História As Origens de Sebastian - Capítulo 17


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Categorias Histórias Originais
Tags Andreiakennen, As Origens De Sebastian, Drama, Fantasia, Original, Romance
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NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Fantasia, Lemon, Romance e Novela, Yaoi (Gay)
Avisos: Homossexualidade, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 17 - Capítulo XVII - Origens - Parte II


As Origens de Sebastian

Capítulo XVII

Origens – Parte II

 

Caçar era divertido.

Mas ficar a espreita da caça era ainda mais. Analisar seu comportamento, deixar-se ser notado e se agraciar com o pavor que causava. Conseguia ouvir o coração pulsando, as veias dilatando e o sangue correndo mais rápido. Até mesmo o odor da presa se tornava mais intenso, invadia suas narinas e atiçava sua fome.

Amava correr atrás da sua caça, sentir o quanto era veloz e superior. Estava atrás de um cervo que encontrara amoitado entre os arbustos, mas assim que o animal sentira sua presença ameaçadora, desenfreara em uma corrida desesperada.

Farejava o vento. Sentia o cheiro e o pavor do animal se alastrando pelo ar. Era como um combustível que estimulava seus sentidos.

Sua agilidade nessa ocasião surpreendia a ele próprio, além do impulso com que conseguia saltar, da força com a qual conseguia agarrar. Era capaz de sentir toda a potência do seu empunhe ao ouvir o estraçalhar dos ossos. A vida da vítima se esvaía antes mesmo que ela pudesse compreender e urrar em desespero.

Ao ter o corpo inerte em seus braços, fincava as presas na carne, atingia a artéria principal e conseguia sorver todo sangue que supria suas necessidades.

Em seguida, lançava a carcaça na carroça, juntando-as com as demais que conseguira no dia, e as levaria para a vila, onde trocaria a carne por moedas. Apenas o sangue, e ainda quente, saciava seu paladar. Não gostava de consumir a carne, pois seu gosto era ruim.

O velho comerciante, desconfiado, analisou as peças. Constantino sempre cortava parte do pescoço no mesmo lugar. Não conseguia compreender o método que ele usava, nem mesmo como um moleque de dezesseis anos, franzino, conseguia caçar daquela forma.

— Não sei como consegue drenar todo o sangue desses bichos, garoto — o homem resmungou sua dúvida. — Mas é bizarro.

— Eu já expliquei uma vez, senhor — Constantino revirou os olhos. — Eu os penduro de cabeça para baixo, amarro-os em uma árvore e o sangue sai pelo corte no pescoço.

— E você quer enganar a mim que consegue erguer esses animais pesados com esses braços raquíticos? Você nem tem pelos no saco ainda.

O garoto respirou fundo, tentando evitar um novo revirar de olhos.  

— Senhor, apenas me pague, por gentileza. Eu preciso voltar para casa. Está ficando tarde.

Muito a contragosto, o homem retirou as moedas do saco que trazia amarrado na cintura e lançou-as no chão.

Não foi preciso o garoto abaixar-se para contar e notar que o valor pago estava a menor.

— Três moedas? Isso paga apenas uma peça.

— Não vou conseguir vender toda essa carne antes que apodreça — justificou.

— Mas eu preciso do dinheiro para comprar ervas medicinais e mantimentos para o meu pai doente.

— Foda-se você e o moribundo daquele decrépito. É melhor deixar aquele inútil morrer, está com o pé na cova mesmo.

— Seu... — Constantino resmungou, mas cerrou os punhos, tentando controlar a raiva. — Eu vou levar as outras duas peças e tentar vender no vilarejo vizin...

O homem interrompeu a fala do mais jovem ao desembainhar o facão que carregava no cinto e apontá-lo para o pescoço do garoto.

Constantino sentiu todo seu corpo pulsar em reação.

— Suma daqui, maldito — demandou o comerciante. — Eu já paguei pelo que me ofertou. A mercadoria é minha, se encostar nela, arranco sua mão fora. Agora, saia. Desapareça. Estou sem paciência para escórias como você hoje.

O homem, ao perceber que intimidou seu jovem fornecedor, ao ponto de ele ficar completamente paralisado, embainhou o facão de volta, virou as costas e saiu puxando as carcaças que estavam amarradas umas nas outras para onde faria a desossa.

Constantino encarou as moedas que brilhavam no chão com um bico formado com seus lábios, fechou os punhos com ainda mais força fazendo as unhas longas adentrarem sua pele. O sentimento que o invadira fazia seu peito queimar, as presas latejarem e o faro aguçar ao ponto de expelir o cheiro do sangue fluindo nas veias daquele homem para seu interior.

Abriu a boca e passou a língua pelas presas que cresciam, mas, de repente, um toque suave em seu braço fez seus instintos recuarem.

— Tino?

Piscou algumas vezes e a visão antes turva de ódio clarearam, revelando a filha do comerciante.

— Lea?

A jovem sorriu, um pouco tímida, ajeitando os cabelos longos e loiros atrás da orelha.

— Está sangrando? — ela observou ao trazer uma das mãos do rapaz nas suas, ficando surpresa ao girá-la e notar que não havia ferimento algum.

— São dos servos — Constantino explicou rápido.  

— Entendi. Que susto. Pensei que você tinha se ferido. Ou, pior, que meu pai o tivesse ferido. Ele não está muito bem hoje. Perdoe-o, Tino.

O garoto respirou fundo e puxou sua mão de volta. Abaixou-se e apanhou as moedas no chão.

— Eu não vou mais trazer caça para o seu pai, Lea — declarou, expondo as moedas para a menina. — Olha só o que ele me pagou por três servos grandes! Com certeza ele vai conseguir dez vezes mais esse valor vendendo os pedaços daquela carne para os moradores.

