História Feita de Cor e Palavras - Capítulo 44


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Categorias A Menina Que Roubava Livros
Tags Guerra, Liesel, Livros, Romance
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Palavras 9.739
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), Romance e Novela
Avisos: Heterossexualidade, Linguagem Imprópria, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


NÃO ACREDITO QUE TERMINEI ESSE CAPÍTULO
NUNCA SOFRI TANTO COM UM CAPÍTULO GENTE ME AJUDA
EU TÔ COM CALO NO DEDO
EU ESCREVI TUDO ISSO A MÃO E TIVE QUE PASSAR PRO COMPUTADOR E PARECEU QUE NUNCA IA ACABAR
AI
AÍ GENTE
É DA LIESEL TÁ
ESPERO QUE GOSTEM PORQUE MEUS DEDOS ESTÃO ACABADOS

Capítulo 44 - Se ele já foi o céu,hoje é o mar.


Por um momento sinto vontade de largar o livro,sair correndo e pular a janela.
Mas é tarde demais.
A mão ainda segura firmemente meu ombro.
Fui pega.
Ainda com o livro na mão,me viro para ele.
O senhor tem um rosto sério e cheio de rugas. Usa um óculos redondo com a lente esquerda rachada,seus olhos são castanhos e tem um nariz anguloso. O cabelo lembraria nuvens de tão brancos se não fossem ralos.
Ele olha para mim,sério,e depois para o livro e depois novamente para mim.
-Posso ajudá-la ?.-Repete.-Você por acaso perdeu...-Mas ele para.-Você subiu pela janela ?
Não respondo.
Estou com um pouco de medo e pensando em uma forma de sair daqui.
-É uma altura e tanto...Ah,olhe só para os seus joelhos !

Eu olho mas não digo nada.

Ele solta um longo suspiro.

-Precisamos dar um jeito nisso.-Diz sem animo nenhum na voz.-Venha.

O senhor abre a porta e começa a descer a escada.

Quando percebeu que eu não o estava seguindo,repetiu.

-Venha !

Depois de um momento de hesitação,desço a escada segurando o livro firmemente em meus dedos.

Em alguns degraus tem livros empilhados.

O senhor faz sinal para eu me sentar na poltrona vermelha.

Desconfiada,fiz o que pediu.

Agora aquela vontade de sair correndo não é tão forte.

Ainda é presente mas está sendo vencida pela curiosidade.

É claro que quero fugir mas,mais do que isso,quero ver o que ele vai fazer comigo,o que vai dizer.

Enquanto ele revira gavetas das estantes,consigo finalmente observar este lugar com atenção.

Esse homem tem mais livros do que Ilsa,isso é mais do que claro.

Muito mais.

E é uma pena ver a maioria ainda no chão e com camadas de poeira.

Segurando uma das portas,está um vaso preto com uma planta de longas folhas que tocam o chão.

Não faço a mínima ideia de qual seja seu nome mas Bryanna com certeza saberia.

O ar tem cheiro de café e ao lado da planta tem uma mesinha com xícaras vazias e um bule encardido.

-Achei.-Ouvi o senhor murmurar e me encolhi sem querer.

Ele veio até a mim e se agachou. Em suas mãos tem um vidrinho cheio de um líquido transparente e um tufo de algodão.

Ah,não.

Ele vai mesmo fazer isso ?

Vai mesmo ?

Ele olha para meus joelhos machucados com o sangue descendo pelas pernas e só então parece perceber que estou apenas de meias.

Sua expressão ao molhar o algodão é severa e me lembra Abiel.

Seriedade com uma pitada de nojo e deboche.

E naquela poltrona grande,eu me senti pequena.

Ardeu quando ele começou a limpar meus machucados mas não reclamei,mesmo querendo.

-Queria que você fosse um menino.-O senhor resmunga.

-O que ?.-Consigo perguntar sentindo minhas sobrancelhas franzir involuntariamente.

-Um menino.-Diz.-Se eu pegasse um menino me roubando não hesitaria em lhe meter um tapa e o jogar para fora daqui. Mas você é uma menina e seu fizesse isso não me perdoaria. E além disso quis roubar um livro...Já me roubaram quase tudo,mas um dos meus livros...nunca. Minha mãe deve estar se revirando no túmulo neste exato momento.

Não respondo.

O que se tem a dizer em uma hora dessas ?

Quando ele terminou,continuou no chão,olhando para mim por cima dos óculos.

-Não é a primeira vez que você faz isso.-Ele disse e pegou o livro que estava em meu colo.-O Assobiador. É um bom livro,sabe ?

É claro que eu sei.

E não é só um ‘’bom livro’’,é um ótimo livro ! É maravilhoso.

Mas não disse isso e me limitei apenas a concordar com a cabeça,o que o fez arquear as sobrancelhas.

-Por que escolheu esse ? Ou você apenas pegou o primeiro que viu ?

-É para um amigo.-Falei sem responder a sua pergunta.

-Um amigo,é ?

-É.

Ele suspirou e sem querer passou o braço no vidrinho derrubando um pouco do líquido na manga do seu suéter. Foi pouco,mas foi o suficiente para ele xingar baixinho e arregaçar a manga.

Suspirando ele fecha o vidrinho e passa a mão nos cabelos brancos.

Então eu pude ver.

80521-7

Tatuado em seu braço direito.

No mesmo lugar onde a tatuagem de Max está.

Ele deve ter notado meus olhos fixos em seu braço porque logo baixou a manga.

-E por que o seu amigo não veio ele mesmo pegar o livro ?.-Retoma a conversa.

80521-7.

-Ele está doente.

O senhor não me responde imediatamente. Ele me análisa de cima a baixo e apesar de me sentir desconfortável,faço o mesmo.

Magro,alto e com a pele enrugada ele parece frágil como uma folha de outono. Embora use roupas boas e nem um pouco surradas.

-O que o seu amigo tem ?

Se eu não tivesse visto os números tatuado em seu braço,mentiria.

Um resfriado,parece ótimo.

Mas acontece que eu vi os números.

-Tifo.

Ele não consegue disfarçar a surpresa e abre rapidamente a boca,para logo em seguida fechá-la e retomar a postura.

-Você é uma garota...peculiar.-Diz depois de alguns instantes.

Agora parece até que O Assobiador,pousado em seu colo,tem os olhos grudados em mim.

-Gostei de você.

-Gostou ?.-As palavras saem antes que eu possa detê-las.

-É,gostei.-Disse.-Então vou te propor um acordo...moça.

-Liesel.

-Liesel. Bom,Liesel...O que você acha de...bem,trabalhar em troca deste livro ?

Quase engasguei com a própria saliva.

-O senhor quer que trabalhe ? Aqui ?

-Isso.-Respondeu calmamente.

Olhei para ele sem acreditar.

-O senhor sabe que,eu acabei de escalar uma árvore,arrombar sua janela e teria roubado esse livro se o senhor não tivesse chegado antes ?

-Sim,eu sei disso.

Essa,definitivamente,é a conversa mais estranha que eu já tive.

-Não é por muito tempo. Um único dia é mais do que o suficiente para varrer e tirar o pó de alguns livros. Eu mesmo já teria feito isso se não estivesse me sentindo tão...fraco.-Ele não olha para mim quando diz isso e presumo que esteja pensando no Campo em que esteve.-Você sabe,a idade não me ajuda em nada.

Ele conseguiu dar um sorriso fraco,com um dente no canto faltando. Olhou para O Assobiador e depois para mim.

-Um dia de trabalho por um livro. O que acha ?

E quando eu dei por mim já tinha aceitado e tomado um café que verdade seja dita,assim como a placa diz,é maravilhoso.

Mas apesar disso,não conversamos muita coisa.

Sei apenas que seu nome é Milman Maier,morava no campo no distrito rural de Celle e sempre colecionou livros. Disse que queria ter uma grande livraria mas com a Guerra,a venda de grande parte de seus exemplares foi proibida. Então,ele teve que se preocupar mais em escondê-los do que vendê-los.

-Não deixei que fossem para a fogueira. Isso não,não os meus livros.

E pelo o que ele me contou,aparentemente esconder livros é quase tão difícil como esconder pessoas.

Ele pagou para os esconderem em porões,criou fundos falsos em paredes e os escondeu até nos galhos mais altos das árvores mais altas que conseguia encontrar,em uma caixa bem fechada.

Quando a Guerra acabou,ele finalmente reunir todos os exemplares e pode dar início a sua livraria.

Ele não falou sobre o Campo.

E mesmo ele me dando um ‘’emprego’’ logo depois de quase roubá-lo,achei melhor não tocar no assunto.

A não ser que ele fale sobre isso primeiro.

Quando finalmente fui embora,já havia escurecido.

O senhor Maier disse que até me acompanharia em casa,mas que ele tinha prometido aguardar um cliente sair do trabalho para pegar um livro reservado.

Eu sei que Audrey vai me matar,mas antes quero passar na casa de Rudy.

Faz três dias que não tenho notícias dele.

E isso vale a pena a bronca que vou levar.

As ruas,como de costume,estão parcialmente vazias. As poucas pessoas que restam andam apressadas assim como eu.

