História As Origens de Sebastian - Capítulo 19


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Categorias Histórias Originais
Tags Andreiakennen, As Origens De Sebastian, Drama, Fantasia, Original, Romance
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Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Fantasia, Lemon, Romance e Novela, Yaoi (Gay)
Avisos: Homossexualidade, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 19 - Capítulo XIX - Desordem


As Origens de Sebastian

Capítulo XIX

Desordem

 

Assim que Crispian e o soldado saíram afobados para o terreno do castelo, o lorde cessou a corrida, pedindo um instante para que pudesse recuperar a respiração. Porém, a vertigem e a dor de cabeça que o assolaram foram tão graves que não fora capaz de se sustentar em pé e caiu de joelhos na grama, curvou o corpo para frente e vomitou.

— Minha nossa, milorde! Ainda está muito debilitado, não é mesmo? — Reiji o acompanhou, preocupado.

Assim que Crispian parou de vomitar, ele limpou a boca com punho da manga do vestido e se desculpou com Reiji.

— Perdoe-me, Reiji. Deve ter sido o momento de tensão. Mas agora que coloquei o que estava embrulhando meu estômago para fora eu me sinto melhor.

— Tem certeza?

— Hm — assentiu firme e se pôs de pé. — Não cheguei aqui para me deixar abater agora — ele garantiu, juntando a barra do vestido para segurá-lo com uma mão, enquanto que com a outra ele apanhou a mão de Reiji e a firmou na sua.

Olharam-se, como se trocassem um consentimento mútuo e então correram lado a lado em direção ao grande portão.

Mas antes que chegassem ao local notaram o tamanho do caos instaurado entre soldados e cavalheiros que andavam de um lado para outro sem saberem como conter o aglomerado de moradores que forçava o portão para entrar.

Não desviaram do destino em foco, todavia, antes que chegassem aonde queriam, foram impedidos de continuarem pelos soldados que formavam uma barreira.

— Voltem! — um dos homens gritou. — Não tem como saírem agora.

— Mas temos ordens de fazer compras para a futura rainha — explicou Reiji.

— Estou dizendo que não há como saírem e não tem onde comprarem nada! Olhem lá!

O homem apontou o portão de espessas barras de ferro e para os rebeldes que investiam contra ele, munidos de paus, tochas e pedras.

— A rebelião chegou até a área restrita. Eles conseguiram vencer os guardas e saquearam os comerciantes da região. Agora estão impondo a entrada no castelo. Há dias estamos tentando alertar ao rei dessa situação, mas até o momento só ouço dizer que estão discutindo a situação em reunião! Agora o caos estourou!

— Precisamos de mais ajuda aqui! — bradou em desespero um dos que estava se esforçando para conter a queda do portão. — Por Deus! Chamem o capitão!

O grupo de rebeldes investia o próprio peso contra as grades do lado de fora, enquanto os soldados do lado de dentro usavam a força dos seus braços para evitarem a queda. Porém, era evidente que o número dentro do castelo era muito menor e que a consequência pendia favorável para os que estavam tentando invadir.

Um golpe fez os muros estremecerem.

— Meu Deus, o que foi isso agora?

— Estão investindo contra as paredes usando troncos de árvores! — informou o sentinela no alto de uma das torres de baluarte em cima do muro.

O desespero abalou Crispian e o fez elevar as mãos a cabeça e apertá-la com força ao compreender a situação real que tornava impossível a fuga por ali. Tudo parecia conspirar contra. Estava há poucos passos da liberdade e não via a mínima possibilidade de alcançá-la. Começou a respirar com dificuldade e as lágrimas brotaram nas margens de seus olhos.

Reiji pensava em uma solução quando fora surpreendido pelos soluços do único remanescente do clã de Valdávia ao seu lado. Sentiu o peito apertar ao vê-lo chorando. Não compreendia porque o milorde estava se mostrando tão fragilizado. Era tal como a dama indefesa a qual seu disfarce o remetia. Entretanto, sabia que além daquela aparência bela e delicada tinha um homem de garra, determinação e que o fascinara por sua imponência: “The Lord of the Wolves”.

Não era um covarde como nomeara para lady Anabel. Era sim o verdadeiro herói somente por pensar na população antes de querer salvar a própria pele.

— Milorde?

— Não temos como fugir, Reiji — deu um alto soluço, deixando os ombros penderem. — Veja com seus próprios olhos. Não temos como passar por esse tumulto. Serei preso novamente. Parece que meu destino é morrer servindo aquele monstro. Mas eu juro, Reiji. Juro. Antes que Benjamin coloque suas mãos asquerosas, a boca ou qualquer parte do corpo dele em mim novamente, eu darei cabo da minha própria vida.

— Não diga palermices, Lord of the Wolves! — revoltou-se Reiji fazendo Crispian sobressaltar ao ser chamado pelo o apelido dado pelos aldeões. — Ainda não é tempo de perder as esperanças. Estás sendo pessimista quando estamos há alguns passos da liberdade. Sequer parece aquele conselheiro de confiança exacerbante que confrontou corajosamente Benjamin e aquela corja de puxadores de saco com a cabeça erguida e peito estufado! — o soldado o lembrou e passou a manga do punho no rosto de Crispian, secando as lágrimas que brotavam como diamantes nos olhos cristalinos.

O rapaz ruivo compreendeu que sua fala tivera o efeito desejado, pois notou o semblante de Crispian mudando para melhor. Ganhando firmeza.