Os olhos azuis esverdeados da menina se encheram de lágrimas.

— Eu imaginei que isso aconteceria cedo ou tarde, Tino.

— É. Vou fornecer para quem pelo menos me pague o devido. Não posso comprar mantimentos e ervas para tratar meu pai desse jeito.

— Desde que a mamãe morreu o papai ficou assim, amargo.

— Sim, eu lembro, ele era um homem melhor.

— De qualquer forma, não é certo o que ele vem fazendo com você, por isso, compreendo se não vier mais — a menina concordou com pesar na voz, e, se enchendo de coragem, aproximou-se do jovem e depositou um beijo sobre seus lábios. Em seguida, afastou-se, observando a reação dele.

Sem compreender muito bem o que fora aquele gesto, Constantino tocou os próprios lábios com a ponta dos dedos, sentindo a umidade deixada pela boca de Lea.  

— O que foi isso?

— Um beijo.

— Beijo?

— Sim — ela assentiu, sentindo um leve ardor região das bochechas. — Como você não conheceu sua mãe, talvez não entenda muito bem sobre essas coisas envolvendo sentimentos. Mas um beijo é uma manifestação de carinho profundo. Isso significa que eu gosto muito de você, Constantino — ela confessou e deu um longo suspiro. — Há muito tempo, na verdade. Desde quando nos conhecemos. Mas o papai jamais permitiria que nos casássemos, por considerá-lo sem posses. Acabou que ele me prometeu para alguém que considera mais digno, o filho do meio do líder da Vila.  

— Lea! Onde infernos se meteu, garota?! Preciso da sua ajuda com a desossa! — gritou o pai, fazendo a filha se retesar e recuar assustada.  

— Adeus, Tino!  

Constantino não se manifestou, não sabia o que responder, apenas esperou que Lea se fosse para guardar as moedas no bolso da calça e partir.

Seu destino era a casa da botânica.

Todavia, acabou esbarrando com a mulher no mercado quando fazia compras.

— O que quer que eu faça com isso? — a botânica desdenhou as duas moedas que o garoto oferecera.

— Eu não consegui mais que isso. Preciso que veja meu pai, Morgana, por favor.  

— Não preciso vê-lo para saber que está morrendo, Tino. Acostume-se com a ideia. Humanos nascem, crescem, vivem, se reproduzem e morrem. Seu pai completou o ciclo dele, deixe-o partir.

— Mas ainda é cedo para ele ir!

— Cedo realmente é — ela concordou, erguendo os ombros e as palmas das mãos para cima como se dissesse “fazer o quê?”. — Não considero seu pai um homem tão velho. Mas está judiado do tempo e doente, temos que confessar que ele se tornou um peso. Quando ele se for você poderá seguir um novo rumo. Você é jovem, bonito, inteligente e destemido. Poderá deixar essa vila morta e ir atrás de um futuro melhor. Quem sabe ser servo de um nobre. Não precisará acabar com sua beleza e juventude se embrenhando nessa mata dia e noite atrás de caça para aquele verme explorador do Nicolau.

 Constantino pensou em dizer que não iria fornecer mais carne para Nicolau, mas desistiu ao recordar-se dos olhos tristes de Lea.  

Balançou a cabeça para retomar seu foco e notou que estava perdendo Morgana de vista, saiu correndo atrás da mulher e acabou se esbarrando e derrubando o reverendo da Vila.

— Perdão, senhor — pediu, segurando o homem por um dos braços para ajudá-lo a ficar de pé, mas este o excomungou. 

— Não encoste em mim, criatura! Eu levanto sozinho.

O reverendo se ergueu por conta e, sem explicar o motivo de tanta repugnância, foi tomando distância com certa urgência, limpando o braço onde Constantino havia encostado.

Mas Constantino concluiu que aquele não era o dia de sorte para o servo de Deus da Vila, pois no afoite de tomar distância dele, o homem acabou por baquear com as costas da botânica, de quem parecia sentir o mesmo asco, pois o viu desviar dela com a mesma expressão de assalto e aversão que tivera com ele, acrescentando ainda o sinal da cruz ao se afastar.   

Morgana aproximou-se de Constantino rindo, achando graça da expressão confusa que o jovem exibia no rosto.

— Eu não sabia que esse louco do reverendo Bento agia desta forma com você também, Tino.

— A luz dele é fraca — Constantino declarou naturalmente, com os olhos semicerrados na direção do homem que se distanciava afoito.  

— Luz? — Morgana o questionou. — De que luz está falando?

O questionamento da botânica fez com que o rapaz recordar-se dos alertas feitos por seu pai: jamais contar as pessoas comuns que nascera falando, que se alimentava apenas de sangue de animais e que era capaz de enxergar o brilho de suas almas. Nenhum humano compreenderia e acabaria correndo riscos.

— A Fé — retificou. — Eu quis dizer: “a fé do reverendo é fraca”.

— Hm, sim. Entendi e concordo. Um homem de Deus que não suporta a tentação tem sua fé inabalável bastante abalável por sinal. — a mulher sorriu. — Eu acho graça e ao mesmo tempo sinto pena desses pobres coitados que se dizem de Deus e temem o pecado. Eles acreditam que a beleza é uma dádiva do demônio e que as pessoas belas, como eu e você, somos servas do maligno, prontas para seduzir e levar os homens de bem para o caminho da perdição.

— Caminho da perdição?

— Sim, o delicioso caminho da perdição — ela explicou, com um sorriso malicioso desenhando-se em seus lábios carnudos. — Chamado também de pecado da carne. É quando duas pessoas se deitam juntas apenas para saciarem o desejo do corpo, não com a intenção de reprodução como a igreja prega ser o correto. Elas exploram e unem seus corpos em busca de um prazer incomensurável.

