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História Experimento No136 - Capítulo 1


Escrita por: e Fool_of_Hearts


Notas do Autor


Antes de mais nada, é uma honra ser aceito no projeto e ter a chance de contribuir no revival da categoria. E que forma melhor de estrear se não com um dos meus shipps favoritos?
Pois bem, como se costume...
Créditos da capa a @Lorelei <3 <3 <3
Agradeço a betagem da @YukoTsu <3 <3 <3
Hope U Like~

Capítulo 1 - Capítulo Único


I-

Ele estava falando alguma coisa com a qual não se importava.

Era a terceira vez na semana que Kaga decidia importuná-lo e ele se perguntava se em vidas passadas tinha sido um pecador, porque aquilo definitivamente era uma punição divina. 

Quanto mais prolongava seu silêncio, com mais intensidade o cientista começava a falar, gesticulando ferozmente como se as palavras por si só não pudessem transmitir o que ele queria.
Mesmo que toda sua concentração estivesse na pintura a sua frente, Geiju ainda conseguia ouvir a voz de Kaga despejando um monte de baboseiras irrelevantes sobre robôs e ciência. A voz do garoto era alta e quase histérica, completamente irritante.  

Não sabia exatamente o porquê de Kaga ter escolhido ele, entre todos os alunos do colégio, para ser o ouvinte de sua megalomania científica, mas provavelmente tinha relação com todos os outros fugirem assustados quando o líder de ciências começava a falar. 

Geiju suspirou audivelmente e deu outra resposta monossilábica, como tinha feito nos outros dois dias, visando a partida súbita do importunador. Mas dessa vez, ao invés de voltar a falar ainda mais alto e sair do clube gargalhando, Kaga se calou. 

O silêncio vindo dele sempre seria algo preocupante, ainda mais depois de tanto tempo falando. Frustrado, apoiou o pincel no suporte do cavalete e se virou para encarar o garoto. 

As orbes azuis do cientista estavam arregaladas, a boca semi-aberta e uma expressão de puro choque.
— ... Maldição… MALDIÇÃO! — Ótimo, agora ele ia começar a gritar. — COMO EU PUDE SER TÃO IMPRUDENTE, TE FALANDO TODO MEU PLANO DE DOMINAÇÃO MUNDIAL?

Geiju soltou um "Ah" de compreensão. Então era sobre isso que ele estava balbuciando tanto. Não que importasse, Geiju só queria que ele saísse logo, mas levando em conta o desespero dele no momento, isso não aconteceria naquele momento. 

Piscou lentamente e voltou a se concentrar em sua tela, ignorando os gritos do cientista para si mesmo. 

Mas como o universo e todos os deuses odiavam Geiju, era de se esperar que Kaga o impedisse de continuar pintando.

— Não… Não pense que seu silêncio me engana! Eu sei que você se manteve calado para que eu falasse mais e mais, até saber tudo que precisava! — Geiju pensou em deixar claro que ele apenas estava ignorando, mas decidiu não gastar palavras com o lunático — Mas VOCÊ não será um obstáculo! 

— Não? — perguntou, pensando que talvez entrar naquela conversa estúpida faria o cientista ir embora logo. 

— Claro que não! Eu deveria te silenciar antes que possa fazer qualquer coisa… Mas essa sua alma torturada, não, com certeza você conseguiria espalhar meus planos aos quatro ventos antes que eu cortasse suas asas metafóricas! — agora seus olhos brilhavam tanto quanto seu sorriso.

Geiju considerou que ele seria um bom modelo para uma pintura, mas descartou a ideia em seguida. "Lunático em Aquarela" não soava como uma boa obra. E também duvidava que o garoto conseguiria ficar quieto posando para uma tela, sendo que sequer conseguia calar a boca.

— Eu sei como lidar com você… — ele colocou a mão nos cabelos platinados e começou a rir histericamente. — Sei como resolver isso… Os cálculos são muito simples. Eu farei de você, meu aliado! Meu serviçal e ajudante do meu plano!

