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História Fight or Die (ZIAM MAYNE) 2 season. - Capítulo 5


Escrita por:


Notas do Autor


ATENÇÃO, VAI SER RAPIDINHO!

Olá, nenês! Como estão? Demorei com att por isso trouxe ela um pouco maior do que eu havia planejado, espero que não se importem.

Nesse capítulo eu trouxe algumas "reações" acusadas pelos últimos acontecimentos na primeira temporada, então narrei uma cena com um assunto meio delicado que pode servir como gatilho.

Desta maneira, coloquei um alerta gatilho no início e no fim da cena, e o motivo, para que vocês saibam quando pular a parte e recomeçar quando tudo estiver mais tranquilo. Porém, fica pela conta e risco de cada um prosseguir.

Mas não o façam se isso os prejudicar de alguma maneira.

Boa leitura.

Capítulo 5 - C2. nightmare


Now i lay me down to sleep, i pray the Lord, my soul to keep.
If i shall die before i wake, i pray the Lord, my soul to take.

Eram mais que duas da manhã quando os pés tropeçaram no gramado e os joelhos cederam a queda. A respiração ofegante denunciava a risada convencida, os pelos eriçados pela adrenalina.

Seus olhos castanhos esquivaram das mãos úmidas pelo orvalho, erguendo-as e limpando-as no jeans.

— Deveria tomar mais cuidado por onde vai cair. – Enzo ergueu o olhar até Ahmet, observando-a na janela com um sorriso divertido. Os dreds rosa bebê estavam amarrados em um coque alto, a melanina de sua pele reluzindo na luz do luar. – Tente não quebrar nenhum osso.

— Vou tentar. – Murmurou de volta, tomando cuidado com o tom da voz para não acordar a mãe da menina. Acenou para ela e voltou a correr, ignorando os joelhos ralados.

Um sorriso bobo dançava em seus lábios, na mesma medida que o coração batia em um ritmo intercalado. Suave. Encantado. Apaixonado - não que ainda soubesse sobre o último citado, mas era bom estar com alguém que o entendia e se tornaria mais próximo com as coisas que encontrassem em com comum. Os passos eram apresados, apesar de saber que o bairro onde estava é famoso pela taxa baixa de assaltos, não ousou arriscar. Deixou o carro estacionado na esquina da residência dos Styles e agora caminhava apressadamente para lá.

Seus encontros noturnos com Ahmet eram quase frequentes. Ambos, apesar de se gostarem, tinham ideias opostas que os impediam de assumir em voz alta o que sentiam um pelo outro. Lamentava, mesmo sem reconhecer o real motivo por trás disso, por sorte ainda eram novos, os sobravam tempo demais para desvendar.

O coração em seu peito deu um salto diferente desta vez, ao mesmo tempo que os olhos esbugalhavam e dos lábios rosados diminuía o sorriso. Os passos de seus pés ficaram mais lentos, quase vagos, torcendo que fossem silêncios o suficiente para que o homem à frente ainda não tivesse notado a sua presença.

Só que, mesmo que tente se esconder, Liam havia notado-o virar a esquina no momento que o fez e acompanhava cada passado com o olhar atento, como se seus olhos fossem de águias, como se pudesse ver através da barreira de pele e ossos.

Assistiu-o se aproximar com paciência, viu o tom de sua pele adquirir palidez o pomo de Adão mover-se conforme o garoto engolia seco. Pode enxergar as pupilas dilatar por medo, mas a falta de vergonha na cara ao reconhecer que Santiago não mediria forças para fugir do próprio corpo se tivesse a oportunidade, sabia o quanto estava encrencado. Bom que soubesse.

— Boa noite, papà. – Sua voz era suave, retirada a força com o ar que estava preso nos pulmões.

Observou o castanho, vendo-o encostado na lataria da picape vermelha - uma paixão em particular do mais velho que irritava a Zayn -, com os braços e pernas cruzadas. Ainda estava com a calça do uniforme, coturnos e por baixo da jaqueta de couro era claro os suspensórios e a camisa manchada de fuligem.

Liam ergueu a mão direita no ar, olhando tão fundo nos olhos do primogênito que se de sua parte houvesse um passo em falso causaria uma enorme explosão. Enzo engoliu a seco e do bolso traseiro tirou a chave da picape e entregou ao mais velho.

Os lábios se contorceram suavemente, as linhas de seu rosto eram quase visíveis devido à anos de preocupação. Os ombros relaxaram quando a expressão no rosto mais jovem se tornou culpada, o coração do bombeiro apertou dolorosamente - odiava brigar com um dos filhos, mas às vezes não tinha outro caminho á seguir.

— Sabe qual foi a minha surpresa de passar nessa rua e ver o meu carro estacionado aqui? – sua voz era sempre tão calma, o que aumentava o temor dentro do garoto que se encolhia a cada palavra pronunciada. – Liguei para o seu pai só para ter certeza que eu não estava louco ou se tinham roubado o meu carro.

— O senhor ligou para o papai?

— Ah, eu liguei sim. – Pronunciou-as, camuflando a preocupação tirando sarro da situação. Ambos sabiam que Zayn era um pouco menos tolerante, e um poço de irritabilidade constate quando queria ser.

Vamos dizer que ameaçar suas crianças com vou contar tudo para o seu quando ele chegar, quando aprontavam ou quebravam uma das regras, era sua diversão particular. O desespero em seus olhos implorando para que mantivesse segredo de Zayn era cômico, sempre acabaria rindo e jogando mais lenha na fogueira, mesmo sabendo que cederia.

Mas às vezes, certas coisas merecem ser compartilhadas...

— Isso não é o tipo de coisa que se faça, garoto.

— Eu sei...

— Não! Não sabe ou não teria feito o tipo de coisa. – Tirou o apoio das costas do veículo e ergueu-se. Apesar de ter recém completado dezoito anos, ainda se sentia intimidado pela presença do maior e sempre o olharia por baixo. – Não sem avisar.

— Eu... – engoliu em seco, todas as suas defesas eram falhas. Não tinha mais pelo o que dizer, estava encrencado e com razão. Apenas acenou com a cabeça, sentindo o vento gélido da madrugada acariciar sua pele e madeixas, brincando com os dedos das mãos visivelmente constrangido. – Me desculpa.

Liam observou tudo aquilo, o maxilar estava fortemente trincado. A respiração lenta, o coração apertado. Se perguntou pela milésima vez aquele dia como o seu doce garotinho havia crescido tão rápido, e se tornado tão confiante, inteligente e com uma ironia genial que o deixava de queixo caído.

Tinha certeza absoluta que se Lorenzo estivesse presente diria entre gargalhadas que Enzo era mais igual a Liam do que ele gostaria de admitir, e que agora pagaria tudo o que havia-o feito passar. Era amargo o gosto do retorno, da sentença se tornando real, da realidade que não aprovava com tanta apreciação.

Liam não queria que Enzo fosse igual a si e esse medo sempre deslizava por sua garganta quando engolia em seco. Mas era uma realidade e não podia amá-lo menos, o garoto não possuía culpa por seus erros. Desta maneira, adquiriu uma expressão mais tranquila, afastando os pensamentos caóticos que o deixava em apuros e voltou a enterrados.

Lentamente ergueu os dedos até as madeixas bagunçadas pelo vento, observando como haviam poucas ondas que iriam sumir com o próximo corte. Seu menino havia crescido, era quase um homem, e o amava mais do que o amou no passado. Acariciou-as, em silêncio, atraindo os olhos desconfiados do menor, querendo rir de sua expressão e abraçá-lo e ao mesmo tempo xingá-lo por fazer-lo se preocupar e quase perder a cabeça.

— Você está encrencado mocinho, agora entra no meu carro.

Sem muito mais pelo o que dizer, ambos entraram na picape e colocaram o cinto de segurança. Liam não demorou para ligá-la e sair daquele bairro e voltar a dirigi-los para casa. Enzo ainda brincava com os dedos, demonstrando a ansiedade que crescia em seu peito com o que viria a seguir. Nada tinha acabado, conhecia bem as pessoas pelas quais fora criado. Então, decidiu permanecer em silêncio e esperaria pelo momento que o pai resolveria adotar sua sentença. Com a cabeça apoiada no encosto, observou as luzes passarem diante os olhos, sendo engolido pela madrugada que mal havia começado.

— Gemma sabe? – a voz do bombeiro quebrou o silêncio após alguns minutos, o garoto levou rapidamente sua atenção a ele que não desviou a sua da estrada.

— Não. – Novamente os ombros encolheram, o estômago revirou nervosamente com a risada debochada do outro.

— Claro que não sabe, por que ainda ouso perguntar? – era o tipo de pergunta que não deveria ser respondia. Enzo conhecia bem o pai, sabia que ele usava o sarcasmo para não deixar que a raiva falasse mais alto. – Se soubesse expulsaria você com a vassoura, até porquê você transa com a filha dela.

— Não! – Negou rapidamente com a cabeça, o coração bombardeando mais forte. – Nós não... transamos.

As bochechas ficaram tão vermelhas que foi capaz de, mesmo com a pouca luz, Liam conseguir enxergar-las.

— Vocês não...?

— Não! – Negou novamente quase que desesperado, não poderia permitir que o castanho pensasse que ele estaria desrespeitando Ahmet daquela maneira. Ou de qualquer outra maneira. – Ela ainda é...

Demonstrou nervosismo, transparecendo em cada músculo e contando resultado nos dedos que beliscavam um ao outro. Tomou fôlego, tentando encontrar as palavras certas para explicar todo aquele desconforto, sabia que confiava em Liam, sabia que podia contar qualquer coisa para ele que seria compreendido - levaria uma bronca dependendo do que contaria, mas seria compreendido. Só que para si era sempre um pouco mais difícil, a ansiedade sempre tomaria a frente de tudo e colocaria barreiras em seu caminho e o complicaria mais uma vez.

Por sorte, o bombeiro era compreensivo o suficiente. O homem apenas levou a mão as suas, impedindo-o de mexê-las e cruzou os dedos aos seus, ouvindo-o soltar todo o ar preso dos pulmões. Santiago nunca seria grato o suficiente por pequenos gestos como esses.

