História As Origens de Sebastian - Capítulo 20


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Categorias Histórias Originais
Tags Andreiakennen, As Origens De Sebastian, Drama, Fantasia, Original, Romance
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Palavras 9.167
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Fantasia, Lemon, Romance e Novela, Yaoi (Gay)
Avisos: Homossexualidade, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


É o final. Mais um trabalho finalizado. Espero que gostem. E leiam o epílogo! Terão uma boa surpresa.
Obrigada a todos que me acompanharam até aqui e realmente espero que me perdoem por arrastá-los comigo nesses anos todos esperando a conclusão dessa história. Mas, como eu digo sempre, eu posso demorar horrores, mas finalizo meus trabalhos.
É o fim de As Origens de Sebastian.
Mais uma vez: obrigada a todos pelo carinho e a paciência.
Espero encontrá-los em outros dos meus trabalhos!
Boa leitura!

Capítulo 20 - Capítulo XX - Final - O Fim do Recomeço


As Origens de Sebastian

Capítulo XX - Final

O Fim do Recomeço

 

A passagem de fuga dera em um estreito e sombrio túnel subterrâneo. O chão lamacento, devido a água que minava e escorria de vários pontos, tornava a caminhada penosa.  

— Tenham cuidado para que não escorreguem — alertou o guarda-guia, tentando, enquanto andava na frente, procurando desviar a chama da tocha dos pingos de água. — Aqui é por onde levam os dejetos do castelo para o aterro sanitário.

— Isso explica esse cheiro horrível! — Reiji aproveitou o ensejo para reclamar. — Ainda falta muito para chegarmos?

— É engraçado você estar reclamando, colega, enquanto sua dama não fez nenhuma crítica até agora.

O rosto de Reiji se contorceu em uma careta.

— Quem está pedindo sua opinião, idiota!

— Oh, oh, quanta ingratidão.

— É verdade, ainda não sabemos seu nome — Crispian interrompeu a discussão com aquela pergunta. — Como se chama?

— Verdade, eu ainda não me apresentei — disse e voltou-se para os dois que vinham atrás, parando de caminhar, fazendo com que os dois parassem também. — Eu me chamo Antone e vocês?   

— Quem se importa — Reiji desdenhou, virando a cara para o lado e fazendo um grande bico emburrado com os lábios.

— Não seja rude, Reiji. Estamos sendo ajudados por ele. Nada mais justo que nos apresentarmos.

— É um ótimo ambiente para apresentações. Por que não aproveitamos para tomarmos um chá também? — ironizou o ruivo.

— Você é sempre tão mal-humorado assim, Reiji? E olha que eu nunca ouvi um nome tão estranho, hein? De onde seus pais o tiraram?

— Cale-se!

Antone apenas deu risada, não dando importância para o nervosismo do colega, voltando-se para Crispian.

— E você bela dama? — o guarda estendeu a palma da mão aberta para receber a mão daquela que ele imaginava ser uma mulher e assim poder depositar sobre ela um beijo de cumprimento. — Como nomearam tão perfeita flor?  

Reiji emitiu sons de esturros com a boca ao tentar segurar a risada que queria explodir.

Enquanto Crispian, ao invés de depositar sua mão delicadamente na de Antone, ele a buscou e a segurou em um aperto firme. 

— Me chamo Crispian.

O guarda se espantou com o cumprimento e o aperto de mão forte, além do nome, evidente masculino.

— Sabe... Não querendo ser rude e, antecedo o perdão pela gafe, mas és mesmo uma dama, né?

A gargalhada que Reiji tentava conter explodiu e ecoou pelo túnel úmido e da galeria subterrânea por onde tentavam escapar.

— Como pode ser tão, idiota? Céus! Está tão óbvio! O milorde sequer está fazendo questão de disfarçar a voz.

— Não fale como se eu fosse um palerma, Reiji! Eu já conheci mulheres com timbres de vozes bem masculinas! Ademais, as roupas escondem a masculinidade do corpo dele e o rosto é muito mais bonito do que de muitas donzelas que já conheci!

A explicação energética e constrangida de Antone apenas fizera com que a gargalhada de Reiji aumentasse.    

Crispian direcionou um olhar de censura ao soldado ruivo e sorriu gentilmente para o outro. Fora a vez do rosto moreno do guia se enrubescer sob as chamas amareladas da tocha que ele carregava.  

— É apenas um disfarce para que eu não fosse reconhecido — Crispian confessou. — Perdoe-nos por omitir a informação, Antone. Mas estamos mesmo fugindo.

— Isso significa que é um prisioneiro do rei?

Abandonando o clima descontraído, Crispian e Reiji notaram a pergunta carregada de temor do guarda além da mudança de postura do rapaz. Era o pavor que a tirania de Benjamin causava. Não precisaram dar a resposta, bastaram seus rostos sérios para ele compreender por si.

— Oh... Droga! — praguejou, abaixando a cabeça, claramente arrependido. — Eu sabia que estava me arriscando mostrando essa travessia, mas não imaginava que havia colocado em risco minha própria vida.

— Ninguém irá saber — Crispian garantiu, temendo ter revelado cedo demais sua identidade.  

— Além disso, não tem mais volta — Reiji observou. — Ou é isso, ou é voltarmos ao pátio do castelo e encarar a rebelião — apelou para o ponto fraco do outro colega, a covardia.

Antone engoliu em seco e assentiu, voltando a caminhar mais rápido, com pressa de livrar-se da presença daqueles dois problemas que arranjara.

— Apenas peço que esqueçam nossas apresentações e principalmente meu nome quando estiverem fora daqui. Eu ainda tenho muito que viver e tenho absoluta certeza, conhecendo o gênio do novo rei, se ele descobrir que ajudei fugitivo deles, minha sentença será a morte.

O soldado-guia adotou uma expressão bastante fria após dizer aquilo. Crispian e Reiji apenas se entreolharam, principalmente Reiji, adicionando um ar de advertência em sua expressão para Crispian que acabou revelando desnecessariamente sua identidade e colocando a perder a rota de fuga.

Consciente do erro, Crispian levantou as palmas das mãos para cima, exprimindo através daquele gesto que não havia como voltar atrás. Então suspiraram fundo e ambos voltaram a caminhar, seguindo para o que esperavam ser a luz no fim do túnel.

...

Benjamin havia se escondido atrás de uma escultura de gesso do seu tataravô, o imponente Dalton II, e ouvia a conversa dos guardas que o procuravam.

A invasão tinha começado e Dorcas dera àquele grupo de soldados a missão de retirá-lo do castelo em segurança, mesmo que para isso tivessem que desacordá-lo.

Esforçou-se para segurar o riso e assim não chamar atenção para sua posição, mas achava extremamente engraçado o quanto Dorcas era muito mais superprotetor do que seus genitores um dia fora.

Conforme os soldados se aproximavam, Benjamin dava passos para trás, dando volta na estátua do tataravô, procurando ficar fora do campo de visão dos homens. Porém, a distração o fez pisar em um escaravelho e o estralo chamou atenção dos guardas que se moveram na direção do barulho e cercaram a escultura.

O rei suspirou, havia sido encontrado. Ergueu as mãos em rendição e saiu detrás da imagem gigantesca do tataravô, surgindo diante das feições aparvalhadas dos homens de Dorcas.

— Melhor que fiquem onde estão — ele sugeriu, visto que alguns dos soldados haviam se colocado em posição de ataque. — Não será necessário cumprirem a ordem de me desacordar, eu estou ciente que devo bater em retirada — conscientizou-se, abaixando os braços que havia elevado.  

