História FIGHTER (sope) - Capítulo 3


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Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Jeon Jungkook (Jungkook), Jung Hoseok (J-Hope), Kim Namjoon (RM), Kim Seokjin (Jin), Kim Taehyung (V), Min Yoongi (Suga), Park Jimin (Jimin)
Tags Basketball, Basquetebol, Desporto, Fighter, Longfic, Mbballu, Pt-pt, Sope, Sope!flex, Yoonkook, Yoonseok!flex
Visualizações 14
Palavras 4.872
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Bishoujo, Bishounen, Comédia, Crossover, Drabble, Drama (Tragédia), Esporte, Famí­lia, Festa, Ficção Adolescente, Harem, Hentai, Lemon, LGBT, Luta, Policial, Romance e Novela, Saga, Shonen-Ai, Shoujo (Romântico), Shoujo-Ai, Shounen, Suspense, Universo Alternativo, Violência, Yaoi (Gay), Yuri (Lésbica)
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 3 - 2 Entre dúvidas e videochats alternativos


Y O O N G I

Não sei quanto aos outros, mas eu não sou nem nunca fui habituado a ter o meu único e melhor amigo a cozinhar para mim na minha própria casa e a passar as mãos por entre os meus cabelos num ato carinhoso. Visto de qualquer ângulo ou distância, qualquer pessoa de bom senso poderia ver aquilo como como um gesto completamente normal entre dois amigos, mas para mim passa o limite do constrangimento, já que nunca fui habituado nem a dar nem a receber tal tipo de carinho.

Na verdade, eu e o Jungkook nunca tivemos aquele tipo de contacto, mas a estranha relaxante troca de olhares que tivemos mexeu com o meu sistema nervoso. Foi impossível aguentar, segundos depois já estava trancado no quarto de banho do quarto com o coração a mil, completamente confuso com o que tinha acabado de acontecer.

— Hyung... Está tudo bem? — O miúdo perguntou do lado de fora após tentar abrir a porta e constatar que estava trancada. — O corte voltou a expelir sangue? Precisas de ajuda com o curativo?

— Está tudo bem, Jungkook, eu consigo lidar com isto. Por favor, vai servindo a comida que eu já desço.

O Jungkook nada disse, mas pude ouvir os seus passos a distanciarem-se e a porta do meu quarto bater, indicando que o mesmo já o tinha abandonado. Então, eu soltei a respiração — que não tinha notado ter prendido — num longo suspiro, respirando profundamente várias vezes para me recompor e tentar esquecer o acontecimento passado. Quanto mais evitar pensar no assunto, menos chances a minha mente traíra teria de evoluir os meus pensamentos para algo que pudesse ser evitável.

Aproximei-me da pia do lavatório e encarei a minha figura refletida no espelho. O meu cabelo estava a crescer e começava a ultrapassar o limite que eu impunha para cortar, mas ali, naquele momento, ativando o botãozinho de "que se foda tudo", decidi que o cortaria quando tivesse vontade e achasse realmente necessário. Há que poupar, os salões daqui cobram mais de cinquenta dólares canadenses⁴ para um simples corte e eu não estava disposto a abrir a mão daquele dinheiro tão cedo.

Tentei afastar aqueles pensamentos ao passar água no rosto, como os personagens de histórias, filmes e desenho animado costumam fazer, chegando à conclusão de que aquilo era uma treta e que só se desperdiçava a água que o planeta um dia não teria. Além do mais, os pensamentos permanecem na mente.

Foi então que pensei: se eu não consigo afastá-los, vou organizá-los.

A ideia de criar um diário era tão estúpida como a de criar uma história. Eram pensamentos que qualquer um podia ter, e não fazia o menor sentido transcrever tal coisa para um pedaço de papel. E a partir do momento em que peguei numa folha branca para começar a escrever, eu passei a achar-me um estúpido por não conseguir organizar os meus pensamentos na cabeça.

Escrevi várias vezes o que tinha na cabeça. Não eram frases, somente palavras que, conjugando-as, talvez formassem alguma coisa com sentido. Expressei os sentimentos que sentia nas palavras que melhor os descreviam, e quanto mais escrevia, mais eu me assustava.

