História As Origens de Sebastian - Capítulo 8


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Categorias Histórias Originais
Tags Andreiakennen, As Origens De Sebastian, Drama, Fantasia, Original, Romance
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Palavras 5.162
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Fantasia, Lemon, Romance e Novela, Yaoi (Gay)
Avisos: Homossexualidade, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 8 - Capítulo VIII - Tempestade


As Origens de Sebastian

Capítulo VIII

Tempestade

A viagem a cavalo até Valais levava em torno de uma semana. Na neve, levava até duas. Earthen fez o percurso em dois dias. Não somente sua forma anatômica, as quatro patas e o fôlego sobre-humano foram responsáveis por ditarem o ritmo frenético da sua velocidade, mas, no peito, por mais que não soubesse distinguir ao certo o que era aquela sensação, sentia-se movido pela ansiedade de rever Crispian.  

Assim que adentrou o território do reino deparou-se com um problema: não tinha como adentrar o castelo em sua forma lobo sem ser notado. A construção antiga era toda circundada por uma gigantesca muralha de pedra e havia apenas uma entrada, — um portão de três metros de altura de ferro fundido e entrelaçado, — que era vigiada dia e noite por homens da guarda real.

Acabou perdendo dois dias somente à espreita, pensando em uma forma de penetrar o castelo sem chamar atenção. Chegando a um único meio: usar sua forma humana. Por sorte, encontrou o corpo de um andarilho à margem da floresta, que certamente havia morrido de frio e fome, e apossou-se dos trajes do morto. Tentou aproximar-se dos portões com a desculpa de pedir comida, mas percebeu que fora totalmente ingênuo da sua parte imaginar que aqueles humanos seriam condescendentes como seu jovem amo. Ao vê-lo se aproximar mal trajado, os homens da guarda não pensaram duas vezes em enxotá-lo a pontapés, como se fosse um animal sem dono.

Desolado e frustrado, voltou para dentro da floresta para repensar seu plano.

A neve havia cessado, mas aquela calmaria repentina o estava incomodando. Lembrou-se de quando vivera com seu antigo dono e ele costumava explicar que a calmaria em meio a uma tempestade era mal presságio: “o mórbido silêncio precede uma tormenta, caro Earth” era o que ele dizia.

Mesmo com o agouro de uma grande tempestade, decidiu continuar à espreita até encontrar uma abertura para invadir o reino. Esperou, pacientemente, por mais três dias. O tempo ruim não dera trela, e não permitia que os moradores do reino saíssem para fora da grande muralha, tampouco surgiam visitantes que entrassem. A única movimentação se dava quando ocorria a troca de turno entre os guardas. E foi em um desses dias que a ideia lampejou a mente de Earthen: poderia simplesmente deixar-se notar na sua legítima forma. A notícia de uma criatura como ele rondando o castelo chegaria rapidamente aos ouvidos dos habitantes, e quem sabe até aos ouvidos de Crispian. Se o seu jovem amo ouvisse a descrição de uma fera de olhos azuis rondando o castelo ele a assimilaria à figura dele e certamente viria à sua procura. Era o que precisava fazer. E o faria naquela noite, com os guardas do plantão noturno.

Assim que a madrugada caiu a criatura surgiu das sombras da floresta e esgueirou-se até a guarida do portão do castelo a passos mansos. Os três guardas do plantão conversavam animadamente, enquanto procuravam aquecer suas mãos esfregando-as uma na outra, totalmente alheios a fera que se aproximava.

— E ela gritou quando eu coloquei tudo: “Ai, ai! Assim não queridinho! Você vai me atravessar com sua lança” — remendou o guarda que estava de costas para floresta, imitando a voz feminina da personagem da aventura erótica que narrava e caiu na gargalhada em seguida.

Os outros dois homens acompanharam a gargalhada do colega até vislumbrarem aquela monstruosidade que se aproximava às costas dele. Imediatamente tiveram seus risos diluídos. O narrador, que estava de frente para os colegas, não demorou a entender que havia algo atrás dele pela expressão aturdida dos outros dois e voltou-se depressa para trás. Suas pernas paralisaram então, um uivo irrompeu a madrugada e os outros dois guardas fugiram em disparadas largando suas lanças no caminho e se fechando dentro da guarida ao alcançá-la. Todavia, o terceiro guarda, o narrador do conto erótico, não conseguiu se mover por não conseguir controlar o tremor em suas pernas que faziam seus joelhos baterem um no outro. Nunca vira um lobo daquela proporção antes.