Não paro de andar quando um soldado diz ‘’Não está tarde para uma garota andar por aí ?’’ Fico com receio que ele esteja me seguindo,mas não paro para olhar para trás.

Só paro quando enxergo uma figura na descida.

Droga.

Porque lá no final da rua,com uma pose digna de Rosa Hubermann,Audrey me espera.

Engolindo em seco e pronta para ouvi-la,me aproximo.

-Escureceu.-Ela diz.-E você consegue imaginar o meu desespero quando fui até a Resistência e me disseram que você nem pôs os pés lá hoje ?

-Desculpa.

-Desculpa ?.-Levanta as sobrancelhas.-Vamos para casa agora.

Como se eu tivesse outra opção.

Audrey segura meu pulso com firmeza por todo o trajeto de casa.

E durante todo esse caminho ela tagarelou sobre todos os cuidados que ela me recomendou sobre andar sozinha a noite.

Ela bate a porta com força e enfim parece se lembrar de perguntar.

-Afinal,por onde esteve ?

Não vou contar sobre o senhor Maier. É apenas um dia de trabalho e ela vai querer saber que diabo eu estava fazendo na livraria,e vou ter que mentir de novo.

Ah,você sabe,roubando um livro e tudo o mais.

-Liesel ?!

-Ah,eu…

-Não diga que estava com Rudy,eu sei que ele não aparece há dias. E ouça,Liesel,se você tiver voltado ao hospital eu….

-É isso !.-A animação visível na minha voz faz Audrey estreitar os olhos e eu precisei voltar com o tom culpado.-Eu fiquei no hospital. Fiquei com o Max.

-Liesel,o que eu te disse ?! Você não pode ficar com o Max ! Não agora ! Quer ficar com tifo também ?! Por que você nunca escuta o que eu digo ?! Por que…

E ela falou.

E eu deixei que falasse.

Depois do seu do seu longo sermão,fomos jantar e eu percebo que alguma coisa na casa está diferente.

Parece que algo está faltando mas eu não sei muito bem o que é.

Fiquei com essa sensação até o fim do jantar e depois de ter ajudado Audrey com a louça,ela anuncia com a maior naturalidade do mundo.

-Ah,hoje nós vamos dormir no porão.

Segurei o último prato que estava guardando no ar e olhei para Audrey espantada.

-No porão ?

-Vamos dormir no porão.-Repetiu.

-Não consegui consertar a tranca da porta e da janela.-Disse encolhendo os ombros.-Não acho que seja seguro dormir aqui. E se entrarem em casa ? É isso,vamos dormir no porão.

-Tudo bem.-Concordo relutante.

Então era isso.

Audrey tinha tirado algumas das nossas coisas e as colocado no porão.

Apesar de ter certeza que Audrey o limpou centenas de vezes,ele ainda conserva um cheiro de mofo umidade.

Acho que todo porão tem esse cheiro.

Dividimos um colchão e Audrey adormeceu rápido.

Já eu demorei um pouco mais.

Estava ansiosa para ver Rudy e para encontrar com o senhor Maier amanhã. Mais ainda com as notícias que Audrey traria do hospital.

E quando consegui me entregar ao sono,acordei no meio da noite com uma sensação de pânico e vendo o teto do porão cair sobre nós.

Demorou até eu perceber que,na verdade,era apenas um pesadelo,uma lembrança do bombardeio.

Não me mexi querendo não acordar Audrey.

Me acalmei em silêncio e não dormi mais depois disso.

-Você tem um pouco de tinta no seu nariz.

-Eu sei.-Ela estreita os olhos.-É azul ?

-É,é azul.-Ele ri e volta a olhar para os cadernos,mas sua atenção sempre acaba voltando pra Bryanna ocupada demais separando suas tintas.

Faz aproximadamente uma hora que eu,Henry e Bryanna estamos entediados na Resistência.

Abiel vai viajar daqui há alguns dias para participar do Julgamento de Nuremberg,mas o carro resolveu quebrar de novo. Ele está lá fora lutando com o motor e não quer a ajuda de ninguém.

Hannah aproveitou o tédio para sair com um soldado inglês.

Nós contamos apenas vinte e sete judeus morando aqui. Um número pequeno comparado com quantos começamos.

Todos parecem estar se preparando para irem embora,ocupados com coisas que cabem apenas a eles resolver.

Não que isso não seja bom.

Só não aguentamos mais não ter nenhum serviço a fazer.

E para ajudar,Audrey não me deixou ir com ela no hospital saber sobre Max.

Ela acordou ainda mais irritada ao perceber que forçaram nossa porta novamente.

Sei que está mesmo preocupada pois reclamou por terem pego o meu revólver com Emmalyn e não devolverem.

Eu disse a ela que pode ter sido apenas o vento,mas ela não me deu ouvidos.

Por que entrariam na nossa casa ?

Para roubar,tudo bem,mas para roubar o que ? Não temos nada.

-Não mexa neles,Henry.-Disse Bryanna de repente.

Ela está de costas para nós desenhando alguma coisa na parede e Henry tinha acabado de tocar em um dos cadernos da pilha.

Henry olhou para ela que ainda está de costas e baixou as mãos devagarinho.

Pelo que Bryanna me disse,o senhor Aigner recebeu as fichas dela e de Feliks e foi até a casa dela para saber se seu interesse para as provas é sério.

Bryanna disse que sim,mas a sua prova é daqui a uma semana e aquelas vagas que ele  disse mêses atrás para ela participar das aulas extracurriculares como treinamento já acabaram.

Aigner disse a ela que pode abrir uma exceção,mas ela vai ter que se preparar sozinha e   em cima da hora.

Bryanna aceitou.

Por isso ela trouxe todos seus materiais. Para treinar.

Ela também me contou que que a escola reabriu.

Vamos ter que voltar alguma hora.

Mas por enquanto não estamos pensando nisso.

-Ah,meninas,vocês não acham que hoje está um dia perfeito para estrangularmos os homens com seus próprios intestinos ?.-Hannah adentrou o cômodo com seus novos sapatos de salto alto.

-Então,o encontro não foi bom ?.-Perguntou Bryanna,virando-se e lançando um olhar severo a Henry que ainda parece muito interessado no terceiro caderno da pilha de novo.

-Ah,não.-Hannah tirou os saltos e sentou ao meu lado.-Foi perfeito.

-E você está brava por que ?.-Perguntei.

-Porque foi perfeito !

Agora até Henry olhou para ela como se fosse louca.

-Olhem,ele abriu a porta do carro para mim,pagou o meu suco e segurou a minha mão o caminho todo pelo parque.

-E daí ?.-Disse Henry.

-E daí que isso é previsível.-Ela disse como se fosse óbvio para todos nós.-Ele e mais dezenas de homens já fizeram isso comigo.

-Mas Hannah…

-Mas nada. É comum,é chato. Essa é a regra.-Hannah suspirou,abriu a bolsinha que um dia pertenceu a mãe de Henry,tirou um espelho e um batom e começou a retocar a maquiagem,encerrando o assunto.

Dá para ouvir Abiel lá fora xingando o carro como se fosse adiantar alguma coisa.

Por um momento ficamos todos em silêncio,apenas ouvindo a série de palavrões abafados.

Quando ele terminou,bateu com força o que eu supus ser o capô do carro.

-Bom…-Bryanna murmura.-Acho que agora já é seguro sair e buscar meu giz.

Ela se levantou e eu pude ver na parede silhuetas de pequenos pássaros azuis pintados na parede.

Henry a seguiu com o olhar até ela fechar a porta,então começou a tirar alguns cadernos da pilha.

-Henry,você está invadindo a privacidade de uma mulher.-Hannah fecha o espelho.

-Não,estou não.

-Está sim,e…-Mas assim que ele pega o caderno desejado,Hannah se empertiga toda e se aproxima.-Uh,vamos ver os desenhos dela ? Adoro os desenhos !

-É que essa capa é diferente...olhem.-Ele passa a mão pela capa.

E eu me aproximo para ver também.

A capa é preta e lembra o caderno de Margot se não fosse pôr alguns retângulos de tinta vermelha.

Entendi o que Henry quis dizer com diferente.

Os retângulos lembram os prédios da Resistência.

-Nós não devíamos...Bryanna não vai gostar.-Digo mas não tiro os olhos quando Henry finalmente o abre.

O primeiro desenho é,sem sombra de dúvidas,Miriam.

Feito a lápis,uma mulher de longos cabelos negros e mãos mais negras ainda cobrindo o rosto de olhos suplicantes.

Henry vira a página

O segundo é Margot e Hegbert.

Eles estão sentados um de frente para o outro de pernas cruzadas. E uma chuva de papéis cai sobre eles.

Foi feito,pelo que parece,com algum pedaço de carvão.

Suja os dedos de Henry quando passa a próxima página.

É Maliah.

Toda feita de tinta rosa,delicada como uma flor. Com o rosto tímido muito diferente do da irmã.

Hannah solta um grunhido do fundo da garganta,sorri e põe a mão no coração.

Até o meu coração se aqueceu.

Henry estava prestes a virar novamente a página quando a porta se abriu e Bryanna pode olhar furiosa para ele.

Ela começou a vir até nós,Henry fechou o caderno e deu um sorriso cínico.

