História Fábulas da Meia-Noite - Capítulo 2


Escrita por: ~

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Categorias A Bela Adormecida, A Bela e a Fera, A Pequena Sereia, A Rainha da Neve, Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho, Cinderela, Drácula, João e Maria, Rapunzel
Personagens Bela (Belle), Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho, Fera, João, Lobo Mau, Maria, O Caçador, Personagens Originais, Príncipe, Rainha (Bruxa), Vovó (Granny)
Tags Bela Adormecida, Branca De Neve, Bruxa, Chapeuzinho Vermelho, Cinderela, Contos De Fadas, Era Uma Vez, Fábulas, Histórias, João, Lobisomem, Lobo Mau, Maria, Vampiro
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Palavras 5.154
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Crossover, Drama (Tragédia), Ecchi, Fantasia, Magia, Misticismo, Romance e Novela, Sobrenatural, Suspense, Terror e Horror, Violência
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Quando a hora chegar, quem estará ao seu lado?
Em quem você poderá confiar?
Escolha com sabedoria, pois não haverá uma segunda chance...

Capítulo 2 - A Donzela e o Lobo (parte 2)


Fanfic / Fanfiction Fábulas da Meia-Noite - Capítulo 2 - A Donzela e o Lobo (parte 2)

" - Não confie nos homens! São criaturas perversas e maliciosas. Se estiver sozinha e se deparar com um homem, fuja ou esconda-se!"

   " - Mas Mamãe, Jean e Louie são homens, não são?"

   " - Bem, sim eles são... mas..."

   " - E eles não são perversos, não é?"

   " - C-claro que não são, mas..."

   " - Então, nem todos os homens são perversos! Jean e Louie são bons, então..."

   " - SIM, SIM, ELES SÃO BONS!!! SÃO MEUS FILHOS E SÃO BONS!!! MAS OS OUTROS HOMENS NÃO SÃO!!! NUNCA SE ESQUEÇA DISSO, OUVIU BEM???"


   Os gritos de sua mãe e a violência com que ela lhe sacudia ao dizer aquelas palavras a assustaram. Mesmo depois de abrir os olhos, Marie demorou um pouco a perceber que estivera sonhando.

   Confusa no início, percebeu que o que via acima dela não era o teto de seu quarto. Havia o céu noturno com poucas estrelas e uma lua parcialmente escondida pelas árvores. Sentiu a maciez do cobertor que a cobria, perguntando-se de onde ele tinha surgido. Sentiu a pressão das ataduras improvisadas que lhe cobriam os arranhões de seus braços e o ferimento em sua testa e se perguntou quem poderia ter feito aqueles curativos. Sentiu calor ao seu lado e, virando-se, viu uma fogueira crepitando. Quando seus olhos acostumaram-se com a luz do fogo, percebeu que havia seis pares de olhos encarando-a do outro lado da fogueira.

   Em pânico, tentou levantar-se, mas sentiu tonturas e só conseguiu se apoiar de lado sobre um braço. Impassíveis, os seis lobos, sentados simetricamente lado a lado, continuavam encarando-a. Pareciam uma matilha adestrada, completamente imóveis, a lhe vigiar.

   "Meu Deus, ainda estou sonhando, só pode ser isso!" - pensou ela. Percebeu, então, que ela estava na floresta. Sozinha. À noite.

   Não se atrevia a se mover, temendo que a qualquer momento os animais saltassem sobre a fogueira e caíssem sobre ela, devorando-a. Não sabia dizer quanto tempo havia durado essa estranha cena, com ela imóvel e os lobos a vigiando, quando os animais, repentinamente, desviaram o olhar para além da pequena clareira, como se algo que só eles pudessem ver ou ouvir, tivesse chamado sua atenção.

   Demorou um pouco para que Marie, com ouvidos menos sensíveis do que os lobos, escutasse os passos que se aproximavam. Seu coração se acelerou como se quisesse explodir quando as lembranças do que sofrera há pouco voltaram com toda a força, fazendo-a crer que aquele homem horrível havia sobrevivido e, agora, voltava para terminar o que havia começado.

