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História Experimento 154 - Capítulo 7


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Capítulo 7 - Lovely


Fanfic / Fanfiction Experimento 154 - Capítulo 7 - Lovely

Terça-feira, 12 de janeiro de 2044

Dias e dias se passaram sem sinal do exército que provavelmente viria atrás deles, agora eles sentiam que podiam finalmente respirar aliviados. Eles já haviam feito reconhecimento do terreno ao redor e a vila mais próxima estava a mais de oito horas de distância – se você fosse rápido como um guepardo e andasse em linha reta saindo completamente da estrada -. No resto, tudo o que faziam se resumia a ficar ali e fingir levar uma vida normal, se alimentando somente das poucas, e muito poucas, coisas que ainda restavam na despensa. Jansen e Margô estavam cada vez assumiram oficialmente o namoro durante o jantar.

Quando não estava atormentando Margô e Jansen com todas as coisas que podiam possivelmente dar errado, Leah dedicava seus dias a fazer todos treinarem até que sentissem dor nos ossos. O treinamento da major se assemelhava ao do Centro de Treinamento, porém era mais intenso. Ela sabia o estrago mental que todas aquelas guerras e mortes podiam provocar e por isso fazia com que todos chegassem ao limite. Ficar submerso até desmaiar por faltar de ar ou por engolir muita água, correr por horas até que a velocidade aumentasse alguns nano-segundos ou até que uma fratura os fizesse parar. E o mais memorável exercício de treinamento: Fazer com que 6 pessoas habitassem um porão de 7m², sem água ou comida até que o mais fraco desistisse, oito longos dias se passaram antes que Margô saísse declarando que não era obrigada. 

A cada três dias ela escolhia a próxima sentinela, que observaria do telhado toda a região e reportaria qualquer movimentação suspeita. A sentinela não podia se sentar, ou dormir, ou mesmo ir ao banheiro. Alguém ficava encarregado de levar comida até o telhado. Mas religiosamente aos domingos, Leah assumia o turno da sentinela e permitia que eles tirassem o dia de folga.

Em um dos dias, ela acordou extremamente animada dizendo ter a ideia perfeita. Para se defender da Capital eles precisavam saber lutar mesmo em desvantagem e combate corpo a corpo era algo comum demais para eles. Então ela os levou ao fundo do canyon próximo da casa e explicou que cada um deveria enfrentar sozinho os outros cinco, vendado e com seu ombro direito deslocado. Alicia e Lincoln resistiram um pouco antes de serem forçados a participar desse treinamento que mais parecia um show de horror ou um filme do Rambo. Ao final do dia, eles escalaram com muita dificuldade de volta para casa. 

- Sério? Vocês faziam parte do meu esquadrão? – Leah se divertiu quando percebeu que todos estavam caídos no chão na varanda do orfanato. Ela tomou cuidado para não pisar em ninguém enquanto passava por cima deles e entrava na casa.

®


No dia seguinte depois que quase todos haviam acordado, eles repararam que a dispensa, que já era bastante desprovida de sustância, estava vazia e que agora teriam que procurar comida em outro lugar.

- E se nós roubássemos? – Sugeriu Jansen enquanto observava a reação assustada de todos, principalmente da sua irmã.

- Amei a ideia! – Declarou Margô com entusiasmo

- ESPEREM! – Leah gritou, descendo as escadas com uma garrafa de vodca na mão que ela gesticulava desesperadamente. - Como começam uma reunião sem mim?

- A comida acabou, estamos pensando em roubar, e não podemos nos dar ao luxo de saber a hora que você vai acordar para começar a decidir... – Margô resumiu e colocou seu olhar sobre a garrafa. - Já começou a beber? 

- Ótimo! Adoro adrenalina e se não reparou a garrafa ainda esta lacrada. – Respondeu mostrando a garrafa.

- Já vi, Leah. – Ela se esquivou, inclinando o rosto para trás. - Agora podemos ir?

- Mas é claro... - Decidiu animada - Que não! Respondam, meus pequenos gênios: Quem vamos roubar se nessa cidade abandonada não tem absolutamente ninguém? - Margô estava planejando uma resposta quando ela voltou a falar. – Ou vocês pretendem sair por ai procurando civilizações que não pensarão duas vezes em nos matar?

- Não, Leah. Nós vamos procurar pela cidade e ver se encontramos algo e se não, iremos até alguma cidade habitada para roubarmos de um mercado ou de um depósito. – A lutadora revirou os olhos e explicou em voz baixa tentando controlar a irritação que sentia.

- Eu não sei se te avisaram, mas a primeira alternativa não é roubo e a segunda é suicídio. Amei a iniciativa, mas da próxima vez usem o máximo que conseguirem de seus cérebros ou esperem eu acordar. Ok? – Resmungou com tom maternal.

- E como, exatamente, essa conversa infinita de vocês vai resolver o nosso problema? – Alicia interrompeu. Ela não gostava muito de tentar dialogar com a major, mas aquela discussão sem sentido não estava levando a lugar nenhum. 