E antes que Bryanna pudesse avançar e cortar nossas cabeças,fomos salvos pelo gongo.

Abiel entrou,quase derrubando Bryanna e,por mais estranho que pareça,olhou para nós com seu meio sorriso.

-O que aconteceu ?.-Perguntou Henry mais do que depressa tentando desviar a atenção de Bryanna.

-Finalmente consegui.-Respondeu levantando as mãos sujas de graxa.-Aquela lata velha vai durar uns bons quilômetros.

-E quando o senhor irá partir ?.-Hannah questionou lhe entregando um lencinho delicado demais para ele se limpar.

-Hoje a tarde.

-Hoje ?!.-Perguntamos todos juntos. Até mesmo Bryanna largou a carranca furiosa para dar lugar a uma expressão de surpresa.

-É,hoje.-Abiel respondeu sem se abalar.-Não me olhem desse jeito. Vocês já estão bem crescidinhos.

-Mas...hã,senhor,ainda tem um pessoal que pretende ir embora essa semana.-Bryanna disse.

-Não vou demorar e não vai acontecer nada demais,eu lhe garanto.

-Mas e se acontecer ? E se quiserem pegar a Resistência ? Você sabe que os soldados podem fazer isso. Até porque aqui tem muito espaço e seria muito útil para eles…

Hannah balança a cabeça concordando.

-Soube que fizeram um prejuízo no restaurante do senhor Jean…

-Não vai acontecer nada.-Garantiu Abiel novamente.-E qualquer coisa,o menino Henry está no meu lugar.

Henry começou a rir mas logo parou,parecendo se lembrar que Abiel nunca faz piadas.

-Eu ?

Abiel deu de ombros mas,vendo que Hannah está prestes a protestar,voltou com a velha expressão severa.

-Da última vez que você ficou no comando me deu uma dor de cabeça,princesinha.

-Mas senhor...tem certeza que não tem mais crianças para serem entregues ?

-Devolvi e peguei de volta todas que pude. Outras os pais biológicos morreram e as famílias quiseram adotá-los definitivamente. Já outras não. Então eu as trouxe pra cá.

-E o que o senhor vai fazer com elas ? Vai adotá-las,vai…

-Isso é assunto para quando eu voltar.

-Quando o senhor vai voltar exatamente ?.-Perguntei.

-Daqui à  três ou quatro dias.-Parece que todos nós soltamos o ar ao mesmo tempo.-Viram ? Não tem porque se preocuparem desse jeito. E além disso…

A porta foi aberta pela centésima vez hoje.

Só que dessa vez fez meu coração pular.

Rudy finalmente apareceu depois de três dias.

Ao mesmo tempo que quero abraçá-lo,quero socar seu rosto todo.

Mas o que me impede de fazer ambos,é a surpresa ao ver que seu sorriso parece bem maior do que o normal.

Como se isso não bastasse,ele vai e abraça Abiel.

Isso.

Ele poderia abraçar qualquer um,mas foi o Abiel.

O Abiel.

Dá para acreditar ?

Abiel não o abraçou de volta. Ficou com as mãos no ar com aquela característica expressão de repulsa.

E quando Rudy foi abraçar Henry,ele ainda continuou com as mãos no alto como se não acreditasse e,ao mesmo tempo,repudiasse o que acabou de acontecer.

Começamos a perguntar a Rudy o que aconteceu,mas ele apenas sorria e abraçava a todos. O abraço de Hannah e Bryanna tirou os pés delas do chão.

Ele se aproximou de mim.

-Rudy.espera.-Tentei mas ele já tinha me envolvido em seus braços.-O que...Rudy !

-Saumensch.-Ele começou a beijar meu rosto todo.-Saumensch,você não vai acreditar.

-Rudy !.-Eu senti minhas bochechas fervendo a cada beijo na testa,no queixo…

-Vi o carro lá fora.-Ele disse subitamente.-Quando o senhor vai viajar ?

-Hoje à tarde.

-Hoje ?!

Rudy finalmente me soltou.

-É,hoje !.-Abiel rugiu ainda parecendo irritado com o abraço.-Todos saiam daqui eu tenho coisas a fazer !

Saímos mesmo sabendo que não tem nada para ele fazer.

Bryanna saí em disparada na frente de todos,esquecendo definitivamente que estava brava há alguns minutos atrás,e volta com xícaras de chá para todos.

Nós sentamos nos blocos de concreto,as xícaras fumegantes queimando nossos dedos e ouvindo atentamente as palavras de Rudy.

A primeira coisa que ele diz é que Alex Steiner voltou.

Eu engasgo com o chá enquanto os outros dão vivas.

Começo a balbuciar,tentando formar alguma palavra que expresse a felicidade e a surpresa que estou sentindo.

-Ele está ansioso para ver você.-Me diz sorrindo.

-Foi por causa da Resistência que você demorou tanto para aparecer ?.-Pergunta Bryanna.-Ele teve um ataque de nervos quando ficou sabendo ?

-Bem,não...Ele teve um ataque,mas não foi por causa disso…

Achei que a felicidade de Rudy devia-se apenas ao fato de seu pai ter voltado.

Mas não é só isso.

Aparentemente no mesmo dia que Aigner foi atrás de Bryanna,ele bateu na porta da casa de Rudy.

Ao contrário de Bryanna,Rudy participava das atividades extracurriculares,mas quando a escola reabriu e Rudy não foi em nenhum dia do treinamento,Aigner se preocupou.

É claro que se preocupou,penso,ele sabe que Rudy pode vencer qualquer prova de atletismo. É ótimo para a imagem dele e,de certo modo,para a de Rudy também.

A prova de todos os cursos é daqui a uma semana,mas pelas faltas,Rudy perdeu a vaga nas aulas. Ele fez a mesma proposta feita a Bryanna;que ele treine sozinho mas que participe da prova.

Rudy aceitou no mesmo instante,mas seu pai acabou interferindo.

-Ele não queria que eu aceitasse. Disse que se eu passar, vão querer me levar para uma escola militar,como da outra vez.-Contou Rudy.-Eu disse que queria tentar e que é não é bem uma escola militar,é mais como uma bolsa de estudos...só que com esportes.

Alex Steiner teimou,e não quis deixar Rudy sair de casa,achando que ele iria treinar para a prova.

Rudy podia muito bem sair escondido mas como não queria abusar da paciência do pai e queria muito fazer a prova,se empenhou a fazer o papel de filho perfeito por três dias.

Não deu muito certo.

Alex sabe muito bem o filho que tem.

Então,basicamente Rudy conseguiu o que queria com um péssimo argumento mas que,de algum modo,até que faz sentido.

-O senhor não brigou comigo por causa da Resistência,mas briga porque eu quero fazer a droga de um esporte ?!

Enfim.

Bryanna ficou em em êxtase por saber que Rudy faria a prova no mesmo dia que ela.

Passamos o resto da manhã com chá e conversas sobre esses acontecimentos.

Henry e eu como não participamos dessas atividades ficamos meio de lado.

Até Hannah tinha mais o que falar do que nós,dando dicas a eles de como Maliah se preparava antes de uma prova importante.

Estou surpresa e admirada ao ver que Aigner,seja por fama ou não,está fazendo um bem danado a Rudy e Bryanna.

Mais tarde,quando eu e Rudy ficamos sozinhos eu pude contar a ele sobre Lorenz e o dinheiro,e é claro sobre o senhor Maier.

Rudy ouviu atento,parando pouquíssimas vezes para fazer perguntas. Quando contei sobre Emmalyn,ele não lamentou por muito tempo e logo mudou de assunto.

-Então...esse senhor Maier é o que ? Judeu ?

-Não sei. Foi o que eu disse,ele é meio estranho mas parecer ser,não sei,uma boa pessoa,não é ? Se não não teria me proposto uma coisa dessas.

Rudy faz uma careta.

Está mais do que claro que apenas pelo que eu contei,ele não gosta muito do senhor Maier.

Confesso que também estou com um pé atrás.

Ainda nesta tarde,às 14:00 em ponto,Abiel foi embora.

Nós o vimos entrar no carro e esmurrar o volante. Quase podíamos ouvi-lo dizer ‘’Anda sua lata-velha ! Mas que porcaria de carro é esse ?!”

Não houve abraços nem tapinhas nas costas para desejar uma boa viagem.

E nem muitas recomendações da parte dele.

Apenas uma.

-Só não botem fogo neste lugar.-Disse assim que baixou o vidro do carro.-Alguns dos meus cigarros estão aí dentro.

Assim ele se foi.

E é a partir de hoje que vamos ficar ouvindo o rádio o tempo todo,esperando que o locutor diga ‘’O senhor Abiel Heim ‘’ e Resistência’’ na mesma frase.

Assim que o carro desapareceu na estrada,Henry mostrou-se estar um pouco desconfortável.

Agora qualquer coisa que fizermos levará o nome dele e eu duvido muito que ele pedirá a ajuda da mãe para alguma coisa. A senhora Cullmann ainda está muito atarefada no hospital.

Mas o seu estado de apreensão passou rápido e logo ele voltou a discussão com Bryanna.

Que não é mais sobre os cadernos….

-Você não vai chegar no horário certo.

-Vou sim ! Você vai ver só !

-Não,Henry,você não vai.