   Ela sabia que, no estado em que se encontrava, não conseguiria fugir. Esquecendo a tontura e a dor, bem como seu medo pelos lobos, agarrou uma pedra próxima à ela e colocou-se de pé num salto, pronto para enfrentá-lo. Esperou, com a respiração ofegante, sua mão apertando tanto a pedra que chegava a lhe doer os dedos, enquanto os passos pareciam cada vez mais próximos. Quando ele finalmente apareceu, sua figura iluminada pela luz da fogueira foi como um choque de surpresa e de alívio. Aquele não era, definitivamente, o "monstro" que quase a estuprara.

   O rapaz, que aparentava ser pouco mais velho do que ela, tinha uma aparência selvagem, com longos cabelos negros que lhe caíam pelos ombros. Usava somente uma simples calça, rústica e feita da pele de algum animal, talvez de um cervo por sua cor. Seu tronco era largo e seus braços morenos, carregados de feixes de lenha, eram fortes. Os olhos que a encaravam intensamente eram de uma cor estranha que Marie não sabia definir, fosse pela distância em que estavam um do outro, fosse pela luz da fogueira que se refletia em suas pupilas. Ignorando pedras e pequenos galhos caídos que poderiam ferir pés mais sensíveis, o exótico rapaz estava descalço. 

   Por alguns instantes, que pareceram uma eternidade, os dois continuaram se encarando, sem ousarem se mexer. Marie, ofegante, parecendo pronta a atacá-lo a qualquer momento, e ele, com a boca e os olhos bem abertos numa expressão muda de espanto. Finalmente, como se despertasse repentinamente de um transe, o rapaz virou o rosto para o lado, fugindo do seu olhar.

   Marie julgou que sua atitude havia conseguido intimidar aquele estranho e sentiu-se mais corajosa.

   - Q-QUEM É VOCÊ? COMO EU VIM PARAR AQUI??? - perguntou ela, aos gritos.

   Ainda desviando o olhar, o rapaz não respondeu, parecendo estar constrangido com alguma coisa. Ao invés disso, colocou o feixe de lenhas no chão e aproximou-se, deixando Marie apreensiva.

   - NÃO SE APROXIME!!! - berrou ela, já erguendo a pedra para atirar contra ele.

   - Por favor, acalme-se! - pediu o rapaz, virando-se de costas para ela. Ele estendeu a mão até o chão e, sem se virar, ofereceu à ela o cobertor de peles - Eu prometo que responderei a todas as suas perguntas, mas antes... Por favor, vista isso!

   Só então, Marie percebeu a real situação em que se encontrava: estava completamente nua diante de um estranho.

   Com um grito tão estridente que poderia ser ouvido em todos os cinco reinos, Marie agarrou o cobertor e se encolheu no chão, chorando de vergonha. Os lobos, acompanhando seu escândalo, uivavam de uma forma estranha, parecendo estar rindo daquela situação esdrúxula.

   - Oh, m-meu Deus... Eu quero morrer! EU QUERO MORRER!!!! - chorava ela. O rapaz, parecendo tão encabulado quanto ela, tentava confortá-la.

   - Olhe, moça... Não precisa ter vergonha, eu juro que não vi nada e...

   - CALE A BOCA!!!! FIQUE LONGE DE MIM, SEU TARADO!!!! 

   Os lobos uivaram mais forte, numa atitude tão estranha que pareciam, nitidamente, estar gargalhando.

   - Parem com isso!!!! - disse o rapaz, virando-se para os lobos com uma expressão zangada. Como por encanto os animais aquietaram-se, deixando Marie boquiaberta.

   O rapaz e os lobos continuaram se encarando durante algum tempo. Então, como se obedecessem a um comando inaudível, viraram-se e sumiram floresta adentro, para assombro de Marie.

   Ela tremia de ansiedade e vergonha. O rapaz aproximou-se e ela se encolheu ainda mais, fazendo com que ele hesitasse. Lentamente ele se abaixou e sentou no chão, à uma distância que julgou que não iria assustar tanto a moça já fragilizada por aquela situação.

   - Os lobos... mas como... c-como você....

   - Por favor, se acalme. Não precisa ter medo dos lobos, eles não farão mal à você. Também não precisa me temer, eu só quero ajudá-la.

   - Você... é um homem... - disse ela, mais para si mesma do que para ele.

   - É claro que sou um homem! - disse o rapaz, surpreso - Nunca havia visto um antes?

   - Não posso confiar nos homens... não posso...  devo fugir... d-devo me esconder... mamãe vai ficar zangada... zangada... - murmurava ela, trêmula e confusa.

   - Moça, por favor... Moça? Está me ouvindo?