— Eu não entendo do que está falando, Morgana. Achei que o reverendo Bento não gostasse de mim por outros motivos.  

— E quais motivos seriam esses? — ela riu e apanhou o garoto pelo braço, mudando bruscamente de assunto, mais disposta a ajudá-lo. — Vem, vamos pegar as poções para o seu pai.

— Você vai visitá-lo comigo?

— Não disse isso. Mas vou pensar no assunto depois que me pagar!

O garoto estava levando as mãos nos bolsos para apanhar as moedas, mas Morgana o impediu.  

— Não, deixe suas moedas onde estão. Compre mais mantimentos para ele com elas. Você me pagará de outra forma.  

— Outra forma?

— Sim. Quantos anos você tem, Tino?

— Dezesseis.

— Já tem pelos?

— Por que todos se preocupam com esses benditos pelos?

A mulher riu alto.

— Acho que está passando da hora de eu apresentá-lo a esse caminho da perdição.

Depois de dizer isso, Constantino fora arrastado para cabana da botânica.

Morgana aprendera o ofício com o pai, que além de botânico era o curandeiro da Vila. O pai a criara sozinho desde que a mãe faleceu consumida por uma enfermidade que deteriorou seus órgãos internos e a matou dolorosa e vagarosamente. Tinha lembranças vagas da mãe doente, que pouco falava e muito tossia e vomitava sangue.

A fatalidade voltou a se repetir dez anos após o sepultamento da mãe. Havia recém completado quinze anos, quando perdeu o pai, que fora brutamente assassinado por um morador, que após surrá-lo até que não pudesse mais se levantar do chão, esmagou a cabeça dele com uma rocha, tudo isso depois de concluir que as ervas receitadas por ele havia matado um dos filhos ao invés de curá-lo.

Morgana estava noiva na época e para finalizar a sequência de desgraças em sua vida, o noivo desfez o compromisso, por não considerar digna de ser sua esposa a filha de um assassino. 

Sozinha e abatida, Morgana tomou uma grande decisão: não exerceria a ofício herdado do pai. Ela perdera completamente a motivação de prestar serviços para as mesmas pessoas que viraram as costas para ela e apoiaram a atitude selvagem do assassino.

Todavia, pouco tempo se passou e sem terem a quem recorrer, os habitantes vieram bater à porta da órfã atrás de ajuda para os doentes. Naquele momento, Morgana fez questão de recordá-los ao negar-se, alegando não ter o conhecimento necessário para medicar os doentes, pois não tivera tempo o suficiente para o aprendizado adequado, visto que seu mentor — o pai — fora eliminado antes.

A filha do curandeiro ainda fez questão de ressaltar que, mesmo se soubesse, não o faria, pois não queria ser condenada a morte caso não conseguisse salvar uma vida.

Mesmo assim, alguns continuaram insistindo, e graças a pessoas, as quais Morgana considerava gentis e de boa índole, decidira vender no mercado da Vila ervas pré-indicadas para moléstias menos nocivas, pois ainda as cultivava e precisava arrecadar dinheiro para outras necessidades básicas.

Entretanto, se alguém a procurasse relatando sintomas mais graves, ela o encaminhava ao reverendo, para que Bento pudesse encomendar a alma do moribundo para Deus.

Morgana sempre fora uma mulher de grande beleza e sensualidade, pois utilizava dos seus conhecimentos botânicos para manter-se saudável e bela, causando assim inveja nas esposas velhas e deterioradas de muitos moradores. E mesmo tendo vinte e sete anos, uma idade considerada avançada, a botânica resplandecia juventude de causar cobiça em meninas de doze.

Apesar de ser muito cortejada, a sensual morena se entregara ao longo da sua vida somente para quem a interessava de verdade. Fora amante de poucos homens, mas todos tinham quase o mesmo perfil: eram dóceis, frágeis e os quais ela era capaz de dominar, instruir na arte do sexo. Nunca desejou ser subjugada, por isso, optara de forma incisiva pelos mais jovens, inexperientes, ansiando por iniciarem nos prazeres da carne.

E vinha percebendo a algum tempo que sentia uma atração desmedida por Constantino. O garoto era de uma beleza rara e uma doçura afável, completamente o oposto dos porcos daquela Vila. Sempre o imaginara como um anjo, puro, singelo e fácil de conduzir ao pecado.

O vira chegar ainda pequeno nos braços daquele homem acabado, mas determinado em tomar conta do único filho. O segurara no colo, o aconchegara em seu peito e agora o desejava novamente entre seus seios, tomando-os em sua boca de preferência.

Puxou o rapaz para dentro da sua cabana e guiou-o até seu quarto. Pediu para que ele se sentasse na cama e sentiu arrepios ao ter os olhos dele fixos em seu corpo, a expressão sempre séria ainda mais difícil de decifrar.

Respirou fundo e puxou o nó que prendia o espartilho nas costas, o vestido se afrouxou em seu corpo magro, de curvas bem moldadas, e desceu-o pelos ombros, permitindo-o cair pela cintura, descobrindo o busto que pulou livre. A botânica girou o acumulado de tecido no quadril e forçou-o para baixo, aproveitando para levar junto a roupa íntima que vestia por baixo. Quando toda a roupa chegou ao chão, ela a empurrou para o canto do quarto, retirou a fita dos cabelos negros ondulados e soltou-os.

Parou, respirou fundo e sentiu pela primeira vez um tremor ao ficar completamente nua diante de alguém desejado.

Mas, diferente do que esperava Constantino não mostrou nenhuma reação, continuou apenas encarando-a com seus orbes azuis claros e brilhantes.

— Não vai dizer nada?

— Eu deveria dizer algo?

— Sim, pelo menos, se gostas do que vê.