— Eu não acho que seria legal para ela ter a primeira vez comigo. – Liam parecia surpreso com o que acabara de ouvir, mas deixou que ele continuasse. – Não sou um cara legal.

— Não se acha um cara legal? – os olhos de D'Angelo voltou ao primogênito, o sorriso genuíno brincando em seus lábios foi o suficiente para acalmar o temor deste que negou com a cabeça e apertou mais as mãos juntas. – Houve algum momento que você não soube respeitar qualquer barreira que ela tenha colocado entre vocês ou não soube entender que não é não? – Negou, encolhido contra o couro como um gato assustado. – Tentou forçar-la á algo, agiu com indiferença em frente aos amigos, ofendeu-a verbalmente ou a tratou com menos do que ela merece?

A garoto levemente negou, tentando entender o rumo que aquela conversa estava seguindo. O coração bateu tão descompassado no peito que mal pode sentir o acariciar nas costas da mão feito pelo pai que sorriu orgulho, dando de ombros.

— Parabéns, você fez mais que sua obrigação. – Era um comentário duro e direto, mas o timbre da voz suave fez com que o garoto se sentisse confortável em prestar atenção.

A picape parou no sinal vermelho e Liam soltou a mão brevemente do filho, apenas para deixar o veículo no ponto morto.

— Filho, preste atenção 'numa coisa. A decisão de quem Ahmet vai ou não transar pela primeira vez é inteiramente dela e não sua e se ela aceitar fazer isso com você, é porque ela confia e se sente segura com você. – enfatizou em você. – O cara legal vai se mostrar só depois dessa situação, e é aí que muitos caras se mostram escrotos e tratam essas garotas com desprezo e indiferença. Seria capaz de agir assim com Ahmet? – Santiago se mostrou um pouco assustado com a pergunta, mas negou prontamente. – Isso é ótimo, campeão. Mas quero deixar claro que esse conselho não é só para seu relacionamento com Ahmet e sim com qualquer outra mulher. Nunca as trate como se fossem nada, ou as dê menos do que merecem. E se eu souber que você fez isso com alguém, juro que vou...

— Não vou! – Se apressou em dizer, tranquilizando a ansiedade mais uma vez quando a mão do pai se entrelaçou com a sua. – Não sou capaz de fazer nada disso, o senhor sabe.

Liam analisou toda a sinceridade balançar no brilho alheio como uma chama delicada. Doce, seu menino ainda é doce. Não importa se é quase um homem agora. Que daqui alguns meses estará maior que si. Ou que ele transe mais que um coelho... saber que ainda existia aqueles vestígio dóceis no primogênito o fez enxergar a felicidade - o amava tanto que sufocava. Amava tanto que enxergar que Enzo é muito mais do que Liam foi com a mesma idade o tornava realizado.

— Eu sei. – Sua destra tocou a bochecha do menor, acariciando-a. O peito estufou com o ar que logo foi solto aliviado. – Mas é sempre bom lembrar.

Enzo concordou em silêncio, recebendo de bom grado o beijo depositado sobre a testa. O garoto observou que já era a segunda vez que o sinal voltava do vermelho para verde, assistiu o pai se recompor de algum sentimento que havia pegado-o desprevenido e sair da avenida deserta.

— Mais uma coisa. – Enzo voltou a prestar atenção. – É bom você usar camisinha, porquê se um dia me aparecer dizendo que uma dessas meninas está grávida, eu vou dar um chute tão forte nas suas bolas que você nunca mais vai querer enfiar esse pinto em algum lugar. – Enzo pousou a mão na barriga quando riu alto, sentindo as entranhas doerem pela falta de ar. – 'Tá rindo do quê? Você vai assumir, hein. – Liam não aguentou e caiu também na gargalhada. – Vai arrumar um emprego pra pagar as fraldas, esse troço é caro! E pode falar a mesma coisa pra sua irmã. Vocês tão pensando que sou o que? Vou cuidar do filho de ninguém não, vocês que se virem.

— Como você tem tanta certeza que Lamilla e eu não somos mais virgens? – questionou e Liam soltou uma risada tão debochada que o menor acabou se entregando sozinho com a própria.

— Sei como as coisas acontecem, já tive a mesma idade de vocês. – Maneou a cabeça, coçando a própria nuca. – Vocês também são burros pra caramba, já encontrei camisinha usada no lixinho de vocês.

— Por que estava mexendo no nosso lixo?

— Por que não jogam o próprio lixo fora? – retrucou, vendo o garoto encolher de vergonha. – Eu quase tive um infarto, oh negócio nojento! Pelo menos se preveniram, né? Sou muito novo para ser avô.

— Poderia ter sido sua ou do papai? – tentou se safar. Recordou-se do próprio vacilo e não duvidava que Camilla havia cometido o mesmo com presa de expulsar o "namorado" de casa antes que os pais chegassem.

— Tá me chamando de burro, garoto? – perguntou quase ofendido, medindo-o de cima á baixo. – Tem uma coisa sobre mim que deixa o seu pai e os seus tios loucos pra me bater. Sabe o que é? – o garoto negou, reconhecendo o sorriso demoníaco do mais velho que ele logo reconheceu. – Eu sei de tudo.

— E isso quer dizer...

— Que se sua irmã trouxer aquele tal de Bryan pra casa de novo, vou castrar ele. – Batucou com os dedos no volante, afastando sua fúria. Virando na esquina de casa. – Não gosto dele, ele é o tipo de cara que não me desce. Prefiro o outro, o tal de...

— Mason? – perguntou assustado, uma sobrancelha erguida.

— Esse aí, ele é educado. Sabia como tratar sua irmã. Esse Bryan não, bichinho nojento...

— Como o senhor... eu não sabia que eles iam lá pra casa.

— Vem dar uma de sonso pra cima de mim não que eu sei que é você quem acoberta tudo. – Repreendeu, achando graça da expressão alheia. – E isso é uma das coisas que gosto de você e da sua irmã, gosto de como são próximos e protegem um ao outro. – Estacionou o carro na garagem de casa, desligando o motor.

Enzo olhou para todas as janelas se certificando que as luzes estavam apagadas. Esbugalhou os olhos quando reconheceu que a do abajur da sala ainda estava ligada.

— Me orgulho dos filhos que tenho pelo simples fato de serem responsáveis. Fogem de madrugada ou usam minha casa como um puteiro? Sim e se eu pegar estão encrencados. – Deu de ombros, prosseguindo: – só que não posso me esquecer que vocês são adolescentes e que entendo toda essa bagunça de personalidade, sexualidade e tensão sexual. Os dois tem liberdade de fazer o que quiser desde que sejam sinceros, mas não abusa, porquê minha paciência tem limite e outra coisa, eu sei de tudo.

— Sabe nada. – O garoto testou, brincando com o mais velho que soltou o cinto.

— Continua me testando.

Desceram da picape, e estavam prontos para caminhar em direção a casa quando Liam segurou o punho do mais novo e pediu para esperar.

Quando os mais novos estavam crescendo criaram um vínculo importante. Serem abertos sobre tudo para que pudessem fazer mais parte da vida um do outro. Liam e Zayn tem seus momentos, mas nunca os proibiram de fazer o que sentissem vontade, ou que não sentasse com eles vez ou outra e conversassem sobre certas mudanças que seus corpos e personalidade apresentavam com o decorrer da purberdade.

Há quinze anos atrás prometeram que seriam país que não tiveram, e que também batalhariam todos os dias para que seus filhos não fossem como eles foram. Claro, que para isso dar certo a confiança entre eles nunca poderia ser quebrada - por mais que algumas verdades fossem anuladas -, e que fariam de tudo para que as crianças se sentissem confortáveis para contar e desabafar com eles sobre qualquer coisa, e que a palavra máfia, guerra ou oitenta e um nunca fosse pronunciado em suas conversas. Conseguiram, com muito esforço e dor, criá-los fora da máfia, do crime, dos assassinatos e de todos os riscos. O trabalho duro recompensava todos os dias... não eram perfeitos, muito menos estavam longe de errar e causar uma discussão que os fariam virar a cara por algumas horas antes de voltarem atrás e se desculparem.

Mas estava ali, uma das consequências boas de todo o esforço - a confiança e o conforto. Liam sentia que podia falar qualquer coisa com eles, como também sentia que eles iriam entendê-lo e praticar. Sem exagero. Sem ordens.

— Me escute com atenção agora, 'tá bem? – Liam acariciou o pulso do filho, vendo-o colocar a mão livre no bolso da jaqueta e ficar de frente para si, sorrindo de maneira terna, com os olhos levemente encolhidos. – Seu pai e eu já fizemos muitas coisas erradas nessa vida e lutamos todos os dias para que vocês não fossem iguais, tenho muito orgulho de você e da sua irmã por serem o que são. Claro que não vou deixar de amá-los por errar ou pisarem vez ou outra na bola, porquê não são perfeitos e como humanos temos tendência de errar. Mas, há uma coisa que fizemos no passado que se espelharia em você a fazer igual agora, se não alertarmos antes. – O menino olhou-o curioso, segurando-o pela mão. – Nunca trate uma mulher como um objeto, ok? Nunca vire para uma garota que é anos mais nova que você e diga que a acha gostosa, é errado e também está a assediando. Não importa a idade que ela tenha, nunca faça nada que a deixe desconfortável e se fizer, peça desculpas e se afaste, se ela se sentir confortável vai vir falar com você e não repita nada novamente.

— Você e o papai já...

— Sim, eram tempos diferentes. Não tínhamos muita noção, minha mãe estava morta e a do seu pai tinha medo de se defender... – maneou a cabeça, afastando os pensamentos e ignorando a ardência nos olhos. – A única mulher que conheci que não tinha medo de peitar um homem foi sua tia Rosa, e ela faz isso até hoje. Então, é sério, respeite 'tá bem? Seja paciente. E nunca diga a sua irmã ou qualquer outra mulher que elas não podem fazer o mesmo que você, porquê podem e ainda vão ser melhores.

— 'Tá bom, eu entendi.

Com suas palavras abraçou o mais velho, um pouco constrangido pela conversa e igualmente grato pela mesma.