   Encolhida sob o cobertor, Marie parecia não ouvir nada, apenas murmurava coisas que não faziam o menor sentido para ele. Vendo que ela não saía daquele estado patético por mais que ele tentasse acalmá-la, ele decidiu que teria que ser mais incisivo.

   - Ei, você! OLHE PARA MIM! - disse ele, segurando-a pelos ombros.

   Marie, parecendo acordar, obedeceu. Agora ele estava tão próximo que ela podia até sentir sua respiração sobre seu rosto. Podia ver de perto a estranha cor daqueles olhos. Podia sentir seu cheiro, almiscarado e herbáceo como o cheiro da floresta. Um homem estava diante dela, tocando-a. Medo, confusão, surpresa, tudo era um caos na sua mente naquele momento. Não conseguia fugir ou gritar, apenas ficou ali sem nem mesmo conseguir desviar o olhar daquele rosto que a encarava, paralisada pela autoridade daquela voz e pelas mãos fortes que a seguravam.

   - Você está segura. Repita! - ordenou ele.

   - E-eu... eu estou segura.

   - Não vou lhe fazer nenhum mal.

   - Você não vai... me fazer mal.

   - Nem todos os homens são maus, sabia? - disse ele, soltando-a.

   Sim, seus irmãos não eram maus. Mas eles eram os únicos homens que já havia conhecido. Além deles, só havia conhecido o "monstro" bêbado, fétido e medonho com o qual teria pesadelos pelo resto da vida.

   - Como posso saber se isso é verdade? O único homem que eu já cheguei perto, fora os meus irmãos, tentou me estuprar! - disse ela, tentando esconder a raiva em sua voz.

   - Aquilo lá não era um homem, acredite... - disse ele, com evidente desprezo na voz - Não julgue todos os outros pelo exemplo dele. 

   - Como posso saber que você não é como ele?

   - Avalie a situação e julgue por si mesma. Eu tentei fazer algum mal à você? Eu pareço de alguma forma com aquele desgraçado que te machucou? - disse ele, sentindo-se ofendido.

   Marie sabia que se ele quisesse lhe fazer alguma coisa, já teria feito. Afinal, ela estava ferida e seria uma presa fácil. Mesmo assim, a traumática experiência ainda estava muito nítida em sua mente para que ela pudesse confiar tão facilmente outra vez em um homem.

   - Olhe, sei que deve estar confusa e deve ter um monte de perguntas - disse o rapaz, com delicadeza - Mas procure ficar calma e não tente se levantar, você ainda deve estar sentindo os ferimentos.

   Ela ainda se sentia um pouco tonta, mas a dor de cabeça já havia passado. E ele tinha razão: havia perguntas a fazer.

   - Tudo bem, então. Primeira pergunta: Por que eu estou nua? - questionou ela, olhando-o em desafio.

   O rapaz abriu a boca para falar mas as palavras simplesmente não saíam. Ele ficou alguns instantes com aquela expressão desamparada, aparentemente não esperando aquela pergunta repentina.

   - Nossa, tanta coisa para perguntar e é essa a primeira coisa que você quer saber? - disse ele, encabulado.

   - Se você é tão confiável como diz, responda honestamente! - insistiu ela.

   - Bem, na verdade quando eu te encontrei você já estava praticamente nua. Suas roupas estavam rasgadas e molhadas. A única coisa que deu para salvar foi esta capa vermelha - disse ele, apontando para a capa que estava secando sobre um galho próximo à fogueira - Do que sobrou das suas roupas eu fiz as ataduras que estão cobrindo seus ferimentos.

   Surpresa, Marie olhou mais uma vez para os curativos em seus braços.

   - Então... foi você? Você fez estes curativos?

   - Não sou médico, mas conheço algumas ervas boas para tratar arranhões e galos na cabeça - disse ele, com um sorriso discreto.

   Marie sentia-se estranha, de uma maneira que ela mesma não sabia definir. Não estava acostumada a ser cuidada por ninguém. Ao contrário, ela é que estava acostumada a cuidar de seus irmãos e, frequentemente, de sua mãe. Num mesmo dia, quase havia sido morta por um homem e salva por outro. Dois homens, duas criaturas "míticas" até então, pelo menos para ela, com preconceitos alimentados dia a dia por sua mãe. Duas criaturas tão diferentes uma da outra, tanto em aparência quanto em atitude, que ela sentia-se completamente perdida. O homem que a havia machucado era feio, perverso e repugnante. O homem que a salvara mostrava-se gentil, atencioso e, por mais que relutasse em admitir, incrivelmente belo. Não uma beleza delicada como a de seus irmãos, mas uma beleza selvagem, misteriosa e cativante.