— Seu? — era mais uma objeção sarcástica, mas Kaga interpretou de outra forma. 

— Surpreso? Claro que não considerou uma coisa dessas! 

— Não…

Ele voltou a rir e o segurou pelos ombros, sacudindo levemente enquanto gargalhava. Geiju soltou um som de frustração e firmou seus pés para não cair nem derrubar sua paleta de tintas.

— Você vai ver, meu futuro ajudante! O experimento n°136, codinome tetsudai começa agora! — com isso, ele saiu do clube, gritando pelos corredores e rindo.

Quando seus passos não podiam mais ser ouvidos, Geiju fechou as portas do clube e voltou ao seu cavalete.

— Silêncio. — agradeceu, voltando a pintar antes que sua paz fosse interrompida novamente. 

 

No dia seguinte, Kaga entrou em ação.
Todos na escola o viram com seus colegas de clube arrastando uma caixa dois lances de escada acima e preferiram não fazer perguntas.
Geiju tinha ouvido alguém comentar sobre o feito, mas não se importava com o que Kaga Kusha fazia com seu tempo livre.
Ao menos, não se importava até tê-lo batendo na sua porta com aquela caixa bloqueando a passagem no clube de artes. E ele devia ter aceitado que nunca mais teria paz no instante que o cientista adentrou o clube de artes arrastando a caixa de papelão enorme. 

Os outros membros do clube de artes não sabiam como reagir, deixando seu competente e monossilábico líder resolver a questão.

— Por quê? — ele se arrependeu da pergunta no instante que Kaga se preparou para responder. 

— Por que eu decidi mudar sua vida e de seus colegas de clube? É realmente uma ótima pergunta. — ele rasgou o papelão com um estilete que tinha em mãos, fazendo com que uma espécie de máquina quadrada, semelhante a uma impressora, ficasse à mostra. — Eu tenho aqui o futuro das artes, o seu futuro. O conhecimento dos grandes mestres da ciência que resultou nisso!

— Nosso futuro está numa caixa que você trouxe? Parece até que estamos num anime… — Nurimono, a garota viciada em animes do clube de artes, comentou, mas Kaga a ignorou completamente e voltou a falar. 

— Isso é um robô perfeitamente capaz de reproduzir qualquer obra de arte existente, contanto que ele escaneie a imagem primeiro. — falou, indicando o scanner e o mecanismo que permitia atribuir um pincel ao robô. — Vocês dão um pincel para ele e a reprodução imitará cada pincelada. Numa perfeição cuidadosamente calculada! 

— Como é?! — os membros o encararam admirados, enquanto ele empurrava a caixa mais para dentro do clube. 

— É claro que uma coisa dessas não é nada no meu grande plano, por isso estou te presenteando com ela, Tsuka. — ele se demorou ao falar o nome, como se estivesse treinando  para quando fosse dar suas ordens — De acordo com minhas observações do comportamento humano, presentear indivíduos-alvo é a forma mais prática de conseguir benefícios a curto e longo prazo.

— … Benefícios…? — alguém murmurou, tentando entender o que estava acontecendo. 

— Então, Geiju Tsuka, você definitivamente será meu aliado agora! — Kaga declarou, deslizando para o corredor, onde seus colegas de clube estavam cuidadosamente alinhados, esperando para receber o novo ajudante do seu líder. — Junte-se a nós, artista!

Geiju respirou fundo, andando até a porta do clube e o sorriso de Kaga aumentou com a aproximação. O líder de artes ajustou seus óculos no rosto, enquanto seus colegas de clube permaneciam sem entender a situação.

— Não. — falou, fechando as portas mesmo com os protestos de Kaga do lado de fora. 

— O que diabos foi isso? — seu colega perguntou, mas ele apenas deu de ombros, voltando a pintar e ignorando a caixa.

Os outros membros fizeram o mesmo, embora estivessem curiosos com o funcionamento do robô de Kaga. Geiju a olhou de relance com desaprovação.

"Idiota… Não sabe que arte é uma coisa puramente humana?", pensou, com as sobrancelhas franzidas. Daria um jeito de tirar aquilo dali mais tarde. 