— Não sei — ele foi direto e sincero como era do seu feitio.

Morgana riu.

— Está diante de um corpo feminino completamente despido e está me dizendo que não sente nada, Tino?

Da mesma forma que acontecera com Lea, Constantino não soube o que responder, sentia-se como se estivesse sendo emboscado e que suas respostas poderiam decretar um destino cruel.  

A reação apática do objeto de desejo de Morgana fez sua alta-estima inabalável se abalar. Ela nunca estivera diante de alguém que não reagisse perante sua beleza nua. Constantino era mesmo diferente. Porém, ela não era uma mulher de deixar-se intimidar facilmente e se sua bela presa ainda não a cobiçava, conhecia meios e métodos eficazes de despertar os desejos mais profundos de qualquer homem. 

 Aproximou-se de vagar e parou diante do rapaz, apanhou uma de suas mãos e fez com que ele a repousasse sobre seu seio, questionando-o em seguida.

— E agora? Sente algo?

A nova negativa fez Morgana dar uma risada mais alta e desta vez nervosa.

— Deus... você não pode ser desse mundo.

A observação espantou Constantino. Morgana estava esperando alguma reação que deveria ser “natural” vinda da espécie humana, mas não tinha ideia qual era e começou a sentir-se receoso por isso.

Foi quando uma imagem atravessou a mente do rapaz: os animais em época de acasalamento. Nunca compreendera a união estranha entre um macho e uma fêmea, mas percebia o comportamento alterado de ambos, principalmente o cheiro. Morgana estava exalando um odor parecido, sentia o sangue dela bombeando mais rápido, o calor da pele aumentando.

Era isso que ela queria? Deduziu. Acasalar com ele?

Pensar no ato fez a respiração de Constantino mudar de ritmo sem que fizesse ideia do motivo e sua mão ganhou força, fazendo-o apertar o seio entre ela e receber um gemido em resposta.

Morgana entreabriu os lábios e sorriu satisfeita ao notar alguma mudança.

— Você finalmente compreendeu?

— Hm — o jovem assentiu. — Você quer se acasalar comigo em troca do pagamento para examinar o meu pai.

A mulher gargalhou com a forma que Constantino compreendera, mesmo que ele não tivesse de todo errado.  

— Ah, Tino. Você é mesmo único. Tão lindo, tão inocente e tão sincero. As mulheres não são lobas no cio para quererem “acasalar”, mas... o termo não deixa de estar correto. Enfim... — ela suspirou. — Você quer?

Ele concordou com um assentir de cabeça.

— Apenas não sei ao certo o que fazer.  

— Claro que não sabe, e eu estou aqui para norteá-lo. Vamos começar tirando suas roupas.

Houve um novo meneio positivo de cabeça e Constantino deixou-se despir. Fora naquele dia que teve seus instintos despertos para os prazeres do sexo, sendo tocado, acariciado, até chegar ao ponto que seu sexo enrijeceu e foi consumido e comprimido pelo órgão sexual feminino.

Mas o resultado a princípio fora assustador, os movimentos dos dois corpos juntos, o calor resultado pelo atrito das peles, o arrepio causado pelo roçar da respiração, dos pelos e cabelos, fizeram-no perder o controle, a consciência, suas presas latejaram como nunca e cresceram sem que pudesse detê-las, os olhos turvaram e as unhas se cravaram na carne suculenta e macia do corpo de Morgana.

Em um determinado momento, acabou tomando o controle do ato, e trocando-os de posição. Sua atitude inesperada surpreendeu a mulher que fora virada de bruços e penetrada no orifício traseiro.

Morgana tentou argumentar que ele estava fazendo errado, que não era ali que ele deveria adentrar e sim mais embaixo, mas ela perdeu a voz ao ser estocada e sentir a dor de ter o membro masculino enterrado em uma região nunca antes explorada e nada lubrificada. A ardência que sentiu fora tamanha que a mulher não conseguiu conter o urro de dor e retesou-se, comprimindo o sexo do mais jovem dentro de si, não permitindo que ele se movimentasse mais.  

O grito fez Constantino despertar do transe, sacudir a cabeça de um lado para o outro e enxergar o corpo feminino diante dele; seu sexo estava encaixado na parte traseira, entre as nádegas redondas, brancas e macias, tais como vira os animais. Sentiu o membro comprimido e a pressão aumentou de repente, era como uma pulsação vinda do interior da mulher, que passou a gemer.

Abriu a boca e emitiu um grunhido dolorido.

— Está apertando — reclamou, apanhando os cabelos da botânica e puxando-os para trás, tentando fazer com que ela parasse.  

— Eu... não... consigo... controlar.

O anseio aumentou e Constantino não conseguiu segurar a necessidade sem limites de movimentar seu membro dentro da mulher e aproveitou que Morgana estava relaxando para fazê-lo.

Retirou seu sexo devagar e voltou a encaixá-lo, repetindo os movimentos de forma mais cadenciada e, mesmo entre os protestos de dor da botânica, só parou quando o orgasmo iniciou-se com dificuldade, fazendo-o debruçar-se sobre o corpo dela, afastar os cabelos volumosos para o lado e abocanhar o ombro alvo.

Morgana gritou com a dor da mordida, mas Constantino retraiu as presas do ombro apenas para subir a abocanhada para o pescoço de onde pode sorver o sangue que jorrou para dentro da sua boca causando uma explosão nova de sensações simultâneas, tanto em seu paladar, quanto no restante do corpo, adensando o frenesi entorpecedor do orgasmo.

Descobriu assim que o sexo era um ato perigoso para sua espécie, pois aflorava seus instintos de um modo ameaçador e o qual não era capaz de dominar por completo.

Mas com o decorrer do tempo aprenderia a comedi-lo.

