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História Fantasia - Capítulo 6


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Notas do Autor


Buh!
Eu só queria dizer que amo vocês, sério. Minha vida é melhor com vocês. ♥

Capítulo 6 - Sobre corações maratonistas e cinema


Os lábios carnudos fecharam-se sobre os de Byun, cobrindo-os e sugando-os com uma intensidade bestial. O Conde gemeu, segurando firme na lapela do fraque que o Marquês trajava. Estavam em um jardim de suas propriedades. A tarde caía no horizonte. Os grilos cricrilavam na mata e os pássaros piavam sobre sua cabeça. Era um cenário romântico, lindo e perfeito.

Do havia aparecido em sua casa no inicio da tarde, montado em um lindo e atlético garanhão, recém-ganhado do Duque de Green Winter, dissera ele. Tomaram junto o chá das cinco, conversando sobre as festas e os momentos que haviam compartilhado. Byun estaria muito feliz, se não estivesse completamente perturbado por um acontecimento de dias atrás, em uma das inúmeras festas que havia comparecido.

Aquele homem... Aquele homem maléfico e indecente, com sua postura galante e maquiavélica havia encurralado seu pequeno corpo em um dos corredores em uma mansão onde foram a um baile, e profanado sua pequena e casta boca com um beijo  pervertido e indecente, varrendo com sua língua demoníaca cada canto divino de sua cavidade bucal. E Byun, pobre Byun, inocente e indefeso, nada pudera fazer a não ser derreter e devolver o gesto feroz e selvagem com a mesma intensidade.

Por esse motivo, ele entregou-se, mergulhando fundo na boca carnudo do Marquês de  Montervirge, tentando a todo custo apagar qualquer vestígio daquele beijo que partilhara dias atrás. Queria tirar de sua mente aquele sabor tão inebriante e avassalador. Aquela sensação que o fazia se sentir em chamas.

Queria esquecer-se que achara o beijo de Park Chanyeol o melhor beijo do mundo.

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Gritei de frustração ao ler o que acabara de escrever, arrancando a folha da caderneta e picotando-a em milhares de pedaços, exprimindo no ato todo o ódio habitando meu pequeno coração. Que merda é essa, Byun? Que merda de cena foi essa que escreveste? Onde foi que começaste a desviar da história tão erroneamente? Traga-me Deus! Leva-me desse mundo, que viver já não quero mais!

Park Chanyeol aproveitou-se de mim enquanto eu estava bêbado. E daí que, infelizmente, lembro-me dos mínimos detalhes, e estranhamente queria ter aproveitado mais? E daí que eu passei a mão por seu pescoço, na intenção de puxá-lo ainda mais para minha direção? E daí que senti o coração acelerado por tê-lo tão perto? E daí? Isso não quer dizer coisa alguma. Era a bebida fazendo efeito, me fazendo sentir coisas que eu não sentia há muito tempo.

Senti vontade de acabar com aquele manual idiota, porque, no fim, ele era o verdadeiro culpado por esse tipo de coisa acontecer. Foi por causa dele que comecei a passar mais tempo com Park do que deveria. Joguei os papéis sobre a cama, e subi nela, pisoteando-os com fúria.

Park deve ter me drogado, concluí. Ele colocou alguma coisa na minha bebida e por isso eu não consigo parar de repetir aquele beijo uma e outra vez na minha cabeça. Ou então, uma luz se acendeu em minha mente, era a abstinência que fizera aquilo. Eu ficara muito tempo sem beijar alguém, inclusive achei que havia virado uma boca virgem novamente. Quando Park me beijou, acabei depositando ali toda a vontade que eu sentia por beijar alguém.

— Que bosta, Byun — murmurei, me jogando sobre o colchão. — Primeiramente, que isso nem aconteceu de verdade. Foi um sonho, foi um sonho. Um sonho, entendeu?

Queria e precisava desesperadamente acreditar que havia sido um sonho e nada mais. Por que como eu iria olhar para a cara do Babaca N° 2 sabendo que havia beijado ele? Argh! O que estava acabando comigo era o simples fato de que aquilo estava me afetando muito mais do que eu gostaria. Sentia que iria morrer a qualquer minuto. Há dois dias que não conseguia me concentrar em outra coisa, que não conseguia ler e nem escrever meu conto, sem que Conde Byun, contra minhas forças, se atarracassem com o Duque em um lugar qualquer.

Grunhi, me revirando na cama. Não posso deixar isso acontecer, não mesmo. Peguei o celular e busquei meu único e grande amor no Facebook. Depois da festa, não falei mais com Kyungsoo, porque não havia me dignado a ir à Universidade. Será que ele lembrava-se que pediu para me beijar? Eu queria desesperadamente voltar no tempo e beijá-lo antes mesmo de ele repetir a frase. E daí que ele estava choramingando pelo Kai? Puf, nada a ver. Era meus lábios que ele quis beijar. Se eu tivesse beijado ele, nunca teria acontecido  aquele maldito beijo entre Park e eu.

A foto de perfil de Soo era uma das minhas favoritas. Se a visse, certamente deixaria de me sentir confuso com qualquer coisa. Era um foto de quando o conheci, na encenação de Romeu e Julieta. Uma foto de perfil, onde ele estava totalmente distraído. Havia evitado até mesmo ver sua foto, para não me sentir envergonhado e culpado. Esperei a foto carregar e senti o estômago embrulhar.

Ele mudara não só a foto, mas todo o perfil. KaiSoo era o nome. Quis vomitar, porque perfil de casal era a coisa mais brega que já vi na vida. Bloquei a tela, me sentando e comecei a socar o travesseiro para dissipar minha raiva. Park Chanyeol, aí de você se não me fizer terminar nos braços do meu amor.

— Baekhyun —a voz de Suho, por algum motivo, só incrementou minha raiva. — Seu amigo modelo Made in China está aí. Seria legal se você não parecesse um animal, que precisa ser contido com sedativo.

Na minha cabeça, Suho era o verdadeiro culpado. É verdade que Park só teve aquela ideia de jerico porque eu entreguei minha paixonite. Mas, inicialmente, Park só entrara na minha vida porque Suho o conheceu e o transformou em seu melhor amigo. Se não fosse por isso, nunca, jamais, nunquinha mesmo, eu teria conhecido ele. Se eu não podia descontar em Chanyeol, o faria em Suho, pensei arremessando o travesseiro em sua direção.

Suho tinha reflexos muito bons. Lembro-me bem de quando éramos criança e brigávamos, sempre era eu quem acabava chorando por ter se machucado. Eu nunca conseguia atingi-lo com livros, porque eu tinha o pensamento de quem se o atingisse com um bom livro ele ficaria mais inteligente. Bom, nunca o atingi com o livro, então não posso dizer se de fato não ficaria. Suho abaixou-se rápido, deixando Luhan preencher minha visão.

— Luhan, abaixa!

E bom, diferente do meu irmão idiota e babaca, quem estava rindo com as mãos na barriga, Luhan era muito lento e lesado. Ele caiu no chão e grunhiu alto, como um cervo ferido na floresta. Virei os olhos e levantei-me. Céus, por que não podia me dar um amigo melhor? Ajudei o chinês a se levantar e o levei para o quarto.

— Para de drama, Lu — falei, me jogando novamente na cama.

— Não é drama — resmungou ele, choramingando e jogando-se ao meu lado.

— Era um travesseiro, Luhan. Com um travesseiro é impossível ferir alguém — girei os olhos, porque essa maldita mania não saía mais de mim e era a única atitude plausível para uma cena tão infantil quanto a que ele estava protagonizando. — Enfim, fui a uma festa.

Luhan sentou-se abruptamente, virando-se em minha direção. Percebi por seu olhar que ele estava puto.

— Como assim? — gritou ele, fazendo uma expressão profundamente ofendida. — Nem me levou.

— Eu levaria — sentei-me também, apontando o dedo para ele. — Se você não tivesse me abandonado por Oh Sehun.

Seus lábios entreabriram-se e os olhos, arregalaram-se. Percebi que ele estava se debatendo internamente sobre o que dizer. Luhan pensava demais quando o assunto era Sehun e isso me deixava enfurecido, porque se ele gostava do garoto, era só ir lá e dizer, porque Sehun ficava de quatro por ele. Às vezes, para não dizer sempre, eu queria chacoalha-lo e obrigá-lo a me dizer o que de fato acontecia, mas nem valia a pena. Luhan sempre mudava de assunto.

— Eu o vi e fui falar do livro — falou ele de repente, me surpreendendo —, que quero devolvê-lo.

— Você o quê? Sério isso? Achei que tivéssemos acertado que você ficaria com ele. — Me indignei, movendo as mãos no ar de forma eufórica e exagerada.

— Você acertou isso, Baek. Desde o principio eu queria devolver — Luhan me fuzilou com os olhos. Aceitei, porque ele estava certo. — Não era só isso. Eu também precisava dizer para ele deixar de ir atrás de mim. Aquele idiota não desiste. Falei para ele se dedicar ao menino que estava beijando aquele dia, que é alguém da idade dele e que o quer.