...

Ao entrar em casa a primeira coisa que tomou sua atenção foi Loki deitado no hall de entrada, dormindo tão tranquilo como se nada no mundo o incomodasse. Caminhou até ele, acariciou seus pelos grisalhos e sorriu para o resmungo de apreciação do animal.

— Me dê boa sorte, acho que o papai deve estar irritado. – Comentou baixinho e ergueu-se, seguindo a luz do abajur até a sala. Lá encontrou Zayn, esparramado no sofá, apertando o mordedor em forma de chupeta de Andrea repetidas vezes como se o ato pudesse acalma-lo, com os os fixos na televisão desligada.

O garoto engoliu em seco quando ousou chamá-lo e os olhos âmbares fuzilou-o em silêncio.

— Sabe que horas são, Santiago? – o moreno perguntou. O menino procurou pelo o outro responsável que havia acabado de entrar e assistia tudo em silêncio, Liam rendeu-se voltando para cozinha desejando boa noite.

Xingou-o mentalmente voltando a prestar atenção no outro homem.

— Não olhe para o seu pai como se ele pudesse te ajudar, Daniel sabe que se ousar bato em você e nele também. – A risada de Liam foi ouvida da cozinha, se divertindo as custas dos outros. – Virei as costas por um segundo e você fugiu.

— Não fugi...

— Ah não, só foi abduzido e deixado na casa de outra pessoa com a picape ridícula do seu pai.

— Não fale assim da picape. – Liam gritou. Zayn travou o maxilar, jogando sem pensar o mordedor que estava na mão em direção a Liam que se escondeu em algum lugar resmungando.

— Pelo amor de Deus, não se torne um delinquente como seu pai! Ele tira a minha paciência, me estressa o dia inteiro, quer ser igual á ele e me matar do coração? 'Tá quase lá!

Enzo riu nasalmente, brincando com os dedos frios. Fez uma anotação mental de agradecer Liam mais tarde por sempre infernizar Zayn quando este está irritado com ele ou os irmãos - com essa lógica a raiva é descontada nele, não nas crianças.

— Sinto muito. – Foi tudo o que conseguiu dizer, dando de ombros como se não houvesse feito nada demais. Em sua cabeça? Sim. Mas não para os mais velhos.

— Sentir muito vai impedi-lo de fugir de novo para encontrar a garota? – o garoto suspirou e, sem ter motivo para mentir, negou com a cabeça. – Então por que sente muito?

— Papai...

— Não, não vou ceder a esses olhinhos pidões. – Mentiu, claro que cederia. Uma hora ou outra, era tão bobo por aquele garoto como Liam era. Afastou-se, apenas para que sua pose não fosse quebrada tão cedo. – Eu não me importo se você vai sair com os seus amigos...

— Ou se vai encontrar sua namoradinha. – Liam novamente se pronunciou, Enzo olhou sobre o ombro para vê-lo parado no batente. Zayn revirou os olhos.

— Não me importa se você quer sair e se divertir, eu só quero saber onde está. – Foi claro, ainda magoado. – Quero ter certeza que está bem, que não aconteceu nada com você.

— Eu sei. – Olhou para as próprias mãos, sustentando todo o peso do corpo em uma perna.

— Por isso seu pai e eu damos liberdade a você e sua irmã, para que não ocorra esses tipos de situação. Porque confiamos em vocês. Porque não estamos os criando para ser nossos escravos e prisioneiros, mas para que isso continue preciso que seja sincero comigo. Conosco.

— Eu só... – respirou fundo, olhando fundo nos olhos de Zayn. – Ahmet me ligou e ela estava chateada com uma coisa que aconteceu com ela e a irmã, eu só não quis deixar ela sozinha.

— Hum... – Liam murmurou, cruzando os braços. – Você não a pediu em casamento, né?

Zayn inclinou-se sobre o próprio corpo pegando outro mordedor para jogar em Liam quando o mesmo ergueu as mãos no ar, rendendo-se. Passou um zíper invisível nos lábios e encostou de volta no batente, prometendo que ficaria quieto.

— Fofo. – Soou irônico, apertando o cacto de borracha entre os dedos. – Mas ser fofo não o impede de chegar e me falar e aí coroa, to pegando à picape do meu velho e indo ver minha mina.

— Querido, ele não fala desse jeito... AÍ! – Liam reclamou quando o mordedor acertou sua testa, colorido de vermelho o local onde foi atingido. Finalmente se calou, emburrado.

— Não quero saber de você fugindo de novo, 'tá bem? Não quero que você saia sem nos dar notícias, sem falar para onde vai. E se acontecesse alguma coisa com você e se...

Engoliu a seco, afastando os e se da cabeça antes que o fizesse enlouquecer. Estava irritado, ficou sentado mais de uma hora naquele sofá esperando notícias após a ligação de Liam e nada. Odiava se preocupar tanto. Odiava estar no escuro. Odiava ter um passado tão sombrio que o fazia temer cada surpresa.

— Filho, não quero ser super protetor. – Apesar de ter todos os motivos plausíveis para ser. – Muito menos interromper na sua liberdade, mas não posso correr o risco de alguma coisa acontecer a você.

Santiago não levou muito tempo para entender o que estava acontecendo. Pais se preocupam normalmente, mas quando eles acompanham todos os dias a morte de perto por causa de suas profissões, isso os deixam um pouco mais sensíveis. Se sentiu levemente sentido, e um pouco desrespeitoso, para com os sentimentos dos próprios pais. E quando notou já estava abraçando Zayn tão apertado como se pudesse fundir para seu corpo toda a agonia.

— Eu te amo, me desculpe.

— Também te amo. – Disse entre as madeixas do mais novo, vendo-o deitar a cabeça entre o vão de seu ombro e pescoço. – E mesmo assim você está de castigo por uma semana. – Enzo apenas sorriu, sentindo as carícias do mais velho em sua nuca. Não diria nada, não se isso fosse deixá-lo mais tranquilo. – Não minta mais para mim, ok? Posso ficar bravo vez ou outra, mas...

— Temos liberdade para fazer o que quisermos, desde que sejamos sinceros. Eu sei, ouvi isso o caminho inteiro de volta pra casa. – Disse, afastando-se o suficiente para beijar a bochecha do mais velho.

— Pelo menos seu pai sabe fazer alguma coisa que preste. – Acusou, assistindo o castanho imitá-lo com uma careta emburrada. – Agora vai pro seu quarto antes que eu lhe ensine a usar esse seu maldito celular da maneira correta.

— Não precisa falar duas vezes.

— E se fugir de novo vou arrancar sua cabeça fora. – O viu concordar antes de correr para o quarto e, desta vez, ficar por lá. Quando o silêncio se instalou e não havia mais preocupação, seu olhar caiu sobre Liam que ainda encostado no batente, observando-o atentamente. – O quê?

Maneou a cabeça e abaixou-se para pagar pegar os mordedores espalhados no chão, voltou para a cozinha com um sorriso enigmático e disse:

— Você é bom nisso.

— Bom no que?

— Em ser pai. – Colocou os objetos dentro do cercadinho que se encontrava no canto reservado. – Às vezes me pego olhando para você quando está cuidando deles, quando está os aconselhando, quando está dando todo o seu amor e carinho e, em momentos como agora, quando está dividido entre ser o pai protetor barra possessivo e o pai compreensivo barra amigo. – Sorriu, apoiando as mãos no mármore e assistindo o outro se aproximar lentamente. – Eles confiam em você e se sentem confortáveis com você de uma maneira...

— Sabe que é o mesmo com você. – Abraçou-o pela cintura, vendo-o acenar antes de inclinar a cabeça e encostar suas testas. – Sabe que eles te amam igual, te admiram igual e que confiam igual.

— Você é diferente e tudo bem. – Deu de ombros, apoiando as mãos no pescoço do marido, pousando seus lábios sobre os dele. – Eu só queria que...

— Liam. – O castanho estremeceu quando seu nome foi soado dos lábios carnudos e róseos, tão ligeiros, tão dóceis. Tão apaixonantes como quem os possuíam. Os polegares ergueram até a clavícula do moreno, sentindo a pele arrepiar sobre seu toque. – Não ouse terminar essa frase se for se menosprezar ou trazer à tona nosso passado, não estou interessado em nenhum dos dois. 

Suspirou quando os lábios de Liam se arrastaram dos seus para o maxilar e em seguida para o pescoço e a curva de seu ombro. As pernas ficaram bambas quando um beijo foi deixado ali e um segundo mais tarde estava sentado sobre a bancada, com Liam entre suas pernas, acariciando suas coxas cobertas pelas calças justas do uniforme.

— Você está certo... – as pernas dele se envolveram em sua cintura, limitando o espaço entre seus corpos febris. As roupas se tornaram obstáculos, o calor o maior inimigo. – sempre está. – As pupilas dilataram, a mesma medida que suas mãos inquietas procuraram por qualquer pele exposta para poder sentir, arranhar, tocar. – Quer dizer, ás vezes você é meio lerdo...

Zayn deu um soco sem força no castanho, ouvindo-o rir ao abraçá-lo apertado e senti-lo respirar contra sua pele exposta.

— Eu te odeio, sabia? – Disse, atraindo os olhos curiosos do maior, acariciando a barba rala do mesmo. – Sempre arruma uma forma de defendê-los mesmo quando fazem coisas erradas, por isso são tão mimados.

— Eu não 'tô nem aí para esses pentelhos, quero sua atenção inteiramente para mim. – Mentiu, recebendo um beijo molhado do marido que o segurou pela lapela da jaqueta. – Pode brigar com eles, bater, xingar, finjo que sou cego e surdo.

— Igual fez com o garoto agora, né? – viu-o concordar, fingindo saber de nada. – Depois de tanto tempo ainda se finge de durão, quando a verdade é que faria qualquer coisa para impedir que eles se machuquem. – Mordeu a pele alva do queixo, sentindo-o estremecer. – Mas já que foi um menino bonzinho, não tenho como castiga-lo.

