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História Feel Love's Embrace - Capítulo 5


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Capítulo 5 - Parênteses


POV’s Heloísa Gutierrez

Não, eu não queria me apaixonar. Mas veja, é bem difícil fazer isso quando se tem Samantha Lambertini como colega de quarto. Ela e sua coleção de livros, histórias e a garras de leoa para defender um personagem que gostava. Eu percebi que estava apaixonada naquela tarde, e que seria impossível não me jogar aos pés dela, quando defendeu Edward Cullen como projeto ideal de vampiro durante um intervalo de aulas que conseguimos ficar juntas no Doce Amargo.

-Crepúsculo é clássico, Heloísa – informou com a juba de leoa cintilando sobre o sol de tarde, os olhos fixos no bolo de chocolate a sua frente – Tá desmerecendo, projeto de Europeu?

-Longe de mim, Samantha – me retestei na cadeira ao seu lado e abri um sorriso – Mas tenho minhas resistências contra esse argumento.

-Quais? – perguntou se reencostando, preparada para me rebater.

A luz do sol atravessou teimosamente até iluminar seus olhos. Aquele tom único, que era só dela e que nenhuma outra mulher no mundo teria. Parafraseando Machado de Assis: olhos de ressaca, de cigana obliqua e dissimulada. Ela passou a língua sob os lábios cheios, molhando-os, e exibiu um sorriso desafiador na minha direção. Samantha era uma dessas criaturas mui particular, que fazia que eu questionasse as minhas próprias verdades. Era ferro em brasa e criança assustada em dia de tempestade.

Eu sabia que ela tinha ficado fragilizada com o final do seu antigo relacionamento e tinha suas ressalvas de entrar em outro. E algo também sobre um manual de convivência que ouvi Tina falar certa vez. Convenhamos que pegar uma traição é como demolir toda a confiança que se constrói em uma história, acabamos nos sentindo insuficientes e algumas vezes o amor próprio é esquecido. Samantha não merecia aquilo que a garota tinha feito com ela, como na primeira vez que nos vimos. O modo que a menina a queria como troféu, o jeito que se movia como uma predadora ao redor dela. Só que ela estava enganada: Samantha nunca fora troféu ou presa de ninguém. Ela era quem jogava os dados e caçava quem queria devorar.

Eu posso soar como uma devota, mas, eu garanto, se você olhar para ela por um segundo vai acabar terrivelmente apaixonado.

-Em análise crítica? – perguntei vendo seus olhos se estreitarem – A fotografia do primeiro filme é muito boa, a dos outros nem tanto. Você que é uma obcecada por eles.

-E os vampiros? Estamos falando de vampiros – incitou antes de enfiar um grande pedaço de bolo na boca – Não é excitante séculos pra viver e encontrar o seu amor? Ainda ter toda aquela atmosfera “tenho que tomar cuidado ao te tocar porque posso te quebrar em vinte mil pedaços”?

-Isso te excita, Samantha? – perguntei baixando o tom de voz, ela lançou os cabelos para o lado deixando o seu pescoço a amostra – Alguém ter que ter cuidado para tocar você? – apoiei a mão no encosto da cadeira dela e me inclinei para perto, ela engoliu o resto do bolo na sua boca e olhou na minha direção. Se o olhar dela fosse fogo, eu teria queimado com prazer – Não acho que você faça esse estilo – sussurrei aproximando a minha boca do seu pescoço – Estou errada?

-Samantha! – uma voz desconhecida fez com que ela saltasse para longe de mim – Atrapalho algo?

Droga! SIM!

-N-não – gaguejou, desconcentrada, enquanto eu me virava para olhar quem era. Uma garota atlética e ruiva usando avental da cafeteria que exibia um olhar forçadamente contente na minha direção – Como vai, Eliza?

-Bem – garantiu me olhando rapidamente antes de se voltar para ela, passou a mão pelo braço musculoso – Você sumiu, até deixo separado uns bolinhos de creme, mas, faz um tempo que você não aparece...

Ok, meus bolinhos de creme.

Samantha parecia exasperada e eu sorri. Me lançou um olhar rápido e remexeu nos fios de modo nervoso. Certo, aquilo estava interessante demais para que eu simplesmente saísse. Voltei a me acomodar na cadeira e voltei o sorriso para a menina. Confiante demais hein, Heloísa.

-Ah... E-eu estive bastante ocupada por esses tempos – falou com um sorriso nervoso – Obrigada pela atenção.

-Sem essa, você é a minha cliente favorita – comentou incisivamente inclinando a cabeça ruiva, sorrindo, Samantha corou levemente – Você aceita mais alguma coisa?

-Oh, não, tudo bem – garantiu rápido demais, seus olhos se voltaram para mim – Quer mais alguma coisa, Lica?

Além de você?

-Não, estou satisfeita – sorri para Samantha e me virei para a ruiva que nos encarava com o cenho ligeiramente franzido – Merci pour tout.