Apesar das palavras saírem demasiado raivosas por seus lábios, em nem um momento ele levantou o olhar, como se estivesse com medo de demonstrar algum sentimento. E nem precisei ver seus olhos para saber que aquilo não era algo que ele de fato sentia. Mas deixei de lado. Luhan era o melhor de nós para dar conselhos. Com Kyungsoo, aquele dia, tive certeza disso.

— Estou surtando — falei, mudando de assunto.

— Por quê?

Contei a Luhan tudo sobre aquele dia, desde o momento em que Soo me convidou para a festa até o momento em que Park me deixou lá, naquela casa desconhecida, com as pernas bambas e o coração acelerado.  Relembrar só fez com que eu me sentisse ao borde de um colapso mental. Berrei e choraminguei para ele, expondo todo o meu sofrimento e angustia interna. Luhan, como um melhor amigo que era, manteve-se com cara de paisagem, tratando com desdém toda minha dor.

— Você nem se comove — acusei quando terminei de falar.

— Baekhyun — ele suspirou, fechando os olhos e desgrenhando o cabelo preto que lhe caía sobre os olhos. — Não sei para que tanto escândalo. Não é a primeira vez que você beija Park.

— Mas é a primeira que ele me beija — falei, sentindo um amargor com a lembrança invadindo minha boca.

Luhan me encarou e, sem me controlar, avancei em sua direção, beijando-o.

— O que diabos acha que está fazendo, Baekhyun? — gritou ele, me empurrando e se levantando da cama.

Atordoado com as lembranças, o encarei.

— Achei que se te beijasse, iria esquecer o beijo do Chanyeol.

— Meu Deus — sussurrou ele, apoiando a cabeça nas mãos. — Vai se tratar, garoto. Que nojo — ri quando ele tirou a língua pra fora e tentou limpá-la. — Que horror, Baekhyun.

— Eu não sou tão ruim — choraminguei, ronronando, ofendido.  — Você já colocou coisas piores na boca.

Luhan me lançou um olhar mortal.

— Não sei porquê sou seu melhor amigo — ele voltou para a cama, deitando-se sobre a barriga e apoiando o queixo nas mãos. — Ainda acho que algo do passado está se remexendo aí.

Não mesmo. Isso nunca poderia acontecer. Pensei no que dissera antes, que era a primeira vez que Park me beijava... Era a verdade. Até porque, a outra vez, quando eu o beijei, ele mal correspondera. Fechei os olhos, sentindo o peito doer. A vivência daquele episódio ainda era muito recente em mim, embora tenha acontecido há muito tempo.  Queria esquecer... Queria muito esquecer...

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— Eles vão nos matar — Falei para o Suho quando outro vaso de porcelana encontrou o caminho do chão, espatifando-se. O som alto fazia minha cabeça latejar e o cheiro de álcool, embrulhava meu estômago.

Suho riu.

— Para de ser um virgenzão — ele bebeu todo o conteúdo que estava na garrafa em suas mãos em um gole só. — Vai lá para os seus livros, vai. E deixa quem entende de festa se divertir aqui.

Então, ele saiu andando, indo se esfregar em uma moça de pernas longas ali do lado. Bufei, me sentando no segundo degrau da escada. Papai e mamãe havia viajado, ido acertar umas pendências  com uma editora japonesa que vinha dando problema. Íamos ficar só cinco dias sozinhos, mas estava sendo um pesadelo. Suho havia monopolizado tudo dentro de casa. Não ia ao trabalho e eu acabava ficando muito mais tempo do que meu expediente, para que ele ficasse se divertindo por aí.

Naquele dia, quando cheguei, a casa estava repleta de gente que nunca vi na vida. Os únicos rostos conhecidos eram o de Suho e o de Park, quem estava maravilhoso com o cabelo platinado e um piercing na sobrancelha. Aquele foi o primeiro piercing de Park, e me lembro do deslumbre que senti. Ele ficara com ar de menino mau. Mas mal tive tempo para pensar nisso, porque surtei quando vi a bagunça pela casa. Havia bebida derramada em todos os cantos e muitas louças quebradas pelo chão. As paredes estavam sujas e nem uma pessoa parecia sã.

Suspirei, desgrenhando o cabelo, sem saber o que fazer. O dia seguinte era domingo. Papai e mamãe chegariam na madrugada de segunda, e eu já sentia que teria que limpar tudo aquilo e estava cansado antes mesmo do amanhecer. Fiquei sentado por muito tempo, ouvindo a música brega retumbar pela sala e as pessoas encherem a cara de bebida, antes de me sentir cansado demais daquela tamanha idiotice. Nem que Suho me matasse, eu não iria ajudar ele arrumar aquela zona.

Felizmente, o andar de cima, onde ficavam os quartos, estava vazio. Eu tinha planos de tomar um banho, colocar os fones de ouvido e dormir, fingir que embaixo do meu quarto não estavam destruindo a cozinha. No entanto, um sorridente Chanyeol estava sentado no corredor. Park era e sempre seria o Babaca N° 2, simplesmente por ser amigo de Suho, mas naquele dia se eternizaria pelo que ele estava prestes a fazer.

Desde quando o vi, o dia em que fora chamar Suho pela primeira vez, senti algo por Chanyeol. Ele tinha uma beleza completamente diferente, que atraía minha atenção. Nunca fui bom com o amor, contudo era encantado por ele.  Chanyeol sempre me tratou muito bem, mesmo quando eu o chamava de idiota e babaca. Não que conversássemos ou coisa do tipo. Ele me cumprimentava e muitas vezes me oferecia ajuda na cafeteria.

Quando o vi ali, sorrindo pra mim, com uma aparência tão misteriosa e etérea, senti algo muito forte me mover. Não sei o que raios se passou por minha cabeça.  Mas passou, e aquilo selou sepultou sentimentos em meu peito. Aproximei-me sem nem mesmo perceber. Lembro perfeitamente a sensação de seus olhos confusos sobre minha pessoa.

— Baekhyun — sua voz, que na época na tinha o barítono sedutor, parecia preocupado. — Está tudo bem? Precisa de algo?

— Sim — falei, apoiando as mãos em seus ombros e levantando os pés para me aproximar mais de seus lábios. — Um beijo seu, Chanyeol.

Essa foi, de longe, a coisa mais ridícula que já fiz na vida. Não tenho ideia do que aconteceu comigo, contudo sinto como um soco na boca do estômago a lembrança de Chanyeol me empurrando, como se tivesse levado um choque, com olhos arregalados em minha direção. Seu rosto estava adornado de uma expressão de completo horror. Não sou capaz de lembrar se ele falou alguma coisa, se perguntou o que merda eu estava fazendo, mas tenho completa certeza de que não fui capaz de dizer coisa alguma.

O que sempre foi bem nítido pra mim era o sentimento de humilhação e desolação misturado à euforia do que eu fizera. Aquela havia sido a primeira noite em que bebi demasiado, e o momento exato em que perpetuei Park Chanyeol como o idiota inútil que ele é. Eu achava que Park era homofóbico, e aquilo destruiu uma parte do meu coração. No entanto, um dia ele chegou com Jongin pendurado no braço e foi aí que eu soube que o problema era apenas eu.

 Nunca mais senti qualquer tipo de atração por ele desde então.

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A primeira coisa que encontrei quando cheguei à Universidade foi aquilo que mais quis evitar, estranhamente, Park Chanyeol. Para variar, sua mão estava atolada na bunda de uma qualquer enquanto as bocas se comiam ferozmente. Aquilo não deveria me afetar, mas de certa forma afetou e muito. Foi impossível não me perguntar uma e outra vez porquê demônios ele havia me beijado, então se tinha tantas opções. Não que eu me importasse, claro que não. Meu verdadeiro objetivo estava logo ali, de mãos dadas com seu Moreno Bronzeado, sorrindo linda e grandemente na direção de Kai.

E é aí que estava o problema. Foi nesse exato momento que eu deveria ter notado que alguma coisa ia muito, muito mal com meus pensamentos. Chanyeol com uma garota me deixou muito mais irritado do que saber que Soo e Kai fizeram as pazes – embora a foto no Facebook delatasse isso.  Atribui a moléstia ao orgulho. Afinal, há alguns dias ele estivera comendo minha boca com a dele, e o mínimo que deveria ter acontecido era que ele tivesse ficado perturbado tanto quanto eu.

Quer dizer, certamente acabei por pensar tanto naquilo pela minha repulsa por Chanyeol. Desde aquele episódio, onde ele me fizera se sentir humilhado e descartado, eu me dedicara a criar um sentimento hostil por ele. Mas, céus, não dava para negar que aquela boca, aquela maldita boca, era deliciosa. Foi impossível aquela lembrança não ficar invadindo minha cabeça mesmo quando eu não queria. Eu só queria que Park esclarecesse os fatos. Lancei um olhar em sua direção, sentindo uma guinada estomacal ao vê-lo beijar aquela menina. Affs, sério que eu beijei aquilo?

