1. Spirit Fanfics >
  2. Febre da Carne, Convulsão da Alma >
  3. O reencontro

História Febre da Carne, Convulsão da Alma - Capítulo 3


Escrita por:


Notas do Autor


Não fiquei totalmente satisfeita com o capítulo 2, então tive um "surto" de criatividade e escrevi o 3. Eu também estava ansiosa com a chegada do Naruto... Enfim, espero que gostem.

Capítulo 3 - O reencontro


O quarto em que Sasuke se encontrava estava muito claro, incomodava os olhos, e a ambientação exageradamente branca só piorava. O excesso de rodopsina ainda não havia sido degradado, para que sua visão acostumasse com a luz. No braço esquerdo, um pouco acima da marca que a porcelana deixou, havia uma agulha presa por um curativo, que se conectava, em sua outra extremidade, a um tubo transparente, responsável por conduzir a solução contida em uma bolsa pendurada ao alto — provavelmente soro — ao corpo do rapaz. Tinha desmaiado por desidratação e aumento da temperatura corporal, efeitos colaterais do princípio ativo do ecstasy, a metilenodioximetanfetamina. 

    — Não estou surpreso, Sasuke. Mas, porra! Você sai, e a única coisa que sempre te peço é para ter cuidado consigo mesmo, para não se meter em merda, e você faz totalmente o oposto. Em que diabos você estava pensando? — Bradou Itachi, quando percebeu que o irmão havia acordado. A raiva na voz dele era bem mais a tradução de sua preocupação, do que uma repreensão. 

    —  Itachi, o que aconteceu com Fugaku naquele dia? 

    —  O quê? 

    —  Aquele dia em que… —  Sasuke não conseguiu terminar a frase, olhou para a cicatriz, depois para o irmão, e o semblante confuso de Itachi, mas ainda duro, não parecia um convite para aquela conversa. Mas, a cena daquele dia não saia de sua cabeça.

    Antes que o Uchiha mais velho pudesse dizer qualquer coisa, Sasuke lembrou-se de que a última coisa que havia visto antes de ficar inconsciente fora o rosto de Naruto. O jovem tinha um sorriso complacente estampado, antes de Sasuke cair em seus braços. 

    —  Naruto! Itachi, onde está o Naruto?

    —  Ele foi para casa, ou melhor, para um hotel. Eu disse que cuidaria de você e pedi para que ele acompanhasse Suigetsu, antes de ir embora, para que aquele garoto estúpido não desse trabalho também. 

    —  Qual hotel? E por que ele está aqui? —  Sasuke começou a ficar eufórico de novo, claramente ainda com rastros de metilenodioximetanfetamina no corpo. A droga, aliada a emoção de rever o amigo, faziam com que seu corpo reagisse aos sentimentos de forma exagerada e incontrolável. 

    — Sasuke, entendo que ver o Naruto novamente tenha mexido com suas emoções, mas, agora, você precisa se acalmar, ou não vai sair daqui tão cedo. 

    — Não, Itachi, você não entende. Responda-me! Onde ele está? 

    — Espere por sua alta. Você não está em posição de exigir coisa alguma de mim. — Itachi disse sem demonstrar uma expressão sequer, ainda sim, o rigor na sua voz deixava clara a sua autoridade. O irmão, entretanto, sabia o que o Uzumaki significava para o caçula. — Eu não me lembro do nome do lugar onde ele se hospedou, mas Naruto vai te ver, ele veio para isso. Disse para ele que esperasse você voltar para casa, para que pudessem conversar em circunstâncias melhores, e para que você não estragasse as coisas com ele, de novo. 

    — Como ele sabia onde eu estava? 

    — Não sei te responder isso. 

    Sasuke só queria ir para casa, mesmo sabendo que conversas complicadas aguardavam-o, tanto com seu irmão, quanto com Naruto. 

