História As Origens de Sebastian - Capítulo 10


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Categorias Histórias Originais
Tags Andreiakennen, As Origens De Sebastian, Drama, Fantasia, Original, Romance
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Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Fantasia, Lemon, Romance e Novela, Yaoi (Gay)
Avisos: Homossexualidade, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 10 - Capítulo X - Cárcere


As Origens de Sebastian

Capítulo 10

Cárcere

Crispian elevou as duas mãos à cabeça e a pressionou com força, tentando fazer com que a cena do pai sendo decapitado desaparecesse de uma vez por todas da sua mente.

Estava vivendo um pesadelo na vida real.

Ouviu o barulho das trancas da cela sendo descerradas e moveu-se depressa, engatinhando pelo chão e alcançando o canto mais escuro do lugar. Ali, se encolheu, abraçado ao joelho e tentando esconder a cabeça entre os braços. Estava ferido e cansado de tanto apanhar. A cada troca de turno entre os guardas passava por aquela humilhação: o guarda que chegava para render o anterior entrava para conferir seu estado e só saía depois de espancá-lo. Eram vários golpes desferidos contra seu corpo, acertavam sua barriga, pisavam em suas costas, pernas, braços, pés, só não golpeavam sua face, talvez por ordem do rei.

Percebeu que a pessoa que adentrara a cela havia se detido diante de si e seu corpo começou a tremer involuntariamente, prevendo toda a dor a qual seria imposto novamente. Desejou do fundo da alma que esse novo vigia sentisse pena e simplesmente fosse embora. Todavia, desta vez, estava demorando mais que o normal. Foi quando ouviu aquela exigência vinda em um tom conhecido.

— Erga a cabeça diante do seu rei.

Ergueu seu olhar imediatamente e encarou Benjamin. Ele havia entrado sozinho na cela, mas a porta havia ficado aberta, e podia ver o braço segurando a espada do vigia.

O rei agachou-se para ficar diante do nobre e também fitar aqueles olhos de um azul que fora antes inocente, mas agora transluziam manchas de terror, dor e medo.

— Fique tranquilo. Eu não vou sentenciá-lo a morte, milorde — Benjamin tentou confortá-lo. — Sua imprudência me fez rei. Não pretendo tirar-lhe a vida. 

— Seu pai foi morto, seu povo anseia por vingança, não dará à eles o que desejam?

— Não — Benjamin foi contundente. Ergueu a mão e tocou o rosto sujo de Crispian. — Eu sou um rei caprichoso suficiente para não ceder facilmente as exigências da plebe — asseverou, descendo a ponta dos dedos para o pescoço do rapaz. — Sinto falta de você na minha cama, milorde.

Crispian sentiu-se enjoado. Enojado com o toque, com a presença, com as palavras de Benjamin. Mesmo que fosse ele própria, a pessoa em condições higiênicas deploráveis naquele recinto, era o rei quem lhe causava asco. Era capaz de sentir a podridão que exalava daquela figura reluzente diante dos seus olhos. A coroa dourada incrustrada com as mais variadas pedras preciosas brilhava no alto da cabeça dele mesmo naquele ambiente pouco iluminado, assim como o traje que ele vestia, bordado no peito o brasão real — uma águia sobrevoando a coroa — e para finalizar o manto felpudo nas cores vermelha, branca e bordado com fios de ouros e que agora se arrastavam no chão sujo e úmido do calabouço.  

Crispian receou, mas fez a pergunta.

— Quer me manter vivo somente para satisfazer seus anseios na cama? — esboçou incrédulo. — Terá que se casar em breve, Benjamin. Sua futura esposa não irá gostar de...

O rei interrompeu a fala do prisioneiro ao esbofeteá-lo na face esquerda. Depois disso segurou-o novamente pelo queixo e obrigou o rosto entortado pela força do seu tapa voltar a encará-lo.

— Cale-se — ordenou antes que as palavras de Crispian pudessem fazê-lo mudar de ideia. — Onde estão seus modos como um nobre? Não se deve falar até que seu rei lhe permita. E não é “Benjamin” é “Vossa Majestade”, milorde. Será que não compreende o básico: que cada palavra que sai da boca do rei é lei? Tanto que, se for desejo meu, posso converter as leis e fazer de você minha rainha.

Crispian riu, e sua risada feriu Benjamin.

— Quer outro tapa? — o questionou em um tom ríspido. — Será que não apanhou o suficiente? Ou está mesmo ansiando pela morte?  