— Hum. Eu fui tão malvado defendendo ele, não é? – Zayn gargalhou contra os lábios do marido, sentindo-o adentrar com as mãos por baixo da camisa e acariciar sua cintura com os dedos frios. – Mereço todos os castigos que você tem para me dar.

Maneou a cabeça, finalmente beijando-o profundamente. Se envolveram, as mãos inquietas bagunçando as madeixas, as respirações ruidosas se tornando audíveis, os corações apaixonados batendo ansiosos.

A jaqueta de Liam estava no chão, os dedos tatuados tiravam lentamente os suspensórios sobre os ombros do bombeiro antes que voltassem sua atenção para a camisa branca suja de fuligem. Mordeu o lábio inferior do mesmo, pronto para liberá-lo do tecido, quando o Bip em seu cinto estremeceu, cortando seu agito. Liam grunhiu, abocanhando o pescoço exposto de Zayn que tirava o aparelho do suporte e observava a mensagem recebida.

— Amor, tenho que ir. – Gemeu quando a mão do maior pousou sobre seu membro duro, fazendo-o contorcer sobre seu toque. – A ambulância está parada aí fora.

— Tom pode esperar quinze minutos.

— Não vamos terminar em quinze minutos e você sabe disso. – Sorriu satisfeito pelas carícias, mas o empurrou a contra gosto e pulou de volta para o chão, respirando fundo.

Ambos se olharam, rubros, excitados e ofegantes. Liam tentou se aproximar novamente e Zayn correu de suas mãos, conseguindo chegar a geladeira e pegar uma garrafa de água gelada para acalmar seus tremores.

— Vamos almoçar juntos?

O mais velho acenou que sim, e se inclinou sobre a bancada para receber um beijo de despedida.

— Amo você. – Beijou-o outra vez, afastando-se – Não dê chocolate as crianças, sabe como elas ficam.

E se foi, deixando Liam com a expressão incrédula e tão indignado que a ereção em sua calça murchou. Ouviu o momento que o marido bateu com a porta ao sair, e riu desacreditado, limpando o canto da boca com o polegar.

— Ouviu isso? – perguntou para o cachorro que vinha do corredor. – Levou quinze anos para aprender que não se deve dar chocolate para os pirralhos, mas quando eu dou uma vez sou condenado pelo resto da vida.

Resmungou, indo em direção as escadas e impediu-se de subir o primeiro degrau, quando o cachorro passou á choramingar ao seu encalço.

— E você está olhando o quê? – Loki abaixou a cabeça, colocando-a sobre as patas olhando-o com os olhinhos pidões. – Tá muito mal acostumado, hein! Sobe logo! – Apontou para cima, vendo o rabinho do animal balançar alegre e ele subir com dificuldade os degraus. – A gente percebe que não tem mais pose de badboy quando cede as vontades até do cachorro.

❱❱❱ ❮
Come on, little lady, give us a smile.

 

— Homem caucasiano, aproximadamente quarenta e oito anos. Acidente de moto ao norte de Manhathan, foi informado que bateu na traseira de uma van, se encontra inconsciente.

D'Angelo abriu as traseiras da ambulância com a ajuda de Carter quando Tom estacionou a mesma no meio da avenida. Quando desceu pode notar a bagunça no trânsito causada aquela tarde, os sons agonizantes das buzinas e os gritos dos polícias pedindo com paciência que os pedestres se afastassem da cena do acidente.

Enluvou as mãos, então correu em direção ao corpo desfalecido do motoqueiro. Com cuidado e com a ajuda de Carter, tiraram o capacete azul da cabeça do homem, dando logo de cara com um corte no supercílio.

Zayn rapidamente pegou uma lanterna em seu chaveiro, levantando as pálpebras do rapaz e analisando suas pupilas.

— As pupilas estão normais, sem reflexos. Não houve nenhum trauma na cabeça.

Zayn decretou, sendo mais rápido e cuidadoso para rasgar a camisa do homem e enxergando as diversas tatuagens em sua pele negra. Carter analisava as pernas, tentando encontrar alguma anomalia. Zayn observou com delicadeza o tronco do rapaz, batendo com dois dedos sobre o abdômen.

Em seguida, sentiu a pulsação do mesmo. Contando os batimentos no relógio no pulso, até que seus olhos se erguem de volta para Carter.

— Abdômen endurecido, a pulsação está subindo e diminuindo gradativamente. Possível hemorragia interna. – O outro paramédico pulou para o outro lado do corpo, analisando a respiração.

— Respiração acelerada e palidez. Vou chamar o Tom para nos ajudar a colocar-lo na maca. – Carter correu de volta a ambulância.

Zayn continuou analisando o homem, quando de repente o mesmo abriu os olhos, mostrando estar confuso. Tentou levantar, mas foi impedido quando uma dor forte no abdômen o fez desistir e assim gemer com muita dor.

— Senhor, sou Logan. Peço para que tente se acalmar, tudo bem? Sou paramédico e vou ajudá-lo, mas preciso que coopere comigo. – Endireitou a cabeça do rapaz, vendo-o com muita dificuldade concordar com um suspiro. – O senhor sofreu um acidente de moto e bateu na traseira de uma van, suspeitamos que esteja com hemorragia interna então por favor, não faça nenhum movimento sem que seja consentido para que não ocorra agravamento do seu quadro. Pode fazer isso por mim? – Tentou o transparecer segurança mesmo diante toda a situação, trazendo um sorriso tranquilizador para os lábios quando o homem resolveu cooperar e não se mover.

— Estou com cede. – Disse, assistindo sem poder se mover o paramédico concluir com seu protocolo.

— É normal. Pode me dizer seu nome?

— Jawari. – Respirou com dificuldades.

— Sabe qual ano estamos? Com data.

— Três de maio de mil novecentos e noventa e seis. – Declarou, engolindo a própria saliva. A garganta seca, os lábios rachados. Gostaria de perguntar o que aconteceria com ele, mas não conseguir mover as pernas o assustou. – Não consigo sentir minhas pernas.

— Jawari, sente isso? – com a caneta tirada do bolso da jaqueta, Zayn o cutucou com uma certa pressão. Aliviado, o homem acenou que sim. – Isso é ótimo, significa que não houve impacto grave com sua coluna, vai poder andar de moto em breve.

— Bom ouvir isso. – Sorriu, fechando os olhos com a dor que se arrastava. – Tenho o sonho de viajar por todo o estado com uma.

— Me mande um cartão postal de todo estado que visitar. – Brincou e o homem a frente sorriu.

— E a garota?

— Que garota? – questionou, confuso.

— Uma garota entrou na minha frente do nada, por isso bati na van. Tentei desviar dela, não sei se a acertei. Ela parecia com medo. – Disse o homem, o olhar sério. – Como ela está?

O moreno pareceu surpreso com a declaração, no chamado que receberam não relataram uma segunda vítima. Por um segundo achou que ele pudesse estar alucinando, mas a seriedade em seu olhar o deixou preocupado. Foi um fato que ocorreu antes que batesse, não podia ser qualquer tipo de confusão mental.

— Ela vai ficar bem. – Foi tudo o que disse, acalmando o homem. – Mas por curiosidade, como ela é? Não fui eu quem a socorreu, posso procurar por ela e te dar notícias depois.

— Cabelos pretos, jovem e estava com uma camisa azul. É tudo o que consegui ver antes de bater.

O moreno pegou todas aquelas informações e agradeceu da chegada dos parceiros com a maca. A prancha foi colocada no chão, e com cuidado cruzou as mãos de Jawari sobre o peito e com a ajuda policial e as instruções de segurança que os paramédicos lhes serviam, colocaram-no sobre a prancha. Passaram as mordaças pra que ele não caísse e em seguida o colocou sobre a maca e ergueram-na, correram com cuidado de volta para a ambulância e antes que entrassem, Zayn segurou no punho de Carter e sussurrou para ele sem que Jawari ouvisse.

— Ele desviou de alguém, por isso bateu. – Carter olhou-o surpreso.

— Não mencionaram uma segunda vítima no chamado. – Sussurrou de volta.

— Acha que consegue dar conta dele sozinho? Vou procurar por ela.

— Voltamos para te buscar. – O homem concordou e voltou para a ambulância, fechando as portas antes que ela fosse arrancada dali o mais rápido possível.

— O que houve? – um policial voltou para conversar com Zayn quando notou que foi deixado para trás. – Aconteceu mais alguma coisa?

— A vítima me informou que desviou de uma mulher antes de bater na van. Ela tem cabelo preto, parece que usa uma camisa azul e ele também comentou que ela parecia com medo. Gostaria de verificar se não foi atingida.

O oficial concordou rapidamente e passou um rádio para a equipe com todas as informações que recebeu. Em menos de dois minutos estavam procurando pela mulher, o que para Zayn era quase como achar agulha no palheiro, devido a cidade parecer com um formigueiro e com tão pouca informação. Mesmo assim não ousou em desistir e agradeceu internamente por alguns oficiais ajudá-lo a procurá-la.

Caminhou diante a multidão, perguntou para diversas pessoas que esteve presente na hora do acidente se alguém viu a garota que batia com a descrição. Ninguém a viu, exceto por uma senhora que tomava tranquila o seu chá acompanhada da cuidadora.

— Eu vi ela sim, estava brigando com o namorado. Comentei até para a Penélope aqui que os homens não são mais os mesmo cavalheiros que um dia já foram, agora estão por aí se achando donos do mundo e batendo em suas namoradas como se elas os devessem alguma coisa. – Cruzou as pernas, mastigando o próprio lábio com fúria. – Do que estou falando, os homens sempre se acharam donos de tudo. Por que estou surpresa?

Zayn olhou para o policial que formou uma expressão no rosto, indicando que aquilo poderia demorar um pouco.

— Eu estava sentada bem aqui quando vi acontecer. A mocinha estava andando pela rua e esse rapaz veio atrás dela, a segurou com força pelo braço e a puxou, na mesma hora ela se esquivou e conseguiu se soltar, mas caiu na avenida bem na hora que aquele pobre rapaz vinha com a moto. O coitadinho conseguiu desviar, mas infelizmente deu de cara com a traseira da van. Foi muito feio, meu filho.