Tentou apontar a lança para a criatura quando esta deu mais um passo em sua direção, contudo, o rosnado que o monstro emitiu fez com que largasse a arma. A urina umedeceu seus trajes e ele caiu vergonhosamente de joelhos na neve, fechando os olhos com forças e pedindo misericórdia a Deus por seus pecados, enquanto imaginava ter chegado seu fim. Clamou pelo perdão e aguardou. Mas à morte não veio. Ainda estava vivo. Reabriu os olhos com muito custo e percebeu que não havia mais nada diante dele. As lágrimas e o alívio o atingiram, havia sobrevivido para narrar mais aquela história.  

— O- obrigado, Deus...

...

Dentro do castelo, Crispian era tomado por Benjamin quando um uivo distante adentrou seus ouvidos e fez seu coração acelerar.

Sentiu seu corpo inteiro retesar-se involuntariamente e o orgasmo arrebatou-lhe de súbito. Benjamin arregalou os olhos ao sentir que o interior do jovem lorde de Valdávia, sentado sobre seus quadris, entrava em rebuliço. Ainda não era o momento e irritou-se, apertando-o na cintura, desejando que ele se controlasse. Mas Crispian já não era mais dono dos seus sentidos e não pode evitar que suas contrações exprimissem o sexo alojado em seu interior. Benjamin apenas esperou, mudando sua expressão para dor.

Quando Crispian finalmente relaxou, após ter sujado o peito e a face do príncipe com jatos de sêmen, Benjamin tratou de trocar rapidamente de lugar com o rapaz. Deitou-o sobre o leito, arqueou suas pernas o mais alto que pode, encaixou-se nele e passou arremeter-se com ânsia. Até que o orgasmo o atingiu, até que sentiu-se plenamente satisfeito.

Como vinha sendo, Crispian apenas se permitiu ser tomado enquanto seu coração, ainda acelerado, recordava o uivo que ouvira. Não era um delírio, não podia ser. Tinha certeza que o uivo que ouvira é do seu Earthen. Sorriu, enquanto Benjamin o preenchia. Finalmente iria vê-lo.

O príncipe desceu da cama assim que terminou. Seguiu direto para a mesa de bebidas, encheu uma taça de cristal com vinho tinto e ingeriu todo conteúdo em um único gole. Repetiu o gesto três vezes e limpou a boca com a costa da mão ao terminar o terceiro gole, batendo a taça sobre a bandeja de metal e emitindo um alto tilintar.

— Por que estava sorrindo? — conseguiu transformar sua irritação em pergunta.

Pego de surpresa, Crispian arqueou o corpo da cama, sentando-se e observando seu príncipe.

— Eu estava sorrindo?

— Não se faça de idiota, milorde! — Benjamin esbravejou e voltou-se em fúria para ele, apontando a taça vazia que pingou resquícios de vinho sobre o chão acarpetado. — Do nada estava gozando. E mais do nada ainda eu o vi sorrindo. O que ou quem lhe provocou essa reação?

Crispian encarou a face transtornada do futuro rei de Valais com o cenho endurecido, havia temido que ele tivesse ouvido o uivo e assimilado seu sorriso à ele, mas pelo que percebera, Benjamin não desconfiava.

— Devo-lhe até satisfação dos meus pensamentos, Vossa Alteza?

— Obviamente que deve! — Benjamin lançou a taça na parede, fazendo-a estilhaçar em pedacinhos. — Eu sou seu rei. Seu dono. Ousa me trair em pensamentos quando está sendo agraciado com todo o meu desejo? Tem ideia do tamanho da sua traição?

A vontade que sentira fora de rir novamente, desta vez, das baboseiras que saíam despreocupadamente da boca de Benjamin. Achava que fora mimado demais por seus pais, que sempre atenderam a todos os seus caprichos, mas o príncipe conseguia dar outro sentido àquela palavra. O sentimento de posse dele chegava a não ter senso de ridículo. Mas, certamente não seria ele, um mero lorde, que iria contradizê-lo. Inspirou fundo e deixou uma falsa leveza tomar conta da sua face.

