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História Family Business - Capítulo 11


Escrita por:


Notas do Autor


Oi anjos. Não parei a fic e não pretendo parar enquanto não concluir todos os arcos que planejei escrever.
Eu comecei a fazer ilustrações e a capa é uma cena do capítulo e a segunda pintura digital que eu fiz na vida.
Decidi começar por essa menos importante pra um dia fazer uma ilustração do Percy e Jason quando estiver melhor nesse negócio já.
Sem mais delongas, Annabeth Chase para vocês <3

Capítulo 11 - Dressed to Kill


Fanfic / Fanfiction Family Business - Capítulo 11 - Dressed to Kill

8 meses e 2 semanas antes – Annabeth

Retoquei o batom uma última vez em frente ao espelho do banheiro, o tom escuro realçando o desenho dos lábios.

Eu normalmente utilizava tons mais apagados para eventos da Olympus. A sobriedade é útil para não tirar atenção da sua mensagem, minha mãe dizia. E a estratégia fazia sentido. Metade dos convidados não me levaria a sério por ser muito nova, e a outra metade... Bem, o mundo seria um lugar melhor sem essa metade.

Mas o objetivo hoje não era discutir e vender um contrato. Ao menos, não era o meu objetivo. O evento era para os novos clientes, mas Ártemis estaria ali hoje também. É o tipo de coisa que acontece quando sua professora lhe oferece um estágio e os seus pais são os sócios de uma das maiores empresas de advocacia do estado. Mas mesmo com sua presença, e por mais que eu quisesse causar uma boa impressão, a questão é que ela também não era meu alvo.

O contrato seria fechado entre uma garrafa de espumante e outra, e minha professora já iria se impressionar pois, bem, eu era boa no que fazia. Simples assim. Segura dessa parte, o que me interessava de verdade era que sua equipe a acompanharia à festa. E isso, em última instância, queria dizer que ele estaria ali também.

Conferi o vestido no espelho, uma peça azul sem mangas, e arrumei as ondas do cabelo para um lado só. A maquiagem era leve. A única coisa que tinha algum destaque era o batom, mas só se você quisesse reparar nele. 

Sim, esse tom é perfeito para hoje, pensei, me afastando do espelho e descendo as escadas para a sala principal.

Era costume que os eventos acontecessem na casa de um dos quatro sócios majoritários ou na própria empresa, apesar do pai de Nico raramente ser o anfitrião. Minha mãe fizera questão de sediar este e ao entrar na sala me deparei com toda a decoração. Arranjos de flores decoravam todo o andar de baixo da nossa casa. O buffet de aperitivos estava montado e o salão de eventos tinha sido integrado a sala de estar. Perfeito, como sempre.

Alguns convidados e acionistas menores conversavam espalhados pelo cômodo, mas era nítido a quem os assuntos importantes realmente pertenciam.

Zeus estava no centro do salão, vestindo um terno completo. A própria postura deixava nítido quem era o presidente da Olympus, quem tomava as grandes decisões, sem que ele precisasse falar uma palavra sequer. Caminhei em sua direção e, mesmo depois de tantos anos, o ar ainda parecia mais carregado quando estava perto dele.

O cumprimentei e ele me apresentou aos futuros parceiros de negócios da empresa.

“Essa é Annabeth Chase. Vocês ouvirão falar dela, com toda certeza” disse ao trio de empresários com quem conversava. Zeus tinha uma certeza inigualável de si e da própria família, mas não demorou para entender que eu tinha puxado minha mãe e era melhor me manter por perto. Ele jamais me colocou acima dos próprios filhos, mas o fato era que havia três pessoas que elogiava em voz alta: os irmãos Grace e eu.  

Sorri com a dose certa de falsa modéstia e fingi interesse no que quer que estivessem falando sobre. Ainda era o início do evento e o sol mal havia se posto, então os escutei falando sobre o que estavam achando da cidade e respondi com toda cordialidade que cabia. Com certeza, esse restaurante realmente tem as melhores lagostas.

Não que eu estivesse reclamando. Era melhor passar pelas superficialidades do que os ouvir se gabando “educadamente” sobre o que quer que achassem interessante sobre si mesmos. Felizmente faltavam algumas taças para chegarem nesse estágio e gastronomia ainda era um assunto tolerável.

E foi então que minha mãe surgiu a direita de Zeus.

A maioria das pessoas a achava intimidadora, e eu não os culpava. Ninguém conseguia ficar ao lado de Zeus sem parecer ofuscado ou menos importante, exceto por Atena. Ela engajou na conversa com um “vejo que conheceram minha filha” e me dirigiu um sorriso, como qualquer mãe faria. Mas ela não era qualquer mãe.

Notei imediatamente que sua sobrancelha esquerda estava levemente curvada. Era algo que mais ninguém no cômodo enxergaria, mas eu sabia o que ela estava querendo me dizer. Esse batom? Sua pergunta implícita. Devolvi um leve contrair de lábios, sem desfazer meu próprio sorriso. Sim, confie em mim. Sua expressão retornou ao normal, a última mensagem era clara e dispensava qualquer sinal. Só não faça nada estúpido.