— A senhora poderia me descrevê-la? Sabe para onde ela foi? – o policial ao lado de Zayn perguntou, abrindo sua caderneta pronto para anotar as informações que a senhora lhe serviria. 

Ela olhou para o oficial e acenou com a cabeça, mas sua atenção voltou a Zayn e segurou as mãos do mesmo. Notou na aliança dourada no anelar esquerdo do rapaz e sorriu.

— Você é tão bonitinho, se fosse solteiro te apresentaria á Penélope aqui. Ela anda tão sozinha, tadinha. – A cuidadora da senhora encolheu os ombros em timidez, fazendo o paramédico sorrir humorado. – Foi a mocinha que caiu na rua que chamou a ambulância e ficou do lado dele até à polícia chegar, depois disso correu para aquele restaurante ali chorando. – Tanto Zayn quanto o policial olharam em direção ao restaurante. – A menos que tenha trocado de roupa e mudado a cor do cabelo, não a vi sair de lá.

— Obrigado, a senhora foi muito útil. – Zayn acariciou as mãos da senhora a agradecendo, vendo-a sorrir gentil para si.

O homem então correu em direção ao restaurante italiano do outro lado da rua, ignorando a ironia do que aquilo poderia ser e adentrou o local, sendo alvo da atenção de todos que observavam o que acontecia do lado de fora pelas janelas amplas. Ignorou-os e correu os olhos por todo o local, todos os olhos curiosos e pecaminosos, até encontrar uma garota encolhida na parte mais vazia do restaurante.

Suspirou fundo e aproximou-se, pediu por licença e sentou-se junto à ela.

— Prazer, sou o Logan. – Se apresentou para ela, vendo seus olhos vermelhos e os lábios inchados com um recém corte criado na região. – Está tudo bem?

Assustada, abraçou o próprio corpo. As bochechas molhadas por causa do choro, as mãos e cotovelos levemente ralados por causa de um tombo. Hematomas coloriam a clavícula, pescoço e algumas regiões do braço expostos pela regata. Quando percebeu que estava sendo observada, colocou a camisa fina que estava sobre a cadeira, cobrindo seus ferimentos.

D'Angelo não demorou muito para ligar todos os pontos. Suspirou, exausto. Meio surpreso, até mesmo triste pela situação.

— Não sei o que houve, mas estou aqui para ajudar. – sorriu na tentativa de tranquiliza-la. Notou agora que ninguém mais os olhavam, voltaram para suas vidas normais com laptops e celulares com antenas. – Qual é o seu nome?

— Indie. – Alisou levemente as madeixas desgrenhadas atrás da orelha. Sentindo o coração bater agitado quando o viu sorrir. – Eu não quis causar aquele acidente... eu não...

— Acredite querida, eu sei. – Pousou a mão sobre a mesa com a palma virada para cima, na intuição de que ela o pegasse quando se sentisse pronta. – Jawari também sabe.

— Jawari?

— O homem da moto, ele quem me falou de você. – Ela piscou incrédula, mas não levou nenhum segundo para que um sorriso mínimo desenhasse seus lábios. – Você precisa vir comigo, precisamos ir até o hospital para colocarmos curativos em seus machucados.

— Não posso ir até o hospital, ele vai...

Engoliu a seco as próprias palavras e mais lágrimas rolaram sobre sua face, o moreno sorriu novamente para tentar tranquiliza-la. Foi paciente, esperou que ela se recuperasse da crise de choro e pediu para que o policial que havia entrado no estabelecimento esperasse com um aceno. O homem entendeu, e com os outros dois que o acompanhava, esperaram na entrada.

— Sei que está nervosa, mas garanto que vai ficar tudo bem. – Comentou, a mão ainda em cima da mesa, esperando que ela a pegasse. – Prometi a Jawari que levaria notícias de você e estarei mentindo se disser que a deixei em boas mãos se deixá-la aqui sozinha.

Ela hesitou, as mãos secaram as lágrimas. Os cabelos soltos grudavam nas bochechas. A pele brilhava pelo suor e cada músculo contorcia em ansiedade, ou dor, ou adrenalina. Indie tinha corrido, era claro. Talvez estivesse fugindo. Talvez tenha pedido socorro á muitos e ninguém prestou atenção em seus prantos. Talvez esteja exausta. Talvez esteja cansada de tanto se esconder... talvez.

Zayn não sabia de nada além do talvez. Além das coisas que transparecia. Além das coisas que Indie estivesse permitindo que ele visse. E mesmo assim estava ali, paciente para obter sua confiança, em sentir o frio da sua mão úmida na sua quente e áspera. Em tirá-la dali e levá-la para um lugar que seria cuidada e protegida. Não poderia fazer muito por ela, reconhecia isso. Porém, nunca se perdoaria por não ter feito o mínimo.

— Não vou machucá-la, prometo.

E talvez estas palavras fossem tudo o que aquela garota perdida precisasse ouvir. Com um sorriso simples ergueu sua mão até a dele, pairou por alguns segundos antes de segura-la. Zayn sorriu e levantou-se com ela, tirou seu casaco e cobriu-a pelos ombros.

Guiou-a para fora do restaurante. Sentindo que o talvez pudesse ser mais um dos casos que conhecia. Que lamentava. Que o entristecia. Agradeceu aos céus quando Tom e Carter voltaram para buscá-lo e enquanto a equipe seguia o protocolo de primeiros socorros para com Indie, o paramédico relatava o talvez para os polícias.

❱❱❱ ❮
I keep a record of the wreckage of my life, i gotta recognize the weapon in my mind.

 

— O seu marido sabe que você gosta de salvar donzelas em perigo todas as vezes que recebemos um chamado? – a voz de Tom era debochada, o homem limpava a parte de trás da ambulância.

Depois de resgatarem Jawari, precisaram ir atrás de uma menina que sofreu um acidente com uma bicicleta e dentro da ambulância vomitou-a inteira.

— O meu marido não tem muito pelo o que reclamar já que ele gosta de pular de prédios em chamas com mulheres agarradas em seu pescoço. – Retrucou, fazendo cara de nojo quando Carter empurrava com um rodo todos os restos de comida que a garota tinha deixado para trás.

— Isso é meio irônico, você se incomoda mais com as mulheres que ele salva do que os homens. – Disse Carter, pulando pra fora do veículo e deixando o rodo dentro do mesmo. Zayn deu de ombros e colocou as pernas em cima do banco.

— Nenhum homem até então colocou fogo de propósito no próprio apartamento mais de três vezes e pediu exclusivamente pelo bombeiro de sorriso bonito. – Sua voz mudou conforme concluía com sua sentença, arrancando risadas dos companheiros que terminavam com a limpeza e sentavam-se espalhados pelo estacionamento. – E o último idiota que deu em cima dele parou no hospital com o nariz quebrado, não posso bater em mulheres.

— Você reclama como se nunca tivesse levado um flerte no trabalho. – Tom abriu um saco de batatinhas e jogou uma na boca, passando o saco para o moreno que revirou os olhos. – Lembra daquela vez que formos ao pub sol da meia noite por causa de uma briga? – Carter jogou a cabeça para trás gargalhando, recordando-se do dia. – Quando foi fazer um curativo na cabeça daquela garota, ela e as amigas dela te arrastaram para o carro para te levar embora.

— Também teve a vez que você tentou acalmar uma mulher presa no meio das ferragens do carro e ela começou a dar em cima de você, e no dia que ela recebeu alta veio pessoalmente pedir o seu número de telefone e te convidou para um encontro.

— Cala a boca. – Jogou uma porção de batatas no asiático que inclinou-se sobre o banco rindo. – Fui assediado, é diferente.

— Você é um safado que gosta de receber elogios de estranhas para aumentar o próprio ego. – Tom tomou o saco de batatinhas das mãos do moreno. – Então não tem que reclamar do seu marido recebendo flertes.

— Eu não retribui á nenhum deles.

— Daniel retribuiu? – Tom questionou, deitando-se no banco e colocando as pernas de cada lado. Olhando preocupado para o parceiro.

— Ele não é nem louco. – Cruzou os braços mal-humorado.

— Então deixa de drama que não sou obrigada à aturar tudo isso. – Tom fez um gesto com a mão insinuando que aquele assunto havia chego ao fim. Pegou a jaqueta que estava sobre o colo e cobriu os braços, ouvindo os companheiros rirem da sua reação.

— Boa tarde, meninos. – Um segundo depois Tom estava sentado novamente, assistindo o momento que Noriko e sua equipe caminhavam até a própria ambulância. – Logan. – Piscou para o moreno que sorriu minimamente e acenou-lhe com a cabeça.

Ela foi embora com a equipe, deixando os homens para trás. Tom olhou sugestivo para Carter antes de voltar a se deitar no banco, coçou a barba áspera sobre a pele negra e maneou com a cabeça.

— Como o Daniel vai reagir quando souber que na equipe tem uma garota apaixona pelo marido dele? – Carter colocou as mãos no queixo, provocando o outro paramédico que revirou os olhos e fingiu que não o ouviu.

...
They talk shit, but I love it every time.

 

Liam deu risada diante a reação do mais novo, recebendo diversos beijos no rosto, boca e pescoço enquanto tentava caminhar com as sacolas com o almoço e o peso de Zayn em seus braços.

— Os dois podem parar com essa pegação desnecessária? – Tom resmungou, mesmo que não pudesse ver com a curva do braço tapando sua visão. – Não vejo, mas escuto.

— Você é um invejoso porquê eu tenho um marido lindo que me trás o almoço e você não tem ninguém. – Cutucou Zayn, vendo o outro rapaz dar risada e manear com a cabeça.

— Na verdade, trouxe o almoço deles também. – Disse Liam, atraindo atenção dos outros homens que se ajeitaram rapidinho no acento.

— Puxa saco. – Gritou o moreno que recebeu em seguida um beijo nos lábios.

— O seu marido lindo nos trás almoço também, Logan. – Carter provocou, cumprimentando o bombeiro e pegando as sacolas que este o entregou, levando até o outro parceiro. – Lide com isso ou se mate, 'tô nem aí.

— Daniel único homem possível, Logan quem? – Provocou o outro, fazendo uma dancinha de aprovação quando sentiu o cheiro da comida fresca.