Então Reiji suspirou fundo, deixando a respiração escapar como fumaça devido ao frio do ambiente. Recordou-se do seu velho pai que sempre dissera que em momentos de desespero era necessário respirar profundamente e evocar a paz de espírito. De acordo com o mais velho, nenhuma mente em desespero era capaz de encontrar soluções plausíveis que muitas vezes encontrava-se bem diante do nariz.

A calma que fora dificilmente evocada fora facilmente dizimada pelo o avançar repentino de Crispian. O lorde de Valdávia envolveu o pescoço de Reiji e o toque inesperado da boca dele com a do rapaz fez o coração antes tranquilo do soldado acelerar e entrar em alvoroço.

Crispian se afastou sorrindo e Reiji o encarou com olhos arregalados.

— O- o que f- foi isso, mi- mi- milorde?! — inquiriu com o rosto em chamas.

— Foi só uma forma singela de agradecimento por me devolver a esperança sempre que a deixo se perder de rumo — garantiu Crispian se afastando, procurando as mãos do mancebo as quais apanhou de volta nas suas. — Não querendo ser pessimista, pois agora sinto que com a sua coragem e amizade vou conseguir deixar esse lugar e vencer. Todavia, se algo ruim vier acontecer com a gente, quero que leve com você meu agradecimento. Por tudo que está fazendo por mim, Reiji. Não posso reclamar dos demônios que tumultuaram minha vida quando Deus também me dispôs um anjo.

Reiji engoliu em seco, sentindo o afogueio nas bochechas diminuir. Volveu suas mãos e segurou firmes as de Crispian, então assentiu.

Mais calmos, olharam a volta e notaram que um combatente ao longe fazia gesto chamando-os. Correram até o homem.

— Eu percebi que os pombinhos estão querendo fugir — este comentou com um sorriso jocoso assim que se aproximaram. — Vou ajudá-los.

— Por quê? — desconfiou Reiji. 

— Porque sei como estaria desesperado se minha dama estivesse aqui, correndo risco de vida. Eu entendo seu desespero meu amigo — ele apertou um dos ombros de Reiji e assentiu para a dama ao lado dele. — Agora venham comigo.

Mas o chamado não fora atendido. O soldado havia aberto uma porta de ferro e pedia para que os dois o acompanhassem de volta ao castelo.

— Eu não vou voltar — afirmou Crispian. Esquecendo-se de afinar a voz.

Reiji não soube disfarçar o constrangimento por Crispian ter praticamente exposto sua identidade ao usar seu tom natural de voz, sendo que há pouco haviam se beijado, deixando claro assim que estivera provando dos lábios de um homem. Ademais, ponderou que se tentasse justificar seria pior, então optou por se fazer de rogado, igualmente aos outros dois. Afinal, também não concordava com a ideia de voltarem para o interior do castelo depois da tamanha dificuldade que tiveram em sair.

Apesar de surpresa do soldado que oferecia ajuda com a voz grossa da moça com quem seu colega estava tentando fugir, ele manteve a oferta de ajuda.  

— Não tem do que ter medo, minha cara donzela — dirigiu-se diretamente a Crispian. — Esse é o nosso depósito de armamentos — explicou. — Aqui dentro existe uma rota de fuga, se não me engano há apenas três em todo o castelo. Elas são usadas para que pessoas importantes possam evacuar em segurança em tempos de crise como esse.

— E como alguém como você sabe de algo tão sigiloso?

Reiji arregalou os olhos mais uma vez, para a observação desconfiada e ao mesmo tempo desdenhosa de Crispian sobre o pouco status que o soldado obtinha. Além do fato dele novamente não se preocupar em disfarçar a voz.

— M- milady...

Mas o soldado, novamente, pareceu não se importar com a fala de Crispian. Ao contrário, ele se divertiu e riu alto.

— Agora vejo porque se apaixonou, companheiro — disse, voltando-se para Reiji com um grande sorriso. — Eu também tenho uma grande fraqueza por mulheres assim, um tanto másculas, mas belas, ferinas e de gênio bastante impulsivo. Garanto que essas são as mais ousadas e quentes na cama — observou e piscou um dos olhos para o colega, fazendo-o corar com a insinuação.

Crispian não se alterou. Apenas manteve seu olhar atento ao guerreiro que oferecia ajuda gratuita, analisando meticulosamente seu comportamento. 

— Mas, respondendo sua pergunta, bela dama. Realmente não sou ninguém importante. Sou apenas um curioso qualquer que cresceu nesse castelo. Desde pequeno fui muito arteiro e explorador. Descobri essa rota de fuga por acaso e passei a explorá-la. Claro que se tornou minha salvação dos treinos mais árduos. Um segredo que dividi com os mais confiáveis, os que me pagam bem e aqueles que têm interesse em comum e que eu queira ajudar por mero capricho, como é o caso agora. Eu não estou nenhum pouco a fim de arriscar meu pescoço nessa batalha, quero apenas partir desse lugar de uma vez e levar comigo a donzela que me espera no nosso refúgio. E agora? Vão vir comigo ou vão ficar esperando derrubarem o muro e a guerra começar?

Reiji balançou a cabeça em negação ao concluir que aquele soldado diante deles era um mero covarde. Mas não estava em posição de censurá-lo quando eles também estavam buscando uma rota de fuga. Encarou Crispian e, como se comunicassem pelo olhar, os dois decidiram juntos.

— Vamos com você!

...

Dentro do castelo, Benjamin gritava ordens ao seu comandante.