Não conhecia outra pessoa que pudesse me entregar aquele recado sem soar cômico ou fora de lugar, mas vindo dela era quase uma ameaça. Obrigada pela confiança, mãe.

Atena entrando na conversa de alguma forma fez tudo soar mais interessante. Era um dos dons dela: mudar os rumos de qualquer conversa para atingir os próprios objetivos, da maneira mais sutil e certeira possível. Zeus só confiava a tarefa de fechar negócios a três sócios além dele próprio: minha mãe, Afrodite McLean, a mãe de Piper, e o homem que acabara de chegar à esquerda dele.

Poseidon cumprimentou a todos, um sorriso largo no rosto.

Ele não era nem de longe tão intimidador quanto os dois sócios ao seu lado, mas isso era o que o tornava tão bom no que fazia. Ele sorria e se esquivava. Bajulava você com elegância. Era condescendente e carismático de um jeito que você não percebia suas intenções até ser tarde demais. Enquanto minha mãe conduzia seus argumentos de forma persuasiva, ele envolvia os empresários com uma conversa tão centrada neles que ao final acreditavam que assinar o contrato seria como ganhar na loteria.

Como você pode imaginar, ele e mamãe tiveram uma rixa e se detestaram por anos. Mesmo durante a infância eu conseguia entender que havia farpas nas coisas que se diziam, ainda que sorrindo um para o outro. O curioso foi ver a relação dos dois ser salva pelo meu namoro com Percy.

De início, parecia que teríamos que fugir e tomar veneno por engano para escapar da rivalidade entre as famílias. Mas o fato era que eles não conseguiam argumentar muito contra as duas pessoas que criaram às próprias imagens, treinados para persuadir e convencer – e nós dois aprendemos muito bem.

Apesar do desgosto inicial, não demoraram a entender por que Percy e eu dávamos tão certo juntos. Você jamais os ouviria admitindo em voz alta, mas acabaram aprendendo a conviver observando nossa dinâmica e entendendo que manipulariam as pessoas com o dobro da facilidade se estivessem alinhados.

Mas mesmo aceitando o relacionamento e deixando de torcer o nariz para Percy, a relação do meu ex com sua sogra nunca foi das melhores. Na verdade, minha mãe começou a gostar bem mais dele depois que começou a namorar Jason. Ela, que raramente demonstrava as próprias emoções, até soou aliviada quando dei a notícia do nosso término. Isso não fazia muita diferença, já que foi mútuo e não mudou nossa dinâmica, mas admito que não era o que se espera ouvir de uma mãe depois de terminar um namoro de três anos.

Só que ela não era apenas uma mãe, era a minha mãe, e Atena funcionava desse jeito – eu gostando ou não.  

A conversa parecia ter participantes demais àquela altura, então me esquivei com um aceno e deixei os trios resolvendo seus negócios.

Percy devia ter chego junto com o pai, mas eu não precisava procurá-lo. Sabia que estaria do outro lado do salão, no nosso lugar de sempre. O encontrei próximo a parede, onde não seria confortável um grupo maior se reunir e não chamaríamos muita atenção, mas teríamos uma visão de todos conversando na sala.

Ele vestia terno e gravata e parecia ter saído de um filme – o que não queria dizer muita coisa quando o assunto era meu ex-namorado. Por um instante, lembrei do quão bem arrumado estava no bar da semana anterior e tudo o que escondia por baixo daquela pose. As aparências enganam, principalmente quando você se acostuma a usá-las como ferramenta por tantos anos.

“Boa escolha, Cabeça de Alga” elogiei, parando ao seu lado. Percy sorriu de volta, mas o que me tranquilizou de verdade foram seus olhos. Ele estava bem melhor desde o final de semana em que foi para a praia atrás de Jason. A atuação tinha diminuído depois que eles conversaram, o que indicava que ele parara de se esquivar do problema. Mas hoje foi a primeira vez desde o julgamento de Maria Olsen que vi o brilho voltar por trás do verde dos seus olhos.

“Eu devolveria o elogio, se você já não soubesse” respondeu, me avaliando dos pés até o rosto, e então o sorriso dele subiu um pouco mais pelo canto dos lábios. “Vinho...” saboreou a palavra, encarando meu batom antes de desviar o olhar por cima de minha cabeça para analisar o restante do cômodo.Esperando alguém específico esta noite, senhorita Chase?”

“Ninguém muito importante” respondi, e foi o suficiente para ele não fazer mais perguntas por enquanto.

Não que evitássemos algum assunto. Sendo sincera, Percy era a pessoa que melhor me conhecia e o único para quem eu já tivera coragem de expor minhas fraquezas. Isso também significava saber quando aprofundar ou não uma conversa, por mais curioso que estivesse.

Aproveitei por um instante a sensação de normalidade, de estar em um jantar de negócios com ele do meu lado. A semana anterior havia sido uma loucura e a última, apesar de menos turbulenta, ainda fazia parte do período de adaptação desse semestre. Estávamos realmente trabalhando em casos agora e o que fazíamos podia definir o futuro daqueles clientes. Meu sentimento predominante era empolgação, mas a nostalgia de estar ali com ele era reconfortante.