Além de aprender sobre o prazer transcendente do sexo, descobriu que o sangue humano possuía um sabor inigualável e ainda era uma espécie de energético potente para sua estranha força.

Mas os problemas ocasionados não compensaram a nova descoberta. Graças ao seu ato incontrolado, Morgana entrou em uma espécie de coma profundo e a saúde frágil do pai se deteriorou.

Constantino tentou clamar para que o reverendo fosse encomendar a alma de Thomas para Deus, mas ele agiu da forma estranha que sempre agia ao vê-lo e mal quis atendê-lo.

— Perdão, meu pai — disse ao homem em seu leito de morte, agachando-se ao lado da cama e apanhado um das mãos frágeis, que estava quase em pele e osso, delicadamente entre as suas. — Não consegui trazer o reverendo.

Mesmo fraco, o pai abriu um sorriso singelo para o filho, e esforçou-se para alcançar o rosto dele com sua outra mão e tocá-lo.

— Eu estou de bem com Nosso Senhor, meu filho — garantiu com a voz fraca. — Minha única preocupação é com sua segurança quando eu não estiver mais aqui. Os moradores não te veem com bons olhos, principalmente o reverendo. É melhor que parta.

— Farei o que o senhor achar melhor.

— Não faça essa cara de tristeza, Tino — o homem retirou do pescoço o velho crucifixo de madeira que sempre carregara consigo e estendeu-o para o filho, que abriu a palma da mão para receber o objeto. — Antes da sua chegada, achei que tivesse apenas alguns meses de vida e, vejam só, passaram-se dezesseis anos desde então e eu não poderia ter sido mais agraciado nesse tempo — ele fechou o objeto nas mãos do filho. — Continue confiando em Deus, meu filho. Leve consigo esse objeto, é apenas um símbolo para que jamais se esqueça de ter fé. Se tiver fé, ele continuará protegendo-o das sombras que o seguem.

— Hm. Obrigado, meu pai.

— Eu quem agradeço por você ter aceitado ser meu filho, Tino. Eu fui muito feliz com sua chegada. Muito. Eu te amo.  

— Eu também te amo, meu pai.

Constantino compreendeu naquele instante que a vida se apaga de um corpo humano como a chama de uma vela soprada pelo vento. O pai se fora e ele conseguiu acompanhar a luz forte que era sua essência ascender aos céus sem nenhum empecilho.

Encarou o objeto, presente do pai, em suas mãos. Conseguia sentir vindo dele um calor confortável. Não sabia como era possível, mas notou que uma boa parte da luz intensa que emanara de Thomas penetrara naquele objeto. Entendeu, naquele momento, que o amor humano faziam deles seres mais poderosos do que conseguiam imaginar. Apenas o desejo imenso de protegê-lo, fora o suficiente para que aquele mero humano transferisse um pouco da sua essência de luz para um simples objeto feito de madeira.

E, exatamente como o pai previra, dois dias após sua morte, os moradores da Vila vieram no meio da noite, munidos de tochas, liderados pelo reverendo, gritando ensandecidos: “morte ao demônio!”.

Haviam descoberto Morgana debilitada e com dois furos estranhos no pescoço, definiu que aquele era o prelúdio do seu recomeço. Decidiu partir.

...

O vento frio correu entre os seres humanos, os lobos e a criatura no colo de Lady Francine.

Os braços de Bardo que haviam sido estendidos na direção da criança esmoreceram e seus olhos cresceram em terror quando a compreensão de que seu neto, de pouco tempo de vida, havia falado.

As ações que ocorreram em seguida aconteceram tão rápidas que se não fosse a percepção aguçada do príncipe-obreiro, em premeditar a ação de Bardo e intervi-la ao atingi-lo, tanto Lady Francine quanto o bebê, estariam mortos e suas cabeças decapitadas em meio ao denso tapete de neve que cobria o solo.

Bardo deixou sua arma escapar entre os dedos quando a espada de Albert atravessou seu estômago. Os olhos se esbugalharam em direção ao que enxergara como um monstro e tossiu, engasgando-se com a própria saliva e o sangue que brotava em seu interior.

Simplesmente, não conseguia acreditar que sua delicada flor havia dado luz aquela criatura das trevas.

— Você é um obreiro de Deus, deveria... — interferiu a fala para tossir o bolo de sangue que se acumulou em sua boca e com a voz por um fio conseguiu completar: — exorcizá-los. 

— Eu o faria — Albert garantiu, puxando a espada que cravara no estômago do homem, não de uma vez, o suficiente para que ele se mantivesse equilibrado e assim pudesse concluir sua explicação. — Faria, se essas criaturas estivessem invadindo nosso território e possuindo corpos humanos. Mas a verdade é que esses demônios nasceram nesse mundo, são frutos do amor carnal entre humanos e os da espécie deles. Híbridos. Eles pertencem a essa Terra tanto quanto eu e você. Não temos o poder de expulsá-los tão pouco julgá-los.

Removeu por completo a espada e deixou que o corpo grande do líder do clã Hoston tombasse na neve. Em seguida curvou-se e apanhou um punhado de neve a qual usou para limpar os resquícios de sangue na lâmina; depois voltou a embainhá-la.

— E, para falar a verdade, velho, seres humanos como você, pobres de espírito, covardes e que tem a bravura de ajoelhar para clamar pela vida do neto, por mero interesse, mas não tem coragem de aceitar o que ele é de verdade e ainda ser capaz de levantar a espada para uma mulher e um ser inocente, sangue do seu próprio sangue, causam-me mais asco e revolta do que ter ciência que demônios caminham entre nós. Pois eu sei muito bem a verdade por trás desse seu ato de nobreza em querer resgatar o neto. Sua esposa procurou-me em busca de ajuda algumas vezes e ela contou-me que você possuía um desejo impuro por sua filha bastarda quando ela ainda era um bebê e que muitas vezes o flagrou molestando-a. Você desejou resgatar essa criança pensando somente em repetir seu ato porco, por isso, para mim, um ser humano como você é muito mais demônio do que essas criaturas. — Apontou a criança e em seguida o lobo negro. — Não concorda, Earthen?