— Você não me ouviu? És surdo?! Eu disse para que contra-ataquem aqueles miseráveis, Dorcas!

Os conselheiros encaravam boquiabertos ao rei. Baltazar, por sua vez, parecia o mais pacífico; o único deles que não demonstrava uma feição de perplexidade com as ordens de retaliação de Benjamin.

Ninguém tinha fé suficiente para concordar e coragem para discordar. Como Baltazar era o único que tinha sua opinião segura, aproveitou-se para expô-la. 

— Vamos nos recordar que a ordem do rei é uma ordem divina — ditou o velho. — O que fazem parados? Ao menos devemos agir de acordo com vossas funções. Votemos, se houver dúvida. Quem é a favor do rei e da retaliação aos plebeus rebeldes ergam as mãos.

As palavras de Baltazar engrandeceram Benjamin e esmaeceram os presentes, que se sentiram pressionados, era certo que quem não levantasse a mão teria sua feição guardada e poderia se considerar tão condenado quanto os desordeiros do lado de fora.

Mas antes que a votação tivesse início, uma voz feminina se preponderou no silêncio. 

— Esperem!

Benjamin voltou-se com os olhos em chamas para a noiva que entrava acompanhada de suas damas na sala cheia de homens.

— O que fazes aqui, Ana? — perguntou ele com os dentes trincados. — Isso aqui não é a sala de chá, de costura ou sequer o jardim! Reunião de guerra não é lugar para mulheres...

— Reunião de guerra? — ela o interrompeu com um riso estrondoso. — Você está se ouvindo, Ben? Está mesmo sério quanto ao que ordenou? Aqueles lá fora, apesar das aparências imundas os assimilarem a pobres demônios, são sua gente. Seu povo que está clamando por comida. Comida, Ben! Não são seus inimigos! Como pode ordenar que o seu exército contra-ataque meros plebeus que sequer possuem armas?

— Eles querem invadir o castelo! — Benjamin contestou. — Querem saquear! Serão capazes de matar por um pedaço de pão e você está aí dizendo que não são inimigos, Anabel?!

Fora a vez do superior de Valais gargalhar.

— São seu povo — ela continuou firme na resposta.

— Senhor, dai-me paciência! — o rei clamou aos céus. — Por isso dizem que mulheres para nada mais servem a não ser abrirem suas pernas, satisfazerem seus homens e gerarem nossos herdeiros. Porque só uma mulher para opinar sem usar a cabeça. É simples dizer sandices sem compreender a realidade. Afinal, como sugere que contenhamos aqueles monstros?!

— Alimente-os.

— Com o quê?! — rebateu fervoroso.  

— Tem uma dispensa gigantesca no castelo.

— Ah! Você está sugerindo que alimentemos aqueles vermes vagabundos com a comida dos nobres?!

— Tem provisões para mais de um ano! Com a quantidade que tens aqui conseguiria alimentar esse povo pelos menos por três meses! Até o inverno se romper e eles poderem cultivar.

— E quando a comida acabar, Anabel? Ofereceremos nossa carne e nosso sangue para brindarem?

— Tens riquezas, Majestade. Uma quantidade imensa de ouro nesse castelo! Compre alimentos, sementes, invista em material para cultivo. Forneça ao povo em forma de empréstimo. Os aldeões poderão pagar parte da dívida com o que cultivarem e vão devolver o alimento que consumiram nesses meses e abarrotaram sua dispensa novamente. 

Benjamin gargalhou novamente e sua gargalhada estridente propagou ecos fantasmagóricos dentro do recinto. Voltou-se para seus conselheiros e a guarda pessoal presente esperando que alguém fosse se manifestar, porém o que via no rosto dos presentes era apenas terror; pânico.

— Veja — mostrou ao redor. — É essa a resposta que tens, Ana. Ninguém está se manifestando a favor. A opinião de uma mulher não faz a mínima diferença.

— O que vejo são apenas um bando de caga-calças — ela retrucou com um esturro debochado. — Ninguém aqui tem culhões suficientes para peitar vossa insanidade. Vejo apenas um bando de homens adultos e frouxos!

Como Benjamin não costumava carregar armas, ele sacou a espada da bainha de Dorcas ao seu lado e a apontou para o pescoço de Anabel.

— E tu, minha nobre e horrorosa candidata a rainha, tens mais culhões e bigodes que qualquer medíocre nessa sala, não é? Sempre achei que fosse mais homem que qualquer um deles.

A apreensão se tornou mais densa, as damas acompanhantes de Anabel soltaram exclamações de espanto com a atitude do rei. Mas, por sua vez, em resposta a ameaça diante dela, Anabel Reya apenas enrijeceu mais sua postura, enviesando-se e empinando para o alto o largo nariz e sorrindo, aparentemente despreocupada.

— Não temo a morte, Vossa Majestade. Eu fui criada para ser uma rainha. Não uma rainha qualquer, mas a melhor de todas, para o melhor rei e o melhor reino. E algo que aprendi em meu tempo de instrução é que a família real jamais abaixa a cabeça, devemos levar nosso orgulho conosco em qualquer situação, mesmo que para o túmulo ou para lama ao lado dos porcos.

O rei arregalou os olhos e abaixou a espada, observando o movimento estranho que se formou em seu baixo ventre. Abriu um sorriso de lado. 