— Baekhyun — a voz de Soo me chamou. Meu amor, meu doce amor. O encarei, aproximando-me de onde estavam. Tive de me controlar para não olhar para trás, para a penumbra onde Park estava com aquela garota. — Como você está?

Soo tinha os olhos gentis e expressivos uma vez mais. Peguei-me sorrindo de contentamento. Aquele dia, havia sido horrível a sensação de vê-lo tão sofrido e não poder fazer nada para ajuda-lo.

— Oi, Jongin. — Jongin não respondeu, apenas deu uma passada de olhos em mim, que fez meu corpo todo estremecer. Que caralhos! Será que ele sabia que Soo quis me beijar? O encarei, e sem poder evitar sorri, sentindo-me poderoso. Se Kai me via como uma ameaça, isso queria dizer que eu era uma ameaça, certo? Senti uma motivação crescer em mim, Park – com a graça do universo – passou a um segundo plano. — Estou bem, Soo. E você? Teve ressaca por conta do outro dia?

Kai estreitou os olhos, passando uma mão sobre a cintura de Soo de forma arrogante, como se proclamasse que, aquele ali, já estava comprometido. Não me importei.

—Sim, Baek — Do sorriu nervoso, as bochechas levemente coradas. — Muito obrigado pela ajuda. — Ele encarou o namorado, cutucando a bochecha dele até ganhar sua atenção total. — Você deveria agradecer o Baekhyun por ter cuidado do amor da sua vida, não acha, momolado?

— O momolado tá chatiadu com o mô’  — Kim forçou a voz, deixando-a fina e açucarada, fazendo meus ouvidos sangrarem.

Queria enterrar minha cabeça na areia, bate-la contra a parede. Qualquer dor física, que pudesse me levar a um desmaio, seria muito mais aceitável do que vê-los tão melosos. Acho que era a reconciliação, porque comecei achar que aquela vez, na Cafeteria, quando estavam se beijando e se mordendo sem necessidade, eles estavam muito mais aceitáveis e normais.

Mudança de plano! Acho que admirar Park comer a menina com a boca era muito mais gostoso. Girei sobre meus calcanhares, planejando me afastar dali o mais rápido possível, antes que eu começasse a vomitar por ter que ouvir tantas palavras enjoadas e doces com voz de criança.

Durante toda minha vida, sempre odiei casais melosos demais, que parecem açúcar derretido grudando nas coisas. Estava aí um dos motivos que me fazia amar tanto os romances vitorianos, principalmente os escritos naquela época de verdade, por autores da época. Eles não possuíam um romance que me fazia querer vomitar. Normalmente, os personagens eram sérios e profundos, não tinha frescurinhas na hora de se declarar. Mantinham o tom de voz sempre formal, e usavam palavras objetivas e claras.

Kyungsoo era o amor da minha vida, claro. Há vários meses eu anelava em poder compartilhar com ele todos os poemas que eu sabia, que se resumiam a um, e declarar sua beleza em doces palavras. Porém, naquele momento, enquanto o via agir como uma aberração, contaminada pelo vírus do amor, senti que meu amor decaiu um ponto, se é que isso era possível. Decidi ali que quando namorássemos iria pedir a ele que nunca fizesse aquilo comigo. Tenho certeza de que morreria de diabetes no primeiro dia — e eu nem tinha diabetes.

Por esse motivo, antes que eu caísse morto no chão, decidi me afastar, certamente pelo outro lado. Suficiente de romance para uma noite! Talvez nem devesse ter saído de casa. Deveria ter ficado lá, remoendo meus pensamentos em torno daquele beijo idiota. Isso que dá, Byun, não beijar bocas suficientes na sua idade. Um beijinho, e você já planeja o casamento e a lua de mel.

— Baek — Soo me chamou novamente justo quando dei o primeiro passo. Olhei para ele. Queria ter mostrado uma seriedade para que ele visse meu desconforto, mas seus olhos brilhando na noite faziam meu coração derreter. Sorri. — Obrigado.

Seus olhos fecharam-se completamente, e ele ladeou a cabeça sorrindo. Foi um agradecimento tão sincero que, por uns momentos, fui incapaz de verbalizar alguma coisa. Apenas fiquei ali, embasbacado, admirando sua beleza enquanto sorria. Kai parecia estar tão encantado quanto eu, e deve ser por isso que ele tomou o rosto de Soo com ambas as mãos e o beijou. O beijou de forma intima e delicada, como se quisesse demonstrar com isso todo o amor que sentia.

Meu coração falhou uma batida. Senti uma forte pontada no estômago. Queria desviar meu olhar, para qualquer coisa, qualquer outra coisa que não fosse os dois, mas não consegui, Era como se algo estivesse me prendendo ali, como se o amor dos dois fosse fantástico demais para não ser contemplado. Kyung o correspondeu com a mesma paixão e ânsia, fazendo parecer que era a primeira vez que se beijavam – ainda mais profundo do que o dia em que Kai o pediu em namoro. Um vento rodopiou ao nosso redor. Merda! Toda vez era assim, parecia que até a natureza estava a favor deles. Aquilo doía. Ver alguém que você estima tanto ser beijado pelo amor da vida dele... Então, por que eu não conseguia sair dali? Qualquer coisa seria melhor do que aquilo. Contudo, era como se algo estivesse me prendendo, me impedindo de me mover para longe. Eu... Só conseguia olhar.

De repente, minha visão foi completamente obstruída. Tudo ficou preto. Eu estava desmaiando de dor de amor? Não era isso. Se fosse, acho que não teria mais consciência do que acontecia. Não entendi o que estava acontecendo. Um braço rodopiou minha cintura e me puxou para trás. Resfoleguei. Estavam me sequestrando?

Céus! Sei que havia dito que qualquer coisa era melhor do que ver KaiSoo se beijando, mas ser sequestrado nunca fora uma opção. Mamãe iria pagar meu resgate? Suho jamais deixaria que o fizessem. Eu ia morrer em um cativeiro no meio do nada. Se eu começasse a rezar depois de uma vida de ateísmo, Deus iria me ajudar? Eu podia gritar e pedir socorro. Respirei fundo, pronto para gritar por auxilio. Soo certamente viria me salvar, certo?

Uma nuvem de perfume inundou meus pulmões quando inspirei. Um perfume almiscarado, que agora eu sabia não pertencia a Luhan. Esse tinha uma nota afrodisíaca bem suave e quase imperceptível, que se mostrava lá no fundo da fragrância quando se colocava demasiada atenção. Quê? Isso quer dizer que estou reparando em Park? Não, não! Forcejei o corpo para trás. Seu braço apertou ainda mais em minha cintura, me erguendo. Senti os pés perderem a linha do chão. Mas que raios!

— Me põe no chão agora, Park Chanyeol — gritei, chutando o ar com força. Que merda esse babaca pretende fazer comigo?

— Você tem certeza disso? — A voz dele tinha um tom brincalhão e sarcástico, porém, o que de fato me irritou foi a forma sedutora em que ele falou, fazendo seu hálito quente acariciar o lóbulo da minha orelha.

— Agora — dessa vez, tive a certeza de gritar mais alto e mais claro, o suficiente para que Park me ouvisse, sem me importar caso outras pessoas ouvissem, aliás, isso seria bom. — Me solta, Park Chanyeol, me solta! — Que eles pensassem que esse troglodita estava me sequestrando!

Acho que deu certo, porque céu se abriu diante de meus olhos repentinamente. Devo frisar que ele estava realmente lindo aquela noite. Com a Lua cheia resplandecendo sob nossas cabeças e toda sua extensão salpicada de estrelas, pontinhos prateados que coloriam a noite.  Uma noite linda para Conde Byun e Marquês Do se encontrarem e declamarem seu amor.  

E então senti o corpo despencar e chocar-se brutalmente contra o chão. Minha bunda latejou, e amaldiçoei todas as gerações futuras de Park Chanyeol. Fechei os olhos, lamuriando a dor aguda que se estendeu por minha perna. Que demônios! Como se não bastasse esse idiota ter me sequestrado, ele ainda me agrediu. Quando voltei a abrir os olhos, dois grandes ingressos de cinema balanceavam contra meu rosto.

— Inferno — praguejei, me esquivando para levantar. Chanyeol ria, divertindo-se com minha atitude. — Que merda acha que está fazendo? — Perguntei, tentando não trazer à minha mente lembranças daquele beijo que partilhamos; algo que era bastante difícil, principalmente quando ele estava vestindo uma jaqueta jeans sobre uma blusa de linho com cordões, que deixava entrevista sua tatuagem e seu peito definido, combinando perfeitamente com a calça cheia de rasgos nas coxas, como se ele acabasse de voltar de uma guerra. Maldito Park Chanyeol!

Ele mexeu no cabelo platinado com a mão livre e sorveu o nariz, recuperando-se de sua gargalhada. Notei, totalmente contra minha vontade, que ele estava muito diferente do usual. Park normalmente só usava jaquetas de couro, e foi péssimo descobrir que ele fica tão bem quanto de jeans. Por que, senhor? Por quê?