“Terno cinza, oito horas” falei, desenterrando uma brincadeira que costumávamos fazer no ensino médio. Um de nós escolhia um convidado desconhecido do evento, enquanto o outro teria que bolar uma história sobre a vida daquela pessoa. Ambos sabíamos ler muito bem as pessoas, mas a melhor parte era ver quem fazia o outro rir primeiro.

Percy desviou o olhar e sorriu com o canto dos lábios.

“Ah, esse é fácil. Ele está afim da colega que está à direita dele, mas ela não o enxerga desse jeito” falou, e eu conseguia ver a história se formando em volta do estranho que observávamos. “Ele tenta mandar indiretas há meses, sem coragem de ser direto com ela. Mas está tão gamado que não nota a outra moça, a de óculos” continuou, apontando com o olhar. “Que não tirou os olhos dele nos últimos cinco minutos e vai sair daqui tão frustrada quanto ele.”

“Essa foi bem precisa” respondi, parando um dos garçons que trazia taças de espumante em uma bandeja. Pegamos nossas bebidas e inclinei a cabeça na direção dos personagens que criamos antes de murmurar ao homem “tenha certeza de que aquele grupo tome uma dose extra de coragem hoje, está bem?”

Ele parou por um instante, olhando de mim para Percy e então para o grupo que eu indiquei. Podia não ter entendido o contexto da nossa brincadeira, mas uma dose de coragem tinha um único significado naquela situação e o garçom pareceu gostar da ideia de bancar o cupido por uma noite. Assentiu e se despediu com um sorriso, indo em direção ao grupo indicado.

“Você sabe isso vai provavelmente acabar mal, não sabe?” Percy disse, mas parecia estar se divertindo com a perspectiva. “Eu posso estar terrivelmente enganado sobre eles.”

“Eu confio muito no seu julgamento, Cabeça de Alga” devolvi, dando de ombros. “Dê alguma chance a eles. Uma dose de romance e espumante nunca fez mal a ninguém. E, se der errado, pelo menos teremos uma cena garantida no final da noite.”

“Muito bem, Sra. McLean” provocou ele, mas os olhos já procuravam a próxima vítima pelo cômodo. “Cinco horas, com a saia caqui” falou por cima da taça.

Encontrei a quem ele se referia com facilidade. “Certo... Ela veio aqui atrás de uma promoção, acha que o contrato a beneficiará, mas a verdade é que ela não produz nada e passa todo o trabalho para a assistente. O chefe dela sabe disso e a acha intolerável... Ah, e ela tem nome composto, com certeza. E todos sempre a chamam pelos dois” conclui, satisfeita com a dose diluída de veneno.

Percy aproximou a taça do rosto, tentando se manter sério, mas eu sabia que tinha ganho. “Ela definitivamente tem um nome composto” constatou, e nenhum de nós segurou o riso.

“Obrigado” Percy disse, e vi que o sorriso dele vacilou por um instante. “Sei que não foi o início de semestre que imaginávamos, mas isso aqui” continuou, indicando nosso ponto da sala com o olhar, “me faz acreditar que tudo vai dar certo.”

Assenti, segurando sua mão por um instante. Ele apertou a minha de volta. Era nossa forma de dizer que estávamos ali um pelo outro, com ou sem namoro, em crises ou momentos alegres. Percy Jackson e Annabeth Chase eram uma dupla e lidariam com o que quer que cruzasse seu caminho.

Durante esta semana, trabalhando em um novo caso, encorajei Percy a contar para Ártemis o que havia acontecido. Ele relutara no começo, e não tenho certeza exatamente de como foi a conversa dos dois, mas acabou acontecendo. Ela tomou um tempo para nos dizer que aquela investigação seguia em andamento e os culpados seriam trazidos à justiça. “Não costumo acompanhar os casos depois que inocentamos nossos clientes, mas saibam que as pessoas certas vão pagar pelo que fizeram” nos disse, e eu sabia que ela não falava apenas do assassinato de Paul.

A sensação era de que estaríamos seguros enquanto estivéssemos sob a proteção dela.

Ártemis carregava uma aura diferente em si. Eu não acreditava em energias nem nada do tipo, mas a mensagem que ela passava quando estava no cômodo era sólida. A forma como se portava e falava, o respeito que impunha... Eu só vira aquele tipo de personalidade nos sócios da Olympus. Mas ela não precisava de uma fortuna tão grande para isso. Era intimidadora o suficiente atuando em um escritório independente.

Na verdade, ela era uma presença tão forte que chamava atenção em qualquer ambiente que estivesse. E o evento em questão não foi uma exceção. Todas as conversas no ambiente diminuíram e diversas cabeças se viraram quando Ártemis adentrou o salão.

Seus cabelos presos por duas mechas unidas atrás, como se delimitassem uma coroa, enquanto o restante caia em ondas pelos ombros. Vestia uma blusa branca cujas mangas se projetavam além dos punhos, uma saia preta e um olhar que só encontraria competição no de minha mãe ou Zeus.

A sua direita, Silena estava ainda mais bonita do que de costume, mas seguia os padrões claros e sérios da chefe. Não que ela precisasse de algo além de um vestido simples e o próprio sorriso pra atrair a atenção de quem conseguisse deixar de encarar Ártemis.