Sabia mais do que qualquer um quais eram os sentimentos presentes no amor e, sim, eu amava o Jungkook como se a minha vida dependesse disso, mas até onde me conhecia eu gostava de meninas, especialmente daquelas com atitude na cama. Eu não gostava de rapazes.

Meio apressado, arrastei a cadeira de rodinhas em direção ao iMac instalado sobre a secretária. Não me estava a acreditar na ideia que tinha acabado de ter, mas duas cabeças pensam melhor do que uma.

— Hyung, a comida vai ficar fria! — Ouvi o Jungkook gritar do andar de baixo, fazendo-me, por enquanto, desistir da ideia que tinha tido.

Excluindo os momentos em que usei para elogiar a sua comida, a refeição foi demasiado silenciosa ao meu ver. O clima não era desconfortável, mas entre mim e o Jungkook não era habitual estar o silêncio e a calmaria que se instalaram ao decorrer do almoço. Haviam trocas de olhar, e pelo pouco — muito — que conheço do outro, sabia que ele queria dizer-me alguma coisa.

Depois de o ajudar a lavar a louça e a limpar a cozinha, fui novamente para o meu quarto. O Jungkook foi para o escritório do meu irmão trabalhar na sua música e eu prometi ir ajudá-lo, mas antes avisei-o de que precisava de fazer uma coisa importante. Ele estranhou quando neguei contar-lhe do que se tratava, mas não fez perguntas.

Tornei a sentar-me na cadeira de rodinhas e pesquisei na internet uma página de videochats aleatórios com pessoas de variadíssimos locais do mundo. Fui aos filtros e coloquei como preferência pessoas fluentes no coreano. Do inglês já eu estava farto.

Olá? — Ouvi a voz de um indivíduo. Nesse momento, eu amaldiçoei-me por ter as colunas de som emparelhadas ao computador, pois as chances do Jungkook ter ouvido a voz deste tipo eram altas.

— Boa tarde.

Na verdade, aqui já lá vão umas boas horas para se dizer boa tarde. São nove da noite.

— Tão tarde assim? Onde vives?

Em Veneza. E tu?

Uau, ele vive na Itália. Que sortudo.

— No Canadá, em Vancouver.

Nada mal, hã? Não é toda a gente que pode viver numa cidade dessas.

— É, pois... Não é como se eu não gostasse de viver aqui, sabes, mas quanto mais depressa sair de Vancouver, mais depressa a minha infelicidade se vai embora.

Então? Aconteceu alguma coisa por aí para que não sejas feliz? Vancouver é fantástica!

Notava-se que o tipo não sabia nada do que se estava a passar, mas não é como se ele tivesse culpa da vida que eu levava. Ele acabou de me conhecer, e apesar de morar quase no outro lado do mundo, a milhares de quilómetros de mim, não é como se esse facto bastasse para eu contar-lhe tudo sobre mim.

Eu era um totó, não um estúpido.

— Olha, como é que te chamas?

Chamo-me Seokjin, e tu?

— Podes chamar-me de Yoongi... Qual é a tua idade?

Tenho vinte e sete anos. Quantos anos tens tu?

Ora, ora, ele era mais velho do que eu. Será que sabia alguma coisa sobre o amor?

— Tenho vinte e três.

Bom, eu não vou perguntar-te o que estás a fazer aqui, mas é exatamente isso o que quero saber, além do que Vancouver te fez para seres infeliz.

— Ah, Seokjin... Há coisas que não devem ser ditas a estranhos, por exemplo, a nossa história de vida.

Então quer dizer que não tens amigos? Amigos são pessoas que conhecem a tua história de vida, não é? Eles já foram estranhos, em algum momento.

Que inteligente.

— Está bem, é verdade, mas fica para outra ocasião. Eu quero ajuda.

Diz-me, pequeno gafanhoto, no que te posso ajudar?

— No amor...?

No amor?

— Ah, sei lá! A internet é uma merda, não explica nada de jeito. Qual é a probabilidade de uma pessoa que sente atração por mulheres estar possivelmente a desenvolver sentimentos pelo melhor amigo?

— Não sei, alta, talvez? Mas espera, vamos com calma. O que te fez chegar a essa conclusão?

— Eu não sei, Seokjin, eu não sei... Eu conheço o Jungkook há pouco mais de cinco meses e é como se nos conhecêssemos há anos! Eu não tenho amigos, ele é a única pessoa com quem me dou e talvez eu possa estar a confundir as coisas.