Os homens se entreolharam, confusos, mas a calma com que o soberano de Valais falava diminuiu a tensão em seus rostos esgotados e fizeram com que relaxassem da posição de luta.

— Ótimo. Assim está bem melhor. Não esqueçam jamais, pelo bem de vossas peles, que as palavras de um rei são superiores as de qualquer outro aqui dentro, inclusive as do comandante das tropas — Benjamin os recordou, notando que apenas um único rapaz, certamente o que tinha recebidos às ordens diretas de Dorcas, manteve-se vacilante, enquanto segurava com força o punho da espada em suas mãos.

Benjamin sorriu, encarando-o diretamente. Estava prestes a usar de ameaça, quando um dos colegas se encarregou de persuadir o rapaz ao sussurrar algo em seu pé do ouvido, no momento seguinte ele embainhou a espada e junto com os demais e todos se curvaram diante do soberano.

— Estamos à disposição de Vossa Majestade.

  O rei abriu um grande sorriso e bateu palmas.

  — Perfeito! Muito bem, muito bem. É assim que se deve fazer. Mas fiquem de pé — ele pediu, fazendo gestos com as mãos para que eles se erguessem. — Não temos muito tempo para formalidades. E, além disso, eu ouvi parte conversa dos senhores que muito me interessou. É verdade que ninguém tem entrado ou saído do reino nos últimos dias?

Os homens, que haviam se levantado conforme a ordem, assentiram afirmativamente com a cabeça.

— Nem nas últimas horas?

— Não, Majestade.

Benjamin cruzou os braços no peito e adquiriu uma feição pensativa.

— Então, talvez os traidores ainda não tenham conseguido sair do castelo — ele comentou mais consigo mesmo do que com os homens diante deles. — Isso seria mais do que perfeito — manteve o sorriso e voltou a atenção para os guardas. — Deixem-me ver o mapa com as saídas de emergência — pediu, estendendo a palma da mão de forma aleatória na frente do corpo, afinal, ele não sabia ao certo com quem estava o mapa.

Novamente os soldados apenas se entreolharam e nenhum se moveu.

Ao notar que eles estavam prestes a adotar novamente aquela postura hesitante e irritante, Benjamin decidiu agir de acordo com sua habitual impulsividade e ordenou em um grito.  

— Vamos logo! Dêem-me o mapa! — exigiu, fazendo-os sobressaltar, alertando-os em seguida: — Não permitam que meu raro bom humor se esvaia.

O soldado que estava com o mapa, que por um acaso era o mesmo que relutara em baixar a guarda, fora empurrado pelos demais colegas e acabou parando diante do rei. Não encontrando alternativa, ele retirou o mapa em couro de dentro da armadura e o depositou sobre a palma estendida de Benjamin.

— Assim que eu gosto. Bom rapaz.

O rei abriu o mapa e após uma breve análise deu um sorriso de canto.

— Melhor do que eu pensava — comentou e mostrou o mapa aberto para o jovem soldado diante dele, apontando uma das rotas de fuga. — Todas levam ao mesmo lugar, mas parece-me que está aqui é a mais rápida, então vamos pegar essa.

— Mas é por onde corre o esgoto, Vossa Majestade — o soldado observou, engolindo em seco.  

— Não me importo — disse e enrolou o mapa, devolvendo-o ao rapaz. — Apenas me tirem daqui.

— Sim, majestade! — ele bateu em continência.

— Porém. Antes disso. Eu tenho uma proposta. Uma missão, na verdade, que terá uma boa recompensa. Uma não. Três recompensas. Duzentas moedas de ouro e um cargo nobre no reino. Já pensaram no salto que irão dar? Da plebe para nobreza em um mero piscar de olhos? Algo que não ocorre tão facilmente para quem nasce com uma vida tão miserável.

Desta vez, Benjamin não viu hesitação em nenhuma face, na realidade, os rostos antes apáticos e dementes, em sua concepção, ganharam um lindo brilho de excitação.

— Diga-nos o que precisamos fazer para obter essas recompensas, Majestade? — perguntou um dos soldados detrás, um grisalho, com uma cicatriz no olho direito.  

Benjamin sorriu satisfeito com o interesse do grupo e levantou o indicador no alto.

— Certo. Prestem bastante atenção porque irei dizer uma única vez. Primeira recompensa irá para quem trouxer a cabeça da minha ex-futura rainha: Anabel Reya. — Sem permitir quem os homens o questionassem, Benjamin ergueu o dedo do meio, indicando a sequência de número dois. — A segunda recompensa irá para quem me trouxer com vida Crispian de Valdávia, o senhor dos lobos, ou, “seja lá” como andam chamando-o por aí. Mas, quero que observem bem essa parte, lorde Crispian eu quero vivo. A terceira recompensa irá para quem me trouxer o corpo sem vida daquele bendito filhote de raposa, o guarda moleque com cabelos de fogo e que se deixou manipular pelo lorde Crispian. Irei poupar Dorcas, porque ele apenas se tornou um joguete nas mãos dos traidores e está se deixando manipular pela primeira vez na vida por um rabo de saia — comentou, expondo suas suspeitas de que Dorcas tinha adquirido algum tipo de simpatia, ou quem sabe até atração, por Anabel, por mais inconveniente e indigesta pensava ser aquela opção.  — Compreenderam?

— Sim! — concordaram em um grito uníssono.  

Mas o rapaz diante de Benjamin novamente se mostrava inquieto.

— Qual é o seu problema, rapaz? — questionou Benjamin.  

— Perdoe-me tamanha ousadia, Vossa Majestade, mas o senhor necessita de escolta. Com tal proposta, nenhum aqui desejará escoltá-lo.

Benjamin pareceu ponderar.

— Como se chama, soldado?

— Kain, Majestade.

— Você é realmente esperto, Kain — ressalvou. — E parece bem destemido também. Além de tudo, tem uma expressão de quem clama por justiça. Não acredito que terás coragem de matar por cargo ou dinheiro. Então, apenas venha comigo. Dedique sua vida na proteção do seu rei e terás uma bela recompensa assim como os demais.

A excitação finalmente coloriu as bochechas do rapaz que respondeu um firme e sonoro sim.   

...

Corpos se acumulavam na entrada do castelo. As labaredas ultrapassavam os muros. O cheiro de sangue se misturava ao odor de carne carbonizada e se espalhavam com o vento, ferindo o olfato sensível do ser que assistia a confusão do alto de uma das torres.

Earthen sorriu de lado, deixando que as presas afiadas se expusessem para fora da margem dos lábios. Havia afanado a armadura do baluarte que jazia morto, atingido por uma flecha.

Do alto da torre conseguia ter um panorama completo da situação e deduziu que o tumulto instaurado estava longe de ser contido. Havia também dois soldados suspeitos conversando entre eles e desviando do combate para seguirem lady Anabel.

Podia simplesmente deixar as coisas como estavam e ir atrás somente daquele que o interessava: Crispian. Porém, os séculos de convivência com os humanos o fizera adquirir simpatia pela espécie e graças a esse sentimento simplesmente não podia deixar que aquelas pessoas continuassem se autodestruindo.

Pulou pela janela, subiu para o alto da torre, levantou ambos os braços, fechou os punhos, juntou-os e mergulhou do alto direto para o solo. 

Dorcas obrigara Anabel bater em retirada, ela estava seguia contrariada para dentro do castelo quando foi abordada por dois guardas.

