não querer se envolver pela falta de firmeza em suas próprias palavras. Era compreensível a vontade dele de desejar a certeza e não um instável talvez.

Entretanto, ainda sim, o Jung queria cada vez mais toques do homem de olhos verdes. Era inevitável, o desejo crescente incendiava seu corpo e com a coragem pulsando nas veias decidiu que trabalharia para dar ao Kim a confirmação. Porém, não podia se apressar e estragar tudo.

Conversou com a sua irmã, explicou a situação para ela e também contou com o apoio de Yoongi, seu melhor amigo de infância. Sua forma de demonstrar querer Namjoon tanto quanto ele lhe desejava seria através de um conjunto de gestos, os quais demorariam um tempo para serem concluídos.

Mas não era apenas pelo Kim, era por si mesmo, por seu futuro e por sua felicidade. Não adiantava nada estar acorrentado àquela trava, refém das infelizes palavras amargas já ouvidas tantas vezes. Hoseok decidiu lutar novamente pela sua alegria e isso significava se livrar daquele árduo peso em sua consciência.

Não era fácil dar aquele passo, no entanto precisava mais do que nunca antes. Não podia mais ficar naquela casa, com aquelas pessoas e aquele sentimento horrível. O Kim estava sendo apenas o empurrão para o início de seu voo, pois o bater das asas e a rota migratória seria por sua conta e risco.

Pela primeira vez em anos, deixou sua irmã marcar uma consulta com um psicólogo e compareceu ao compromisso. Foi desconfortável no início, assim como libertador poder externar uma parte de sua dor. Estava orgulhoso de si mesmo depois da sessão, ao ponto de comemorar com Yoongi, Dawon e Namjoon num restaurante.

Recebeu um encaminhamento para ir ver um psiquiatra, amenizar os efeitos da depressão com os remédios. Claro, não poderia abandonar a terapia, pois ela sim trataria a causa da sua chuva incessante e da enxurrada. Era um trabalho conjunto dos antidepressivos com as reflexões sobre seus sentimentos conflitantes.

Continuou a frequentar o consultório três vezes por semana, tendo a ajuda da irmã. Um mês depois, Yoongi contou de um concurso para a vaga de estagiário na sua área e chegou a hesitar em se inscrever. No fim daquele mesmo dia o trio Persuasão (Dawon, Yoongi e Namjoon) já tinha mandado até imprimir o boleto para o ruivo pagar no dia seguinte.

Sua irmã plantou a sementinha de uma ideia radical: ir morar com ela no apartamento em nome de Dawon. Céus, essa decisão era muito extrema até mesmo para o novo Hoseok. Ainda estava engatinhando e a Jung queria que ele pulasse de um prédio para o outro, insano.

Foram necessárias várias conversas longas e discussões exaustivas entre os irmãos para finalmente aceitar a proposta da mais velha. Mais sessões extras na terapia fizeram-se necessárias para Hoseok conseguir absorver a ideia de finalmente se livrar daqueles que eram os maiores responsáveis pelo seu medo.

Namjoon também teve um papel muito importante nessa fase, ajudando a lidar com as crises cada vez menos recorrentes. Elas estavam melhores agora que estava se tratando e aprendendo técnicas para amenizar o mal-estar ou evitá-las. Eram muito mais brandas e vinham tão rápido quanto iam.

Depois de dois meses desde a proposta de Dawon, a iniciativa de sair daquele lugar tomou força e forma, solidificando-se no Jung. Conseguiu o estágio do curso de enfermagem num jardim de infância. Estava melhor em relação a permitir-se ser feliz e estar livre de tudo o que lhe deixava para baixo, incluindo seus pais.

Então, naquela manhã silenciosa, acordou atipicamente mais cedo Arrumou as malas e seus pertences mais importantes, pois Mickey já estava com a irmã. Tinha esperado até conseguir juntar uma quantia considerável, economizando boa parte de seu salário e agora era o momento no qual voaria para longe.

— Namjoon, você pode vir de carro aqui em casa? Eu preciso de ajuda e a noona tá trabalhando — já foi explicando quando a ligação foi aceita. — Ah, eu posso dormir na sua casa no final de semana? — disparou outro questionamento antes que Namjoon conseguisse responder o primeiro.

Seok... Agora é... Cinco e meia da manhã... — o Kim murmurou sonolento e cheio de manha, ainda era muito cedo para acordar. — Posso dormir mais um pouco antes de ir aí?

