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História Feel Love's Embrace - Capítulo 4


Escrita por:


Notas do Autor


Música: A vista daqui - Phill Veras

Capítulo 4 - Reticências


POV's Samantha Lambertini

Os primeiros meses passaram como um borrão, minha grade estava com aulas intensivas, Lica passava boa parte do dia no ateliê tendo aulas praticas de pintura e escultura. Nesse semestre estávamos com as grades de aula ridiculamente cheias que era raro a nossa turma conseguir encontrar um horário flexível para almoçar ou jantar juntos. Às vezes eu chegava da biblioteca e Lica já estava dormindo com a cabeça para fora da cama, quase caindo.

Nossa relação estava muito boa, era uma sincronia incrível e quase sempre tudo dava certo. Ela ainda me fazia ter vontade de correr desesperadamente com algumas coisas que falava, mas eu já tinha começado a aceitar meu destino. Gostava de Lica, mais do que uma colega de quarto poderia gostar. Lica continuava sendo Lica, me tratando do mesmo jeito paciente e atencioso de sempre, mas ela sabia que às vezes a atmosfera ficava incrivelmente pesada ao nosso redor.

Na primeira semana, ela confundiu quase todos os horários das aulas. Havia chegado tão tarde todos os dias sempre com uma pilha de livros novos, deixando os esparramados por todos os cantos. Ela saiu um ou dois dias com irmã, Clara era um amor de pessoa e tinha se mostrado uma excelente amiga. Eu limpei o quarto na primeira semana.

Na segunda semana, organizou melhor seu cronograma e saiu para comprar nossos cafés por um ou dois dias. Às vezes nos encontrávamos na biblioteca, ela se sentava ao meu lado e ficava lendo um livro enorme de alguma história da arte. Um dia consegui tomar café com ela no Doce Amargo, o que quase se tornou um desastre com Eliza me entregando com os bolinhos de creme. Ela acabou saindo com Tina e Ellen para tomar café enquanto eu trabalhava na entrega de um projeto acadêmico, na volta, me trouxe um pedaço de bolo de chocolate bem recheado. Lica limpou e trocou as roupas de cama na segunda.

-Trouxe um bolo pra você... Tina disse que era o seu preferido – resmungou sonolenta quando eu cheguei tarde, isso me fez sorrir.

-Obrigada, Lica, cê me salvou – me inclinei e beijei o monte de fios bagunçados, ela cheirava ao sabonete francês – Eu só vou tomar um banho rapidinho, comer e deitar.

-Te espero... –murmurou se ajeitando nas cobertas.

Ela dormiu antes que eu chegasse ao banheiro.

Na terceira e quarta semana, nossos horários não bateram pra nada. Ou eu saia muito cedo, ou Lica chegava muito tarde, tínhamos um monte de trabalhos para entregar. Ela comprou bolos e doces por alguns dias e deixava com algum bilhete na porta do frigobar. No meio de uma das semanas, ela comprou um caixa de bombom e deixou sobre a bancada com um enorme cartão que dizia:

Parabéns pela nota A no projeto, eu sabia que cê ia conseguir.

PS: Usei o seu condicionar, o meu acabou, vou ficar com seu cheiro em mim. Clara te mandou um beijo e pediu pra você mandar mensagem pra ela.

No dia seguinte comprei uma caixa de bolinho de creme pra ela e coloquei na geladeira sob os dizeres:

Pra agradecer os bombons do outro dia e para te parabenizar o empenho nas aulas de pintura.

PS: Peguei nossas roupas sujas e levei pra lavar. Tô com saudade das minhas aulas de pintura e de você.

 

Antes de sair, carreguei o cesto de roupas do nosso quarto para lavanderia do campus e disse que buscava depois do almoço. Quando cheguei, ela ainda não tinha voltado. Troquei a roupa de cama e limpei o quarto, tentei ler um livro e acabei dormindo.

Na quinta e sexta semana, eu consegui almoçar um dia com as meninas e Lica estava tão estressada que acabou presa no ateliê precisando entregar um trabalho de ultima hora. Clara comentou que a irmã passava mais tempo dentro daquele lugar do que com qualquer outro ser humano, nunca tinha visto Lica tão dedicada a algo como estava e que conversava mais com a irmã por mensagens do que conseguia por ligação.

Entre a sétima e oitava semana, passei na livraria da faculdade e comprei o primeiro livro da série Feios para ela. Era uma leitura meio adolescente, mas com uma reflexão profunda do que se considera bonito ou não. Cheguei com um pouco mais cedo aquele dia e lavei a louça da pia, limpei e organizei o quarto. Deixei o livro sobre a cama dela com um bilhete e tomei um banho e me enfiei de baixo das cobertas. Ela deixou uma caixa de cookies sobre a bancada na manhã seguinte.