Isso de confundir os sentimentos é comum. Quando uma das minhas amigas começou a namorar eu senti que a tinha perdido e, por causa disso, comecei a considerar a hipótese de gostar dela. No entanto, eu descobri que isso era apenas ciúmes e medo de que ela desaparecesse da minha vida.

— Não, Seokjin, não acho que estejas a entender. O Jungkook não namora, sequer anda a sair com alguém. Não há a porra de uma justificação para eu estar a sentir isto por ele! Eu sou hétero, isto não é possível.

Há pessoas que só se descobrem depois...

— Mas eu não sou uma dessas pessoas! Em todos os meus vinte e três anos de vida eu já experienciei mais de cinco relacionamentos, e todos eles foram com mulheres! Eu sinto atração é pelos cabelos longos, os peitos volumosos e pelas vaginas, e não pelo que tenho no meio das pernas.

Olha, Yoongi, isso são dois caminhos diferentes que, apesar de chegarem ao mesmo destino, ambos necessitam de ser estudados. Se fosse eu neste caso, acho que primeiro tentaria saber se gostava mesmo do meu amigo e só depois é que resolvia o caso dos pénis e vaginas.

— Caramba, Seokjin, eu venho aqui à procura de respostas e tu dás-me mais cenas para pensar?

Mas tu queres o quê? Que te diga se gostas ou não do teu amigo?

— Sim?

Oh, meu Deus. Onde isto já vai...

Por mais trágica que a situação fosse, eu acabei por rir. Nunca na vida iria imaginar-me numa sala de bate-papo aleatória a falar com um desconhecido sobre a minha questão amorosa. Sempre fui confiante quando o assunto era relacionamentos, mas depois da curta conversa com a Ivy e do acontecimento aqui no quarto, eu suspeitava dos meus sentimentos.

Nestes curtos cinco meses o Jungkook tornou-se numa presença habitual no meu dia a dia, e foi inevitável começar a vê-lo como um irmão. Quando dei por mim, comecei a fazer parte dos jantares de família que aconteciam às terças-feiras em sua casa, acabando por me tornar no terceiro filho da Cobie Smulders. No primeiro jantar ao qual compareci eu conheci o irmão mais velho do Jungkook, e se não fosse pela diferença de alturas eu teria-o confundido com o próprio.

Diz-me por onde começou essa tua... suspeita, de gostares do teu amigo.

— Para ser franco, foi hoje. A governanta da minha casa comentou sobre o Jungkook ser a pessoa ideal para mim, mas eu descartei isso. No entanto, isso acabou por me ficar na cabeça e antes do almoço estávamos os dois deitados na minha cama. Até aí tudo bem, só que depois ele começou a mexer-me nos cabelos e a encarar-me de uma maneira intensa.

Hm, continua.

— Continuo o quê?

A história, ou não há mais?

— Não. Eu tranquei-me no quarto de banho e depois fomos almoçar. Esteve um clima fodido durante o almoço. Não era mau, era apenas estranho.

Está bem, temos um começo. Além disso, o que mais te faz pensar que gostas dele?

— Talvez o cuidado que ele sempre teve comigo? Sinceramente, não sei mesmo o que dizer. O Jungkook sempre esteve aqui para mim e prestou apoio sempre que pôde, e quando as coisas estão uma merda é a presença dele que salva tudo.

Olha, Yoongi, eu sou um fisioterapeuta, não um especialista no amor. Isso tudo o que tu sentes pode ser aplicado tanto a um amigo como a um parceiro amoroso. Infelizmente, a única coisa que te posso dizer é que se estiveres mesmo apaixonado pelo teu amigo vais ter de procurar uma ajuda para te auto aceitares e aprenderes a "gostar de pênis", por mais que isso não exista. O amor é um sentimento que, por mais palavras que usemos para o descrever, é impossível de ser descrito por completo. Quando for amor, tu saberás. Aliás, tu mesmo disseste que já estiveste em relacionamentos anteriores, então não vai ser muito difícil.

— Não eram verdadeiros...

Não importa. Mas, agora a sério, eu fiquei interessado nesta fanfic. Podes dar-me o teu número para eu saber o final dela?