— É. Finalmente conseguiu despertá-lo — referiu-se jocosamente ao órgão sexual e gargalhou mais uma vez, alto e sozinho, por um bom tempo. Quando o riso enfim estagnou ele respirou fundo e falou. — Mas discursos bonitos não embelezarão jamais sua face horrível e não trarão curvas para essa tora de madeira que chama de corpo, Ana! Ana, Ana, minha cara Ana. Eu temo pela revolta de nossos herdeiros pela má escolha me imposta caso venhamos concebê-los — declarou, devolvendo a espada para Dorcas. — Mandem alguns dos seus homens para a dispensa.

Antes que a expressão de alívio tomasse conta dos rostos presentes, Baltazar decidiu se manifestar.

— Vossa Majestade, permita-me...

— Ah, minhas bolas! Por que você ainda vive, velho?

— Sinto muito por isso, Vossa Majestade.

— Cuspa logo seu veneno.

— Não estou questionando vossa ordem, muito menos a força de vossos homens. Mas há pelos menos quarenta mil aldeões em Valais e todos devem estar nos portões de Austin nesse exato momento. E existem quantos homens mesmo em vossa guarda atualmente? 

O rei voltou-se para Dorcas, esperando dele a resposta.

— Em torno de dez mil, Majestade — respondeu o capitão.

— Todos eles se encontram aqui?

O líder das tropas engoliu em seco.

— Nos dê os números reais, Dorcas! — exigiu Benjamin. 

— Provavelmente não chegam a quatro mil o número dentro do castelo hoje, Majestade.

— Vê — o homem levantou as palmas das mãos para cima. — Como quatro mil homens irão conter quarenta mil?

— Esse velho senil está certo, Dorcas.  

Anabel estremeceu, temendo pela linha de raciocínio a qual Baltazar estava levando a conversa.

— Mas não haverá necessidade de confronto — lady Anabel contestou. — Faremos um acordo com eles! Iremos dar o que necessitam por hora e...

— Perdoe-me, milady, Vossa Majestade, futura rainha de Valais — Baltazar dirigiu-se de forma forçadamente polida a nobre, com um sorriso estreitado e as pálpebras enrugadas escondendo por natureza seus olhos. — Mas o povo está insano. Mesmo que decida alimentá-los agora, se abrir aqueles portões, os guardas não irão conter o fervor que os abrasam e fazem deles feras famintas. Seremos massacrados em um piscar de olhos.

— E qual sua sugestão, velho?! — perguntou Benjamin revoltado. — Desembuche!

A questão do rei fez com que os olhos envoltos por camadas grossas de rugas do moribundo Baltazar se arregalassem sorridentes.

— Não dizimar por completo, como Vossa Majestade sugeriu anteriormente, mas apenas baixar o número lá fora.

— Está querendo dizer?

— Eliminar apenas a parte mais revolta. Com isso acabaríamos com vários problemas: eliminaríamos os rebeldes, manteríamos os sobreviventes no lugar devido e as provisões seriam suficientes para mais de meio ano.

Não precisou de mais argumento para Benjamin ditar suas novas ordens.

— Prepare as armas e seus homens, Dorcas. Baltazar está certo. Vamos contra-atacar.

Dorcas relutou. 

— Mas, Majestade...

— Não quero ouvir mais nada e de mais ninguém — incluiu Anabel em seu campo de visão. — Está decidido. Esta é a ordem do rei. Eu também estou cansado dessa imundice toda. Desta gente que sequer trabalhou e se preparou para o inverno e agora querem comer.

— Eles não se preparam porque seu governo não deu a eles condições, Ben!

— Cale-se, Anabel! Eu disse que não queria ouvir nada de mais ninguém. Apenas cale-se! Chega de desculpas! Não aguento mais ouvir o tom da sua voz. Eu já fui condescendente em aceitar parte da sua sugestão: irei alimentar os que ficarem vivos, não irei? Mas apenas aqueles que forem fortes suficientes para sobreviverem ou se renderem. E esses, antes de qualquer farelo de pão que colocarem na boca, irão jurar lealdade ao meu reino. Agora vão! Cumpram minhas ordens!

Baltazar sorriu satisfeito. Enquanto Dorcas, mesmo que contrariado, acatou a ordem e comandou seus homens para fora do salão.

Anabel viu Benjamin se retirando e seguiu em seu encalço. 

— Espere! Aonde vai, Ben? Deveria pelo menos ficar aqui e acompanhar a progressão de...

— Eu disse que estou cansado, Ana. Preciso dormir um pouco.

— Eu irei com você.

— Não! — ele deteve a caminhada, volvendo para noiva e a encarando com o cenho franzido. — Por mais que tenha despertado um pouquinho o mastro real com suas imposições, eu não dormiria com você ao meu lado, Anabel. Ao contrário, ficaria mais acordado. Eu quero sim uma companhia na minha cama, quero muito saciar a excitação que me tomas, mas quero alguém que me traga conforto aos olhos, e eu sei perfeitamente onde encontrá-lo. Então, por favor, se me der licença, estou me retirando por hoje. 

Anabel sentiu um forte tremor abalá-la. Benjamin estava indo atrás de Crispian e não iria encontrá-lo. Cerrou os punhos, preocupada. Porém, um alívio a tomou logo em seguida, ao imaginar a decepção na face do rei quando encontrasse o cárcere de Crispian vazio. A sensação de vingança foi tão efusiva que a fez rir.

“Trouxa, débil, imoral! Ainda irei gargalhar da sua cara quando não puder meter seu orgulhoso ‘mastro real’ nem mesmo no buraco dos porcos, Benjamin!”.