Eles estão discutindo a mais ou menos meia hora.

Hannah revira os olhos.

-Henry,aceite logo que você vai se atrasar ! Essa briguinha de vocês já está me dando dor de cabeça.

Quando Henry disse que iria acompanhar Bryanna no dia da sua prova,ela riu alto e disse que Henry se atrasaria como sempre e que não queria contar com a presença dele. Isso com certeza não teria se transformado em uma discussão se Henry não tivesse se magoado de verdade.

De qualquer forma,não pude ver quem ganhou a discussão. Rudy e eu saímos mais cedo antes do horário que eu tenho que estar com o senhor Maier.

-É sério que ele não brigou com você ?.-Perguntei tentando acompanhar os passos de Rudy. Às vezes esqueço que ele tem pernas tão longas.

-É sério !.-Rudy me olhou sorrindo.-Ele disse ‘’Não acredito que você se meteu com coisa da Resistência.-Ele começou a fazer uma péssima imitação da voz do pai.-Eu deveria te dar uma surra. Você está vivo e sua mãe e irmã também,então não vou fazer isso. E creio que precisou de muita coragem da sua parte para entrar nisso. Mas se alguém metido com Resistência fizer alguma coisa com elas eu acabo com você.’’

É engraçado e até...bonitinho o jeito que ele fala orgulhoso de si mesmo.

-E Lyra ?

-Bem,ele não disse nada,mas acho que não achou ruim.

Quando chegamos a sua casa,a senhora Steiner estava no trabalha e o pai de Rudy estava lutando com as panelas enquanto Bettina e Lyra esperam pacientemente.

E assim que Rudy abriu a porta e ele botou os olhos em mim,quase deixou as panelas cairem.

Alex me abraçou forte e eu não me senti como se fosse apenas uma vizinha,uma menina qualquer que seu filho anda junto.

No meio daquele abraço apertado eu senti como se fosse da família,uma de suas filhas que ele ansiava por ver novamente.

Alex não chorou e eu também não.

Aquele abraço foi o bastante por nós dois.

Eu o ajudei a terminar o almoço e pudemos conversar bastante. Ele perguntou sobre Emmalyn e como ela me tratava e eu e Rudy trocamos olhares nervosos. Isso fez com que eu apenas dissesse que Emmalyn veio a falecer. Ele lamentou e por sorte não perguntou como isso aconteceu.

Evitamos falar sobre nossos traumas da Guerra e do bombardeio,mas o assunto pairava sobre nós como um lembrete constante que não basta apenas sobreviver à Guerra.

É preciso viver com suas lembranças impregnadas no nosso corpo,como sal no oceano.

Depois de uma comida um pouco salgada demais,Rudy foi comigo até a livraria do senhor Maier.

Ele estava me esperando do lado de fora,tomando uma xícara de café e com o óculos de uma lente quebrada na ponta do nariz.

-Está atrasada.-Disse assim que me viu.

-Me desculpe.-Consegui dizer antes de Rudy pudesse lhe dar uma resposta mal educada.

O senhor Maier deu de ombros.

-Só estou dizendo porque você tem muito trabalho. Não é bom voltar tarde para casa.

-Eu vou levá-la para casa.-Rudy disse atropelando minhas palavras.

Ele ergue as sobrancelhas grisalhas como se não esperasse que Rudy pudesse entrar na conversa.

-Bom,eu iria fazer isso. Mas já que o rapaz está disposto,não vejo porque não fazê-lo.

Um silêncio constrangedor reinou entre nós.

-Então.-Maier o quebrou.-Você quer alguma coisa ?

Achei que fosse impossível,mas Rudy franziu ainda mais as sobrancelhas.

-É,eu quero. Eu…-Pisei no pé de Rudy o mais discretamente que pude o que o fez me lançar um olhar mortal.-É,não senhor.-Disse por fim.

-Ótimo.-O senhor Maier tomou o último gole de café.-Vamos,Liesel.

E eu fui,vendo Rudy fazer uma careta pelas costas do senhor Maier.

Ele me conduziu primeiro para o segundo andar.

Eu preciso abrir todas essas caixas e separar todos os livros em mal estado.

Acho muita...ousadia.

Ou seria coragem ?

Confiança ?

Da parte dele me deixar sozinha no cômodo que ele me pegou roubando.

De qualquer forma,não roubei nada.

Por mais que não tenha me faltado vontade...quero mostrar a ele que apesar de ladra,sou uma pessoa confiável.

Se é que isso tem alguma lógica.

Depois de separar os livros com folhas e lombadas rasgadas,manchados e quase caindo aos pedaços,coloquei todos em uma única caixa e fui até o térreo mostrá-los a ele.

Um total de trinta e três livros acabados.

O senhor Maier levanta da poltrona,limpa a lente do óculos e começa a examinar os livros fazendo ‘’hum’’ o tempo todo.

-É uma pena…-Diz tirando o óculos.-Realmente uma pena.

Uma ideia passou na minha cabeça e o olhei espantada.

-O senhor vai jogá-los fora ?.-Perguntei mesmo sabendo que era intruso de minha parte perguntar isso.

-O que ?! Não !.-Ele coloca a mão enrugada sobre o peito parecendo igualmente assustado e magoado.-Meu Deus do céu,Liesel.

-Então,o que o senhor vai fazer ?

Ele demora um tempo para responder.

-Bem,nós vamos ter muito trabalho.

Ele começa a tirar as coisas da escrivaninha e a puxa para mais perto de onde bate a luz do sol,coloca duas cadeiras,uma do lado da outra. Sobe as escadas e volta com uma caixinha de madeira

-Venha me ajudar.-Disse puxando uma das cadeiras.

Dentro da caixinha tem uma tesoura,agulhas e linhas,dois tubos de cola,borrachas,alguns elásticos e clipes de papel.

Ele se sentou,pegou um livro da caixa com a lombada solta e começou a preparar a linha e a agulha.

Fiquei parada observando com um pouco de descrença.

-Você não vem ?.-Perguntou.

-Achei que o senhor fosse pedir para eu tirar pó das estantes e varrer o chão. Sabe,essas coisas.-Eu disse enquanto remendava meu quarto livro. Esse vai demorar um pouco mais,já que eu tenho que apagar os rabiscos das páginas,então preciso ficar folheando o livro todo.

-Esse era o plano inicial.-Ele murmura concentrada tentando colar um pedaço de uma página rasgada.-Mas olhe só esses livros...Eles precisam de ajuda. A não ser,é claro,que você prefira varrer o chão.

-Não.-Respondi mais do que depressa.-Não,senhor.

Ele dá um risinho.

-Bom.

O senhor Maier está em seu segundo livro.

Ele demora mais porque precisa parar o tempo todo para atender clientes e quando volta para a escrivaninha as vezes se distrai com a conversa.

Ele falou bastante até agora sobre seus livros.

Disse que adora ler qualquer gênero,mas que tem um fraco para poesias.

E eu contei que prefiro suspense.

Não falou sobre questões pessoais e não perguntou nada que ultrapasse a literatura para mim. Nossa conversa é totalmente restrita aos livros.

Em certo ponto da tarde quando a conversa havia à poucos instantes morrido,ele disse :

-’’Minha biblioteca não é muito cheia,mas cada livro nela é um amigo.’’ Sabe quem disse isso ?

Balancei a cabeça negativamente.

-Lucy Maud Montgomery. Ou melhor,L.M Montgomery É uma pena que ela teve que abreviar o nome para ter um pouco de reconhecimento...Enfim,eu particularmente acho que essa frase se encaixa perfeitamente para nós dois.

-Encaixa ?

-Pense comigo,se livros são amigos. Às vezes amigos se machucam,entram em alguma enrascada. Mas são seus amigos mesmo assim. E você precisa cuidar deles quando precisam.-Ele aponta para o livro remendado em minhas mãos.-E nos cuidamos.

Penso alguns instantes antes de responder.

-É como se fôssemos médicos.

O senhor Maier me olha com atenção e sorri

-É,também acho.-Ele volta para seu livro ainda com um sorriso no rosto.-Médicos de livros.

No final da tarde,quando o céu é aquela mistura de cores,o senhor Maier disse se espreguiçando:

-Acho que está ficando tarde.

Não pude deixar de sentir uma pontada de decepção.

Eu até que tinha me divertido brincando de médica.

Ele mexe na gaveta da escrivaninha e me entrega O Assobiador que também precisa de alguns remendos e me acompanha até a porta.

-Bem,fique livre para voltar quando quiser.

Levo alguns segundos para entender o que ele está dizendo.

-É sério ?

-Sim.

-Mas…

-Mas foi o que eu disse.-Vi seu rosto enrugado se transformar em um pequeno sorriso.-Gostei de você.

Eu o agradeci e depois de nos despedimos,saí com um sorriso no rosto pronta para o dia em que voltaria ao Hospital de Livros.

Avistei Rudy sentando no meio fio,mexendo na sola do seu sapato que começou a descolar.

-Você ficou aqui o tempo todo ?.-Perguntei e ele olhou para mim estreitando os olhos por causa do sol que está prestes a se pôr.

-Não,cheguei faz mais ou menos meia hora…-Ele se levanta.-E então ? Como foi com aquele estranho ?

