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História Exatamente Onde Deveria Estar - Capítulo 3


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Capítulo 3 - Cachorro quente e Broadway. (Ian POV)


Estávamos parados na calçada e Ulisses me encarava de um jeito que me fez sentir desconfortavelmente vulnerável, eu não sabia o que estava passando em sua mente, não sabia se estava tão bagunçada quanto a minha ou se aquilo era o tipo de coisa que ele fazia normalmente. “Você costuma salvar garotos em apuros com frequência?” Pensei em perguntar, mas preferi permanecer em silêncio.

- Você não é muito de falar, né? – Ele disse entre um sorriso breve e então ergueu os olhos para me encarar.

- É que... – Fiz uma pausa. “É que não sei o que dizer quando um príncipe me resgata de um bando de babacas como se eu fosse uma princesa presa na torre.” – Eu ainda não entendi o que aconteceu. – Soei convincente.

- Nem eu, na real. – Ulisses deu de ombro. – Você tá com fome? – Ele mudou de assunto com uma naturalidade tão grande que pensei ter perdido parte da conversa, mas não.

- Depende, você vai pagar? – Usei um tom brincalhão, tentando parecer menos vulnerável do que devia estar parecendo para ele.

- Rá. – Ele soltou uma gargalhada e eu pude sentir meus lábios se transformando num sorriso largo automaticamente. – Vou.

- Então sim, morrendo de fome.

Nos aproximamos da grade que nos separava do atendente. Um homem gordo usando uma camiseta desbotada com a mesma logo pintada na parede ao lado e o desenho de um cachorro quente sorridente. Aquele lugar era a definição de “podrão”, tinha um cheiro que, ao mesmo tempo que era repugnante, fazia meu estômago roncar. O homem que nos atendeu não parecia muito contente, mas quem estaria contente atendendo maconheiros com larica às 4h da manhã?

- Dois completão, faz favor.

- Queijo extra?

Ulisses olhou para mim como se esperasse uma confirmação ou algo assim. Balancei a cabeça afirmativamente.

- Pode ser...? – Eu disse, não muito certo.

- Sim, queijo extra. – Ulisses confirmou.

- Vão comer aqui ou levar para viagem?

Mais uma vez Ulisses olhou para mim, mas eu não disse nada.

- Vamos levar.

- Vinte minutos. – O atendente anunciou entregando uma nota fiscal a Ulisses depois dele pagar.

Nos afastamos da “área de pedidos” e nos aproximamos de uma mesa de plástico com cadeiras também de plástico, que traziam a logo de uma marca de cerveja barata estampada em suas costas e nos sentamos de frente um para o outro. Eu estendi uma das mãos sobre a mesa e bati os dedos na superfície algumas vezes, até que Ulisses se debruçou sobre a mesa, pousando os cotovelos na mesma superfície e cruzando as mãos à altura da boca, como um policial prestes a interrogar um suspeito.

- O que você faz da vida, Ian? – Ele usou um tom dramático e eu ri. Ele também começou a rir.

- O que é isso, um interrogatório? – Brinquei.

- Talvez.

- Bom – Soltei um pigarro, limpando a garganta – meu nome é Ian, como já disse mais cedo... Eu tenho 21 anos, faço faculdade de Letras e tenho um gato chamado Lafayette.

- Lafayette como o comandante Marquês de Lafayette? – Ele arregalou os olhos de empolgação.

- Exatamente! – Confirmei igualmente empolgado.

- Você é fã de Hamilton, né? Você tem a maior cara de fã de Hamilton. – Ele jogou o corpo para trás, se recostando na cadeira parecendo bem mais relaxado do que antes.

- Você conhece Hamilton? – Agora era eu quem estava debruçado sobre a mesa de plástico.

- Mas é claro! É o melhor musical da Broadway dos últimos anos!