— Eu te salvei — falou ele, com a seriedade de quem acaba de desarmar uma bomba e salvar milhões de pessoas. — Ou você preferia ficar lá, vendo como Kai comia a boca de Soo em um beijo ardente?

— Não era um beijo ardente. Era bastante delicado e apaixonado — afirmei, sem pensar direito. Seus olhos recaíram sobre mim com uma pitada de surpresa e então, toda sua face foi tomada por algo de zombaria. Demônios! Por que eu disse isso mesmo? Escondi o rosto com as mãos, me lamuriando enquanto a risada de Park voltava a invadir meus ouvidos.

Mas é que não era um beijo ardente! Não era como aqueles beijos ridículos e pornográficos que Park Chanyeol dava em suas presas. Era um beijo terno e sentimental, que me fez se sentir como uma sobra no Universo, como se o mundo fosse de KaiSoo e eu só vivesse nele por favor. Chegava a ser irritante que duas pessoas pudessem se amar de tal forma quando outras definhavam de amor.

Merda!

Eu estou vivendo ou apenas existindo? Era difícil saber a diferença quando Kyungsoo estava no meio. E como se não bastassem meus problemas amorosos com Soo, tinha o Babaca N° 2, fazendo jus ao seu título e agindo como tal. Descobri o rosto apenas para me deparar com o olhar penetrante de Chanyeol sobre minha pessoa, a sobrancelha com o piercing arqueada em escárnio e o metal obsceno em sua língua, no canto dos lábios.

— Você tem um lado voyeur, Baekhyun? — Quê? — Isso eu acho que nem Suho sabe, já que ele nunca falou pra mim. — Ele cruzou um braço sobre o corpo e apoiou o outro, segurando o queixo com a mão e adotando uma pose de quem realmente tinha a capacidade de pensar.

Abaixei-me, arrancando um punhado de grama. Por que raios Suho fala sobre mim para esse neandertal? É pra que possam me azucrinar? Arremessei o mato em sua direção e, quando o idiota começou a rir ainda mais e se afastar, repeti o ato uma e outra vez. Era incrível como Park Chanyeol conseguia despertar meu lado mais primitivo. Eu deveria ter ido para minha aula linda e maravilhosa sobre a Origem da Literatura na Ásia, mas estava me comportando como um animal no jardim, porque acabar com ele me parecia muito mais interessante do que estudar e garantir um futuro promissor.

Park continuava a rir sem parar, afastando-se cada vez mais de minhas investidas. Por que demônios ele não caía e não rachava a cabeça? Era pedir de mais por isso? Tudo bem que a mãe dele ficaria triste, já que Park era filho único, o que explicava muito bem esse complexo de Príncipe e esse ego elevado dos infernos que ele tinha. Algo que não explicava porquê ele ficava beijando pessoas aleatórias por aí, o que me enfurecia em medidas astronômicas, já que uma dessas pessoas havia sido eu.

—Vá para inferno, Park Chanyeol! — Praguejei consternado.

— Essa boca anda muito suja, Byun. Não acha que temos que lavar ela? — Perguntou ele sem tirar o maldito sorriso do rosto enquanto tomava meus pulsos, imobilizando minha agressão à base de mato.

—Afinal, o que você quer? — O encarei, erguendo o queixo para igualar nossos olhares, o que era bastante difícil dada nossa diferença de altura. Péssima ideia! Ali, tão próximo dele, uma vez mais sendo brutalmente hipnotizado por seu perfume, meus olhos deslizaram para seu peitoril semidesnudo, onde a tatuagem era exposta em pedaços pela abertura da camisa. Estranhamente, eu queria tocá-lo.

— Pode tocar se quiser.

Pisquei, elevando o olhar e me dando conta da situação ridícula em que estávamos. Merda! Como as coisas terminaram assim? Forcejei os braços e me afastei dele rapidamente, como se tivesse levado um choque. Olhei ao redor, me certificando se não havia ninguém, e depois para o prédio ao nosso lado. Lá no alto, em uma janela minúscula, um par de olhos avelanados me encarava acusatoriamente.

Eu não havia falado com Luhan desde o momento em que ele saíra de casa, depois de maldizer minhas futuras gerações por conta do beijo que dei nele. Argh! Só de pensar que eu havia beijado Luhan me estômago dava uma guinada! Ele era meu melhor amigo. Era como beijar Suho. Bléh! Pior do que me imaginar beijando Luhan, era me imaginar beijando Suho! No final, pouco havia me ajudado tê-lo beijado. Na verdade, só fez um sentimento de culpabilidade me invadir.

Merda!

Agora eu tinha que me desculpar e explicar que porra estava acontecendo ali. Ia ficar difícil de convencer Luhan que aquela merda de sentimentos passados não estavam voltando quando ele ficava presenciando cenas como aquela. Ele desviou o olhar e pouco depois meu celular vibrou. O peguei, mesmo sabendo o que ia encontrar.

Byun Baekhyun, que porra é essa? Desde quando você mata aulas para ficar com o Babaca N°2?

Suspirei, guardando o aparelho no bolso. Seria difícil fazer Luhan acreditar que Park havia me sequestrado enquanto eu admirava, cheio de dores, como o amor da minha vida beijava outro. Certamente, para outras pessoas, Chanyeol tinha me salvado. Mas, oras, estávamos falando sobre a pessoa mais idiota que eu conhecia. Jurei ódio eterno por ele. Nunca iria creditar qualquer coisa que ele fizesse! Park ainda estava parado, me encarando. Os pontos prateados em sua sobrancelha e de sua orelha cintilavam sobre a luz.

—Morra, e vá para o inferno, Chanyeol— falei, virando-me para sair dali. Morra, morra, morra! Ta tão difícil uma pessoa dessas morrer? Por Park ser filho único, às vezes, eu não queria que ele morresse, só ele que caísse, batesse a cabeça e entrasse em coma profundo por tempo suficiente para que eu me esquecesse de sua pouca relevância no mundo.

— Byun!

Revirei os olhos, voltando-me para ele. Senhor, por que me castigas assim?

— O que demônios você quer, Chanyeol? — Perguntei,  perdendo completamente a paciência. Meu celular voltou a vibrar no bolso. Ignorei. Ainda não tinha uma forma de explicar para Luhan o que de fato aconteceu, porque nem eu sabia explicar que merda era aquela! Só sabia dizer que, ficar perto de Chanyeol, estava começando a me deixar impaciente e ansioso.

— Isso — ele retirou do bolso os dois ingressos de cinema, balançando-os frente aos meus olhos.

Franzi o cenho.

— Está me convidando para ir ao cinema, Park?

Chanyeol revirou os olhos e riu nasalado.

— Só te convidaria para ir ao cinema se fosse para você usar sua boquinha linda lá embaixo — o barítono em sua voz foi sexy e galanteador. Minhas bochechas queimaram com a intensidade de seu olhar e meu coração se acelerou. Desviei o olhar rapidamente, sem saber o que dizer, e então ele riu e bagunçou meu cabelo com a mão livre. — Estou brincando, Baekhyun. Não precisa ficar pensando no meu corpo nu. Mas se quiser, eu te mostro.

— Vá para o inferno, Park Chanyeol! — Chacoalhei a cabeça e me desvencilhei de seu toque, caminhando apressado para longe. Por que eu dava atenção a ele mesmo?

— Sabe quantas vezes você já me mandou para o inferno só hoje? — Ele me acompanhou, aparentando uma tranquilidade ridícula e irritante, como tudo nele o era. — Três vezes, Baekhyun.  Você está ficando muito mal educado.

— Ou talvez você que nunca tenha me conhecido — virei-me impaciente para ele, espantado pela irritação em minha voz. Park calou-se, me encarando com aquela maldita expressão que não me era significativa, como se ele tivesse um versão própria das situações em sua cabeça. Mas era verdade. Tanto antes como agora, Park Chanyeol nunca havia tentado me conhecer. Ele sempre fora agradável comigo por conta de Suho. Suspirei. Ficar remoendo coisas passadas não me levaria a lugar algum. — Fala logo para que demônios são esses ingressos.

— Cinema — sorriu ele, como se fosse obvia a resposta. Arqueei uma sobrancelha, sem entender. Park deu um passo em minha direção, passando o braço por meus ombros e me instigando a caminhar a seu lado. — Vamos ao cinema com KaiSoo.

Seu maldito perfume me atordoou, mas bastou ele pronunciar o nome de Kyungsoo para todos os meus sentidos voltarem a funcionar.

— Como assim? — Questionei curioso. — Por que eles nos chamariam para ir ao cinema com eles?

— Claro que não — Chanyeol parou, retirando o braço dos meus ombros para beliscar meu nariz com a ponta dos dedos. — E eis aí a questão.

Ele voltou a caminhar e o acompanhei.

— Pode explicar, por favor? Acabo de me sentir como os da sua espécie que não entende nada.

Park suspirou, mexendo no cabelo platinado. Por um instante, ele pareceu profundamente cansado, mas logo depois sorriu, esticando os lábios de tal forma, que me foi possível contemplar toda sua arcada dentária.