-Foi legal,eu acho.-Mostrei o livro a ele.

-Legal ?

-É,o senhor Maier foi muito gentil.

-Ele não parece ser uma pessoa gentil.-Rudy rebateu como se fosse dono do razão.

-Não parece,mas é.

Ele me deixou na porta de casa e apesar de Audrey ter torcido o nariz,não chamou minha atenção.

Ela me contou que tudo ocorreu bem no hospital e que de agora em diante,sempre teremos notícias de Max. Mas por enquanto nada de visitas para ele.

Apesar de estar ansiosa para lhe dar O Assobiador,não reclamei. Ter notícias dele sem precisar se infiltrar no hospital já é bom o bastante.

E eu ainda vou poder relê-lo,então o enredo ainda estará fresco na minha cabeça para debater as melhores parte com Max.

Audrey não conseguiu consertar à tranca,mas conseguiu prendê-la mesmo que parcialmente. Para mim ficou bom,o que me fez questioná-la sobre o porque devemos continuar dormindo no porão.

Sua expressão cansada iluminada pela luz da lamparina endureceu.

-Acho que nossa rua está com uma movimentação estranha de soldados.

-Como assim estranha ?

-Não sei,só...estranha.

-Audrey,os soldados andam o tempo todo em todo lugar. É normal.

-Bom,senhorita.-Ela suspira soltando o seu coque apertado.-Por via das dúvidas,vamos ficar aqui por enquanto.

E foi isso que fizemos.

Voltei algumas outras vezes ao Hospital de Livros.

Estou disposta a remendar todos que precisam de remendos.

O senhor Maier sorria e me servia café.

Como de praxe falava muito sobre seus livros,citando frases e personagens que o marcaram.

Mas nada sobre ele.

Ainda não sei porque  foi mandado para o Campo,nem sei se é casada ou tem filhos ou se tem alguma família.

Acontece quase o mesmo com Max.

Nas vezes que fui com Audrey para termos alguma notícia,falaram muito vagamente que ele ainda está em observação. Claro que não pudemos vê-lo. Não pude nem dar uma escapulida e entrar em seu leito. Audrey estava sempre me prendendo ao seu olhar atento.

E a Resistência…

Bem,ainda não botamos fogo como Abiel recomendou,então creio que está tudo indo bem.

Muitas famílias partiram,estamos apenas com dezenove pessoas,então não temos muito o que fazer a não ser darmos algumas roupas e comida enlatada e insistir para que aceitem.

Ontem mesmo,Hannah foi comigo levar Sophie até a estação de trem.

Ficamos até o trem desaparecer nos trilhos.

E Henry parece mais preocupado com o dia da prova de Bryanna do que com a própria Resistência.

Desde que brigaram,Henry anda treinando para não se atrasar.

Isso mesmo.

Treinando.

Bryanna finge que não se importar mas eu a vejo reprimir um sorriso toda vez que Rudy ou Hannah o parabenizam por ter chegado ou feito qualquer coisa na hora certa.

Apesar de correr e andar ofegante para todos os lados,está fazendo tudo na hora exata.

Já se passou três dias e Abiel ainda não voltou.

Passou quatro,cinco,uma semana inteira.

E não temos informação nenhuma sobre ele ou o julgamento.

Os locutores dizem ter ocorrido um contratempo e que logo teremos notícias sobre o dia exato da audiência.

Tentamos não nos preocupar com isso,ocupamos nossa mente com o pensamento de que devem estar interrogando Abiel e examinando suas provas. Nos forçamos a pensar que nada de ruim aconteceu.

Mas foi no dia da prova que esses pensamentos me abandonaram,sendo ocupados por outro bem maior.

No que me meti ao aceitar a proposta do senhor Maier.

É cedo,mas eu estou atrasada e não encontro meu casaco em lugar nenhum.

-Você já olhou na última porta do armário ?.-Grita Audrey

-Não vou chegar tarde !.-Grito de volta assim que o encontro. Puxo do cabide com pressa fazendo que duas moedas voem do bolso fazendo um agudo tilintar ao cair no chão.

Por um momento,penso ter pego o casaco de Audrey por engano, mas não peguei.

É o meu casaco cinza com mangas pretas que Emmalyn deu.

Pego as moedas e quase indo perguntar a Aududrey se ela não havia as colocado aqui por engano.

Mas paro porque a resposta é óbvia.

Estamos com pouco dinheiro e essa quantia é perfeita pra comprar duas batatas e um pouco de sal.

Conheço Audrey,ela não se daria o luxo de ficar mais tempo do que o necessário com elas e nem de dá-las a mim. Pelo menos não enquanto estamos em uma situação dessas.

Lembro de pegar o mesmo casaco e ir até o senhor Maier.

Lembro dele perguntando :

-Você trabalha em algum lugar ?

-Não,senhor.

Ele está me pagando pelos meus serviços.

Por ajudá-lo a remendar os livros.

Eu,a garota que tentou roubá-lo.

-Liesel ! Você não está atrasada ?! Não quero que saia tarde e volte mais tarde ainda !.-A voz de Audrey vindo da cozinha me desperta.

-Já estou indo !

Coloco uma moeda na segunda gaveta da cômoda de Audrey e a outra volta para meu bolso.

Talvez eu consiga comprar algum doce pra dividir com Rudy depois da prova.

A escola está lotada com alunos,pais e professores para todos os lados. É meio estranho voltar aqui depois de quase um mês sem frequentar as aulas,mas Audrey me garantiu que assim que o julgamento acontecer e os soldados saírem da cidade,vou retomar os estudos.

Em alguns cantos tem caixas lacradas e soldados armados como se estivessem guardando algo preciosismo ali,mas todos sabem que não passa de munição,roupas e essas coisas idiotas que soldados precisam.

Encontrei Rudy e Bryanna em frente a grande porta que dá acesso às salas.

Bryanna acenou animadamente para mim e eu pude ver o quanto está bonita hoje.

Está usando um vestido azul com mangas,as bochechas estão rosadas como acontece quando ela fala demais,os cabelos soltos com presilhas e...flores.

Posso jurar que vi as mesmas flores no caminho para cá.

Eu abri a boca pra elogiá-la,mas ela ergue as sobrancelhas e diz:

-Hannah.

-Ah...é claro.-Digo.-Mas de qualquer maneira,você está mesmo muito bonita.

Rudy assente,concordando.

-Gentileza de vocês.-Ela cora ainda mais.

-Você não vai acreditar.-Disse Rudy.-Bryanna e eu acabamos de descobrir que as provas não vão ser abertas ao público.

-O que? Por que ?

-Não sabemos.

-Para a prova de arte até que faz sentido,mas a de esportes ? É essencial ter mais alguém além dos jurados,não acham ? Agora nós não vamos ver o Rudy e à idiota.-Ela bate na porta fazendo Rudy se sobressaltar.-Não abre a droga da porta para eu pegar um pouco de chá !

Ela para,respira fundo e olha para nós com seus olhos verdes bem abertos.
-Bryanna.-Rudy diz com calma.-Vai dar tudo certo.
-Eu sei que vai !.-Mas não parece que ela sabe.
-Então...-Acho que estou entendendo o que está acontecendo.Rudy me lança um olhar aterrorizado mas não sei se ele está pensando no que estou pensando.-Henry ainda não chegou ?
Rudy bate a palma da mão na testa.
-Não,ele não chegou. E quer saber eu não me importo. Ele com certeza iria se atrasar e sabe porque,Liesel ? Porque ele não se importa !.-Já faz um tempo que eu não a vejo tagarelar desse jeito.-E eu quero ver a desculpa  que ele vai dar ! Ah,essa eu quero ver ! Não que eu me importe com isso. Porque eu não importo mesmo.
-Bryanna.-Rudy suspira.-Ainda falta meia hora para a sua prova.
-Eu sei,e é exatamente por isso que eu não estou preocupada. Eu pareço preocupada,por acaso ?
-Ah,não! Claro que não !
-De jeito nenhum.
-Ótimo.-Ela bate na porta novamente.-Eu só queria um chá !
Como resposta,uma mulher em um vestido lilás finalmente aparece,abrindo a porta e chacoalhando um molho de chaves.
-Me desculpem a demora.-Disse com um sorriso simpático.-Tivemos alguns problemas,mas já resolvemos.