— Aproveitem a caridade, vou levá-lo para almoçar no quartinho. – Zayn segurou a mão do mais velho, puxando-o dali.

— Você vai levá-lo para transar no quartinho, a gente já sabe. – Carter acenou sem interesse e Liam gargalhou enquanto acompanhava com o marido.

...
And I realize...

 

— Eles acham que ela gosta de você? – perguntou o maior, terminando de vestir as calças escuras.

O quartinho era como os paramédicos chamavam a sala de descanso com beliches, para que pudessem passar o tempo entre um turno e outro. Zayn estava encostado com as costas nuas contra a parede, a janela aberta acima da cabeça iluminava o tronco do bombeiro que se inclinou para beijar o queixo do marido com delicadeza.

Contavam tudo um para o outro, desde flertes até os momentos mais trágicos e estressantes que passavam no dia. Foi uma maneira que encontraram de equilibrar as coisas, de não haver mais surpresas - ou crises constantes de ciúmes.

— Por quê? – perguntou, deitando a cabeça no colo do menor e sentindo os dedos dele acariciar suas madeixas.

— Ela me trata diferente. – Deu de ombros, comendo o restante da batata frita que sobrará do almoço. – Me olha diferente, às vezes me assusta...

Liam riu e encolheu os olhos, maneando a cabeça.

— Já olhou para si mesmo hoje? – perguntou e a confusão se fez presente no rosto alheio. – Eu tenho sorte de ter conseguido conquistar o seu coração, você é perfeito. É claro que ela gosta de você, não é nem louca de não gostar.

Zayn riu, empurrando levemente o outro por se sentir envergonhado. Liam segurou-o pela nuca e aproximou seus rostos, beijando-o.

— Moreno, eu te amo tanto.– Sussurrou contra os lábios alheios, vendo-o sorrir com a língua entre os dentes.

— Eu sei. – Convenceu-se. Fazendo-o rir e dar um soco indolor em seu ombro. – Hoje não teve nenhuma louca incendiando o próprio apartamento e chamando você para apagar o fogo, né?

Liam riu e voltou a se levantar, procurando pelas outras peças de suas roupas que estavam espalhadas. Antes de vestir a camisa negou com a cabeça, achando graça da expressão de Zayn.

— Pra dizer a verdade já tem um tempo que ela não liga mais.

— Eu disse que matar ela daria um jeito. – Espreguiçou-se, vendo o olhar repressivo do marido. – Só estou brincando, não me olhe desse jeito.

Ajoelhou-se na cama e puxou-o contra seu peito nu, beijando o lábio em uma linha fina.

— Zayn, combinamos que essas brincadeiras...

— Eu sei, eu sei! Desculpa. – Abraçou-o apertado. – Enterramos o passado, vamos deixar assim.

O castanho respirou fundo e acariciou a coluna do moreno com a ponta dos dedos. Afastou-se o mínimo possível só para poder fixar sua atenção em sua expressão, sorrindo tranquilo logo em seguida.

Aproximou os rostos e apoiou a testa á dele.

— Noriko não me é uma ameaça, né? – questionou humorado. O outro ergueu a sobrancelha. – Ela é bonita e bem inteligente, tenho que saber se não é uma pretendente á altura.

— Hum. – Fingiu pensar, batendo o indicador no próprio queixo. – Acho que seus pretendentes deixaram de existir no mesmo dia em que eu disse neanche la morte ci può separare.

— Ah, meu senhor você sabe como agradar o seu homem. – Gemeu satisfeito, sentindo o outro sorrir contra sua bochecha. Liam subiu suas mãos pelas costas largas do paramédico, descendo-as de volta até o elástico da calça que ele usava, pronto para adentra-lá quando, desta vez, o Bip em sua cintura os despertou.

— Por que a gente tem essas porcarias mesmo se elas só apitam no momento que vamos nos divertir? – irritadiço puxou o aparelho do suporte e observou o nome de Johnathan brilhar na tela. – Maldito empata foda...

— O que aconteceu? – questionou, afastando-se desgostoso do calor alheio que correu para terminar de se aprontar.

— Parece que houve uma explosão na fábrica de madeira.

— Será que tem feridos?

— Não sei dizer, mas se houver nos encontramos daqui a pouco de qualquer forma. – Fechou o zíper da calça e afivelou o cinto. – Amo você.

— Amo você.

Malik sentou sobre os próprios calcanhares quando o viu atravessar pela porta. Apreciou por um segundo o silencio, a própria companhia, antes que o caos da humanidade o envolvesse novamente.

❱❱❱ ❮
Someone like me can be a real nightmare, completely aware...

 

Zayn segurou com cuidado as gases antes de colocá-las sobre o ferimento na garota com aproximadamente vinte e poucos anos. Sua pele estava reluzente pelo suor, na mesma medida que as mãos grudavam pelo próprio sangue que mancharam-nas quando tentou estacar o próprio sangue.

Carol, esse era o nome da garota, havia reagido à um assalto e como consequência foi esfaqueada na cintura. A mesma ligou para a emergência entre soluços e lágrimas e agora era colocada sobre a maca. Malik apoiava a mão com luvas sobre o ferimento, pressionando para que o sangue parasse de jorrar e ela tentava controlar o próprio choro, repetindo como um mantra como sua mãe iria matar-la por ter reagido à um assalto.

— Eu estava com o dinheiro para comprar um presente de aniversário para o meu irmãozinho. – Ela disse ofegante e trêmula, apoiando as mãos sobre as de Zayn com medo de que ele a soltasse. – Scott vai fazer aniversário em uma semana e ele queria um ukulele. – Sorriu triste, os olhos verdes estavam entornados em lágrimas. – Ele vai me odiar, não vai?

— Não, não vai. – Zayn a tranquilizou, andando ao lado da maca com cuidado para não tirar as mãos do ferimento. – Scott é um garoto de sorte por ter uma irmã corajosa, pode ter certeza que o maior presente desse garoto é saber que você ainda está viva.

Carol soltou o ar em um sorriso, ao mesmo tempo que as lágrimas desciam por suas bochechas rubras. Os cabelos loiros estavam grudados na testa e ela tentava a todo custo não demonstrar tanta dor, mas era impossível. D'Angelo sentou na maca quando Tom e Carter a ergueu para que entrassem na ambulância.

— Setenta e sete. – Carol divagou, de repente. E os olhos âmbares analisaram-na com curiosidade. – O homem que me esfaqueou, disse que isso o faria lembrar de setenta e sete, ele estava pinchando a parede com esse número quando me viu.

Os músculos do moreno congelaram e a respiração pareceu prender nos pulmões ao mesmo tempo que a cor fugia da sua fase. Lentamente seu olhar se ergueu para o beco que a encontraram, notando só então as paredes todas sujas de lodo e com tinta branca.

Carol tinha razão, setenta e sente estava desenhado na extensão de blocos vermelhos, repetidas e repetidas vezes. Mas também havia se enganado em dizer que naquela parede existia apenas um par de números.

O coração paralisou dentro do peito, era quase possível sentir sua alma fugir do corpo quando os olhos se esbugalharam para analisar com mais clareza os números pintados na parede úmida.

77 79

E novamente.

77 79

E de novo.

77 79

Tomando conta de uma parede inteira, com a mesma sequência. Com a infeliz ironia. Uma coincidência que havia sido capaz de atormenta-lo naquele instante.

D'Angelo piscou mais rápido quando Carter o entregou mais gazes para serem postas sobre o ferimento, e em seguida ejetava uma agulha na veia de Carol para que ela recebesse mais sangue. Os números foram tirados de seu campo de visão quando Tom fechou as portas traseiras, mas isso não os impediu de segui-lo durante o resto do dia.

❱❱❱ ❮
But I'd rather be a real nightmare, than I die unaware.

 

— Talvez isso o ajude a dormir. – Tom atravessou a porta e a fechou atrás de si, suas mãos se ergueram no ar, esquivando para direita a cabeça e batendo o pé esquerdo no chão. Observava Zayn em expectativa, com uma expressão mista de entusiasmo e ansiedade. – Sabe a garota que socorremos à tarde?

— Qual delas? – Zayn se sentou no colchão e deixou o aparelho celular de lado para ouvi-lo bem. Tom piscou inúmeras vezes, enrugando o rosto com um sorrisinho animado. D'Angelo riu.

— A loirinha bonita, a do beco. – Concluiu, vendo a expressão do companheiro que o pediu em silêncio para que prosseguisse. – Depois que ela saiu da cirurgia, e ela já está bem antes que me pergunte, a polícia veio fazer um retrato falado do cara que a esfaqueou. Sabe, a mãe dela não estava colocando muita fé na investigação, mas adivinha... eles encontraram o cara.

— Isso é sério? – surpreso observou o parceiro fazer uma dancinha da vitória, empolgado com o que havia lhe trazido.

Tom era um homem bom, um homem que escolheu virar paramédico para salvar pessoas e manter-las seguras. E mesmo salvando pessoas, se descobre o mau que habita em outras e no meio de tantas notícias ruins, saber que um agressor ou estuprador ou pedófilo havia ganhado o que era lhe merecido, sempre o deixaria feliz e o faria contar mais um ponto para a humanidade.

— Na verdade, o cara se entregou. – Arrastou os pés até que estivesse sentado ao lado do parceiro, segurando a destra do mesmo com os olhos negros esbugalhados. – Mas é bom do mesmo jeito.

— É ótimo, Tom. – O moreno riu quando o outro pulou para ficar de pé e observar-se no espelho pequeno, ajeitando o topete para trás. – Sabe por que o cara se entregou?

— Isso é o mais bizarro da história. – Deslocou a atenção do próprio reflexo para a expressão curiosa do moreno. – O cara sofre de transtorno de estresse pós-traumático, aparentemente serviu na guerra do Vietnã em setenta e sete. – D'Angelo piscou, mais consciente das informações que recebia. – Segundo a esposa dele, ele precisou passar por muita ajuda psiquiátrica para receber suporte e tomar remédios controlados, mas ainda sofre de recaídas e foi em uma delas que o caminho daquela garota se cruzou com o dele. Os números pinchados na parede representam o ano e o total de pessoas que ele lembra de ter matado na guerra antes da mente dar um apagão.