Hoseok suspirou alto em frustração, fazendo o loiro ouvir o ar ser expulso pela chamada. Olhou a hora e mordeu os lábios, antes de sentir a perna começar a se mover em um reflexo típico da ansiedade. Não podia esperar mais algumas horas, precisava sair dali naquele momento.

— Namjoon, eu preciso sair antes dos meus pais chegarem de viagem às seis e meia — Hoseok murmurou completamente tenso e o sono do outro na linha sumiu.

Ok, eu tô indo pra aí agora mesmo — falou e desligou, sem esperar o Jung falar qualquer coisa.

Esperar por Namjoon foi sufocante, mas conseguiu conter a crise com uma técnica de respiração. Quando ele finalmente chegou, Hoseok estava branco como papel e travado na entrada da casa enorme. Haviam duas malas gigantes ao seu lado, uma mala de mão nos pés e uma mochila nas costas.

O Kim nada disse ao se aproximar, tomando a alça metálica da mão trêmula do ruivo com vagareza. Tratou de colocar todas as bolsas no porta-malas e abrir a porta do motorista. Entretanto, refreou suas ações quando observou Hoseok ainda duro e estático no portal de sua futura ex-moradia.

O Jung viu com seus olhos extremamente castanhos o loiro se aproximar com lentidão, dando-lhe o tempo necessário para criar coragem. Logo quando estavam frente a frente, sentiu o toque morno da mão do Kim na sua. A respiração estava um tanto quanto lenta, quase pesada, pelo exercício respiratório.

Hoseok percebeu um movimento sutil das mãos entrelaçadas e logo Namjoon havia dado um passo para trás. O homem mais alto puxava-lhe com lentidão, guiando o caminho passo a passo, tanto que nem reparou quando foi deixado perto do veículo prateado.

O de olhos verdes abriu a porta do passageiro e direcionou suavemente o Jung para dentro. Ele entendia como estava sendo difícil para o ruivo dar todos aqueles passos tão importantes para o seu futuro e não se importava de ser ele a empurrar o mais baixo para o caminho certo.

Já Hoseok nem lembrava de piscar, completamente focado em manter a respiração regular. O corpo do Jung balançou de leve quando Namjoon ocupou o banco do motorista, sem imediatamente ligar o veículo. Logo, os dedos delicados seguraram os de Hoseok frios como gelo.

— Cinco coisas que você vê — Namjoon murmurou alto o suficiente para o Jung ouvir.

Era uma das técnicas para evitar a crise: enumerar cinco coisas que você via, quatro que sentia, três que ouvia, duas que cheirava e uma que sentia o gosto. Assim, Hoseok foi falando os objetos e ele controlou o ataque nervoso depois de chegar no terceiro sentido.

Os minutos foram se passando lentamente e os dois homens permaneceram de mãos dadas dentro do carro. Era confortável para o Jung o contato entre eles, um porto-seguro para ele parar, antes de seguir seu ritmo de viagem. Namjoon era seu apoio naquele momento como vinha sendo desde que entrou em sua vida.

Entrelaçou os seus dedos nos maiores do de olhos verdes e respirou fundo. Era hora de deixar-se livre para traçar seu próprio caminho, de deixar uma grande parte daquele sentimento ruim ir. Finalmente poderia ser quem era, sem restrição nenhuma e nem ofensas distribuídas de graça.

Hoseok respirou fundo, enchendo os dois pulmões de oxigênio, como se precisasse de desintoxicar daquela parte ruim da sua vida com urgência. Realmente, o ar parecia entrar com mais facilidade e talvez fosse o clima insuportável da casa de seus horrendos progenitores.

O ruivo deixou de esmagar os dedos longos de Namjoon, acenando de leve para ele. Era hora de finalmente sair dali, dar um salto para uma nova forma de viver, de se entender e expressar. Pois daquele momento em diante, Hoseok não aceitaria mais ser tratado mal por ninguém.

Namjoon não demorou em ligar o carro, acelerando em direção ao seu próprio apartamento. Tinham tempo suficiente para curtirem a liberdade do menor e poderia deixar Hoseok na casa da irmã mais tarde, depois de se certificar de que ele estava mais em paz consigo mesmo.

Tranquilo em relação ao que realmente era.

O Jung foi guiado pelo caminho até o apartamento quando saíram do carro, inerte. Mas não demorou a perder a força nas pernas ao se ver protegido pelas paredes familiares do quarto do loiro. Envolto pelo calor agradável dos braços fortes do homem de intensos olhos verdes.

