História As Origens de Sebastian - Capítulo 18


Escrita por:

Postado
Categorias Histórias Originais
Tags Andreiakennen, As Origens De Sebastian, Drama, Fantasia, Original, Romance
Visualizações 127
Palavras 6.949
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Fantasia, Lemon, Romance e Novela, Yaoi (Gay)
Avisos: Homossexualidade, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Alguns meses em hiatus, outros meses trabalhando no final dessa história e finalmente pude concluí-la. São três capítulos que virão a seguir concluindo essa saga.
Perdoe-me o atraso e espero que gostem.

Capítulo 18 - Capítulo XIII - As Origens - Parte III


As Origens de Sebastian

Capítulo XVIII

Origens – Parte III

 

— É, mesmo, eu pedi?

A questão de Lady Anabel sobre ter ordenado compras a uma das suas empregadas pairou no ar sem resposta. Mesmo o som das vozes masculinas que antes enchia o corredor em alvoroço havia cessado, aprofundando o silêncio.

Crispian sentiu um tremor assolar suas pernas e lembranças importantes de tudo que vivera até aquele momento começaram a transcorrer por sua mente. O sentimento mais angustiante ainda era o de não rever Earthen. De não poder estar em seus braços uma última vez.

Pois era certo, se Reiji e ele fossem descobertos por Benjamin naquele instante, estariam condenados. E para ele, o rei reservaria a pena mais cruel: ser violado impiedosamente até ser-lhe concedido o direito ao suspiro final.

Anabel não tinha porque poupá-lo. A nobre o odiava do fundo de sua alma, devido aos ciúmes corrosivos que sentia do príncipe, seu noivo.

Com o temor crescendo em seu peito, Crispian observou a jovem nobre empinar seu largo nariz e sorrir de lado. Seu corpo inteiro estremeceu novamente. Fechou os olhos com força e sentiu o coração em desespero. Bastava esperar ser revelado de maneira humilhante.  

Mas ao invés de ter sua identidade exposta, como imaginara que seria, sentiu uma mão delicada, mas de segurar firme, tocar e levantar seu queixo.

— Largue de ser lenta, Crispiana!  

Ao ouvir aquela advertência Crispian reabriu os olhos em sobressalto, encontrando com os amendoados fuzilantes e debochados da candidata a futura rainha de Valais.

— Faz pelo menos três dias que te pedi essa compra. Havia me esquecido completamente!

— Er...  

— A culpa é minha, milady! — Reiji interrompeu com a intenção de ajudar no socorro. — Ela tinha pedido minha ajuda para guiá-la nas compras, mas como estive em vigília não pude sair e a donzela estava esperando meu dia de rendição do posto.

— Ah? — ela exclamou teatralmente, batendo as mãos ao longo do corpo. — Não se fazem mais servos como antes! Poupe-me e poupem meus ouvidos das desculpas esfarrapadas de vocês criados vadios. Vão de uma vez! — ela ordenou, batendo com o pé direito no chão como se enxotasse animais. — Desapareçam da minha frente antes que eu mande castigá-los. Prefiro ter meus desejos atendidos tarde a nunca.  

— Sim, milady! — Reiji respondeu batendo continência.  

Crispian abaixou a cabeça e prendeu a respiração. Não olhou nem para os lados ao começar a andar. Precisava evitar a todo custo encarar Benjamin, pois havia a impressão de que se seus olhares se cruzassem ele o reconheceria.

O tempo pareceu congelar. Cada passo que dava aludia uma tonelada e estrepitava no chão. O coração acelerou um pouco mais e o suor passou a brotar frio em sua testa e mãos.  

Precisava manter a calma para não levantar suspeitas, passar despercebido. Seguia as costas de Reiji a sua frente. Era apenas uma meia dúzia de pessoas, mas a impressão era de ser a atração principal de uma carreata assistida por uma multidão. Havia silêncio. A cabeça pendida permitia-o apenas olhar os trajes das partes debaixo e os calçados ao seu redor. Apertou os olhos desejando passar aquele percurso em um passe de mágica, quando o que temia aconteceu: um agarre firme na sua manga o fez sobressaltar.

— Espere! — a voz se propagou alta e nítida como sempre era.

Crispian não precisava encarar o dono do brado para saber que era o rei quem o abordava. Em comparação a Earthen, que era praticamente um animal completo, além de um ser sobrenatural, os instintos de Benjamin pareciam extremamente aguçados. Ele tinha o dom de farejá-lo.

— Por que está se tremendo toda, milady?

— “Milady”? — irrompeu Anabel, aproximando-se do rei e encarando-o com os olhos semicerrados. — Como ousa a usar tratamento de nobre para minha empregada, Ben? E é óbvio que ela está se tremendo! Qual plebeu, servo ou criado, conhecendo a fama que tens, não se borraria de medo ao ser abordado de forma abrupta por você?  Solte minha criada e deixe-a trabalhar!

— Você sabe que não me dá ordens, Ana — Benjamin a lembrou, entoando uma voz mais suave e mansa, mas mantendo o agarre firme no braço da criada. — Saia você com sua cara feia de perto de mim. Estás atrapalhando. Quero apenas observar melhor essa criatura amedrontada, que mais me parece uma lebre encurralada por um predador... Isso me excita... Ela parece ter uma face extremamente bela. Há dias venho procurando por alguém que supere em beleza o meu belo e debilitado brinquedo de Valdávia, mas ninguém fora capaz de levantar o mastro real como ele o fez. Então, quem sabe essa belezinha... — Benjamin parou para respirar e umedecer os lábios de forma obscena, enquanto Anabel ao seu lado expunha sua melhor face de repulsa.