Quando ele disse isso eu, pela primeira vez naquela noite, me perguntei se ele era gay, ou pelo menos bi. Fiquei surpreso. Até aquele momento eu não tinha me questionado sobre aquilo e não por alguma resposta parecer óbvia demais, mas simplesmente porque aquela questão não tinha vindo à tona na minha mente. “Broadway”? Tem como ser mais clichê do que isso? Ralhei comigo mesmo por estar tendo um pensamento tão limitado e estereotipado, ele pode muito bem ser um hétero que gosta de musicais, porque não?

 A verdade óbvia e vergonhosa era que eu estava fantasiando com Ulisses. Mas quem pode me culpar? Toda aquela situação me levava a crer que no final daquela noite ele me beijaria em frente à minha porta, depois de me salvar. Eu estava sendo tolo, eu sei disso, não sou do tipo que cria cenários imaginários onde sou uma donzela em apuros, esse definitivamente não sou eu, mas também não serei hipócrita dizendo que não vejo magia em certas coisas e esse momento, esse cara estranho, aqui e agora, isso não é uma coisa corriqueira e ninguém pode negar.

- Definitivamente. – Comentei vagamente.

Nossos completões não demoraram muito a chegar. Nos foram entregues pelo mesmo cara que nos atendeu, aparentemente ele era multifuncional. Agradecemos e nos levantamos assim que ele virou as costas. Ulisses foi na frente e eu estava logo atrás, com aquele cachorro quente gigantesco que tinha cheiro de festa infantil e infarto em minhas mãos.

- Prova aí! – Ele me incentivou enquanto ele mesmo puxava o plástico branco e revelava parte do pão úmido de molho, o qual abocanhou logo em seguida.

- Certo... – Eu apertei os lábios, comprimindo-os e então repeti o processo de puxar o plástico e revelar parte do pão. Estava prestes a dar uma mordida quando meu telefone tocou.

Ulisses correu até mim e pegou o cachorro quente da minha mão paga que eu pudesse pegar o celular. Camila.

- Oi. – Atendi fingindo casualidade.

- Onde caralhos você se enfiou? – Ela estava furiosa e pelo som estourado ao fundo ela ainda estava na festa.

- Eu saí. – Tentei manter uma postura despreocupada na frente de Ulisses.

- Eu sei que você saiu! Onde você tá? Com quem você saiu? Ian! – Camila estava gritando tão alto que eu tinha certeza que mesmo o celular não estando no viva-voz ela seria ouvida por qualquer um que passasse perto de mim.

- Calma, eu tô bem, eu tô com um amigo? – As palavras saíram da minha boca naturalmente e eu posso jurar que vi um sorriso rápido aparecer nos lábios de Ulisses.

- Que amigo, Ian? Eu tô com a sua carteira e com as chaves, onde que você tá, meu deus?

- Cami, eu tô do Dogão do Chico... – Comecei, mas ela me interrompeu.

- Tá, tô indo praí, me espera! – Ela desligou.

- Sua mãe? – Ulisses comentou em tom brincalhão com a boca cheia.

- Ela tá vindo pra cá, acho que você tá liberado por hoje. – Falei com medo dele concordar e ele ficou sério.

- Ian. – Ele me chamou pelo nome e eu engoli em seco. – Você tá bem? – Agora foi ele quem engoliu. - Sabe, aquilo que aconteceu... Aqueles caras eram uns babacas, a gente devia ter chamado a polícia. – Ele rosnou.

- Tá tudo bem agora. Graças a você, inclusive. – Dei de ombros tentando, mais uma vez, não parecer vulnerável perante aquela situação.

- Não foi nada. – Ele não olhou para mim.

- Não. Sério. Obrigado. – Eu dei um passo à frente e ele permaneceu imóvel.

- De nada. – Ele virou o rosto para me olhar e quando nossos olhos se encontraram eu senti minha boca seca. Umedeci os lábios em um movimento impensado e ele deu um passo para trás, esticando o braço e me estendendo meu cachorro quente. Desviei o olhar e peguei o que me foi entregue, tomando cuidado para que nossos dedos não se tocassem, aquela atitude dele era claramente um sinal de “PARE”.

