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História Feridas e Flores - Capítulo 5


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Notas do Autor


(Sim, eu atualizei no Watts e esqueci que também postei aqui, srry)
.
Boa Leitura!

Capítulo 5 - O Jogo


Fanfic / Fanfiction Feridas e Flores - Capítulo 5 - O Jogo

“Não era Rússia, então quem era?”

— Quem é você? — O homem questionou ao mesmo tempo que Polônia pensou, o tom frio e desconfiado soava como uma ameaça, e ele estreitava os olhos em uma expressão intimidadora, havia uma aura diferente nele, como se estivesse silenciosamente desprezando sua existência. Sem pensar, o polonês usou toda sua força para bater à porta, surpreendendo o estranho, que colocou as mãos no vão da porta, impedindo que fechasse — Ei, ei, cuidado! O que pensa que está fazendo?!

— Quem é você?! – Polônia perguntou ainda empurrando a porta, vendo o homem abrir um sorriso zombeteiro, forçou ainda mais, mas não viu resultado, a essa altura seu coração já batia forte contra o peito, puxava o ar em arfadas curtas e rápidas, suas mãos tremendo contra a madeira da porta. Esperava que o cachorro estivesse agitado ou que tentasse morder, mas Aly permanecia sentado ao lado da porta, a língua no canto de sua boca enquanto ele assistia a disputa e latia vez ou outra. Pequeno traidor!

— Eu tenho a impressão de que perguntei primeiro. – O invasor retrucou em tom de deboche e empurrou de uma vez, forçando o menor para trás e conseguindo entrar, suspirando fraco pelo esforço. Mas tão logo recuperou o fôlego, sua postura retornou a tencionar conforme ele analisava o homem a sua frente — Vou te dar uma dica. Sou irmão mais novo do cara alto com cara de depressivo. E você é bem mais forte do que parece com esses bracinhos, quase arranca meus dedos.

Então ele era irmão de Rússia? Polônia respirou com mais facilidade, percebendo que sim, eram de fato muito parecidos, embora ele com certeza fosse menor e não possuísse os orbes cinzentos como os do albino.

— Desculpe, qual o seu nome?

— Ele não falou de mim? Idiota como sempre! — Resmungou baixo — Belarus, é o meu nome.

— Oh...

— Sua vez de responder, quem é você e o que faz na casa do meu irmão? – Ele deu um passo à frente, obrigando o polonês a olhar em seus olhos, era quase como uma intimação, mas antes que pudesse falar qualquer coisa, ele continuou — E por que diabos está tão machucado? Parece que um caminhão carregando facas passou em cima de você.

— Eu... Caí...

— Caiu em cima do punho de alguém. – Belarus revirou os olhos, guardando uma das mãos no bolso, usando a outra para apontar no peito alheio — Sinceramente, eu não dou a mínima. Só quero saber porquê está aqui.

— Rússia... Ele está cuidando dos machucados para mim.

— Hm... – Resmungou, observando em silêncio enquanto o menor se remexia inquieto no lugar, batendo o pé no chão repetidamente. De repente, uma luz brilhou em sua mente — Espera aí... Eu te conheço!

Polônia encolheu os ombros com a exclamação, olhando-o com incredulidade, mas o maior não ligou, estalando os dedos como se tivesse resolvido um grande mistério.

— Acho que me confundiu com alguém...

— Não mesmo! Você é o garoto do restaurante! Como não notei antes? Poli... Pol.. Polônia? O cara que toca o piano a noite, suas músicas são ótimas, o que diabos aconteceu com você?

Os orbes safiras se desviaram dos esmeraldinos, e ele não respondeu, abraçando a si mesmo em silêncio, algo que rapidamente incomodou o mais alto, que trocou o peso de uma perna para a outra, encarando-o com curiosidade.

Nesse meio tempo, Polônia se sentiu lisonjeado por achar alguém que gostava e o reconhecia por sua música, ainda que estivesse um tanto assustado com as bruscas mudanças de humor alheia. Houve um longo momento de silencio entre ele e nesse meio tempo, aproveitou para observar melhor o outro, percebendo que ele trazia algumas sacolas, e havia comida nelas! Automaticamente seu estômago reagiu, fazendo com que corasse e arrancasse um sorriso maldoso do outro.

— Está com fome?

— Tak.

