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História Fachada? - PARTE I - Dramione - Capítulo 19


Escrita por:


Notas do Autor


Notas iniciais:
"Seria este motivo de uma associação entre o título e algo que as duas únicas pessoas dentro daquela sala estariam realmente escondendo?
O que Draco tinha para esconder não era um objeto. Ele não precisava disso. Mas seu peito precisava, necessitava, esconder algo que crescia constantemente e que agora não podia mais abafar. Seria dramático demais? Suspeito demais? Louco demais?"
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Oi oi meus amores! Como prometido, aqui vai a continuação que faria em breve. Promessa é dívida com certeza!
Espero que gostem, obrigada pelos comentários de incentivo e pelo carinho <3

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I've always been the one to say the first goodbye

Had to love and lose a hundred million times

Had to get it wrong to know just what I like

Now I'm falling

You say my name like I have never heard before

I'm indecisive, but, this time, I know for sure

I hope I'm not the only one that feels it all

Are you falling? [...] -Break My Heart - Dua Lipa.
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Capítulo 19 - Room Of Hidden Things


Fanfic / Fanfiction Fachada? - PARTE I - Dramione - Capítulo 19 - Room Of Hidden Things

 

Hermione andava à sua frente, um pouco afastada. Ele não conseguia ultrapassar a soleira da porta, talvez por não conseguir se lembrar de como usar mais as pernas. Seus olhos estavam fixados, pasmos, em surpresa claramente incontestável. Diante dele tinha acontecido um “milagre”...

Mágica!

Como ele podia estar tão bestificado com algo que lhe era diário? Quer dizer, diário no sentido USUAL; mágica, livros mágicos, bruxos voando em vassouras... Mas aquela sala havia simplesmente aparecido em uma parede!

-Você não vem? –ouviu a morena indagar, enquanto o esperava já dentro da sala. Ele engoliu em seco, encarando-a. Não podia ousar... não ousaria.

Ela ergueu uma das mãos e o puxou pela blusa, trazendo-o para dentro. Ela sorria. Era um sorriso vitorioso e ao mesmo tempo satisfeito... Talvez estivesse achando engraçado vê-lo tão embasbacado.

Mas isso não surpreendia a Draco. Se a sala tinha aparecido do nada, só com a força do pensamento e magicamente, então o que tinha dentro dela era mil vezes mais surpreendente; seus olhos não conseguiam se fixar em uma coisa específica, pois ela estava cheia das coisas mais inimagináveis que uma sala secreta teria. Quer dizer, para aquele momento que eles a necessitavam.

A sala se assemelhava à sala de poções, mas era mais aconchegante. Tinha bancadas dispostas e, em cima delas, haviam caldeirões, prontos para uso. Não conseguiu enxergar mais nada em cima das bancadas por conta da distância, mas seus olhos percorreram o restante da sala; armários e estantes apinhavam o fundo, contendo caixas e frascos de tamanhos variados. Um sofá bem espaçoso estava disposto no canto, próximo aos armários.

A morena, vendo que Draco não se conformava com o “esplendor” do local, soltou um muxoxo e começou a andar despreocupadamente. Retirou o casaco e o jogou em cima do sofá, agindo como se já conhecesse o local. Ele instantaneamente franziu a testa.

-Como você sabia desse lugar? –perguntou desconfiado, se aproximando dela cautelosamente.

Hermione o olhou como se houvesse um mistério em seus olhos; seu sorrisinho não conseguia esconder que sabia de algo.

-Somos amigos de longa data –disse com um suspiro, repousando sua bolsa em cima de uma das bancadas. Ela percorreu os olhos pela sala. –Diga-me se não é perfeito... este lugar. Aqui tem tudo o que mais precisamos. E só nós dois sabemos.

Malfoy a olhou com um choque inconformado, mais surpreso ainda. “Só nós dois sabemos”... Aquilo queria dizer alguma coisa sim!

-Como sabe que aqui tem tudo o que precisamos? E o que te garante que só nós dois sabemos? –perguntou mais desconfiado ainda. Hermione engoliu em seco, desviando os olhos dele.

-Como eu falei, conheço isso aqui há muito tempo –respondeu. –Mas estamos perdendo tempo com formalidades e explicações. Não já te provei que deve confiar em mim? Não falei que aqui existia uma sala?

Draco apertou os olhos. Não conseguia se enganar... achava muito esquisito.

-Mas como você quer que eu finja que acho... normal você me trazer pra uma sala como esta?

Hermione o olhou com tédio e começou a tirar suas coisas de dentro da bolsa. Ela não parecia disposta a oferecer nenhuma explicação a Draco, o que o fez se sentir frustrado. Não gostava de todo aquele mistério. Ele acreditava que a transparência de informações entre eles já tinha se concretizado, na altura em que estavam.

-Não faz nem cinco minutos que estamos aqui dentro e tudo que me fez foi perguntas –resmungou ela, abrindo o livro na sua frente. –A propósito, acho que consegui outro ingrediente... se isso te importa.

Isso não fez mudar a sensação de suspeita em Draco, mas fez com que sua atenção fosse desviada para algo mais importante e para o que eles realmente foram fazer lá. De qualquer jeito, talvez ele precisasse confiar nela novamente...

