História Feche a porta quando sair - Capítulo 38


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Alcoolismo, Boysxboys, Coroa, Coroação, Drama, Gay, Homofobia, Homossexualidade, Lgbt, Preconceito, Principe, Romancegay, Violencia, Yaoi
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Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ficção, Romance e Novela, Violência, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Estupro, Homossexualidade, Incesto, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 38 - Terá que guiá-la sozinho


 Noah

 Quando Ian chegou, eu já tinha me acomodado ali, tanto que já estava largado em sua cama com a minha camisa jogada no chão enquanto batia no travesseiro querendo que ele tivesse ao menos um terço do conforto que o meu tinha.

Assim que olhei para cima, me assustando com o barulho da porta foi que pude ver a rigidez em sua expressão, o desconforto.

Nada tirava da minha cabeça de que tinha algo muito errado com ele. Pelo visto a discussão foi ainda pior do que pensei.

— Ian? — tentei, a fim de arrancar qualquer reação dele.

Ele se sentou na cama e demorou um pouco para deitar ao meu lado. Nem ao menos tirou os sapatos, simplesmente ficou deitado ali e imóvel, encarando o teto como se todas as respostas do mundo estivessem lá.

— Tem como você me responder? — insisti, começando a ficar impaciente.

Ian continuou sem falar nada e franziu a testa como se um desespero tivesse se formando ali e ele tentasse conter tudo dentro de si. Fiquei um pouco bravo com isso porque eu não queria que ele ficasse guardando segredo e escondendo as coisas. Poxa, ele descobriu o segredo mais vergonhoso que eu tinha, o mínimo que ele podia fazer era compartilhar os seus também, desabafar. Ninguém aguentava carregar o mundo inteiro nas costas!

Quem sabe ele podia estar com raiva de mim e por isso não queria falar comigo, ou estava com nojo de mim. Era uma hipótese que me machucava, mas que não podia ser descartada porque era uma coisa bem compreensível.

Aos poucos, o rosto dele começou a mudar, como se uma nuvem negra tivesse pairando sobre a sua cabeça, sugando o sorriso que sempre admirei e dando espaço a uma careta estranha que despejou uma enxurrada de lágrimas que apenas me deixou sem reação.

Por alguns segundos eu não consegui fazer nada além de ficar apenas olhando o Ian se desmanchar em lágrimas, como se tudo dentro dele estivesse aprisionado por tanto tempo que chegou uma hora em que ele não conseguiu aguentar a barra, a represa arrebentou causando uma avalanche de dor que o fazia desmoronar diante de mim.

— Ei — murmurei, sentindo uma pontada aguda no peito. Da última vez que o vi chorar eu não tinha a mesma compaixão e o mesmo carinho que eu tinha por ele agora, então não fiquei surpreso com o fato de que suas lágrimas eram tão minhas quanto dele e eu só não achava isso estranho porque eu sabia que para o Ian era a mesma coisa, tanto que quando o meu avô morreu ele estava lá comigo sentindo uma dor que não deveria ser dele, até porque ele nunca tinha conhecido o meu avô de fato.

Chegando um pouco mais perto, eu o enlacei em meus braços como ele fazia comigo, deixei que apoiasse a cabeça em meu peito nu e me deixasse ser o seu suporte, a sua estrutura pela primeira vez na vida.

Ele sempre esteve ali para mim, o mínimo que eu podia fazer era oferecer o mesmo.

Ian retribuiu o meu abraço e me puxou para mais perto, cravando os dedos nas minhas costas, mas tomando o cuidado de não me machucar. Seu rosto estava enterrado em meu peito, como se eu fosse um travesseiro e ele quisesse sufocar um grito ou até mesmo mascarar a sua dor.

— Vai ficar tudo bem, Ian — sussurrei, acariciando aqueles cachinhos brilhantes e que balançavam no mesmo ritmo dos soluços incontroláveis de Ian. — Vai ficar tudo bem...

