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História The Distance Between Us - Capítulo 2


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Capítulo 2 - Anything.



— Não, não vendemos Barbie, só bonecas de porcelana — falo ao telefone pela quinta vez. A mulher não está ouvindo. Ela insiste em dizer que a filha vai morrer se não encontrar a rainha das fadas. — Entendo. Talvez você deva tentar o Walmart.

— Já tentei. Não tem. — Ela resmunga algo sobre ter pensado que nossa loja vendia bonecas e desliga.

Coloco o fone no gancho e reviro os olhos para Sina, que nem vê, porque está deitada no chão segurando o colar com as mãos erguidas, vendo-o balançar de um lado para o outro.

Sina Deinert é minha única amiga. Não porque as pessoas do colégio sejam ruins ou algo assim. Elas simplesmente esquecem que eu existo. E isso não é difícil, porque saio antes do almoço e nunca compareço aos eventos sociais.

Sina é alguns anos mais velha e trabalha na loja ao lado, um lugar que tem muitos “e mais”. É uma loja de antiguidades chamada Hidden Treasures, ou Tesouros Escondidos, mas eu a chamo de Lixo Evidente. As pessoas adoram essa loja.

No mundo da ciência, se Sina fosse uma hospedeira, eu seria o seu parasita. Ela tem uma vida. E eu finjo que essa vida é minha. Em outras palavras, ela gosta de verdade de coisas como música, roupas vintage ecléticas e cabelos esquisitos, e eu finjo que elas também me interessam. Não que eu odeie essas coisas. Só não ligo para elas. Mas gosto de Sina, então por que não acompanhar? Principalmente porque eu nem sei do que realmente gosto.

Passo por cima dela com um suspiro.

— Ainda não encontrou as respostas da vida?

Sina sempre usa o chão da loja para fazer suas reflexões filosóficas (um jeito elegante de dizer que “discute com ela mesma”).

Ela geme e põe um braço sobre os olhos.

— Que curso eu faria, se fosse para a faculdade?

Se pudesse decidir, ela trabalharia na loja para sempre, mas faculdade é importante para o pai dela, que vive dizendo que é agente funerário por nunca ter feito um curso superior.

— Lamentação?

— Ha-ha. — Ela senta no chão. — O que você vai estudar quando sair do colégio?

Nem imagino.

— Os efeitos duradouros da reflexão filosófica.

 

— Por que não a arte do sarcasmo?

— Tenho certeza de que já posso concluir o mestrado nesse assunto.

— Não, é sério. O que você vai estudar?

Essas são palavras que eu ouço com frequência. “Não, é sério”, ou “fala sério”, ou “mas é sério”. Palavras de alguém que quer uma resposta de verdade. E eu não quero responder de verdade.

— Não pensei muito nisso. Acho que não vou fazer nada, pelo menos por um tempo.

Ela deita novamente.

— Acho que vou fazer a mesma coisa. Talvez a gente encontre o caminho fazendo alguns cursos livres. — E senta de repente com uma exclamação de espanto.

— O que é?

— Podemos fazer um curso juntas! Ano que vem. Você e eu. Seria incrível!

Já disse a ela um milhão de vezes que não vou fazer curso nenhum no próximo ano. Minha mãe não vai concordar com esse plano (motivo pelo qual ainda nem contei nada a ela), mas vou tirar um ou dois anos de folga dos estudos para poder ajudar na loja em tempo integral. Só que Sina parece tão feliz que eu me limito a sorrir e assentir sem me comprometer.

Ela começa a cantar uma música improvisada.

— Eu e a Any fazendo um curso juntas. Encontrando nosso caminho... — A voz fica mais suave até se transformar em uma melodia sem letra, e ela deita no chão novamente.

 

Duas meninas que acabaram de sair da loja mexeram em tudo. Minha mãe sempre diz que é mais fácil uma pessoa se encantar com uma boneca quando sabe o nome dela. Por isso tem um cartão com nome na frente de cada uma. Agora os cartõezinhos estão uma bagunça, caídos, virados. É muito triste que eu saiba que o cartão com o nome da Bethany está na frente da Susie. Muito. Muito triste.

O celular da Sina toca.

— Alô? Não... estou na Lojinha dos Horrores.

É como ela chama minha loja.

Sina ouve quieta por um tempo, depois diz:

— Não sabia que você viria. — Ela levanta e se apoia no balcão. — Sério? Quando? — E torce uma mecha de cabelo platinado entre os dedos. — Bom, eu estava bem distraída naquele show. — A voz de Sina é leve e delicada, o que dá a tudo que sai de sua boca uma natureza doce e inocente. — Você ainda está aqui? — Ela anda entre berços e mesas cobertas de bonecas em direção à vitrine da frente, e de lá olha para fora. — Estou vendo... estou na loja ao lado. Vem aqui. — E guarda o celular.

— Quem era?

— Meu namorado.

— O namorado. Finalmente vou conhecer o cara, então?

Ela sorri.
— Sim, e vai entender por que aceitei o convite para sair logo de cara na semana passada. — Ela abre a porta, e a sineta quase é arrancada do gancho onde fica pendurada. — Oi, amor.
Ele a envolve com um braço, e Sina dá um passo para o lado.
— Any, este é o Noah. Noah, Any.