— O cardeal jamais permitiria tal loucura, Vossa Majestade — respondeu, não se importando em ter a permissão. — Que homem de Deus abençoaria a união entre dois homens? Pode fornicar com quantos quiser, casar-se jamais.  

Benjamin enrijeceu, soltou o rosto de Crispian e se pôs de pé. Rapidamente desamarrou o cinto e divertiu-se finalmente ao ver o sorriso no rosto de Crispian diluir-se. Deixou a calça e a roupa de baixo caírem nos pés.

— Agora é sua vez. Tire as calças, vire-se e apoie as mãos na parede — exigiu.

Ao compreender que o rei iria tomá-lo, o jovem lorde apavorou-se.  

— Estou sujo e fedendo! — justificou em um grito. — Há mais de uma semana que estou preso aqui, sem banho, sem a luz do dia, na companhia dos ratos e fazendo minhas necessidades na latrina naquele canto — apontou o lugar de onde exalava o cheiro de fezes e urina. — Vai me possuir aqui, em meio a podridão, nessas condições tão deploráveis? Ainda mais... depois de ter tirado a vida do meu pai?

— Está com nojo desse lugar ou de mim?

— De ambos... — confessou, acrescentando rapidamente: —, Majestade.

Benjamin fitou Crispian longa e cuidadosamente. De certa forma, era aquela mistura que o enfeitiçava: a aparência jovem do lorde, seu aspecto inocente, miscigenado a personalidade pouco prudente, a língua ferina, o orgulho manchado e ao corpo que parecia ter sido esculpido para o deleite.

O rei deu um passo na direção dele e fechou as mãos entre seus loiros cabelos agora ensebados e amarronzados de sujeira. Não eram, realmente, os fios loiros, secos e sedosos que esvoaçavam ao vento e brilhavam à luz do sol quando o contemplara pela primeira vez adentrando o pátio do castelo no lombo de um corcel cinza, ostentando uma pose altiva, cavalgando ao lado do pai, enquanto guiava a comitiva de Valdávia. Arrancar olhares de encanto e admiração por onde passara, de todos da corte, donzelas, senhoras, empregados, cavalheiros, animais, do seu próprio pai que nunca convidara o próprio filho para uma caçada, mas não pestanejou em convidar alguém de casta inferior. Naquele mesmo instante que vira Crispian adentrar o palácio e resplandecer a imagem perfeita de um príncipe que ele, Benjamin, jamais seria, foi tomado, corroído, corrompido pela mais intensa das invejas. Na verdade, o invejava bem antes de conhecê-lo, quando o conheceu então não sabia mais identificar o que era aquele sentimento. Só sabia que era algo quente, ardente e maligno.  

Por isso dava-lhe tanto prazer a figura patética na qual o lorde se tornara. Por isso, sentia-se tão excitado mesmo na deterioração da sua figura ou nas condições sobre-humanas daquele lugar. Deleitava-se em vê-lo tão sujo e humilhado. Ainda assim, não era suficiente, sabia que tanta beleza e perfeição não podiam coexistir, Crispian escondia algo. Algo definitivamente horrendo. Queria saber todos os defeitos dele, o mais corrompido deles, para que pudesse usá-lo e manchá-lo ainda mais.

Puxou os fios entrelaçados em seus dedos até fazer o lorde ficar de pé. Empurrou-o para a parede de pedras e abriu sem delicadeza alguma a camisa de Crispian, arrebentando os botões e fazendo com que eles voassem e ricocheteassem nas paredes de pedra. O torso magro pela desnutrição foi exposto. Aproximou o nariz da pele branca coberta de hematomas arroxeados e vergões avermelhados e farejou-a com cuidado. Sorriu de lado ao constatar que era verdade: o lorde fedia como um animal abandonado. Entretanto, a constatação não diminuiu a excitação de Benjamin que enfiou a mão dentro da calça de Crispian e buscou o sexo dele, trazendo-o para fora da roupa, o qual juntou ao seu e passou a friccioná-los um no outro.

— M- Majestade n- não...

— Diga-me que deseja a minha cama à morte e eu irei poupá-lo, milorde — sussurrou Benjamin rente ao ouvido de Crispian. — Jure-me lealdade. Jure-me ser somente meu.

— N- não posso...

— Não pode ou não quer? — falou, colando a testa a dele. — Sou seu rei. Terá tudo que desejar. Eu sei o quanto gosta de ser tomado como uma meretriz. Eu o sinto estremecer e me apertar toda as vezes que me alojo no mais profundo do seu interior. E os sons luxuriosos que escapam de sua boca então? Não minta para si mesmo, milorde, não minta para o seu rei — continuou falando em um tom sedutor, sendo gratificado com um leve tremor e um gemido que Crispian tentou sufocar. — Viu? Não é capaz de se controlar, milorde. De negar o quanto seu corpo necessita desse toque. Mesmo então deplorável estado sinto seu sexo tão duro quanto o meu.  