Não pedi mais explicações e nem o enchi de perguntas porque eu melhor do que ninguém sabia do poder que a minha mãe tinha sobre as pessoas, o quanto ela era boa em pisar nos outros e fazer com que se tornassem submissos a ela.

Abracei Ian mais forte, querendo de alguma forma ser mais útil, fazer por ele ao menos uma parcela do que ele fez por mim.

Era difícil isso, uma escolha muito complicada, mas que precisava ser feita porque não estava só me machucando e sim ferindo nós dois.

Doía escolher, doía ter que precisar escolher, porém Jasmim não ficaria brava se eu não lhe desse a chance de nascer e o reinado ficaria muito melhor sem mim para governar. Claro que passei anos me preparando para ser rei e ter herdeiros, mas isso foi antes de Ian entrar na minha vida, antes de eu ter noção do que era ser amado.

Amor...

Quase perdi o ar quando me dei conta de que essa palavra descrevia exatamente o que eu sentia e eu só não tinha notado isso porque eu ainda não sabia o real significado, a magnitude que aquela simples e sucinta palavra carregava.

E admito que fiquei mais do que feliz por ter finalmente entendido.

 

                                                               ***

Assim que acordei e não senti o calor do corpo de Ian junto ao meu, me levantei desesperado da cama ainda mais ao ver o quarto tão vazio. A única coisa que tinha ali além da mobília, era a minha camisa jogada no chão. Ian não estava mais lá e parecia ter levado tudo consigo sem deixar qualquer vestígio.

Abri a cortina, já sentindo meu coração sair pela boca e consegui ver um carro cinza meio estranho através da janela embaçada pela minha respiração. Para o meu alívio ou completo horror, Ian estava lá apoiado no veículo com os braços cruzados e parecendo um pouco impaciente também.

Com pressa, coloquei a minha camisa e tentei ignorar os olhares dos seguranças que não faziam nada além de cuidar da vida dos outros. Praticamente corri até o Ian, quase tropeçando no concreto um pouco esburacado da propriedade. Soltei um palavrão baixo e torci para que eu lembrasse de fazer uma reforma assim que virasse rei e logo depois lembrei da minha escolha final, na qual ser rei não fazia parte dela e fiz uma careta.

— Ian — chamei, um pouco ofegante. — O que você tá fazendo aqui fora?

Ele inclinou o queixo levemente e pude ver que seu maxilar tremia, fazendo com que seus dentes fizessem um barulho um pouco irritante.

— De quem é esse carro? — insisti, querendo que ele falasse comigo, respondesse qualquer uma das minhas perguntas.

— Do meu irmão — finalmente falou. Seu olhar era vazio, parecia que aquela época negra em que eu e Mel estávamos juntos tinha voltado. — Eu preciso falar com você.

— Então fala — Me repreendi assim que me aproximei dele com passos largos, eu não podia simplesmente agarrá-lo ali no meio de todo mundo, seria estranho e sem falar no escândalo que a minha mãe ou o meu pai fariam.

Senti nojo de mim por pensar assim, por dar mais atenção ao que os outros achavam do que o que eu achava e queria. Já passou da hora de eu parar de viver a mercê dos outros, se eu queria abraçar e beijar Ian era o que eu iria fazer e doa a quem doer.

Com o meu corpo ansiando por ele, passei meus braços ao redor da sua cintura, que era um pouco mais larga do que a minha. Nunca parei para pensar nas suas curvas acentuadas, que exalavam testosterona, porém ao mesmo tempo possuíam um toque feminino bem peculiar.

Pensar nisso me fazia ficar excitado e sem dúvida Ian notou isso, pois abaixou o olhar e ficou encarando o meu membro que crescia entre nós diante da nossa distância mínima. O meu Ian riria disso ou soltaria uma frasesinha maliciosa só para me deixar vermelho e mais constrangido, mas não o Ian que estava na minha frente, esse não demonstrou qualquer reação. Na verdade seu rosto parecia estar retorcido numa mistura de dor e angústia e aquilo me incomodou demais, porque eu sabia que ele não falaria comigo sobre isso, Ian não falava comigo sobre nada.