As duas roubaram tanto a cena que levei um instante a mais para notar o que estava faltando ali. Ou melhor, quem faltava. Tentei ao máximo manter uma expressão neutra enquanto expectativa se transformava em decepção e então alcançava uma nota de satisfação, assim que ele surgiu atrás das duas.

Luke tinha abandonado a jaqueta de couro e o conceito despojado. Vestia um terno completo, um colete por baixo e a gravata em um tom escuro de vermelho que lembrava meu batom. Seu olhar encontrou o meu por um instante antes que eu me virasse para Percy novamente – tempo o suficiente para que ele se mantivesse olhando enquanto eu lhe dava as costas.

“Precisa de um lenço?” perguntou Percy, só os olhos informando a malícia na pergunta. Sim, ele me conhecia melhor do que qualquer um.

“Se eu me lembro bem, era você que costumava babar enquanto dormia” devolvi, tentando focar no homem a minha frente e não voltar a encarar o que entrara no cômodo.

“Não foi isso que eu quis...” Percy se interrompeu. Ou talvez tenha sido meu salto sobre seu sapato que o interrompeu. O caso é que ele inspirou profundamente e me dirigiu um sorriso forçado antes de continuar. “Só quero dizer que você devia tomar cuidado.”

“Você está com medo por ele ou mim?” perguntei, um tanto incrédula.

“Nenhum dos dois,” ponderou ele. “Talvez ambos.”

Percy não admitia e não eram tantas as pessoas que concluiriam sozinhas, mas ele protegia a todo custo quem amava. Ele se achava egoísta as vezes, e podia ser em algumas situações, mas não quando o assunto eram seus amigos. Ele sabia que eu não precisava de proteção, mas a preocupação estava ali.

“Confio em você. Só tome cuidado, está bem? Eu sei o efeito que vocês, loiros irresistíveis, tem nas pessoas” concluiu com seu tom sarcástico outra vez, a última frase dita enquanto desviava o olhar de mim e Luke para os outros cantos do cômodo.

Não precisava perguntar para saber que ele estava procurando Jason. Parando para analisar: loiro, popular, inteligente... Percy Jackson realmente tinha um tipo. Mas quem era eu para julgar?

“Tudo bem. Serei cuidadosa” respondi, antes de decidir por nós dois. “Venha, vamos conversar com nossa professora.”

No centro do salão, Ártemis e sua equipe eram recebidos por nossos pais e Zeus. Você sabe aquela sensação logo antes de uma tempestade? O céu cinza, o ar carregado, tudo escuro. Você não sabe se está anoitecendo ou prestes a ver um temporal. Eu já vira aquele tipo de encontro, em que você tem a sensação de que qualquer um dos presentes pode destruir os demais, mas são inteligentes o suficiente para não iniciar esse tipo de conflito.

“Zeus, Atena, Posseidon...” Cumprimentou ela. “Como é bom revê-los.”

“Ártemis, essas reuniões são tão melhores quando você aparece aqui” respondeu o pai de Percy, um sorriso caloroso e largo no rosto antes de lhe beijar a mão.

“Que bom que seus filhos foram selecionados este ano então” devolveu, a expressão alegre só sumindo por um instante quando seu olhar cruzou com o meu. Sim, eu enxergo através dele também. Ártemis era tudo que eu pensava e mais um pouco.

“Não aja com surpresa” devolveu minha mãe, mas seu tom era mais sincero, quase cúmplice. “Os quatro nunca deram brecha para outra decisão” prosseguiu, os olhos cinzas sustentando os de Ártemis. Se havia rivalidade ali, era em nome da competição. Nenhuma delas subestimaria ou desmereceria a outra, e ambas sabiam que estavam acima dos homens que as cercavam.

Eu me orgulhava de ser uma pessoa racional, mas aquela cena era linda a ponto de eu querer dar um gritinho.

“As crianças da Olympus nunca decepcionam” concordou nossa professora, olhando sobre os ombros de Zeus por um instante. “Thalia não pôde se juntar a nós esta noite?” perguntou-lhe.

“Temo que ela esteja em um evento próprio” admitiu Zeus, mas o amargor na voz era pequeno. “Projetos da faculdade, você sabe como é.”

“Com certeza. Sempre soube que ela faria as escolhas certas” falou a advogada, e talvez houvesse uma nota de provocação ali, mas Zeus não pareceu se dar conta.

Encontrei o olhar de Percy. Você está sabendo de alguma coisa? Ele arqueou levemente as sobrancelhas em resposta. Não, mas você nunca sabe o que esperar de Thalia.

“Os conheço há pouco tempo, mas já vejo o potencial de Thalia em todos” emendou Silena, enquanto encarava Percy e eu.

Luke assentiu ao seu lado, o sorriso em seu rosto passava na tênue linha entre sinceridade e uma piada maliciosa. “Vai ser um ano interessante no escritório, sem dúvidas” uma breve pausa, antes de tocar no cotovelo da colega. “Peço licença. Silena, você me acompanha?”