Ótimo, então aí estava a minha resposta. Quer dizer, não me dizia nada sobre a sexualidade dele, mas me dizia para manter distância, tudo bem, ele foi legal comigo e eu devia ficar grato, só. Sem confundir as coisas. Ele não é um príncipe e isso aqui não é um conto de fadas, foi só o acaso que, por hoje, esteve ao meu lado.

Ficamos em silêncio por alguns minutos, que mais pareciam horas de tão longos, até que Camila chegou num táxi. Ela desceu, mas não fechou a porta.

- Como que você sai sem avisar ninguém?

Camila era uma ruiva baixinha de cabelos longos e cacheados, tinha uma aparência quase angelical, mas só até abrir a boca. A pele alva estava corada e a maquiagem dos olhos estava borrada, os lábios inchados indicavam que ela tinha beijado alguém até cansar e pelo vermelho no queixo devia ser alguém com barba. Eu ri e ela ficou ainda mais irritada.

- Ian!

- Desculpa, mãe. Eu saí com meu amigo, que você inclusive não cumprimentou. – Arregalei os olhos para Camila e gesticulei sutilmente com uma das mãos, indicando Ulisses atrás de mim.

Ela entendeu o sinal e endireitou a postura imediatamente, abrindo um sorriso amigável.

- Oi, me desculpe, eu nem me apresentei... – Ela se aproximou de Ulisses já estendendo a mão de uma maneira formal e antiquada, ele trocou o cachorro quente de mão e a limpou na calça antes de cumprimenta-la. – Eu sou a Camila. E você é o...

- Ulisses.

- Bom te conhecer, Ulisses. De onde você conhece o Ian?

Ulisses ergueu os olhos, procurando pelos meus, como quem pede socorro.

- É um amigo da faculdade. – Menti sem fazer esforço.

- Você faz Letras então? – Camila estava empolgada, ela sempre ficava empolgada quando me via interagindo com qualquer cara.

- Não, mas a gente fez uma matéria básica juntos. – Ele embarcou na minha mentira e eu sorri aliviado.

- E você mora perto? A gente pode dividir o táxi. – Ela sugeriu em um tom quase autoritário.

- Não precisa, eu moro logo ali, posso ir andando mesmo. – Ulisses apontou para um lado aleatório e eu entendi que ele simplesmente queria se livrar daquele questionário inconveniente que sabia que Camila faria.

Eu queria ficar. Queria continuar conversando com Ulisses, mas não sabia até que ponto eu estaria sendo inconveniente. Ele já tinha feito demais por mim numa única noite. Ele quase se meteu numa briga para me ajudar, ele pagou o táxi e o cachorro quente. Tudo isso sem me conhecer. Eu não podia esperar que além de tudo ele ainda correspondesse às minhas expectativas irreais e juvenis, não podia obriga-lo a passar mais tempo comigo e ainda aguentar um monte de perguntas da minha amiga intrometida. Eu podia muito bem dizer à Camila que desse minha carteira e minhas chaves, mas não o fiz.

Eu podia ter dado o dinheiro do táxi e do cachorro quente naquele instante, mas em vez disso eu deixei que Camila me arrastasse para o táxi e apenas acenei para Ulisses.

- Te vejo na faculdade. – Ele acenou esboçando um sorriso rápido, sem dentes.

- Fico te devendo. – Disse eu e entrei no táxi.

Tudo o que eu sabia de Ulisses era seu nome. Eu não tinha o sobrenome, a idade, não sabia que curso ele fazia, nem ao menos se fazia algum curso, eu não sabia sequer do que ele gostava e o pior: não sabia como encontra-lo de novo.

Eu fui um grande idiota nesse aspecto, agi por impulso. Eu preferi não pagar o que devia a ele porque, na minha mente, poderia usar isso como desculpa para encontrar com ele mais uma vez, mas eu não pensei no mais importante. Para um cara tão inteligente como dizem que eu sou, eu fui muito burro.

 



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