— Perdoe-me por essa traição, Alteza. E- eu estava pensando em Cath... — mentiu. — Na primeira noite que dormimos juntos. Na beleza do corpo dela nu. Depois lembrei-me que ela espera um herdeiro meu, então o sorriso veio, um filho, fomos agraciados por uma pequena benção e...

— Chega! — Benjamin irrompeu, virando de costas. — Não quero ouvir mais nenhuma palavra.

Crispian concordou com um assentir de cabeça e desceu da cama, buscou seus trajes no chão e direcionou-se à saída. Estava sendo tomado pela ansiedade de saber a fonte daquele uivo. Daria um jeito de esgueirasse para fora do castelo e procuraria por Earthen. Era certo que ele o estava esperando lá fora, o aguardando ansiosamente depois daquele uivo-chamado.

— Onde pensa que vai?

Deteve-se a menos de meio metro da maçaneta da porta.

— Disse que não queria...

— Ouvir uma palavra sua sobre sua linda esposa e esse filho maldito que vai chegar — concluiu ele mesmo. — Não disse que podia ir.

Crispian fechou o cenho.

— Mas, alteza...

— Volte para cama — Benjamin ordenou, dando as costas novamente à Crispian e apanhando a garrafa de vinho, vertendo o líquido direto do gargalo para sua boca.

O protesto de Crispian foi sufocado antes mesmo de ser emitido, tinha que se controlar, seus protestos aumentariam ainda mais a irritação daquele homem e a situação poderia sair fora do controle. Largou as roupas no chão e voltou para cama conforme ordenado.

— Bom menino — observou Benjamin, satisfeito, se aproximando dele pela lateral do leito.

Deteve-se e admirou o corpo de Crispian nu deitado na cama. Então aquela ideia veio-lhe em mente. Apanhou o candelabro de bronze sobre a mesa e sorriu, admirando a luz amarelada da única vela do objeto. Sem pensar duas vezes, o virou sobre o corpo de Crispian e derramou a cera quente que se acumulava na base do objeto sobre a pele perfeita dele.

— Ahh! — Crispian assusto-se. — O que está fazendo?!

— Punindo-o por me trair. E agradeça por eu ser piedoso e não arrancar sua cabeça — respondeu, balançando o objeto e deixando a vela se soltar e cair sobre ele, se apagando ao bater no colchão. Então deixou que o próprio candelabro caísse ao lado de Crispian e fez aquela exigência: — Pegue-o e insira dentro de você, até restar somente a base.  

— O quê?!

— Faça o que estou mandando. Eu ainda não me recuperei do orgasmo, preciso ser motivado. Quero vê-lo fazendo isso, irá me despertar mais rápido. Enfie tudo e o mova. Agora.

— Mas, Benja-...!

O barulho de um tapa irrompeu o ambiente. Crispian voltou-se com os olhos arregalados para o príncipe, a mão cobrindo a lateral da face que recebera o golpe. Engoliu em seco.

— Agradeça-me por tratá-lo como uma porca meretriz, milorde. Se não fosse por isso, teria perdido um dos seus belos olhos azuis nesse exato momento. Mas não ouse a me contestar novamente ou vou me esquecer do fato que é minha puta preferida no momento e deixarei de agir com frieza para ser verdadeiramente cruel. Agora faça o que eu ordenei, em silêncio.

Um breve assentir fora a única resposta do jovem lorde de Valdávia. Não queria se dar ao luxo de pensar para não perder a cabeça e a vida. Apenas apanhou com os dedos trêmulos o candelabro de bronze maciço e fez como ordenado. Seria o brinquedo de Benjamin só por mais aquela noite. Havia tomado uma decisão. Se o uivo que ouvira do lado de fora fosse mesmo Earthen, daria um jeito de forjar a sua morte e desaparecia daquele mundo em que se metera. Não sentiria remorso por seus pais, fora o próprio pai que lhe arrastara para aquele reino corrompido o qual ele tanto queria fazer parte. E, de qualquer forma, seu pai ainda era jovem e poderia arrumar uma nova mulher, ter novos filhos. A mãe acreditaria que tem um “neto” e uma nora viúva para amparar, o que ocuparia seu tempo.