— Espere um momento, milady.

— O que precisam?

Ambos os homens desembainharam suas espadas e as apontaram na direção da nobre.

— O que isso significa?

— Em nome do rei, Benjamin I, nós iremos executar a sentença de morte dada por ele. Faça sua última prece, milady.

Os olhos de Anabel se arregalaram, ela não tinha como fugir e estava muito longe de Dorcas, mas não iria desistir sem lutar, desembainhou também a espada do seu traje e se pôs em posição de luta.

— Eu não tenho medo, venham!

Os homens riram, achando graça de serem confrontados por uma dama. Mas assim que Anabel neutralizou a primeira investida deles, perceberam que a nobre não estava de brincadeira.

A luta mal tivera início e um baque estrondoso e repentino fez o chão estremecer. A batalha se paralisou por um instante e os combatentes se entreolharam assustados.

— O que foi isso?

— Terremoto?

— Esqueçam! Já acalmou, vamos...

Mas antes que aquela fala fosse completada uma das torres veio ao chão, e os destroços atingiram várias pessoas e soterram outras. Quando a poeira abaixou, Anabel se ergueu, notando que um dos homens que atentara contra sua vida fora atingido por uma rocha e teve a cabeça esmagada. O outro tinha perdido a perna e gritava desesperado pedindo por ajuda. A terra voltou a tremer e o chão começou a ceder, criando uma rachadura entre o castelo e o muro de entrada.

A rachadura cresceu rapidamente, sugando para dentro dela quem estava no caminho. O caos aumentou entre pessoas que queriam recuar e as que queriam ficar. Entre o atropelo, muitos caíram na fenda.

Assim que a fissura parou de aumentar, Dorcas, que procurava desesperado por Anabel, a encontrou tentando puxar de volta para a superfície uma senhora corpulenta. Era visível que as duas acabariam caindo.

— Anabel, solte-a! — gritou ele.

— Por favor, milady. Tenha piedade. Não faça isso. Eu não quero morrer! — implorava a mulher aos prantos.  

— Eu sei, eu sei. Mas bem que a senhora poderia perder um pouco de peso, não é? Eu não estou aguentando segurá-la! — reclamou entre dentes, com o suor pingando do seu rosto devido a força demasiada que fazia. — Mas que calor infernal é esse? Parece que está... Não, espera. Lava? Não pode ser...

— Madame, não me solte! Não me solte.

— Não esperneie, mulher! Nós duas iremos cair!

— Aguente firme, milady! Estou indo! — pedia Dorcas aos gritos, procurando por um meio de criar uma ponte para atravessar para o outro lado.

— É fácil falar.

Anabel estava sendo puxada para baixo, por não ter forças suficientes para içar a plebeia de volta para cima e tão pouco coragem de simplesmente deixá-la cair. Fechou os olhos, acreditando que aquele seria seu fim, quando sentiu suas pernas serem agarradas com força.

— Segure firme, milady!

Ela sorriu aliviada ao sentir que estavam sendo resgatadas. Surpreendeu mais ao perceber que quem a ajudara era um grupo formado por rebeldes.

— Obrigada pela ajuda. Mas agora temos que sair daqui, não há muito tempo. Tem lava subindo pela fissura, logo irá transbordar e...

— Lady Anabeeeeeel! — o grito que ecoou no ambiente vinha de Dorcas que atravessava depois de saltar com vara.

O capitão caiu e saiu rolando em direção as paredes do castelo. Anabel aproveitou para se colocar de pé e comandar a todos que fugissem.

— Ouçam-me, por favor! Vocês precisam fugir! Quem está do outro lado voltem para cidade. Há lava subindo pela rachadura e ela está subindo depressa. Quem estiver desse lado, corra para dentro do castelo. Vamos, agora! Salvem suas vidas!

Houve apenas um segundo de hesitação, quando o chão começou novamente a tremer e uma rajada forte de fumaça subiu pela fenda e se ergueu quase na altura do castelo, respingos de lava foram lançados para todos os lados, fazendo com que aldeões e soldados compreendessem o risco verdadeiro. Desesperados, começaram a correr.

— Vamos fugir! Corram!

Anabel correu até Dorcas, o capitão parecia estar tendo dificuldade de ficar em pé.

— O que houve?

— Está quebrada, milady. Deixe-me e salve-se.

— Nem pensar, capitão. Espere um pouco. Vou pedir ajuda.

A lava chegou à superfície e começou a se espalhar.

— Esqueça, Anabel. Fuja. São rebeldes, não tem motivos para nos...

Antes que Dorcas concluísse seu raciocínio, foi pego de surpresa pela chegada de um grupo de rebeldes que o apanhou pelas pernas e braços e o elevou, ao comando de Anabel, seguiram para dentro do castelo. Encerraram as pesadas portas de ferro da entrada e o vazio e finalmente preponderou.

Repousando sobre a lava, Earthen admirou reflexivo o resultado de sua interseção, acreditando que aqueles humanos seriam capazes de se restabelecer de forma mais sensata quando tudo se acalmasse.

“Agora a minha última missão: resgatar Crispian”.

...

O terremoto abrira várias fendas no subsolo do castelo, e a água, que antes minava inofensiva dentro dos túneis que serviam de rota de fuga, se tornara jatos capazes de derrubar e arrastar humanos com sua força, o que acabara ocorrendo tanto com o grupo de Crispian quanto de Benjamin.

No grupo de Crispian, quando ao longe a claridade do dia fora avistada por Antone, o guarda que parecia conhecer bem aquele percurso, agarrou-se ao corpo de Crispian, não permitindo sequer que o lorde mantivesse a cabeça para fora da água e continuasse respirando.

Reiji tentou ir ao socorro de Crispian.

— O que está tentando fazer, idiota? Irá afogá-lo! Solte-o!

— Jamais! Antes a morte de vocês fugitivos do que a minha! O castelo foi construído estrategicamente em cima de uma montanha rochosa e toda a parte detrás do castelo culmina em um penhasco. Com a força que estamos sendo levados seremos jogados penhasco abaixo. Isso se o portão estiver aberto, pois se estiver fechado... Eu quem não vou morrer nas grades!

— Mas como...?

Foi quando a aproximação com a claridade fez com que Reiji compreendesse melhor o que Antone estava tentando dizer. A saída estava selada por um portão de grades com lanças cujas pontas estavam voltadas na direção deles. Arregalou os olhos. Seriam perfurados como carne de cordeiro sendo preparada para ir ao fogo.

“Agora eu entendi! Esse desgraçado está tentando usar o corpo de Crispian como escudo, pois nem mesmo as nossas armaduras serão capazes de nos proteger devido a força com a qual estamos sendo empurrados! Merda! Ainda por cima minha espada se perdeu na correnteza! Droga! O que faço agora?!”

— Desgraçadooooo! Solte-o! Estou mandando soltá-lo!

— Jamais!

Reiji tentou chegar até o guarda jogando o peso do corpo na direção dele, mas Antone também soube usar o peso do corpo para se impulsionar contra a parede e conseguir impulso para chutar o colega de volta para o lado em que ele estava.

Crispian estava tentando colocar a cabeça para fora da água, mas a força dos braços do guarda em torno do seu corpo o mantinha debaixo dela. Tentou se debater, mas estava perdendo as forças. Foi quando sentiu sua mão sendo pressionada justamente contra aquela parte sensível do corpo masculino. A proteção metálica havia se rompido deixando o sexo de Antone exposto.