— Perdão?

— Sim, eu quis dizer sim.

— Bem então, vamos fazer assim, você me explica por que está aqui enquanto eu faço almoço, e se a resposta me agradar, deixo você provar minha comida. Parece bom? – Belarus propôs, vendo o loiro acenar um sim. Se afastou dele, cumprimentando rapidamente uma mulher que passava no corredor antes de finalmente fechar a porta, trocando seus sapatos na entrada por pantufas, tomando tempo e afagando Aly com carinho antes de se dirigir a cozinha com as sacolas que levava — Vamos baixinho?

— Estou indo.

Como prometido, Belarus não tardou a começar a preparação da comida, e assim que se sentou à mesa, Polônia recebeu um pacote de salgadinhos para esperar, soltando um pequeno agradecimento e começando a comer, apesar de estar grato, o de olhos azuis não baixou a guarda em nenhum momento, observando atentamente todas as ações do estranho. Ele realmente se parecia com Rússia, o porte forte embora mais baixo ficava escondido debaixo do suéter escuro, os ombros largos e um olhar afiado, como se pudesse analisar sua alma e desvendar todos os seus pecados – e julgá-los sem piedade.

Ele era bonito, portava um sorriso de lado, mostrando os dentes alinhados, mas as vezes parecia desdenhoso, como se todos estivessem abaixo dele, e o rebelde cabelo cor de mel combinava com isso, essa era a diferença mais marcante entre ele e o irmão, as mechas curtas que se espalhavam em todas as direções e emolduravam seu rosto lhe davam um ar um mais selvagem se comparado aos fios platinados e lisos do russo.

— E então? — Belarus questionou, lavando as mãos e derramando os ingredientes no balcão para começar a cortar os temperos.

— Hã? — Polônia piscou confuso, encarando-o.

— Por que está aqui? Não quero ser chato mas não fui avisado que você estaria aqui, e meu irmão não deixa pacientes dormirem na casa dele. Só posso supor duas coisas: Ou você é um ladrão, ou um amante. – Explicou tranquilo, mas ainda soava como uma ameaça para o polonês, que se surpreendeu ao ter a faca apontada para seu rosto, havia um sorriso sádico no rosto pálido conforme ele balançava a lâmina lentamente — Em qualquer um dos casos eu provavelmente mataria você.

— Não! Eu só... Seu irmão está cuidando de mim enquanto, bem, hmm – Sua voz foi diminuindo de tom conforme ele explicava, seus dedos se fecharam em sua blusa e ele abaixou os olhos, mordendo o lábio inferior.

O moreno, do outro lado do balcão, franziu o rosto, estranhando a reação alheia, e somente por isso baixou a faca, tombando a cabeça enquanto analisava atentamente o menor.

— Você é um paciente? – Indagou em um tom contido, mas não teve resposta, bufou frustrado — Então você está me dizendo que não sabe porque está aqui? É isso?

— Não... Não é isso, é que eu... Eu não sei se...

— Fale logo.

— Eu não sei se posso me chamar assim. Ele está cuidando de mim, mas não conversamos sobre isso, e eu não fui ao hospital, somos vizinhos e ele me ajudou, foi só isso.

Explicou, gesticulando vagamente quando parava para encontrar suas palavras, porém, não houve qualquer resposta vinda de Belarus, apenas um silêncio absoluto e crítico. Segundos depois, ele sorriu.

— Heh, você é igualzinho ele me contou.

— O quê?

— Ah, eu menti para você. — De repente ele soltou uma risadinha, lhe olhando com divertimento, logo se virando e voltando a sua tarefa — Meu irmão me avisou que você estava aqui, eu quis fazer uma visita surpresa enquanto ele trabalhava. Não imaginei que tentaria me expulsar a força.

O polonês estreitou os olhos, encarando as costas dele com pura confusão e um pouco de raiva por ter sido enganado daquela forma, ele quase tinha tido um infarto ali, e ele estava rindo!

— Não me entenda errado, ainda não gosto de você, mas já que está aqui, que tal um jogo de perguntas?

— Hm...

— Ótimo. Eu começo. Quantos anos você tem? – Polônia suspirou com a conversa fiada que viria, mas respondeu — Eu teria chutado uns dez anos a menos... Sua vez.