    Itachi mentiu sobre algumas coisas no hospital, para que o irmão não tivesse problemas com a polícia. Era um bom bioquímico, e, por isso, distorceu as informações sobre o que Sasuke havia consumido naquela noite. Só soube do ecstasy por ter ameaçado Suigetsu, até que ele lhe contasse a verdade

    A internação não se estendeu mais que algumas horas, a entrada foi às 2:23 e, por volta das 11 da manhã, Sasuke já estava a caminho do apartamento, no Corolla de Itachi. Durante o trajeto, resolveu permanecer em silêncio, sua mente estava confusa demais para que pudesse raciocinar em uma conversa com o irmão, que sempre era bastante incisivo e intimidador nos seus diálogos. Era quase como se Itachi soubesse as palavras exatas que deixavam o Uchiha mais novo desconfortável, sem respostas. Conversar com ele naquele momento não seria produtivo, além disso, eles teriam muito tempo para falar sobre Fugaku. Sasuke sempre se sentiu culpado por ter trazido tanta tristeza à família depois do acidente, no qual ganhou a cicatriz no braço esquerdo, paralelo ao osso ulna, um memorando eterno de sua infância conturbada. Ele sabia que Itachi havia feito algo contra seu pai naquele dia, mas nunca o contaram. Ele sabia que Mikoto também se sentia culpada, mas nunca mencionou o assunto com ela. Ele sabia que Konoha, depois daquele dia, passou a ter medo dos Uchiha e a julgar o seu irmão, mas nunca quis ouvir o que falavam sobre isso, ou nunca conseguiu. Foi por todas estas razões ocultas que Itachi mudara-se para Tokyo, bem como Sasuke, para fugirem das histórias. Mas, um passado mal resolvido não pode ser enterrado para sempre. 

    Naruto era a outra parte do passado de Sasuke, uma parte mais emergente, que estava esperando-o na portaria do prédio, depois de uma mensagem de Itachi. Ver, sóbrio, o rosto do amigo foi uma experiência bem melhor do que aquela vivenciada no Castelinho, ou, até mesmo, nos seus devaneios recentes. Os cabelos loiros de Naruto continuavam tão reluzentes como antes, embora mais curtos. O rapaz estava escorado no muro acinzentado que sustentava o portão da garagem de um lado e a porta principal do condomínio do outro. Seus olhos azuis pareceram brilhar quando viu Sasuke e o irmão sair do carro estacionado, do outro lado da rua. O Uchiha parecia abatido e sujo, mas seu semblante transformou-se ao encontrar os olhos do loiro em um misto de vergonha e alegria, um saudosismo difícil de não ser sentido. 

    Não houve abraço, ou lágrimas explicitas. A amizade dos dois sempre foi fácil, sem excessos e dramas, e parecia que nada havia mudado, mesmo depois de tudo o que Sasuke havia dito para Naruto, mesmo tendo se passado três anos. Era muito fácil gostar de Naruto, a sua inocência o colocava acima dos julgamentos direcionados aos irmãos Uchiha, ele não se importava com aparências. E parecia que ele também não pretendia julgar Sasuke pelo que ele o fez, mas, claro, estava ali por algum motivo. 

    — Por que agora? Por que assim, de repente? — Perguntou Sasuke, com a voz um pouco embargada. Era nada mais que um adolescente quando deixou o amigo, depois de assustá-lo com palavras carregadas de sentimentos acumulados, mas agora havia crescido, amadurecido, não tinha mais medo do que havia dentro de si em relação a Naruto, ou melhor, pensava que não. — Você é um idiota! Deveria socar-me a cara, não sorrir para mim, não é bem isso que mereço. 

    — Vamos para dentro? Acho que vai chover.¹ — Naruto disse em um tom baixo, com a voz embargada. A chuva a que ele se referia estava acontecendo dentro de si, não conseguia conter as lágrimas. Ele se sentia triste sim, pelas coisas terem terminado com Sasuke como terminou, mas estava tão feliz em vê-lo ali, não era mais capaz de segurar o choro. 

    Itachi já havia entrado alguns minutos antes dos garotos. Sasuke e Naruto pegaram o elevador, e as palavras entaladas em suas gargantas pareciam ficar cada vez mais pesadas, enquanto o cubículo subia contra a aceleração da gravidade até o quinto andar. Quando a porta do elevador abriu, os dois andaram, em silêncio, pelo corredor, até o apartamento 505. A porta se abria para uma pequena antessala, precedida pelo genkan², e se estendia em um corredor. Do lado direito encontrava-se a cozinha, pequena, com uma mesa de quatro lugares centralizada, fogão, pia, armários, tudo bem tradicional e arrumado de maneira minimalista, com uma paleta entre tons cinzas e azuis. As outras portas do lado oposto do corredor correspondiam ao quarto de Sasuke, seguido do de Itachi. O banheiro ficava ao lado da cozinha, e o fim do corredor se abria em uma enorme porta de vidro, dando acesso à varanda, que podia ser vista da antessala.  