 

Na fim da tarde seguinte, Kaga voltou.

Dessa vez ele tinha um pequeno robô, do tamanho de um caderno, em suas mãos cobertas por luvas de borracha. Aquele ali até Geiju conhecia, era o robô de limpeza do clube de ciências. Um protótipo extremamente útil, mas que só eles usavam.
Kaga sorriu quando notou o reconhecimento por parte de Geiju e entrou na sala sem pedir permissão, exatamente como fez nos últimos quatro dias. 

Geiju não conseguiu disfarçar a inconveniência que era ter Kaga no seu clube mais uma vez, mas o outro pareceu não se importar. Mesmo tendo sido praticamente expulso do lugar no dia anterior, seu sorriso parecia inafetado.

— Céus… — Geiju murmurou quando o viu entrar. 

— Vejo que estão fazendo uso de meu protótipo artístico. Ótimo, excelente! — Kaga comentou rodeando a sala e vendo sua máquina em um novo lugar.

O uso que estavam fazendo daquilo era basicamente usar como apoio para telas estragadas, mas Kaga não se importava com o uso inadequado de sua invenção genial tanto quanto se importava do fato de ter criado uma máquina do tempo e esquecido como a fez.

— Pois hoje, lhe trago algo ainda melhor… Embora menor no tamanho. — os outros membros já tinham ido embora e a limpeza estava a cargo de Geiju, mas ainda assim ele não queria que Kaga tivesse mais motivos para continuar falando. — Como você está sozinho com toda essa limpeza a fazer, um robô especificamente criado para limpar é a solução de melhor custo-benefício.

Ele colocou o robô cuidadosamente no chão e o ligou. Logo a máquina começou a limpar as manchas de tinta no chão e a água da aquarela que tinha caído mais cedo.
Em poucos minutos, a sala estava limpa sem sequer exigir esforço por parte de Geiju. Era realmente muito prático, mas provavelmente o próprio robô precisaria ser limpo manualmente depois. Sem falar das manutenções para mantê-lo funcional e todo o trabalho para mantê-lo carregado. 

"...Trabalhoso…", concluiu, por fim.

—Não precisa agradecer. — Kaga declarou, confiança transbordando em suas palavras, como se tivesse sucedido em comprar Geiju com aquela vassoura ciborgue.

Ele caminhou até a janela com os braços para trás, posando dramaticamente. Ele iria iniciar seu discurso sobre dominação mundial mais uma vez. Quando ele começou a falar, sua voz estava mais controlada do que da primeira vez, num tom baixo e consideravelmente agradável, sua voz até que era bonita quando ele não estava histérico.

Mas mesmo que fosse um anjo falando, Geiju era perfeitamente capaz de ignorar e prosseguir com a limpeza e suas obrigações com seu clube.

— Agora, meu ajudante, vamos debater meus planos.

"Se bem que…", ele continuou seu raciocínio. O robô já tinha limpado todo o chão, e os pincéis já estavam lavados. Não havia muito mais a se fazer que não pudesse ser completado no dia seguinte. Aparentemente, ele tinha todo direito de ir embora. 

Geiju aproveitou que Kaga estava de costas e saiu do sala em silêncio. Quando Kaga notasse sua ausência, ele já estaria bem longe.
Só virou para trás mais uma vez para olhar o garoto, antes de ir embora.


 

Sexta-feira era o dia que eles pintavam ao ar livre. 

Geiju tinha certeza que, se não estivesse na sala do clube, se livraria de Kaga. Mas, por algum motivo, parecia que sexta-feira também era o dia que o clube de ciências faziam experimentos do lado de fora do prédio.

Kaga sorriu quando o viu, enquanto os seus colegas cochichavam atrás dele. Geiju fez o máximo para se virar e focar na pintura em sua frente, mas a situação piorou. 

Sua tela continha um rascunho da cena do dia anterior, as cores alaranjadas do pôr-do-sol refletindo nas madeixas prateadas da figura de costas. 