Bardo estrebuchava no chão, enquanto assistia aquela mutação: os pelos espessos que cobriam a pele do animal misterioso que os acompanhava naquela missão, começaram a se reduzir, sua face se alongar e alguns membros retraírem, as presas pontiagudas diminuíram e logo a forma humana deu-se por completa.

Era também a primeira vez que Albert contemplava a transformação do lobo para homem e sentiu um misto de medo e fascínio que fizeram sua pele coberta por pesados casacos se arrepiar.

Quando a transformação acabou Bardo estava morto, os olhos revirados nas órbitas, e da boca escorria uma espuma amarelada que e petrificara com a baixa temperatura.

Earth caminhou serenamente, com os pés descalços afundando na neve. Parou diante do príncipe de Valais, que prendeu a respiração diante de tamanha perfeição. Nem mesmo em seus delírios mais febris Albert conseguira idear tamanha formosura para a versão humana de Earthen. O corpo esguio possuía uma musculatura firme, os cabelos longos ultrapassavam os quadris, e eram negros na maior parte, mas com uma bela e rubra mecha no meio da cabeça. Estendeu uma das mãos e tocou a face lisa e brilhante do ser completamente nu diante dele. Os olhos de Earthen pareciam ainda mais encantadores, azuis intensos e claríssimos, eram bem diferentes dos olhos do pequeno ser nos braços da lady Francine. Sebastian, o filhote, tinham olhos de tempestade, cinzentos.

— Eu sabia que não era demência da minha parte, eu pensei que fosse uma aparição, pois enquanto estava perdido naquela floresta delirando de febre durante a noite, tive a impressão de sentir uma mão afável sobre minha testa, parecia que a presença de um homem, que velava por meu sono, mas quando eu despertei tudo que encontrei foi você, Earthen, na forma de lobo, sereno aos meus pés. — acariciou a face bonita da criatura, sentindo o coração bater mais rápido. — Mas eu sempre soube que era você. És fascinante.

Earthen sobrepôs à mão de Albert com a sua e fez um meneio firme de cabeça.

— Perdoe-me por não revelar-lhe a verdade, vossa alteza.

— A única coisa de que nunca irei perdoá-lo foi por ter partido sem me dar explicações, Earthen. Mas isso não é algo que devemos discutir no momento — Albert recolheu sua mão e virou-se para Francine e a criança. — Precisamos abrigá-los em um lugar seguro. Irei levá-los para o meu refúgio particular, fica em um vale, além dos penhascos de Veneras, na fronteira de Serenais e Baltmorth. É muito longe daqui, a viagem será longa, mas o lugar compensa, é muito bonito, tranquilo e de beleza quente e abundante na primavera e no verão.

— Serei eternamente grato por seu auxílio, vossa alteza — disse Earthen, voltando-se para lady Francine e o pequeno que ela carregava.   

Os olhos de pai e filho se encontraram finalmente.

— Você é o meu pai — a criança afirmou com clareza e lady Francine sentiu-se apreensiva com aquela revelação, mas acalmou-se no momento seguinte, com a resposta dada pelo lobo que havia tomado a forma de um homem.  

— Não — Earthen respondeu secamente. — Crispian é o seu pai. Sou apenas seu genitor.

A criança permaneceu calada por um tempo, parecia curiosa, mas não surpresa.

— E onde está meu pai? — procurou saber.   

— Em perigo, provavelmente — respondeu Earthen, voltando-se para o irmão de Benjamin. — Abrigue-os e tome conta deles por mim, alteza. Voltarei para o castelo para tirar Crispian das mãos do seu irmão.

— Faça isso — o príncipe o apoiou. — Mas precisará de ajuda, leve alguns dos meus homens...

— Não.

— Eles são bem treinados, Earth! — contrapôs, irritado com a pronta rejeição do meio-humano.

— Eles irão apenas me atrasar, irei sozinho.

— Mas...

— Tem certeza que não quer segurá-lo? — a pergunta que cortou a discussão veio de Francine e se referia ao pequeno Sebastian em seu colo. — Crispian é o pai dessa criança, eu concordo plenamente e até me alívio com essa confirmação. Pois me apeguei demais ao Sebastian ao ponto de sequer cogitar a ideia de ele não ser um Valdávia. Mas é fato que você o gerou com a esposa de Crispian. Sei que está com medo de se apegar a ele quando está prestes a partir, mas ao menos deveria senti-lo nos braços uma única vez.  

Earthen relutou, crispando os punhos e evitando olhá-los.

— Não quero agir de forma imprudente e me arrepender mais tarde, milady.

— O único arrependimento que carregará consigo é de não permitir que esse pequeno ser saiba sobre o verdadeiro amor que sente por ele.

Earthen engoliu em seco, concluindo que as fêmeas, independente da espécie, eram seres infinitamente mais sensíveis que a espécie masculina. Firmavam laços com uma facilidade assustadora e ainda possuíam uma sensibilidade capaz de captar a alma sem mesmo disporem de poderes para isso.

Seu intuito era evitar todas as formas de sentir aquilo que ligava os humanos as suas crias, pois sabia que tornaria difícil sua partida. Porém, as palavras maternais de Lady Francine o sensibilizaram ao ponto de mudar sua opinião.

A mãe de Crispian, intuindo a mudança de opinião do genitor do seu neto, direcionou a criança para a criatura que havia adotado a aparência de um belo e jovem homem.