Ele respirou ruidosamente, finalmente retirando o casaco, vendo que ela não te responderia mais nada a respeito da sala. Ela sorriu novamente, assistindo-o depositar seu casaco junto ao dela, e voltar-se para a bancada.

-Então... por onde começamos? –indagou a contragosto. Ele conferiu algo dentro de um dos caldeirões.

-Antes, quero dizer uma coisa –ela o encarou como se fosse segredar algo. –Esta sala não tem propriedades... normais. Ela pode aparecer num dia, e no outro não. –Malfoy engoliu em seco, percebendo que mais perguntas se formavam. –Além do mais, ela realmente providencia tudo o que precisarmos... Menos comida. Então, acho que se precisarmos de algum ingrediente comestível, ela não nos dará, entendeu?

Ele franziu a testa. Ela parecia saber de muita coisa sobre aquela sala. Como tinha revelado que sabia da existência da mesma havia muito tempo, explicava muito de sua inteligência sobre o lugar... mas não deixava de ser estranho. Tudo o que ele queria saber era como ele nunca tinha encontrado aquele lugar maravilhoso e tão excêntrico.

-Mas se... se esta sala não aparece todas as vezes que queremos... –a pergunta se formava, muito confuso. –Por que escolheu justo aqui para fazermos a poção? Sabe que vamos precisar levar conosco, não é?

-Não acha que pensei nisso? É claro que vamos levar a mistura... Mas prefiro que fique com você.

-Comigo? –indagou perturbado. –Não sei... Por que não fica com você?

Hermione bufou, mostrando algo escrito no livro.

-Não é óbvio? Eu estando enfeitiçada, nunca vou agir normalmente com relação à você –ela o forçou pegar o livro e ler o trecho que indicava. –Aliás... isso é outro assunto que precisamos conversar.

Draco percorreu os olhos pelas frases escritas, encontrando a seguinte informação:

“Observações sobre produção, P1.P2: O alvo não deve se aproximar da poção já feita a menos que seja para bebê-la. Risco alto.”.

-Não entendi nada –falou ele, devolvendo o livro para ela. –O que significa “risco alto”? Quer dizer então que você não pode me ajudar a fazer?

Hermione rolou os olhos.

-Não, Malfoy –respondeu, virando a página novamente. Ela se debruçou na bancada e pareceu pensar. –Quer dizer, é claro que vou te ajudar... mas haverá horas em que você precisará me tirar de perto.

Hermione ficou meditando por algum tempo, olhando fixamente a imagem que se movimentava no livro, sem dizer mais nada. Draco ficou esperando que dissesse mais alguma coisa, porém percebeu que nada viria.

-Por quê? –indagou curioso, tirando-a dos pensamentos.

Passou um vislumbre por seus olhos castanhos, mas não era o feitiço.

-Bom –suspirou –, não sei se já te falei alguma vez, mas... Parece que existe uma outra pessoa dentro da minha mente quando o feitiço faz efeito. Agora já estou acostumada a ouvi-la murmurar, falar coisas através de mim, mas... outras vezes fico assustada. Ela me faz... fazer coisas que não quero.

Passou alguns segundos de silêncio em que ela voltava a meditar, desviando os olhos dele para algo além deles. Ela parecia estar... se abrindo com ele. Eram informações novas e que Draco não deixou de receber com surpresa e até mesmo interesse.

-Disso eu já sei –disse ele em tom baixo, compreendendo. –Já sei que faz coisas que não quer, mas... o que essa Hermione diz?

Isso a fez voltar a encará-lo, desta vez com uma expressão cautelosa. Não sabia dizer se era uma pergunta que deveria ter feito, mas esperava que a morena não se esquivasse. Ele realmente queria saber.

-Pode soar meio psicopata –riu, tentando dispersar o tom sério da conversa. –São coisas que, se eu já tivesse feito, poderiam me levar direto à Azkaban... Acho que não é relevante agora...

-O que é? –Draco indagou com seu interesse aumentado, também se debruçando sobre a mesa. Percebeu que seus olhos estavam fixados nela. –Me diz, eu preciso saber.

Hermione não estava esperando tanto interesse da parte dele. Afinal, era apenas o feitiço que a fazia ter tantos pensamentos invasivos... esperava que ele encarasse aquilo como um efeito colateral da maldição, mas pareceu ter feito o contrário. Engoliu em seco, reparando que sua face corava.

-Er... –fingiu se concentrar no esmalte de suas unhas, percebendo o quão desconfortável estava ficando. –Bom... Por vezes, a Hermione enfeitiçada me diz que sou estúpida por desperdiçar o seu amor, coisa que eu sei que é impossível ser verdade –acrescentou rapidamente, sentindo sua cara esquentar mais ainda. Evitou checar a reação dele. –Por outras, ela sussurra ideias que me atraem muito, como prender você no dormitório, invadir sua sala comunal para te assistir dormir, roubar seus pertences, te seguir pela escola inteira... espancar algumas garotas, enfeitiçar você com uma poção do amor... Coisas do tipo.

Draco não sabia como receber aquelas revelações. Eram coisas que o deixavam assustado... mas admirado por algo em especial.