A única coisa com que se preocuparia depois daquilo seria com ele próprio. Na sua felicidade. Viveria ao lado do ser que amava pelo resto de sua vida sem a preocupação de carregar sobre seus ombros a obrigação de ter que realizar os desejos dos pais, da esposa, do príncipe de Valais, ou quem quer que fosse. Fechou os olhos e tentou se acostumar com a sensação fria do objeto de bronze maciço se alojando em seu interior.  

....

Assim que o clarear do dia se fez em Valais, Crispian moveu-se para fora da cama do príncipe. As pernas trêmulas mal sustentaram seu corpo exausto, dolorido, principalmente na parte detrás. Enquanto se vestia, notou várias das queimaduras de cera espalhadas pelo seu corpo. Benjamin havia caído em sono profundo e despertaria somente no meio da tarde. Por isso que, mesmo esgotado, não iria descansar, precisava aproveitar aquele tempo para reencontrar Earthen e agir a sua fuga.

Mas fora descer dois andares abaixo na escada para captar um tumulto pelos corredores. Ouvia vindo da sala, cuja porta estava entreaberta, o burburinho sobre uma fera monstruosa que fora vista pelos guardas do plantão noturno na entrada do castelo. Entretanto, daquela conversa, o que lhe preocupou fora quando ouvira que uma equipe de caça estava sendo formada.

“Equipe de caça para caçar o Earthen? Preciso sair daqui e encontrá-lo urgente”. Deu um passo para trás, mas suas costas se baquearam com uma elevação maciça, os ombros foram agarrados; sobressaltou. Olhou para trás e seus olhos se arregalaram ao ver o próprio rei de Valais em pessoa.

— Tão cedo de pé, minha criança?

— Ma- ma- ma- majestade! — afastou-se depressa para fazer uma reverência, curvando metade do corpo para frente.

— Erga-se, rapaz. Não fique tão apavorado em me ver, não sou o monstro que está rondando o castelo e tampouco um rei tirano — disse o homem de bom humor, gargalhando alto e amparando a grande barriga com uma das mãos.

— P- perdoe-me, majestade — pediu Crispian, ficando ereto, não evitando o abrasar que certamente havia colorido sua face. — Acordei com o barulho nos corredores.

— Então, já está sabendo do monstro? — perguntou o rei, apoiando a mão em um dos ombros do jovem lorde e levando-o com ele para dentro da sala apinhada de cavaleiros que vestiam suas armaduras e preparavam suas armas. — Preparem mais uma armadura e um cavalo, o milorde aqui irá conosco na comitiva.

— Eu??

— Sim, meu jovem. Tenho certeza que está à espreita porque gostaria de fazer parte da comitiva, seus olhos espertos dizem isso. Soube pelo seu pai que costumavam caçar na floresta de Valdávia. Também ouvi rumores que você perdeu-se da família em meio a uma cavalgada e enfrentou sozinho uma alcateia liderada por um lobo gigante o qual você domou e tomou como animal de estimação. Ainda soube que sua intenção de vida era se tornar um cavaleiro. É visto que é um rapaz de coragem. Acredito que bem mais que meu primogênito que não serve pra nada, nem matar uma barata. Não sei como ele pretende ser rei se sequer tem coragem. Sua experiência com lobos, poderá nos ajudar.

— O senhor pretende ir também, majestade?

— Se pretendo, meu rapaz? Claro que sim! Não existe excitação maior para um homem que uma caçada. Nem mesmo o que uma dama pode oferecer entre as pernas — gargalhou novamente ao dizer aquilo. — E há tempos não surge nada nessas Terras que seja interessante suficiente para ser caçado, obviamente não irei desperdiçar essa oportunidade rara.

Por um mero instante de vaidade, enquanto o próprio rei de Valais chamava um escudeiro para vesti-lo com uma armadura, Crispian esqueceu-se de que a “caça rara” mencionada pelo rei, era nada mais nada menos o ser o qual ansiava reencontrar, vivo.

...

Quando adrenalina de estar novamente compondo um grupo de caça se amainou, Crispian, que estava montado sobre o lombo de um cavalo e dirigia-se para a caçada junto com a escolta do rei, vários cavaleiros e o próprio Dalton V, pensou com mais frieza sobre a situação em que se inserira. Estava sendo guiado pelo próprio rei para fora do castelo, não teria que inventar desculpas para sair, muito menos fugir escondido de Benjamin. Estava sobre ordens superior. Seria mais fácil para ele se desgarrar do grupo, encontrar Earthen, forjarem sua morte e enfim se libertar. Benjamin não poderia descontar sua fúria em seu pai, nem em Catherine ou na criança que ela esperava já que as ordens de seguir na caçada partiram do próprio rei. Os ventos sopravam a seu favor, levando para longe qualquer vestígio de dúvida em partir com aquela comitiva.