    — Senti muito a sua falta, Sasuke. Achei que nunca mais íamos nos encontrar, você não atendia às minhas ligações, não respondia e-mails ou mensagens. Eu quase havia desistido, não estava nas minhas intenções procurar por você em Tokyo, não sabia se seria bem recebido. Porém, há mais ou menos um mês conheci Karin. 

    — Karin? É, isso não me surpreende tanto quanto deveria. — Disse Sasuke mais para si do que para Naruto, desviando o olhar. 

    Sasuke a conheceu na biblioteca da universidade, não se lembrava bem como, mas, com certeza, foi ela quem disse o primeiro “oi”. Karin tinha longos cabelos vermelhos, que caíam em ondas até a cintura. Era uma mulher muito bonita, tão bela quanto inteligente. Aos vinte anos já era técnica do laboratório de imunologia, onde Sasuke descobriu sua paixão por manusear pipetas e contar células, e onde despertou o coração de Karin. Quem diria, que a imunologia poderia ser tão romântica. O Uchiha gostava da presença da moça, mas tudo não passava de diversão para ele, ao contrário de Karin; mas ela aprendeu a usufruir dele, sem deixar que os sentimentos florescessem mais do que deveriam. Um ponto para a ruiva, que lidava de forma extraordinária com as adversidades do coração, bem diferente de Sasuke.

    — Imagino que não, ela é muito divertida. Conheci-a aqui em Tokyo, estava somente de passagem, resolvendo uns assuntos, quando me deparei com ela e um homem de cabelos platinados, conversando em um café, e aí ouvi seu nome. Achei que fosse apenas uma coincidência, mas não pude deixar de reparar e tentar ouvir sobre o que conversavam. Bem, a Karin percebeu que eu a olhava e, quando o rapaz saiu, ela veio falar comigo. 

    — Quais as chances de algo assim acontecer? 

    — Não sei, nunca fui bom em matemática. — Naruto sorriu sem graça, coçando a parte de trás da cabeça e olhando para o chão. — Mas, aconteceu. Estou aqui, parte por causa das coincidências, ou do destino, se preferir, e parte por esforço próprio. 

    — E, por que? 

    — Karin me disse que você falava de mim para Suigetsu, que hoje descobri ser o cara de cabelo platinado, e ele falava de mim para ela. A propósito, deveria escolher melhor as pessoas para quem conta seus segredos. 

    — Você não é um segredo, Naruto. — Sasuke ficou corado ao dizer isso em voz alta. 

    — Que bom saber disso. Mas, Sasu, não vim até aqui para te dar um ultimato ou para exigir explicações, vim porque estava com saudade, e sei que você também andou sentindo minha falta. Acha que podemos voltar ao que éramos antes?

    Sasuke queria responder que não, não podiam ser o que eram antes. Ver Naruto ali acendeu algo em seu interior, desenterrou um sentimento que pensou estar morto. Na verdade, durante os anos, Sasuke convenceu-se de que os desejos que nutria pelo amigo não passavam de febre da carne, de volúpia, de hormônios, talvez. Toda essa linha de pensamento estragou qualquer possibilidade de relacionamento que ele pudesse ter. Todas as pessoas que já passaram pelo seu quarto não eram mais que uma chama passageira, que ardia ferozmente no início, mas extinguia-se pela manhã. Com Karin não foi diferente, mesmo o Uchiha tendo adimrado-a como nunca antes tinha feito. Mas ele ignorava seus demônios, e, por ignorá-los, acabava os alimentando com seu medo de encarar a realidade. 

 


Notas Finais


¹ Referência a uma cena de Roy Mustang, personagem de Fullmetal Alchemist: Brotherhood.
² Entrada tradicional de casas japonesas, onde os sapatos são retirados.

Críticas, elogios, sugestões e correções são bem vindos. Comentem! (:


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...