Eu nem sabia como eu consegui me apaixonar por alguém tão misterioso, que tinha tantos segredos, tantas facetas que eu jamais iria conhecer. Chegava ser estranho e ao mesmo tempo triste se apaixonar por alguém que você nunca conheceu.

É claro que eu conhecia Ian, só que esse medo dele de conversar, de desabafar fazia com que eu questionasse o tanto que eu o conhecia. Ele podia ser um criminoso procurado, um homem que colecionava cadáveres, que fazia as maiores atrocidades do mundo...

Ele podia ser qualquer coisa e isso me deixava muito assustado e mesmo assim eu não conseguia me sentir menos atraído por ele. Mesmo o conhecendo tão pouco eu sabia que eu o amava, tinha certeza disso e prometi a mim mesmo que não sentira mais vergonha e não colocaria mais a opinião dos outros antes de nós dois.

— Eu vou embora — pareceu uma eternidade quando ele falou e sacudi a cabeça assim que ouvi a sua afirmação, como se eu não tivesse entendido.

— Tá bom — soou mais como uma pergunta e pigarreei antes de falar, colando o corpo dele ao meu. — Eu já estava pensando nisso ontem — confessei, pensando na escolha crucial, que mudaria completamente a minha vida. Era difícil abrir mão daquilo que você sempre sonhou, mas eu tinha sete anos naquela época, outra mente e não sabia que iria conhecer um sonho ainda maior. — Eu escolho você, Ian. Sei que eu sempre quis ter uma filha, reinar e tudo mais. Só que nada disso valerá a pena se você não estiver ao meu lado para viver tudo isso comigo.

Era como se um peso estivesse saindo das minhas costas. Aquilo fez com que eu me sentisse aliviado. Eu e Ian iríamos embora, deixando tudo isso para trás e construiríamos uma vida juntos.

Ian parecia fazer força para não chorar e aquela não era a reação que eu esperava porque não eram lágrimas de alegria que ele estava prestes a soltar, mas sim lágrimas de dor. Aquilo o angustiava, incomodava e nunca senti tamanha rejeição na minha vida. Como ele ousava fazer essa cara para mim? Eu acabei de me declarar para ele, despejei tudo o que eu estava sentindo, o mínimo que ele podia fazer era me abraçar, me beijar e dizer o quanto me amava e queria ficar comigo também.

Mas ele não fez nenhuma dessas coisas, continuou ali parado como uma estátua me fitando com aqueles olhos vazios e não levantou um músculo para me abraçar, nem sequer afagar o meu rosto, demonstrar qualquer reação, qualquer ato de carinho por menor que fosse.

— Eu te amo, Ian — lamentei e isso o fez me empurrar um pouco de leve como se não suportasse mais me ouvir, como se aquelas palavras o machucassem. — Amo tanto...

— Eu vou embora sozinho — enfatizou, meneando a cabeça querendo que eu parasse de falar. — Nosso acordo acabou, nosso relacionamento acabou, você vai viver a sua vida, casar com quem quiser e será feliz.

— O quê? — soltei, escancarando a boca de tão chocado que estava. — Do que você tá falando? Eu escolhi você, idiota. Quero ficar com você, será que ficou surdo de uma hora para outra? Eu amo você, quer que eu desenhe? — Eu já estava surtando, não quis acreditar que ele tinha falado mesmo aquilo, levantado uma hipótese não absurda.

— Não precisa desenhar — foi só o que disse, sem emoção alguma no tom de voz. — Eu só não me importo, Noah.

Como não se importa? — indaguei, chocado. Ele tava merecendo um soco na cara, ninguém rejeitava um príncipe daquele jeito, ninguém me rejeitava daquele jeito!

Pensei na hipótese mais louca que consegui, qualquer explicação plausível para que ele estivesse agindo como um babaca.