Kaga se aproximou e soltou um som de admiração.

— Seria isso uma leitura em tela do meu discurso de ontem? — o garoto perguntou, se reconhecendo de imediato na tela a sua frente. — As proporções matemáticas estão perfeitamente aplicadas nessa peça, eu diria até que parece uma obra feita pela minha máquina.

Se não fosse sua maldita inspiração na noite anterior, que não o deixaria descansar até tirar aquela cena da mente, Geiju não precisaria passar por isso. E para piorar, os outros artistas tinham se juntado para espiar sua pintura também.
Mas ele não tinha que se justificar, era apenas natural que uma cena interessante se tornasse uma obra de arte em suas mãos. O estardalhaço de seus colegas era um completo exagero.

— De qualquer forma. Eis aqui o que tenho para hoje. — Kaga lhe entregou um pequeno frasco de metal.

Geiju abriu a tampa e viu que havia um líquido espesso dentro. Denso como tinta, mas transparente como água. Kaga aguardava ansioso, como se estivesse se segurando para não começar a falar. Parecia uma criança querendo contar um segredo. 

Geiju ergueu as sobrancelhas por não saber do que se tratava o que tinha em mãos, e Kaga interpretou aquilo como uma pergunta que precisava responder.

— Essa é uma tinta camaleão que desenvolvi ontem a noite. — afirmou, e Geiju se manteve sem entender. — Veja bem, enquanto descrevia novamente meu plano antes de você ir rudemente embora, percebi que o vidro da janela parecia ter as cores do pôr-do-sol. E me determinei a criar uma tinta que conseguisse absorver a cor de qualquer coisa que entre em contato.

Para demonstrar, ele se agachou e pegou uma folha da grama. Com um sorriso, a colocou dentro do líquido e em poucos instantes, o transparente se tornou o mesmo verde da grama. Geiju arregalou os olhos, aquilo era realmente impressionante. 

Com a pequena emoção que demonstrou, Kaga estalou os dedos e seus colegas de clube vieram com mais frascos.

— A quantidade de reagentes que eu possuía permitiu a produção de apenas um frasco, mas é claro que uma coisa dessas não impediria o futuro dono do mundo de entregar um pequeno estoque para seu clube. Então refiz o produto usando outra fórmula que resultou em maior rendimento. 

— Tinta? — Geiju alcançou outro frasco que estava nas mãos de outra cientista e o abriu. Era o mesmo líquido transparente.

Kaga iria começar a falar novamente, mas foi interrompido quando Geiju puxou um fio de seu cabelo. O fio prateado caiu na tinta e logo o tom cinzento se tornou a cor do líquido.

— Além de estimular meus sensores de dor, ainda rouba parte de meu DNA? Talvez você seja uma variável mais instável do que previ… — Geiju ignorou, testando a tinta em sua tela.

Além de atingir perfeitamente a cor do cabelo de Kaga, a tinta se mesclava com o fundo alaranjado a cada pincelada. De certa forma, era como se estivesse recriando o brilho natural do cabelo de Kaga daquela tarde. Era realmente impressionante. 

Cada traço que fazia com a tinha parecia resplandecer, e aos poucos foi ousando mais e mais, pintando áreas que sequer eram daquela cor apenas para ver o efeito que teria ao mesclar todos os componentes da tela. 

Seu foco se tornou total e nem a voz de Kaga conseguiu interrompê-lo. 

Conforme deslizava o pincel, sentia o mundo se diluindo na pequena realidade contida no tecido de sua tela. Sua mente mantendo fresca a imagem que visava pintar para que conseguisse todos os detalhes. 

Apesar de ouvir vagamente seus colegas se despedindo, ignorava completamente tudo que não fosse a pintura a sua frente. 

Usou a tinta-camaleão e suas tintas usuais uma a uma, sentindo que o tempo passava e o sol baixava cada vez mais. 

Estava tão entretido, que só parou de pintar quando terminou. 

Deu dois passos para trás para admirar seu trabalho e trombou com Kaga, que o segurou para não cair.