— Você é tão repugnante, Ben! — gritou a nobre de Reya.

— Eu só sou homem, Ana. — respondeu Benjamin com a mesma tranquilidade, segurando o queixo da empregada que se retesou e endureceu a região, querendo evitar que seu rosto fosse exposto.

Reiji compreendeu o perigo e também estremeceu. Disfarçadamente, ele levou sua mão à bainha onde se encontrava a espada, prevendo que seriam descobertos. Tinha certeza absoluta que jamais conseguiria salvar sua vida ou a de Crispian tendo o próprio capitão como oponente. Por isso havia decidido, caso fossem descobertos, direcionar seu único golpe ao causador de todas as desgraças que pairavam sobre Valais: o próprio rei.  

Reiji não notara, mas seu movimento discreto fora percebido pelos olhos de falcões e atentos do líder das tropas do reino. Dorcas havia sentido a tensão entre aqueles dois, mas a princípio deduziu que a intenção de Reiji era somente despontar em fuga para viver uma aventura amorosa com aquela donzela, movido pelo afogueio entre as pernas. Todavia, não ideou que ele seria capaz de atacar o próprio soberano por uma mulher qualquer e a qual conhecera há pouco. Afastou a capa e desembainhou a espada. O barulho fez todos os presentes se voltarem para ele.

Principalmente o rei, que franziu a testa na direção do seu capitão.

— O que se passa, Dorcas? — inquiriu Benjamin, procurando entender aquele gesto.

Porém, um chamado que veio do começo do corredor, interrompeu o momento e o início da explicação do comandante.

— Capitão! Capitão! Capitão!

Dorcas se voltou para o soldado que vinha gritando afobado na direção deles.

— É uma emergência, capitão! Estamos em emergência!

O rapaz os alcançou e se deteve diante do seu superior, mas por ter perdido o fôlego na corrida precisou buscar o ar com força, puxando-o de forma desregular pelo nariz e soltando pela boca, antes de dar a notícia.

— Acalme-se, mancebo — pediu o capitão dando tapinhas nas costas dele. — Agora conte-nos: o que houve?

— Os rebeldes! Os rebeldes! Venha, por favor, capitão! — o rapaz voltou a pedir em gritos. — Estão todos no portão do castelo. Eles invadiram os arredores. Precisamos saber que providências tomar.

— O quê? Merda! — praguejou Dorcas. — Não é hora de pensar em suas partes baixas, Majestade! — volveu ao rei. — Por Deus! Voltemos a reunião de antes em caráter emergencial, por favor! Precisamos de ordens sobre o que fazer com essa situação.  

Contrariado, mas compreendendo a urgência da calamidade que batia às portas do reino, Benjamin apertou o queixo da empregada, mas a soltou.

— Quero que contra-ataquem essa corja de desgraçados! — ordenou de repente, dando as costas ao grupo e saindo na direção que levava ao salão principal.  

— Mas, meu senhor! Como assim contra-atacar? — inquiriu Dorcas confuso. — Além disso, onde está indo?! Estávamos nos reunindo na sala de jantar — ele apontou o lugar onde os conselheiros ainda estavam.

— Perdi a fome, Dorcas. Continuaremos no salão principal.

Após dedicar um olhar vívido a Reiji e a tal empregada, Dorcas repôs a espada na bainha e entrou na sala de reunião, informando aos seus homens e aos conselheiros do rei que o seguissem de volta ao salão da corte com urgência.

Todos se foram rapidamente.      

Reiji tocou no braço de Crispian, fazendo um gesto de cabeça para que seguissem para o lado oposto aos que os demais se moviam. Mas antes que começassem a se mexer, Anabel apanhou uma das orelhas da empregada, “Crispiana”, e a puxou para si, aproximando a orelha dela de sua boca.

— Escute bem o que irei dizer, sua escória. Vou falar ao pé do seu ouvido para que não venha com desculpas tardias de que não entendeu. — Ela ameaçou, soltando da orelha para agarrar os cabelos loiros da nuca os quais puxou para trás. — Estou livrando sua cara não porque tenho apreço por sua pessoa, pena ou qualquer um desses sentimentos medíocres. Mas sim pelo o meu próprio bem. Então, grave minhas próximas palavras: nunca mais, Crispian Valdávia. Nunca mais volte a esse reino. Nunca mais ouse a cruzar de volta essas muralhas. Suma para todo sempre. Desapareça das vistas de Benjamin ao menos pelo resto dos seus dias. Se você ousar a aparecer de volta nesse reino. Eu juro, por tudo que é mais sagrado nesse mundo gigante de Deus, que eu mesma irei esfolá-lo vivo. Está me entendendo?

Houve um assentir, mas Anabel não se deu por convencida.  

— Diga-me com sua própria voz. Exijo ouvir sua resposta!

— Sim, milady! — ele respondeu firme, sem medo de entoar o tom masculino que retumbou pelo corredor tomado apenas pelas criadas de Anabel.

— Melhorou — ela consentiu e o soltou. — Agora vão os dois! — e deu as costas.