— Preparados, homens?

Ouviu a pergunta vinda do rei e apressou-se em concordar junto com o coro de vozes masculinas que gritaram um sonoro “sim”, para pouco depois, seguirem em retirada para além dos portões que se abriram.  

Os olhos azuis com pupilas invertidas seguiram a comitiva que deixou os portões do castelo. Do alto de uma árvore, não precisava ter uma visão privilegiada para identificar Crispian entre eles. Bastou sentir o cheiro peculiar do seu amo impregnando o ar. Sorriu, deixando as presas amostras.

— Apenas um uivo e uma pequena aparição fora suficiente para tirar os ratos, exceto pelo meu lorde, da toca — comentou Earthen. — Será que devo diverti-los um pouco? Ou segui-los à espreita? Quais serão seus planos, meu amo?  

Trovões tamborilaram o céu e o azul dos olhos animalescos da fera em forma de humano se tornou tão claros quanto a neve branca que cobria a região. Earthen farejou o ar e aquele incomum arrepio ouriçou os pelos agora escassos dos seus braços. O vento mudava de forma, logo o céu estaria desabando em fúria. Apressou-se e pulou para o chão, a queda fora amortecida pelas quatro patas felpudas. Na sequência, disparou em uma corrida frenética. Iria seguir a comitiva pelo norte, mantendo-se contra o vento e seu cheiro longe do faro dos cachorros farejadores que seguiam a comitiva.

...

Algumas horas de cavalgadas e os componentes da comitiva começaram a perceber a mudança no clima, o vento estava aumentando e o balançar das copas pesadas das árvores derrubavam a neve acumulada em seus galhos sobre eles. Mas o rei continuava animado, batendo com força as rédeas no lombo do seu cavalo, exigindo dele mais velocidade.

— Rápido! Mais rápido, Ouriço!

— Majestade, não acha que deveríamos recuar por hora? — perguntou o cavaleiro ao lado do rei. — Estamos cavalgando há mais de duas horas, nos afastamos demais do castelo e parece-me que está vindo uma tempestade.

— Baboseiras, Ercan! Não há nuvens escuras no céu.

— Mas o vento, o vento está uivando.

Um bolo de neve caiu sobre a cabeça de Ercan fazendo-o sacudi-la com dificuldade e o rei cair na gargalhada.  

— Viu? Um pouquinho de neve caindo dos galhos não pode matá-lo, homem! Honre o que carrega no meio das pernas. Não é mesmo, garoto? — perguntou o rei para Crispian que seguia do seu outro lado.

Crispian concordou com um meneio rápido de cabeça. Se voltassem agora, perderia uma grande oportunidade de fugir, precisava manter o ânimo do seu rei.  

— A neve é macia, majestade. Não pode nos causar dano algum.

— Ha, ha, ha! É assim que se diz, meu rapaz! Aprenda com ele, Ercan! — comemorou o rei batendo as rédeas novamente no lombo do seu cavalo. — Vamos, Ouriço, vamos! Mais rápido!  

O cavaleiro que seguia ao lado do rei olhou com desconfiança para Crispian. Pressentia algo de ruim naquela atitude, poderia parecer paranoia sua, mas tinha impressão que estavam sendo guiados para uma emboscada. Aquele clima hostil, a fera que surgira do nada durante a noite e o ânimo daquele garoto que sabia ter afinidades com lobos eram suspeitos. Apertou a espada embainhada em sua cintura. Ouvira alguns rumores que se espalhara pelos corredores do castelo, de que Crispian havia se deixado tomar por Benjamin. Não confiava no príncipe, menos ainda em quem se deixava dominar por ele. Mesmo que seu rei estivesse sido conquistado facilmente pela simpatia e a coragem daquele garoto, continuaria em alerta.