   "Não, não, não!!! Não abaixe a sua guarda! Ele é um homem! Mamãe não pode estar errada... não é?" - pensava ela, tentando se recompor.

   - O que aconteceu, afinal? - perguntou ela, atropelando as palavras - Como foi que aquele lobo não me matou? E você, como foi que...

   - Espere, espere... Calma! - pediu ele, interrompendo a torrente de perguntas - Antes de mais nada, deixe-me fazer a pergunta essencial... Aquela que você já deveria ter feito e ainda não fez.

   - Como assim? Que pergunta? - disse ela, confusa.

   - Qual é o seu nome? - perguntou ele.

   Marie sentiu o rosto corar de vergonha.

   - Desculpe-me. Eu me chamo Marie.

   - Muito prazer, Srta. Marie. Eu me chamo Remy - disse ele, com uma pequena mesura.

   - Remy... - repetiu ela - Desculpe-me pelo meu afobamento. Mas eu preciso saber: o que aconteceu, afinal?

   - Eu encontrei você próxima ao riacho. Você havia desmaiado, provavelmente por causa do ferimento na cabeça, então eu a trouxe para esta clareira onde tratei dos seus ferimentos. Como suas roupas estavam molhadas, tive que despi-la para conseguir aquecê-la, mas juro-lhe que fiz isso da forma mais respeitosa possível - disse ele, tentando mostrar o máximo de segurança em sua voz.

   Marie sentiu o rosto corar mais uma vez: não apenas uma, mas duas vezes aquele rapaz estranho à havia visto completamente nua. Percebendo o constrangimento dela, ele apanhou um pequeno embrulho que estava junto ao feixe de lenhas e o ofereceu à Marie.

   - Tome, vista isso. Não é nenhum vestido de baile, mas vai servir para manter sua dignidade.

   Marie abriu o embrulho e viu que se tratava de uma espécie de túnica sem mangas, com amarras de couro improvisadas no lugar das costuras. Ele se sentou de costas para ela, demonstrando que queria lhe dar privacidade. Mesmo sabendo que ele já a havia visto nua, aquele gesto de cortesia vindo de alguém com uma aparência tão selvagem, deixou-a um pouco mais à vontade. Ela se vestiu rapidamente e surpreendeu-se com aquela roupa que, apesar de rústica e improvisada, caiu perfeitamente bem.

   - Tudo bem, já pode se virar - disse ela.

   Ele se virou e seus olhos demoraram talvez um pouco demais sobre ela enquanto ele examinava a vestimenta. Envergonhada, ela já estava prestes a protestar quando ele mais uma vez a surpreendeu com suas palavras.

   - Desculpe-me, eu fiz essa roupa às pressas mas acho que acabou ficando meio curta...

   "Ele fez essa roupa???" - pensou ela, admirada com sua habilidade.

   - T-tudo, bem... não falemos mais sobre isso! - disse ela, encabulada - Mas e quanto ao lobo? E aquele homem que me atacou, ele morreu?

   - Bem... não havia nenhum lobo quando eu te encontrei. Quanto ao caçador, eu deixei ele lá mesmo onde estava, mas ele está vivo, posso garantir. Não que eu não tenha ficado tentado a acabar de vez com aquela praga... - disse ele, murmurando a última frase.

   - Caçador? - perguntou ela.

   - Sim - disse ele - Aquele demônio em forma humana é um caçador. Um bêbado desgraçado que mata qualquer animal que cruzar seu caminho.

   - Você parece já conhecê-lo...

   - Sim, já tive o desprazer de cruzar com ele algumas vezes. Esse maldito costuma esfolar os animais que apanha ainda vivos, só por maldade, deixando-os agonizando na floresta. Ele não caça por fome ou para sobreviver, ele caça somente para pagar pelo vinho que ele consome o dia inteiro - disse Remy, com os olhos faiscando de raiva e desprezo.

   - Esfola-os vivos... - murmurou Marie, horrorizada - Meu Deus, por que eu não o ignorei? Por que eu simplesmente não segui meu caminho??? - perguntava-se ela, com lágrimas nos olhos.