— Qual melhor forma de separa um casal do que frustrar suas tentativas de namorarem no escurinho do cinema?

— Ah — um sorriso de entendimento e cumplicidade tomou conta do meu rosto. — Acho que sei do que está falando.

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Conde Byun estava impaciente. Andava de um lado para o outro, consultando sucessivamente seu relógio de bolso dourado. Aquele aparato era uma relíquia de família, passado de geração em geração ao longo dos séculos, requeria o maior dos cuidados, pois era frágil e podia se quebrar. Mas Baekhyun não tinha a mais mínima delicadeza quando o apertava entre os dedos, insatisfeito com os fatos.

Acontece que havia marcado com o Marquês para um encontro às escondidas no Labirinto da Praça Central. Havia um ponto secreto em que os arbustos se abriam para uma clareira. Era um lugar que somente o Conde conhecia. Os planos era que pudessem esconder-se lá, e deixarem os sentimentos aflorar-se sem culpa. Apesar de terem marcado um horário tardio, era comum que casais fossem àquele lugar para cometerem suas indecências.

Baek não se importava com a vida de outras pessoas. A ele, nada alterava que uma moça de dezoito anos estivesse fornicando com o Comandante da Marinha. Primeiro, porque não alterava em nada sua vida, depois por pura proteção. Se soubessem o que ele e o Marquês vinham fazendo às costas da Alta Sociedade, ele teria como se defender ao expor os pecados de outras pessoas.

Entretanto, aquele parecia um dia em que a Clareira não seria usada. Fazia quarenta minutos que já esperava o homem robusto, amor de sua vida. Alguma coisa devia ter lhe acontecido. Talvez tivesse caído do cavalo, se machucado ou até mesmo se perdido naquele labirinto enorme. Seu coração se apertou com as hipóteses. Quiçá, fosse melhor ir atrás dele, ver se estava tudo bem. 

Respirando fundo, ele guardou o relógio permanentemente no bolso e começou a caminhar para fora dali. Compraria rosas vermelhas e chocolates, e passaria pelas propriedades de Montevirge, para se certificar de que o Marquês estava bem. Não estava em suas faculdades mentais o quanto poderia parecer estranho que um homem levasse flores para outro. A preocupação falava mais alto em seu coração. Se ele estivesse doente, o que era plausível, uma vez que houvera nas últimas semanas centenas de morte por varíola na região. Esse pensamento não serviu para nada a não ser desesperá-lo ainda mais.

Apressou-se, apurado para encontrar o amor de sua vida, pouco se importando com o horário tardio ou outras circunstâncias. Entretanto, antes mesmo que tivesse dado a primeira dezena de passos, uma risada chamou-lhe a atenção. Era o riso de seu amado. Byun sentiu o coração doer no peito. Tentou negar, dizendo a si mesmo que era um som pertencente a outro cavalheiro. Só que seu coração não se enganava, e ele seguiu o som.

Sentado a beira da fonte estava Do Kyungsoo, com um traje branco que ressaltava ainda mais seu cabelo negro e os olhos expressivos. Ao lado dele havia um homem que Byun jamais havia visto na vida. Ele trajava o uniforme oficial da Marinha Britânica. Tinha uma pele que lhe lembrava canela e sorria grandemente. O Conde sentiu a pulsação falhar.

— Oh, Byun — acenou, o Marquês, genuinamente correndo em sua direção. — Venha, deixe-me lhe apresentar ao Oficial Kim.

Baekhyun deixou seu braço ser enganchado pelo mais baixo, movendo-se mecanicamente na direção que Do impunha. Não tinha reação. Era como estar em um pesadelo, a única diferença era que não terminaria, pois era a realidade. Conforme se aproximavam sentia que o chão desfazia-se sobre seus pés. Kyungsoo já sorrira daquela forma para si? Não se lembrava.

— Ah, Baekhyun — uma terceira voz se fez presente. Nunca, em toda sua vida, imaginou que ficaria aliviado ao ouvir a voz do maléfico Duque, mas ficou. Olhou para trás, deparando-se com a elegância petulante do homem e sorriu. — Finalmente te encontrei.

— Duque — da forma que pôde, fez uma reverencia para o homem. Nunca havia tratado ele pelo nome, com tamanha formalidade. Normalmente, estava ocupado demais espumando de raiva e cólera com aquela presença tão gritante. — Achei que não viria mais. — Esperava que Park, em meio aquele coração cruel e carrancudo, pudesse seguir a corrente de sua mentira.

— Pois, como vê, aqui estou — ele abriu os braços com um floreio.

Byun voltou-se para Kyungsoo, quem tinha o cenho firmemente franzido, em uma expressão molesta. Bom, se o Marquês estava molesto, o Duque estava mil vezes mais. Havia sido plantado por conta de um Oficial que jamais vira na vira. Desvencilhando-se do agarre gentil de Do, Baekhyun afastou-se com um breve aceno de cabeça, praticamente correndo na direção de Park.

— Não hei de agradecer-te por nada, Park — murmurou o Marquês, ao estar ao lado do homem.

Park riu, colocando a cartola sobre a cabeça.

— Não esperava que o fizesse, caro Marquês.

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Chegamos com dez minutos de atraso, quando o plano era chegarmos antes de KaiSoo. A culpa era total e completamente de Park Chanyeol, por ser tão idiota e ter insistido em que eu deveria ir com ele de moto ao invés de me deixar pegar um Uber, como tinha dito que faria. Não aceitei. Era óbvio que eu morria por subir naquela moto uma vez mais, ouvir seu motor roncar abaixo de mim e sentir o vento em meus cabelos, mas me forcei uma e outra vez a lembrar que o condutor era Chanyeol, e eu corria sérios riscos de morte ao estar em sua garupa, fosse pelo coração acelerado de adrenalina ou apenas por ser ele – essa na melhor das hipóteses. No final, só aceitei porque fui persuadido a fazê-lo. Park prometera que, se o fizesse, me ensinaria a andar na Bobber sem que Suho ou mamãe soubesse.

Mamãe jamais me deixaria subir em uma moto sem antes ser internada por infarto e me fazer ficar completamente arrependido e culpado. E Suho jamais deixaria que eu o fizesse, sem contar para minha mãe e tornar real o primeiro cenário. Sem contar que, para ele, era muito mais fácil me ter dependente, rastejando por suas caronas quando eu precisava de uma. Sua cara fora um lindo poema quando eu lhe dissera que não precisava me esperar. Meu celular estava cheio de ligações e mensagens não só de Suho, de Luhan também, quem eu havia evitado para não ter que explicar coisa alguma. Prometi a mim mesmo que só lhe diria sobre Park, Kyungsoo ou Jongin se ele me falasse sobre Sehun.

Sobre tudo isso, foi triste saber que tenho um preço, e que esse preço era tão baixo e insignificante quanto andar de moto. No entanto, o que posso fazer, Senhor? Eu, um pobre garoto, que teve seu amor por motos brutalmente despedaçado pela partida precoce de um pai. Oh, vida cruel! No final, não me importava muito por ter me vendido. Estávamos falando de um Hurley, qualquer oportunidade que eu tivesse de pilotar uma, eu iria agarrar com todas as forças. Mas o fiz prometer e jurar, e assinar um termo escrito às pressas na última folha de minha caderneta para honrar nosso tratado. Não dava para confiar no Babaca N°2, quem sabe quando ele poderia jogar no lixo suas próprias palavras?

O caminho foi uma maravilha. As ruas estavam limpas, com pouco trânsito. O ronco do motor da Bobber ecoava pelos becos. Deixei os braços abertos, sentindo o vento carregado com o cheiro de Park me inundar. Aquilo me trazia calmaria. Perguntei-me se eu teria minha própria moto se papai não tivesse ido embora. Tenho certeza de que ele me levaria àquela loja Hurley na entrada na cidade e me deixaria escolher minha própria moto. Mamãe não iria reclamar, tenho certeza. E eu não ficaria tão eufórico quando Chanyeol aparecesse com sua monstruosa Loker na minha frente, pois eu teria minha própria moto.

Esse último pensamento fez meu estômago dar uma leve fisgada. Quando Park diminuiu a velocidade, pronto para estacionar, saltei para o chão, ainda que não fosse o momento. Concentra-se no plano, Byun. Nós tínhamos um plano? Ele tirou o capacete e arrumou o cabelo enquanto eu ainda estava lutando para tirar o meu.

Anda logo, Byun — apressou Chanyeol, me olhando com impaciência. - Baekhyun — repetiu ele como uma mãe repreendendo o filho, batendo a sola do pé contra o chão, cruzando os braços sobre o peito.

O encarei com irritação.

—Estou tentando, idiota — bufei impaciente. Mas que merda! Nem acredito que eu estava mesmo pensando em como seria triste não viver esse momento. Forcejei o fecho do aparato uma vez mais, tentando inutilmente abri-lo. Tentei também tirar o capacete sem abri-lo, contudo só seria possível se eu tirasse minha cabeça junto, o que não seria tão ruim dada às circunstâncias. — Não está saindo. Acho que emperrou.