-Você consegue controlar tudo isso? –indagou, não conseguindo evitar seu tom espantado. Ele percebeu que Hermione começava a ficar embaraçada com a conversa, tanto que suas bochechas pareciam dois tomates bem vermelhos. Ela assentiu fracamente. –Nossa... Muito obrigado.

Ela franziu a testa, sem entender.

-Por que obrigado?

-Porque... se você já tivesse feito tudo isso, o que seria de mim? Precisa ser muito boa para conseguir se conter, estando enfeitiçada com um feitiço tão forte como esse –disse. –E olha que não tirei de qualquer livro...

Hermione ergueu as sobrancelhas, desprevenida. Draco percebeu que acabara de elogiá-la com tanta convicção que ele mesmo se sentiu estupidamente estranho. Desviou o olhar rapidamente para algo em sua frente, evitando o contato visual entre os dois.

Cala boca, seu patético.

-Eu acho que isso é esforço... Não é fácil –respondeu. –Mas de algum jeito eu consigo. –pareceu se lembrar de algo. –Aliás... isso levanta um questionamento importante. Onde conseguiu este livro?

-Ah... –Draco coçou a cabeça, vendo que ela tinha tocado em um assunto que ele não esperava falar sobre. –Acho que isso não importa...

-Como assim não importa? –indagou séria, encurralando-o. –Você acabou de dizer que “não tirou de qualquer livro”. Ele veio de algum lugar, certo?

-É, mas não vejo como isso ajudaria...

-E eu não vejo como contar sobre a outra Hermione também ajudaria –interrompeu mordaz, parecendo decidida a arrancar a verdade de Draco. –Vamos, eu sei que este livro não pertence à ala proibida...

-Como pode ter tanta certeza? –perguntou no mesmo tom, erguendo o tronco. Hermione o olhou transtornada.

-Porque eu já estive na ala proibida tantas vezes quanto você –respondeu com sagacidade, piscando para ele. –E lembraria de alguma seção que ensinasse feitiços com Artes das Trevas e maldições. No entanto, em Hogwarts só existem informações sobre artes das trevas.

Draco engoliu em seco.

-Isso não prova nada –tentou dissimular, levantando as mangas de sua camisa. –Vamos começar a fazer esse feitiço ou não?

-Espere aí, por que não quer me contar de onde esse livro vem? –ela perguntou, apertando os olhos. –Eu contei o meu pior segredo... o mínimo que mereço são respostas. Tudo o que fez até agora foi desviar o assunto...

-Vai me contar como achou essa sala? –ele cortou calmamente, cessando a onda de irritação da morena, fazendo-a se calar no mesmo instante. Ele conseguia enxergar a fúria impotente que vinha dela; as bochechas rosadas, a cara fechada em uma expressão dura e as sobrancelhas unidas em um “v” gracioso.

Não podia acha-la mais fofa.

-Então tá. Você com os seus segredos e eu com os meus, está bom assim? –disse emburrada. Malfoy deu de ombros, agradecendo por não ter que falar mais naquilo.

FOFA?!, pensou transtornado, ralhando consigo mesmo. Desde quando a achava fofa e graciosa ao mesmo tempo?!

Hermione, ainda irritada, pegou algo dentro de sua bolsa e depositou sobre a bancada para que Draco pudesse olhar.

-Orvalho da manhã –informou. –Coletei hoje de manhã.

Draco franziu a testa, pegando o pequeno frasco para conferir. Ele levantou o frasco na altura dos olhos, percebendo que dentro dele continha um punhado de grama flutuando e, ao redor dele e por dentro do frasco, pequenas gotículas desprendiam do vidrinho.

-Orvalho em pleno inverno? –estranhou, devolvendo-a. –Como você é sortuda...

Hermione bufou.

-Não é sorte, é acaso –retrucou. Ela ainda estava chateada? –Lembro que disse que traria sua preciosa “sacola de flores”... Onde está?

Draco bateu na testa, só agora reparando que lhe faltava algo. Hermione silvou de tédio, colocando uma das mãos sob o queixo, para apoiá-lo.

-Acho que vou pegá-lo... –ele disse, recebendo um sim com a cabeça. –Não demoro. Tente fazer por enquanto...

-Às suas ordens –falou mal humorada, desviando os olhos para o livro.

Draco também não estava muito afim de fazê-la esquecer sobre o bendito livro. Por que isso a interessava tanto? Era uma espécie de masoquismo? Saber de onde vinha a origem do seu sofrimento... Que coisa mais estranha.

Ela também parecia muito irritada quando se encontraram. E tudo fazia parecer que estava mais irritada por ele não tê-la procurado do que tê-la encontrado.

Mas por que, afinal de contas?! Ela não estava achando aquela situação tão horrível quanto ele? Quer dizer, eles deviam estar achando aquela situação horrível, tão horrível que nem conseguiriam trabalhar juntos, conversarem ou até mesmo se tocarem...

Mas, por incrível que pareça, ele estava começando a se acostumar... que começava a achar esquisito estar se acostumando.

Deu um grito mentalmente, tentando desviar-se desses pensamentos. Agora era sempre Hermione, Granger, Hermione, GrANgEr, Hermione...

Ele estava na masmorra central, no meio do caminho, quando Pansy apareceu cruzando o corredor na direção contrária à dele. Os dois pararam na mesma hora, ambos se olhando com surpresa. Ela estava mais surpresa do que ele aparentemente.