— Setenta e nove pessoas... – piscou lentamente, encarando distraído qualquer ponto distante.

— É, o número com certeza deve ser muito maior. – O homem lamentou com um suspiro fúnebre. – A esposa dele o encontrou vagando pela quinta avenida, ele já tinha voltado ao juízo perfeito quando decidiu se entregar antes que pudesse apagar de novo.

Setenta e nove pessoas antes que não se lembrasse de mais nada. E se lembrasse, talvez seria pior. E se lembrasse, talvez teria crises maiores e mais garotas como Carol não teriam a mesma sorte. E se lembrasse, os apagões seriam mais duradouros - por que, de alguma razão, Zayn conseguiu enxergar o número de vidas tiradas pelas próprias mãos em frente aos olhos?

— Logan. – O homem negro chamou, notando que o parceiro havia se desligado por um tempo. Zayn sacudiu a cabeça e voltou a encara-lo.

— Como você conseguiu saber de tudo isso? – questionou com uma expressão risonha para que o outro não lhe parecesse tão preocupado.

— Lola, a enfermeira do terceiro andar, acompanhou o caso e eu perguntei para ela já que você pareceu um pouco preocupado depois que socorremos a garota. – O homem esfregou as mãos uma na outra, se aproximando hesitante do paramédico e se agachando em frente á ele. – Você está bem? Seja sincero, se mentir para mim ligo para o Daniel e você que se resolva com o seu marido.

D'Angelo maneou a cabeça, a língua presa entre os dentes mostrava um sorriso bonito, mas as lágrimas que fez com que seus olhos brilhassem foi o que havia lhe entregado.

— Henri fugiu de madrugada. – Começou, desviando do foco principal trazendo átona um sentimento novo e mais real. Tom se mostrou preocupado. – Ele está bem, Dan conseguiu achá-lo e o levou de volta para casa. – Coçou a nuca, desconfortável. – Estar com Carol me fez questionar por um momento como eu reagiria caso fosse o sangue do meu filho escorrendo entre meus dedos, isso me deixou atordoado.

Sua mente voltou para Enzo em casa tomando conta dos irmãos. Ou fugindo novamente. Uma preocupação que não existia agora se tornou tópico principal, tomando lugar da coincidência que foi capaz de deixá-lo aéreo por alguns instantes.

— Por que não estou surpreso que o pirralho é o motivo? – Estalou a língua no céu da boca, levantando-se novamente e apoiando as mãos na cintura. – Adolescentes são fogo, irmão. Jeremiah 'tava com ele não, né?

— Não. – Riu da careta do mais velho, vendo-o diminuir o bico. – Falar nisso Henri perguntou sobre ele esses dias, como está Jeremiah?

— Bem até demais. – Voltou para frente do espelho pendurado em um prego na parede, passando as dedos na sobrancelha. – A mãe dele começou a namorar um bacana de Upper East Side e agora estão indo para algum lugar na Bélgica. – Bufou, relaxando os ombros e jogando a cabeça para trás. – Disse que se ele não me trouxer uns chocolatinhos Belga e uma caixa de Meredsous Blond, não precisa nem voltar.

— Uh, quem disse que os caras da comunidade não conseguem ser refinados? – Zombou com ironia, vendo o outro homem rir nasalmente.

— Isso, continua zoando. Só não reclama quando eu for dividir minhas cervejas importadas com o Carter, tá bem? – D'Angelo sorriu débil, a expressão relaxada o trazia uma aura descontraída. Mandou beijo para o paramédico, assistindo-o formar uma careta. – Credo, nojento.

— Está negando um beijo meu?

— Claro, não sei onde você enfiou essa boca. – Zayn ameaçou se levantar para beija-lo na bochecha, provocava-o todos os dias da mesma maneira. Tom deu um pulo para trás, fazendo uns movimentos de Karatê com as mãos, proferindo sons quando os faziam. – Vem não que sou faixa amarela 'mermão. Tá me tirando? – D'Angelo caiu de cara na cama, gargalhando. – Vê se descansa um pouco aí, tira essas ideias erradas da cabeça. Se tiver um chamado venho te acordar.

— Obrigado, Tom.

— Por nada gatinho. – Mandou um beijo para o parceiro e se retirou do quarto, ouvindo a risada contagiante do alheio.

Zayn puxou o corpo mais para o centro do colchão, deitando a cabeça no travesseiro, apoiando as mãos nas barriga. Observou em silêncio o teto, respirando fundo quando os números pintados com spray na parede ressurgiram em sua mente, tão rápido quanto as palavras que saíram da boca de Carol.

Foi uma coincidência. Uma infeliz coincidência que por um momento desencadeou lembranças as quais havia prometido a si mesmo que não gostaria de libertar. Exausto de sentir pena de si mesmo naquele finito tempo em silêncio, pegou o celular ao lado de sua cabeça. Abriu-o e na agenda procurou pelo número de Liam, precisava ter a calma que sua voz o trazia, precisava dizer à ele o que havia ocorrido e ouvi-lo dizer que tudo ficaria bem - como aconteceu nos últimos anos. Alisou o botão que iria chamar pelo número, mas recordou-se que naquele mesmo instante, em algum outro lugar, o esposo estava tentando controlar as chamas ardentes da fábrica de madeira, segundo a última mensagem que recebeu deste.

Voltou para o topo da lista e ligou para casa. Esperou em linha por alguns breves segundos, até ouvir a voz de Camilla soar ao telefone.

— Ei, pirralha.

— Oi, papai. – Sua voz aumentou, parecia empolgada em estar falando com o ele. – Como o senhor está?

— Bem e por aí? Andrea está dando trabalho?

— Andrew está bem. – Enfatizou o nome do irmão e o moreno pode imagina-lá revirando os olhos. – Tomou mamadeira há pouco e golfou o Henri todinho, foi engraçado.

— Já fizeram o dever de casa?

— Sim. – Ela riu e ao fundo pode ouvir o primogênito gritar que o óleo estava respingando sobre ele. – Não me diz que o seu irmão está cozinhando, Camilla.

— Está.

— Ele vai colocar fogo na minha cozinha.

— Por sorte temos um pai bombeiro que nos ensinou como apagar um incêndio doméstico. – Comentou, como se aquilo fosse a coisa mais óbvia do mundo.

— Eu quero matar o seu pai todas às vezes que você ou o seu irmão são debochados comigo. – Esfregou os olhos com o punho, reprimindo a vontade de xingar. – Isso é tudo culpa dele.

Camilla gargalhou alto, respondendo:

— Não se faça de coitadinho que isso não combina com o senhor. – Enrugou a testa, bufando. – O senhor também tem os seus... Andrew meu cabelo não é chocalho. Aí!

Zayn riu, sentindo todo o temor e ansiedade deixar seu corpo com cada leve tremor causado pela própria risada. Pode ver claramente a cena do caçula puxando um bocado de cabelo ruivo e puxa-ló sem se dar conta da força que possuía. Em seguida ouviu Enzo gritar da cozinha novamente, aparentemente se queimando com óleo.

— Amor, é melhor ir dar uma mãozinha ao seu irmão. E diga à ele que se tentar fugir de novo...

— Henri, papai disse que vai te esquartejar e dar os seus pedacinhos para o cachorro do vizinho comer se tentar fugir de novo.

D'Angelo bateu com a mão na testa e puxou-a até o queixo, reprimindo o próprio grito de repreensão.

— Eu não disse isso.

— Mas ele entendeu, é o que importa.

— Certo, espertinha. – Rolou os olhos e pode mentaliza-lá fazer o mesmo. – Eu amo vocês, ligue caso precisar de alguma coisa.

— Já que disse isso preciso de dinheiro, vai ter uma festa no sábado e eu...

— Pede pro seu pai, tchau!

Fechou o aparelho, repreendo a caçula mentalmente, pensando em ter uma conversa séria de que esquartejar e dar os pedaços para o cachorro do vizinho comer não é e nunca seria uma opção de castigo e repreensão. Mesmo assim riu, não admitiria, mas aqueles momentos conseguiam distrair sua mente agitada por um tempo.

Guardou o aparelho onde inicialmente estava e aconchegou-se mais ao travesseiro, satisfeito pelo sono ter sido breve em relaxar seus músculos e levá-lo à adormecer.

Alerta gatilho: estresse pós-traumático. ⚠️

Descansou, talvez não por muito tempo ou o suficiente, já que quando voltou a acordar sentia como se tivesse sido pisoteado por centenas de elefantes. Resmungou, recusando acreditar que havia se passado menos de trinta minutos que pegou no sono quando olhou o relógio marcar onze e quarenta e cinco da noite.

De repente, os músculos cansados e doloridos estavam despertos como sua mente, quando batidas duras e rápidas foram feitas na porta, como se dessem socos fortes e raivosos. Estava sentado na cama, os dedos apertando o lençol com força entre os dedos rígidos e brancos, os olhos presos na folhagem de madeira que não havia saído do lugar por mais que houvesse a sensação que ela cairia a qualquer momento.

Assustado prendeu a respiração, sentindo a vertigem assumir pose das entranhas quando se levantou rápido demais para ver o que estava acontecendo do outro lado. Os socos eram mais forte, entanto mais altos. Seus passos foram rápidos conforme a curiosidade aumentava em seu ser e o coração disparava tão desesperado que já levou informações suficiente ao cérebro que criou mil e uma situações do que poderia estar acontecendo.

Os movimentos aumentaram mais, era quase visível ver a porta se movendo mesmo fechada e bem presa nas dobradiças. Abriu-a, esperando que quem fosse do outro lado caísse sobre si conforme se desequilibrava diante a própria força. Mas não havia ninguém e isso o despertou mais curiosidade, levando-o para fora na esperança de encontrar com alguém que pudesse ter saído correndo. Novamente, ninguém.

Coçou os olhos, acostumando os retinas com a claridade do corredor solitário quando concluiu que esse poderia ser mais um delírio do cérebro cansado. Esfregou as mãos no próprio rosto, sentindo os dedos tão gélidos como se pudesse ter perdido todo o sangue que o mantinha vivo quando despertou repentino. Soltou o ar que havia prendido nos pulmões e tomou a decisão de voltar para o quartinho.