Agarrou-se com uma força desconhecida ao corpo maior, enfiando seu rosto no pescoço alheio. Sua respiração era lenta, quente e arrepiava a pele sensível do Kim. Céus, Hoseok de fato tinha saído das garras de seus pais tóxicos, estava livre! Finalmente poderia voar.

— Eu... — o ruivinho murmurou, após longos minutos apenas abraçados no chão do apartamento. — Eu tenho certeza agora. — completou ao erguer a cabeça para olhar diretamente no verde vibrante das íris do Kim. — Eu quero você, Namjoon.

O Jung não pode deixar de sentir a insegurança crescer ao ver os olhos de Namjoon arregalarem e desviarem dos seus. Respirou fundo, sentindo as bochechas corarem quando não conseguiu evitar de observar a língua rosada do maior serpentear para fora da boca. Era apenas um reflexo, sabia, mas continuava sendo lindo.

— Eu não esperava por isso, agora... Nesse momento... — o Kim murmurou também, igualmente constrangido e com a mão subindo das costas do ruivo até a bochecha fofinha.

O rosto vermelhinho do menor se esfregou contra a palma alheia, fechando os olhos para apreciar o toque gentil. Sentiu os dedos tocarem sua covinha, puxando-lhe para frente com uma sutileza impressionante. Não havia motivo para terem pressa, tinham todo o tempo do mundo.

As respirações pesadas mesclaram-se gradualmente e, com as testas juntas, veio o primeiro selar. Moviam os lábios com extrema calma, sentindo os corações esquentarem e os corpos relaxarem. Depois do primeiro, veio o segundo, o terceiro, o quarto e inúmeros outros, sempre com uma devota lentidão.

Separaram-se após mais alguns movimentos, sem descolar mais do que os lábios vermelhos e inchadinhos. Então, Namjoon sentiu sua mão molhar com algo quente e não demorou a abrir os olhos esverdeados. Viu o ruivo derramar mais lágrimas salgadas, bochechas coradas e ouvir um leve fungar.

O choro do menor tornou-se compulsivo, deixando soluços altos escaparem de modo incontrolável. A razão disso não era por conta de sentimentos ruins, aquilo era o mais puro e genuíno alívio. Era uma emoção tão poderosa e avassaladora crescendo a cada gota puxada pela gravidade.

Céus, sentia-se incrivelmente bem e sem nenhum fardo em suas costas, como jamais esteve antes. O Jung acreditava que, se um vento mais poderoso soprasse, voaria igual a uma semente de dente de leão pela leveza. O pranto incessante fazia os sentimentos ruins atenuarem, sumirem e deixarem de poluir sua mente.

Ficaram ali, parados, até Hoseok parar de chorar seu alívio e felicidade. O ruivo derreteu dentro do abraço confortável de seu teto, sentindo a chuva interna amenizar e a enxurrada transformar-se em um pequeno fio de água. Era tão bom se sentir bem daquela forma, parecia um sonho.

— A única vez que eu fui contra os meus pais... — Hoseok confidenciou baixinho ao retomar o controle de sua voz rouca. — Foi quando eu me apaixonei por um amigo e me descobri gay.

— Ele me tratava como um príncipe — continuou a narrar, sem coragem de olhar nos olhos verdes de Namjoon. — E eu quis contar para a minha família sobre o meu namoro, foi horrível, eles expulsaram ele de casa, gritaram comigo e Dawon tentou me proteger, se metendo entre eu e meu pai pra ele não me machucar.

Hoseok sentiu os dedos firmes do loiro acariciarem a sua lombar, enquanto a outra dedilhava a bochecha molhada. Tremia levemente por consequência do choro anterior. Ainda agarrava os braços de Namjoon com uma força considerável, precisava daquele apoio.

— Mas apesar do caos, nós não nos separamos, continuamos juntos e eu tinha que aguentar meus pais falarem... Todas aquelas coisas, dia e noite, sem parar. — Namjoon não conseguia nem imaginar o quão horrível deveria ter sido para o Jung. — E então, um dia, eu e Dawon estávamos passeando e vimos ele beijar outro cara, como se estivessem completamente apaixonados.

— Nós terminamos, meus pais souberam e, tudo, tudo piorou quando eu tinha que escutar as ofensas homofóbicas e ainda eles falando como eu era tão inútil que nem um homem me queria. — O ruivo engoliu em seco, num barulho audível para o Kim. — Então eu passei a me forçar não gostar de garotos, porque eu não aguentava mais eles me julgando.