Procurou por algo aleatório, qualquer coisa que pudesse perguntar facilmente, seus olhos bateram na pulseira que ele usava, não combinava com nada do que ele vestia nem com seu estilo, era delicada demais, amarela e com pingentes de flores penduradas.

— Por que a pulseira? – “Porque eu gosto”, foi como imaginou a resposta, junto de um olhar irônico, ele o acharia idiota? Diria isso a Rússia? Polônia cogitava durante o momento de silêncio, vendo o outro parar o que fazia, lançando um olhar de soslaio.

— Ouch, você não sabe mesmo brincar não é? – Belarus sorriu, apenas um erguer de lábios, dessa vez seus olhos não acompanharam e ele ergueu o pulso para observar a pulseira — Isso aqui é parte do jogo. Eu não posso tirar.

— Jogo?

— É. – Ele suspirou baixo — Faz muito tempo, na verdade, acho que não têm problema se eu contar a você.

Polônia o encarou, não parecia que ele iria contar algo divertido, embora seu tom de voz permanecesse tranquilo.

— Éramos três irmãos. Todos nós tínhamos algo que gostávamos muito, acho que era uma superstição de família, eu tinha meu cachecol, Rússia tinha sua ushanka e Ucrânia tinha essa pulseira. – Parou por algum tempo, escolhendo suas palavras — Nunca andamos sem essas coisas, desde que as ganhamos, era algo único nosso, então um dia, houve um problema grave que afetou todos nós, e Rússia teve que passar cada vez mais dias longe de casa.

Desviou o olhar ao ouvir o tom melancólico, ele não via nada de ruim naquela história, mas podia sentir que tinha algo a mais, algo que não tinha coragem de perguntar ainda.

— Como éramos próximos, alguns dias longe pareciam uma eternidade, e foi Ucrânia quem sugeriu que a gente trocasse as coisas. Você já deve ter visto meu irmão com o cachecol, eu peguei a pulseira, e ela a ushanka, era uma forma de lembrar um do outro e decidimos por não desfazer a troca quando ele voltou. — Quando tudo estava no fogo, o moreno puxou uma cadeira, se sentando de frente para o loiro, o cheiro delicioso de comida caseira se espalhando pelo ar — Apostamos em quem tiraria primeiro e escolhemos castigos para quando isso acontecesse. Isso continua até hoje, somos três idiotas presos numa aposta de criança.

De repente ele lhe pareceu cansado, e Polônia encarou as próprias mãos, sem saber o que dizer depois de uma história daquele tipo.

— ... Vocês não têm outros irmãos?

— Não, só Ucrânia, aquela garota sem um pingo de educação. – Belarus rodou os olhos ao final — Sinto falta dela ás vezes, adorava quando dançava, Rússia e ela brigavam o tempo todo, uma vez ela tentou enterrar ele na neve, foi incrível, ele passou o resto do dia tirando neve do cabelo.

Ele riu, e o mais velho acompanhou em um volume mais baixo, imaginando a cena de duas crianças brigando na neve.

— E de onde vocês são? Não tem o sotaque daqui.

— Eu não lembro o nome, era muito pirralho, mas me lembro de que tinha tanta neve que dava para afundar inteiro, e o sol só vinha de meses em meses. — Havia nostalgia em seus olhos.

— Seus pais?

Dessa vez, houve um momento de hesitação do mais novo, seu peito afundou naquela emoção conhecido e ele puxou o ar com um pouco mais de força, deixando que as palavras saíssem.

—  Eles... Morreram durante a peste. Um vírus que se espalhou em nossa cidade, destruindo todas as famílias, inclusive a nossa. Primeiro nossa mãe, e meses depois, papa também não aguentou, ele sempre repetia o quanto sentia falta dela e que não adiantava lutar sem ela lá. – Sua voz vacilou ao final da frase, e suas mãos se fecharam, acertando a mesa com relativa força, Polônia estremeceu no lugar, mas o descontrole dele durou pouco e logo se recuperou, a mão direita indo ao cachecol enquanto virava o rosto para a janela — Eu falei um monte, e ainda não sei nada de você, sua vez de me contar o que quero saber, qualquer informação importante.

— Err... Tudo bem.

— Você tem algum irmão?

— Só um, quer dizer, não nos falamos a muito tempo...