-Ok – Eliza piscou repetidamente e laçou uma ultima tentativa a Samantha – A gente se vê por ai, Samantha.

-Uhum – fez sorrindo brevemente antes de se voltar para mim – Eu não sabia que você falava tão bem francês.

-Não sei porquê dessa surpresa – falei checando o relógio – Vamos, vou te acompanhar até o seu laboratório.

-Tudo o que cê faz, faz bem – resmungou enquanto se levantava.

-O que disse? – perguntei fingindo uma expressão inocente na direção dela – Não entendi.

-Nada, Lica – suspirou e balançou a cabeça – Sabe aquela sensação de estar em casa depois de um longo dia?

-Sim.

-Eu me sinto assim, quando olho pra você – confessou apertando os olhos por causa do sol – Vamos logo ou eu vou me atrasar.

E foi nesse dia que eu soube que estava irremediavelmente apaixonada por ela.

Eu também me sentia em casa.

 

A febre dela tinha baixado no meio da madrugada e eu estava mais aliviada por isso. Os cabelos eram uma bagunça na fronha e sua mão segurava possessivamente meu. Não consegui dormir por conta da respiração quente que batia no meu pescoço. Samantha, um dia, ainda me pagaria. Com juros.

Ela se mexeu tanto que quando o relógio da bancada marcou seis da manhã, todo o seu corpo estava pesando sobre o meu. Em outras ocasiões, teria sido profundamente proveitoso. Nessa, eu precisava ir ao banheiro.

Delicadamente movi o corpo dela para o lado, tomando cuidado para tirar o meu braço de baixo da sua cabeça no processo, e movi meu corpo para o oposto. Suas mãos se embolaram na minha camiseta no processo.

-Não vai – reclamou parecendo zangada – Tá bom aqui.

-Só um minuto, está bem? – cochichei deixando um beijo nos cabelos dela – Só um minuto.

Reclamando ela me soltou e virou para o canto, se embolando nos cobertores. Corri para o banheiro e fiz o que estava me matando. Minha bexiga agradeceu imensamente. Lavei as mãos e escovei os dentes, me encarando no espelho com um sorriso frouxo. Eu nunca estive tão feliz.

Quando voltei para o quarto, ela continuava na mesma posição. Fiquei parada encarando, indecisa. A febre tinha baixado, não tinha motivos para que eu voltasse para a cama com ela.

-Lica? – chamou sonolenta, a voz um pouco mais alta.

-Sim – respondi me aproximando.

-Você demorou – acusou e girou o corpo na minha direção – Deita.

-Tem certeza? – perguntei em duvida se era o sono ou os remédios, ou se de fato ela estava acordada.

-Anda logo – mandou abrindo um pouco dos olhos na minha direção – Não me faz levantar, tô doente.

-Tá falando muito pra quem está doente – comentei voltando a me deitar com ela, sua perna sobrepassou meu quadril. Samantha. Argh. – Como se sente?

-Você acabou de falar que eu estou falando muito – rebateu enfiando a cabeça no meu pescoço, de novo – Melhor.

-Isso é bom – sussurrei esticando a mão para fazer um carinho no seu cabelo – Você estava igual a uma panela de pressão, fervendo.

-Você faz analogias estranhas – murmurou me fazendo sorrir.

-Merci?

-Não precisava antecipar a sua volta, sei que era importante para você... – ela suspirou.

-Você é mais – rebati prontamente, ela apertou o toque no meu cabelo – Fiquei preocupada ontem.

-Tudo bem, estou melhor – garantiu e seu nariz deslizou perigosamente pelo meu pescoço – Você é tão cheirosinha.

-Obrigada, chama-se água e sabonete – brinquei sentindo um choque percorrer minha espinha – Você quer dormir mais um pouco?

-Tenho aula... – falou começando a se mover para longe de mim.

-Não senhora, você está dispensada das suas atividades hoje – passei meu braço por ela e a puxei de volta – Vou te prender em mim.

-Não sei se seria má ideia – murmurou relaxando – Obrigada por voltar, Tina chuta a noite inteira.

-Você também não está muito longe disso – brinquei e ela bufou – Foi como dormir com uma dançarina de axé.

-Ah, é? –quis saber, a voz se abafando – E você já dormiu com uma pra saber como é?

-Felizmente, só com você mesmo – murmurei sorrindo.

-Cala boca, Lica, vamos dormir – anunciou, meu sorriso se alargou – Quieta.

Decidi que era melhor não confronta-la naquele momento. E, assim, dormimos de novo.

 

-E a Samantha? – perguntou Clara quando cheguei ao refeitório para carregar algo para Samantha comer – Ela melhorou?

-A febre baixou no meio da madrugada, ela tava tomando banho quando sai – contei enquanto seguíamos a fila – As meninas deram uma passada lá agora. Milagrosamente, ela se encontra melhor.

-É o efeito Heloísa Gutierrez – brincou me fazendo rir.