Pansy, visivelmente acuada, percebeu o que estava acontecendo e logo tencionou voltar ao seu caminho... mas Draco a impediu que passasse.

-Espera –ele disse, pondo-se na frente dela. Ela não o olhou, mas parou. Ficou quieta e calada. –Precisamos conversar... Escuta, eu não sabia que falava a verdade. Pra mim você realmente tinha feito algo contra a Granger. Por isso reagi daquele jeito... –ele esperou que ela dissesse alguma coisa, mas nada disse. Franziu a testa. –Eu sei que está com raiva de mim, como todo mundo da sonserina, mas... eu preciso me desculpar com você. Não tive realmente intenção de te machucar, não vai acontecer novamente...

Pansy finalmente ergueu seus olhos para ele, que estavam duros e sem expressão nenhuma. Ele assustou-se de primeira, mas evitou demonstrar isso. Ela estava tão... diferente. Vazia.

-O que ela fez com você? –ela perguntou com uma voz séria e baixa, o que fez Draco olhá-la sem entender. –Você está se desculpando?

Ela deu uma risadinha de desdém.

-Ela quem? –ele perguntou tentando ser paciente. –Olha, Pansy, eu entendo que esteja chateada... mas eu só queria que entendesse que nosso passado terminou. Quer dizer, nosso presente. Eu só achei que tivesse feito algo de ruim contra uma aluna do colégio, só isso...

-Não –cortou ainda sorrindo com desdém. –Achou que eu tivesse feito algo ruim contra a sangue-ruim.

-Não é verdade... –Draco começou cansado, mas ela não deixou que ele terminasse.

-Não minta, Malfoy. Não para mim. Quem o conhece sou eu. E sei que nunca pediria desculpas para qualquer que fosse, mesmo estando errado. –ela inclinou a cabeça levemente para um lado, encarando-o com mais afinco. –Acha mesmo que vou acreditar que não teve intenção de me machucar? Eu vi em seus olhos. Estava com ódio de mim... de alguém que teria feito algo contra sua sangue-ruim. Isso não tem como esconder.

Draco ficou olhando-a estupefato, sem conseguir acreditar nas palavras que estava ouvindo. Não importava... qualquer coisa que tivesse que dizer, não importaria para ela. Ela estava em um estado catatônico, numa espécie de “transe deprimido”, que a fazia parecer uma lunática. A forma como o encarava, sorria e se movia a faziam parecer uma personagem de anime.

-Vou fingir que não me disse essas coisas –ele disse depois de um tempo em silêncio, absorvendo tudo o que Pansy dissera. –Não espero que aceite minhas desculpas, até porque eu estou admitindo por pura consciência de que errei...

-Sim –ela o cortou, respirando fundo. Pansy passou uma das mãos pelo cabelo, fechando os olhos. –Não importa mais agora. Estou, enfim, livre. Divirtam-se, juntos. Espero que consigam ficar juntos, afinal. Até mais.

Ele não entendeu sua reação tão “despreocupada”. Pansy desviou dele quase como se tivesse deslizado por entre a parede e seu ombro, seguindo pelo corredor quieta e ereta. Ele apenas observou-a se afastar, estranhando seus movimentos tão eloquentes... O que foi aquilo?

Ele decidiu afastar aqueles pensamentos. Já sabia que Pansy as vezes era teatral demais, então não fez muita questão de pensar a respeito. Seguiu enfim até seu dormitório, onde precisou usar toda a sua habilidade silenciosa para não fazer barulho, pois já tinha gente dormindo. Abriu seu malão nas pontas dos dedos, torcendo para que não rangesse, e remexeu nele, procurando a sacola.

Mexeu, remexeu, buliu, tirou as roupas... Mas a sacola havia sumido.

Franziu a testa, estranhando. Alguém realmente estava mexendo em suas coisas. Sentiu seu maxilar ranger com raiva enquanto pensava no que faria. O que explicaria para Hermione? Como dariam continuidade à poção se agora as flores tinham sumido?

Tudo indicava que tinha alguém que não queria que eles fizessem a poção. Ou estava tentando tirar Draco do sério. Quem poderia ter mais interesse em uma sacola cheia de flores e pra quê tinham roubado aquilo dele??

Fechou o malão com um feitiço de travamento e um rastreio, para que ele pudesse saber quem colocasse as mãos nele novamente.

Voltou à sala precisa, com cuidado para não ser visto. Enquanto subia as escadas até o sétimo andar, reparou que dois alunos da grifinória faziam o mesmo percurso que ele. Franziu a testa, assistindo-os andarem nas sombras sem saber que eram observados. Continuou seguindo-os, até notar que eles parariam na frente da tapeçaria.

-Vocês dois –Draco falou, saindo das sombras, assustando-os. –O que fazem essa hora do lado de fora? Estão perdidos, por acaso?

Os dois se entreolharam, sabendo que estavam em apuros.

-Acabamos de jantar... –respondeu um deles. –Estamos voltando para a sala comunal.

-Sei... jantar –retrucou Draco com ar de quem fingia que acreditava. Ele conferiu o reloginho de pulso. –Já passam das nove... Acho que é um pouco tarde para terminarem o jantar, não?