   - Por que você é uma boa pessoa - disse Remy, se aproximando - É ingênua, mas tem um bom coração.

   - O-o que está fazendo? - perguntou ela desconfiada, enquanto Remy tocava sua testa.

   - Calma... só quero ver seu ferimento.

   Delicadamente ele começou a tirar a atadura em sua cabeça. Ela permaneceu imóvel, sem coragem de olhar em seus olhos. Ao invés disso, ela se demorou olhando para o tórax desnudo que estava bem na frente de seus olhos. Demorou-se em cada contorno muscular, em cada pêlo, em cada detalhe... Quase sem perceber, inspirou profundamente tentando reter o cheiro diferente e agradável que vinha de sua pele.

   Remy percebeu o gesto.

   - Está tudo bem? - perguntou ele, surpreso.

   - S-sim, tudo bem, t-tudo bem mesmo... - gaguejou ela, desviando o olhar.

   "Mas o que diabos está acontecendo comigo? O que estou fazendo???" - pensou ela, confusa.

   - Ainda está um pouco inchado, mas já está com uma aparência bem melhor. Você teve muita sorte - disse ele, examinando o galo em sua testa.

   - Sorte? Quase ser violentada e morta pode ser chamado de sorte???

   - Você está viva, não está?

   - Sim, graças à você - ela disse automaticamente, e só depois de ver o sorriso no rosto dele foi que ela percebeu o que havia dito. Ela virou o rosto para que ele não a visse corar novamente, mas ele segurou seu queixo delicadamente, fazendo-a olhar para ele.

   - Não há de quê, Marie.

   As reações de Marie pareciam diverti-lo. Ela tentava arduamente se lembrar dos conselhos de sua mãe, mas a proximidade dele provocava um turbilhão de emoções desconhecidas à ela.

   - V-você... Você não sente frio? - perguntou ela, puxando ainda mais o cobertor de peles sobre os ombros enquanto ele permanecia o tempo todo com o tórax à mostra.

   - Bem, digamos que eu já estou acostumado ao clima da floresta. Além disso, acho roupas em geral um tanto quanto incômodas. Mas se acha que estou muito à vontade na sua frente eu posso vestir uma camisa e...

   - Não, não... Não precisa! - apressou-se ela em dizer. Mais uma vez as palavras saíram da sua boca sem que ela as medisse, fazendo-a querer se enterrar no chão de vergonha. Remy, por seu lado, tentava arduamente não rir.

   - Sinto muito se a constranjo, Marie. Acho que já vivo há muito tempo nesta floresta e estou desacostumado a me comportar na frente de damas.

   - Você vive na floresta? - perguntou ela, surpresa.

   - Sim, a floresta é o meu lar. Tenho tudo o que preciso aqui: comida, abrigo e paz.

   - Mas, não é perigoso? Digo, já é noite... e ninguém que entra na floresta à noite sai dela vivo - disse ela, repetindo a mesma frase que ela ouvira de sua mãe a vida inteira.

   - Eu e você ainda estamos vivos, não estamos? - ironizou ele - Sim, Marie... a floresta tem perigos. Há muitas criaturas que vivem aqui e algumas delas podem ser perigosas. E é à noite que as mais perigosas se alimentam. Mas você está segura comigo, não se preocupe.

   - Remy, quem é você afinal? - perguntou ela, de forma absolutamente natural.

   Remy, apesar de demorar um pouco a responder, não pareceu surpreso com a pergunta.

   - Sou apenas uma das muitas criaturas que vivem aqui, nada mais. Durmo sob as árvores, caço quando tenho fome e...

   - Você também é caçador? - perguntou ela, parecendo horrorizada.

   - Não, Marie. Digamos que sou uma espécie de zelador da floresta. Não caço como profissão, caço apenas para comer - disse ele, tranquilizando-a.

   - E quanto aos lobos que estavam me vigiando? Como consegue dominá-los daquele jeito?

   - Não confunda as coisas, Marie. Eles não estavam me obedecendo porque não ordenei a eles que fizessem nada. Eu apenas pedi e eles me atenderam.

   - Você fala como se eles pudessem te entender - disse ela, intrigada.

   - Mas nós nos entendemos! - confirmou ele, deixando-a ainda mais confusa - Eles são meus amigos e são como... irmãos para mim. Tudo o que fiz foi pedir a eles que cuidassem de uma moça doente enquanto eu buscava lenha.