— Seu eixo de equilíbrio parece completamente desregulado, por sorte eu compensei seu peso com uma força-vetor de igual valor na direção oposta. — se afastou imediatamente, ligeiramente incomodado pelo seu comportamento desajeitado. Ia se desculpar, mas Kaga estava concentrado na tela que tinha pego em mãos, a observando. — É incrível como terminou em tão pouco tempo, um feito digno de um gênio. Seu tempo gasto médio foi cerca de duas horas.

Tinha sido tão rápido assim? Sentia que muito mais tempo tinha se passado, mas quando olhou para o céu, ainda havia o brilho do sol poente. 

Nunca foi do tipo que termina pinturas de forma rápida, geralmente tomando até mesmo semanas para completar um trabalho. Mas cá estava uma pintura completa feita em tão pouco tempo. 

Talvez fosse só sua inspiração ardente que tinha feito seu rendimento ser tão espetacular. 

Deu um leve sorriso, enquanto Kaga colocava a pintura de volta no cavalete. Vendo o cientista lado a lado com sua pintura, sentiu-se realmente orgulhoso do seu trabalho. 

 

 

II-

Era sábado. 

Sábados eram seus dias de paz e tranquilidade, em que se entregava a afazeres mundanos como dormir e comer, sem sequer tocar num lápis ou pincel. 

Era aos sábados que ele colocava seu sono em dia, fazia exercícios físicos para se manter relativamente saudável e estudava para manter certo rendimento escolar. 

Ao menos era. Uma semana antes e ele de fato estava fazendo essas coisas em seu sábado. 

Mas a inserção forçada de Kaga em sua rotina escolar tinha mudado isso. Por esse motivo ele tinha carvão e papel cartão em mãos, e um desenho de Kaga sentado na própria carteira. 

Os olhos da figura estavam desenhados de forma pacífica, um brilho sutil sob as pálpebras baixas, cabelo estava uma confusão exatamente como na vida real. E os dedos, finos nas mãos elegantes, levemente sobrepostas nos lábios.

Eles estudavam na mesma sala, então Geiju tinha uma ideia bem clara de como Kaga ficava durante as aulas. Num geral, ele respondia qualquer pergunta que os professores fizessem e perturbava a paz natural da classe. Mas, na sexta-feira, ele estava quieto. Tão quieto que fez Geiju olhar para trás e o ver encarando um ponto distante através da janela. E a expressão era tão distraída e relaxada que se prendeu na sua mente. 

Quando fez a pintura de Kaga ao pôr-do-sol, se esqueceu brevemente da imagem. Porém, ao acordar no sábado, era a única coisa que conseguia pensar. 

Era a terceira vez que considerava usar Kaga como modelo, e segunda vez que realmente transformava a ideia em uma obra. 

Não havia nada esteticamente atrativo no cientista, e o que chamava atenção nele era sua excentricidade. Ainda assim… 

Ele era um bom tema para se pintar. 



 

Quando seu olhar vislumbrou o azul dos olhos de Kaga, Geiju silenciosamente amaldiçoou toda a humanidade por ter evoluído, formado sociedades, inventado as finas artes e feito tudo que culminou na situação atual em que ele se encontrava. 

Parecia uma verdadeira maldição ele estar, em pleno domingo, numa galeria desconhecida de Shisuta, e ainda assim estar cara a cara com a razão de seu sábado perdido. 

Kaga ficava diferente sem o jaleco branco e o estranho monóculo que usava. Em roupas comuns, ele até parecia alguém decente. A assistente da galeria ao seu lado tinha uma expressão que implorava "senhor, fale baixo", mas apesar do olhar de súplica dela, ele ainda gritava pela galeria.

— Aproximadamente 67% dessas obras não contém a proporção áurea. Mas esta aqui em específico… Eu poderia ver o phi  nela até se uma lona a cobrisse.

— É um artista exigente, proporções perfeitas são a coisa mais perceptível nos quadros dele. — ela comentou, respirando fundo. 

— Um verdadeiro artista, concluo. Os padrões me são familiares, talvez eu já tenha visto uma de suas obras antes. 