-Quem dera, Clara.

-E vocês tem um encontro – lembrou despretensiosamente – Ela falou no outro dia.

-Eu gosto dela – falei direta, Clara arqueou as sobrancelhas – Gosto de verdade.

-Ora, ora – começou rindo – Alguém veio pro Brasil renovar a vida artística e acabou se apaixonando.

-Que culpa tenho se encontrei minha musa – falei com um sorriso largo, me virei para a senhora da comida – A senhora pode embrulhar, dois, por favor? Obrigada.

-Deixa Dona Marta descobrir – brincou com um sorriso – Isso me lembra de que, no próximo feriado, você vai ter uma surpresa. Dona Marta não me disse o que era.

-Você é cruel, Clara – informei pegando minhas marmitas, Clara riu.

-Já sabe aonde vai levar ela? – perguntou curiosa – Vai dar aquele toque francês da vovó?

-Não vou te contar, olha só, você tem fama de dar com a língua nos dentes – respondi rindo para a sua cara decepcionada – Não vou correr o risco.

-Cê parece meio cansada – constatou estreitando os olhos na minha direção – Tem certeza que foi só gripe ou só...

-Clara! – ralhei revirando os olhos – Mais respeito, ok?

-Sim, senhora Gutierrez – bateu continência quase derrubando a sua bandeja – Se precisar de uma ajuda...

-Eu sei, Clara, eu sei.

Irmãs, sempre tão irritantes.

 

-Sammy, trouxe pra você – anunciei abrindo a porta, Keyla e Tina estavam esparramadas na minha cama – Oi, meninas. Tudo bem?

-Dormiu bem, Heloísa? – perguntou Cristina em um tom malicioso – Você parece meio cansada.

-Dormi com uma dançarina de axé – respondi abrindo as marmitas sobre a pia, Keyla desandou de rir – Sério.

-Cala boca, Heloísa – mandou Samantha, brava. Ergui as mãos em rendição antes de carregar as marmitas para a bancada – Alguém acordou muito engraçadinha hoje.

-Merci – agradeci me sentando na cadeira e colocando a dela de lado – Come logo ou vai esfriar.

-Lica, uma morena, tava perguntando de você pro MB hoje no café – comentou Keyla enquanto Samantha se sentava do meu lado.

-Que menina? – quis saber me apontando na minha direção com o garfo de plástico, dei de ombros.

-Acho que era do seu curso – continuou Keyla – Ela disse alguma coisa sobre o circuito cultural.

-Ah, é Luiza – falei tranquilamente – Acho que ela queria me entregar algumas anotações.

-Ela pediu pra você mandar mensagem pra ela, quando desse – terminou fazendo Samantha garfar a comida com raiva – Tudo bem ai, Sam?

-Tudo – respondeu, secamente.

Samantha Lambertini estava com ciúmes?

-Bom, eu já vou indo – anunciou Tina sorridente – Cê vem Key?

-Opa, sim, tenho História da Moda agora – comentou se levantando com Tina – Qualquer coisa vocês avisam a gente, beleza?

-Obrigada, meninas – Samantha sorriu sem mostrar os dentes.

Elas saíram e eu continuei a comer sentindo os olhos da menina sobre mim.

-Então... – começou forçando um tom casual – Foi legal a viagem?

-Foi sim, muito rica a história – respondi olhando-a pelo canto do olho – Você iria amar a biblioteca.

-Luiza, hum? – olhei na direção dela segurando o riso, as bochechas estavam rosadas – Ela é legal?

-Sim, é legal sim – respondi voltando a comer – Super gente fina, engraçada.

-Talvez você devesse ligar pra ela – sugeriu, sua voz era menos que um murmúrio.

Soltei os talheres de plástico e me virei para ela. Seus olhos estavam fixos na comida remexida, sem interesse nenhum de comer. Suspirei esticando a mão para fazer um carinho na sua bochecha, ela fechou os olhos com o toque.

Se ela soubesse o quão linda era...

-Não faça isso – pedi suavemente, ela esfregou o rosto contra minha mão – Não peça pra eu sair com alguém sendo que só consigo pensar em você.

Samantha abriu os olhos e me encarou, séria. Eu podia quase que ver as engrenagens do seu cérebro trabalhando nos prós e contras, o peso da minha frase sendo posto em uma balança.

-Você ainda quer o nosso encontro? – experimentei sem perder o olhar dela, tinha medo que ela mudasse de ideia.

-Sim – respondeu firme – Quero muito.

-Amanhã? – perguntei erguendo as sobrancelhas, ansiosa – Se estiver melhor...

-Amanhã.

Ela sorriu para mim e senti meu coração errar uma batida.

Era exatamente onde eu queria estar.


Notas Finais


olá quarenteners, tô adiantando o capítulo de amanhã por motivos de: o dever me chama!

FIQUEM EM CASA E LAVEM A MÃO!

um beijo!!


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