— Milady? — Crispian chamou pela nobre. Anabel se voltou para ele com o cenho franzino, o qual foi suavizando conforme Crispian foi falando. — Perdoe-me a ousadia, milady. Mas se as coisas continuarem como estão não haverá súditos para quem governar. Acredito que tenha poder e principalmente força de vontade para mudar a situação atual do reino. És extremamente competente. Eu tinha um plano inicial que se perdeu quando me conscientizei das minhas próprias limitações. Eu sou fraco. Não sou nenhum herói. Na verdade não passo de um covarde disfarçado sob o título nobre de o “Senhor dos Lobos”. Só que esse “Senhor dos Lobos” aqui optou pela humilhação de se vestir de mulher e fugir para salvar a própria pele. Então, Anabel Reya, eu deposito em você a fé de salvar Valais da ruína eminente. Seja rainha e faça com que Benjamin acorde para realidade.

A nobre sorriu.

— Quanta ousadia. Sabes bem o uso culto das palavras para uma mera e ignorante serva, Crispiana. — O sorriso diluiu-se.  — Agora vá antes que eu peça para que lhe cortem a língua. Não venha ensinar latim ao padre. Eu sei bem o que devo fazer.

Crispian encarou as costas da mulher que agora se afastava em uma marcha mais imponente, como se ela tivesse crescido alguns centímetros, e em sua mente fez uma breve prece para que ela alcançasse o sucesso que ele não obteve.

Reiji, receoso com o resultado da reunião em andamento, visto a palavra de ordem do rei para que contra-atacassem os rebeldes, apanhou a mão de Crispian e o apressou. 

— Vamos, milady. Não temos muito tempo para deixar o castelo. Os rebeldes chegaram aos portões do reino, se demorarmos mais, não conseguiremos sair.

— Hm — Crispian assentiu e os dois seguiram em direção a saída.

...

Earthen, que naquela época fora batizado de Constantino, vagou sem rumo por um longo tempo, após a morte do pai adotivo, Thomas. Sentindo-se um corpo estranho em um mundo que não lhe pertencia.

A maior questão era sua existência.

Não era um animal.

Não era um humano.

O que era então?

Seria mesmo uma espécie rara de demônio nascido com um corpo humano como fora julgado pelos moradores da vila onde crescera?

Não tinha respostas, pois não havia ninguém para respondê-las.

Vagou como uma alma perdida de floresta em floresta, dia após dia, noite após noite. Às vezes na aparência de homem. Às vezes na aparência de fera. Mas quando suas roupas se deterioraram passou a andar somente como um animal. Porém, era evitado pelos próprios, mesmo tendo aparência de um. Os animais pressentiam nele um predador nato e por isso fugiam sempre que se aproximava.

Por opção própria decidira evitar os humanos por um bom tempo.

Abstendo-se também de alimentar-se, de dormir, de interagir. Enfrentando as piores variações climáticas: o frio, as tempestades, a neve, o calor escaldante. Acreditara que seu corpo mutante não suportaria toda aquela carga e que em algum momento seria acometido por uma forte debilidade e sucumbiria ao fim.

Entretanto, não fora como idealizara. A falta de sono, de alimento e até mesmo as adversidades climáticas não o enfraqueciam.

Concluiu por fim que era mesmo uma espécie de monstro.

Ao menos, deduziu que possuía o corpo de um. Pois sua mente ainda era humana. Do contrário, não sentiria o coração bater tão apertado, doer quase insuportavelmente devido a tristeza e desespero com a solidão.

E fora assim, com a mente quase em colapso, que fora encontrado por seu segundo “pai” ou seu primeiro “dono” como o próprio preferira se nomear.

Havia caído em um sono profundo devido aos quase dez anos em que vagou sem descansar seu corpo e mente de forma adequada. Fora resgatado em sua forma lobo e removido para a pequena propriedade dos Renovitch. O ano era 827.

Sebastian Anzor Renovitch era casado com Veda e juntos tinham um total de oito filhas pequenas. Também residiam na mesma propriedade outros parentes do casal: tios, irmãos, primos, cunhados, avós. Todos viviam do cultivo e da pecuária. Era uma casa cheia de vida e calor humano.

Ao despertar naquele lugar, Constantino conheceu melhor Sebastian, um homem alto e forte, com pelos espalhados em demasia no rosto e braços, mas quase nada na cabeça. A pele branca, quase sempre vermelha devido ao trabalho árduo no campo. Era além de tudo um bom pai, bom esposo e amante da natureza e dos animais.

E fora por esse último motivo que o senhor Sebastian se apiedou ao encontrar Constantino na mata definhando. Deduziu, pelo crucifixo de madeira que ele carregava em um cordão em seu pescoço, que ele pertencera a algum humano, talvez um padre, ou algum religioso, e fora domesticado. Então o acolheu em sua morada, o alimentou e o batizou de Zaghar.

Quando Constantino começou a ser chamado de Zaghar por aquela família, pensou em manter sua meta de não voltar a se envolver com seres humanos e fugir. Todavia, fora pego de surpresa pelo abraço coletivo das quase uma dúzia de crianças que viviam naquela residência.

O amor era um sentimento humano nobre ao mesmo tempo em que era aterrador. Pois sabia que, da mesma forma que o fazia sentir-se feliz e confortável, no futuro o faria muito infeliz.

Mas bastaram os vários afagos que recebeu para que tivesse certeza da falta que o calor humano lhe fazia. E, antes que pudesse negar aquela nova experiência, havia sido seduzido pelo aconchego do novo lar, sendo assim incapaz de resistir.

Sofrera mais com a partida de Sebastian, seu primeiro dono, do que com a morte de seu pai adotivo. Diferente de Thomas, que passou enfermo a maior parte do tempo que conviveram juntos, e da primeira vila em que viveu, onde fora hostilizado por quase todos os moradores, Sebastian esbanjou saúde e alegria até cerca dos seus oitenta anos e, assim como ele, os demais da família também o tratava com o mesmo afeto e atenção.