— Deixa eu adivinhar — falei, pensando no carro que ele estava usando e na última pessoa que ele provavelmente deve ter falado: Kevin. O modo como aqueles dois estavam no meu quarto de hospital revelava muito mais do que eu podia ver, uma espécie de cumplicidade, como se ambos tivessem um acordo muito divertido e decidissem brincar comigo. — Foi tudo um acordo, não é? Fazer com que eu me apaixone por você e depois cair fora? Aposto que foi com Kevin, aquela carinha de bom moço nunca me convenceu.

— Noah... — Ian interviu, parecendo surpreso.

— Vamos brincar com os sentimentos do príncipe! — berrei, exaltado. Eu já não estava mais ligando para quem fosse ouvir meus gritos, queria que ele se sentisse tão mal quanto eu, que sentisse metade da dor que estava causando em mim com suas palavras. — Vamos fazê-lo sair do armário, vai ser tão divertido! — soltei uma risada irônica.

— Sim — confirmou para o meu horror, parecendo cansado. De inicio não quis entender o que ele disse, mas ele continuou falando com todas as letras para enfatizar aquilo. — Tudo não passou de um acordo entre Kevin e eu. Eu disse que o príncipe não passava de um viado enrustido e provei meu ponto.

— Então foi tudo uma farsa? — questionei, sentindo meus olhos marejarem diante das palavras afiadas que me atingiam de uma forma avassaladora. — Você nunca me amou?

— Amar? — ele soltou uma risada grotesca, que pareceu arranhar meus tímpanos, tamanho era o meu choque por conta daquele tom que parecia não pertencer ao Ian, porque ele nunca tinha falado comigo daquele jeito, nem mesmo quando nós brigávamos. — Vê se cresce, Noah — e me empurrou com mais força, fazendo com que eu quase caísse no chão, mas felizmente consegui recuperar o meu equilíbrio a tempo.

Concentrei-me no som de suas palavras, no peso delas.

Não havia amor, nunca houve...

De repente aquilo que pensei conhecer diluiu e desmoronou na mesma hora, era como se um prédio que demorei tanto tempo para construir, desabasse diante dos meus olhos. Apertei os olhos com força e mesmo quase perdendo o fôlego, lutando contra as lágrimas que queriam sair, ainda tive forças para dizer:

— Você prometeu que ia guiar para sempre a minha carruagem...

Isso o deixou desconsolável, pareceu que eu havia lhe dado um tiro e ele andou para trás a fim de se apoiar na porta do carro, ainda sem olhar para mim. Ian engoliu em seco e quando voltou a me encarar, deu para ver que já tinha se recomposto, pois aquela máscara da ignorância tinha voltado.

— Terá que guiá-la sozinho — falou, curto e grosso. — Ou arranjar alguém idiota o bastante para guiar para você.

— Ian... — choraminguei sentindo a dor da bofetada que foi aquela frase. Por que ele estava falando assim comigo? — O que foi que eu fiz?

— Nada, só quero que me deixe em paz.

— Isso não vai acontecer — cheguei mais perto dele, sacudindo a cabeça a fim de me livrar dessa cena horrível que desenrolava diante de mim. — Por favor, sabe o quanto eu gosto de você, o quanto eu quero você por perto.

— Para que, Noah? — grunhiu, entredentes. — Para entrar no seu quarto escondido? Ficar aguentando essas suas choradeiras diárias? O quanto você não consegue suportar o mundo? Dando uma de coitadinho? Quando você finalmente crescer, aí podemos conversar. Não vou perder meu tempo dando trela para uma criança — E então ele pegou aqueles malditos óculos escuros e escondeu a negritude de seus olhos com eles enquanto eu o encarava, meio chorando e meio chocado. — Passar bem — continuou, abrindo a porta e entrando no veículo sem olhar para trás.

Não consegui ver o carro dele indo embora, pois meus olhos estavam com tantas lágrimas que chegavam a embaçar a minha visão já turva.

Levei a mão ao peito assim que senti uma pontada aguda nele e notei tardiamente que era a dor do meu coração se despedaçando. 



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