Relutou por um mero instante, mas notando não haver outra opção, agarrou o membro do soldado e o puxou na direção da armadura rompida que havia criado uma lâmina. O movimento brusco de Antone com o susto do agarre fez com que a lâmina da armadura dilacerasse seu órgão.

O guarda emitiu um urro gutural estrangulado e soltou Crispian para amparar as parte baixa, mas devido a força da água a única coisa que conseguiu foi segurar o pênis totalmente arrancado em sua mãos. Entrou em desespero.

— Ahhhhhhhh! Desgraçado! Desgraçado! Como ousa!   

O momento de furor não permitiu ao soldado raciocinar de forma lógica e ele acabou se esquecendo do portão. Apenas quando viu Reiji amparar Crispian, que serviria como seu escudo, que Antone se recordou da proximidade com a saída. Todavia, o tempo que obtivera fora apenas para olhar o quão próximo estava das lanças e no momento seguinte sentir o impacto em seus órgãos que foram completamente perfurados.

Reiji amparou Crispian em seus braços e usou seu próprio corpo para encobri-lo.

— O que está fazendo?!  

— Só mais um pouco, milorde. Está acabando.

— Mas você vai se ferir!

— Estou com armadura, além disso, o corpo de...

Houve o baque antes que Reiji concluísse sua fala. Eles finalmente pararam. Crispian cerrou os olhos com o susto do impacto e voltou a reabri-los em seguida, conseguindo enxergar o lado de fora. Notou que se não houvesse mesmo aquela grade de proteção teriam sidos arremessados desfiladeiro abaixo.

— Milorde? Você está bem? — perguntou Reiji.

O lorde balançou a cabeça em afirmativa. Ainda estava abraçado a Reiji, a roupa feminina havia sido quase toda decomposta e os pedaços que restaram estavam colados em seu corpo. Sentia parte da sua pele contra o metal frio da armadura do soldado de Benjamin. Ergueu a cabeça e olhou nos olhos, as sardas do rosto bem mais evidentes, os braços ainda firmes em torno do seu corpo. Reiji o havia protegido de todas as formas que conseguira, não conseguia imaginar o quanto o tamanho do seu débito com ele.

— Milorde? Você me surpreendeu com o que fez agora pouco. Arrancar justo aquela parte do idiota do Antone? Acho que ele realmente preferiu a morte depois daquilo.

— Eu não tive alternativa. Foi a única parte que estava ao meu alcance. Sei que foi um golpe sujo, mas...

Reiji riu.

— Não estou te reprimindo, milorde. Estou surpreso com sua astúcia.

— Não desejava a morte dele.

— Eu sei.

— A água está abaixando.

— Sim. Parece que tudo irá se acalmar finalmente.

— E melhor do que isso. A liberdade está diante de nós.

— Sim — ele assentiu, revirando os olhos, como se estivesse sentido o cansaço.

— Você está bem, Reiji?

O rapaz buscou ar com dificuldade, fez um careta como se estivesse sentindo dor ao fazer aquele processo.

— Eu vou ficar bem logo — ele garantiu, a voz rouca. — A chave que abre esse portão deve estar presa na cintura do meu colega aqui embaixo, será que consegue encontrá-la?

— Posso tentar. E você? Parece cansado? Está tudo bem? Está ferido?  

— É. Estou. O coração está meio acelerado ainda, mas... está acabando.

— Sim. Está — Crispian concordou feliz. — E eu quero que venha comigo para longe de Valais, Reiji.

— Eu temo que não vou conseguir acompanhá-lo, milorde. Mas agradeço ao convite. Nossa aventura junto vai mesmo terminar aqui.

— Do que está falando? Está tão ferido assim? Mas onde...

Bastou se afastar para Crispian notar a ponta da lança atravessada na lateral da barriga de Reiji, de onde vertia muito sangue. Crispian sentiu um arrepio. Seus olhos se encheram de lágrimas. Reiji tossiu sangue.

— Vá, milorde — ele pediu, a voz perdendo o timbre. — Precisa partir antes que escureça e complique mais sua fuga. Está tão perto da liberdade. Alcance-a.  

— Eu não vou deixá-lo aqui! — Crispian gritou e o abraçou. — Podemos estacar o ferimento. 

— Não, não podemos. Não faça minha missão ter sido em vão. Até mesmo fui agradecido com um beijo. Apenas desejo que nos reencontremos em outra vida, que esteja com seu coração livre e que de preferência seja uma bela dama. É um desperdício tanto encanto em um homem. 

— Tolo! Cale-se, Reiji! Cale-se! Não fale mais. Está piorando o ferimento. Vou tentar encontrar uma maneira de tirá-lo daí e...

A voz de Crispian se perdeu. A água continuou escoando com menos intensidade, como a vida que se esvaía dos corpos humanos com tanta facilidade. Os ouvidos de Crispian se acostumaram ao barulho e a ausência de vozes humanas intensificou o silêncio.

— Reiji...

A cabeça dele pendeu para o lado, os olhos tinham se fechado e um singelo sorriso adornava seus lábios. O sangue continuou escoando por um tempo.  

Crispian não soube como reagir. A dor o anestesiara momentaneamente. Estava simplesmente cansado de chorar, de perder, de sentir tanta dor. Mas por aquele esforço de Reiji, para atender o último pedido de que a missão dele não fosse em vão, decidiu respirar fundo e continuar.

Apoiando-se nas grades, Crispian se afastou do corpo. A água havia baixado completamente. Ele desceu para o chão e tentou encontrar a chave no corpo de Antone preso embaixo do amigo. O cadáver mutilado causou enjoo no lorde, mas ele respirou fundo e prosseguiu na procura.

Por sorte, encontrou o objeto sem muita dificuldade, preso na cintura com várias outras chaves. Imaginou que não teria força suficiente para mover as barras de ferro graças ao sobrepeso dos dois corpos, mas assim que a tranca foi destravada, o portão se mexeu sozinho, abrindo para o lado de fora. Segurou-se nas grades para ir junto com ele e assim que se encostou à parede do lado de fora conseguiu descer com cuidado para uma escada de pedras que havia logo abaixo dele.

Respirou fundo novamente e ergueu a cabeça, encarando com pesar os dois corpos enganchados nas lanças. Juntou as mãos, fechou os olhos e fez uma breve prece. Era o mínimo que podia fazer por aqueles dois que haviam perdido suas vidas para que estivesse livre das garras de Benjamin.

Sentiu o vento soprando mais forte de repente, como se fosse um aviso, uma premonição, e foi tomado por um arrepio que correu toda sua coluna. Antes que pudesse se mover foi agarrado e prezo com os braços nas costas, enquanto a lâmina fria de uma espada foi pressionada contra sua garganta.  

— Não faça nenhum movimento brusco, milorde. Mova-se com cuidado conforme eu for guiando — a voz orientou em seu ouvido.

A pessoa atrás de Crispian virou-o para que olhasse o outro lado e vislumbrasse Benjamin sobre uma pedra, em uma pose altiva, com seus trajes pesados completamente molhados. Ele estava próximo a outro túnel, igual ao que Crispian havia saído. Abaixo de Benjamin jaziam corpos de vários soldados. E outros ainda estavam presos nas pontas das lâminas do outro portão de saída. A mesma estratégia havia sido usada para ele para poder se salvar.