Chanyeol resfolegou, conferindo a hora uma vez mais no relógio exorbitante em seu pulso. Caminhando em minha direção, ele ajeitou o próprio capacete no antebraço. Meu coração parou. Desde aquele dia, em que ele me beijara (ou imaginei que o fizera), sempre que Park vinha em minha direção, com aquele olhar sério e misterioso, alguma coisa dentro de mim travava em expectativa. Inferno, praguejei internamente. De repente, comecei a desejar que, ao invés de Park, quem deveria morrer era eu.

Percebe que meu plano era perfeito e por uma birra sua estamos ferrando com ele? — com suma delicadeza, ele segurou meu queixo, erguendo-o para mexer no fecho. — Se nós tivéssemos vindo quando passei te pegar, estaria dando tudo certo.

Queria respondê-lo, me defender de sua sórdida acusação, pois eu não tinha a mais mínima parcela de culpa naquele atraso. Que culpa tenho se sou incapaz de confiar em seus dotes perfeitos de condução? A culpa era totalmente de Chanyeol, por não ter me levado a sério quando disse que iria de Uber, e ter me impedido de fazê-lo. Entretanto, fui incapaz de contra argumentar, assumindo completamente uma culpa que não me concernia . Era incrível, sobrenatural até, a forma em que a proximidade de Park fazia com que meu cérebro entrasse em curto-circuito. Tudo ficava em branco, e me sentia incapaz de pensar e raciocinar corretamente por alguns segundos. Meu coração estava acelerado no peito. Repeti a mim mesmo que era a adrenalina do momento.

Afinal, toda aquela história de como separar KaiSoo tinha a ver com minha dignidade, como Luhan repetira uma e outra vez. Estávamos trabalhando para destruir um relacionamento que, aparentemente, era perfeito. Acredito que fosse natural me sentir nervoso e ansioso, à espera do desconhecido que estava por vir. Eu, um menino tão bom, menino de Deus, o colírio dos olhos de todas as sogras, agindo de má fé para destruir um sentimento tão lindo como o amor. Estava arrependido? Não. Duvidoso? Talvez, e devia ser isso que me deixava com os nervos à flor da pele, pensando e reparando em Park mais do que eu devia.

Convenci-me disso, tentando inutilmente não pensar naquela proximidade, em seu perfume ou na forma em que as pontas dos meus dedos formigavam para se enfiarem por baixo da blusa de linho e sentirem a maciez de sua pele. Aquela noite, quando nos beijamos (ou foi ele que me beijou? Ou eu imaginei tudo?) eu não havia o tocando, porque quando tomei coragem ele se afastou, e me espantava a crescente necessidade de fazê-lo. Já a lembrança daquele dia na livraria era vívida em minhas memórias. Ele quisera, me instigara a tocá-lo. E agora havia uma parte dentro de mim, uma bem grande e dominante, que desejava... Mais que isso: que ansiava com desespero tocá-lo uma vez mais. Dessa vez, tocá-lo de verdade.

Tentei, em vão, me concentrar em qualquer outra coisa, prender a respiração e desviar o olhar para qualquer coisa que não fosse Chanyeol. No entanto, isso era tão impossível quanto passar uma semana sem beber água. Era como se Park fosse um ímã gigantesco e eu um pobre e fragilizado metal, atraído uma e outra vez em sua direção. Sempre foi assim? Acho que não. Tenho certeza de que não foi assim antes e nem depois do antes. Naquele tempo, eu tinha uma queda por Chanyeol, algo banal e corriqueiro – acontece com todo adolescente que fica encarando em demasia a beleza de alguém –, eu era só um pirralho encantado por alguém bonito, que estropeou tudo quando o beijou em um rompante de confusão mental. Porém, eu tinha certeza de que nunca fora tão forte. Naquela época, eu ria, o olhava e desviava o olhar com a mesma facilidade que desviamos de um buraco no chão.

Não era nada como isso.

Baekhyun — os dedos de Chanyeol estalaram frente aos meus olhos. Pisquei aturdido e olhei ao redor. O que havia acontecido? — Céus! Achei que tivesse sido abduzido — suspirou ele com exasperação.

Agora havia dois capacetes encaixados em seus braços, reparei. Não sabia dizer qual foi o momento exato em que ele o tirou. Merda! Eu havia entrado em transe enquanto pensava em Chanyeol? Sério isso? O simples pensamento fez um onda de descontentamento percorrer meu corpo. Não, não, não! Foco, Baekhyun. Foco! Bati o pé no chão e me forcei a lembrar do porque de estarmos ali...

 Por quê estávamos ali mesmo?

Baekhyun. Que bicho te picou? Presta atenção. — gritou Park, me encarando com aquela típica expressão de quem já está sem paciência com uma criança. Me senti intimidado, mas não me movi. Ele suspirou, afastando-se da Bobber (quando ele se aproximou dela?), depois de encaixar os capacetes na traseira da moto, para se aproximar de mim.

— Vá para o inferno — falei apenas, porque era a primeira coisa que me veio à cabeça.

Ele me olhou, rindo de canto de lábios. Kyungsoo, Kyungsoo, Kyungsoo... Repetir, cantei, gritei, mentalmente. Kyungsoo!

— Já estamos atrasados. Céus! Ainda tem a audácia de me chamar de babaca — sem dizer coisa alguma, Chanyeol tomou minha mão entre a sua e me arrastou para dentro do cinema.

Tentei não ser consciente desse toque, não pensar que a mão de Park, apesar de grande e monstruosa, era delicada e suave ao meu toque. É isso foi inútil. Fiquei pensando e me perguntando se ela tinha esse mesmo toque aveludado ao percorrer um corpo, e meu coração doeu quando me dei conta de que Jongin já tinha sido alvo daquilo. O amargor em minha boca com a conclusão fez minha respiração acelerar. O que é isso? Sem poder evitar, puxei minha mão rispidamente e a afastei da dele, protegendo-a junto ao meu corpo. Chanyeol parou, e me olhou de forma inquisitiva.


— Vou pegar a pipoca — respondi, dando de ombro. Acho que minha voz soou fúnebre e séria demais para o tom zombeteiro que eu sempre usava com ele. Então, forcei a mim mesmo a sorrir e o encarei. — Para um plano como esse, definitivamente vamos precisar de muita, muita pipoca.

Não esperei para ver sua resposta, apenas caminhei apressado na direção da bomboniere, repetindo uma e outra e outra vez que meu coração acelerado era por Kyungsoo, porque dentro daquela sala eu teria que vê-lo beijar uma pessoa que não era eu e isso era cruel. Quem gosta de ver seu único e absoluto amor  com outra pessoa? Pois é, ninguém.

Enquanto esperava meu pedido ficar pronto, olhei para Chanyeol. Havia uma moça de cabelo rosa rindo contida para ele, gesticulando e escondendo os lábios com as mãos, como se estivesse envergonhada. Ele estava com o piercing da língua no canto dos lábios. Flertando. Argh! Por que era tão fácil para ele? Desviei o olhar quando ele tocou o braço dela, em um carinho sutil.

— Moça — chamei. A atendente me olhou. — Por favor, quero o maior balde de pipoca que tiver aí.

Por puro reflexo de frustração, peguei um balde grande de pipoca demais, que escorregava por meus braços, e um corpo enorme de refrigerante. Comer certamente iria aliviar a algazarra em minha cabeça. O Babaca n°2 me olhou com estranheza a me ver se aproximar, e, como resposta, dei de ombros, entrando na sala escura. Queria perguntar se eles tinham marcado, se depois dali ele iria transar com ela. Aquilo iria distraí-lo do plano, quis dizer. Obviamente não o fiz. Se o fizesse teria que explicar outras coisas. Definitivamente, não eu não queria explicar para Chanyeol todas as dúvidas surfando em minha mente, nem mencionar meu coração desembestado, que estava batendo como se estivesse maratonando para o Mundial de atletismo.

Quando nos sentamos, procurei com os olhos o nosso alvo. Eles estavam na fileira abaixo da gente. Franzi o cenho, me perguntando como Park pudera saber esse detalhe. Não era coincidência. Não tinha como existir coincidência de tal tamanho, principalmente quando a sala estava parcialmente cheia. Quis perguntar, porque essa dúvida misturou-se com a do nosso primeiro encontro e até mesmo com a festa, quando ele aparecera misteriosamente, embora eu suspeitasse de que ele e Kyungsoo fossem amigos. O que não ajudava em nada! Como podia um amigo fazer isso?!

Está tudo bem? — Sussurrou Chanyeol em meu ouvido. A proximidade repentina me assustou. Abri a boca para soltar uma exclamação, uma maldição, e ele a tapou com sua mão, empurrando minha cabeça para baixo rapidamente, fazendo meu grito ser apenas um suspirar sôfrego.

O que foi, Soo? — Ouvi Jongin perguntar para o namorado. Meu coração acelerou. Vamos ser descobertos, vamos ser descobertos! Merda, como vou explicar isso?