— Mas... Ahh...

— Diga-me.

— E- e... quanto Earthen?

A pergunta preocupada ganhou o olhar atento de Benjamin. Novamente o lobo. Na corte, ele só pensava no lobo. Matou seu pai, mas era o lobo que ocupava seus pensamentos. Franziu o cenho, apertando de leve as ereções que roçavam uma na outra, deliciando-se com o contorcer de face que ganhou de Crispian, do estreitar dos seus olhos já semicerrados. “O que tem de bom nesse maldito animal para que um lorde não pare de clamar por ele?”, perguntou-se.

— Por que pensa tanto naquele monstro? — repetiu a pergunta que permeava seus pensamentos.

— Poupe-o, Majestade.

— Poupá-lo? — Benjamin sorriu, mantendo o estimulo, massageando ambos os sexos com uma única mão. — Por que eu faria tal coisa?  

— E- ele... s- salvou minha vida no passado. E- ele poderá se tornar o símbolo da sua soberania... Ann.... — as mãos de Crispian tocaram às do rei, pedintes. Crispian queria tomar o controle, Benjamin permitiu que ele regesse dali.

O lorde segurou os dois sexos juntos e passou a massageá-los com mais delicadeza, usando o pré-gozo que escapava por ambos orifícios para lubrifica-los. Benjamin apoiou as duas mãos na parede e passou a respirar pesado.

— Fale-me mais — o instigou, fechando os olhos.

— Visualize você, Benjamin I, o rei coroado, de posse do trono de Valais, de um lado eu, seu servo, de todas as formas que almejar, do outro lado sua rainha, a mãe dos seus futuros herdeiros, e a fera que a comitiva do rei não conseguiu deter domada e ressonando em sono profundo aos seus pés.

— Gosto do que vejo — concordou Benjamin, o sorriso engradecendo em sua face. Mordeu o lábio inferior entre os dentes para frear a excitação ao sentir a palpitação em seu peito aumentando. Abriu os olhos e encarou os azuis de Crispian, sentindo-se ainda determinado a convencê-lo da sua principal ideia, a de torná-lo sua rainha. — Mas gostaria ainda mais se você fosse coroado como minha rainha e estivesse sentado ao trono ao meu lado nessa visão.

— Não sou uma mulher, Vossa Majestade — contestou Crispian rapidamente. — Não pode me desposar. 

— Porém, és mais belo e perfeito que qualquer uma delas.

— Irão rir de Vossa Majestade.

— Já disse que não me importo. Sou o rei. Arrancarei as línguas dos que profanarem. Furarei os olhos dos que nos fitarem com desprezo. Obrigarei o mundo a aceitar. Mudarei as leis para que possa ser minha rainha. Lorde Crispian, quero que seja a rainha de Valais, diga-me que aceitas?

— E quanto a Earthen?

— Earthen de novo! — bradou, a irritação o tomando, quase esvaindo com sua excitação. — O que tem aquela maldita fera que te enfeitiçou desta forma? Não me agrada a ideia de saber que aquele lobo fedido tem mais importância para você que eu, seu rei, ou até mesmo que sua família. Deveria estar me implorando para que poupasse a vida da sua mulher, do seu filho, da sua mãe que agora está viúva. O que tem esse animal que o faz se importar mais com ele do que com os humanos?

— Já disse, ele...

— Ah, sim! Salvou sua vida. Baboseiras. Se fosse assim, mais importante são seus pais que deu-lhe a vida. Você ama aquela criatura... — Benjamim franziu a testa, — não ama? Chacoteia-me por desejá-lo como minha rainha, mas tem um amor imundo por uma besta selvagem que anda nas quatro patas — o sorriso abriu-se em seus lábios de lado a lado no rosto. Seria aquele o segredo de Crispian? — Confesse-me, milorde, quando eu o tomei já era por demasiado compreendido do sexo por trás, não me diga que se deixava possuir por aquela fera, tais como os sadistas?

Crispian parou a massagem no sexo dele e do rei, apertou os olhos, encostou-se a parede e deixou-se ser tomado pelo orgasmo. Quando os jatos de sêmen que havia sujado a roupa de cima de Benjamin cessaram, ele pode respirar com dificuldade e responder.