— Você me repudia, mas veja — apontou Benjamin para os dois corpos presos na saída do túnel de Crispian. — Usa dos mesmos meios sórdidos que eu. Manipula homens fieis ao reino e faz com que eles dêem suas vidas por você. Somos diferentes, milorde, mas no fundo semelhantes. Nosso destino é sermos um. Veja, até mesmo em meio a fuga, ao caos e as desgraças que assolam o reino, o acaso nos uniu. — Benjamin sorriu e abriu os braços para o lorde de Valdávia, oferecendo seu acolhimento. — Venha, volte para os meus braços.

Crispian sentiu a força daquela verdade o atingir como se fosse um golpe na face. Fechou os olhos mais uma vez e deduziu que sua única saída era mesmo a morte.

Porém, um ponto metálico surgiu ao irromper do alto como se estivesse saltado da torre mais alta do castelo e mesmo assim pousado como se fosse uma pluma em meio a pedras, entre Benjamin e Crispian.

O coração de Crispian deu um salto na mesma medida que o rei estremeceu.

— De onde veio essa aparição?! — perguntou Benjamin apontando o homem vestido com armadura de um dos seus soldados.

O lorde respirou com alívio, levantando seus braços na direção do ser ao reconhecê-lo.  

— Você veio, Earthen.

 — Ei, ei, ei! — resmungou o guarda que mantinha a espada pressionada contra o pescoço de Crispian. — Parado ou arranco sua cabeça!

— Custe o que custar, não o solte, soldado — advertiu Benjamin.

Mas Earthen parecia sereno. Os longos cabelos negros com mechas vermelhas esvoaçando ao vento. Ele não voltara sua atenção em nenhuma das direções, entretanto fez aquela pergunta. 

— De quem eu devo me livrar primeiro, milorde?

Conhecendo a força sobre-humana que Earthen possuía, Crispian sabia que bastava um mero comando para que ele se livrasse tanto de Benjamin, quanto do soldado que o ameaçava. Mesmo assim, ponderou ao menos pela vida de mais aquele soldado.

— Houve muitas mortes. Não quero que ninguém mais perca sua vida por minha causa. Earthen não está brincando. Então, eu lhe peço, soldado, és o único que restou, fuja.

— Mas é meu dever lutar pelo meu rei.

— Deseja mesmo sacrificar-se em nome do seu rei? Daquele rei?  

O guarda pensou apenas por um segundo, recordando-se que a guerra civil que se instaurara era por culpa da ganância daquele homem que não herdara nada do seu antecessor. Largou a espada, que caiu tilintando entre as pedras, e afastou-se de Crispian dando passos para trás, até ganhar distância suficiente e sair correndo em direção ao túnel.

— Maldito, covarde! — bradou Benjamin, sentando-se na pedra em que estava para descer dela deslizando. Livrou-se do manto em suas costas, certamente por ter se tornado um peso extra e dificultar a locomoção pelo terreno rochoso, e passou a caminhar em direção de Crispian. — Eu me lembrarei da cara desse desgraçado e farei questão de arrancar sua cabeça e pendurá-la na entrada do reino para dar de exemplo aos covardes.

— Veja quem fala de covardia — observou Crispian, assim que o rei se prostrou ofegante diante dele. — O molestador dos fracos. 

— Idem, milorde. Sou tão canalha quanto vós. — declarou o rei sorridente e apontou novamente os homens presos na grade acima de Crispian. — Creio que és ainda mais maligno do que eu, apesar da face angelical — articulou Benjamin, tocando o queixo de Crispian e elevando-o. — Beleza a qual emprega para cativar os homens de pouca fé como eu. Tens mesmo domínio sobre demônios — e direcionou a mão desocupada para apontar a criatura mais adiante deles. — Quem diria. O que és tu, milorde? Um anjo maligno? Um mago? Um bruxo? Como fazes? — o rei sorriu, usando as duas mãos para amparar a face de Crispian e acariciá-la. Os lábios do lorde estavam arroxeados, a pele avermelhada, arranhada, com vários hematomas escuros que desta vez não foram produzidos por seu desejo obsessivo por ele. As mãos de Benjamin desceram para os ombros desnudos, a pouca roupa que restara não protegia a pele gelada do frio. Porém, o rapaz não parecia incomodado ou cansado. Ao contrário, ele tinha um olhar firme e os punhos crispados. — Não importa como fazes, apenas una-se a mim, milorde. Eu sou rei. Com o seu poder...

— Cale-se — Crispian pediu em um sussurro. — Eu não sou nada do que dizes. Tudo que sai da latrina que é sua boca me enoja, majestade. Você me humilhou, abusou do meu corpo o quanto pode e ainda quer me fazer sentir-me culpado? Não, vossa majestade. Eu não tenho a mínima intenção de unir forças com você. Eu prometi a mim mesmo que daria cabo na sua existência para o bem de Valais e de toda essa gente a qual você apenas passa por cima como se fosse esterco no chão. Você não tem nada para ser rei. Sequer resquícios da personalidade intrigante que tinha seu pai. Eu havia tomado uma decisão: tirar sua vida. Todavia, eu pensei melhor, é pouco.

Benjamin engoliu em seco, entortando o pescoço na direção da criatura que seria seu algoz. Tinha certeza que conseguia enxergar nele presas e olhos rubis, mesmo sobre a forma humana. Era o lobo-demônio e seu senhor. Sorriu vacilante e um tremor percorreu seu corpo. O fraco sol que se esforçava para manter a claridade do dia entre as pesadas nuvens se pôs, dando lugar a crepúsculo que cobria as montanhas com seu manto escuro. Crispian e seu lobo haviam dado o cheque-mate, não tinha mais truques. O jogo havia chegado ao fim, e ele, o rei, não seria o vencedor naquele tabuleiro. O que era realmente uma pena.  Sorriu, deslumbrando pela última vez aquele que fora o caminho do seu martírio.

...

Quinze anos se passaram. Valais fora reerguida, sobre um reinado próspero e afortunado.

Anabel tornou-se rainha ao ser desposada por seu amor de infância, o príncipe Benjamin. A união bem-sucedida gerara sete herdeiros para o reino e a rainha ansiava pelo oitavo.

Era de conhecimento geral que o leito da rainha Anabel era o mais quente e acolhedor de toda Inglaterra.

Sob os lençóis daquela manhã de primavera, a rainha se esforçava para providenciar seu oitavo herdeiro.

— Sinto que estás mesmo fértil minha rainha, sua pele está em brasa.

Anabel riu alto.

— Não é! Vamos, venha, coloque de uma vez. 

Mas um pigarro incessante sempre fazia questão de surgir, atrapalhando o momento de luxúria do casal na cama.

— Ah! Mas que inferno!— Anabel saiu debaixo do acolchoado e os seios agora fartos pularam para fora, a cabeleira volumosa ornamentada por belos cachos adornaram e suavizaram o rosto largo. Ela permitiu que a colcha caísse revelando a barriga levemente elevada, as coxas grossas, o quadril avolumado e a pelugem negra que cobria o órgão sexual que era contraído pela pressão das coxas. — Diga logo o que queres?

— Ah, minha rainha. Nada mais do que eu já não esteja contemplando nesse exato momento! — comemorou o rei que estava sentado em uma cadeira diante do leito. — O combinado era que pelo menos me permitam assistir, não é? 

O outro homem na cama descobriu-se, mostrando sua face contrariada.

— Sabes que sinto asco com a presença moribunda dele, não é, minha rainha?

Anabel gargalhou mais uma vez e o rei foi quem respondeu.