-Hoje é véspera de Natal, senhor... –disse o outro. Ele era moreno. –O jantar nessa época é servido até mais tarde. Por isso.

Draco rangeu os dentes, os olhando de cima abaixo. Eles pareciam querer fazer algo suspeito, mas sua chegada os impediram de completar a missão.

-Acham essa tapeçaria interessante? –perguntou. Os dois olharam da tapeçaria para ele sem entender, estranhando a pergunta ou o achando muito louco.

-Não –respondeu um deles.

-Então não tem porque ficarem ai parados na frente dela, não é? Andem logo, para a casa de vocês. Não vão querer ver algo estranho acontecendo, não é?

Os garotos se entreolharam surpresos, e saíram rapidamente da frente de Draco, seguindo o caminho pelo corredor do sétimo andar. Malfoy, então, com algo surpreendente em mente, começou a seguir os rapazes novamente. Silenciosamente, ele os acompanhou até o fim do corredor, onde viraram uma espécie de corredor secundário, bem menor e escondido que o primeiro. Este era, por sua vez, mais escuro na passagem.

Nenhum dos dois reparou sua presença.

Ambos pararam, obrigando Draco a parar também. Ele se escondeu atrás de uma gárgula de leão a tempo de um dos garotos checar o corredor. Malfoy olhou novamente, conferindo se os meninos ainda estavam parados e reparou que havia uma passagem aberta. Conseguiu vislumbra-los atravessando essa passagem e adentrarem numa espécie de sala, quase toda vermelha.

Era a sala comunal da grifinória? Sorriu com esse pensamento.

 

Ao retornar para a sala que Hermione o havia levado, ele notou que ela não estava presente. Adentrou mais, chamando por seu nome, mas não obteve resposta. Franziu a testa, vendo sua bolsa ainda em cima da bancada. Chegou mais perto, conseguindo ver o livro aberto. O caldeirão estava aparentemente ligado, pois dele saía uma espécie de fumaça em espiral. O cheiro era bom... mas onde estava Hermione?

Draco esquadrinhou o local com mais afinco, quase acreditando que ela teria deixado a sala e ido a algum lugar... mas ao descer os olhos para o chão, encontrou seus sapatos abandonados. Seguiu, achando-a finalmente, esparramada no sofá, desmaiada num sono profundo e quieto.

Ele se aproximou, perguntando-se como não tinha conseguido vê-la ao chegar. Logo entendeu... ela estava coberta com seu casaco, que era da mesma cor que o sofá e a camuflava sob ele. Seu peito subia e descia calmamente e ela roncava baixinho, suavemente, o que dizia que tinha pego no sono quase imediatamente.

Exatamente como no dia anterior, quando dormira no sofá da sala comunal da sonserina.

Ela parece gostar de sofás.

Seu cabelo encaracolado dava voltas sobre o sofá, espessos, e alguns caíam sobre seu rosto. Um de seus braços estava repousado para fora, enquanto o outro era feito de almofada sob sua cabeça. Draco se pegou sorrindo vendo a cena. Ela, de alguma forma, lembrava uma criança que passou o dia inteiro pinotando e, agora, dormia tranquilamente depois de se prometer que ficaria acordada a noite inteira.

Como isso podia parecer tão gracioso e surreal ao mesmo tempo? Vê-la dormir te passava uma tranquilidade estranha.

Ele suspirou. Deu meia volta, foi até a bancada, onde se debruçou sobre o livro, querendo espantar aquela sensação. Precisava encontrar algo para se distrair, senão ficaria fixado em Hermione, e não queria mais aquilo.

Se pôs a ler, desejando ter algo que o deixasse mais tranquilo.

Ao desejar isso, automaticamente um pequeno granfone surgiu do outro lado da sala, onde começou a tocar uma música baixinha ambiente, com melodias relaxantes. Draco, assustado, olhou para o granfone como se fosse uma assombração. Sentiu sua pulsação correr em suas veias com mais força e seu coração palpitar por conta do susto.

A música começou a encher o ambiente com ondas leves e tranquilas. O volume era baixo, o que permitia que ele se concentrasse na leitura.

Então ele se lembrou de algo. O livro que ele pegara na sessão reservada no dia anterior poderia servir... Conjurou-o e o obteve em suas mãos.

Deu uma checada em Hermione, que continuava dormindo, e voltou a ler.

Veelas e suas propriedades: feitiços, poções e muitos mais”. Avançou a leitura para a página em que explicava o efeito das criaturas Veelas em seres humanos normais.

Os Veelas são uma raça do mundo mágico. São humanoides semi-mágicos que lembram as sereias e aparentam ser jovens e belas humanas. Por razões biológicas e desconhecidas, seus olhares e, especialmente, sua dança são magicamente sedutores para quase todos os seres do sexo masculino, o que os faz (obriga) ter atitudes estranhas para ficarem perto delas e atraí-las. Isto, porém, é efeito das propriedades mágicas que este ser possui.

Seus olhos automaticamente caíram sobre Hermione. Bom, agora ele compreendia o que ela devia sentir quando estava sob efeito. Não deveria se sentir assim, mas... não conseguiu evitar se sentir muito bonito. Seu ego foi massageado com uma simples explicação de uma criatura mágica que ele sabia que não era, mas que, para alguém, ele era a perfeição.