Eles realmente procuraram pela cidade, e encontraram mantimentos suficientes para pelo menos mais dois meses, não haviam legumes, carnes ou coisas interessantes, ou dentro da data de validade. Mas acharam alguns quilos de arroz, feijão, farinha e outros alimentos não-perecíveis que pareciam bons o suficiente para que eles matassem a fome. 


Quarta-feira, 27 de janeiro de 2044

Depois de procurar num raio de mais de 50 km, eles conseguiram encontrar animais para caçar. Tirar a pele, limpar e tratar a carne de animais recentemente abatidos era algo trabalhoso e nada cômodo, mas a proteína que a carne provia era recompensadora. Eles se sentiam satisfeitos com menores porções de comida e aguentavam mais tempo sem comer. O trauma de assistir e ajudar no processo do que Alicia chamava de “assassinato” fez com que ela decidisse  virar vegetariana e apenas se alimentasse dos grãos que já haviam na casa. Como não haviam árvores frutíferas por perto, ela sempre procurava por frutas durante a caça. 

Jansen havia descoberto um gerador de energia sustentável na vila abandonada e, após algum tempo aprendendo como aquilo funcionava, ele encontrou o problema e conseguiu colocar para funcionar novamente. Ele também consertou a geladeira e fez algumas alterações necessárias na fiação da casa. Graças a isso, eles agora podiam iluminar os cômodos revezando as únicas duas lâmpadas que funcionavam e podiam armazenar a comida que eles faziam.

- Ruivinha, algum sucesso na sua missão? – Leah debochou ao ver que Alicia havia voltado para a casa com a bolsa vazia mais uma vez. 

- Deixa ela em paz, Leah. A escolha é dela. – Margô apelou enquanto cortava os pedaços de carne do cervo que haviam caçado naquela manhã.

- A escolha dela vai matá-la de fome. – A major rebateu os argumentos da amiga, mas deixou para lá e voltou a afiar as facas enferrujadas em sua mão.

- E por que você liga se eu morrer? – Alicia prendeu o cabelo em um coque alto e se jogou no sofá destruído que um dia havia sido laranja.

- Se você morrer vai cheirar mal e eu vou ter que me livrar do corpo. Não quero ter esse tipo de trabalho. – Leah não se dignou a olhar na direção de Alicia ao enumerar.

- Alicia, você está bem? – Dave perguntou ao perceber que ela estava mais pálida do que o normal e que suas mãos estavam tremendo levemente. 

- Claro, por que eu não estaria? – Alicia sorriu para Dave, mas sentiu um líquido viscoso escorrendo de seu nariz e ao passar a mão para limpar percebeu que era sangue. 

- “Aly”, quando foi a última vez que você fez uma refeição completa? – Jansen apareceu na sala prontamente ao perceber o que estava acontecendo.

- No café da manhã.. Não se preocupe, eu só devo estar cansada. – Ela fez um esforço para se levantar do sofá, mas suas pernas não conseguiram suportar o peso e cederam. Jansen a segurou antes que ela batesse com a cabeça no braço do sofá.

- Eu sabia que isso ia acontecer, levem ela para o quarto! Margô, o que ela pode comer para recuperar as forças? – A major deixou as facas de lado e foi para a cozinha com Margô para preparar uma sopa de farinha de milho com pedaços de carne de cervo.

Eles tiveram uma grande dificuldade para convencer Alicia a colocar sequer uma colher na boca. “Não temos o luxo de escolher o que comemos Leah argumentou irredutivelmente, mas Jansen pôs fim a cizânia fazendo Alicia concordar em comer apenas a sopa, se ele tirasse todos os pedaços de carne do prato. Leah se sentiu contrariada e se retirou sem mais comentários. Alguns dias se passaram, mas ao invés de melhorar, a situação apenas se agravou. Ao final da semana, Jansen apresentava fortes dores de cabeça, Margô e Lincoln estavam recorrentemente com febre e Dave tinha dores por todo o corpo. Eles se esforçavam para se manter de pé para que as coisas não desandassem, mas se tornava cada vez mais difícil de levantar da cama.

- E como cês sabem que não é uma doença causada pela carne que estamos comendo? – Dave argumentou. Como Alicia não se sentia bem o suficiente para levantar, eles estavam se reunindo no quarto dela para decidir como lidariam com essa doença. O quarterback estava sentado na beira da cama.

- Se esse fosse o caso, Alicia não estaria doente. E, além disso, Leah ainda não apresentou nenhum sintoma. – Jansen refutou. O gênio prodígio estava recostado na parede no canto mais escuro do quarto.

- Mas o DNA da Leah é mais forte, não? Afinal ela faz parte da linha de frente. – Relembrou Margô. Ela tinha sobre ela três casacos e ainda assim não conseguia parar os calafrios.

- Bom, eu nunca fiquei doente depois do experimento, se é isso que você tá perguntando. – A major balbuciou, mas pela primeira vez, ela não parecia nada interessada na discussão. Haviam bolsas escuras embaixo dos seus olhos e ela continuou com a cabeça apoiada em uma de suas mãos.

- Talvez seja algo na casa, algum fungo ou bactéria a qual Leah seja imune. – Alicia propôs.