— Ah, não sejas injusto, meu comandante. Se farta da minha rainha em meu próprio leito e ainda desdenha da minha presença. Por favor, está apertado aqui. Uma mãozinha por caridade?

— Ah, Ben! — Anabel reclamou. — Eu não acredito que está pedindo de novo para que Dorcas o alivie? Já não lhe disse o quanto nojo sinto disso?! — ela apanhou a caneca de vinho que estava sobre a mesa ao lado do leito e arremessou. Benjamin não pode desviar e apenas permitiu-se ser atingido na testa. — Estamos ocupados agora providenciando o oitavo herdeiro do reino. Uma empregada cuidará disso mais tarde. Se eu assim achar que merece. Agora venha, Dorcas, meu amor! Possua-me de uma vez, estou enlouquecida de desejo.

— Seu desejo sempre é uma ordem, minha rainha.

— Não, não, não sejam tão cruéis! Não me torturem desta forma! Por favor, peço apenas uma mãozinha para ajudar-me, por favor? Uma mão! Ah!

Benjamin lambeu os lábios quando Dorcas passou a possuir Anabel com vigor e de forma explícita, sem se preocuparem em esconderem a nudez embaixo dos lençóis. A dor que sentia por ter seu sexo latente era quase insuportável. Mas perdera todos os movimentos do corpo e não tinha sequer a possibilidade de se aliviar sozinho.

Tentou escapar da morte pelas mãos do demônio ao se jogar no precipício. Porém, nem nisso fora bem sucedido, não bateu a cabeça, não quebrou o pescoço, apenas sua coluna se chocou contra as pedras. Durante dois dias agonizou de dor até ser encontrado.

Pediu pela morte durante os primeiros anos que agonizou enfermo, enquanto sua rainha desfrutava de todos os homens que ela conseguisse levar para o seu leito. Até que se acostumou com a ideia de ser apenas o voyeur.  

Dorcas tornara-se o amante oficial de Anabel. Ele fingia muito bem não se importar com os outros, apesar de saber que ele se corroia de ciúmes em ter que dividi-la.

Mas Dorcas era um cão fiel e jamais ia contra as vontades da mulher que devotava.

Dentre as crianças bastardas, sabia que havia muitos de outros, devido a variedade de cores, tamanho e raças. Anabel parecia querer deixar claro para todo reino que nenhum era filho do rei, pois todas as crianças tinham características diferentes: dentre ruivos, altos, baixos, gordinhos, morenos e loiros. Talvez nem Dorcas soubesse ao certo qual daquelas crianças era mesmo fruto de seu gozo, mas tratava todos como se fossem seus próprios filhos.

Certamente aquele era o pior dos castigos que recebera por ter sido tão cruel. Mas ainda assim não conseguia odiar ou deixar de desejar Crispian. Em muitas de suas noites de insônia delirava clamando por seu nome. Sabia, pelas notícias que o irmão trazia em suas raras visitas, que Crispian residia em Veneras e que continuava belo e audacioso. Ele tornara-se um forjador de armaduras e espadas de primeira linha e revendia seus trabalhos para vários reinos. Inclusive Valais.

Porém era seu irmão, Albert, o mercador, quem visitava o reino para vender os trabalhos de Crispian. Mas ainda assim aquilo o confortava e sustentava seus sonhos de um dia revê-lo e ao menos deslumbrá-lo uma última vez. Soubera, pelos inúmeros rumores sobre ele, que a fera que o acompanhava havia desaparecido. Muitos diziam que sequer existira. Earthen tornara-se apenas uma lenda, um lobo fantasma.

O quarto encheu-se de repente com os gritos exagerados de êxtase de Anabel, fazendo com que o rei retornasse a sua cruel e intragável realidade.

...

O dia estava ensolarado e pela janela era capaz de se contemplar o extenso campo verde e florido.

Fadigado e irritado por ouvir pela terceira vez a negativa do instrutor que não podia sair enquanto não terminasse a lição, o adolescente ergueu-se de sobressalto e virou a mesa de estudos, derrubando todos os livros e materiais de estudo no chão. Os olhos cinza ganharam nuances rubras e as presas se despontaram.

— Não mostre essas presas para mim, Sebastian! — rebateu o tutor, claramente aborrecido.

O jovem respondeu mostrando-lhe a língua.

— Eu não quero mais estudar! Quero ir lá fora. Nada tem graça nesses livros velhos e cheirando a mofo. Para quê preciso lê-los?

— Você carrega o nome de um nobre! Deve aprender a ter educação e a se portar como um.

O rapaz ergueu os ombros para o que Albert dizia. Encolerizado, o tutor tentou agarrá-lo, mas o aprendiz desviou-se do agarre com naturalidade.

— Não me interessa nada disso, velho pança! Barba suja! — xingou, destrancou a porta, pulou da parte de cima da escadaria que descia para o hall da casa e pousou no assoalho como se fosse um felino.

A avó que vinha entrando com o cesto de roupas limpas que colhera no varal assustou-se e atirou o balaio para cima. As roupas de dentro dele voaram e caíram todas no chão.  

— Sebastiannnn!

Mas o garoto já havia se esvaído.

— Cadê ele, milady? — Albert desceu as escadas quase sem fôlego, a grande barriga não permitindo a ele respirar e ter a agilidade necessária para lidar com a rebeldia do aprendiz.

— Se foi — ela declarou simplesmente, arregalando os olhos para o homem que passava por ela pisando nas roupas limpas. — Albert! — Francine golpeou-o na cabeça com o balaio. — Veja por onde passa! Está pisoteando a roupa limpa que acabei de lavar.

— Mas, milady, a culpa é do garoto!

— Cale-se! Se conseguisse fazer seu trabalho direito ele não seria tão selvagem.

— Ah! — O homem segurou o cabaz com o qual ainda era golpeado, puxou-o da mão da nobre e o arremessou longe. — Fala como se fosse fácil — ele se desculpou, passando a recolher as vestimentas caídas no assoalho. — Sabe que há somente uma pessoa nesse mundo capaz de domar aquele selvagem.

— Onde você pensa que vai com essas...

— Estou indo lavá-las novamente — ele a interrompeu.

— É assim que se fala.

— Eu não quero ocupá-la com outra atividade, afinal, está quase na hora do almoço. Falar em almoço, qual será o cardápio do dia?

— Oh, céus, Albert. Você é um príncipe. Deveria cuidar mais da aparência e não apenas pensar em comer.

— Não seja tão má, lady Francine — ele rebateu, espalmando as mãos na grande barriga. — Eu não estou tão ruim assim, não é?

— Verdade, você não está tão ruim, está péssimo! Vamos começar hoje uma dieta. Teremos para o almoço apenas saladas e alguns grãos.

Albert arregalou os olhos.

— Não diga isso nem brincando, milady. Depois de todo o trabalho que aquele seu maldito neto me dá, o mínimo que mereço é ser bem alimentado. Estou faminto!

— Às vezes fico na dúvida em quem é um selvagem dessa casa, Albert.    

— Milady!

A nobre deu uma alta gargalhada e seguiu para cozinha, pensando o quanto era feliz vivendo naquele lugar tão humilde, de paisagem tão exuberante, ainda sustentando o título de “nobre”, sem a obrigação nenhuma de ter recato. 

...

Crispian estava no polimento final de um trabalho, quando ouviu a confusão que vinha da casa principal. Logo o animal adentrou seu local de trabalho ao empurrar a porta com o focinho. Lindo como sempre, de pelos fofos, mesclados com branco e cinza, de os olhos de um belo azul acinzentado.