Namjoon puxou Hoseok com gentileza pelo queixo, deixando um breve selar na boca em formato de coração. Os olhares profundos conectaram e ambos sorriram sem motivo algum. O menor lambeu os lábios, respirando fundo antes de voltar a narrar com a voz branda:

— Mas então você chegou e eu não consegui manter o papel, porque eu te queria e você é tão, mas tão, fodidamente encantador Joonie. Você foi o empurrão que faltava pra eu sair de perto deles. — Hoseok encostou seu nariz no maxilar alheio, fazendo uma carícia casta ao terminar de falar. — Obrigado.

Namjoon soltou o ar com força, despejando um beijinho estalado na bochecha salgada. Apertou mais o menor contra seu corpo, passando uma sensação gigantesca de segurança. Era tão natural a forma na qual se entregavam de bandeja um para o outro, sem hesitar como faziam no início.

— Você não tem que me agradecer por nada, tudo isso foi mérito seu, por sua própria vontade. — Tirou uma mecha ruiva dos olhos castanhos e brilhantes, colocando-a atrás da orelha dele. — Eu estou muito orgulhoso de você, por ter essa vivacidade no olhar que não tinha quando nos conhecemos.

Hoseok partiu os lábios em espanto, incapaz de expressar por meio de palavras o quanto aquilo lhe surpreendeu. Era tão visível assim o quanto estava mal? Não sabia dizer ao certo, mas se sentia bem melhor do que antes de Namjoon se infiltrar em sua vida com seus abraços confortáveis.

— Você disse que não conseguiu mais seguir o papel quando eu apareci, mas mesmo se você se mantivesse nele ainda via o vazio nos seus olhos — Namjoon proferiu com calma, beijando o nariz fino do ruivo. — Eu te via mesmo sob a máscara que você usava e agora eu vejo você, você de verdade e não apenas o vazio.

Uma única lágrima escapou dos olhos castanhos escuros como a terra, ao passo que um sorriso adorável surgia. Jogou-se contra Namjoon para abraçá-lo e os dois acabaram caindo sobre o piso gelado. Tocou as covinhas do loiro com o polegar e não se fez rogado ao iniciar mais uma série de beijos castos.

A chuva dentro de si ainda estava presente, pois as inseguranças viriam mesmo em dias ensolarados com poucas nuvens. Entretanto, a enxurrada era tão ínfima e fraca, que seus medos não conseguiam mais lhe impedir de caminhar para onde quisesse. Era livre como um pássaro selvagem.

E o teto ainda estava ali para quando precisasse, até ele não ser mais útil. Isso porque Hoseok estava começando a construir sua própria fortaleza, onde as paredes impediriam o medo de ser um obstáculo e seu futuro telhado iria evitar as inseguranças de açoitarem sua pele.

Estava aprendendo a ser seu próprio porto-seguro, como sempre deveria ter sido.

 


Notas Finais


Se vc sobreviveu, parabéns pq aqui jaz uma autora mortinha pelo drama excessivo dessa fanfic.
QUEM PEGOU AS MÚSICAS IMPLÍCITAS????
(The truth Untold e um tiquinho de nd de Dead Leaves)
Tá, sobre a personalidade do nam (q por coincidência é a minha tbm, vou citar os momentos principais em q eu mostrei essas características aparecendo entre parênteses): curioso (motivo do olhar profundo na balada e do vazio nos olhos na apresentação), observadores (Nam notando q o seok não falava de ninguém da família além da Dawon e nem de relacionamento passados, assim como ele sempre ficava mais à vontade fora de cs), excelente comunicador [tanto no sentido de adaptar a entonação, o assunto e o ritmo da conversa com alguém (≠ entre conversar c o Jack e o Seok), quanto de passar sua mensagem para os outros (a teoria do silêncio e das pessoas que gostamos)], populares e amigáveis (pela capacidade de manter conversas com as pessoas mais extrovertidas até as mais introvertidas).
As ruins: não consegue manter o foco (parte da narração onde o Seok descreve como era fofa a forma como o nam se perdia em seus pensamentos e começava a encarar o nada), pensam demais (namjoon curioso e teorizando sobre os porquês de seok ser como era).
Mano parece q eu estudei mto p fazer essa merda mas n, eu só li, anotei os pontos q eu queria e vomitei tudo no docs c o meu sinônimos.online aberto em segundo plano KKKKKKKK.
Enfim, compartilhem o que acharam cmg, juro juradinho q respondo tds os comentários e a gnt pode até bater um papo legal neles, eu realmente adoro interagir c vcs.
Bjinhos, Miya.
Betagem por @Flokina
Capa e Banner por @Vitoriasifrid77
Trailer por @Winiizi


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