Retirando-o entre os panos sujos em que estava envolto no colo da avó, Earth apanhou o filhote por debaixo dos bracinhos e o manteve afastado. Assim como ele, apesar de nu, percebeu que Sebastian parecia não se importar com o frio. Observou o quanto o menino era leve, frágil e com os traços que lembravam Catherine.

— Você se parece muito com ela.

­— Refere-se a minha mãe? — Sebastian perguntou, pendendo a cabecinha de maneira inocente para o lado.

— Hm. Isso. Lady Catherine.

— A vovó diz isso o tempo todo. Mas ela fala também que meus olhos são a mistura do azul claro do dia com o negro da noite.

— É verdade. Olhos de tempestade.

— Eu entendo o negro da noite e o cinza que cobre o céu durante o dia desde que nasci. Mas não sei o que significa esse “azul claro como o dia” que todos comentam.

Earth desenhou um sorriso leve no rosto, sentindo ao mesmo tempo certo amargor.

— Logo saberás, eu prometo. É para isso que irei me esforçar. Para que possa regozijar da luz do dia como qualquer criatura que caminha sobre a Terra. Sabe, eu não tive uma vida fácil, Sebastian. Por isso eu não me sentia seguro em concebê-lo nesse mundo sem que este fosse seu desejo. Fiz por puro egoísmo, capricho. E quem irá arcar com as consequências será unicamente você. Não estarei presente para protegê-lo e há muito humanos que irão querer te fazer mal... — e apontou com a cabeça para o homem morto aos pés deles. — Esse foi só o primeiro.

— Desde que fui concebido venho percebendo tal fato, meu genitor. Não precisa inquietar-se por isso. Além disso, os humanos atacam por se sentirem ameaçados, acuados, afinal eles também são nossos alimentos — disse isso e sorriu. — Mas existem àqueles que podemos confiar — ele apontou com a mãozinha para Francine, que sorriu em resposta.

Earthen encarou a mãe de Crispian, que assentiu em concordância, e em seguida buscou Albert em seu campo de visão, também veio em sua mente Crispian. Eram todos humanos de confiança. A família que Sebastian precisaria para crescer amparado.

Suspirou fundo mais uma vez e voltou-se então para a criança, franzindo o cenho. Sebastian era muito mais precoce do que ele fora com aquele tempo de vida, pois ele já tinha plena ciência de que os humanos eram alimentos para sua espécie e mesmo assim sabia cativá-los. 

— Fico aliviado por saber que não guardará rancor de mim, Sebastian. Agora tenho que partir — avisou, estendendo-o de volta para a avó.

Mas deteve-se ao perceber que o bebê estava com os bracinhos estendidos para ele.

— Abraço — a criança vocalizou, pedindo de um jeito infantil.

O homem-lobo engoliu em seco, sentindo a angústia no peito apertar, era aquela mesma sensação ruim que sentia toda vez que perdia alguém amado. Mas não pensou muito para acatar o pedido. Sebastian parecia forte, tinha uma expressão firme, uma fala ponderada, mas o filhote conhecia muito pouco daquele mundo e ainda sofreria muitas decepções. Fora pensando em seu futuro, e em tudo de ruim que viveria durante sua longevidade, que o trouxe para junto do peito e a acolheu com carinho.

Sentiu os bracinhos pequenos abraçar seu peito e os dois corações bateram em um único compasso.

— Eu te amo, Sebastian — confessou, deixando-se levar por aquela sensação nova e única.

— “Eu te amo”...? — a criança ergueu a cabeça, fitando com curiosidade o mais velho. — O que significa?

— Também não sei bem. Mas o amor é um sentimento que exprime o quanto alguém é importante, especial e estimado pelo outro.  

A criança sorriu.

— Entendi. Sebastian também ama. A vovó.

Apesar de decepcionado, Earthen sabia que não podia exigir muito da criança que acabara de conhecê-lo. Lambeu o rosto do filhote e o devolveu ao colo de Lady Francine, que secava uma lágrima emocionada. Logo a mulher tratou de envolver o neto nos trapos de antes e aconchegá-lo do frio.  

— Vovó também te ama, meu querido.

— Ainda nos veremos? — Albert perguntou, parando diante de Earth.

A criatura apreciou os olhos castanhos do obreiro.

— Talvez.

O rosto barbudo de Albert se aproximou e parou a centímetros do rosto limpo de Earth, que permitiu o encurtar da distância entre eles ao encostar sua testa na do príncipe.

— Tome conta deles por mim, alteza.

— Eu farei o meu melhor. Você é lindo, Earthen — o obreiro declarou. — Tão lindo.

Uma das mãos de Albert escorregou para nuca enquanto a outra passeou pelo peito desnudo da criatura, após dedilhar a gargantilha dourada composta por losangos. Mas Earthen impediu o avanço ao segurar a mão do homem em seu peito. Sabia muito bem o que ele desejava, era capaz de ler a luxúria impressa no olhar de qualquer pessoa, no contrair da face, no alterar da respiração, mas não tinha tempo para nada daquilo, e ainda havia a presença de Lady Francine e seu filho.

Mas considerou que Albert merecia um prêmio de consolação por ter salvado seu filho do ataque de Bardo e por isso avançou sobre os lábios amoitados entre os pelos faciais do humano e o beijou.

O beijo fora rápido, mas o suficiente para desregular a respiração do obreiro-príncipe de Valais.

Earthen se afastou antes que a excitação ficasse insustentável e voltou-se para Francine.

— Quer enviar algum recado para o seu filho, milady?

A mulher observou com cuidado a criatura nua e sensual diante dela, que tinha o rosto afogueado depois do beijo trocado com outro homem, que deveria ser um servo de Deus, então ela sorriu de canto e declarou.