As mãos de Crispian suavam dentro das luvas. Sentia que Earthen estava por perto. Ou talvez fosse apenas sua ansiedade em revê-lo. Mas foi apenas desejar que o amigo lhe enviasse um sinal e sentiu uma mudança brusca no vento e um uivo irromper da floresta fazendo com que a comitiva desenfreasse o ritmo e os homens do rei desembainhassem suas espadas. Logo o primeiro uivo foi seguido de outros e uma orquestra vinda de todas as partes se formou.

— Entramos na zona de alguma alcateia — observou Ercan, trotando com o cavalo em círculos. — Estamos cercados. Preparem-se, homens! Seremos atacados a qualquer instante.

— Já estava na hora da diversão começar — bradou o rei desembainhando também sua espada. — Estava começando a ficar entediado.

Os cães rosnavam para o farfalhar que vinha dos arbustos. O coração de Crispian havia ganhado um novo ritmo. Era como se estivesse revivendo seu encontro com o Earthen de anos atrás.

Dentre os arbustos surgiram os primeiros olhos fumegantes, pequenos focos incandescentes bailando no ar. Vários deles, mais de uma dezena. Mas uma observada rápida fora suficiente para Crispian notar que eram lobos comuns. Lobos comuns dificilmente atacavam humanos, ainda mais montados em cavalos e em grupo, a não ser que estivessem verdadeiramente acuados.

Ouviram então um estranho urro vindo de dentro da floresta e os lobos pularam para a trilha tomada por humanos e passaram por eles assustados e assustando os cavalos que relincharam e se arquearam. Os cavaleiros tentaram se equilibrar no lombo dos seus animais e os lobos desapareceram floresta adentro.

— O que foi isso?

— Eles estão fugindo de alguma coisa.

— Parece o urro de um ur-...

Antes que Ercan completasse a frase dois ursos gigantescos pularam dos arbustos em direção deles. Um dos cavaleiros foi derrubado pelo animal e o grupo se dividiu para deterem as feras. O vento começou a soprar mais forte, nuvens escuras cobriram o céu rapidamente, o dia ficou escuro. A tempestade de neve que apenas ameaçava finalmente começou a desabar.

Em meio à confusão que se formara entre gritos, urros e a neve, Crispian notou embrenhado na floresta dois focos azuis brilhantes. Aqueles olhos sim ele reconhecia e um sorriso brotou instantâneo em sua face. Era Earthen, deduziu. Sabia que era ele quem estava agindo. Certamente ele assustara os lobos e o casal de ursos para que atravessassem o caminho da comitiva causando o contratempo necessário para que ele pudesse se desgarrar da caravana.

Ainda precisava fingir sua morte para que não fosse procurado mais tarde, mas o faria depois de se reencontrar com o amigo. Observou os homens do rei ocupados, então segurou as rédeas do cavalo de forma a direcioná-lo para o lado oposto ao combate e bateu nas costelas do animal com os calcanhares.

— Está fugindo da batalha, ó, corajoso Milorde de Valdávia? — vociferou Ercan chamando atenção dos demais.

Estava sendo vigiado afinal. Segurou as rédeas do cavalo detendo o animal, fazendo-o recuar da primeira ordem. Esperou, pensou. O rei o encarou. Ele havia acabado de acertar o pescoço do urso em um ponto vital e o deixou desabar no chão branco jorrando sangue e agonizando aos urros. O outro animal ainda era abatido pelos seus outros homens. Dalton V retirou o excesso de sangue da espada com a mão enluvada e aproximou-se incrédulo do garoto. Entretanto, bastou um olhar para a direção que Crispian iria seguir para o rei compreender e sorrir também.

— Tolo Ercan! — acusou ao seu cavaleiro com um sorriso grande no rosto. — Veja direito — apontou para floresta. — O lorde apenas encontrou algo mais interessante. Estava prestes a ir se divertir sem nossa companhia, milorde?

Crispian engoliu em seco, apertou as rédeas em suas mãos e, sem enxergar outra saída, confirmou.   

— Desculpe-me, majestade.

— O que diabos é aquilo? — Ercan perguntou, estreitando os olhos em direção à moita.

— Um par de olhos azuis. Pelo que indica, é a criatura da noite que procurávamos — o rei explicou, demandando aos demais: — Vocês lutaram bravamente contra os ursos. Eu e o garoto ficaremos a cargo desta criatura. Ainda precisam tirar a pele para levarmos, façam isso. A neve está caindo fortemente, precisaremos recuar logo.