E atraente.

Pulou para a seção de “feitiços”, ignorando uma risada que queria se formar em seu rosto.

Feitiços:

 Alguns feitiços existentes tentam reproduzir o efeito que uma veela causa sobre o alvo, seja ela de leve a avançada, moderada a arriscada, ou, por vezes, Artes das Trevas.”

Era exatamente o que Draco procurava. Suas sobrancelhas quase sumiram junto com seu cabelo. Prosseguiu.

“Veja a seguir as especificações de cada uma, seguindo um barema explicativo sobre os níveis de risco.

Leve: um feitiço especificado com nota leve é considerado passageiro. Não possui nenhum risco à vítima ou ao enfeitiçador, normalmente não há sequelas e passam sem necessidade de remoção. Geralmente utilizado em aulas expositivas em cursos de Auror e treinamento por envenenamento ou enfeitiçamento defensivo.

Moderada: o feitiço com esta nota está classificado com um nível um pouco elevado; causa efeitos duradouros, mas que geralmente precisam de um feitiço que os reverta. Passa em questão de horas ou dias, dependendo da intensidade. Sequelas notadas em voluntários: comichão, perturbação e conjuntivite.

Avançada: feitiços com teor avançado causam efeitos duradouros, também com necessidade de remoção por feitiço de anulação, dependendo da força e intensidade. Duram em torno de uma semana a três meses, podendo ser renovados. Após a remoção, as sequelas notadas são: varizes, dependência emocional, ansiedade, depressão, embotamento emotivo e gravidez (resultante do amor expressado entre o casal). Podem ser tratados com terapia mágica ou obliviamento (a menos que tenham uma criança, então o caso deve ser levado ao Ministério da Magia).

Artes das Trevas: quem usa os feitiços produzidos por meio de arte das trevas deve ser cauteloso. O efeito é consideravelmente forte e sensível, pode causar reversão de sentimentos (obsessão, possessão e perseguição) da vítima, se a mesma obtiver algum sentimento afetivo com o enfeitiçador. Não existe, até o momento em que se escreve este livro documentário, feitiço de reversão que se possa remover o efeito, somente uma poção poderosa e realizada a tempo. Efeito duradouro até que se tome um antídoto (isto é, poção).

ATENÇÃO: Se não removido em cerca de algumas semanas, o efeito do feitiço pode perdurar até depois da remoção; isto alguns livros de artes das trevas não declaram. Sequelas DURANTE o feitiço: sonolência, perda de memória, sonambulismo, dificuldade de percepção do tempo e atordoamento. Sequelas PÓS feitiço: perda de memória, atordoamento, dependência emocional, perseguição, paranoia ou morte (suicídio).”

Draco parou de ler na mesma hora, pois começou a se sentir enjoado. Seu estômago começou a embrulhar e notou sua garganta presa; tinha um nome para este conjunto de sintomas.

Remorso. Medo.

Draco repousou os olhos sobre Hermione novamente, aterrorizado. Se aquele livro estivesse falando a verdade, então eles não tinham muito tempo... precisavam remover o feitiço imediatamente!

Por outro lado ele não conseguia acreditar. Era um livro muito antigo e nada garantia que as informações que nele continham se referiam ao feitiço da Veela. Talvez ambos não se conectassem e sequer o autor soubesse da existência do mesmo...

Draco se obrigou a pensar coerentemente e chegou à seguinte conclusão: algumas sequelas que Hermione vinha apresentando faziam sentido com os do livro. E outra... Em nenhuma parte do texto especificava qual o feitiço... Apenas os graus de risco. E o grau de risco daquele feitiço era Artes das Trevas, não podia negar.

Ele se pegou andando de um lado para o outro, exasperado. Não sabia o que pensar. A lógica mais convencional admitia que Hogwarts não teria um livro desses na seção reservada se ele não significasse algo, mesmo sendo velho e antigo. Tinha serventia para alguma coisa. Mas Draco sentia um furor atemorizante dentro de seu peito e não podia evitar a culpa. Ele seria responsável pela morte de Hermione, caso o pior acontecesse...

Procurou apoio na bancada, tentando se controlar e pensar com clareza. O que deveria fazer, então, era se adiantar. Não tinha mais tempo para que a deixasse “sofrendo” com os efeitos do feitiço, portanto precisava se mexer. Ele também sofria com tudo aquilo, ainda mais naquela altura. Mas teve que admitir que não conseguiria aguentar caso os efeitos começassem a se prolongar, o que o deixava aflito.

Mas o que ele podia fazer, agora que só tinha um ingrediente? As flores foram roubadas... Não sabia pra onde correr. Precisava novamente das flores, de preferência Camélias.

Mas onde iria arranja-las??

Na sua frente, alguns centímetros de distância de suas mãos, em cima da bancada, se materializaram um buquê farto de flores mais brancas que a neve. Flores que, à medida que Draco as olhava com perfeita confusão, se reproduziam ao longo da bancada e a enchia, até que não pudesse mais ver a superfície escura. Ele deu alguns passos para trás, espantado.

-Camélias? –ele se perguntou, franzindo a testa. Evitou tocá-las, sem saber se eram reais ou fruto de sua mente cansada, até reparar que elas eram inofensivas.