— Diga apenas que estarei esperando como uma boa mãe, pronta para cuidar de suas feridas.

...

Castelo de Valais.

— Milorde, está pronto?

A cortina que separava o trocador do resto do quarto fora aberta de forma abrupta e Reiji retesou-se ao ver o resultado.

— É grosseiro de sua parte chamar uma “dama” de “milorde” — Crispian retrucou, fingindo contrariedade e testando sua voz afinada.

— P- perdão, milady! — Reiji baixou a cabeça.

O jovem nobre, disfarçado de mulher, apanhou a borda do vestido e deu meia volta, para que pudesse ser visto de todos os ângulos, então parou e encarou o guarda, que parecia um tanto embasbacado.  

— Então, como fiquei?

— Passará despercebido tranquilamente — garantiu Reiji massageando a nuca, observando o rapaz de cima em baixo.

Crispian estava vestido com uma das roupas das damas de companhia de Anabel. Reiji havia arranjado também uma peruca castanha, eram próprios da criadagem cabelos escuros; loiros eram os das damas. Os cabelos longos também estavam trançados um pouco desgrenhados, com uma franja solta que caía de lado no rosto tampando um dos olhos. Apesar do esforço em mantê-lo apagado, para Reiji, Crispian ainda era muito mais belo que as mulheres de baixo calão que conhecia. 

Os dois haviam cogitado a utilização do uniforme das empregadas do castelo, mas concluíram que teriam problemas caso Crispian tivesse que atender alguma ordem de hospede ou dos subordinados de hierarquia superior, ou, ainda, ordens do próprio rei. Porém, estando vestido como a ama de outra hospede, correria menos risco de ser abordado e assim descoberto na sua tentativa de fuga.

— É melhor não perdemos mais tempo, milorde, digo... — ele balançou a cabeça, tentando focar-se. — Milady. Pronta?

Crispian assentiu, sentindo-se um pouco nervoso, estava prestes a ganhar sua liberdade e não conseguia evitar as pontadas de ansiedade no estômago.

Havia traçado a rota de fuga com antecedência, era de tarde, meio de semana, o rei havia suspenso suas audiências devido ao caos nas ruas, e se encontrava em reunião estratégica com seus subordinados. Reiji estava na sua troca de turno, o guarda que o rendera na vigília da porta parecia tão entediado que sequer percebeu a saída da dama de dentro do aposento. Mesmo assim, Reiji deu a desculpa que aproveitaria a folga para acompanhar a criada de lady Anabel às compras no mercado nobre, em volta do castelo, visto que os protestantes não haviam chegado àquela região graças ao cerco montado pelos soldados.  

Despediram-se do guarda, que piscou um dos olhos para o colega, imaginando que ele estava era cortejando a dama de companhia da hóspede do rei e os dois seguiram pelo corredor que os levaram para escadas de acesso dos criados.

Desceram seis andares e chegaram ao corredor da sala de jantar e da cozinha. O coração de Crispian disparava a cada passo que davam rumo à saída. Todavia, notou algo de diferente, um tumulto de homens e vozes no lugar.

— O que está acontecendo, Reiji? — Crispian cochichou atrás do guarda, notando também a quantidade exagerada de soldados.  

— Parece que a reunião estratégica está ocorrendo na sala de refeições — respondeu no mesmo tom murmurado. — Isso deve ser coisa do nosso rei, ele provavelmente sentiu fome e ordenou que migrassem a reunião para o lugar. Quer voltar?

— Não. De forma nenhuma. O corredor está cheio, se voltarmos agora levantaremos suspeitas.

— Mas a porta está aberta e não sabemos onde o rei está. Se ele e estiver de um ângulo que possa nos ver?

— Estou disfarçado. Vamos correr esse risco, Reiji. Por favor. Eu preciso ir embora desse lugar.

— Está bem, milady. Apenas acalme-se. Vamos tentar ser rápidos.

Os dois avançaram, Crispian manteve a cabeça baixa e Reiji tentou parecer natural, mas o nervosismo acabou fazendo com que ficasse rijo e o suor brotasse em sua testa mesmo com o frio insuportável que fazia naqueles dias. Acenou com a cabeça para os colegas no corredor, e estavam finalmente pasando, quando uma voz o chamou.

— Reiji?

Os dois pararam.

Reiji voltou-se para voz grossa e firme que o chamara.

— Capitão? — fez uma breve continência.

— Onde está indo? — Dorcas quis saber e logo o rei se pôs de pé, ao lado do seu comandante, curioso.

— É a minha troca de turno, senhor. Estou aproveitando para ir ver como está minha família.

— E como está Crispian? — a pergunta direta de Benjamin fez uma pontada maior atingir o estômago de ambos.

— A- ainda d- desacordado, v- vossa majestade.

Crispian irritou-se pela gagueira que os denunciaria de Reiji, e tentou se encolher o máximo que pode atrás do jovem ruivo, mas como era esperado de Benjamin, acabou sendo notado.

— E por que essa criada está saindo com você?

— Nos encontramos no caminho, ma- majestade. Lady Anabel pediu que ela comprasse algumas frutas no mercado e estou aproveitando para acompanhá-la até o lugar que...

— É mesmo? — a voz da própria Anabel surgiu atrás deles no corredor, fazendo com que ambos se sobressaltassem e voltassem para a mulher, notando-a na companhia de suas demais damas, enquanto os media completamente desconfiada. — Eu pedi?

Continua...


Notas Finais


Faltam três capítulos para o final! /o\
O próximo será o anti-penúltimo.
Já conseguem imaginar qual será o final de cada personagem? Deixem suas apostas nos comentários!
Beijos, até o próximo e não se esqueçam, se puder, comentem! o/


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