Chegado a velhice, o líder do clã fora enfim derrubado pelas doenças da idade. Mas, mesmo enfermo, o homem não se deixava abater, caminhava todas as manhãs, executava tarefas mais simples como juntar a lenha cortada pelos netos, amarrá-las e armazená-las no depósito, colhia verduras e frutas, varria as folhas do quintal, e somente quando o cansaço o abatia fortemente que o ancião forrava uma manta embaixo da árvore que mais gostava do seu jardim, convidava Zaghar para deitar-se com ele e ali os dois dormiam uma tarde inteira.

E fora assim que o velho Sebastian partiu, em um dia quente e ensolarado de verão, quando o cansaço o abateu com tanta eficácia que chegou a lhe faltar fôlego. O homem pediu para que seu lobo se deitasse com ele, fechou os olhos e não os abriu nunca mais.

A velha Veda, que não perdera o movimento das pernas fazia muito tempo, após a morte do marido, debilitou-se ainda mais e alguns meses depois veio falecer e partiu rumo a encontrá-lo.

  Com o completar do ciclo de vida dos antigos “donos”, Zaghar passou a conviver com uma das filhas de Sebastian, a que fora mais apegada a ele na infância, Doroteya.

Porém, não tivera o mesmo acolhimento com a terceira geração, pois quando o ciclo de Doroteya e do marido se completou, Isidor, o filho mais velho do casal e neto de Sebastian, além de bastante religioso, não compreendia como aquele animal, que pertencera ao avô quando jovem e que deveria ter mais de cem anos, ainda podia estar vivo e esbanjando saúde.

Isidor passou a analisar o lobo de estimação da família com mais frieza que as gerações passadas, concluindo que Zaghar deveria ser amaldiçoado, e após algumas reuniões com padres e bispos, decidiram por eliminá-lo.

Depois de três tentativas falhas de Isidor, foi Zaghar quem concluiu que não era mais bem vindo no clã Renovitch, e decidiu partir por conta própria, migrar, a procura de um novo “pai” e um novo lar.

Compreendeu e tomou como nova regra aquele detalhe: a cada completar de ciclo do humano que o adotaria, seria obrigado a partir. Pois nem mesmo os consanguíneos seriam capazes de compreenderem e aceitarem sua imortalidade.

Durante seu quase meio milênio de existência o demônio passou por inúmeros donos. Assistiu o ciclo da vida se repetindo várias e várias vezes. Começando e recomeçando. Pertenceu a diversos clãs. Dos mais humildes aos mais nobres. Dos mais gentis aos mais perversos. Fora batizado de vários nomes. Participara de muitas guerras, chacinas, conspirações, afrontas, comemorações, casamentos, nascimentos, tempos de paz, calmaria, amores.

Sempre como animal. Pois todas às vezes que expusera sua forma humana, sua aparência singular e beleza exuberante ou eram bem vistas ou repudiadas.

Quando bem vistas, nenhum humano, fosse homem ou mulher, era capaz de resistir ao fascínio que exalava. Descobriu-se um amante ardiloso e a arte do sexo se tornou o condimento necessário para seus dias de fuga e do tédio.

Mesmo assim a lassidão sempre o acometia após uma perda. 

Gostava de ficar de luto por um tempo antes de sair a procura de um novo dono, algo entre dois a quatro anos.

Todavia, quebrou sua própria regra ao conhecer aquele que se tornaria para o lobo-demônio o grande amor e o declínio de sua existência: Valentim Seger.

Naquela época, havia recém entrado em seu período de luto. Tinha apenas dez dias que perdera seu último dono, Noah, quando encontrara aquele jovenzinho na floresta do Convento de San Peterson. O rapaz tinha no máximo dezessete anos, olhos castanhos, sem pelos no rosto ainda, cabelos negros desgrenhado, pele queimada do sol e o mais interessante de tudo: ele se tocava de forma despudorada e frenética por debaixo da batina. O sol expurgante de verão fazendo brotar suor em seu rosto moreno.

Assistiu ao que o jovem fazia, vendo-o ser abatido pelo êxtase, tirar a mão suja debaixo da roupa e sem se preocupar em limpá-la, apanhar uma garrafa de vinho dentro de uma bolsa de couro marrom e entorná-la gargalo abaixo. Bebeu, arrotou, recostou-se ao tronco e dormiu.

Era a primeira vez que um humano fascinava o demônio de uma forma diferente.

Naquele instante, aproximou-se devagar do jovem adormecido, o rodeou, o farejou, lambeu a mão suja, sentindo ainda o gosto do gozo misturado com o vinho e fora surpreendido ao ver a mão ganhar vida e acariciá-lo na face.

 “Tão lindo”, a voz falou-lhe sonolenta. “Um lobo tão lindo não pode ser um mero lobo. Você me entende, não entende? Entende o que acabei de fazer? Seus olhos dizem que sim. Será que... poderia me possuir?”.

Os olhos castanhos pareciam carregados de luxúria e a pergunta fora feita com um sorriso sedutor, adornado por lábios rosados e dentes claros e perfeitos. Tanto o pedido quanto a boca pareceram para o lobo-demônio um convite claro ao pecado.  

Era a primeira vez que alguém falava como se o reconhecesse de imediato, como se soubesse da sua verdadeira forma e o desejasse do mesmo jeito.

Compreendeu perfeitamente que aquele belo rapaz não estava pedindo para ser o dono do lobo, ele estava pedindo para que ele, o animal, fosse o dono dele.