Nora, a dama de companhia mais velha de Anabel, estava prestes a consolá-la quando de sobressalto viu a herdeira dos Reya erguer a cabeça e sair do salão às pressas.

Apavorada, a mulher seguiu a nobre, enquanto Anabel pedia para que Dorcas a esperasse.

O capitão da guarda se deteve ao notar o chamado da futura rainha.

— Capitão! Espere, um minuto.

— Majestade?

— Permita-me acompanhá-lo?

— Minha futura rainha, entenda, não estou desdenhando da vossa presença, mas irá tornar nossa missão mais problemática. És a noiva do rei, afinal de contas, teremos que nos desdobrar pra protegê-la, pois se acontecer...

— Capitão? — ela o interrompeu.  

— Sim?

— Não seja hipócrita você também. Achas mesmo que Benjamin irá se importar se algo de ruim acontecer comigo? Ele dará graças a Deus e a você caso isso vier acontecer. Além disso, é necessário um representante da corte lá fora.

— Haverá matança.

— Eu estou preparada — ela garantiu com um assentir firme de cabeça. — Pode não parecer, mas aprendi esgrima com o mestre de espadas da casa do meu pai. Sempre fui muita ativa, adoro explorar, cavalgar. Coisas de meninas nunca foram meu forte, capitão. Eu quero ir lá fora.

Pela primeira vez na vida, Dorcas sentiu seu corpo reagir com a presença de uma mulher. Sequer conseguiu compreender quando simplesmente concordou com um meneio de cabeça.

— Como queira, milady. Deverá vestir uma proteção.

Anabel sorriu abertamente, satisfeita com a resposta de Dorcas. Sentiu-se mais viva do que nunca, quase extasiada. Não pelo possível conflito, ou pelas mortes que poderiam ocorrer àquela noite, mas sim pelo fato dela estar fazendo parte de algo importante e saber que poderia intervir a favor do seu futuro povo.

...

Earthen corria com o vento. Seus sentimentos ordenavam-no um caminho, mas seus instintos o guiaram por outro, que o levara ao único lugar que um dia pode chamar verdadeiramente de lar.

Com sua velocidade sobre-humana calculou que seria capaz de alterar sua rota para resgatar um pertence e ainda seria capaz de chegar a tempo de resgatar Crispian das mãos do insano Benjamin.

Earthen sentiu a diferença drástica de temperatura ao adentrar o território de Veneras, onde está localizada a Floresta de San Peterson, ao sul do continente, onde os invernos sempre foram mais amenos.

O lobo também notou que algumas décadas fizeram grandes mudanças na densidade demográfica da região, havia novos vilarejos e os mais velhos haviam crescido e se tornado bem mais povoados.

Mas não dispunha de tempo para admirar as mudanças atenuantes da região e apenas desejou, do mais profundo da sua alma não-humana, que o lugar que procurava ainda estivesse lá, mesmo que fosse em ruínas.

Porém, muito melhor do que desejara e esperava, encontrou a antiga morada dos Seger intacta, exatamente como ele a havia deixado, como se tivesse ido embora há poucos dias.

No caminho, ao passar por uma nobre residência, afanou um traje formal e um par de calçados que secava ao sol. Vestiu-se o mais apropriadamente que conseguiu e tentou alinhar os cabelos longos, juntando-os e um laço rente a nuca. Em seguida adentrou o terreno da residência e bateu a porta, sendo brevemente atendido por um jovem desconhecido, que o olhou desconfiado quando perguntou por William.

— E de onde conhece meu mestre?

— Então ele ainda vive?

O rapaz arqueou uma das sobrancelhas, ainda mais desconfiado com a surpresa do visitante com o fato do seu mestre estar vivo e bem.

— Apesar dos problemas da idade, meu mestre regozija de muita boa saúde, meu senhor. Não seja rude.

— Não quis ser, meu jovem. Acredite. Estou realmente feliz e desejo ainda mais revê-lo. 

O rapaz endureceu a postura e após uma análise meticulosa de cima em baixo no visitante, concluiu. 

— Ah, eu acho que já entendi. Escute bem, meu senhor, irei repetir de novo e quantas vezes mais forem necessárias, não adianta vir pessoas diferentes tentar convencer meu mestre, a resposta continuará sendo a mesma: a casa não está a venda e é melhor que se conforme de vez.

— Isso é ótimo! — exclamou Earthen. — Eu vim rezando para que a casa não tivesse passado de dono. Por favor, anuncie-me.  

Mas os sons de passos arrastados acompanhados de um baque seco de uma bengala no assoalho de madeira se aproximaram do saguão de entrada e logo a figura idosa se fez presente.  Apesar de a residência estar impecavelmente igual como era antes, os humanos comuns não obtinham o poder de se manter com o decorrer dos anos, pois o rosto de William estava completamente enrugado, assim como as mãos que se apoiavam trêmulas na bengala, deixando o corpo envelhecido curvado para frente. Óculos de lentes grossas e a cabeça calva ladeada por cabelos brancos concluíam tristemente as evidências de que o tempo não era, realmente, nada generoso com os daquela espécie.

— Bem que dizem que quem é vivo um dia aparece — comentou o idoso com a voz rouca e arrastada.

— William!

— Milorde?

— Esse título não me pertence mais, Will.

William sorriu e voltou-se para o jovem que impedia a passagem de Earthen.

— Não fique parado, Frederico. Deixe-o entrar, vamos. E nos prepare um bom chá.

