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História Febre Noturna - Capítulo 3


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Capítulo 3 - Nem sonho, nem real


Cebola saiu da SNF pra calçada e foi envolvido pelo ar gelado. A rua estava praticamente deserta naquela hora. Deu uma olhada pra cima. O céu sempre parecia mais negro de madrugada. Sentiu um calafrio. Não conseguia ver nenhuma estrela de onde estava.

Seus amigos já tinham ido embora. Ele precisou ficar pra trás; Cascuda não gostava que ele andasse com o Cascão quando estivesse com a "mercadoria" do Toni, policiais poderiam parar os dois. Ele se ofereceu pra levar a parte da Denise com ele pra que ela pudesse voltar de carro com os outros. Perguntou-se se a Cascuda sabia que a Denise também era cliente do Toni. Deduziu que não, ela com certeza não ia mais querer dividir um apartamento com ela se descobrisse.

Talvez a Cascuda estivesse certa, talvez eles deveriam parar. Ele sempre se sentia... vazio depois. E havia sempre o risco de ser pego; policiais poderiam pará-lo sozinho. No momento, porém, tinha coisas mais urgentes com as quais se preocupar. Depois pensava nisso.

Colocou as mãos nos bolsos, procurando trocados. Devia ter o suficiente pra pegar um ônibus, com sorte até um táxi.

Acabou a procura e deu um suspiro.

Hoje era ônibus.

"Cebola?"

Ele assimilou a voz com um sobressalto.

Virou-se lentamente e precisou piscar algumas vezes pra se certificar de que não estava alucinando. Ele nem tinha usado nada naquela noite.

"Mônica?"

"É você mesmo!" ela exclamou, dando passos na direção dele.

"O que você está fazendo aqui!?"

Ele sorriu e andou pra encontrá-la no meio do caminho, mas assim que a distância entre os dois foi percorrida ele não sabia mais o que fazer e seguiu a deixa dela num abraço acanhado.

"Eu estou morando aqui perto com a minha tia!" ela respondeu. "Ela é costureira, estou aprendendo e trabalhando com ela."

À menção de costura ele olhou pra baixo, pro vestido dela, e o reconhecimento o atingiu como um choque pela segunda vez naquela noite.

"Eu vi você dançando lá dentro."

A frase saiu antes que ele pudesse impedi-la, mas ao ver a reação confusa dela, se apressou em completar:

"Mas não sabia que era você."

Ele olhou bem pra ela e se deu conta, aliviado, de que ela ainda parecia a mesma pessoa que ele havia conhecido. Os mesmos olhos, o mesmo sorriso, o mesmo cabelo curto, apesar do corte ter mudado um pouco, a mesma energia.

Sentiu uma pontada de saudade.

"Você está aqui sozinha?"

"Não, vim com a minha prima. Ela insistiu comigo por semanas pra vir com ela porque esse é o 'melhor lugar pra dançar na cidade.'"

Ele ajeitou o blazer com falsa arrogância.

"Como um conhecedor de 'lugares pra dançar na cidade,' posso dizer que sua prima tem bom gosto."

Mônica revirou os olhos, mas estava sorrindo.

"Eu gostei bastante. Só pensei que voltaríamos pra casa mais cedo, mas ela ta lá dentro ainda. Então vim tomar um ar."

"E o que ta achando da cidade? Lembro que você morou no Limoeiro a vida toda, deve ter sido um choque."

"Foi sim, mas no bom sentido. Eu gosto do agito e de ver gente diferente pra todo lado. Só fico um pouco perdida pra algumas coisas."

A pessoa mais segura e determinada que ele já havia conhecido, perdida? Isso era novo.

"Que coisas?"

"Todo mundo aqui sempre anda com pressa, to me adaptando ao ritmo ainda."

"É, se você não corre é atropelada."

"Exatamente! Mas o pior é não saber onde as coisas ficam e precisar pedir ajuda. Não gosto de ficar dependendo dos outros assim."

Ele se lembrava.

"Não consigo nem encontrar uma lavanderia mais barata, porque a que a minha tia frequenta não é pro meu bolso."

"Eu conheço uma," ele ofereceu "É a que eu e meu colega de apartamento usamos. Se quiser te levo lá."

Então pensou que ela acabaria pedindo o endereço pra ir sozinha de táxi ou procurar num mapa.

"Não vai te atrapalhar?"

"Nem um pouco, eu preciso ir pra lá amanhã depois do almoço mesmo."