O rei percebeu que os olhos azuis entre os arbustos se fecharam e desapareceram.

— Está fugindo? Vamos! Ou irá escapar — bradou o rei, batendo com a mão enluvada no traseiro do seu cavalo. — Voltaremos logo! Vamos, minha criança.  

Crispian tratou de seguir seu rei e percebeu Ercan fazer o mesmo.

— Se o senhor vai, é meu dever acompanhá-lo, majestade — justificou o cavaleiro ao notar que o rei o olhava por cima do ombro. 

— Você é pior que uma mulher grudenta, Ercan.

— É meu dever, majestade — repetiu mais uma vez e o rei se deu por vencido.

— Tanto faz — ele concordou. Estava contente, já que há muito não se divertia daquele jeito em uma caçada.

A neve e as árvores dificultavam a corrida dos cavalos e a única pista que seguiam era o rastro que as patas de tamanho desproporcional da criatura deixavam na neve, se afastaram depressa. Crispian percebeu que o rei de Valais continuava sorrindo, ele parecia estar mesmo se divertindo com a emoção daquela caçada.

Não conseguiu pensar em mais nada, se deixaria guiar e a solução viria a qualquer momento. Seus corpos estavam simplesmente sendo movidos pelo calor da emoção, pela adrenalina.

Porém, Ercan ainda era uma grande preocupação, cavalgava ao lado dele e estava atento os seus movimentos. O cavaleiro estava desconfiado.

 O rei gritou, chamando atenção deles, afirmando que vira algo à frente. Então Crispian notou Ercan tirar das costas um arpão e encaixá-lo sobre um suporte em sua mão direita.

— O que vai fazer com isso?

— O que acha que farei, seu estúpido? Abater a criatura.

— Ercan além de ser o cavaleiro mais forte do reino, ele é o melhor arqueiro, meu rapaz — o rei explicou com orgulho. — Ele consegue atingir até mesmo uma ave sobrevoando os céus.

O coração de Crispian se apertou dolorosamente ao ouvir aquilo, mais ainda, ao observar Ercan posicionar o mirador do arpão diante de um dos olhos. O rei que estava seguindo na frente abriu passagem para o seu cavaleiro e deixou amostra o corpo da criatura que fugia bem a frente deles. Crispian reconheceu seu Earthen. O animal de aparência exótica, recoberto de pelos negros, mas com uma reluzente faixa vermelha em seu dorso.   

— É enorme! E é lindo, Ercan. Nunca vi um lobo desse tamanho e com uma cobertura em cores tão distintas! Tente não acertar um ponto vital. Eu o quero vivo! — gritou entusiasmado o rei.

— Você é quem ordena, majestade.

— Não... não posso permitir isso... Ele é meu... — murmurou Crispian e quase que em um ato automático moveu-se no mesmo instante e que o disparo do arpão aconteceu.

Seu cavalo se chocou com a lateral do cavalo de Ercan e o homem perdeu o equilíbrio por estar segurando as rédeas com apenas uma mão. O disparo mudou de direção. Ercan caiu do lombo do animal e Crispian segurou as rédeas do dele e o parou, olhando para trás.

— Desculpe-me, senhor Ercan. Você está bem?

— O que deu na sua cabeça, seu franguinho de merda? Poderia ter ocorrido um acidente fatal! — esbravejou o cavaleiro, se colocando de pé e caminhando com dificuldade em meio a camada grossa de neve que se juntara no chão devido a tempestade.

Crispian olhou a frente e notou que o rei e seu cavalo haviam parado também, mas não havia mais nenhum sinal do rastro de Earthen. Suspirou aliviado.    

— Minhas mãos perderam a sensibilidade e as rédeas escorregaram, perdoe-me? — pediu, assim que o homem o alcançou, tomando as rédeas do seu cavalo das mãos do garoto e montando-o novamente.

— Só o perdoarei porque sua falha nos atrasou e nos fez perder a fera de vista. E por esse motivo, e graças a Deus, poderemos retornar. Essa tempestade logo cobrirá nossos rastros e se não darmos meia volta agora, poderemos ficar perdidos e congelados. Considere-se um moleque de sorte. Majestade, venha! Vamos voltar! — bradou para o homem detido mais adiante. Mas Dalton V não se moveu. — Majestade? — repetiu Ercan. — Está me ouvindo?