— A sério que me estás a pedir isso? Não queres mais nada?

Claro que quero! Como sou eu quem te está a ajudar, sou eu quem te vai casar!

I I I

O Seokjin e eu ficamos a conhecer-nos durante um bom bocado, e quando demos por nós mesmos iriam fazer duas horas que estávamos naquela sala de vídeo.

A conversa fluía com facilidade, uma vez que aquele hyung era uma pessoa bastante carismática e muito fofoqueira, e por mim, nós ficaríamos ali a falar durante horas e horas. No entanto, um peso sobre as minhas costas surgiu ao que me lembrei de que tinha prometido ir ajudar o Jungkook logo após o almoço e nunca mais me lembrei.

— Caramba, Seokjin! Eu logo à noite mando-te uma mensagem, preciso de ir!

Está tudo bem? O que aconteceu?

— Eu deixei o Jungkook sozinho, sendo que prometi ir ajudá-lo numa coisa!

Estou a ver. Vai lá, logo falamos.

Fechei a aba de internet e saí disparado em direção ao escritório, sendo obrigado a descer para o segundo piso da casa. O arrependimento de ter faltado com a promessa começava cada vez mais a pesar, e de certa forma isso dava-me cabo do juízo. Eu não era assim, sabia que acontecimentos destes acabavam por penalizar uma amizade e eu não queria isso para a minha amizade com o Jungkook.

Quando cheguei à frente do escritório pude ouvir risos vindos de lá de dentro. Estranhei — a casa estava completamente vazia e já tinha a confirmação de que os meus pais só voltariam na manhã seguinte. A Ivy com certeza não era, de certo que estaria a aproveitar para descansar. Foi então que abri a porta para sanar a minha dúvida, e a expressão mista de surpresa e desapontamento foi estampada no meu rosto.

Realmente, o Jungkook não estava sozinho, mas sim acompanhado da presença do William. Era raro ver o meu irmão em casa, o seu trabalho pouco ou nada permitia que os seus horários colidissem com os meus, e eu até agradecia por isso. Então, foi uma grande surpresa vê-lo ali, àquela hora.

Como não tinha aberto a porta totalmente, os dois não se tinham apercebido da minha presença. Bati duas vezes na madeira escura, atraindo o olhar de ambos; um emburrado, outro nervoso.

— Essa coisa que tinhas para fazer era tão importante assim para demorares duas horas a vir ter comigo? — Foi o Jungkook quem perguntou, largando a caneta que segurava sobre a secretária e cruzando os braços.

— Não fiz de propósito, apenas distraí-me com as horas. Desculpa.

— Com quem estavas a falar?

— O quê?

— Com quem estavas a falar? — Repetiu, desta vez levantando-se e marchando na minha direção — Eu ouvi-te a conversares com alguém quando entraste no quarto, tinhas as colunas ligadas. Se não quiseres dizer, tudo bem, não és obrigado, mas eu realmente acreditava que não haviam segredos entre nós.

— Mas não há segredos entre nós. Eu não te estou a mentir, realmente distraí-me com as horas e esqueci-me de vir aqui ajudar-te, mas, pelos vistos, parece que nem fiz muita falta...

O William estava atento à nossa conversa e isso deixava-me irritado. Não havia motivos para isso, discutir à frente de plateia é clamar por atenção, mas somente a sua presença naquele lugar incomodava-me.

O ódio pelo meu irmão cresceu junto a mim. Ele sempre foi o filho perfeito, enquanto eu era a ovelha negra da família. Os meus pais sempre disseram que o que eu sentia em relação a ele era ciúmes, porque o William ganhava tudo num estalar de dedos, enquanto eu dificilmente ganhava uma simples batalha. Durante muitos anos vivi nas suas sombras, procurando por resquícios de luz que nunca foram achados.

E hoje, olhando para si, eu vejo o que sempre vi em toda a minha vida — de um menino, o William tornou-se num homem de sucesso com apenas um estalar de dedos.

Eu era o seu reflexo no espelho, mas enquanto ele era fisicamente real, eu era apenas uma réplica inútil e inexistente a qualquer olhar.

— O Jungkook estava completamente atrapalhado. Como cheguei apenas há alguns minutos e tenho alguma criatividade, não vi problemas em ajudá-lo. Por isso, Yoongi, te-

— Quantas vezes é que vou ter que te repetir na merda da minha vida que para ti o meu nome é Oliver!?