— Ah? Ah. Sim, meu senhor — constrangido, o rapaz abriu passagem para Earthen na porta, curvou o corpo e com um gesto de mão apontou o interior da residência permitindo a entrada. — Tenha bondade, milorde.

Na varanda dos fundos da casa, Earthen admirou o imenso jardim de onde dava para ver as montanhas gêmeas de Miggliori e o rio Di Lourence, respirou o ar fresco da região e seu peito inflou ao reviver os bons momentos que tivera ali.

O velho William havia se acomodado em uma cadeira de balançar feita de vime, com um cobertor sobre as pernas, ele tossia, o que fez Earthen se preocupar por estarem reunidos do lado de fora.

— Tem certeza que o clima está propício para que fiquemos aqui fora? Não me importo de conversarmos lá dentro.

O velho parou de tossir, respirou fundo e sorriu.

— Ainda é gentil e atencioso como me recordo. Além da aparência. É incrível. Passaram-se cinquenta anos e para você é como se o tempo não tivesse passado um minuto sequer. Não envelhecer é definitivamente uma dádiva divina. 

— Não, Will. Continuar jovem enquanto as pessoas a sua volta envelhecem e morrem não é uma dádiva, é definitivamente uma maldição. — Os olhos se de Earthen se mortificaram. — Eu nunca pensei que um dia regressaria. Muito menos que ainda o encontraria aqui. 

— Enquanto eu sempre imaginei ao contrário. Eu tinha certeza que um dia voltaria, milorde. Por isso nunca pensei em abandonar esse lugar. Viajei muito, conheci lugares excêntricos e maravilhosos, entretanto, no fim, optava por regressar, pois eu sempre acreditei que aquilo que vi com os meus próprios olhos não fora uma mera ilusão criada por uma mente exausta pela perda. Eu o vi, milorde. Eu o vi transformar-se em uma bela fera de pelos negros, com uma mecha flamejante nas costas, e desaparecer atordoado, desesperado e machucado, em meio a escuridão da floresta. Por isso imaginei que quando seu coração se recuperasse da dor, e sua mente voltasse a pensar racionalmente, que voltaria para requerer tudo que lhe fora deixado como herança. E agora, cinquenta anos depois, posso afirmar com toda certeza que és real. 

A porta de correr se abriu e o rapaz atravessou para varanda pedindo licença ao interromper momentaneamente a conversa do patrão e o visitante. Frederico depositou a bandeja sobre uma baixa mesa redonda e, formalmente, serviu o chá ao visitante que continuava de pé, e que o agradeceu com um assentir de cabeça. Na sequência o rapaz serviu seu velho mestre.

— Obrigado, Frederico — William agradeceu e o rapaz fez um breve meneio com a cabeça e se prostrou ao lado do mestre segurando a bandeja rente ao peito, enquanto encarava com o cenho franzido o visitante que farejava grosseiramente o chá que servira.

— Algo não está do seu agrado, milorde?

— Não é nada disso. Apenas aprecio mais o aroma do chá do que o gosto propriamente — dito isso, Earthen elevou a xícara delicadamente aos lábios e sorveu um pouco da bebida, voltando a repô-la sobre o pires delicadamente. — Está delicioso — comentou, fazendo o servente constranger-se com o elogio repentino e virar o rosto tentando esconder o embaraço. — Mas você está enganado, Will. Eu não vim atrás de nenhuma herança. Há apenas uma coisa que desejo — Earthen retomou o tópico anterior a intromissão do empregado e continuou de onde parara sem se preocupar com a presença dele. Havia notado que o rapaz era para William mais que um mero empregado.

William sorriu e diferente de Earthen, sorveu a bebida quase toda em um único gole e depositou xícara e pires na mesinha ao seu lado, voltando a ficar com as mãos livres para apontá-lo.

— Vejo que está faltando um dos losangos do seu colar.

— Continua um bom observador.

— Apenas se faz notável, pois tenho por certo que não haveria relapso da vossa parte com algo de valor tão estimado. Sinto como se a peça tivesse sido usada para presentear a alguém de importância tão suma e que também necessite da mesma proteção.

Earthen sorriu e esforçou-se para tomar o restante da bebida.

— Eu tive um filho, Will — revelou, arrancando um ar de surpresa do idoso.

— Tal concepção é mesmo possível?

— Sim — Earthen afirmou simplesmente. — E acredito que está criança precisa de tanta proteção quanto eu. Por isso deixei uma das peças do colar com ele.

— Frederico?

— Sim, mestre?

William desenroscou o cordão que estava por debaixo do seu colarinho e o retirou por cima da cabeça, havia uma chave como pingente, a qual entregou nas mãos do empregado.

— Vá até a biblioteca, abra a escrivaninha, na última gaveta do lado esquerdo e traga até aqui a caixa preta que está lá dentro, por gentileza.

— S- sim, mestre. Com sua licença. Já volto.

O servo saiu afobado.    

— Parece um bom rapaz.

— De fato — assegurou. — Ele e o irmão gêmeo me abordaram para pedir esmola em uma das viagens que fiz. Os dois eram moradores de rua, não tinham mais que cinco anos de idade e estavam descalços em meio a garoa fria que caía, meu velho coração não resistiu tamanha crueldade e eu os trouxe comigo. Jeremias, o gêmeo mais novo, é muito meigo e gentil, porém sempre fora mais desapegado e quando eu disse que pagaria os estudos de ambos em um colégio particular ele não pensou duas vezes em aceitar e se foi. Frederico não aceitou. Ele sempre foi impulsivo, desconfiado e genioso, todavia, bem mais apegado. Na ocasião ele disse que continuaria aqui, trabalhando, me servindo, para pagar as despesas dele e do irmão. No entanto, eu sei que no fundo ele tem um enorme coração, e apenas ficou porque sente pena em deixar sozinho um velho como eu.  