Mostrou-se em sua forma humana, a mutação em detalhes, se expôs totalmente nu diante dele. Estava mesmo cansado de ser um mero animal de estimação para os humanos. E ao invés do rapaz fugir apavorado, como imaginou que ele faria a princípio, viu os olhos amendoados brilharem ainda mais deslumbrados.

“Meu nome é Valentim Seger. Como se chamas?”.

“Tive vários nomes e no momento não tenho nenhum, milorde”.

O rapaz sorriu.

“Posso batizá-lo?”

“Deve”.

“Do que mais gosta nesse mundo?”

“É uma resposta complexa. Mas acredito que tudo que venha dessa Terra. As plantas, a água, o ar, os animais, os humanos...”.

“Earthen[1]”.

“Perdoe-me, milorde, mas o que disse?”

“Esse será seu nome”, ele finalizou simplesmente. “Earthen. Estou cansado desse lugar. Fui deixado aqui porque meus pais morreram e uma criança não pode viver sozinha. Mas estou crescido e não quero mais ficar nesse convento. Quero voltar para casa. Venha comigo e cuide de mim, por favor.”.

Não era uma pergunta, era um pedido delicado, mesmo assim, quase uma ordem. Era a primeira vez que se deparara com um humano tão intrigante, com cheiro de mistério. Não fora capaz de resistir e o seguiu.

Descobriu que Valentim era o único herdeiro dos Seger, uma família de nobres muito ricos daquela região. Os pais do jovem morreram cedo em um acidente e deixou-lhe como herança várias propriedades, uma grande quantia em ouro, jóias preciosas, além de incontáveis obras de artes.

Mas a única residência que interessava de verdade a Valentim era da Floresta de San Peterson, o lugar fazia fundo com as Montanhas Gêmeas de Miggliori, além de estar localizada a margem do cristalino Rio Di Lourence.

Para Valentim, era seu mais querido refúgio, seu pequeno paraíso em meio a floresta, com todo conforto que necessitava, além de uma gigantesca biblioteca.   

No lugar residia somente o caseiro e alguns criados que tomaram conta da residência enquanto seu jovem amo fora abrigado no convento de San Peterson.

Nenhum dos empregados questionou o rapaz quando ele retornou para a casa de mãos dadas com aquele desconhecido.

Earthen fora apresentado por Valentim como seu tutor e pediu para que fosse tratado pelos servos como “milorde”. O lobo, que sempre fora um animal na maioria das vezes, estranhou o título inicialmente, mas acostumou-se com ele rapidamente.

Não demorou Earthen ouvir rumores sobre as excentricidades de Valentim. O empregado mais velho da residência, William, contou ao tutor que desde que nascera seu jovem mestre demonstrara ser uma criança especial. Ele nascera dotado de dons estranhos e se dizia capaz de ver o que humanos não viam. Para proteger sua singularidade da maldade alheia, os pais se mudaram para aquele lugar reservado e Valentim passou a ser educado e acompanhado pelos caros mentores do convento de San Peterson.

Ao ouvir aquela história, Earthen se encheu de algo novo, de uma esperança que mal coubera em seu peito ao imaginar que havia se deparado com um da sua espécie. Que poderia ter encontrado o parceiro ideal para acompanhá-lo em sua eternidade, concluindo que talvez fosse aquilo que o fascinava tanto em Valentim.

Com ele e por ele imaginou que ultrapassaria todas as barreiras, se entregaria completamente aquilo tudo que estava sentindo. E não demorou a descobrir que o que vinha sentindo por Valentim não era simplesmente encanto, era amor. O amor na sua forma mais verdadeira e pura, o amor que fazia os humanos desejarem um ao outro pela eternidade. E se estivesse certo, eles poderiam ter uma longa eternidade juntos.

Além disso, e melhor do que poderia desejar, seu amor era completamente correspondido. Valentim também o amava da forma mais linda e fiel que um ser poderia amar. Tornaram-se mais que amigos, mais que tutor e protegido, mais que uma família, se tornaram amantes inseparáveis. Comiam juntos, cavalgavam juntos, faziam tarefas juntos, se amavam e dormiam juntos. Earthen estava experimentando a felicidade da forma mais plena concebida.

Valentim se tornou adulto rápido, um homem nobre, viril, de beleza ainda mais exuberante, alto, magro, de músculos discretos, de cabelos negros cacheados até os ombros, de barba espessa que lhe cobria parte do rosto, mas não escondia a ternura singela de seus olhos amendoados. [2]

Os dias ao lado de Valentim eram para Earthen especialmente felizes. As crianças dos seus servos se tornaram suas próprias crianças e o lobo-nobre sentiu novamente, depois de séculos que perdera o pai adotivo, que era de novo membro de uma família humana, não um mero animal de estimação.

Earthen gostava de cavalgar e brincar com as crianças da residência, também ajudava os criados nos serviços domésticos e de vez em quando saía em caçadas. Valentim, por sua vez, dedicava horas aos livros, explorando a biblioteca ou sua sala de pesquisas, onde forjava objetos, criava poções que dizia ter poderes mágicos. Ele era completamente ligado ao mítico, ao exotérico e se auto-intitulara feiticeiro.

Quando juntos, Earthen e ele passavam horas conversando sobre incontáveis assuntos, sobre a essência da vida, sobre o amor transcendente que sentiam. Mas pouco conversavam sobre a origem um do outro.