— Se o senhor falar mais baixo, eu posso chamá-lo para vocês conversarem. — ela falou, olhando ao redor da galeria atrás do artista. A expressão de Kaga se clareou. 

— Ah, a tática social de troca de favores! Deveras perspicaz, sim, claro… Bem, chame-o logo, vou reduzir a intensidade de minha voz para 18 decibéis.

A assistente deu um suspiro de alívio e foi atrás do artista que teria de lidar com Kaga. 

Infelizmente, a obra, que ele analisava como um matemático face a uma equação complexa, pertencia ao Geiju. 

O rosto da assistente se iluminou ao encontrar Geiju, e quando falou com ele, sua voz continha pena.

— Bem, o… maluco ali. — ela apontou discretamente para Kaga — Ele quer falar com você.

Geiju amaldiçoou mais uma vez todo o universo, para garantir que a maldição surtiria efeito, e foi em direção ao visitante. 

Kaga estava tão perto da pintura que seu nariz quase tocava na tela. Mas ele se afastou no instante que o conhecido se aproximou.

— Minha triangulação estava certa como de costume. — ele cumprimentou, sorridente. 

— Como? — Geiju estava se referindo a forma como Kaga o encontrou em literalmente outra cidade. 

— Eu comparei alguns dados para determinar quais lugares um artista discreto como você exporia suas obras e isso reduziu minha busca a sete galerias, sendo quatro delas em Buraza. — ele começou, gesticulando ferozmente — Depois disso, fiz uma pesquisa acerca do padrão de pinturas presentes em cada galeria baseada nos padrões de compra de seus respectivos donos! — sua voz voltou a ficar alta, e a assistente lhe lançou um olhar sombrio — E por fim só precisei decidir com uma moeda qual das cidades era mais provável!

Aquilo era extremamente perturbador e preocupante. Geiju estava com os olhos arregalados por trás dos óculos e se afastou um passo de Kaga. O sorriso do cientista aumentou gradativamente e, em seguida, ele começou a rir.

— Eu apenas perguntei a um de seus colegas de clube! — ele continuava rindo — Mas esse experimento determinou que você é capaz de expressar mais emoções além de melancolia e frustração. 

— Céus… — Geiju levou seus dedos até as têmporas e massageou levemente, fechando seus olhos. Era domingo e ele não queria ter que lidar com Kaga em lugares como aquele. 

— Apesar de que eu poderia ter feito tudo aquilo, mas apenas perguntar era muito mais prático… — ele abriu os olhos novamente. — Pois bem, vou comprar esta.

Geiju novamente arregalou os olhos, os desviando de Kaga para a etiqueta, da etiqueta de volta a Kaga. O preço era razoável, e a galeria tinha aumentado ligeiramente o que ele tinha declarado, mas ainda assim…

— Por quê? — parecia a única pergunta a se fazer quando o assunto era Kaga e seus comportamentos estranhos. 

— De início fazia parte de meu plano, mas agora estou honestamente interessado por essa pintura. — ele falou num tom calmo, sincero. — O empecilho financeiro foi facilmente solucionado através de alguns investimentos que fiz recentemente.

Geiju estava mais sem palavras do que de costume. Apenas conseguiu gesticular para que a assistente voltasse e processasse a compra de Kaga. 

Quando o endereço de entrega da pintura estava apropriadamente anotado e o pagamento acertado, Kaga o chamou em um canto.

— Meu futuro assistente-ajudante-lacaio, considerando que meu objetivo aqui foi concluído, se disporia a me acompanhar para comer algo de teor calórico que equivale a 25% do que necessitamos diariamente? — era uma forma estranha de convidar alguém para comer hambúrguer. E Geiju ainda estava sem reação mediante a compra para negar, então acabou o acompanhando.

Apesar de ter que lidar com Kaga divagando sobre teoria das cordas e formas efetivas de incrementar sua renda com as pinturas baseada numa equação que fez num guardanapo. A tarde não foi de todo desagradável. 