— Sim, Majestade — respondeu como um sopro de vida, respirando com vontade, em busca de ar. — Earthen foi o primeiro a me tomar — continuou, ainda arfante. — O único, antes de Vossa Majestade. Não o fazia por amor, mas por esse efeito que acabo de sentir, pelo prazer, pela luxúria. Fui corrompido, assim como Vossa Majestade foi. Pelo pecado. Eu não quero perder aquilo que me oferece tanto prazer, assim como Vossa Majestade não deseja me perder. É somente isso.

Benjamin cobriu a boca de Crispian com a sua e o beijou com ferocidade enquanto se resfolegava ao corpo dele, apalpou seu sexo até ele próprio alcançar o prazer e ejacular sobre o ventre de Crispian. Soltou da boca do lorde e se afastou para erguer as calças, ao terminar de se vestir, andou até a porta que havia e comandou ao carcereiro no corredor.

— Algeme-o. Ele virá com a gente.

— Sim, Vossa Graça.

Crispian só teve tempo de guardar o sexo para dentro, não de se limpar, quando o guarda o algemou sem muito cuidado e o puxou para fora da cela.

 O carcereiro acompanhou-os. Benjamin era quem guiava, mostrando que sabia exatamente onde desejava ir em meio a tantos corredores mal iluminados. Descerem mais alguns lances de escadas, andaram por mais passagens, avistaram várias celas abertas e vazias, até que chegaram ao que parecia o limite do local.

Pararam diante de uma porta chumbada e o rei ordenou ao carcereiro sem meias palavras.  

— Abra.

O guarda espantou-se.

— Meu rei?

— Não me questione, subordinado, sabe o quanto aborreço-me com isso.

— Sim, sim, Vossa Graça — rapidamente, o homem abriu a cela.

— Aguarde aqui fora.

O homem pensou em contestar, mas bastou um olhar endurecido do rei para desistir.

A fera que estava deitada no chão, com as patas presas por grilhões e uma focinheira de bronze, se ergueu ao visualizar a visita.

— Aí está — apontou o rei. — Seu monstro. Um animal deveras estranho, milorde. De beleza exótica, confesso. O azul dos olhos gelados destaca-se na cor negra dos seus pelos decorados com essa facha avermelhada. Apesar de ter atacado vários homens da comitiva do meu pai, Earthen, agiu como um lorde ao ser preso, não reagiu ao perceber que havia uma arma apontada para corpo desacordado do seu dono. Era como se ele compreendesse que você estava em perigo e que a reação dele poderia causar-lhe a morte. Desde então ele não ruge, não ataca, não uiva, não late, não gane, não faz nada. Ficou aí durante todos esses dias sem comer, sem beber e ainda assim parece extremamente saudável. Todavia, mesmo estando completamente imobilizado, ele causa terror aos guardas somente com sua presença macabra e o olhar intimidador.

Crispian segurou para conter a comoção ao ouvir as palavras de Benjamin carregas de insinuações, mas principalmente por ter certeza de que seu amado lobo estava vivo. Entretanto, não queria colocar a perder sua interpretação de pouco antes, quando alegara que não sentia nada pelo animal além de gratidão e um depravado desejo sexual. Não queria que o atual rei usasse Earthen para manipulá-lo. Precisava manter aquela farsa até encontrar um meio de fugirem.

— Ele foi adestrado.

— Hm. Sim. Acredito. Isso explica muita coisa. Carcereiro? — chamou o rei e o homem que havia se detido na porta adentrou o calabouço a passos miúdos. — Liberte-o — ordenou e os olhos do comandado arregalaram-se em temor.

Sabendo que hesitar não era uma opção, o guarda engoliu em seco e buscou o molho de chaves presos ao cinto, analisando-as com os dedos trêmulos, até encontrar a certa que libertaria as algemas da fera. Aproximou-se devagar, o coração batendo cada vez mais rápido, o medo fazendo brotar suor em sua testa. Tentou não olhar a fera nos olhos enquanto a desprendia. Levantou-se ao terminar de libertar as patas, mas bastou sua intenção de abrir a coleira no pescoço que emendava com a focinheira para ouvir o novo comando do superior.

— Deixe-o com a focinheira por enquanto, apenas me dê à chave — pediu, estendendo a mão para receber o objeto o qual o carcereiro não demorou desprender do restante do molho e entregá-la nas mãos do rei.

Benjamin desprendeu a corrente da focinheira do chão e ele próprio a repassou às mãos de Crispian.