Ela assentiu e ambos se afastaram em direção à mesa com as bebidas. Enquanto passavam por nós, senti o perfume dele. Era forte e marcante, como madeira. Atraente o suficiente para você inclinar o rosto em busca do cheiro. Uma nota de noz-moscada talvez? Eu descobriria mais tarde.

Percy me encarou com um sorriso malicioso e estava pronto para sussurrar outro comentário, quando o grupo todo foi surpreendido por uma voz grave.

“Espero não estar interrompendo nada” disse Hades Di Angelo, surgindo ao lado de Ártemis. Os cabelos escuros estavam arrumados com gel e ele vestia preto dos pés a cabeça, apenas a camisa cinza e a pele clara contrastando com o restante.

“Acredito que chegou na hora certa” devolveu Ártemis, com muito mais cortesia na expressão do que seus três sócios. Não que ficasse nítido o desgosto deles, mas os três entraram no modo de atuação – e isso nunca era um bom sinal. “Estávamos falando dos meus novos internos, e acredito que no próximo ano já teremos uma vaga preenchida.”

Tanto ela quanto Hades se viraram para a entrada do salão, onde Nico mexia no celular e não parecia dar a mínima para o evento a sua volta. O pai pareceu ficar sem palavras por um instante, assimilando a informação. Eu mesma, que sabia dos feitos dele, estava surpresa só de ver nosso calouro ali.

“Sei que ele entrou para a faculdade faz duas semanas” Ártemis prosseguiu, não tornando o silêncio desconfortável. “Mas você deve estar ciente que o primeiro caso do semestre contou com uma contribuição enorme do seu filho.”

Ela cedeu um instante para que ele digerisse a boa notícia. O que era aquilo na expressão dele? Orgulho? A sombra de um sorriso pairou no rosto dele.

Minha mãe afiou o olhar para mim. É verdade?

Assenti em resposta e ela pareceu satisfeita, até mesmo impressionada. Senti uma pontada de inveja. Ela não dirigia um olhar daqueles a mim fazia um belo tempo, mas ignorei o pensamento. Essa noite não é sobre sua mãe, Annabeth.

“Tenho certeza de que o garoto vai se sair bem, quando chegar sua hora” sugeriu Zeus, um músculo levemente saltado em seu pescoço, e nossa professora entendeu a deixa.

“Claro, depois de um ano de muito sucesso de Jason e o restante de vocês” concordou, sorrindo para Percy e eu.

Ótimo, já estamos massageando os egos uns dos outros, pensei.

Fui salva daquele jogo de poder quando Jason e Piper cruzaram as portas e Percy me tomou pelo braço. “Nos deem licença, por favor. Piper acaba de chegar com o suces... Jason.”

Os olhares se desviaram lentamente de Percy para Zeus, cujo rosto estava ficando um pouco vermelho. Se ele estava irritado, desconfortável ou apenas surpreso pela audácia, não disse uma palavra. Apenas assentiu.

“Será que você consegue namorar alguém sem fazer seus sogros te odiarem?” sussurrei no meio do caminho até os recém chegados.

“Todos eles sempre me amaram” respondeu sorrindo. “Sua mãe só nunca soube demonstrar todo esse amor.”

Não é só com você que isso acontece, quase respondi. Mas continuava não sendo uma noite para pensar nisso.

“Meu namorado se comportou até agora?” me cumprimentou Jason. Ele estava tão bem quanto Percy, a gravata combinando com o azul dos olhos. Eles realmente eram um sucesso juntos. Lembro que, quando terminamos, Percy veio me perguntar se deveria investir em Jason Grace.

Ele nunca pareceu nervoso ao dar em cima de quem quer que fosse, mas estava com medo de fazer algo errado. Eu só não quero passar a imagem errada, me disse na época. Mas o novo namorado não parecia dar a mínima para a imagem que Percy passava – e eu gostava de ver que o garoto de verdade era a imagem que ele mais expressara no último ano.

“Mais ou menos” respondi. “Nada que tenha me dado muito trabalho.”

Jason deu um beijo na bochecha de Percy e pousou uma das mãos nas costas dele. “Obrigado por cuidar dele para mim” respondeu, e seu olhar me dizia que o agradecimento englobava mais do que a última hora.

Aquela noite no bar ainda pairava sobre todos nós, mas formamos um time e tanto quando o assunto era cuidar uns dos outros. Nossos pais poderiam aprender uma coisa ou outra com os filhos. Ou talvez eles soubessem de algo que não tivéssemos aprendido ainda.

Eu preferia acreditar na primeira opção.

Eu e Piper nos aproximamos, deixando o casal se fechar em seu próprio mundo. Seriam irritantes se eu não gostasse tanto dos dois.

“Perdi alguma coisa?” perguntou ela, brincando com sua trança lateral. Piper não tentava se arrumar, mas a verdade era que não precisava. A fase de cabelos rebeldes já tinha acabado, mas mesmo na época ela não era menos linda.

“Deixe-me ver... Os clientes não tem nada de especial; Ártemis parece dar conta de todos os acionistas da Olympus com a mão nas costas; e Zeus só engasgou duas vezes hoje” resumi, lhe arrancando uma risada.

“Nenhuma novidade então” devolveu, sua expressão ficando um pouco mais séria quando viu Nico. “Na verdade, temos uma novidade sim.”