No começo da nona semana eu tomei uma chuva horrível, quase que meus livros se molharam e a roupa ficou encharcada, e Lica precisou fazer um circuito de visita cultural na quarta e voltaria na sexta de noite. Ela me ligou antes da minha na primeira aula da manhã.

-Sammy, cê ia amar a biblioteca que tem aqui – a voz dela ainda era sonolenta – É enorme e cheia de luz.

-Manda uma foto pra eu ver – pedi vendo as pessoas entrarem na sala, apoiei o celular contra o ombro, minha cabeça começava a latejar – Minha aula vai começar, Lica.

-Vou tirar mais um cochilo – anunciou soltando um bocejo do outro lado da linha – Tô com saudades, mal conseguimos conversar.

-Sim, também com saudades – murmurei, um sorriso surgia no canto dos meus lábios.

-Quer jantar quando eu voltar? – ela perguntou rápido que saiu como “querjantarquandovoltar”, soltou um suspiro – Um encontro... se você quiser, se você estiver livre...

-Quero – respondi rápido demais, dei um tapa na minha própria testa o que fez a minha cabeça doer mais ainda – Preciso ir, se cuida.

 

-Preciso da sua ajuda – anunciei me sentando ao lado de Tina no refeitório na hora do almoço, era quarta e ela estava matando um tempo com a cara enfiada no tablet.

-Que cara é essa, Samantha? – perguntou bloqueando a tela – tá se sentindo bem?

-Aceitei jantar com a Lica – falei de uma vez arregalando os olhos e sentindo a minha cabeça reclamar – Preciso de um dorflex.

-Espera – Tina puxou meu rosto para olhar pra ela – Tipo um encontro?

-É, Tina, tipo um encontro – eu deveria estar com uma cara cômica porquê ela começou a rir – Para de rir, Cristina, não é engraçado.

-O que não é engraçado? –Ellen chegou com uma bandeja com bife acebolado e batata frita – Que cara é essa Samantha?

-A Lica tomou coragem e chamou a Samantha pra um encontro – contou Tina, eu fechei os olhos e gemi afundando na cadeira – É exatamente assim que vai terminar o encontro de vocês.

-Encontro? – era a voz de Clara chegando – Que encontro?

-Não vai falar oi pra sua cunhada, Samantha? – provocou Ellen cutucando meu braço.

-Cunhada? – a voz de Clara repetiu fazendo a minha cabeça doer mais.

Abri meus olhos para encontrar três pares deles voltados para mim. Clara tinha o começo de sorriso nos lábios e Tina e Ellen fizeram um high-five incrivelmente felizes.

-Lica me chamou pra jantar – e tornei a fechar os olhos massageando as têmporas – Meu manual de convivência foi para o lixo graças a Heloísa Gutierrez.

-Primeiro – começou Tina didaticamente – Aquilo sequer deveria existir.

-Segundo – retomou Clara me obrigando a abrir os olhos e olha-a – Cunhada?

-Tina e Ellen exageram – murmurei sem graça – A gente só vai sair.

-Mas eu adoraria – afirmou sorrindo – A Lica é muito mais legal com você.

-Quero dobrar a minha aposta – declarou Tina – No final da faculdade teremos casamento Limantha e eu serei madrinha.

-E se não der certo? – a pergunta sufocada foi o suficiente pra que elas voltassem à atenção pra mim – Eu perco a maravilhosa amiga que tenho.

-Ou você ganha uma namorada incrível – rebateu Ellen estendendo a mão para tocar meu braço – Eu duvido que Lica fosse fazer algo pra magoar você.

-Ela não é a Clarissa, Sam – Cristina foi cirúrgica ao dizer aquilo – Lica sempre cuidou e se importou com você, até quando você tá de TPM. Sua época mais insuportável.

-Mas é diferente quando se esta dentro de um relacionamento – declarei, mesmo não acreditando naquilo.

-É, é diferente – concordou Clara, abanando a mão na minha direção – Vocês vão se amar e me dar um bebezinho.

-Clara – gemi enquanto elas riam da minha cara – Me ajuda.

-Sam, vai dar tudo certo – garantiu jogando os cabelos loiros sobre o ombro, seu olhar tinha algo confiante – Confia, vai dar tudo certo.

 

Quando o fim do dia chegou eu sentia uma dor horrível no corpo, minha cabeça pesava mais que uma bigorna e meu nariz escorria sem parar. Remexi na caixa de remédios do fundo do guarda roupa e encontrei um de gripe para tomar, o sono logo veio. Na quinta-feira, não conseguia me mover rápido. Meu corpo estava afundado na cama e o quarto escuro o suficiente para se passar por noite ainda, meu celular vibrava insistentemente em baixo do meu travesseiro.

-Alô?-falei grogue.