A conversa demorou muito mais do que o esperado, mas foi até mesmo divertido depois que saíram do tópico “família e passado", o clima se tornou mais leve conforme ambos deixavam a desconfiança de lado e se abriam um pouco mais, mesmo que isso fosse difícil graças às suas experiências ruins.

E a comida boa poderia ser um excelente fator para isso ter acontecido, do ponto de vista do polonês, que se perguntava qual fora a última vez que comeu algo caseiro e tão gostoso, já que nos últimos anos havia revezado entre a comida do restaurante e a sua própria em casa, e mesmo a de Rússia não se comparava aos temperos fortes e equilibrados do bielorrusso, o que rendeu inúmeras perguntas do tipo “Por que não abre um restaurante", o que arrancava risadas do mais novo, que alegava estar satisfeito em seu trabalho como pintor, mesmo que o lucro não fosse alto e as vezes precisasse do apoio do irmão.

Foram horas boas, e o moreno até mesmo o ajudou a encontrar os materiais para refazer precariamente seus curativos até que o russo chegasse. Polônia descobriu que ele adorava pintar sobre guerras e amantes perdidos, sobre a opressão e como a ignorância afetava as pessoas – vendo inclusive algumas fotos em seu celular. E ouvi-lo falar sobre o tema com tamanha inspiração, derrubou uma barreira imaginária entre os dois, que passaram a compartir suas próprias artes e motivos com o outro com muito mais liberdade.

Mais tarde naquele dia, Belarus informou que precisava limpar o local, algo que fazia como um favor para o irmão, mesmo que Rússia não tivesse pedido, o mais novo gostava de saber onde cada coisa ficava, como se isso o deixasse mais próximo do outro e ainda poupava trabalho ao russo, que chegava exausto do hospital. Polônia não tardou a se oferecer para ajudar, e por mais que o moreno garantisse que podia fazer sozinho, ele não conseguiu impedi-lo de pegar os materiais e começar a faxina.

Estavam quase acabando quando Belarus decidiu entrar no quarto de Rússia, tudo parecia arrumado aos seus olhos, mas o moreno insistiu que o closet precisaria ser limpo e ele terminou indo junto. Para sua surpresa, não tinham roupas lá dentro, somente caixas e um espelho antigo, assim como um porta-retrato, que Polônia pegou, passando a ponta dos dedos no vidro para tirar a poeira e analisando-o com atenção.

Duas crianças sorriam para a foto, não demorou a identificar Rússia ali, com uma janelinha no meio do sorriso – que o deixava mais adorável –, usava a ushanka e tinha o pequeno Belarus grudado em sua perna, ambos pareciam orgulhosos do boneco de neve que tinham feito. Do outro lado, afastada de ambos, uma garota parecia estar chateada, ela não olhava para foto e seus braços estavam cruzados, fazia um biquinho emburrado, o vestido azulado e a trança loira caindo em seu ombro com pequenas flores no meio lhe davam um ar amável, mesmo que ela não parecesse muito feliz em estar ali.

— Você achou essa coisa velha. Eu parecia um bebê ao lado dele hehe. E Nia não parece um amor de pessoa? – Belarus parou ao seu lado, também olhando para a foto desbotada — Só de olhar, consigo ouvi-la reclamando, ela odiava quando papa saía conosco.

— É verdade. – Sorriu o polonês, encarando a carinha da garota com o mais novo ainda olhando sobre seu ombro. — ... Belarus, onde ela-

— O que estão fazendo aqui dentro?

A voz rouca ecoou pelo pequeno cômodo e Polônia congelou no lugar, um calafrio cruzando sua espinha quando o timbre grave e nem um pouco amigável alcançou sua audição, arrepiando os fios curtos de sua nuca, olhando de soslaio, a luz que vinha do quarto batia em suas costas e escurecia as feições antes gentis do albino, os orbes cinzentos brilhando como prata derretida sob a luz amarelada do closet. E enquanto o loiro procurava uma rota de fuga, Belarus, por outro lado, suspirou baixo ao ser pego no pulo, abrindo um largo sorriso antes de tomar o porta-retrato das mãos trêmulas do polonês e colocar no lugar, sustentando o olhar cortante do irmão, e não hesitando em se jogar nos braços dele. Rússia não pareceu surpreso, e o contato só durou poucos segundos antes que ele se irritasse e afastasse o mais novo.