“Fazia muito tempo que não o via por aqui” concordei. “Você sabe o que aconteceu?”

“Nada de ruim” sua expressão se suavizou outra vez. “Eu e Jason nos aproximamos dele e insistimos que viesse para o evento. Acho que já passou da hora de incluí-lo mais no nosso grupo” ponderou, uma nota calorosa em sua voz. “Se tiver um tempo, converse com ele. Vai ser mais oficial quando ele se sentir aprovado por você.”

Encarei Piper, surpresa por um instante. Estava acostumada a ser consultada para muitas coisas e gostava da sensação de influência, mas ainda não tinha me visto como alguém cuja aprovação definiria nosso círculo de amizades.

Assenti para ela. Procurei no restante do ambiente e não vi meu verdadeiro alvo em lugar algum, então fui na direção de Nico. Ele se mantinha sério como sempre, mas havia um pouco de expectativa na postura enquanto mexia no celular.

“Ainda não recebeu a notificação que queria?” perguntei, tirando a atenção dele do aparelho.

Nico estava de preto dos pés a cabeça, o terno, a camisa e a gravata combinavam de um jeito simples, mas harmônico com a pele pálida cor de oliva. A única cor de destaque eram as bochechas, um pouco vermelhas agora.

“Como você...” começou, antes de encarar Piper e Jason por cima do meu ombro. “Eles te contaram?” o tom em sua voz era amargo, como se sentisse o gosto de traição na boca. Sim, essa conversa começara muito bem.

“Ei, ninguém me contou nada” chamei sua atenção, me colocando entre ele e seus novos nêmesis. “Quer dizer, você acaba de me confirmar muita coisa, mas nada que eu não tivesse concluído sozinha.”

A raiva no olhar dele vacilou. Minha capacidade dedutiva parecia mais plausível do que a língua solta dos outros dois.

“Está tão óbvio assim?” Nico perguntou, a voz baixa enquanto escondia o celular cruzando os braços.

“Talvez” devolvi, tentando não cruzar nenhuma linha. “Ele é tão bom quanto parece ser?”

Nico analisou a pergunta, como se estivesse em um monólogo decidindo o que poderia falar.

Talvez” deu de ombros, mas a sombra de um sorriso estava lá, bem mais nítida do que a no rosto do pai minutos antes. Era novidade, mas combinava mais com ele do que a expressão fechada de sempre.

“Então talvez você possa levá-lo no próximo bar. Precisamos agradecer por tudo que vocês dois fizeram na semana passada.” Vi os olhos dele indo em direção a nossa professora, que agora conversava apenas com minha mãe. “Até ela estava elogiando você para seu pai e os diretores antes. Acho que você conquistou mais gente do que esperava este mês.”

Seus olhos brilharam com a nova informação e por um instante eu vi o garoto que era jovem demais para brincar com o restante de nós, mas que sorria e falava sobre suas cartas e bonecos para a mãe como se explicasse o novo prêmio Nobel.

Maria Di Ângelo deixou um buraco no peito do filho quando se foi. E nenhum de nós o ajudou a preenchê-lo – nossos pais nos mantinham ocupados enquanto cavavam buracos em seus próprios filhos mesmo vivos e presentes.

Mas essa noite não era de nenhum deles. E nós não precisávamos repetir seus erros.

Toquei no ombro de Nico, a primeira vez em alguns anos. “É bom vê-lo por aqui. Apareça mais vezes” lhe dirigi um último sorriso e uma piscadela.

Me afastei dele e passeei pelo restante do salão. Conversei com alguns sócios e até mesmo os clientes outra vez, mas eles já estavam se gabando sobre as próprias conquistas, e eu não tinha muito mais paciência sobrando. Depois de outras três horas de festa, eu estava entediada, com os pés doendo e completamente linda. De um jeito miserável, mas linda ainda assim.

A comida fora servida, o contrato estava praticamente fechado e mesmo Ártemis deixava escapar os sinais de que estava desinteressada no evento. Uma pena que seu – o  que ele era afinal? Assistente? Capanga?

Uma pena que seu associado não estava próximo dela.

Terminei minha terceira taça de espumante e a pousei sobre um dos aparadores. Cruzei com Piper e Silena conversando; Nico parecia ter recebido a notificação que esperava pois não estava mais no salão; nossos pais entretinham os investidores; e confesso que meu casal preferido de patetas já parecia um tanto com sal nas minhas feridas a essa altura.

Caminhei até o salão de frente para a piscina, cuja porta estava destrancada. As luzes estavam apagadas, minha mãe não queria expandir demais o ambiente do evento, mas as luzes da piscina atravessavam a parede de vidro e dançavam no teto, deixando metade do ambiente escuro em tons de azul.

Queria tirar os sapatos e aproveitar o instante de silêncio, mas a verdade era que estava frustrada demais para isso. Era muito mais fácil investir em alguém quando você consegue encontrar essa pessoa. Não havia batom vinho ou troca de olhares que fosse transmitida por telepatia e eu já começava a me perguntar até que ponto aquele plano fora uma boa escolha.