Algumas pessoas aproveitaram para entrarem,usarem o bebedouro e o banheiro da escola.
-Eu queria saber se vocês tem alguma outra coisa além de água. Uma xícara de chá,por exemplo. Se não for incômodo,é claro.
-Não,me desculpe. É a ansiedade por causa da prova,não é ? Posso preparar uma xícara de café,se preferir.
-Neste caso...-Bryanna começou a mexer nos bolsos do vestido e eu não acreditei quando a vi tirar dois sachês de chá dos bolsos.-Eu mesma posso preparar ?
-Eu não a conheço.-Rudy murmurou para mim ao sair de fininho.
Minutos mais tarde,estamos sentados em frente a escola esperando por Henry.
Bryanna bebericando calmamente seu chá de amora.
-Estão nervosos?.-Pergunto.
-Não.-Respondeu Bryanna mas a xícara de chá tremeu levemente.
-Sim.-Disse Rudy.
-Mesmo ?.-Normalmente ele não se preocupa com essas coisas.
-É.-Ele passa os dedos em seus cabelos raios de sol.-É diferente dessa vez.
-Por que ?
-Porque agora sei que estou sendo testado.
Silêncio.
-Já em Munique eu não sabia. Agora que eu sei é meio...assustador.
-Você vai se sair bem.-Garanto a ele.-Tenho certeza.
E eu tenho mesmo.
O grupo de esportes foi o primeiro a ser chamado.
Conseguimos acompanhar Rudy até a porta do ginásio antes de sermos obrigadas a parar.
Ele entrou e eu e Bryanna corrermos para a grade e gritamos incentivos para ele que sorri para nós ao se juntar com o grupo de atletismo.
Ficamos até um homem grande bem arrumado pedir para nós sairmos.
Relutante,voltamos para a frente da escola.
Bryanna terminou seu chá e agora brinca com a xícara branca.
Ela volta a tagarelar mas,conforme o tempo vai passando,suas palavras vão diminuindo cada vez mais até sumirem quase que completamente.
-Sabe,talvez tenha acontecido alguma coisa na Resistência e ele teve que ficar. Sabe,resolver o problema e essas coisas que agora são da responsabilidade dele.-Tento.
-Talvez.
E o tempo passa.
-Ou talvez ele tenha errado o caminho.
Bryanna olha para mim.
Apesar de linda,seu rosto é triste e de dar pena.
-Liesel,é a escola. Quem erra o caminho da escola ?!
-Estamos falando do Henry.-Até para mim minha voz não soa convincente.
Quando o grupo de arte foi chamado,Bryanna já havia roído quatro unhas sendo que uma delas está sangrando.
Não sabia o que dizer para acalmá-la então a acompanhei até sua sala e lhe dei um grande abraço.
-Vou estar aqui quando você sair,não se preocupe.
-Obrigada,Liesel.-Ela me dá outro abraço.
Consegui ver várias telas de pinturas antes que a porta fosse fechada.
Não tem muito o que fazer nem com quem conversar enquanto Rudy e Bryanna estão ausentes.
No fundo sei que Henry não vai chegar nem tão cedo -isso se aparecer- então resolvi gastar minha única moeda.
Não é muito,é claro.
Mas depois de uma longa busca na mercearia,consigo comprar um único krapfen de baunilha,que depois de embrulhado,guardei no meu bolso.
Apesar de ser  tentador dar uma grande mordida,estou decidida a dividi-lo com Rudy.
Volto para escola e eu e o tédio esperamos por eles.
Vi o senhor Aigner,mas ele estava apressado com pastas debaixo dos braços e não me viu.
Esperei e me arrependi de não ter trazido O Assobiador comigo.

O tempo parece passar mais rápido com um bom livro.
Rudy foi liberado antes de Bryanna.
Eu vi vários garotos suados e alguns sem camisa saindo do ginásio. Eles conversam animadamente,toalhas jogadas nos ombros.
Não foi difícil de encontrá-lo naquele meio.
Sua regata branca está em papada e grudada no rosto assim como os cabelos loiros. Eles lembram areia em contraste com seus olhos de oceano bem alertas.
Se ele já foi o céu,hoje é o mar.
Parece um atleta profissional.
Tento não perder o fôlego e imploro para minhas bochechas pararem de queimar enquanto me aproximo.
-Saumensch!.-Ele me saúda um sorriso de orelha a orelha.
-E então?
O sorriso diminui.
-Não sei muito bem.-Ele dá de ombros.-Competi com um pessoal muito...preparado. Cheguei em segundo lugar duas vezes e em quarto uma vez,mas não sei se é o suficiente. Ouvi boatos de que vão aceitar pelo menos sete participantes,então...
-A vaga já é sua.-Garanto.
-Não sei.-Responde humildemente
Eu estava prestes a lhe contar sobre o doce quando Rudy franziu a testa e inclinou a cabeça indicando algo a frente.
-Aquele ali não é o Henry?
Segurando uma bolsa surrada com se fosse seu bem mais precioso ele vem correndo até nós.
-Por favor...-Ele diz ofegante,quase cambaleando.-Me diga que ela...que ela...não entrou ainda.
Apesar de Rudy sorrir ele parece decepcionado com Henry.
-Na verdade,ela está prestes a sair.
-Droga. Droga. Droga.-Henry repete a voz desesperada.-Ela vai me matar. Ela vai...
-O que aconteceu?
-O que aconteceu ?! Eu vou te contar o que aconteceu,Liesel ! Eu estava...
É claro que sala de arte resolveu se abrir neste exato momento.
E Bryanna tinha que ser uma das primeiras a sair.
O Vestido está manchado de tinta,assim com as mãos e o rosto.
Por incrível que pareça,isso se harmoniza perfeitamente deixando-a ainda mais bonita .

Ela sorri ao me ver mas logo seus olhos recaíram sobre Henry e seu assume uma expressão rígida e séria.

-Bryanna…-Voz rouca e seus olhos suplicantes.
Ela nem olha para ele.
-Como foi Rudy?.-Ela pergunta andando na frente fazendo com que seja necessário apressar os passos para acompanhá-la.
Enquanto Rudy responde,empurro Henry para ficar ao seu lado
-Bryanna, por favor,me escute...-Ele começa a abrir a bolsa mas aparentemente o zíper emperrou.
-Bem,também não sei como fui.-Ela diz em certo ponto da conversa.-Eu...
-Bryanna,por que a pressa ?.-Pergunto em uma tentativa de fazê-la parar e quem sabe falar com Henry.

-Eu não disse ? Minha mãe vai vir me buscar.
-Bryanna,você tem que me escutar !.-Henry diz dessa vez com mais firmeza.
Ela para de andar e olha bem para ele.

Mesmo tendo metade do tamanho dele,parece cruel e ameaçadora. Já presenciei várias brigas deles mas em nenhuma eu a vi desse jeito.
-Não.-Diz sem hesitar.
-Eu...
-Bryanna !.-Vejo a senhora Swentts acenar para ela no meio de alguns pais.
Henry volta a lutar com a bolsa.
-Estou indo !.-Ela grita de volta.-Vejo vocês amanhã.

E então corre até sua mãe.
Henry vai atrás,mas para no meio do caminho porque,juro,algo se mexeu dentro da bolsa. Ele alterna entre gritar por Bryanna e xingar baixinho,mas apenas  quando elas cruzam a esquina e desaparecem de vista,que o zíper volta a funcionar.
Ainda xingando Henry senta no asfalto e tira um coelho da bolsa.
Um coelho.
-Jesus,Maria e José.-Rudy murmura.
-Você comprou um coelho ?.-Pergunto incrédula.
-Eu não disse que comprei...
-Você roubou ?!
-Talvez...
Rudy e eu trocamos olhares sem acreditar no que estamos vendo.

A escola começou a esvaziar e nós continuamos no asfalto sentados ao lado de Henry e ouvindo a sua parte da história.
-Eu tinha voltado para casa para levar Helga até a casa de uma amiga e bem...não contem isso a ela mas eu já estava uns bons cinco minutos atrasado. Deixei Helga e quando estava vindo para cá,passei em frente casa com muitos animais no quintal da frente. Dois gatos,um cachorro,uma gaiola cheia de pássaros e...quatro coelhos. Logo lembrei de Bryanna,então....
-Mas ela não acha que coelhos são criaturas cruéis ou algo assim ?.-Lembra Rudy.
-Também. Mas quando ela havia acabado de entrar para a Resistência e estava desesperada,fez uma lista de coisas para fazer antes de ser morta por um oficial. E uma dessas coisas era ter um coelho. Então eu o peguei. Deu muito trabalho e foi muito difícil de pegá-lo. O cachorro quase me matou.-Ele levanta a manga da camisa nos mostrando machucados bem vermelhos.-Isso tudo me atrasou muito.
Olhei para a criaturinha de olhos pretos no colo de Henry. Longas orelhas e com o focinho arrebitado,completamente alheio ao estrago que causou.
Rudy não parece mais irritado com Henry.
-Até que foi uma boa idéia.
Henry dá um risinho e tampa o rosto com as mãos.
-É,ela também vai ter uma boa ideia....cortar a minha cabeça.

Ele voltou para a Resistência junto com o coelho. A única coisa boa de tudo isso,ele disse,é que lá tem como ele esconder o coelho da mãe.
Está escurecendo e enquanto voltamos para casa,lembro do doce no meu bolso.

-De onde você tirou isso ?.-Rudy ri quando eu o mostro a ele.
E debaixo da luz pálida do poste nos deliciamos com o krapfen de baunilha e lambemos os nossos dedos sujos de açúcar.
Rudy vai comigo até em casa como de costume.

Mas depois do doce,Rudy parece diferente,um pouco inquieto,sem saber onde de colocar as mãos

-O que foi ?.Pergunto quando chegamos na frende de casa.
-Sabe,Saumensch...-Ele finalmente decide por colocar as mãos no bolso.-Eu estive pensando...
Mas ele não pode me contar o que estava pensando.
A porta atrás de mim se abre e Audrey com seus olhos de tempestade segura meu braço.
-Entre agora.
-Audrey,o que ...
Ela puxa meu braço com mais força.