— Seu novamente — promulgou. — Ou, melhor..., — sorriu com malícia ao unir sua mão a de Crispian na passagem da corrente. — nosso bichinho de estimação.

Crispian tentou esboçar um sorriso de contentamento, mas seus olhos se encontram com os de Earthen e o calafrio que percorreu sua coluna o paralisou. O olhar de Earthen para a sua mão unida ao do rei não era frio era congelante, ao mesmo tempo que fulminante.

...

As chamas subiam tão alto que pareciam tocar o céu.

O céu, que naquela noite era um manto negro, límpido e estrelado, diferente do nublado e tempestuoso dos últimos dias daquele inverno rigoroso, seria o único teto de Lady Francine e seu neto aquela noite.   

Nos olhos da criança o brilho das chamas era refletido de forma fantasmagórica. O recém-nascido parecia bem acomodado no colo da avó que escapou com ele nos braços antes da chegada dos seus próprios servos, que atearam fogo no lugar que chamaram de lar durante gerações.

Tratava-se de uma mulher educada para cuidar do seu homem e dos filhos, mesmo que quisesse ela não teria o que fazer para proteger sua casa, restando como sua única opção fugir.

Lembrou-se das palavras de Edward que nunca deixou de reclamar a falta de mais filhos. O marido nunca mediu as palavras quando o assunto era jogar-lhe na cara a falta de herdeiros. Dizia que um lorde sem muito filhos não era um lorde por completo. E, em sua ausência e na do único filho, não haveria um líder para proteger sua família e defender sua morada, como naquela ocasião.

Por isso a casa estava queimando naquele instante: a culpa era dela, Francine, por ser infértil. E, de certa forma, estava feliz por seu querido Edward ser apenas uma cabeça sem vida a qual carregava junto com os pertences que conseguira juntar em uma trouxa antes de fugir.

— É, querido, nunca mais ouvirei você reclamar por não ter tido uma casa apinhada de filhos e que sou uma árvore seca que não pode dar frutos.  

— Eu, milady?

A pergunta veio da criança no colo de Francine, a voz soava doce e infantil, porém as palavras eram ditas perfeitamente, quase sem erros. Às vezes Sebastian errava apenas a pronúncia ou a concordância da frase, certamente por ele ainda não ter conhecimento das regras de linguagem. Mas era algo que ela já estava começando a corrigir.  

Os olhos grandes e redondos encaravam-na com uma estranha firmeza, ansiando por uma resposta.  Sebastian tinha apenas três dias de nascido e já tinha a aparência de uma criança de um ano e falava muito melhor que uma criança de cinco.  

— Estava falando com seu avô, querido — Francine o confortou. — E eu já disse para me chamar de “vovó”.

— Esqueci. Vovó. Desculpa? — ele levou a mãozinha na boca, passando a arranhar os dentes nela.  

Lady Francine calmamente puxou a mão da boca dele, que já estava com as costas toda arranhada e o repreendeu.  

— Já disse para não fazer isso. Está machucando sua própria mão. Está coçando tanto assim que não consegue controlar?

— Coçando? — ele pendeu a cabeça para o lado.

Francine olhou o pequeno em seu colo longamente, por mais que o neto tivesse nascido com aquelas anormalidades: dentes, presas e sabendo falar, ele ainda era uma criança e desconhecia o significado de muitas palavras.   

— “Coçar” é o ato de aliviar uma coceira, a coceira é uma sensação... — ela se deteve ao não encontrar exatamente as palavras para explicar aquela sensação. — Difícil de explicar por sinal. Mas, veja — ela apanhou o punho da criança a fim de mostrar a ele os arranhões, mas eles haviam desaparecido.

A criança olhou da avó para o punho ainda curioso. Francine desistiu, ajeitou o neto que começava a pesar em seu braço e passou a caminhar.

— Esqueça, querido.  

— Tá.

— Melhor continuarmos, temos uma longa caminhada pela frente.

— Aonde vai, vovó?

— “Aonde iremos” ou “Aonde Vamos” é o correto quando está se referindo a mais de uma pessoa. No caso, somos duas pessoas. Você e eu.  Então é “aonde iremos”.

— Aonde iremos, vovó? — ele repetiu a frase empregando as correções necessárias, o que inflou Francine de orgulho.

— Bem melhor — ela assentiu, satisfeita. — Por enquanto, vamos tentar encontrar um abrigo para passar a noite. Trouxe dinheiro e algumas joias, poderemos nos virar por algum tempo. Está com fome?

Ele balançou a cabeça e os cabelos acinzentados moveram-se junto com o balançar.