Me apoiei sobre o corrimão fixado no vidro, encarando a piscina e imaginando se a água estava tão fria quanto eu me sentia no momento. Será que era tarde o suficiente para fingir uma crise de enxaqueca e ir para o meu quarto?

Ouvi o som da porta rangendo e notei quando o reflexo da luz amarela do salão principal atingiu o vidro.

“Aceita algo mais forte?” perguntou uma voz grave, que me fez corrigir a postura imediatamente.

Quando me virei, Luke estava no meio do cômodo apoiado na cauda do piano, um copo de whisky em cada mão. A luz do salão emoldurava o cabelo num tom dourado, mas o rosto brilhava azul com a luz da piscina, os olhos e a cicatriz fazendo um convite arriscado – você quer chegar perto?

“Como adivinhou?” caminhei até ele para pegar o copo. Parei a uma distância considerada segura – fazia parte daquela dança.

“Não tem espumante que dê conta daqueles caras lá fora” devolveu, tomando um gole.

“Algum problema com nossos ilustríssimos clientes?” provoquei, apoiando os braços sobre o tampo do instrumento, forçando-o a se virar para falar comigo.

“Ah, nada demais. Ótimos oradores, me falaram muito de suas viagens. Adoraria levar qualquer um deles para a Europa – com certeza têm uma história fascinante com uma mulher incrível para cada capital.” Seu tom era neutro, o que só tornava a ironia mais satisfatória. “Uma pena que eles não notaram a brecha no contrato que vai lucrar alguns milhões para vocês.”

Seu olhar ficou mais afiado, um sorriso malicioso no canto dos lábios. Ele não estava criticando, era cumplicidade em sua expressão. Admiração, talvez? Nem sabia que ele estava prestando atenção enquanto discutiam o contrato e Poseidon vendia aquela brecha como se fosse uma bênção.

“Achei que você não fosse advogado” respondi, sugerindo que estava impressionada – talvez eu realmente estivesse.

Ele se inclinou um pouco sobre o móvel, o suficiente para a fragrância me atingir outra vez. Era apenas um dos toques para me envolver, mas combinava perfeitamente com a postura relaxada e segura, como se não precisasse se preocupar tanto assim – o tipo de coisa que você não encontra em garotos da faculdade.

“Não sou” devolveu, a voz levemente arranhada me dando um arrepio na base da coluna. Tomando outro gole, ele diminuiu a distância entre nós, enviando uma nova onda do perfume até mim. Definitivamente uma nota de noz-moscada.

“O que você faz no escritório de Ártemis então?” indaguei, não apenas para conquistar território, mas porque estava realmente curiosa.

“Ah, eu faço um pouco de tudo” disse, e de alguma forma ele fez isso soar como uma provocação também. Com a proximidade, a cicatriz agora parecia uma via de mão dupla. Poderia a seguir até seus olhos, azuis e profundos, ou descer até os lábios. Me perguntava se eles também faziam um pouco de tudo. “Entendo o suficiente do tribunal e da parte investigativa, e de outras coisas mais práticas também. Se ela precisar de algo, são altas as chances de eu ser a pessoa certa para conseguir.”

Respondi com um leve sorriso, tomando um gole da minha própria bebida.

“Então se precisarmos resolver algo...” Sugeri, pousando meu copo próximo ao dele, nossas mãos a alguns centímetros de distância. “Está me dizendo que você é a melhor opção?”

“Sim” ele assentiu, e podia ser apenas o álcool, mas seu rosto parecia mais próximo agora. As pontas dos seus dedos esticavam-se em direção a minha própria mão, e eu podia sentir algo como eletricidade nos movendo um em direção ao outro. “Inclusive...” prosseguiu, e eu pude sentir levemente sua respiração atingir o meu rosto – ele realmente estava bem próximo.

Antes que Luke terminasse a frase, senti uma vibração percorrer meus braços, mas não foi a eletricidade de antes. Ele se afastou do piano e levou a mão ao bolso, suspirando ao encarar a tela do celular.

Inclusive chamar um carro quando Ártemis e Silena querem ir embora de uma festa” concluiu.

Assenti em resposta, tentando não deixar muito evidente minha frustração. Apesar da conversa sugestiva e dos olhares – eu não tinha imaginado nada daquilo, agora estava claro,– senti como se mergulhasse na piscina gelada do outro lado do vidro.

“Um problema de cada vez” sugeri, levantando um pouco meu copo em uma despedida.

“Você entende rápido” devolveu, ajeitando a postura e o terno – que já estava muito bom, caso você esteja se perguntando. Luke se afastou e achei que termináramos por ali, quando ele parou na entrada do cômodo, ainda mais dourado sob a luz amarelada do que antes. “Até o caso dessa semana” se despediu, os olhos sugerindo tudo que as mãos não tiveram tempo de dizer.

E então eu estava sozinha no escuro, os reflexos da piscina dançando no teto do cômodo com uma indiferença que eu não conseguia sentir. Pelo menos a noite não foi um completo desperdício, concluí.

Tomei o restante da bebida em um só gole, pronta para sair do cômodo e declarar a vitória da minha enxaqueca por aquela noite. O evento de verdade já acabara de qualquer forma.