O Jungkook agarrou-me pelos ombros assim que me viu pronto para avançar no mais velho. Sabia que ele estava a agarrar-me com medo — medo de que o William fizesse algo comigo. Coragem para avançar nele não faltava, mas qualquer um veria de longe que ele seria o vencedor da batalha. Não havia chances para uma pessoa como eu ganhar; eu era baixo e magro, já o William era alto e forte, e servir às forças armadas só lhe ajudava a acabar comigo.

— Eu nunca, nunca te fiz nada, Yoongi, então não consigo entender esse teu ódio por mim. És um ingrato, um hipócrita do caralho que diz estar no fundo do poço, mas que faz-se de morto quando alguém atira uma corda para te puxar. Mesmo assim, mesmo tu tratando-me como uma merda, eu não vou desistir de ti nem de tentar puxar-te para a luz. Agora, faz-me um favor e sai daqui.

O meu maxilar travou e os meus punhos fecharam-se. Aquele homem não ficava atrás dos nossos pais no requisito de criticar-me — ele era o primeiro a fazê-lo, e sequer olhava para o próprio umbigo. Era a perfeita definição do sujo a falar do mal lavado.

Não me dei ao trabalho de ficar por mais um minuto naquele ambiente e saí de lá, sem ter em mente um lugar para onde ir. A presença do Jungkook não era desejada naquele momento, sabia que ele estaria pronto a defender o meu irmão ao invés de mim. Sei disso porque todos o faziam comigo, sempre.

Quando saí de casa vi que o céu estava escuro, e não demorei muito para constatar que em breve choveria, mas eu não estava preocupado. Talvez uma pneumonia fosse uma ajuda para manter as pessoas afastadas de mim, quer seja para não ficarem doentes como também para seguirem as suas rotinas normalmente. Toda a gente que me conhecia tinha-me como um fardo nas suas vidas, de certeza que arruinar-lhes o trabalho não as deixaria nem um pouco satisfeitas.

Assim que dei por mim estava parado em frente ao café dos pais da Abigail, aluna também coreana do primeiro ano do curso de fotografia. O local era famoso entre os estudantes da universidade e das escolas ao redor pelas sandes e cachorros que vendia, acompanhados de uma deliciosa sopa, então o estabelecimento estava sempre cheio nas horas de almoço. Inclusive, era lá onde eu almoçava grande parte das vezes.

Por serem três da tarde o café encontrava-se meio vazio, mas isso não implicava o lucro que deve ter feito horas atrás. Lentamente, aproximei-me do balcão e sentei-me numa das cadeiras, pondo-me a observar o pai da Yuna lavar alguns copos, enquanto me olhava.

— És estudante da Colúmbia Britânica? — Questionou-me, referindo-se à universidade.

— Sou sim, senhor.

— E não devias estar em aula a esta hora?

— Não. Eu sou do terceiro ano, são poucos os dias em que tenho aulas à tarde.

Ouvi-o soltar um riso e fechar a torneira da banca, secando as mãos molhadas num pano e depois colocando-o sobre o ombro. Ele ficou a olhar para mim durante alguns segundos, enquanto eu tentava entender o que ele estava a tentar decifrar em mim.

— De onde é que tu és, rapaz?

— Da Coreia do Sul. Por quê?

— Isso explica a tua aparência jovem. — Respondeu-me, desta vez interagindo comigo em coreano. — Eu e a minha família também somos de lá, mas o sonho de adolescência da minha esposa era viver no estrangeiro. Eu também não pretendia morar num país como aquele, mas assim que terminei de prestar o serviço militar, nós os dois casamo-nos e viemos viver para aqui.

— E por que é que não queria viver na Coreia? Não é um mau lugar para se viver.

— Dizes isso porque não vives lá. É inegável que a música coreana tornou-se numa onda mundialmente popular e que grande parte dos fãs deseje, no mínimo, visitar aquele país. Acredita, eu tenho uma filha que é fã por vários desses grupos e que me leva à falência, — Riu. — Mas, tirando isso, não sei o que mais de bom posso dizer sobre aquele país. Os padrões que a sociedade coreana impõe não são saudáveis para ninguém, além de que a percentagem do racismo e da xenofobia é alta...