— Comi bastante, vovó.  

— Mesmo? Não sei como conseguiu comer aquele gordo e nojento do Voen. Você tem um apetite estranho, sabia?

— Tenho? — ele perguntou, pendendo a cabeça para o outro lado.  

— Sim. Mas você é fofo de qualquer forma — ela abriu um sorriso, encantada com o gesto inocente do neto, que agora tinha as bochechas rosadas. — Lembra um pouco seu pai quando era criança. A cor dos olhos principalmente.

— Meu... pai?

— É, seu pai. Crispian de Valdávia. Meu filho, por isso sou sua avó.

— Meu pai — ele sorriu, mostrando as presas. — Vamos até meu pai, vovó?

— Não, querido. Não podemos nos arriscar ir até o castelo. Não agora. Vamos encontrar um lugar seguro para ficar primeiro.    

— Castelo?

— Sim, o castelo de Austin, em Valais, é onde vive o rei, a rainha, seus príncipes e princesas, são as pessoas mais poderosas e importantes de um reino.

— Um reino?

— Sim, sim, um reino, lindo, cheio de súditos. Era o sonho do seu avô viver lá, sabia?

— Cabeça, vovó! — ele apontou e esticou os bracinhos para a trouxa que avó carregava nas costas.

— Não, não. Já disse que não se deve brincar com a cabeça do seu avô, Sebastian.

— Não?

— Não.

E seguiram viagem, conversando.

...

 Anabel era alta, tanto quanto Benjamin, e magra. Tanto que o vestido não acentuava nenhuma curva, esticava-se solto no corpo, tornando difícil distinguir o que era seio e o que era excesso de tecido em seu busto ornamentado estrategicamente para criar a ilusão de ótica de que ali havia algum volume. Se não fosse a roupa feminina e os longos cabelos castanhos encaracolados, Anabel seria mais masculina que Crispian na opinião de Benjamin. Crispian, ao contrário da noiva, tinha um rosto perfeitamente harmonioso, redondo, com lábios desenhados e rosados em formato de morango, nariz pequeno, levemente arrebitado e com a ponta arredondada. Anabel tinha o rosto angulado, lábios finos e sem carne, as bochechas chupadas, o nariz longo, os olhos castanhos, que eram estranhamente afastados um do outro além de miúdos, as sobrancelhas eram grossas e quase se emendavam uma na outra. Ainda era muito nova, quinze anos, alguns justificavam que esse era o fator por ela não ser bonita; ainda não havia desabrochado. Benjamin discordava sempre. Beleza era algo, na concepção do novo rei, uma dádiva dada há poucos e provinda da nascença. Como lorde Crispian que conseguia ser mais belo que as mulheres mais belas com quem ele se deitara.

Ainda não bastasse tudo que lhe fora assaltado em beleza, a noiva conseguia ter mais pormenores, adendos da própria personalidade, como ser pouco graciosa, falar alto, ser intrometida, ríspida, mandona e além de extremamente irritante. Totalmente oposto de lady Catherine, esposa de Crispian.

Fingira não conhecer a mulher de Crispian, mas sabia muito bem de quem se tratava. Catherine possuía uma beleza sóbria, pincelada de mistério, além de ser dedicada, educada e pouco ruidosa. Até nisso o jovem lorde de Valdávia sobressaíra a ele que era um rei.

Durante algum tempo, em segredo, desejou Catherine para ser sua rainha. Muito antes de conhecer Crispian, quando ainda era mais jovem e Catherine media menos que meio metro. Pensou em meios de consegui-la, mas Ludelly, seu primeiro educador, o desiludira: “Jamais poderá casar-se com uma bastarda, alteza. Tire essa ideia ridícula da cabeça. Reis não amam. Reis fornicam e tem uma rainha decente, de sangue nobre, para dar-lhe herdeiros de nível. Essa coisa de amor, paixão, sentimentos, é algo para a plebe e para mulheres”. Nunca chorou tanto.

Odiou ser príncipe naquele instante e ter que ser rei no futuro. Mas jurou que quando o fosse, faria com que todos pagassem pela angústia que sentiu quando criança ao ter seus desejos e sentimentos frustrados, quebrados, reprimidos, como se fosse algo vergonhoso. Mostraria ao seu reino o verdadeiro significado de “vergonhoso”. Por esse motivo não tinha a mínima intenção de casar-se com Anabel e manter a promessa feita entre seus pais, Dalton e Vidal, que os prometeram antes de virem a vida. Como se filhos fossem propriedades rurais as quais pudessem reger, pisotear e repassar como bem entendessem.