Eu teria a semana seguinte para descobrir o que era um pouco de tudo.

Hoje – Annabeth

Fechei a porta da cabine do banheiro atrás de mim e apoiei as mãos em ambos os lados.

Foco, Annabeth. Você só precisa controlar sua respiração.

Eram passos bem simples, você contrai o diafragma, expandindo os pulmões, e depois relaxa. Não deveria ter erro.

E, ainda assim, deixar o ar entrar e sair parecia ter deixado de ser algo natural.

A situação era atípica, admito. Mas de qualquer forma, eu deveria saber me controlar melhor do que aquilo.

Provavelmente eram os olhares na festa. Todos estavam sorrindo por um instante e fechando a cara ao deixarem de nos encarar, como se soubessem o que acontecera. O que havíamos feito. Sabia que era paranoico pensar daquela forma, que aquela era só a expressão que se fazia ao cumprimentar alguém no início de uma festa. Mas a culpa e o medo falavam mais alto do que a razão.

Ninguém reparou em coisa alguma. Piper e Thalia sorriram pois eram minhas amigas; Poseidon e Zeus o fizeram porque – mesmo que doesse admitir – sempre acharam que eu era o futuro da empresa; os demais convidados só estavam entediados e reparam na minha chegada. Nenhum daqueles olhares estava acusando você.

Além disso, só estávamos metidos naquilo tudo por ações dos nossos pais. Eles erraram. Nico sofreu um acidente. E nós só estávamos limpando a bagunça que eles todos haviam feito. Como poderiam estar nos acusando de algo que sequer era nossa culpa?

Eles nem sequer sabem, pensei outra vez. Se controle.

Percy e eu já escapamos de muitas situações com mentiras e encenação. Enganamos até mesmo minha mãe algumas vezes – ou pelo menos ela não se deu ao trabalho de desmentir isso. Percy cuidava da parte emocional e afetiva do espetáculo e eu tecia as histórias perfeitas. Essa deveria ser só mais uma delas.

Tudo bem, nunca tivemos um corpo para esconder antes, mas... Senti meu coração acelerando. Respire, Annabeth.

Forcei as mãos contra as paredes da cabine outra vez, levantando os ombros e expandindo o tórax o máximo que conseguia. Isso, o ar entrará melhor assim. Então expirei longamente, abaixando os ombros. Pensei na biologia daquele processo. Nos balanços químicos acontecendo. Eram lógicos, simples. A própria ansiedade é uma resposta nervosa; meu sistema simpático atuando, nada mais do que isso. Só precisava de oxigênio para informar ao meu corpo que não tinha motivos para estar com medo.

Inspirei novamente. Tudo está bem. Você está bem.

Expirei. Só mais algumas horas de festa e depois tudo vai se resolver.

O ar entrou outra vez. Vamos todos sair daqui e dar um jeito em... Então engasguei com o próprio ar.

Nico. Dar um jeito em Nico.

Pensar em como ele estava naquela noite era como ter uma bola de bilhar na garganta. O jeito como os olhos dele estavam abertos e vazios... O que diabos estávamos fazendo? Conhecíamos ele desde a infância. Crescemos juntos. Apesar da distância, Nico era um de nós. Ele era nosso amigo.

A pressão na garganta que me impedia de respirar quis subir para os olhos, então me obriguei a respirar outra vez. Eu não podia me dar ao luxo de lidar com isso agora. Não aqui.

Estavam todos contando comigo. Não podia ter emoções atrapalhando minhas decisões naquela noite. Não podia cometer erros. Não podia ser uma amiga.

Ele é evidência. E nós precisávamos dar um jeito nisso.

Inspirei uma última vez e me obriguei a recuperar a postura. Esse momento de fraqueza deveria me manter focada por mais algumas horas pelo menos. Quando destranquei a porta da cabine e caminhei até a pia, voltei a ser a garota que estava numa festa, na formatura da amiga de infância. A garota cuja única preocupação naquela noite deveria ser comemorar e tirar selfies.

Me encarei no espelho e vi que uma lágrima havia escorrido, deixando uma marca na bochecha. Minhas mãos ainda queriam tremer quando abri a bolsa, mas eu não tinha tempo para isso, então as obriguei a ficarem tão firmes quanto fosse possível. Alcancei um lenço e retoquei o que precisava. Tudo está bem, pensei, mantendo a respiração profunda e regular.

Perfeito, pensei, encarando meu próprio reflexo. Tudo de volta ao lugar.

Agora eu só precisava dar um jeito em uma última pendência, mas não sabia como fazer isso ainda. E o que você faz quando não tem a solução para um problema? Isso mesmo, consulta quem entende do assunto. Alguém que tenha experiência e saiba o certo a se fazer.

Ártemis já achava que ele era a pessoa certa. Era por isso que o tinha contratado, não?

Agora eu torcia para que ele estivesse disposto a ser a pessoa certa para mim também.


Notas Finais


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Toda vez que você comenta numa fic que gosta, uma fada nasce. <3
Ps: essa ilustração é gigante tipo tamanho outdoor, mas aqui não tem como eu postar com qualidade. Se quiserem dar uma olhada ela foi postada no meu twitter @callmebyiago <3


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