Um sorriso singelo adornou os lábios de Earthen ao saber que até mesmo William havia encontrado uma grande razão para superar a morte de Valentim e seguir vivendo e sendo feliz. E quando Frederico retornou afobado com a caixa preta que William havia pedido, não conseguiu evitar olhá-lo de maneira diferente e sorriu mais abertamente para o rapaz, que o estranhou.

— O- o que houve?!  

— Continue cuidado bem do Will, Frederico.

— Não preciso que um estranho me diga isso! — ele ralhou.

— Não seja arisco, Frederico. Vamos, entregue a caixa a ele.

Mesmo com o cenho franzido, e aparentemente a muito contragosto, o rapaz estendeu a caixa para Earthen.

Após destampá-la, Earthen dedilhou com cuidado a capa de couro preto puído do Diário de Valentin.

— Está finalmente entregue.

— Agradeço por tê-lo guardado por tanto tempo, Will.

— Não por isso. Eu sei o quanto se sentiu culpado com a morte precoce do jovem mestre. E eu sempre quis reencontrá-lo para dizer isso: nem eu, tão pouco Valentim, o culpamos sobre o que aconteceu. Estou afirmando isso do fundo do meu coração e da minha alma. Pois todo o dia que Valentim passou aprisionado naquela sala de pesquisa foi para encontrar uma forma de retribuir todo o amor que você dedicou a ele, milorde. Confesso que cortou meu coração quando se foi sem levar o diário, era como se estivesse rejeitando parte dos sentimentos puros do meu mestre. Por isso que estou muito feliz por ter vivido até esse momento e poder morrer, não hoje, mas um dia, com a certeza que seus sentimentos por ele sempre foram tão puros o quanto. Você fez meu querido mestre muito feliz, milorde. E eu serei eternamente grato por ter preenchido a vida daquela criança de tanto amor e alegria. Obrigado.

O sorriso de William e os sentimentos dele é que eram verdadeiramente puros, eram as palavras que Earthen gostaria de ter dito ao velho mordomo ao se despedir dele com um abraço e lágrimas nos olhos. Mas tudo que ele conseguiu fora expressar o quanto estava feliz por poder se despedir de alguém que não estava em seu leito de morte.

William ainda disse que as portas da residência dos Seger permaneceriam sempre abertas para ele e suas futuras gerações.

— E eu sei, pelos seus olhos, que há mais alguém especial além da criança que teve. Não se sinta envergonhado em confessar, milorde. O amor é o sentimento nobre e quanto mais amamos, mais humanos nos tornamos. Gostaria muito de conhecer seu pequeno e o novo mestre que ganhou seu coração. Se quiser, traga-os para conhecer esse velho avô qualquer dia desses. Está certo que não disponho de mais energia para brincar com o seu pequeno no jardim, mas ainda posso ler para ele bons livros.

— Não irei prometer, mas quem sabe.

— Diga-me ao menos seus nomes.

— O nome da minha criança é Sebastian, e Crispian é...

— Eu entendi. Não diga mais nada, não queremos que Valentim se revire no túmulo, não é mesmo?

Os dois riram.

— Sebastian é um nome imponente. E Crispian é um nome deslumbrante.

— E garanto que não são somente os nomes.

Ambos riram mais uma vez.

Frederico despediu-se de Earthen confuso com toda aquela conversa. Ele simplesmente não conseguia entender o que seu mestre e aquele estranho visitante estavam conversando. Muito menos acreditar que eram amigos de longa data.

— Vá com Deus — desejou William para Earthen.

Poderia parecer irônico alguém dizer para um demônio ficar com Deus, se aquele desejo não fosse verdadeiramente real.

— Amém, Will. Fique com Ele.

...

Benjamin atravessou a espada no estômago do guarda que fazia vigília na porta do quarto onde Crispian deveria estar. Impulsividade regida pela falta de informação do rapaz que não soube lhe responder onde estava seu hospede e o porquê ele tinha deixado os aposentos sem suas ordens.

Começou a respirar com dificuldade, enquanto o suor brotava frio em sua fronte e mãos. Como se não fosse suficiente para seus nervos a rebelião que se instaurava nos portões do castelo, ainda teria que lidar com a fuga de Crispian?

 Saiu gritando por seus guardas no corredor e ordenou para o primeiro que encontrou que trouxesse Dorcas imediatamente.

Trêmulo, o guarda não quis contestar e apenas saiu correndo aos tropeços.

Benjamin trincou os dentes sentindo o coração batendo em desespero. A cabeça latejava uma dor frontal. Encostou-se à parede e deslizou as costas por ela até acomodar-se no chão. Elevou ambas as mãos a cabeça e apertou com força, tentando evitar que a dor se tornasse mais forte, enquanto tentava conter a raiva que alimentava a irregularidade dos seus sentidos.

— Maldição! Maldição! Como isso foi acontecer? — se auto-questionava, perturbado. — Você não pode ter ido embora nesse momento, Crispian! Não pode! Eu irei caçá-lo e matá-lo se ousou a fazer isso. Irei atrás de você nem que seja no inferno. E irei matar na sua frente todo mundo que ousou a conspirar contra mim e a seu fa-... vor...  