Sua intenção, entretanto, não era se livrar de Anabel para recuperar Catherine, nem uma das duas mulheres lhe interessava mais. Sua vontade era fazer com que todos seus desejos fossem realizados. Todos. Agora era rei. Ninguém mais tinha poder para detê-lo ou contrariá-lo. Encontraria uma forma de anular aquele noivado, nem que fosse preciso usar meios drásticos, e botaria toda aquela gente, a família de sua noiva, os Reya, para correr do seu castelo.

A porta do seu quarto se abriu de maneira abrupta e Anabel se pôs para dentro acompanhada das amas de criação, que a seguia para onde fosse. A mais velha era uma senhora corpulenta, a de idade mediana era uma mulher bonita e de cor, e a terceira era tímida e de olhar baixo. Não se lembrava do nome de nenhuma delas e aquilo sequer lhe importava.  

— O que pensa que está fazendo, Ben?! — gritou Anabel, como de costume, pouca graciosa, em tom de cobrança, como se já fosse sua rainha.

— Milady, por favor, não é correto entrar no quarto de um homem — alertou a senhora corpulenta ao encalço dela. — Sua mãe irá nos repreender.   

— Benjamin é meu noivo, Nora! Serei sua futura rainha, o que há de errado nisso?

A mulher quis argumentar, mas Benjamin se pôs de pé em um sobressalto, aproximando-se da noiva, que era praticamente da sua altura, e parou diante dela, repousando suas mãos grandes sobre os ombros ossudos. 

— Saiam — ele ordenou para criadagem, mas manteve o olhar firme na jovem a sua frente. As mulheres se entreolharam em polvorosa, sem ter certeza se deveriam ou não cumprir aquela demanda e deixar a jovem milady sozinha. — Eu sou rei — Benjamin fez questão de alertá-las —, não me façam repetir uma ordem.

Tromparam umas nas outras ao tentar sair do local mais depressa do que suas pernas conseguiram se mover e fecharam a porta ao sair. Anabel sorriu satisfeita. “Esse é o meu rei”, pensou orgulhosa.

— Agora, diga-me, minha cara. Do que falas? Para que tanto alarde?

Anabel empertigou-se e seu semblante alargado se franziu.

— Do que eu estaria falando, Ben? Estou falando daquela fera pulguenta e daquele lordizinho meia-tigela com cara de garotinha.

Um sorriso desenhou-se irônico nos lábios de Benjamin.

— Saiba, Ana, que esse “lordizinho meia-tigela” tem mais chances de ser a minha rainha do que você.

A garota fitou o noivo por um breve instante, conseguindo deixar seu semblante ainda mais endurecido. Mas quando aquela alegação permeou em sua mente e se fez compreensível ela disparou a gargalhar, alto e desajeitadamente, fazendo com que o rei tirasse as dos ombros dela.

— Ben, Ben, você é um comediante. Hilário por sinal!

Fora a vez de Benjamin engessar sua expressão, encarando-a com mais vigor.

— Eu não contei uma piada, Ana. É verdade: prefiro mil vezes me casar com Crispian do que com você.  

— Se casar com um homem? Você só pode estar embriagado, Benjamin! Você não pode se casar com outro homem!

— Agora eu sou rei. Eu posso tudo.

— Mesmo sendo rei você não tem o poder de refazer as regras naturais e as divinas.

— Será? — ele a desafiou, arqueando uma das sobrancelhas.  

A garota tornou a ficar séria.

— Está falando sério?

— Nunca estive mais sério em toda minha vida, Ana.

Enquanto os olhares cruzados dos dois se mantinham firmes, Anabel tentou encontrar na pose fria e imponente de Benjamin algum vestígio de que ele estivesse apenas tentando desestabilizá-la e fazê-la chorar com suas piadas de mau gosto como fazia quando eram crianças.  Ele sempre a tratara daquele jeito, mas apesar de chamá-la de feia e zombar de si, ele nunca demonstrou ser contra a união futura de ambos. Engoliu em seco. Batidas na porta se fizeram e o capitão da guarda anunciou do lado de fora.

— Lorde Crispian, Vossa Majestade — anunciou.

Anabel sentiu um tremor e viu com terror o semblante do noivo suavizar e um sorriso bonito ganhar sua tez antes toda endurecida.

— Permita que ele entre, Dorcas.

— Sim, Majestade.