— Boa noite para você também viu? Parece até que não sentiu saudades minhas. - Comentou emburrado, aceitando a distância imposta — Eu estava limpando, sempre venho fazer isso.

— Você nunca entra aqui. - Rússia rebateu de imediato, desviando o olhar do irmão para o polonês, que ainda não tinha saído de seu lugar, nervoso demais para prestar atenção na conversa — Fez isso por causa dele?

O sorriso do menor diminuiu e ele deu de ombros, levando uma das mãos ao cachecol e puxando de leve, os olhos verdes acompanhando os do irmão. — É culpa sua por trazer alguém tão adorável. Se ele conseguiu chamar sua atenção, então eu tinha que ver de perto, e testar ele.

— Seu idiota. Deixe que eu me preocupo com isso, seu ciúme é irritante. — O russo deu um pequeno tapa na cabeça do menor, vendo este formar um biquinho. Acabou suspirando, encarando a pulseira que ele levava no pulso — Ele já tem muitos problemas.

— Não se preocupe isso não foi um problema, ele passou no teste.

Houve uma troca de olhares cúmplices, conforme eles concordavam em encerrar o assunto por ali, e então Rússia se afastou, indo em direção ao polonês, Belarus observou a conversa de longe, não conseguiu evitar erguer os lábios em um sorriso discreto, não tão verdadeiro quanto os outros, havia uma pequena mágoa ali, que felizmente ninguém foi capaz de presenciar. “Se apaixonando por alguém assim, quem é o idiota aqui”, pensou, balançando a cabeça enquanto saía do quarto.

Xxx♡ xxX

Já era madrugada quando Polônia acordou, enrolando os braços em torno de si mesmo conforme respirava profundamente, sentindo a pressão típica em seu peito, sintomas repentinos como aquele eram os piores para lidar, mas ele já estava acostumado, e após longos minutos de tremores e pensamentos paranoicos sua mente finalmente se acalmou, junto de seus batimentos, aos poucos os tremores também pararam e ele conseguiu se sentar no colchão, encarando a escuridão do quarto.

Não tinha nada ali, repetiu para si mesmo, seus dedos apertados na borda da coberta com tanta força que as pontas ficaram esbranquiçadas. Sabia que estava sozinho, mas ainda tinha aquela sensação incômoda, uma inquietação, era como tentar capturar algo que está passando no canto dos seus olhos, um vulto, o sussurro em seu ouvido dizendo que deveria temer a escuridão. Nada disso o deixaria voltar a cama, e ele optou por se levantar, bocejando antes de sair do quarto, os olhos sempre atentos ao seu redor.

Havia luz na cozinha, e ele hesitou antes de ir até lá, em parte temeroso de que tudo aquilo ainda fosse um pesadelo e algo terrível aconteceria lá, mas também irritado, não devia ser pedir demais ter uma boa noite de sono sem tantas interferências.

Espiou do arco de entrada, não tinha ninguém, mas uma xícara de alguma bebida estava pousada sobre a mesa, a fumaça subindo e se desfazendo, parecia café e ele esboçou uma careta. Se aproximou, segurando a xícara e cheirando o conteúdo, descobrindo não ser café e sim chá.

— Insônia de novo?

Soltou um grito sufocado, quase largando a xícara no chão, se virou pronto para socar quem quer que fosse, mas encontrou somente o olhar compreensivo de Rússia, que agora o fitava curiosamente pelo susto que havia tomado, talvez prendendo o riso como da outra vez.

— Está tentando me matar?!

— Pensei que eu estava evitando isso. — Ditou sincero, tombando um pouco a cabeça de lado, o que quebrou a irritação do mais velho. Respirando fundo, Polônia deixou a xícara na mesa, acompanhando com os olhos enquanto o russo ia até o bule no fogão, servindo outra xícara para ele.

O clima entre eles ainda estava um pouco estranho desde a discussão pela manhã e por mais que quisesse colocar tudo em pratos limpos, Polônia sentia um nó arranhando sua garganta sempre que tentava, o que os guiou a longos minutos de silêncio, que embora não fossem desconfortáveis, ainda estavam infinitamente distantes de como ambos desejavam conversar, principalmente Rússia, o qual se sentia andando em gelo fino agora que descobrira que pequenos gatilhos poderiam sim arruinar toda uma conversa com o menor.