   Quando Remy disse a palavra "doente", uma lembrança veio subitamente à tona na mente de Marie.

   - Oh, meu Deus! Vovó!!! Como pude me esquecer? - disse ela, levantando-se apressadamente.

   - Ei, espere! Onde pensa que está indo a esta hora e neste estado? - perguntou Remy, tentando detê-la.

   - Minha avó, eu preciso chegar até a casa dela! Ela está doente e estava esperando que eu levasse... Oh, não! - disse ela, caindo em si - Eu perdi!

   - Perdeu, o quê? - perguntou Remy, confuso.

   - A cesta. A cesta com as ervas e a comida da vovó! Oh, minha mãe vai me matar! - lamentou-se ela.

   - Sinto muito, Marie. Então era por isso que você estava cruzando a floresta sozinha? Estava indo encontrar sua avó?

   - Sim, ela está doente e precisava daquelas ervas medicinais. Mesmo assim, preciso ir! - disse ela, decidida.

   - Marie, espere! - disse Remy, tentando detê-la - Não pode andar pela floresta à noite! Além do mais, como vai encontrar o caminho?

   - Eu só preciso achar a trilha. A trilha dos carvalhos...

   - Ouça, a trilha não está longe daqui, ela fica próxima ao riacho. Mas se esperar amanhecer, eu acompanho você!

   Mas Marie estava decidida, esquecendo-se de que era noite e que ela nem mesmo sabia exatamente onde estava. Ela apanhou a capa estendida sobre o galho, mas quando a puxou para si algo negro e enorme saiu voando de dentro da capa, quase fazendo com que seu coração parasse.

   - AAAAHHHH!!! O QUE É ISSO???? - gritou ela, pulando sobre Remy.

   - Calma! - disse ele, amparando-a - Relaxe, era apenas um morcego.

   De olhos fechados, Marie tentava respirar mais devagar para normalizar seus batimentos cardíacos, enquanto Remy afagava sua cabeça, tentando tranquilizá-la. Quando ela finalmente ousou abrir os olhos, seu coração voltou a se acelerar. Mas, desta vez, não era por causa do medo.

   Estava abraçada a ele, com o rosto afundado em seu peito. O cheiro de sua pele, agora tão próxima, era quase inebriante. Os braços a envolviam fortemente, mas de uma maneira incrivelmente reconfortante. Sentia a respiração dele sobre sua cabeça e a mão que afagava delicadamente seus cabelos. Mesmo sob o frio da noite e com o peito nú, sua pele era quente. Era uma sensação de segurança tão profunda que ela sentiu sua mente se esvaziar, esquecendo-se do mundo à sua volta.

   - Sente-se melhor? - sussurrou ele.

   - Sim... - murmurou ela, sem ousar levantar o rosto.

   - Quer que eu a solte?

   Marie não sabia o que responder. Ela olhou para cima e seus olhos encontraram os dele. Sua mãe não podia estar certa... Não era possível que uma criatura tão bonita e gentil como aquela pudesse ser perversa e maliciosa. Nada a havia preparado para as sensações estranhas que percorriam seu corpo e sua mente naquele momento. Desejava que aquela sensação de conforto e segurança durasse para sempre. Mas, apesar dele ter perguntado, na verdade era ela quem o estava segurando, então ela o soltou.

   Alguns segundos de silêncio constrangedor se passaram até que Remy finalmente falasse.

   - Ouça, eu disse que você estaria segura comigo e é verdade. Mas a floresta não é um lugar que deve ser subestimado, seja durante o dia ou seja à noite. Há criaturas ao nosso redor, Marie. Criaturas que poderiam feri-la...

   - Sim, eu sei. Mas é que... minha avó...

   - Já é alta madrugada, o dia não vai demorar a chegar. Quando amanhecer será mais seguro para você e eu te levarei para fora da floresta.

   - Não, Remy. Fora da floresta, não. A minha avó mora aqui, dentro da floresta.

   Remy franziu o cenho, como se Marie tivesse dito algo completamente absurdo.

   - Está me dizendo que sua avó mora dentro da floresta?

   - Sim, Remy, é isso mesmo. Eu sei que parece até crueldade uma senhora idosa viver sozinha num lugar tão perigoso, mas não há nada que eu possa fazer. Eu já disse a ela para vir morar comigo, minha mãe e meus irmãos, mas ela é teimosa! Não posso simplesmente tirá-la de sua casa à força.