Achei que tivesse ouvido uma voz conhecida — respondeu o amor da minha vida. — Do Baekhyun.

Aquele é o exato segundo onde eu deveria ter meu momento Marianne, sonhador e ilusório, imaginando um futuro onde me casaria com Soo e teríamos dois filhos e um cachorro. Ele havia se lembrado de mim, e ouvido minha voz. Isso era do caralho! Era meu Crush! Meu Crush único e soberano. Praticamente zerei a vida com aquele pequeno detalhe. Podia flutuar, como Conde Byun o fizera nos braços do Marquês.

 Entretanto, nada daquilo aconteceu. Eu estava eufórico, sim, mas não por aquele motivo. Meu corpo estava petrificado com aquela mão em minha boca, um toque gentil sobre mim. Chanyeol não fez menção de se afastar mesmo quando KaiSoo já havia voltado a se concentrar no filme, os minutos já havia transcorrido. A pessoa ao lado dele me olhou de soslaio, como se perguntasse o que demônios estávamos fazendo. De fato, nem eu sabia. O que demônios estávamos fazendo? Queria perguntar, só que com a mão dele em minha boca era impossível fazê-lo. Por isso, e foi somente por isso, que fiz a primeira coisa que passou em minha cabeça. Tirei a língua para fora e a deslizei pela palma de Park, entre seus dedos, sentindo um gosto salgado explodir em minhas papilas gustativas.

A mandíbula dele ficou marcada, ouvi seus dentes rangerem dentro da boca. Seus olhos pareciam ferozes, famintos sobre mim. Por um lapso de segundo achei que ele fosse salta sobre mim. Não o fez.  Ele suspirou com força e afastou-se, sem dizer coisa alguma enquanto endireitava-se na cadeira. Parecia que meu coração ia sair pela boca, correr pela sala fugir de mim.

Apesar da sala escura, alguma coisa em seu olhar me estremeceu, me fez engolir em seco. Era como se seus olhos fossem a correnteza de um rio, e tive medo de ser arrastada por ela. Endireitei-me na poltrona também, e disse a primeira coisa que passou por minha cabeça;

— Vá pro inferno, Babaca — cuspi irritado. Não sei se era irritação com Park ou comigo por me preocupar com Park e reagir a ele. — Não saia tapando a boca das pessoas com essa sua mão grande e fedida — apesar de estar fervendo por dentro, tive o cuidado de manter minha voz baixa, audível o suficiente para ele.

Quinta — respondeu ele somente, pegando um punhado de pipoca e enfiando na boca.

Quê? — não entendi. Na verdade, havia muitas coisas que eu não entendia.

Park parecia relaxado. Ele havia tirado a jaqueta jeans, ficando somente com a blusa de linho. O tecido fino se apegava nos lugares certos, acentuando os bíceps e tríceps e o peito bem definido. Baixo a luz quase inexistente da sala ele era ainda mais sexy, convidativo. Maneei a cabeça. Não foi eu quem pensou isso! Não tem como ser! Chanyeol me encarou, sorrindo, e bateu o dedo em minha testa.

Com essa, é a quinta vez que você me manda para inferno — ele desviou os olhos pra mim, rindo com o canto dos lábios. As argolas em sua orelha brilhavam.— Desse jeito, vou acabar mesmo indo, e te levando para conhecer o capeta já que faz tanta propaganda da casa dele.

— Vai se foder — praguejei, enfiando a mão no balde de pipoca e enchendo a boca. Senti minhas bochechas quentes, as palavras de Chanyeol ecoando em meus ouvidos, fazendo meu peito inflar. Fiz o possível para me concentrar no filme ou no casal a frente, que era meu alvo. Sem distrações, sem distrações!

O filme na tela era um clássico do estúdio Ghibli: Sussurros do Coração. Já havia assistido aquele filme um milhão de vezes, e não cansava. O cinema era famoso por suas sessões de filme lançados há mais de uma década, quando o cinema era acessível apenas para um pequeníssimo e seleto grupo de pessoas. Era minha primeira vez ali. Se fosse sincero, acho que nunca havia ouvido falar daquele lugar. Ele ficava bem afastado, praticamente do outro lado da cidade, e em um lugar bem escondido. Até me espantei com o fato de a sessão estar tão lotada. Havia pouquíssimas cadeiras vazias.

Luhan e eu não tínhamos o hábito de frequentar cinema – sempre preferimos ficar em casa, nos entupindo de todo tipo de bobagem assistindo filme em streaming. Normalmente, só o fazíamos quando ia estrear um filme muito emocionante e esperado por algum de nós. Na maioria das vezes, eram filmes da Disney. Não os de heróis, emocionantes e impactantes, recordistas em bilheteria. Nada disso. Eram os animados, destinados às crianças de todas as idades. Era engraçado estar em uma sala lotada de crianças. Fazia com que eu me sentisse uma também. Lu se incomodava no início, porque, diferente de mim, ele não gostava tanto de animações. Mas com o tempo se acostumou, embora eu não pudesse dizer que era a área favorita dele.

Animações sempre foram minha praia, minha zona de conforto e minha maior paixão. Quando se tratava de livros, romances estava no topo. Mas tratando-se de filme, eu não suportava romance cinematográfico. Eram genéricos e pouco surpreendentes. Sempre tinham o mesmo enredo, e cenas típicas e previsíveis. Não posso nem comentar das adaptações. Apestam. Deixam-me com sono e irritação. Já com Thriller, era pelo simples fato de os filmes serem incapazes e ineficazes na tarefa de transmitir o medo e a tensão contida nas páginas dos livros. Eram mórbidos e pouco atrativos. Por isso, me apeguei às animações.

Eu gostava mesmo era dos universos fantásticos, e dos gráficos fofos e convidativos, com personagens carismáticos que nos marcavam para toda a vida dos desenhos animados. Como o Pororo, que morava em meu coração desde sempre. Inconscientemente, coloquei a mão no bolso, tocando minha lapiseira. Eu nunca a deixava para trás. Era mais do que o desenho e o amor que eu sentia por ele. Era um dos únicos pedaços do meu pai que ficou para trás. Talvez minha paixão por animações tivesse a ver com a criança que fui um dia. Papai sempre me levava ao cinema, mesmo que soubesse que eu iria chorar assim que as luzes se apagassem, e ele teria perdido seu dinheiro por nada.

Uma onda de melancolia invadiu meu peito enquanto eu encarava a tela sem de fato prestar atenção nela. Onde ele estava? Em anos, papai nunca entrara em contato. Nunca mandara uma mensagem ou me procuraram para saber como estava. Ao menos não que eu soubesse. Queria que ele o fizesse, porque assim eu poderia perguntar por que ele foi embora, porque me abandonou sem nem mesmo dizer adeus, uma pergunta que me seguia todos os dias, pairando sobre minha cabeça como um chapéu que visto todas as manhãs.

 Eu amava o Senhor Jun, o novo pai, o que me amou e cuidou de mim, que me deu a oportunidade de amar livros e fez a mamãe novamente E me sentia injusto por pensar tanto no papai. Apesar de ele ser pai do idiota de Suho, eu também agradecia por isso. Suho era o irmão que eu nunca poderia ter se mamãe tivesse ficado sozinha, e, apesar de ser chato e irritante e um babaca, eu o amava. No entanto, uma pequena parte, uma parte minúscula, mas muito forte, dentro de mim queria saber sobre o papai.

De repente, senti minha cabeça ser forçada para baixo. Park abaixou-se ao meu lado, sinalizando para que eu ficasse em silêncio. Franzi o cenho, sem entender o que estava acontecendo. Ouvi uma movimentação na poltrona da frente, um farfalhar de roupas.

De onde veio essa pipoca? — Sussurrou Soo, com um tom de confusão na voz.

Não sei — foi a resposta seca de Jongin.

Achei a situação muito engraçada. Tive de me segurar para não cair na gargalhada. Aquilo era ser ruim? Achar graça na desgraça alheia? Se fosse, eu era um ser humano muito, muito cruel. Olhei para Chanyeol, e ele sorria em minha direção. Um sorriso muito bonito e sincero, que deixava à vista uma fileira de dentes brancos e bem alinhado. Não havia nem um resquício de ironia ou sarcasmo. Era apenas o Park Chanyeol de anos atrás, sem a pinta de menino mau. Meu sorriso morreu à medida que meu coração acelerou. Achá-lo bonito, atraente, sexy... Essas coisas não fazia parte da minha vida, não mais!

Desviei o olhar, e esperamos alguns minutos e nos ajeitamos novamente. A mulher às costas de Park fez uma careta em minha direção. A ignorei, e me forcei a prestar atenção, não no filme, mas no casal a minha frente. Era por KaiSoo que estávamos ali. Porque eu amava Kyungsoo, e Chanyeol queria o Kai novamente. Não era para que eu ficasse remoendo o passado, pensando em meu verdadeiro pai ou no Chanyeol gentil do passado. Estávamos ali em busca de nossos verdadeiros amores. Tinha que manter o foco. Olhei para frente, notando o rosto de Kai caído delicadamente sobre o ombro de Soo.