Foi então que esse algo passou a incomodar Earthen. Apesar de nunca ter visto Valentim debilitado, percebeu que seu jovem amo se alimentava normalmente, dormia normalmente, se machucava algumas vezes. Nunca o viu sequer comer carne crua ou sair para caçar. Começou a imaginar que talvez ele não fosse um da sua espécie, mas sim um humano comum, com uma sensitividade apurada, mesmo que Earthen não conseguisse ver claramente em Valentim a luz que todos humanos possuíam.

O lobo-demônio passou então a planejar em como tiraria a prova daquela questão, e achou que a maneira mais fácil seria se Valentim o acompanhasse em uma caçada, onde teria seus instintos despertos. Mas Earthen precisou insistir por muito. E, por muito tempo, o jovem nobre relutou. Até que em uma determinada noite ele disse que sim.

“Por que está aceitando hoje?”, Earthen o inquiriu incomodado.

O rapaz riu alto e ergueu os ombros. 

“Porque hoje é o aniversário do dia que nos encontramos, é o meu aniversário. Nosso aniversário. É um dia especial. Então, te darei esse presente”. 

Mas, naquela noite, Earthen não esperava que a prova que desejava viesse da forma mais impiedosa possível.

Durante a caçada caiu uma forte tempestade e foram pegos por uma avalanche desceu a montanha e os varreu para dentro do rio com cavalos, árvores e tudo mais que encontrara pela frente. Foram arrastados pela força das águas e Earthen se perdeu de Valentim.

Naquela noite, o demônio não perdera somente seu jovem e amado amo, como também consumira com o crucifixo de madeira que Thomas havia lhe dado.

Após esse ocorrido, uma quantidade grande de espectros invadiu a floresta de San Peterson, tornando sua busca por Valentim quase impossível. Passou a procurá-lo junto com os servos somente durante o dia, quando a força dos espectros era menor.

Mas os dias se passaram rápido e não obtiveram nenhum resultado. Notou que as plantas, aves, flores e até mesmo o solo do lugar começaram a deteriorar, a morrerem contaminados com a quantidade de impureza trazida pelos seres das sombras. A maior parte dos empregados optara por deixar a casa, aterrorizados com a quantidade de coisas bizarras que vinham acontecendo durante a noite na mansão, como os móveis que se arrastavam sozinhos, portas que se batiam, janelas que se quebravam e vozes que pareciam vindas do além.

Earthen não os culpava, culpava apenas a si mesmo e sua terrível imprudência. Os padres e reverendo do convento vieram a pedido de William. Eles tentaram exorcizar o local, mas o poder fraco que possuíam não fora suficiente para tamanha contaminação e, vencidos, eles aconselharam que o empregado e Earthen também abandonassem o lugar.

Mas sem a proteção da luz do seu pai adotivo, Earthen descobriu que não tinha para onde ir, onde quer que fosse, levaria com ele aquele mal. Ainda havia Valentim, não se conformava em tê-lo perdido; desejava encontrá-lo de toda forma, por isso decidiu ficar.

William também declarou que não arredaria sua presença dali. O empregado contou que viu Valentim vir ao mundo, e o tinha como o filho que ele nunca pudera ter, e afirmou que enquanto Earthen carregasse um único fio de esperança de encontrá-lo, ele o apoiaria. Ajudando de sua maneira e clamando a Deus.   

Foi então que Earthen recordou-se das palavras do seu pai adotivo, um religioso nato: “Quando o desespero vier, clame a Deus, Tino, meu filho. Ele virá confortar seu coração, atender seus desejos. Foi ele quem o trouxe para mim.”.

Mas será que Deus ouviria o clamar de um demônio?

“Will?”, chamou pelo homem que ascendia velas rentes a um altar.

“Sim, milorde?”

“Você... ensinaria-me a rezar?”.

Um demônio rezando e clamando a Deus poderia parecer no mínimo cômico, uma piada de extremo mau gosto, se os olhos e o semblante do demônio em questão não estivessem tão sérios e certos do que ele buscava.

“Claro que o farei, milorde. Dois rezando é melhor do que um. Venha, aproxime-se. Junte as mãos, assim, feche os olhos e repita comigo: Deus pai Todo Poderoso, Criador do Céu e da Terra...”.

Earthen abriu a boca e repetiu as primeiras palavras da oração que soavam como um cântico, mas se deteve quando golpes potentes na porta de entrada da casa fizeram as paredes estremecerem. William se sobressaltou e Earthen pediu para que ele ficasse calmo enquanto fosse atender a porta.

Arregalou os olhos ao se deparar com Valentim.

“Não faça isso”, ele falou calmamente, mas Earthen notou que a voz que saiu dele não pertencia a ele. “Não faça! Não clame a ele que nos expulsou do Paraíso. Não clame a ele que não nos perdoou. Que jamais permitirá que entremos de novo em sua morada! O que você é?!”, alterou o tom de voz para gritos estridentes e avançou sobre a garganta do homem-lobo apertando-a com ambas as mãos. “És um idiota?! O tolo dos tolos?! Um monstro sem cérebro?! Você é a vergonha da nossa espécie! Vergonha! Um completo desperdício! Tens um corpo. Pode andar nessa terra durante o dia e a noite, pode fazeres o que bem entender. E tudo que deseja é servir esses infames e medíocres humanos?!”.

“Você não é Valentim. Saia dele agora!”.

“Só sairei se for para tomar o seu corpo.”

“O que está acontecendo com o jovem amo, mestre Earthen?”, perguntou o empregado assustado, surgindo atrás de Earthen.

“Não se aproxime, William! Ele pode...”