 

Quinta-feira, às cinco da tarde, Geiju se encontrava em frente ao clube de ciências. 

Depois de uma semana lidando com nada que não Kaga Kusha, uma súbita paz se instalou e ele não viu o cientista a não ser na sala de aula. 

A sensação de paz, no entanto, só se manteve durante segunda-feira, antes de se transformar em um estranho vazio. 

E o vazio se prolongou nos três dias seguintes em que não foi incomodado por uma visita súbita da Kaga. 

Era surreal. Uma única semana e ele estava sentindo falta da companhia irritante? Era ridículo, mas ele não podia negar. E a única coisa que restava fazer, era ir atrás ele mesmo. 

Bateu na porta, e foi atendido por um garoto com um visor. 

"São todos doidos.", concluiu. Conseguiu espiar dentro do clube e não encontrou o líder em meio aos afazeres dos outros membros.

— Kaga? — perguntou.

— Ele foi embora mais cedo hoje. — o outro respondeu.

Aquilo era suficiente, saiu e voltou para seu clube. 

Estava sentindo falta da voz alta e irritante de Kaga.

 

Ele voltou a ouvir Kaga na sexta-feira. 

Do lado de fora da escola, próximo a cerejeira como na semana anterior, Kaga parecia tão desesperado quanto da vez que acidentalmente contou seu plano de dominação mundial. 

Ele tinha o puxado para um canto e, com uma voz de pura derrota, começou a falar.

— Meu cérebro está fazendo minhas amígdalas liberarem endorfinas, oxitocina e dopamina neste exato instante que falo com você. — ergueu uma sobrancelha, sem compreender — O experimento n° 136 foi uma falha. O processo de cortejá-lo até se tornar meu ajudante fez meu cérebro processar tudo de forma confusa e agora minhas amígdalas estão produzindo endorfinas!

Da forma que ele falou, era como se tivesse acabado de explicar o apocalipse, mas Geiju continuava sem entender. Mas não estava disposto a traduzir as loucuras de Kaga, só queria dizer logo que…

— Senti… sua falta. — admitiu, referenciando os dias que não teve a companhia não-requisitada de Kaga. E pela primeira vez em duas semanas, Kaga ficou sem palavras. — É estranho… 

— Saudade. O mal-estar causado pela ausência de neurotransmissores que te fazem se sentir bem quando acompanhado de determinada pessoa. Isso não faz sentido… — agora, ele começou a murmurar consigo mesmo. — Esse seria o resultado esperado caso o experimento fosse bem sucedido, mas considerando meu estado, o experimento foi uma completa falha.

Saudade… Geiju queria pintar aquilo. 

Seria a primeira pintura na semana cujo tema não seria Kaga, embora ainda o envolvesse. 

O garoto continuava brigando consigo mesmo, falando sobre cálculos e incógnitas, mas Geiju estava ocupado demais pensando sozinho.

Por que ele estava sentindo falta de alguém tão irritante, tão excêntrico, tão inteligente, tão inspirador? 

Por que ele tinha pintado tantas vezes aquela mesma pessoa? 

Por que, apesar de se sentir incomodado, também se sentia bem? 

"Céus…" 

Ele sabia o que era aquilo que sentia.

— Eu estou liberando endorfinas. — ele interrompeu sem delongas. — Também.

— Então… o experimento… — o rosto dele inteiro clareou, os olhos brilharam numa expressão de "eureka" — Haviam dois resultados de sucesso, eu não considerei isso. Então, será meu ajudante?

— Não. 

— Aliado?

— Não. 

— Lacaio? 

— Não. 

— Certo, eu não esperava ter que pedir isso, mas… Braço-direito? — Geiju pensou um pouco e depois riu. 

— Sim. — Kaga voltou a sorrir. 

— Meu caro braço-direito, gostaria de compartilhar um jantar?

Geiju concordou e abandonou uma pintura inacabada para poder acompanhar Kaga. 

Talvez ele teria de lidar com aquela voz irritante por mais tempo. 


 


Notas Finais


Kissus~


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