-Desculpe,eu não achei que estava tão tarde assim.-Rudy entra no meio de nós duas de um jeito educado,mas eu o conheço e consigo ver que não está nada contente por ver Audrey me segurando desse jeito.-Olha...
Mas Audrey agarra seu braço e também o puxa para dentro.

-O que está acontecendo ?

-Eles estão mesmo atrás de nós.

-Quem ?.-Rudy pergunta,segurando o braço de Audrey fazendo com que ela pare de andar descontrolada pela casa.

-Os soldados.-Ela se solta.

Eu não tinha dado a devida importância quando Audrey me alertou quando tentaram invadir a casa e nem em todos os relatos sobre o que os soldados fazem com as mulheres quando invadem uma cidade.
Mas também nunca a tinha visto desse jeito.
-Estão atrás de vocês?!-Rudy quase grita comigo.-E você não me disse nada ?!
-Eu não achei que...
-Liesel !
-Fiquem quietos !-Audrey briga e nos forçamos a ficar em silêncio. Ela começa a espiar pela janela.
Rudy e eu nos atropelamos para poder ver também.
-Saí daí.
-Saí daí você.
-Calem a boca!
Brigamos em silêncio mas eu finalmente consigo dar uma olhada.
A essa altura o céu já está escurecido e a rua vazia. Os poucos movimentos que vemos são as luzes acesas das casas vizinhas e as silhuetas passando para lá e para cá.
Audrey vê algo e fecha a cortina rapidamente.
-O porão ! Vão para o porão agora !
-Mas...
-Eu disse agora !.-Ela veio até nós e começou a nos puxar,abriu a porta do porão.

Me empurrou primeiro e depois Rudy.
Foi tão rápido que não tivemos tempo de nos apoiar na escada e caímos um em cima do outro.
-Audrey! Audrey!.-Rudy chamou subindo a escada,mas antes que ele pudesse chegar ao topo,ela fecha a porta.
Com um clique,ouvi a porta sendo trancada.

Me junto a Rudy e tentamos abrir a porta.
Fazemos de tudo.
Batemos,empurramos,gritamos por Audrey.
Mas nada adiantou.
Quando achei que estávamos conseguindo,ouvimos o som de algo raspando o chão,um móvel sendo arrastado.
Foi aí que percebi que Audrey colocou a poltrona em cima da porta,agora sim impedindo totalmente nossas chances de abrir a porta.
Os nós dos dedos de Rudy estão vermelhos e machucados de tanto forçar a nossa passagem.
E ele continuaria se eu não tivesse puxado seu ombro e pedido silêncio para que tentássemos ouvir qualquer som estranho vindo de cima.

Ele se acalma,mas tudo parece igualmente quieto o outro lado da porta.
Quero dizer alguma coisa.
Qualquer coisa.
Mas o olhar preocupado de Rudy analisando o porão atrás de alguma coisa que possa nos ajudar a sair,me cala.
Eu o ajudo,mas o usamos apenas para dormir. E não tem nada a além do colchão,cobertores,travesseiros,uma vela apagada e uma lamparina rachada.
Rudy estende a mão para pegar algo mas ouvimos passos e ele congela.
Pesados e quase fazendo uma explosão em todo o silêncio.
Reconheço o som de botas pesadas. Lembro de como fugia ao ouvir os som das botas dos oficiais.
Rudy e eu voltamos para a escada o mais próximo que conseguimos.
Quando os passos se aproximam cada vez de onde estamos,Rudy murmura :
-Fique atrás de mim.
Em outra ocasião eu não faria o que me pediu,mas eu não consigo identificar nada na sua voz,nenhuma familiaridade e acredito que ele ainda possa estar bravo comigo por não ter dito nada sobre os soldados.
Então,vem as vozes
Não entendemos nada,é claro.
São soldados soviéticos e consequentemente falam russo.

Espere ouvir a voz de Audrey.
Um grito avisando para ficarem longe dela.
Mas não ouvi nada.
Ela deve ter se escondido também.
Mas por que não aqui ? Por que não conosco ?
Eles continuam a falar e a falar.
Por um momento quis que revirassem  a casa,tirassem a poltrona do lugar para que Rudy e eu pudéssemos sair.
Mas e depois ?
O que vamos.fazer ?
Não temos armas e elas certamente as possuem.
E não sabemos quantos são.
Acredito que dois,mas quem sabe ?
E no meio daqueles ruídos de palavras incompreensíveis para mim,surge a voz dela,límpida e sem perder o tom autoritário.
-O que querem aqui?
Vejo Rudy prender a respiração.
Novamente uma confusão de passos.
Não consigo deixar de imaginar um deles segurando Audrey e encostando o cano do revólver na sua testa.

-Outras.-Voz ríspida do soldado.-Outra.
Agora eu que prendo a respiração.
Os ombros de Rudy ficam mais tensos.
-Do que está falando ?.-A voz dela nem está trêmula.
Os soldados voltam a conversar entre si,e ouço o som de móveis sendo revirados,louças sendo quebradas.
Eles falam cada vez mais alto,parecendo cada vez mais alterados.
-As outras garotas.-Diz outra voz. Dessa vez mais clara e com menos sotaque.-Onde estão as outras garotas ?
-Não entendo.-Ela responde.-De quem estão falando ?
Mas eu entendo.
Hannah veio comigo buscar o pote das crianças veio experimentar meus vestidos quando não tinha nada para vestir. Ontem mesmo passamos por aqui com Sophie a caminho de estação.
E todas as vezes que eu voltei mais tarde para casa.

Eles a querem.

Eles me querem
Eles querem Hannah.
A bagunça continua com e os passos estão cada vez mais fortes.
Então,eu ouço o som inconfundível da porta batendo,a tranca quebrada tilintando.

Silêncio.

Rudy finalmente olha para mim.

Parece ter acabado.

Mas assim que ele abre a boca,a voz abafada do soldado pode ser ouvido.

Ainda não entendo o que diz,mas está diferente,parece...calma.

Passos que antes foram tão pesados,parecem leves.

Consigo ouvir claramente o som de tecido sendo rasgado.

Penso no vestido azul de Audrey.

Rudy volta fazer força contra porta mas novamente nada acontece.

O soldado continua falando em voz baixa.

Ouço um grunhido,algo próximo a um gemido.

Audrey diz algo,mas não consigo entender.

O porão parece se encolher,o meu coração bate rápido demais.

Tum-tum.

Tum-tum.

Mais grunhidos arfantes.

Rudy continua a investir contra a porta,desesperado.

Eu tento ajudar empurrando e batendo mas parece cada vez mais difícil continuar.

Tum-Tum.

Minhas lágrimas queimam o meu rosto quando penso no corpo do soldado contra o corpo frágil de Audrey.

As paredes parecem se encolher cada vez mais quando ouço o choro de Audrey junto com os grunhidos.

Rudy me puxa para perto e tampa meus ouvidos.

Tum-Tum.

Tum-Tum.

Não sei por quanto tempo ficamos desse jeito,mas quando Audrey enfim nos tirou do porão,os raios de sol já estava batendo nas janelas,fazendo sombras no chão.

Audrey estava limpa,os cabelos úmidos,exalando um cheiro de sabão e usando um vestido rosa que não é típico dela.

A casa está perfeitamente arrumada,ninguém diria que há algumas horas o caos reinava.

Me perguntei como ela conseguiu arrumar a casa inteira depois de tudo o que aconteceu.

Ela nos abraçou por um longo tempo deixando com que despejassémos nossas preocupações e respondendo quase todas com ‘’Eu estou bem. Sim,bem. Não se preocupem.’’

É claro que não perguntamos o que aconteceu.

É óbvio,e por mais que ninguém possa ver,a atrocidade parece estar grudada nas paredes,grudada nos pés da mesa e por toda casa.

Eles não a queriam.

Queriam Hannah e você.

Queriam você.

Audrey salvou você.

Audrey sentiu tudo no seu lugar.

Era para ser você.

É um lembrete que fica repetindo na minha mente e quase sinto as palavras grudadas na minha pele.

Mas sei que não me sinto tão sujo quanto Audrey deve estar se sentindo.

De repente tudo parece um borrão e as vozes tão distantes.

Rudy demora para ir embora.

Ele anda pela casa como se esperasse encontrar um soldado escondido embaixo da cama. Fecha as janelas e prepara chá para nós.

Parece tão perdido quanto nós.

A quem devemos recorrer quando os monstros estão no comando ?

Foi assim durante a Guerra e está sendo depois dela.

Quero tudo volte ao normal,mas eu não me lembro de como é viver sem temer.

Apenas depois de Audrey insistir que os pais de Rudy já devem estar com um grupo de busca atrás dele é que ele vai embora.

Abraça nós duas e beija minha testa.

Sussurra algo no meu ouvido mas,novamente,sua voz é distante demais.

Enfim,Audrey e eu estamos sozinhas.

Em pé e diante do trinco quebrado da porta.

-Audrey,eu…

-Senhorita Liesel,está tudo bem,eu já disse.

-Não,não está ! Ele,eles…

-Foi ele.-A tempestade em seus olhos troveja.-O outro tinha ido embora. Liesel,se eu digo que está tudo bem,é porque está bem.