Não sei se estou prestando a devida atenção, mas não vejo nada de muito especial. Ele é magrelo, tem cabelo grande. Os óculos de sol estão pendurados na gola da camiseta com estampa de banda, e uma corrente presa ao cinto desce até o meio da perna, de onde volta ao bolso de trás. Sem querer, calculo quantos passos ele teve que dar da loja de Sina até a minha, e quantas vezes aquela corrente bateu em sua perna.

— Qual é? — ele diz. Sério, ele disse isso.
— Ah... tudo bem.
Sina sorri para mim como quem diz: “Viu? Sabia que você ia gostar dele”. A garota é capaz de encontrar qualidades redentoras em um rato afogado, mas ainda estou tentando entender o relacionamento. Sina é linda. Não de maneira convencional. Na verdade, as pessoas olham porque ficam chocadas com o cabelo platinado, o piercing no nariz e as roupas malucas. Mas continuam olhando porque ela impressiona, com os olhos verdes e penetrantes e o porte elegante.
Any está girando em torno dele mesmo, olhando as bonecas.
— Cara, sinistro.
— É, eu sei. A primeira vez é meio assustadora.
Olho em volta. Sim, é um pouco assustador na primeira vez. Bonecas cobrem praticamente cada centímetro das paredes, numa explosão de cores e expressões. Todas olhando para nós. Não só nas paredes, mas sobre as mesas, em berços e carrinhos que formam uma espécie de labirinto. Em caso de incêndio, não temos um caminho livre para escapar. Eu teria que atropelar bebês para sair. Bebês de mentira, mas bebês.
Noah se aproxima de uma boneca vestida com um kilt.
— Aislyn — ele diz, lendo o nome no cartão. — Eu tenho essa roupa. Devia comprar essa boneca, e a gente poderia sair em turnê juntos.
— Tocando gaita de fole? — pergunto.
Ele olha para mim de um jeito estranho.
— Não. Eu sou guitarrista e vocalista da Crusty Toads.
Ah, aí está. O motivo do relacionamento. Sina tem uma quedinha por músicos. Mas ela poderia ter encontrado coisa melhor; esse cara parece ter servido de inspiração para o nome da banda, os Sapos Encardidos.
— Vamos nessa, Die?
— Vamos.
Die? Por que ele chama a namorada de “morrer”? Bom, eu pergunto para ela depois.
— Até mais, Anything — Noah se despede de mim rindo, como se guardasse a gracinha desde o instante em que fomos apresentados.

Anything. Qualquer coisa. Piadinha com meu nome, Any.

Nem vou precisar perguntar sobre o “Die”, afinal. Ele é um daqueles tipos: Distribuidor de Apelidos Instantâneos.

— Tchau — Sapo Encardido —, Noah.

Minha mãe entra na loja pela porta dos fundos quando eles estão saindo pela frente. Ela carrega duas sacolas de supermercado.

— Any, tem mais algumas no carro. Você pode ir buscar? — E segue para a escada.

— Quer que eu deixe a loja sozinha? — A pergunta parece boba, mas minha mãe é sempre muito veemente sobre nunca sairmos da loja quando ela está aberta. Não só porque as bonecas são caras, e o roubo delas seria um grande prejuízo, mas porque não temos um sistema de segurança com câmeras de vídeo. É caro demais para manter. Além disso, minha mãe leva a sério a questão do atendimento ao cliente. Se alguém entrar, não posso esperar nem um segundo para cumprimentá-lo e oferecer ajuda.

— Sim. Por favor.

Ela está ofegante. Minha mãe, a rainha da ioga, está arfando? Ela estava correndo?

— Ok. — Olho para a porta da frente, para ter certeza de que não vai entrar ninguém, depois corro para ir buscar as compras. Quando subo a escada, passo por cima das sacolas que ela deixou ao lado da porta e coloco outras em cima do balcão da cozinha, que tem o tamanho de um cômodo de casa de bonecas.

Esse é realmente o tema da nossa vida. Bonecas. Nós as vendemos. Vivemos na casa delas... ou de um tamanho equivalente: três cômodos minúsculos, um banheiro, uma miniatura de cozinha. E estou convencida de que o tamanho da casa é a principal razão para minha mãe e eu sermos tão próximas. Olho em volta e a vejo deitada no sofá.
— Tudo bem, mãe?

Ela senta, mas não fica em pé.

— Só estou cansada. Acordei muito cedo hoje.

Começo a tirar as compras das sacolas, guardo a carne e o suco de maçã congelados no freezer. Uma vez perguntei se não podíamos comprar suco engarrafado, e minha mãe disse que era muito caro. Eu tinha seis anos. Aquela foi a primeira vez que percebi que éramos pobres. Definitivamente, não foi a última.

— Ah, meu bem, não se preocupe com as compras. Eu guardo tudo daqui a pouco. Você fica na loja?

— Claro. — A caminho da porta, paro para pegar as sacolas do chão e deixá-las sobre o balcão e depois saio. Termino de descer a escada e lembro que vi minha mãe na cama quando saí para o colégio naquela manhã. Ela não disse que acordou muito cedo? Olho para trás, por cima do ombro, pensando em voltar e desmenti-la. Mas não subo a escada. Assumo meu posto atrás do caixa, pego meu trabalho de inglês e não levanto a cabeça até ouvir a sineta da porta.

 


Notas Finais


Noah é muito comediante.


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