Eles ficavam bem juntos. Muito, muito bem. Bem até demais, eu diria. Assim como Jongin e Chanyeol uma vez já formaram um lindo casal. Quando fora mesmo? Acho que menos de um ano. Não me lembro bem, mas lembro-me perfeitamente dos dois juntos, rindo intimamente, de mãos dadas, beijando-se e se agarrando pela livraria ou na cafeteria. Suho tirava sarro, e eu me afastava, praguejando. Pensar nisso fez meu estômago embrulhar, enfiei um punhado de pipoca na boca e joguei outro na direção de KaiSoo, quando Soo virou-se. Tinha certeza de que iam se beijar, e não é que estivesse incomodado ou algo do tipo, era mais indiferença. O problema é que senti raiva, e quis descontá-la em alguém.

Segurei Park pela nuca, abaixando-nos. Minha respiração estava audível, porque eu estava nervoso, e as pontas dos meus dedos formigavam, ansiosas. Queria deslizar minhas mãos pelas costas de Chanyeol, sentir a tez bronzeada e dedilhar as marcas sobre sua pele. Isso era ridículo. Era Chanyeol. Park Chanyeol. O Babaca número dois. O melhor amigo do Suho. O cara que deveria ter apenas uma ervilha no lugar de cérebro. Não era saudável ter esses pensamentos.

Nosso cinema foi basicamente isso. Tacar pipoca em KaiSoo sempre que eles ficavam mais carinhosos e melosos a nossa frente e nos abaixar para que não nos vissem. Como a sessão tinha algumas crianças, provavelmente eles pensavam que vinha delas. A mulher às costas de Park só me olhava feio, mas não dizia nada. Começou a se tornar engraçado pelo simples fato de que me distraia. Nós esvaziamos rapidamente o enorme balde de pipoca, e rimos cúmplices quando Kim ou Do cochichavam, sem saber de fato de onde vinha aquela chuva de milho vestido de noiva. Era divertido, apesar de cruel.

Quais as possibilidades de Kyungsoo querer algo comigo sabendo que manipulei um término de namoro? Ri com o pensamento. Era muita audácia achar que aquilo realmente culminaria na conclusão de nosso objetivo. Acho que no fundo nem sabíamos o que de fato estávamos fazendo. Tinha aquele manual idiota de Park, mas tudo o que ele escrevera dependia exclusivamente de KaiSoo, dos lugares que frequentaram e da gente ficar sabendo disso com tempo de sobra para estarmos lá também. Suspirei. A pipoca acabou, e tive que presenciar uma sessão de beijos compartilhadas pelo casal. Argh! Traga-me Terra! Na tela, Shizuku estava cantando sua versão de Take Me Home, Country Roads, fazendo sua voz esganiçada, mas confortável, soar ávida pelos autofalantes do lugar.

Eu amava aquele filme pela sensação de acolhimento que ele trazia para meu peito. E sempre que o assistia, me perguntava se duas pessoas podiam se amara assim tão repentina e abruptamente, mais com intensidade e siceridade. Shizuku passou a se encantar por Seiji através de um mero cartão de Biblioteca, e quando se conheceram pessoalmente o sentimento só aflorou. Mesmo depois de ele ir embora, ela o amou. E só de lembrar a cena final, sinto meu coração se aquecer. Pessoas jurando amor eterno... Ri com o pensamento. Minhas experiências amorosas não eram vastas nem muitas e, dificilmente, podem de fato ser catalogadas como amorosas. Era mais como beijos, gemidos e sexo, descompromisso total. Não tinha essa cumplicidade compartilhada por Kai e Kyungsoo, que estavam trocando selinhos amorosos às minhas fuças.

Suspirei, mais por cólera do que decepção. Enfiei a mão no balde. Meus dedos encontraram o fundo vazio, e lembrei que a pipoca acabara há uns bons minutos. Sério, como alguém paga cinema para ficar se beijando? Não entendo. Não é como se fosse barato, não era. Além disso, era desconfortável. Estar sentado naquela cadeira já era horrível, imagine ter que se inclinar para beijar alguém! E, sobre todas as coisas, como podiam ignorar esse hino do Studio Ghibli, enchendo a sala de cores e vida, com suas cenas inspiradoras e profundas? Inclinei-me na direção do copo. Se eu não podia interromper o casal à frente, iria refrescar as ideias pelo menos. Mantive minha atenção na tela, fazendo bico com os lábios para alcançar o canudo.

Não foi ele que minha boca encontrou.

Senti um toque macio contra meus lábios, um toque sutil que deslizou por todo meu corpo, eletrizando-o. Desviei a atenção, sentindo o coração acelerar em antecipação. Eu conhecia aquele toque. Park estava a um centímetro de mim, na verdade eu duvidava que houvesse alguma distância entre nós. Meus lábios secaram. Engoli em seco. Tinha me esquecido completamente dele. Entre abaixadas e risadas, quando o silêncio prevaleceu e a ação terminou, me esqueci de que o babaca Número 2 estava bem ali, e achei aquela uma péssima maneira de lembrar.

Sem poder evitar, passei a língua pela superfície dos lábios, umedecendo-os, e só então me dei conta do que aconteceu. Meus olhos arregalaram. Teria gritado se uma parte da minha mente não tivesse lembrado onde estávamos. Contive-me, sentindo o estomago retorcer. Àquela distância, notei pela primeira vez, apesar dos anos que já levava conhecendo-o, que havia um detalhe azulado na pupila castanha. Talvez o melhor fosse me afastar, eu sabia disso.

Oras era Chanyeol. Chanyeol era o honrado, carinhosamente apelidado Babaca Número 2. Ele não possuía neurônios. Ia à faculdade foder novinhas. Falava mais bobagem do que podia calcular e flertava com desconhecidas na porta do cinema. No mais, também era o idiota que me beijara e que rejeitara meu beijo. Definitivamente, eu devia me afastar, principalmente quando sentia o coração bater tão acelerado no peito.

 Mas não o fiz. Não porque quisesse estar ali, naquela situação, morrendo. Era algo no olhar de Chanyeol... Era aquele azul... Algo intenso e profundo. Era aquela correnteza. Aquele mar aberto.

Descuidei-me.

Caí.

Afoguei-me.

—Está querendo me beijar, Byun? — Ele sorriu, tirando aquele piercing obsceno para fora. Sua voz me despertou com um arrepio que percorreu meu corpo. — Sabe que não precisa se conter. — A mão de Park tocou meu queixo, seu sorriso sumiu. Ele ficou sério. Deus, nunca acreditei no Senhor, mas meu coração está parando justo agora! Santa Elinor, racional como vós, intervenha por mim. — Pede, que eu te beijo, Baekhyun — o tom de sua voz decaiu drasticamente, tornando-se um sussurro rouco e sedutor.

Meu coração disparou. Eu queria beijá-lo, queria mesmo. De verdade. Como não me lembro de já ter querido qualquer outra coisa em minha vida. Como não me lembro de já ter querido beijar Kyungsoo, quem estava ali, naquele momento, beijando o Kai. E esse fato, o pequeno fato de querer um beijo de Park me desesperou. Fiquei desesperado, sem saber o que fazer com aquele novo sentimento.

Minha respiração ficou pesada. Minhas mãos suaram frio. As gotas de suor nasciam em minha testa e deslizavam pelo contorno do meu rosto, perdendo-se atrás da camisa que eu usava. Eu não sabia o que fazer, então fiz a primeira coisa que se passou por minha cabeça, que não passava de um quadro em branco. Peguei o copo de refrigerante e o verti sobre as cabeças de Kai e Kyungsoo.

Oh, merda!

 

 

 


Notas Finais


Primeiro, eu estou muito feliz. Sério! Sempre que leio e releio os comentários me sino tão feliz. Enquanto os respondo agora, penso no quão sortuda sou por ter o privilégio de ler palavras tão lindas destinada a mim. Não sei como posso agradecê-los de forma apropriada e à altura, por isso disse a mim mesma que o minimo que posso fazer é voltar aqui uma e outra vez, atualizando essa história e outras. ♥

Depois, peço desculpa pela demora ou pelos erros gramaticais do capítulo. Fim de ano é corrido por muitos motivos, e não quero aborrecê-los com isso. O importante é que saibam que embora eu demore, jamais vou abandonar alguma de minhas fics.

E, uma vez mais, obrigada por estarem aqui comigo, apoiando meu trabalho e me fazendo sorrir, ♥

PS: Estou terminando de responder os comentários anteriores, chorando novamente como uma camela desmamada. ♥

LEIAM: O Beijo da Bruxa - https://www.spiritfanfiction.com/historia/o-beijo-da-bruxa-18316755 (HunHan)
Mulligans - https://www.spiritfanfiction.com/historia/mulligans-5263742 (HunHan)
Outra Vez - https://www.spiritfanfiction.com/historia/outra-vez-16672820 (HunHan)
Naufrágos - https://www.spiritfanfiction.com/historia/naufragos-15573691 (ChanBaek)


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