   - Uma casa? Dentro da floresta??? - perguntou Remy, parecendo cada vez mais interessado.

   - Sim, é claro. A casa de minha avó! - disse ela, sem entender.

   A expressão de Remy, antes serena, agora parecia mais grave.

   - Marie, diga-me: onde exatamente é a casa de sua avó?

   - No final da trilha dos carvalhos, próxima ao grande lago.

   O rosto de Remy pareceu se transformar, assustando-a. Instintivamente ela deu um passo para trás, mas ele segurou-a pelos ombros, não de uma forma delicada como antes fizera, mas com uma força que chegava a machucá-la.

   - Marie, escute-me: você deve ficar aqui!

   - Remy, o que está dizendo? Você... está me machucando! - disse ela, tentando se soltar.

   - MARIE, VOCÊ NÃO IRÁ!!! NÃO POSSO PERMITIR!!!

   Todo o encanto e todas as sensações agradáveis se foram, enquanto lembranças sombrias, dolorosas e terríveis emergiram como um monstro saindo do lodo na mente de Marie. Não era mais o rapaz bonito e gentil que estava à sua frente: era o caçador, o monstro enorme repulsivo e perverso que tentara lhe deflorar.

   - NÃÃÃOOO!!!! ME SOLTE!!! - gritava desesperada, tentando se livrar. Mas ela não era páreo para a força de Remy.

   Então, ao invés de tentar fugir, ela partiu para cima dele. Ajudada pela inércia, ela se impulsionou com toda a força para cima de Remy e o empurrou para trás. Não esperando por isso, ele se desequilibrou e caiu de costas em cima da fogueira.

   Uma nuvem de cinzas e fagulhas em brasa foi lançada para o alto, e o grito de dor de Remy reverberava em seus ouvidos enquanto Marie corria floresta adentro.

   " São todos iguais... todos perversos... todos monstros!!!!" - pensava ela enquanto corria, cega pela escuridão e pelas lágrimas.

   Tudo o que ela via à sua frente eram sombras com a forma de árvores, das quais tentava se desviar. Correu às cegas, durante o que pareceu uma eternidade, até que sentiu água espirrando sob seus pés. Ela parou, ofegante, e deixou os olhos acostumarem-se com a escuridão.

   Tendo apenas uma lua de fim de madrugada para fornecer alguma luz, ela viu que havia chegado ao riacho. Andou pela margem, seguindo a corrente, até encontrar novamente a trilha. Assim que a encontrou ela escutou os uivos.

   Buscando forças que já não tinha ela correu pela trilha, desesperada para alcançar a segurança da casa de sua avó, enquanto os uivos pareciam cada vez mais perto.


***
 

   - VOVÓ!!!! VOVÓ, ABRA A PORTA!!!! DEPRESSA!!!! - gritava ela, exausta, batendo desesperadamente.

   Os uivos pareciam tão próximos que ela temia olhar para trás e ver os lobos em cima dela. Mas a porta finalmente se abriu e uma senhora trajando camisola surgiu.

   - Ora... entre! Entre, minha querida! - disse a mulher, puxando Marie para dentro.

   - T-tranque... Tranque... a porta - pediu Marie, ofegante.

   A velha senhora trancou a porta, guardando a chave, além de passar uma pesada barra de madeira nos apoios dos batentes. Então, tomou Marie pelas mãos e a conduziu para sua cama onde ela desabou, vencida pelo cansaço.

   - Minha querida, você está machucada! E essa roupa que está usando... O que aconteceu? - questionou a velha, oferecendo-lhe um copo de água enquanto sentava-se ao seu lado.

   Marie esperou um pouco até sua respiração se normalizar antes de começar a falar.

   - Lobos... lobos me perseguindo! T-tudo o que eu pude fazer foi correr para cá e...

   - Calma, querida... Você está segura, agora. Mas eu a esperei ontem durante um longo tempo... - disse a velha, com um sorriso acolhedor, enquanto lhe afagava os cabelos.

   - Desculpe-me, vovó! Eu estava lhe trazendo ervas e outras coisas que mamãe preparou, mas então... e-então...

   Ela começou a chorar, lembrando-se do que havia acontecido. Pacientemente, a velha senhora esperou que ela se acalmasse.