Na verdade era o Cascão, o único com carro e carteira de motorista, o responsável por levar as roupas deles pra lavanderia, mas isso não vinha ao caso.

"Como a gente se encontra?"

"Sua tia tem telefone?"

Mônica tirou uma caneta da bolsa.

"Você tem papel?"

Ele tateou o blazer, tentando se lembrar.

"Não tenho."

Ele a observou considerar  o problema por dois segundos e ter uma ideia.

"Vou anotar na sua mão," ela resolveu, e segurou o pulso dele.

Cebola sentiu seu coração pular e engoliu em seco. O toque das mãos dela permanecia quente nas suas, apesar do vento gelado. Era fora da compreensão dele.

"Você salvou a minha vida, de verdade!" ela agradeceu.

Ele precisou pensar por uns momentos pra se lembrar pelo o que estava sendo agradecido.

"Mas me fale de você," ela pediu, "O que tem feito? Já vi que agora você é chique. Tem estudado, trabalhado?"

Esse era o tipo de assunto que o fazia querer bater em retirada.

"É complicado..."

Uma mulher chamou pela Mônica.

"É a minha prima, eu preciso ir. A gente se vê amanhã?"

"Com certeza."

Ela sorriu e tocou o braço dele.

"Foi bom te ver de novo."

"Bom te ver de novo também."

Ela começou a andar pra trás.

"Boa noite, Cebola."

"Boa noite, Mônica."

Ele a assistiu entrar num táxi e se afastar até sumir.

O ar pareceu mais gelado de repente.

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Os prédios se transformaram em casas, as casas em campos e os campos em florestas. São Paulo havia ficado pra trás, junto com tudo o que ele conhecia. Não saber o que o aguardava, o desconhecido, o deixava tenso.


Olhou pro lado, pra sua irmã. Ela estava tentando enfiar a mão inteira dentro da boca. Aos seis meses de idade, ela não sentia a mudança como ele. Ela provavelmente nem perceberia que haviam mudado de cidade.

Ele pegou no sono e acordou na frente de sua nova casa. Desafivelando o cinto do banquinho, ele pulou pra fora do carro e cambaleou pelo gramado, ainda não completamente desperto.

Os raios de sol do fim de tarde brilhavam por trás da casa, que de fora já era claramente bem maior do que o apartamento onde ele morava.

Talvez não seria tão ruim assim ter um quarto com o dobro do tamanho e só pra ele, que foi como seus pais o haviam convencido a entrar no carro. Isso e a ameaça de ficar um mês de castigo.

Ele ficou um tempo de pé no gramado olhando pra casa, sentindo que ainda não havia acordado e que aquela visão não era nem sonho, nem real. Se ele parasse de olhar, a casa poderia sumir.

A voz de sua mãe o chamando o puxou de volta à realidade.

Seus pais estavam conversando com um casal de estranhos.

"E esse é o nosso filho mais velho, Cebolinha," sua mãe dizia, "Ele tem seis anos."

"A Mônica acabou de fazer sete! Eles podem ser amigos!" disse a mulher estranha, ao mesmo tempo em que ele notou uma menina de vestido vermelho entre os adultos.

Ela se aproximou e disse oi.

Cebolinha olhou pros pés descalços dela na grama e pro coelho azul de pelúcia que ela segurava e decidiu que aquela menina era esquisita.

Então olhou pros olhos dela e pro sorriso que ela abriu e decidiu que tudo bem, ela poderia ser legal.

Foi quando o sorriso dela vacilou que ele percebeu que deveria dizer alguma coisa.

"Ta olhando o que?" ela foi mais rápida.

"S-seus dentes enolmes!"

Ele só conseguiu registrar o coelho azul colidindo com seu rosto, a dor e a grama amortecendo sua queda.

Ouviu os pais dela a repreendendo, afinal, não é assim que se recebe seu novo vizinho!

Mônica ainda olhava pra ele, possessa.

E ele decidiu que definitivamente gostava dela.

________________________


Cebola tinha os olhos fixos em seu ventilador de teto, mas seu pensamento estava longe.

Depois de tantos anos, ele ainda se lembrava daquele dia como se tivesse sido ontem. Não entendia como conseguia se lembrar de tanta coisa de sua infância e adolescência com nitidez, enquanto memórias recentes simplesmente não ficavam guardadas.

Ele fechou os olhos e tentou dormir, mas o sono não veio.


Notas Finais


Perdão pela demora, galera. To na correria, mas vou me esforçar pra ser regular!


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