-Samantha? – a voz de Keyla soou preocupada do outro lado – Já passa de meio dia, sua professora de Literatura me parou pra perguntar por que você faltou à aula dela.

-Key... – pigarreei para tentar melhorar o incomodo na garganta – Acho que tô doente.

-Doente? – sua voz ficou urgente – Escuta, vou voltar para o alojamento e ver você.

- – suspirei e desliguei o celular, incapaz de formular uma frase concreta.

O que me pareceu ser horas depois, Keyla e Tina entravam no meu quarto, abrindo a janela e me puxando para fora da cama. Febre, cabeça pesada, nariz ruim. Certamente era uma gripe forte.

-Você sabe se tem alergia algum tipo de medicamento, Sam? – perguntou Tina tentando tirar a minha blusa – Você consegue tomar banho?

-Um-hm – fiz ainda de olhos fechados enquanto ela me arrastava na direção do banheiro – Pega roupa frio mim.

-Alô? Lica? – ouvi a voz de Keyla dizer longe de mim – Cê sabe onde a Samantha guarda remédio? – uma pausa e o som de portas do guarda-roupa batendo – Achei, obrigada – outra pausa – Ela tá meio doente, febre e mole, deve ser gripe – outra pausa – Tá bom, Lica, eu te ligo qualquer coisa.

-Lica? – perguntei com a garganta arranhando.

-Samantha, vai tomar esse banho logo, pra ver se abaixa essa febre – mandou Tina me enfiando pra dentro do banheiro – A Lica tá bem, agora toma seu banho.

A febre não abaixou com o banho. Keyla e Tina me enfiaram num amontoado de cobertores, sopa e antitérmico. Dormi, como não dormia há uns cinco anos. Acordava uma hora ou outra com as vozes baixas das meninas conversando na cama ao lado, acho que elas estavam revezando. Era noite quando botas de combate entraram no quarto.

Se por acaso te encontrar e não lembrar de mim, eu sei, não vai me surpreender

-Obrigada por ficarem com ela – uma voz rouca e familiar murmurou.

-Imagina, Lica, eu não me lembrava da ultima vez que ela ficou doente – respondeu alguém suavemente – Tô meio cansada pra falar a verdade, acho que vou deitar agora que você chegou.

Se por acaso te entregar, por impulso o coração, eu sei, não vai te surpreender

-Tudo bem, eu fico com ela – concordou a outra, suavemente.

Mais alguns murmúrios e recomendações, a porta tornou a se fechar. Minha cabeça ainda estava pesada demais para raciocinar. Ouvi o barulho das portas do guarda roupa fechando, da torneira do banheiro abrindo e do clique da luz.

-Tina? – chamei me mexendo na cama – Key?

-Oi, Sammy, sou eu – Lica soprou contra o meu rosto seu halito de menta, seus dedos sutilmente tocando a minha testa para me checar.

-Lica? – entre abri os olhos pra encontrar o contorno do seu rosto embaçado – O que...

Torci por um instante, pra estarmos juntos, vem curtir a vista daqui pra comemorar

-Eu fiquei preocupada, decidi adiantar minha volta – interrompeu suavemente, os dedos tocando o meu pescoço – Está sentindo algo?

-Frio – resmunguei puxando mais as cobertas pra cima.

-Tudo bem, Sammy, o remédio vai fazer efeito – murmurou esfregando minhas costas.

-Tô com frio – minha garganta arranhava.

-Tudo bem – ela suspirou – Chega pra lá.

Isso é tudo um sonho, sei que isso é tudo um sonho meu, e por não lembrar de mim, na realidade, não seria bem assim, sei lá, se por acaso te encontrar...

Eu me arrastei até encostar as costas na parede, Lica ergueu a coberta e se enfiou debaixo delas me puxando para si. Minha cabeça sobre seu braço e enfiada na curva do seu pescoço e enfiei minha mão nos cabelos da sua nuca, sua mão começou a fazer carinhos na minha cintura.

-Você vai ficar doente também - murmurei contra seu pescoço.

-Tudo bem, Sammy – senti um sorriso na sua voz – Vamos dormir.

-Lica? – chamei num sussurro.

Torci por um instante, pra estarmos juntos, vem curtir a vista daqui pra comemorar

-Já estou dormindo, Samantha – informou me apertando contra si, o calor do seu corpo sendo recebido de bom grado, sua voz estava mais grave – Eu tô aqui, vamos dormir.

Antes que eu percebesse, novamente, estava dormindo.


Notas Finais


ola, quarenteners, só pra agradecer os comentários (eu juro que vou responder!) peço desculpas com a minha falta de jogo de cintura com as coisas.

avisos finales: no próximo capítulo a história vai passar para a perspectiva de, ninguém ninguém menos, que: Heloísa, meus caros.

é isto: muitíssimo obrigada.


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