E somente na segunda xícara, o último citado fora capaz de reunir coragem o bastante para iniciar uma conversa.

— Desculpe por entrar no seu quarto, seu irmão havia dito que estava tudo bem e eu não pensei que... Bem...

— Não foi culpa sua. Bel é assim mesmo, não se preocupe.

— Ele... Ele também me falou sobre o jogo de vocês, parece importante.

— É mesmo? Ele fala demais. — Seu tom era casual, mas seus olhos agora encaravam o menor com interesse, querendo saber todos os detalhes dessa conversa.

— Eu nunca vi ninguém fazer algo do tipo, achei inspirador.

— Éramos a única coisa com a qual podíamos contar. Só deixamos isso mais claro.

— E Ucrânia...? Sua irmã mora longe? Ele parecia estar com saudades dela.

Rússia quebrou o contato visual, solvendo um longo gole do chá e então soltando a respiração, apoiou sua cabeça na palma de sua mão, se sentindo muito sonolento para dizer algo além da verdade.

— Nia... Ela está morta, Polônia. Morreu há alguns anos, achei que ele tinha contado.

— Oh... Eu... Sinto muito. — Suas palavras se misturavam, e ele apoiou uma mão na boca, já esperava algo ruim, mas não daquela forma — Foi a peste?

Rússia estalou, se levantando da cadeira.

— Não sinta. Não foi culpa sua, nem da peste. — Deu a volta na mesa, fazendo um pequeno afago nos fios loiros antes de sair da cozinha sem o olhar — ... Foi minha.
 

... Oh Kurwa

Ele tinha partido o gelo fino e afundado na água congelada.

Agora, sozinho a mesa, o chá não tinha mais o sabor agradável de antes, nada além de água fervida, e aquilo embrulhou seu estômago, logo Polônia também o abandonou, voltando para o próprio quarto em silêncio, porque a insônia não era tão ruim se comparada ao brilho opaco que viu nos olhos de Rússia.

Continua...


Notas Finais


(Insira copiar e colar)

Primeiro de tudo, todos q leram o título perderam O Jogo HAHA-

Segundo,, Ucrânia e URSS nem apareceram e já estão mortinhos (Rip), eu sei, desculpa, eu juro que não foi só para deixar vocês tristes u,v,u

Último mas n menos importante: Yeah, eu sei que a foto que usei é do Ivan de Hetalia, mas ele se enquadrou bem na descrição de rosto e cabelo do meu HC do Bel então pfvr relevem ok? E outra, se gostam de RusAme nesse estilo, dêem suporte a esse artista, ele quem fez esse desenho e muitos outros lindos e com temas variadíssimos! Link:
https://twitter.com/Knife80s/status/1322858257652723712?s=19

E sim, eu demorei muito e n foi pelo ano novo kkkkk, mas pq havia uma bifurcação no roteiro bem aqui e eu tava com medo de escolher a rota errada e estragar tudo skskskk, mas espero que tenha valido a pena esperar 😔

Só tenho 1% de bateria e quero falar mais coisa sCRR-

☆ FATOS IMPORTANTES ☆

Não sei se repararam mas Belarus é meu bb, eu gosto dele sendo um homem forte e inteligente no lugar de irmã louca e obcessiva, ainda que ele seja um irmão um pouco ciumento e atencioso demais, mas é perfeitamente saudável, just love galera, confia no pai, ele tem a própria visão de mundo e vocês podem reparar que ele só se abre de tal forma porque confia no julgamento do irmão (mesmo q faça o dele também)

Outra, Belarus também não entende as expressões usadas por Polônia, porque são de fora de Ladny onde ele passou a maior parte da vida, Rússia aprendeu algumas porque já era mais velho quando saíram da cidade natal deles, onde algumas pessoas também as usavam, entenderam?

Sim! Polônia tem um brother perdido por aí, e que deve aparecer em breve uwu

Rússia, Belarus e Ucrânia se chamavam por apelidinhos quando pequenos e isso também não mudou! Então: Nia, se refere a UcrâNia (zero criatividade sjsksk), Rusky ou Russ ao Rússia, e Bel ao Belarus 😔💞

FIM, BJINHOS DE MEL SE LEU ATÉ AQUI ♡♡♡♡


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