Mas antes que Earthen pudesse completar sua fala o velho homem venceu a distância até a porta, tirou as mãos de Valentim do pescoço de Earthen e em seguida o envolveu fortemente com seus braços, enquanto lágrimas escorriam dos olhos.

“Em nome de Deus, nosso Pai e Criador, volte para nós, meu filho”.

A luz que iluminou o interior do velho servo dos Seger, fora tão intensa e ofuscante que o espectro que possuíra Valentim não fora capaz de suportar. O corpo do rapaz fora deixado e perdeu toda energia. Era o poder do imenso amor de um humano por seu filho. Um amor que fazia a luz do interior de qualquer humano se transformar em uma arma potente. Um poder que Earthen deduziu que jamais teria, por mais que ele amasse um humano com todas as suas forças, porque ele era simplesmente um demônio, e não havia luz alguma em sua essência para ser intensificada.  

Valentim passou dias em coma e quando recobrou a consciência chorou ao ver o estado que seu pequeno paraíso se encontrava. Earthen tomou toda a culpa para si, explicou em detalhes o acontecido, desde a avalanche, da perca do seu amuleto que trouxe os espectros para aquele lugar, da possessão e de como o William o salvou. Então se desculpou com Valentim e informou-o que estaria de partida em breve, explicando que jamais aquele lugar voltaria a ser pacífico, enquanto ele estivesse ali, atraindo sombras malignas.

 “Estava apenas esperando que despertasse para ter certeza que estaria bem. Agora que sei que está, eu partirei”.

 “Nada que eu disser o fará mudar de ideia, Earthen?”

“Nada”.

“E se eu fizer algo? Pelo amor que sinto por você. Pelo amor que sentimos um pelo outro, você ficaria?”.

“O que poderá fazer, Valentim? Não há nada que possa ser feito. Eu apenas me enganei e cometi um grande erro. Não quero que continue pagando pelo meu erro”.  

“Deixe-me tentar. Dê-me alguns dias. Quinze, dez, sete... três dias?”

Earthen suspirou.

“Três dias. Pois quanto mais tempo eu ficar, mais correrá o risco de ser possuído de novo”.

“Certo, três!”, ele comemorou.

Durante dois dias, ainda fraco pela desnutrição, Valentim trabalhou arduamente em sua sala de pesquisa. E, apesar de se alimentar e dormir durante as noites, ele ainda se sentia fraco e abatido durante o dia.

No terceiro dia, Earthen pediu para que ele parasse de trabalhar e fosse repousar, afirmando que não partiria enquanto ele não estivesse bem de verdade. Mas a debilidade de Valentim não diminuiu com o repouso, nem mesmo com o passar dos dias, das semanas.

O jovem herdeiro dos Seger parecia cada dia mais enfermo. Tinha muita febre, tosse e mal se alimentava. Nenhum dos remédios humanos fazia efeito. Earthen pediu pela ajuda dos melhores médicos. Valentim tinha muito ouro, de nada serviria tantas posses se ele não tivesse saúde, mas os médicos, por mais caros que fossem, apenas o desacreditavam mais.

“Não há nada que possamos fazer”, era resposta que ele e William eram obrigados a ouvir uma atrás da outra.

Passou a frequentar a capela do convento de San Peterson e, para não chamar tanta atenção, usava uma peruca que escondia as mechas vermelhas do cabelo. Passava horas olhando para o homem preso na cruz em cima do altar. Depois dos sermões, gostava de conversar com os padres, pedira a ajuda deles novamente, mas ouvia apenas as mesmas desculpas de sempre: de que nada adiantaria os esforços dele, que depois que um ser humano era possuído, ele nunca voltaria a ser o mesmo. Muitos perdiam para demência, a loucura, outros eram acometidos por graves doenças, até que fossem levados pela morte, como parecia ser o caso de Valentim.

Desiludido, muitas vezes Earthen não sentia motivado a voltar para a casa. O convento ao menos o distraía e graças a proteção em torno dele, não era perturbado pelos espectros.

O lugar era uma construção rústica e lembrava até mesmo um castelo. Há muito tempo o convento havia se tornado o abrigo de jovens cujos pais, na maior parte composta por nobres, enviavam seus filhos para serem educados ou até mesmo para cumprirem promessas.

Earthen gostava de matar o tempo explorando o lugar na sua forma animal, sendo flagrado vez ou outra por alguma criança arteira e curiosa.

Fora assim que conheceu Albert, irmão de Benjamin, perdido na floresta. Na época ele estava tendo aulas em San Peterson, mas o príncipe vivera e estudara maior parte do tempo no convento matricial em Campos de Fliores. Earthen o guiou de volta para a entrada da construção e desapareceu em seguida, sem deixar vestígio. Não iria e não queria mais se envolver com humanos.

Havia tomado uma decisão muito séria: Valentim seria seu último humano.

Os dias que antecederam o fim de Valentim foram tortuosos para Earthen. Ele sentia o cheiro da morte impregnando no corpo daquele que tanto amava, e nunca sentira tanto asco. No dia que Valentim morreu fora um dia ironicamente mais bonito. Valentim acordou disposto, tomou banho com ele, comeu na mesa de jantar, passeou no jardim e no fim da noite se deitou dizendo que tinha uma surpresa. A caixa fora trazida por William que também desembrulhou o presente. Earthen não queria ser presenteado e sequer virou-se para olhar o que o empregado havia retirado da caixa.

“Quero ver como ficará em você. Prove, Earthen”.

“É o seu último desejo?”, perguntou ferino.

Mas Valentim respondeu a rispidez do amado com um doce sorriso.

“Não, ainda não é.”