Quando deu o primeiro passo em direção à sala de descanso foi quando viu a sombra - uma silhueta de alguém desconhecido. Estava parada, no breu, trêmula como se sentisse frio, esquivara para o lado como se o osso da costela tivesse sido quebrado. D'Angelo juntou as sobrancelhas e esfregou os olhos para ter certeza que estava vendo direito, que não era mais nenhuma alienação ou uma pegadinha do próprio cérebro.

Seus lábios se moveram, mas dentre deles não saiu nenhum som, e a garganta ardeu tão forte como se sentisse que suas cordas vocais fossem arrancadas com os dedos. Contorceu com a dor irreal, segurando o próprio pescoço como se aquilo pudesse diminuir o próprio sofrimento, quando a silhueta se moveu.

Ouviu o som de uma respiração difícil. Notou que os pés estavam pesados demais para se erguerem e caminhar, então se arrastaram, a sola dos sapatos causavam agonia aos ouvidos. Do breu um homem torto surgiu, primeiro revelando os pés e o jeans escuro, rasgado e sujo. Em seguida as mãos, sujas de sangue, dedos quebrados e uma pistola presa na única mão que ainda parecia inteira para segura-lo. Por último, seu rosto.

O furo á bala na testa de Fabrizio transbordava sangue, escorrendo pelo nariz e colorindo os dentes que eram mostrados em um sorriso sádico. Sem muito pestanejar levantou a arma, a jaqueta rasgada e queimada de pólvora cobria a camisa branca manchada pelo sangue e os ossos quebrados de sua costela, o indicador alisou o gatilho antes que o pressionasse.

Aterrorizado e paralisado, Zayn cobriu o próprio rosto com os braços como se eles fossem lhe servir como escudo, após o som do disparo e não sentir nada, ousou-se a abrir os próprios olhos novamente. Piscou incrédulo e notou que o homem havia desaparecido na mesma velocidade em que apareceu, correu para dentro do quartinho e fechou a porta atrás de si, tentando normalizar a situação, convencendo-se de que nada era real e que sua cabeça estava tentando extrair para fora insanidade.

Ouviu o celular tocar, mas parecia tão distante que mal poderia identificar onde estaria se não soubesse onde o deixou. Girou nos próprios calcanhares e notou que o cômodo não era mais o mesmo. Estava em um galpão antigo, com correntes enferrujadas suspensas no teto. Ferramentas, armas e facas pousadas em uma mesa, uma cama à poucos passos com o celular, tocando estridentemente.

D'Angelo não teve tempo de questionar o que estava acontecendo quando sentiu frio. A dor irreal voltou ao seu corpo, mas era tão gritante desta vez que precisou ver com os próprios olhos os cortes abertos no peito e braços e todas as queimaduras com bitucas de cigarro desenhadas por ali. Observou os punhos acorrentados, os dedos enrugados, as mãos calejadas.

Cambaleou para a frente, analisando cada machucado, sentindo exclusivamente a sensação de estarem aberto e jorrando um à um. Abriu a boca para pedir ajuda, nenhum som poderia descrever sua aflição mesmo que pudesse o fazer - nenhum som sairia de sua boca mesmo que morresse tentando.

O pior veio a seguir, os joelhos falharam em sustentar o peso do próprio corpo quando o estralo de um chicote se manifestou, os anzóis amarrados na ponta puxaram a carne e rasgaram-na. Sentiu novamente a presença de Fabrizio, rindo da tortura que causava ao próprio filho, vendo-o se rastejar até a cama, apoiando-se na mesma e procurando pelo aparelho celular.

Outro estralo. Mais um golpe fatal e D'Angelo sentiu o suor escorrer pelo rosto quando a dor sumiu e as mangas do casaco azul entraram em seu campo de visão. Não havia mais sangues nas mãos, nem dor. Mas veio a culpa, tirando-o o ar quando os olhos marejados observaram algo que acontecia á frente, como se as paredes houvessem desmoronado em segundos para ter certeza de que Zayn não perderia a oportunidade de ver a própria figura.

Se reconheceu, correndo apresado para sua antiga BMW. Jasmyn, não negaria que sentia falta - mas isso não era de interesse agora. Assistiu o momento que entrou no carro e apoiou a cabeça no encosto do banco, suas lágrimas eram silenciosas, mas o sangue que via manchando as próprias mãos gritavam e acusavam a sua culpa.

Se recusou a continuar em prosseguir com a cena, sentiu a vertigem do início voltar com intensidade como se estivesse rodando em um redemoinho, virou-se com dificuldade para sentar no chão com as costas apoiada na cama. Do outro lado estava Camilla, a irmã falecida, recebendo o tiro falta que a tirou a vida. Mas quando o corpo caia ao chão, não era ela quem olhava em seus olhos. Stella sussurrou inaudivelmente, apontando para algo em seu colo.

De repente o corpo esfriou. Sentiu as mãos úmidas. Quando reparou no peso no próprio colo, pode encontrar Liam. Sem vida.

O choro foi silêncio, mas o grito que o despertou do pesadelo não.

Fim do gatilho. ⚠️

Zayn agarrou o lençol da cama, sentindo os nós dos dedos ficarem brancos e dormentes. Respirava fundo pelo nariz, sentindo o suor escorrer pela face ao mesmo tempo que o coração tamborilava contra o peito tão rápido que considerou ter um infarto. Olhou a volta, o cômodo parecia o mesmo, nada tinha saído do lugar e nem havia sangue respingado pelo chão.

Pegou então o celular ao seu lado, as mãos trêmulas, úmidas e pálidas - concluiu que aquela era sua aparência atual. Observou os números brilharem na tela, duas e quarenta e cinco da manhã, e cinco chamadas perdidas de...

— Amor? – Liam adentrou o local, fechando a porta atrás de si. – O que aconteceu? Pude ouvir o seu grito vindo do corre...

Liam foi interrompido quando os lábios de Zayn se chocaram contra os seus, rápido, voltando para abraçá-lo com todo o temor que tinha de perdê-lo. O bombeiro inicialmente surpreso abraçou-o com a mesma intensidade, como se pudesse sentir a angústia silenciosa invadindo as células no corpo menor.

— Pegadinha, em que ano nos casamos na igreja?

— Não nos casamos na igreja. – Riu nasalmente, acariciando a nuca do mais novo quando o ouviu soluçar na curva de seu pescoço. – Teve outro pesadelo, não foi? – abraçou-o mais forte quando sentiu-o concordar. O coração apertou, possuindo cede de libertar o marido de toda angústia. – Eles estavam diminuindo, hum? – Segurou em seu rosto, enxugando as lágrimas com os polegares e beijando delicadamente a ponta de seu nariz vermelho. – Qual foi o gatilho?

— Setenta e sete. – Choramingou, tentando controlar a própria respiração. – Uma garota foi esfaqueada e o cara que fez isso disse que isso o faria lembrar de setenta e sete. Foi uma guerra no Vietnã, mas...

— Oh, meu bem. – Apertou-o, como se com aquilo pudesse espremer para fora toda a dor que Zayn estivesse sentindo. – Foi só uma coincidência.

— Eu sei. – As lágrimas continuaram a rolar por sua face, molhando os polegares de Liam que tranquilizava-o pouco a pouco. – Mas minha mente criou todo aquele cenário de novo, tudo o que aconteceu depois...

— Ei... – Afastou os fios negros grudados na testa, levando sua atenção aos olhos cor de uísque. – Passou, tá bom? Você não precisa falar disso se não quiser, e se quiser também pode. Mas independente de qualquer coisa, estarei aqui até que se acalme. Tá bom?

— Falar nisso, o que você está fazendo aqui? – perguntou ainda choroso, sentindo-se mais seguro por ter o marido por perto. Não queria ter que conversar sobre aquilo, apenas o assombraria mais. Sabia que Liam entendia e que arrumaria qualquer coisa para distraí-lo e conforta-lo. Seu homem sabia como agradá-lo. – Da última vez que me mandou mensagem estavam tentando controlar o fogo da fábrica.

— Isso foi há cinco horas. – Sorriu, empurrando-o até a cama. Tirou a jaqueta do mesmo antes de ajuda-lo a se deitar. – Quando controlamos as chamas chegou outra equipe, o capitão nos dispensou e eu te liguei algumas vezes. Achei que estivesse nas ruas e fui para casa até que o Tom me ligou.

— O que aquele fofoqueiro queria?

— Ele disse que você tinha ficado um pouco mexido com o resgate de uma garota mais cedo, então dei meia volta e vim direto pra cá. – Tirou a própria camisa, deixando mais que o peito tatuado e a corrente que carregava a chave do bracelete de Zayn á mostra, mas todas as novas cicatrizes que ganhou nos últimos anos. – Espero que não se importe que eu me deite ao seu lado todo suado e...

Zayn puxou-o pela mão, aconchegando-se em seu peito e sentindo os batimentos leves do marido contra o ouvido. Abraçou-o tão apertado como se quisesse o impedir de fugir caso quisesse, sentindo-se gradativamente seguro quando os braços do maior o protegeu e o envolveu contra seu corpo, beijando-o na testa.

— Obrigado por vir.

— Faço tudo por você, sabe disso.

Sim, Zayn sabia. Como também reconhecia que eram momentos como aquele que não se incomodava com o cheiro de suor e fumaça.

Desde que o coração de Liam estivesse batendo seguro próximo ao seu.

But, I'm glad to be a real nightmare. So save me your prayers...


Notas Finais


De zero a dez, qual nota dão para esse capítulo e o amadurecimento em geral desse casalzinho lindinho?

Deixem suas dúvidas aqui, prometo responder todas, sem dar nenhum spoiler 😎

Espero que tenham gostado, voltarei em breve. Preparem seus corações, o crush da maioria mostrará as caras, e como o tempo foi bom - ou talvez cruel - com o nosso querido e doce Leo.

Tenham bons sonhos, mafiosos. Mamãe ama vocês.

ox, blue.


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