   - Conte-me tudo, querida. Não tenha pressa.

   Com dificuldade, Marie narrou os acontecimentos do dia anterior: a floresta, o encontro com o caçador, o ataque sofrido... 

   De repente, o olhar de sua avó mudou completamente. Ela segurou o rosto da moça entre as mãos, com um olhar que Marie não sabia dizer se era de raiva ou de aflição.

   - ELE A TOCOU? ??? ELE... POR ACASO ELE... 

   - Não, vovó, acalme-se! Ele não chegou a fazer nada comigo! - disse a moça, surpresa com a reação exagerada da avó. As mãos frias da mulher continuavam apertando seu rosto, dando uma sensação extremamente desagradável à Marie.

   - Tem certeza? Tem certeza de que ainda é virgem??? - insistiu a mulher, com um olhar que exprimia tanto ódio que Marie chegou a ficar assustada.

   - T-tenho, vovó! Tenho certeza!

   A mulher se levantou, com um suspiro de alívio. Ela agora sorria, parecendo alheia à aflição da neta.

   Marie estranhava a atitude da avó. Ela não parecia estar doente.

   - Vovó... a senhora está bem?

   - Oh, sim, minha querida! Estou ótima... Na verdade, não poderia estar melhor!

   - Hã... que bom! - disse a neta, sentindo-se cada vez mais desconfortável - Pensei que a senhora estivesse doente.

   - Ah, querida, não se engane... Eu realmente estou doente - disse a mulher, sentando-se ao lado dela na cama.

   A mulher segurou as mãos de Marie entre as suas enquanto a encarava. Longe de ser um gesto reconfortante, Marie sentiu calafrios com o toque incrivelmente gélido daquelas mãos.

   - Eu tenho uma doença, querida. Basta olhar para meu rosto e você verá como estou doente. Veja só as rugas, os cabelos brancos e cada vez mais ralos... Veja só como estou velha!

   Marie olhava para a avó como se não a reconhecesse. Parecia-lhe que a velha senhora estava mostrando sinais de senilidade.

   - A minha doença se chama velhice, meu bem! Uma doença que não poupa ninguém... Mas, no meu caso, existe um remédio para esse mal.

   A mão da mulher foi até o rosto de Marie, acariciando-lhe a pele.

   - Olhe só para você! Tão jovem, tão radiante... tão bela!

   Marie sentia que, definitivamente, algo estava errado com sua avó. Era como se fosse outra pessoa na sua frente. Lembrava-se da avó como uma mulher bonita apesar da idade, sempre carinhosa a lhe mimar. Agora, parecia que a mulher não estava realmente elogiando sua beleza, mas sim invejando-a.

   Incomodada com o contato físico, Marie tentou se desvencilhar de uma forma sutil.

   - Nossa, vovó... mas que unhas enormes!

   - São para melhor lhe acariciar, meu bem...

   As unhas realmente estavam enormes, quase como garras. Mas não era só isso... Várias coisas pareciam diferentes na mulher.

   - Vovó, os seus olhos... Eles parecem diferentes... vermelhos!

   - São para melhor lhe admirar, meu bem... - disse a mulher, colocando a mão de Marie em seu próprio rosto.

   O que antes era apenas desconforto, agora estava se transformando em medo. Aquilo não fazia o menor sentido, mas Marie tinha a certeza de que a fisionomia de sua avó estava mudando. Os olhos estavam nitidamente vermelhos. Tão vermelhos como o sangue!

   - Vovó... o seu rosto...

   - Algo errado com meu velho rosto, minha querida? - disse a mulher, sorrindo de maneira forçada. E neste sorriso Marie viu a morte.

   - V-vovó! Seus dentes!!!!

   - São para melhor lhe saborear, minha querida!

   E num gesto inesperado, a mulher cravou as enormes presas no pulso de Marie.

   Aterrorizada, Marie gritou, puxando a mão das presas que a feriam. Ela caiu da cama e recuou para o canto do quarto, totalmente pasma e acuada.

   A mulher parecia em êxtase, suspirando como se houvesse provado do mais sagrado néctar.

   - Oh, como é bom... como é puro!!! Valeu a pena esperar todos esses anos... Agora, finalmente, é hora da colheita!

 

(continua)

 


Notas Finais


Em quem você poderá confiar?

^w^

Obrigado por ler!


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