— Bom, acredito que qualquer país tenha os seus lados podres, mas o senhor fala de uma maneira que leva a entender que a Coreia é um país horrível.

— Não quis fazer parecer isso, mas entende que não é por pertencermos a um certo país que temos que o aceitar. Claro que a Coreia tem os seus lados bons. Recentemente o aborto foi legalizado, chegaram até a fazer uma marcha sobre isso, mas a forma de como aquele país consegue ser fechado chega a sufocar... Não sei se tens conhecimento, mas a Coreia do Sul ocupa o segundo lugar nos países com a maior taxa de suicídio no mundo, e as pessoas não são maluquinhas da cabeça para se suicidarem. Não sei, falo por mim. Sinto que encontrei uma felicidade aqui que nunca encontraria na Coreia. Sair de lá só me trouxe o conforto e a paz de que necessitava.

A forma como aquele homem se expressou não chegou a ser muito clara, mas tenho que admitir que fiquei chocado ao saber da informação da taxa de suicídio. Há países tão maiores do que aquele, como é que a Coreia consegue ficar logo em primeiro?

De facto, apesar de pertencer à Coreia do Sul, nunca tive o interesse de pesquisar sobre aquele lugar. O único conhecimento que tenho daquele país é sobre como aconteceu a Guerra da Coreia, durante a guerra fria, e soube sobre uma coisinha ou outra através do twitter que se encontra infectado de k-poppers.

— Por que é que vieste para o Canadá? — Perguntou, desta vez começando a secar os pratos que foram lavados numa máquina específica.

— Porque os meus pais sempre moraram aqui.

— Então tu nasceste aqui?

— Não, eu nasci na Coreia.

— Mas então por que é que os teus pais deram-te à luz lá?

— Porque eles estavam lá...? Meu, não acha que está a ser invasivo demais? Se eu quisesse falar da minha vida eu já teria falado, então peço para que não se coloque a fazer esse tipo de perguntas.

Ele parou de secar os pratos e dirigiu o seu olhar a mim. Então, ele sorriu e voltou a focar a sua atenção na louça, continuando o seu serviço.

— Perdoa-me por esse teu mau humor... Posso pelo menos saber quais são os teus nomes?

— O coreano, Min Yoongi. O canadense, Oliver Jones.

— Nada mal. Foste tu que o escolheste?

— Senhor Shin, uma das coisas que o senhor tem de saber sobre mim é que eu não tenho opção de escolha para nada. Nada mesmo.

Nesse mesmo momento ouvi a porta dos fundos bater, e a silhueta da Abigail e da sua mãe apareceram no meu campo de visão. Diferente do que usava na escola, desta vez a menina estava com um conjunto de roupa mais desgasta, e o seu rosto estava preenchido com pouca maquilhagem. Ela ajudava a mãe a carregar algumas sacas de compras, de papel.

— Papá, trouxemos tudo!

A miúda notou a minha presença, sei disso pelo aceno de cabeça que ela dirigiu-me em forma de um cumprimento mudo. Cumprimentei-a de volta, observando atentamente a maneira de como ela em seguida abraçou o pai a sorrir.

Não consegui deixar-me de sentir mal com aquela cena porque, querendo ou não, eu sabia que lá no fundo havia uma parte de mim que gostava de ter uma relação próxima com a minha família. Parecia tudo tão simples e mais saudável. Seriam esses os benefícios de ser uma família cem por cento real? 

— Bom, Yoongi... — O senhor Shin falou o meu nome coreano num tom de dúvida, creio eu por não saber por qual dos nomes tenho preferência em ser chamado. — ... se viste aqui não foi à procura de papo com um desconhecido, e sim para consumir algo.

Oh, senhor. Bater papo com um desconhecido já aconteceu.

— Quero uma cerveja, por favor.

— Tens preferência na marca?

— Uma Molson.

— A sair!

Observei as duas mulheres arrumarem os demais alimentos que compraram. Ambas discutiam sobre algo aleatório, nunca deixando de sorrir uma para a outra. Vendo isso, eu podia sentir-me num personagem de um filme onde o bem e a felicidade reinavam, sem algum resquício de maldade.