Pegou uma, arrancando de um dos buquês, com cuidado. Passou uma das pétalas pelos dedos, checando se eram verdadeiras ou artificiais.

Eram perfeitamente reais; macias, cheirosas e vivas.

Draco sorriu, satisfeito, pensando em como aquela sala era curiosa. Ao todo, Hermione não tinha mentido... ela era realmente confiável e inteligente. Olhou-a admirado, reparando que ainda dormia tranquilamente.

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Abri os olhos minimamente, tentando espantar o sono. Percebi que minha cara estava molhada e minha garganta seca. Enxerguei até onde minhas vistas conseguiam alcançar, reparando que ainda estava escuro.

Os lampiões da Sala Precisa ainda estavam acesos, menos no lugar onde eu estava deitada. Ergui minha cabeça rapidamente, checando se eu estava realmente na sala precisa e não mais na sala comunal da sonserina, pra caso eu estivesse vivendo um loop de realidade, já estivesse preparada.

Graças a Deus ainda era a sala precisa.

Soltei a respiração, aliviada. Tentei me sentar, mas reparei que meu braço estava dormente, o que me fez levantar com esforço. Fiquei amaciando o braço enquanto calçava os pés e dava um longo bocejo.

Onde estava o Malfoy? Ele tinha demorado pra voltar da sua brilhante missão, então acabei pegando no sono. Olhei em direção à bancada e o vi sentado em uma cadeira, de costas para mim; ele fazia algo e estava concentrado, tanto que nem percebeu quando me aproximei.

Ao chegar mais perto dele, notei algo surreal: a bancada ao seu lado estava repleta de flores brancas. Eram tantas que cobriam toda a superfície, sem deixar espaços entre elas. Qualquer coisa que tivesse em cima dela agora não era mais visível, pois só haviam flores. Minha testa franziu em confusão.

Me aproximei mais dele, ficando ao seu lado. Percebi que na sua frente tinha uma espécie de mesinha, em que ele deixava o livro aberto e cortava os ingredientes. O caldeirão esfumaçava, o que indicava que ele estava fazendo algo.

-Acordou? –indagou ele, surpreso inicialmente ao notar minha presença silenciosa.

-Sim –respondi atônita, olhando para as coisas dispostas em sua mesinha. Ele se levantou. -O que é tudo isso?

Ele percebeu ao que me referia.

-Quis adiantar a poção –respondeu. –Eu consegui mais algumas coisas, mas... as instruções indicam o tempo certo para fazer.

Senti nele um tom sombrio. Não sei se foi apenas impressão, mas sua expressão tinha um segredo, um mistério... o que poderia ser?

-E como conseguiu tanta coisa...? Tantas flores? –perguntei interessada, amaciando meu braço de novo, pois começara a formigar.

Desta vez ele sorriu.

-Olha, tenho que admitir... Você acertou em nos trazer para cá –disse, andando até a bancada, onde diminuiu o fogo do caldeirão. Fiquei mais confusa ainda, sem saber o que ele queria dizer. Voltou-se para mim novamente. –Quando fui buscar as flores, descobri que elas tinham sido roubadas do meu malão –disse, mas não parecia expressar irritação com o acontecido. –Na verdade fiquei frustrado, mas, quando voltei, lembrei que me disse que suas flores favoritas eram camélias.

Ele fez um gesto amplo indicando as flores, claramente me respondendo o que tinha acontecido ali. Então, sua mão arrancou uma das flores dispostas e me ofereceu, me forçando a pega-la. Ergui as sobrancelhas, vendo seu sorriso orgulhoso e satisfeito, entendendo.

-Então as flores apareceram aqui? –perguntei, vendo-o balançar a cabeça que sim, girando a flor entre meus dedos com carinho. –Mas foram só estas que você pegou? Camélias?

-Não, não tem nada a ver –falou em tom de quem explica algo. –Acho que entendi a essência desta sala... Ela não encara aquilo que perdemos, mas o que precisamos. E eu desejei ter mais ingredientes. E cá estamos, já com quatro ingredientes, dos quais só faltam dois.

Ele falava de modo animado, quase pulando de alegria. Olhei dele para a mesinha, sentindo quase a mesma felicidade que a dele... mas não pude evitar sentir ao mesmo tempo decepção. Haviam algumas pétalas brancas dentro de um jarro, enquanto outro jarro possuía uma substância viscosa e amarelada. Olhei para o caldeirão, que trabalhava a todo vapor, e senti uma pontada de tristeza ao constatar que estávamos completando a “missão”.

-É... muito bom –forcei um sorriso, não conseguindo esconder minha expressão fria. Tentei conter minha mágoa dentro de mim, para que ele não reparasse. –E quando fica pronta?

-Bom... –ele falou, ficando encabulado de repente. –Ao que tudo indica, o tempo determinado para que a poção fique boa o suficiente, se tudo der certo... fica em torno de uma a duas semanas...

Não soube bem como encarar aquela informação. Eu não fazia ideia se ficava feliz, impaciente ou animada, descontente... Mas passou pela minha cabeça que era uma esperança.

Esperança do quê não sei responder.

Reparei que a parte desolada pertencia à Hermione apaixonada, que começou a ficar inquieta ao ouvir a palavra “remoção”.