Sebastian sentou-se na frente da porta e ficou assistindo-o trabalhar.

— Deveria estar estudando.

O animal bocejou e deitou-se no chão, mostrando-se indiferente a advertência feita. Crispian parou o labor, decidindo que era a hora da pausa. Deixou a espada na banca, retirou as luvas e o avental de trabalho e saiu.

O lobo que fingia apatia abriu um dos olhos para seguir o lorde, ao notar que Crispian saíra, ele se pôs de pé rapidamente e o seguiu.

Crispian acomodou-se na grama, sob a sombra de uma árvore, estava soprando um vento ameno que balançou a franja do cabelo agora comprido. Ele sentiu uma presença em suas costas, o prendedor do cabelo foi puxado e os longos fios escorridos foram soltos, em seguida sentiu dois braços o envolverem possessivamente e um queixo repousar sobre seu ombro esquerdo.

— Vamos treinar esgrima — o adolescente pediu.

— Você não terminou sua lição.

— Não tenho interesse em nada que aquele velho fedorento tenha a me ensinar — respondeu malcriado. — Quero apenas ser instruído por você, milorde.

Crispian engoliu em seco sentindo aquela palpitação o tomar com a proximidade do garoto, os dedos do jovem roçavam sua barba rala.

— Pare — Crispian o impediu de continuar ao segurar em seus punhos. — Ainda tenho muito serviço a fazer.

— Mas está fazendo uma pausa nesse momento — ele contrapôs e sussurrou no ouvido de Crispian ao depositar um beijo em sua nuca. — Permita-me devorá-lo agora, milorde.  

O arrepio intensificou e Crispian sentiu o rosto corar. Estava entrando na casa dos quarenta anos, mas ainda sentia-se como um jovem inexperiente todas as vezes que Sebastian se deixava reger por seus impulsos.

— Você é apenas um infante atrevido.

A nova reprimenda não intimidou Sebastian, que ficou de frente a Crispian e forçou seu peso sobre o corpo do homem que era muito mais maduro que ele, fazendo-o deitar-se na grama. O rapaz estava sem roupas devido a transformação, somente o cordão com aquele pingente em formato de um losango dourado, o qual pertencera ao seu genitor, brilhava em seu pescoço.

Para ter o que queria Sebastian precisava apenas despir o mais velho, e com essa intenção, passou a desnudá-lo, enquanto farejava sua pele.

— Adoro seu cheiro, milorde.

— Cale-se.

— É constrangedor admitir que esse infante o faz estremecer, não é mesmo? — ele continuou provocando, enquanto depositava beijos sobre o peito que descobrira.

Desceu as calças beijando as partes que iam se revelando: barriga, virilha, a região interna das coxas. Até que se deteve no sexo intumescido, o qual lambeu, mordiscou e enfim abocanhou e sugou com vigor; soltou-o apenas para dedicar a mesma atenção as bolsas escrotais e a entrada que se contraía logo abaixo.

Crispian passou a gemer, contorcendo os dedos dos pés, sentindo prestes a entrar em êxtase. Agarrou os cabelos negros e os puxou, fazendo Sebastian soltar do seu membro. O garoto se ergueu de súbito, tomado pela excitação, e depositou um beijo mais profundo em sua boca. Ele era tão melhor amante ou ainda mais do que fora o pai.

— Milorde?

— Sim?

— Diga-me o que desejas que eu faça.

— Você sabe o que tem que fazer.

— Quero ouvi-lo pedir.

— Não me faça ser mais pervertido do que eu pareço ser deixando-me ser tomado por um garoto.

— Eu não sou um garoto... Eu nunca fui um mero garoto apesar da minha aparência. E estou cansado de possuir apenas seu corpo. Eu quero que sua boca sussurre meu nome. Quero ser o único a povoar sua mente. Então, por favor, peça-me, milorde. Clame por meu nome. Ou será que seu desejo é alimentado pela perversão de me ouvir chamá-lo de “meu pai” enquanto estou me fartando de sua carne?

Um tapa atingiu com força o rosto de Sebastian, mas o jovem pareceu não se importar e somente sorriu.

— Insolente.   

— Eu adoro devorá-lo, meu pai — continuou a afronta e recebeu um novo tapa.

— Cale-se!

— Bata-me o quanto quiser, mas essa é a verdade imutável aqui: enquanto eu não for o capaz de tirar aquele outro da sua mente, eu não serei somente seu amante, e sim seu filho, milorde. O filho que ama violar o pai.  — o rapaz penetrou Crispian após dizer aquelas palavras.

O lorde arqueou as costas da grama e sentiu as mãos de Sebastian ampará-las. Em um único movimento ousado ele trocou-os de posição, fazendo com que o lorde se sentasse por completo no membro dele. Crispian sentiu a dor concentrada de ser completamente preenchido. O rosto ficou em brasa, o coração disparara. Se fizesse um único movimento gozaria.  

— Mova-se — ouviu Sebastian ditar. O rosto jovial dele contorcido pelo anseio de se aliviar. — Está quente e apertado — continuou reclamando. — Não estou aguentando, meu pa-.... — Crispian calou a boca dele com as mãos antes que ele repetisse aquela palavra.

 Então Crispian apanhou todo o longo cabelo e jogou-o para frente, de um lado dos ombros, deixando o pescoço do outro lado completamente exposto.

Sebastian sentiu suas presas pulsarem ao ver toda aquela pele e veias expostas.

Crispian então se aproximou devagar e ofereceu seu pescoço.

— Se desejas mesmo me fazer somente seu, tome-me, Sebastian.

— Mas isso irá feri-lo — o jovem relutou.

Mas aquele olhar, que Sebastian nunca vira em Crispian antes, um olhar carregado de um desejo extremo, fez o rapaz agir de acordo com a excitação que ganhou seu corpo inteiro.

— Crispian...

As presas em brasa foram cravadas na carne do lorde. Crispian sentiu os braços jovens o apertarem e o sexo pulsante arder em seu interior, estava sendo completamente tomado, sugado, preenchido. As batidas do seu coração se descompassaram e entraram em frenesi. Sim. Era aquela mesma sensação. O orgasmo o arrebatou com tanta força que após soltar um gemido estrangulado cujo nome pronunciado não fora daquele que mais amou, sentiu seu sangue ser mais fortemente sugado e tudo escureceu, levando sua mente de volta aquele dia.

Depois que Benjamin se jogou no precipício, Earthen e Crispian deixaram Valais. O lobo na sua forma humana o carregou por uma boa parte do percurso até adentrarem o território de Veneras. Dormiram na floresta, banharam-se em rios, dormiram juntos, se amaram. Para Crispian, era a realização do sue melhor sonho. Estava enfim livre. Indo ao encontro do que restara da sua família e prestes a viver com aquele que mais amava até que...

Quando mesmo ele lhe dissera aquilo?

“Eu vou morrer”.

Uma dor ádvena apossou-se do seu interior após tal recordação.

Durante os últimos dias da viagem notou Earthen inexplicavelmente distante, a cada passo que se aproximavam do destino final ele se tornava mais apático, abatido e até mesmo cansado. Em uma determinada noite ele teve febre. Nunca o vira ter febre antes. E em meios aos delírios febris, pela primeira vez, o ouviu chamar por um nome, um nome que nunca ouvira antes. Um nome que parecia ter sido guardado no fundo do seu coração. 