Audrey dá um longo suspiro.

- Foi algo planejado. Sei disso porque já entraram aqui. Foi quando eu estava fora. Ainda bem que nenhuma de nós estava em casa. Como eu disse,é algo planejado.-Ela dá de ombros.-Iria acontecer uma hora ou outra.

-Não,eu devia ter ouvido Abiel. Se não tivesse vindo aqui atrás dos potes,eles não teriam me visto com Hannah.

-E se eu tivesse usado um pouco do dinheiro de Emmalyn para comprar trancas novas,talvez teria dado para correr. Mas não importa. Aconteceu. Você está bem,ainda temos um teto. Isso é o suficiente. Estou bem agora.

Agora.

Mas quem dirá daqui pra frente ?

-Está tudo bem.-Ela repete.-Está tudo bem…-Uma lágrima solitária cai.-Tudo bem.

-Audrey…

Nos abraçamos.

Seus braços tremem.

Choramos juntas.

Depois daquela noite as coisas mudaram completamente.

Por duas semanas não pude sair de casa. Nem quando contei a Audrey sobre o senhor Maier.

Disse a ela que o estava ajudando e que receberia um pouco de dinheiro,ocultando completamente como nos conhecemos.

Mas sem chance.

Era Audrey que varria a calçada,que ia até a mercearia e ao hospital saber sobre Max.

Não reclamei.

Mas pedi,quase implorei para que ela não saísse.

Não queria que aqueles soldados a visse novamente.

Mas é claro que ela não me ouviu.

A porta e a janela ainda estão quebradas,mas depois de muitos reparos nossos,conseguimos pelo menos trancá-las com a chave.

Audrey me tranca pelo lado de fora toda vez que sai.

Sei que posso sair escondido.

Mas não saio.

Não quero correr o risco.

Rudy vem quase todos os dias nos ver. Nos conta o que anda acontecendo na Resistência.

Bryanna e Henry ainda não estão e falando.

Abiel ainda não voltou e não temos nenhuma notícia dele.

Ainda não saiu o resultado das provas.

Não foi preciso pedir a Rudy que não contasse a eles o motivo da minha ausência.

Não sei o que contou a eles,mas ninguém veio me visitar,então deve ter dito que eu estou fora da cidade por um motivo qualquer.

Foram duas longas semanas de livros relidos e louça limpa sendo lavada novamente.

No último dia,Audrey tinha saído para pedir ovos emprestado para nossa vizinha e voltou sabendo que metade da tropa dos soviéticos deixou ontem a Alemanha. Não só as cidades grandes,como as pequenas também.

Então,finalmente,ela me deixa sair.

Assim que boto os pés para fora me dou conta de como senti saudade.

Saudade de andar nas ruas esburacadas,ver o sorriso de estranhos ao dizerem ‘’bom dia.’’,sentir o cheiro das padarias ao passar pelas calçadas.

Mas aos poucos eu vou diminuindo meus passos.

Penso em quantas mulheres passaram pelo mesmo que Audrey e quantas delas se recusam a sair de casa por medo.

É uma vergonha saber que aqueles que cometeram essas atrocidades estão por aí,fazendo o mesmo com mais mulheres.

Apesar de saber que esse pensamento vai me perseguir por toda vida,me esforço para ignorá-lo,pelo menos enquanto faço meu caminho até a Resistência.

Respiro fundo e volto andar decidida.

Pensei em ir primeiro ao senhor Maier.

Mas mudei de ideia.

Afinal,a Resistência continua sendo minha principal responsabilidade,mesmo depois da Guerra.

Abro o grande portão e aquele familiar som de metal enferrujada me sauda.

Tudo está calmo.

E,olhe só,Abiel,todos os prédios estão inteiros ! O que você acha isso,hein ?

A primeira pessoa que encontro,é Henry.

Ele está sozinho,cabelos mais bagunçados do que nunca por causa do vento.

Vou até ele que parece meio perdido nos próprios pensamentos,mas por fim,acaba me notando.

-Liesel !.-Henry me abraça.-Até que fim ! Sentimos sua falta !

-Também senti de vocês !.-E é verdade. Ainda me surpreendo o quanto me apeguei a cada um deles.

-Então,como foi lá em Dresden ?

-Em Dresden ?

Lembro que não sei o que Rudy contou a eles.

-É,Rudy disse que você e Audrey foram visitar a avó dela que estava...quase morrendo ou coisa assim.

Meu Deus,Rudy.

Meu Deus.

-Ah,é claro.-Respondo tentando não demonstrar minha incredulidade.-Acabou que ele não morreu afinal.

-Ainda bem.

-Sim…-Digo apressada para mudar de assunto.-Como está sendo ficar no comando ? É tão difícil assim não por a Resistência a baixo ?

Henry ri.

-Está tudo certo,eu acho.

-E Bryanna ?

O sorriso morre.

-Finge que eu não existo.

-Hannah ?

-Está de namorado novo.

-O rádio ?

-Nada de notícias.

-Não botou fogo em nada ?

As respostas na ponta da língua acabam.

-Bem,houve um incidente na cozinha mas nada que não conseguimos resolver.

Nós dois rimos.

-Bem,pelo menos ainda está de pé.-Henry diz e eu o acompanho indo para direção oposta ao nosso prédio.

-Onde está indo ?

-Eu preciso pegar uma daquelas caixinhas onde colocamos a comida enlatada para viagem. É para a senhora Azulay.

Eu não me lembro muito bem dela.

-Ela vai embora ?

-Vai.-Entramos no prédio ao lado dos escombros do bombardeio.-Amanhã de manhã.

Vamos até a segunda sala.

Está cheia de caixas de papelão desmontadas,cadeiras com pernas quebradas. Tem um armário pequeno encostado no canto.

Ajudo Henry a procurar naquela bagunça,mas só tem caixas grandes demais.

-Acho que deve ter algumas ali dentro.-Vou até o pequeno armário.

Tento abrir a porta mas ela está emperrada.

-Deixa que eu te ajudo.-Assim que Henry se aproxima,consigo abrir a porta.
Preciso piscar duas vezes para acreditar no que estou vendo.
Todo encolhido e sujo como um rato,um homem que aparenta ter trinta e poucos anos está encolhido no interior do armário.
Henry se aproxima um pouco mais com a testa franzida.
O homem tem cabelos loiros cor de palha,o uniforme está imundo mas ainda é possível ver a suástica vermelha presa por um fiozinho quase se soltando do tecido.
Homens da Águia,como diz Lyra.
Não tenho tempo para perguntar o que vamos fazer e nem porque ele está aqui.
Ainda com a testa franzida,Henry fecha o armário que range,e dá as costas como se nada tivesse acontecido.



Notas Finais


Agora deixa a tia explicar esse finalzinho de capítulo pra vcs (porque vai que vcs ficam ???¿¿¿¿ igual quando a Audrey voltou né ) não é nada tão importante,relaxem
eu acho que não comentei isso com vocês,mas bem no finalzinho da Guerra quando os nazistas estavam fugindo existe alguns relatos de moradores de cidades pequenas,principalmente rurais,que encontraram nazistas escondidos em suas terras. Afinal,eram criminosos e estavam sendo caçados não só pelos soviéticos,como também pelos ingleses,holandeses e esses países aí do rolê da Guerra. Então é tipo O JOGO VIROU NÃO É MESMO,NAZI ?!
Mas agora voltando ao capítulo,o moço que se escondeu na Resistência obviamente não sabia que ali era/é uma Resistência. Mesmo já fazendo um tempo que a Guerra acabou,ele foi capturado logo no começo,e estava sendo levado para ........
Mas ele conseguiu fugir,conseguiu entrar na cidade e assim que viu aqueles montes de prédios viu uma chance.
Por que Henry o ignorou ?
Ô gê,Henry nera parça dos nazis junto com o pai dele e se arrependeu depois não?
Apesar de ter lutado contra os nazistas,Henry acredita firmemente no conceito do que é a Resistência. Para ele,não é "vamos ajudar só o pessoal que pode ser mandando pro campo " Não. A Resistência é mais "se procurar abrigo debaixo do meu teto,abrigo encontrará " Mas vamos deixar bem claro que ele não vai pegar o moço,levar ele pra dentro com os judeus e tudo o mais. Não, ele vai deixar o moço lá. Se alguém perguntar,para todos os efeitos,ele nunca nem viu nazi nenhum.
PRONTO PODEM IGNORAR O RESTO SE QUISEREM
Meu bebê é tão precioso pra esse mundo cruel.
Acho que não preciso explicar nada sobre o que aconteceu com a Audrey,preciso ? Os avisos sobre os soldados soviéticos estão em muitos capítulos e acredito já ter falado deles nas notas pra vocês.
Então acho que é só
BJAO NO CORE MAMÍFEROS
PERA
Ô GENTE ALGUÉM VAI NA BIENAL NO DIA 8? A NANNETE AMIGA DA ANNE FRANK VAI TÁ LÁ EU TÔ MITO FELIZ ME ABRACEM
E SERIA MUITO LEGAL SE EU ENCONTRASSE ALGUM DE VOCÊS PRA GENTE PODER VIRAR MAIS QUE AMIGOS,FRIENDS


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