O cavaleiro soltou uma baforada pelo nariz, irritado, e bateu com os calcanhares nas costelas do cavalo fazendo-o se movimentar. Crispian o acompanhou.

Assim que se aproximaram, houve o choque. A flecha do arpão de Ercan havia atingido as costas do rei, atravessado a armadura, seus órgãos internos e varado seu estômago, da boca dele escorria um grosso filete de sangue e um sorriso grande adornava seus lábios.

— Foi uma bela caçada até o final... — grunhiu aquelas últimas palavras, tossiu sangue e despencou no chão pela lateral do cavalo.

Ercan e Crispian desmontaram seus cavalos rapidamente.

— Majestade?! Majestade, não! — gritou Ercan em desespero, confirmando a morte do rei ao tocar em sua artéria no pescoço. Seus olhos se arregalaram ainda mais. Ergueu-se de súbito, desembainhou sua espada e apontou-a para o pescoço de Crispian. — Olha o que você fez, desgraçado. Matou o rei de Valais.

Os olhos de Crispian também se arregalaram, marejados, estava incrédulo, não era aquela sua intenção, jamais fora. O rei, diferente do seu filho, era um homem bom, um verdadeiro nobre.

— Eu? Eu não...Foi um acidente...

Ercan não lhe dera oportunidade sequer de tentar se defender, o olhar dele crepitava em cólera, o cavaleiro largou a espada, decidido a fazer aquilo com suas próprias mãos. Segundos depois o punho poderoso do cavaleiro estava atingindo a face de Crispian. O jovem lorde tonteou e caiu desnorteado no chão, sendo atingido por uma nova sequência de golpes e pouco depois estava sendo estrangulado. Debatia-se, não conseguia mais respirar.    

— Mesmo sendo um acidente eu serei morto se souberem que foi minha flecha que causou a morte do rei. Vou acabar com sua raça, maldito. Eu estava certo, sua presença nessa comitiva só nos trouxe má sorte. Se eu matar a única testemunha desse incidente agora, poderei ser poupado. Farei de você o único responsável desse acidente. Milorde de merda! Afinal, a culpa foi mesmo sua, se não tivesse... Se não tivesse trompado em mim naquela hora!

— Não, eu... Não... E- Earthen...

Estava perdendo a consciência, tentou tossir, esforçou-se para puxar o ar, não vinha, o ar não chegava em seus pulmões, sentiu um forte ardor no peito. Fechou os olhos, a neve continuava caindo. Era tudo branco, silencioso. Sua consciência estava se esvaindo, se perdendo em meio a novos ruídos, rosnados, gritos, mais cheiro de sangue. Não apertavam mais seu pescoço, conseguiu respirar, após tossir engasgado. Sentiu algo áspero e úmido tocar sua face, quis sorrir, mas tudo se apagou.  

Continua...


Notas Finais


Nalu perguntou se eu conseguiria atualizar a original antes da Páscoa, e eu respondo: até tentei, Nalu. Mas esses dias a inspiração meio que estava fugindo a cavalo em meio a floresta de Valais, hahahaha.

Mas hoje, segundona de feriado, mais um abençoado feriado, consegui acordar inspirada. Sentei na frente do computador e só levantei a bunda quando terminei o capítulo. Eu iria incluir mais uma parte que já está bem descrita na minha mente nesse capítulo, mas achei que já estava grandinho demais! Cinco mil palavras são muitas para um capítulo só. Então deixarei o restante para o próximo. Mas já vou avisando, Nalu, o próximo capítulo não virá antes do dia do trabalhador, ok? Talvez, antes da Paixão de Cristo, em junho, né? *pisca*

Está aí, capítulo novo! E agora as coisas começam a se complicar. O rei está morto e parece que Crispian também está prestes acompanhá-lo, será? E se ele foi salvo no último tocar do gongo por Earthen? Conseguirá manter o plano de fugir com seu amado lobo-demônio? E o que acontecerá com Cath e o filho que ela espera? E Lady Francine? E lorde Edward?

Deixem suas apostas nas reviews! Não permitam que essa autora congele sozinha em meio a tempestade de neve em Valais, deixe para ela algumas reviews e descongele o coração gelado que se aquecerá rapidamente de novas ideias!

Feliz Páscoa atrasado! ;D

Comentem! Até o próximo!


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