Não conseguiu mais dormir nas noites que se seguiram. O medo o tomava e o anseio de saber a verdade era ainda maior. Quando pararam para dormir, na última noite que antecedia o final da viagem, a coragem para levantar a questão veio de súbito.

“Quanto tempo ainda temos para ficarmos juntos?”

Talvez fosse a surpresa da questão, mas Earthen não conseguiu responder de imediato. Ele ficou paralisado por um bom tempo, até dar aquela resposta absurda.

“Algumas horas”.

“Não seja ridículo”, um soluço veio ao término daquela frase.

E daquele instante até o fim da conversa, Crispian não conseguiu parar de chorar.

“Isso dói”, proferiu Earthen. “E era para evitar essa dor que eu desejava partir sem me despedir”.

“Eu jamais o perdoaria se fizesse isso”.

Earthen sorriu de um jeito amargo.

“Pelo menos me diga por quê? Como sua imortalidade se foi?”

“Eu vou tentar esclarecer com base nesse diário — Earthen retirou de dentro das vestes um livro de capa preta de couro e o expôs para Crispian, para então dar início a explicação. — O que distingue a minha existência da existência dos humanos é não possuir uma alma-luz, apesar de deter o dom de enxergá-las. Toda vez que uma vida se esvai de um corpo morto, eu sou capaz de ver a alma abandonar seu recipiente e ascender aos céus, de volta a morada do Pai. — Earthen tocou o objeto em seu pescoço. — Por não possuir uma alma-luz própria, e para ser resguardado do mal que anda nas sombras, eu sempre precisei ser protegido por quem possui essa luz. O primeiro foi o humano que me acolheu ao nascer, meu pai adotivo. Quando meu pai estava prestes a deixar esse mundo, um milagre aconteceu, sua preocupação e seu amor por mim foram tão grande, que ele conseguiu transferir para dentro de um objeto parte da sua alma-luz. Esse objeto simples, singelo, e que refletia toda sua humildade, uma cruz feita de madeira, tornou-se meu amuleto e seguiu comigo durante muito tempo da minha longa caminhada. E, de alguma forma, toda vez que eu me despedia de um humano com o qual eu havia convivido por muito tempo, esse humano, com a força dos seus sentimentos, conseguia fazer com que sua luz purificadora penetrasse esse objeto. Desta forma, mesmo não possuindo uma alma-luz, eu continuei carregando comigo uma pequena fração da alma-humana que me doavam. Até o fatídico dia em que perdi esse amuleto e desencadeei uma grande tragédia. A pessoa com quem eu vivia foi a mais atingida, além de toda a região que era bela e morreu devido a quantidade de contaminação trazida pelos espectros que estavam atrás de mim. Mas Valentim possuía uma sensitividade especial e era capaz de ouvir os seres das sombras e buscou deles informações e as catalogou nesse diário. Ele estava em seu leito de morte, e mesmo assim, temendo a minha depressão e culpa, trabalhou arduamente na confecção de um objeto que tinha como intuito me doar aquilo que eu mais ansiava ter: uma alma mortal, capaz de partir quando chegasse o fim. Valentim se foi, era ainda muito jovem, e sua alma-luz fora a mais intensa e ofuscante com a qual me deparei. Ela não adentrou somente esse objeto com o qual ele me presenteou, mas sua luz penetrou em mim e de alguma forma milagrosamente bizarra, passou a purificar a alma negra com a qual nasci”.   

As lágrimas continuavam descendo dos olhos de Crispian, mas ele não soluçava mais, apenas limpava o rosto usando as mãos. Earthen continuou.

“Eu não tinha certeza de que iria morrer quando eu e o encontrei, milorde. Apenas sentia os primeiros resquícios de fraqueza. Até mesmo havia tomado a decisão de não me aproximar mais de nenhum humano. Entretanto, seu pedido me comoveu e eu fui fraco para não resistir. Quando comecei a compreender a situação estávamos envolvidos o suficiente para não ter mais volta. Então minha única resolução foi deitar-me com lady Catherine e gerar com ela uma criança com intento de me substituir. Mas, eu só tive certeza de todas essas suspeitas agora, quando coloquei as mãos no diário de Valentim e pude compreender através de suas anotações tudo isso que acabei de lhe contar. Foi erro meu. Se eu tivesse levado o diário quando fugi daquela casa, eu teria tido essa certeza muito antes de me envolver com o milorde. Espero que um dia me perdoe por tamanha arrogância”.     

“Earthen, essa pessoa te concedeu seu maior desejo, não foi?”

“Não, milorde. Essa pessoa concedeu-me meu único desejo: ser parte dessa Terra. Ser humano. Ser mortal. Agora eu tenho uma alma-luz e posso morrer em paz.”.

“O dono desse colar. Valentim, não é? Eu o ouvi chamar por ele enquanto delirava de febre.”

“Sim”.

“Você ainda o ama e deseja reencontrar com a alma dele, não é?”.

Earthen respirou fundo antes de dar a resposta, mas não relutou em pronunciá-la.

“Sim”. 

Quanto uma pessoa era capaz de chorar?

Quanto uma decepção era capaz de doer?

Crispian desejou que toda aquela angústia tivesse se tornado raiva. Raiva por ter sido enganado. Raiva por Earthen não permitir que ficassem juntos até seu último instante. O demônio alegou que esperava poupá-lo de viver com aquela dor. E ele simplesmente desapareceu quando o deixou diante da porta onde seria seu novo lar em Veneras.

Estava destruído. Porém, toda aquela sensação ruim se foi quando viu a mãe vir em sua direção e seus olhos se encontraram com a maior prova de que, de alguma forma, havia sido muito amado por Earthen.

“Veja, Sebastian. Esse é o seu pai: Crispian. Crispian, essa é a criança que Cath deu a luz, é lindo, não é?”.

Os olhos cinza que brilharam imensamente ao encontrá-lo fizeram com que todos seus arrependimentos e angústia se dissipassem como o surgir do sol após a tempestade.

 “Prazer em conhecê-lo, milorde” o ouviu cumprimentá-lo com aquela voz tão suave e inocente.

Sorriu e apanhou a mãozinha que lhe era estendida.

“O prazer é meramente meu, Sebastian”.

Reabriu os olhos ao sentir seu corpo sacolejado.

— Milorde! Milorde!

— S- Sebastian, está me machucando...

— Ah! Você finalmente acordou, milorde! — foi abraçado. Sebastian estava em prantos. — Eu fiquei com tanto medo de tê-lo matado. Nunca mais me peça para fazer algo como isso! Eu fiquei muito assustado!

— Mas foi bom, não foi?

Sebastian se retesou e calou o choro imediatamente. Somente a lembrança da sensação fizera um arrepio percorrer seu corpo e o coração acelerar. Sentiu até mesmo suas orelhas queimarem tamanho constrangimento, mas concordou com um assentir de cabeça.

— Hm.  

Crispian sorriu e acarinhou os fios negros mesclado com mechas cinza e brancas, da cabeça que havia se aconchegado em seu peito, sendo inundado por uma sensação de conforto. A verdade era que o verdadeiro amor de Earthen nunca lhe pertencera, mesmo com todo o carinho que ele lhe dedicara no tempo em que conviveram juntos. Porém, desde que conhecera aquele impetuoso lobinho, viveria em felicidade plena até o fim dos seus dias, tendo a certeza que ao menos no coração do seu Sebastian, reinaria sempre em primeiro.

Fim.



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