Um estalo clareou a mente de Benjamin e a imagem da serviçal que saía acompanhada do guarda ruivo cruzou sua mente fazendo-o arregalar os olhos em compreensão. A timidez, o fato como ela evitou a todo custo olhá-lo nos olhos, o jeito como Anabel interferiu em defesa dela e a chamou de...

— “Crispiana...” — Benjamin começou a rir e não demorou a risada se tornar em uma alta gargalhada. — Aquela desgraçada... — balbuciou, crispando os punhos e se pondo de pé. — A partir de agora farei questão em humilhá-la com vigor, Anabel. Dia a após dia, até o último suspiro de sua vida. E ainda farei de Crispian a rainha que nunca irá ser! É uma promessa.

...

Do lado de fora do castelo, Dorcas alinhava o grupo arqueiros, munindo-os com flechas de fogo e dando-lhes explicações de como seria o primeiro ataque. Anabel, que havia sido vestida com uma proteção metálica, ajudava-o banhando as flechas em querosene e entregando-as aos soldados. Foi quando um dos soldados internos do reino surgiu afobado, gritando que o rei ordenava a presença de Dorcas.

O capitão das tropas revirou os olhos.

— Nada é tão urgente que Vossa Majestade não possa esperar.

— O que aconteceu? — Anabel perguntou diretamente, imaginando do que se tratava.

— Não sei, senhora. Ele não disse. Mas o guarda que estava de sentinela diante daquele quarto de hóspede está morto.

Os olhos de Dorcas cresceram em descrença e ele fez menção de ir em direção ao castelo, mas Anabel o impediu ao segurá-lo pelo braço.

— Aonde pensa que vai?

— Eu tenho que ir, milady, o rei corre perigo.

— Garanto que ele não corre nenhum risco, capitão. Provavelmente quem matou o guarda foi o próprio Benjamin. Vosso rei está apenas encolerizado por ter descoberto que seu brinquedo fugiu.

Dorcas encarou Anabel com desconfiança.

— Espere, milady. Estás dizendo-me que o lorde de Valdávia acordou e...

— Sim — ela o interrompeu, firmemente. — Ele passou por nós agora pouco, ao lado de um dos seus soldados, ele estava usando uma roupa de empregada. Certamente os dois estão muito longe agora.    

Dorcas sentiu um imenso peso sobre os ombros.

— Não é hora de nos preocuparmos com os caprichos de Benjamin, capitão. Veja — Anabel apontou os portões bem no momento em que um estrondo anunciou sua queda sobre os guardas que tentavam contê-los e que foram esmagados pelas imensas barras de ferros.

— Droga, começou. — Dorcas deu a ordem para que os arqueiros atirassem. — Vamos, atirem!

A primeira remessa de flechas atingiu e derrubou uma grande quantidade de rebeldes, porém, os que estavam atrás vieram munidos de escudos improvisados de latões e pedaços de madeiras. Garrafas com querosene e lanças de madeira com pontas de ferro foram arremessadas em direção ao grupo de arqueiros, e muitos deles foram atingidos. Dorcas usou o escudo para proteger ele e Anabel.

— Droga! Eles estão bem armados. É melhor que se retire.

— Não! Eu vou ficar.

Notando que não havia como mudar a opinião da futura rainha, Dorcas se dirigiu ao rapaz que viera trazer o recado de Benjamin.  

— Escute, soldado. Eu quero que vá até aquele grupo de soldados e entregue isso — Dorcas tirou do bolso um pedaço de papel. — Levem o rei com vocês por essa rota de fuga. No final dela há um lugar seguro. Fiquem com Benjamin e proteja o rei a todo custo. Vamos tentar conter a invasão e quando estiver tranquilo novamente eu irei buscá-los.

— Mas, meu capitão...

— Vá agora, soldado!

— Sim, senhor!

— Espere! É melhor que desacordem o rei — ela sugeriu. 

— Como, Milady? — Dorcas estranhou.

— Eu entendo o temor desses homens em lidar com Benjamin, capitão. Ainda mais quando ele se encontra em seu melhor estado insano. O rei parece enfeitiçado por aquela pessoa e simplesmente age de forma cega e demente quando se trata dele. Se o desacordarem ele sequer saberá o que o atingiu quando despertar e não irá atrapalhar em nada.

Bastaram alguns segundos para que Dorcas concordasse com o raciocínio da futura rainha, e assentiu para ela e para o soldado diante deles, o qual, apesar dos olhos arregalados em surpresa, parecia ter compreendido o que era necessário ser feito.

— Você compreendeu? — o capitão direcionou-se ao seu comandado.  

— Sim, senhor! — respondeu com vigor, batendo continência.

— Então, vá. Pegue os homens que forem necessários e cumpra a missão de manter o rei vivo.

— Sim, meu senhor! — assentiu e bateu continência. — Agradeço por confiar uma missão tão importante a mim, alteza, capitão!

Os dois assentiram e o rapaz se foi. Dorcas voltou a encarar Anabel com certo fascínio, destemida, motivadora, corajosa. Aquela era a soberana que ele realmente gostaria de servir.

— Tens certezas do que não desejas bater em retirada também, milady?

— Nunca estive tão certa de algo que desejo em minha vida, capitão. E esse algo é lutar — ela sorriu. — Vamos?

Ele não esperava ouvir uma resposta diferente.

— Sim — anuiu e desembainhou a espada. — Vamos!

Continua...



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