Estava de costas para a porta quando o som da mesma se abrindo encheu o ambiente. Anabel retesou-se enquanto ouvia os passos daquela pessoa aproximando-se até sentir a presença dele passar ao seu lado, também sentiu a do lobo que andava sempre ao seu lado, acompanhando-o como se fosse uma sombra. Os dois passaram por ela e lorde Crispian curvou-se perante o rei, agachando-se com um joelho dobrado ao chão.

Earthen sentou-se ao chão ao lado do seu amo, ainda usava coleira e a focinheira de bronze, fora a condição imposta por Benjamin para que ele pudesse andar livremente pelo castelo era uma forma de assegurar que ele não atacaria ninguém, ou ele próprio.    

— Mandou-me chamar, Majestade.

— Erga-se, milorde — Benjamin estendeu a mão para ajudá-lo a ficar de pé. — Deixe-me agraciá-lo.   

Aquela forma de tratamento tão íntima atingiu Anabel como um tapa na face.  

Crispian apanhou a mão do rei que lhe era oferecida sem pudor algum e ficou de pé, Benjamin segurou-o pelos ombros e virou-o para que ficasse de frente para sua noiva. Passou os braços por debaixo dos dele e o enlaçou no peito, encaixando seu queixo no vão entre o pescoço e o ombro do lorde.

— Veja, Ana — soprou o pedido. — Aprecie a beleza que nunca irá ter.

Os olhos castanhos de Anabel se encheram de lágrimas, mas ela as segurou bravamente, enquanto via os dedos do seu noivo percorrer pelo tecido quase transparente da camisa do lorde de Valdávia. A pele branca e rosada, até mesmo os mamilos eriçados, podiam ser vulgarmente vistos a olhos nus. Mas os olhos dele apesar de esplendidos na cor e na beleza, não transmitiam emoção alguma, pareciam opacos, perdidos. Sabia que o lorde passara por dias difíceis: fora parcialmente culpado da morte do rei, o pai foi morto pelo próprio Benjamin, ele perecera no calabouço por mais de uma semana e há alguns dias havia recebido a notícia que sua casa havia se consumido em chamas e não tinham certeza que a mãe e a esposa grávida haviam escapado.

Mesmo assim, não conseguiu sentir pena, a existência dele era uma afronta à sua.

— Por mais belo que seja ele é um homem, um homem jamais lhe dará herdeiros, Ben. Irá encher seu reino de filhos bastardos? Deseja ser a piada do século? Você só pode estar louco.

Os dedos de Benjamin perambularam pelos lábios de Crispian, Anabel crispou os punhos mais seguramente.

— Você não vai humilhar a mim e a minha família com essa ideia ridícula, Ben!

— Eu sou rei — repetiu aquela frase por demais repetida, segurando o queixo de Crispian e erguendo o rosto dele até que conseguiu passar sua língua úmida sobre eles. — Quantas vezes terei que repetir que posso tudo? — lambeu seus próprios lábios, como se tivesse provado uma deliciosa sobremesa.

Anabel engoliu em seco, suspirou fundo e rebateu.

— Só se for por cima do meu cadáver, Ben! — gritou e deu as costas, seguindo em direção a saída a passos pesados. Estava enojada só de ver aquela cena.

— Que seja feita vossa vontade, milady — respondeu Benjamin antes que ela deixasse o quarto.

Anabel arrepiou-se ao ouvir aquilo que foi claramente uma ameaça, entortou o pescoço e visualizou seu rei agora sentado na cama e com o lorde de Valdávia acomodado em uma das suas pernas, do lado deles, a fera repousava graciosa e imponente, fitando-a com aqueles olhos azuis gelados e indiferentes. Havia algo de obscuro e demoníaco ali. Apesar de belos, os três pareciam uma pintura que retratavam algo horrendo, como um conto de horror sobrenatural. Engoliu em seco mais uma vez, apertou a maçaneta entre seus dedos e a girou, apressando-se em se retirar do local fazendo o sinal da cruz ao passar para o lado de fora.

Continua...


Notas Finais


Capítulo 10 finalmente postado! /o\ *Comemora*
Eu gosto de números redondos. :D
Pois é, Crispian, apesar de ser libertado do calabouço, continua encarcerado. E ainda recebendo uma notícia trágica atrás da outra.
Benjamin continua querendo mostrar ao mundo que ele é rei e manda, e quer fazer de Crispian sua rainha, será que ela vai conseguir?
Conhecemos também, nesse capítulo, a Anabel, noiva de Benjamin. E vimos um pouco mais da fofura que é o Sebastian.
Bem, fiz minha parte, minna. Agora é com vocês! Comentem! o/
Beijos, até o próximo!


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