- Seja o que for, está tarde. Vocês deveriam ir dormir. Teorias da conspiração não vão curar ninguém. – Leah resmungou e não perdeu tempo esperando que eles obedecessem. Ela apenas se levantou e saiu do quarto. 

Conforme a escuridão da noite se espalhou pelo céu e adentrou a casa, Leah percebeu que todos se dirigiram para as suas camas e ouviu quando a velocidade do respirar deles diminuiu. Ela não conseguia dormir, então foi para a varanda observar o céu. Passou uma grande parte da noite lá, pensando qual seria a próxima jogada da Capital, como eles os encontrariam e se isso aconteceria antes ou depois de todos morrerem. Por um momento pôde sentir as mãos invisíveis da ansiedade se enroscando em sua garganta. Afastou a ideia patética da morte de sua cabeça e passou pela porta de entrada retrucando consigo mesma o quanto era idiota. Quando abriu a porta do quarto, ouviu um barulho estranho vindo da cozinha. Foi até a porta do cômodo e encontrou Lincoln tossindo dolorosamente. 

- Loirinho, o que está acontecendo com você? – Ela indagou despreocupadamente ao se aproximar de Lincoln, mas estremeceu e arregalou os olhos ao perceber que havia sangue em seu nariz e boca.

- Eu não sei. – Ele murmurou antes de cuspir sangue no chão. Ele limpou sua boca com o dorso da mão. Ao perceber que o sangue havia respingado no tênis da major, ele olhou timidamente para ela. Seus olhos e sua boca estavam vermelhos e sua expressão estava apática. – Desculpa.

- O.K. Vem comigo. – Leah colocou o braço direito dele sobre o seu ombro e o levou até a sala, onde o ar circulava melhor. A pele dele estava quente e esquálida. Ela o ajudou a se sentar no sofá e ocupou o assento ao seu lado. Ao perceber que ele permanecia tremendo de frio e com dificuldades para respirar, ela tirou a jaqueta e colocou sobre ele.

- Obrigado. – Ele suspirou com a respiração entrecortada.

- Tudo bem, só não morra na minha frente, ok? – Ela brincou desejando desesperadamente que ele levasse a sério.

- Eu prometo que vou tentar.  – Ele deu um sorriso fraco e seus olhos começaram a pesar. Leah tomou um leve susto quando a cabeça dele recaiu em seu ombro. Mas após constatar que ele ainda respirava, ela ajeitou a cabeça dele sobre o seu colo. Mal percebeu que as horas passavam e quando se deu conta já estava dormindo com a cabeça apoiada no estrado de madeira do sofá.

Lincoln tinha uma aparência frágil e uma saúde três vezes mais fraca do que a aparência. E naquele estado parecia indefeso, como algo que precisa ser protegido e cuidado. "Amável até" pensou Leah. Ele não parecia o tipo de pessoa que sobrevive a grandes tragédias ou a doenças comuns. Mesmo assim, seu corpo parecia decidido a sobreviver não apenas ao vírus, como aos testes e a arriscada tarefa de fazer parte do esquadrão da Major Souza.

Segunda-feira, 1º de fevereiro de 2044

- Eu tenho uma ideia... A vodca! – Alicia exclamou fracamente e tentou recuperar o ar que havia escapado de seus pulmões logo depois. Eles estavam todos reunidos no quarto de Alicia mais uma vez. E dessa vez a reunião foi realizada mais cedo, então os raios de sol estavam dando as caras por entre as brechas da cortina.

- Que merda você quer com a minha vodca? – Leah se sobressaltou. A major agora estava de pé apoiada na cadeira que estava ocupando segundos antes.

- Eu estava pensando... A única diferença entre nós e você é que você vive se embebedando com vodca. – A prodígio de cabelo laranja argumentou. Ela estava recostada, mas a dor em suas costas estava mais insuportável a cada segundo.

- Alicia está certa! Talvez haja algo na composição da vodka que seja semelhante aos remédios que tomávamos no Centro de Treinamento. – Jansen acrescentou. Ele permanecia na borda da cama segurando a mão da irmã e acariciando a cabeça de Margô.

- Isso significa que precisamos ficar todos chapados e vamos ficar bem? – Dave confirmou para ver se tinha compreendido tudo aquilo direito. O quarterback estava distraidamente sentado no chão.

- Não é tão simples assim. Não sabemos a dose certa, e só temos mais uma garrafa no armário. Nem sabemos se vai ser o suficiente para todos nós. – Margô lamentou fitando o vazio. Ela também estava sentada no chão, com a cabeça recostada na cama. Apesar de estar quase de costas para a conversa, todos ouviram sua declaração atentamente.

- De qualquer forma, não tem como ficar pior. – Lincoln comentou com certo ânimo apesar da feição perdida e cansada que ele exibia jogado em uma poltrona no canto do quarto.

- Merda... Então eu vou parar de beber minha quantidade habitual e vou separar pequenas doses de um jeito que dê pra todo mundo por pelo menos um mês. – Leah concluiu caminhando para a porta. – E nem pensem em desperdiçar minha vodca vomitando.



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