Ainda contrariado, Earthen se voltou para o empregado e a muito a contragosto apanhou aquela joia das mãos de William e a colocou no pescoço. Era um colar lindo, pesado, todo moldado em losangos de ouro incrustados de pedras preciosas.

“Fiz um par de brincos e um conjunto de argolas para os pés e mãos para combinar com eles”.

Valentim apesar de estar sorrindo, o encarou com tristeza.

“São bem mais bonitos que a aquela cruz velha de madeira, não acha? Poderia pelo menos esboçar um sorriso de gratidão?”.

“Sabes o que me faria sorrir?”.

As lágrimas desceram do rosto de Valentim e ele não foi capaz de responder, apenas negou com a cabeça. Earthen respondeu mesmo assim.  

“Ir com você”.  

Valentim chorou.

“Mas sabe o que é pior?”, Earthen prosseguiu e o rapaz balançou a cabeça em negação novamente.

“É que mesmo se eu encontrasse uma forma de morrer, eu jamais me reencontraria com você. Com meu primeiro pai, Thomas. Com Sebastian, meu primeiro dono. Com todos os outros que vieram depois e que tanto amei e que tive que ver partir.”.

Ele respirou profundamente.

“Ainda assim, o mais triste de tudo isso, é que os outros eu superei, mas você eu sei que não irei superar. Eu jamais superarei sua partida, Valentim. Você não. Porque eu te trouxe a morte. Aquele que mais desejei que vivesse eternamente ao meu lado foi quem eu presenteei com uma morte tão precoce”.

“Não é sua culpa, Earthen. Deus quis assim”.

“Deus é um ser de piedade, não um monstro. A culpa é somente minha, milorde”.

“Sabe, Earthen. Eu estudei muito. Muito. Incansavelmente durante esses anos maravilhosos que passamos juntos. Conversei não só com padres, exorcistas, mas com várias dessas sombras também. Tudo isso na busca de tentar me entender e entender também o que você é. Se um dia se interessar, leia meu diário de estudos, ele está na biblioteca. Sabe, Earthen. Pedras se tornam diamantes. Se algo tão bruto pode ser lapidado para se tornar algo tão brilhante, translúcido, tão cheio de brilho e luz, talvez, ainda há esperanças para você. Não perca as esperanças jamais, meu amado. Não perca a fé em Deus, mesmo sendo o que é. Porque eu sinto, com esse dom que há em mim, que ainda iremos nos reencontrar”, ele garantiu e deu um novo sorriso, concluindo em seguida: “Agora sim, essas foram minhas últimas palavras”.

A luz que nunca fora capaz de enxergar em Valentim, talvez devido ao dom que ele possuísse, Earthen finalmente conseguiu enxergar quando ela eclodiu do corpo humano.

Aquela aura limpa, quase ofuscante foi na direção de Earthen. Viu o sorriso de Valentim, sentiu seus lábios tocarem os seus, as mãos de luzes envolverem seu pescoço. Sentiu aquele abraço caloroso e parte da luz brilhante dele ser absorvida por aquela peça em seu pescoço.

Em seguida a luz subiu como um verdadeiro disparo para o céu. Para Earthen restou apenas o colar em seu pescoço que queimava e reluzia. Na cama, jazia uma carcaça sem vida. William ajoelhou-se aos pés do leito de Valentim, segurou a mão pendida do seu amo e chorou sua partida.  

Em questão de dias a floresta que havia praticamente se tornado em um pântano voltou a ser como era. O verde e as cores das flores voltaram a aparecer. O rio que havia turvado de tanto barro voltou a ser cristalino e os peixes voltaram a habitá-lo. Aves voltaram a plainar no céu e animais a caminhar sobre o campo.

William e Earthen fizeram o enterro de Valentim ali mesmo, na Terra que ele tanto amara. Depois disso e, mesmo após os apelos incessantes do empregado para que Earthen permanecesse morando ali, o ex-criado, que havia se tornado nobre por herdar toda a riqueza do patrão, viu Earthen se transformar em uma bela fera, um imenso lobo negro com uma faixa vermelha nos pelos, com patas adornadas de argolas douradas e um colar de losangos no pescoço e simplesmente desaparecer na floresta.

Ele não quis levar consigo o diário mencionado por Valentim, alegando que não queria ler nada que lhe trouxesse mais dor ou esperanças vazias. Estava cansado dos humanos, queria apenas se afastar deles o máximo que pudesse.

Apenas não imaginou que o destino seria tão cruel e conspiraria contra seu desejo mais uma vez. Fazendo-o quebrar sua promessa ao ser obrigado a salvar uma criança humana perdida de um ataque de lobos na Floresta na qual vinha se escondendo no condado de Valdávia.

Descobriu assim, o quanto era um ser fraco e patético, ao não ser capaz de resistir. E, mais uma vez, quando aquele belo garoto de aparência nobre, que até então estava paralisado de medo diante de um ataque de lobos, elevou sua mão direita com a intenção de tocar sua face felpuda e o acariciou sem medo.  

Aquele garoto de orbes azuis tão puros e cristalinos quanto os do próprio lobo, sorriu ao fazer aquele afago na face do animal e vê-lo retribuir fechando os olhos, aproveitando do carinho que recebia.

“Você é tão lindo. Será que poderia me ajudar a encontrar meus pais?”.

E a resposta era tão óbvia quanto o clarear do dia e o escurecer da noite.

Continua...

 

[1] Earthen – Terrestre.

[2] Usei como base o personagem Jon Snow da série Game of Thrones, interpretado pelo ator Kit Harington.



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...