-Vai dar tudo certo –falei com firmeza, não dando espaço para que a outra sussurrasse através de mim. Draco me olhou enérgico. –Precisamos então criar um cronograma para nos encontrar. Devemos nos dedicar a isso agora com mais intensidade que antes...

-Sim –ele concordou, baixando os olhos. –Mas tem algo que preciso pedir para você –disse. Reparei, pelo som metálico, que ele batia um dos dedos na bancada.

-O quê?- perguntei interessada, vendo-o reerguer os olhos para mim. O mesmo tom misterioso estava impresso neles.

-É melhor que, durante este período em que a poção está sendo produzida, você não esteja por perto. –ele parecia já ter determinado aquilo há muito tempo, e expressava muita segurança, o que me surpreendeu. –Acho bom que fique na sala comunal enquanto cuido de tudo. Vai ser mais seguro para você, para mim e para a poção.

Fiquei pasma. O choque e a confusão se misturou com a sensação de ofensa para a Hermione enfeitiçada, que não poupou meus nervos. A Hermione normal foi pega tão desprevenida que conseguiu abrir um espaço para que o feitiço surgisse. Era como se ele estivesse me dispensando para longe, o que provocou uma espécie de desespero em mim. Não consegui desviar os olhos dele, absorvendo suas palavras. Meu nariz começou a formigar.

Lá vem ela.

-Não! –exclamei imediatamente, minhas cordas vocais expressando meu terror. –Não posso ficar longe de você, eu preciso ficar aqui... eu não sou inteligente? Posso te ajudar...

Ele reparou que era a outra Hermione falando sob o efeito do feitiço, tanto que respirou fundo e demonstrou uma paciência esquisita.

-Eu sei que é –respondeu calmamente, andando até mim ao ver meus olhos lacrimejarem. –Mas é melhor pra você que fique dentro do seu dormitório, dormindo...

-Por favor, não me mande embora –choraminguei, vendo-o ficar frente a frente comigo. Sua altura me obrigava a erguer o queixo, mas os olhos nevoados da Hermione dopavam meu cérebro. –Eu preciso ficar aqui, com você... não vamos mais nos ver, é isso que quer? Não tem pena de mim? Não, não vou deixar você sozinho, não me deixe sozinha...

Draco me apertou, como fizera mais cedo, em um abraço prolongado. A Hermione enfeitiçada tremeu sob os braços dele, sentindo a força que aquele gesto tinha sobre mim. Forcei-me a ficar de pé, sentindo um enjoo descontrolável crescer, mas que não me faria vomitar. O terror e o desespero foram se acalmando gradualmente enquanto ele permanecia com seus braços enrolados por mim e a Hermione normal foi lançada por um horizonte nublado e cheio de incerteza.

Ambas estavam gostando.

Me encolhi, ainda sentindo necessidade de estar acolhida em seus braços, ignorando o fato de que o feitiço estava passando. Foram longos minutos, só nós dois abraçados, num lapso de tempo que pareceu a eternidade para mim. Tremi novamente, como resultado da ansiedade, e ele me apertou mais.

Quando me afastei, percebi que meu rosto estava molhado. Toquei nele, reparando que eram lágrimas.

Malfoy me olhava preocupado, ou parecia estar preocupado, as duas pérolas cinzentas me encarando com uma expressão compreensiva. Ele passou sua manga pelo meu rosto, enxugando-o, o que me fez ficar apreensiva.

A Hermione apaixonada não permitiria que ele se afastasse. E a Hermione normal não queria se afastar dele, embora não quisesse admitir. Morreria de um lado por efeito colateral de privação... e ficaria triste do outro por pura consciência.

Senti meus braços apertarem e só quando ele me soltou que reparei que suas mãos me seguravam firme.

-Tudo bem –resfolegou ele, cedendo. –Pode ficar aqui. Embora não ache uma boa ideia, mas tenho certeza que assim vamos poder nos controlar melhor.

Não consegui esboçar nenhuma reação. Percebi que eu estava presa em um vazio que não me fazia ter vontade de sorrir. Eu perderia Draco Malfoy e era tudo o que minha cabeça enfeitiçada conseguia se concentrar.

Quando o feitiço foi se assentando, a Hermione normal conseguia voltar ao normal, reparei em como era estranho toda essa reação. Seus olhos me olhavam com cautela, um brilho extranatural no cinza opaco costumeiro. Me sentia esquisita por me sentir segura sendo abraçada por ele, mas ao mesmo tempo não gostava de pensar nisso; ficava constrangida só por sentir vontade de ficar com ele não estando enfeitiçada.

Nossos rostos estavam bem próximos e comecei a sentir meu coração se agitar.

Comecei a acreditar que estava confundindo o feitiço com a realidade. Ele só estava ali para cumprir uma imposição a nosso respeito, preso numa obrigação tanto quanto eu. Então não podia e não deveria existir espaço para confusão de sentimentos, sendo que eles nem ao menos eram reais.

Está mentindo para si mesma, Hermione. Sabe que eles existem e estão escritos bem na sua frente, nos olhos dele, não vê? Beije-o agora mesmo.

Obedeci.


Notas Finais


Espero que tenham gostado e obrigada se chegou até aqui <3


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