Por momentos, coloquei-me a imaginar em como seria eu e a minha família se a nossa relação fosse como a da família Shin. No mesmo instante em que um arrepio percorreu-me as costas, a minha mente foi incapaz de reproduzir uma cena daquelas, pois para mim era demasiado claro que onde quer que os meus pais estivessem, se eu estivesse junto deles eles estariam incomodados com a minha presença.

Doeu. Doeu muito durante a minha infância e durante toda a fase da minha adolescência, mas agora não dói mais. A dor da rejeição das pessoas que eu esperava receber o amor incondicional foi a maior dor pela qual passei na vida, e sendo franco, essa dor pareceu ter chegado a um limite tão extremo que me fez não sentir dor por mais nada — uma dor de cabeça, a dor do término de um relacionamento, a dor de não ter dinheiro para comprar produtos que estão na moda, a dor de ser solitário; essas dores deixaram de ser sentidas, apesar de existirem.

— A sua cerveja. — Foi a Abigail quem me a entregou. Ela usou o coreano comigo, e eu teria estranhado sobre como ela sabia que eu era um nativo se o pai dela não tivesse falado antes comigo.

— Por que é que estás a usar o tom formal comigo?

— Porque aqui eu sou uma funcionária e você um cliente, e não duas pessoas que frequentam a mesma universidade, então tenho de ser formal, a menos que o cliente queira.

— Então eu peço para que fales de maneira informal comigo, já cansa ouvir os professores falarem comigo dessa maneira.

Ouvi-a soltar um riso baixo e entregar-me a cerveja já aberta. Dei vários golos seguidos, todos pequenos, e quando pousei a garrafa de vidro sobre o balcão vi-a agora a sentar-se num banco ao meu lado.

— Qual é o teu nome?

— A qual deles te referes? Ao coreano ou ao canadense?

— Por que não dizes os dois?

— Por que não perguntas ao teu pai?

— Por que haveria eu de perguntar ao meu pai?

— Está bem, chega dos "por que". O meu nome canadense é Oliver Jones e o coreano Min Yoongi, e eu prefiro que me trates por esse.

— Não quero achar-me, mas duvido que não saibas os meus nomes... O meu nome canadense é Abigail e o coreano é Shin Yuna.

Lol, mas eu não perguntei.

Vi que a Abigail ficou constrangida e um bocado desanimada com a minha resposta perante a sua revelação. Na verdade, eu estava curioso para saber o seu nome coreano uma vez que ela era conhecida pelo seu nome canadense, mas não pude deixar de soltar este comentário — nem tanto — brincalhão em relação ao seu entusiasmo para revelar aquela informação.

— Estava a brincar. Preferes que te trate por qual?

— Bom, eu prefiro o Yuna... Sinto que combina mais comigo.

— Está bem, Yuna. Estás a gostar do curso que estás a tirar?

— Nem imaginas... No começo senti-me um bocado deslocada, mas acho que é normal quando se inicia algo completamente novo, não é? Mas, apesar disso e de uma ou outra disciplina que se parecem com o demónio, sinto que é como se estivesse no lugar certo.

Fiquei naquele lugar durante a tarde toda, fazendo um possível segundo amigo num só dia. A Yuna batia papo comigo sobre as viagens que já fizera, enquanto servia os clientes à mesa. Ouvi-a também falar sobre a Coreia e dos grupos sul-coreanos dos quais ela gostava, dando-me a conhecer um pouquinho sobre ela.

Tirando isso, ouvi-a falar minutos e minutos repetidos sobre a fotografia, e ao ver que ela se apercebeu da minha cara de tédio, decidi contar pela segunda vez na vida a minha história a alguém. No entanto, enquanto acendia a tela do telemóvel a meio da explicação para verificar as horas, constatei que tinha recebido quatro mensagens: uma do Seokjin e três do Jungkook.


|Seokjin (Veneza)

Como vão as coisas? O Jungkook chateou-se muito? (16H24)


|Jungkook Querido

Eu realmente gostava de saber o porquê de teres falado daquela maneira comigo e com o teu irmão. Admito que também fui indelicado contigo e peço desculpas por isso, mas já tivemos esta conversa antes, Yoongi hyung. (18H42)


|Jungkook Querido

Prenderes-te ao passado fará com que não avances no futuro. É isso o que queres? Se assim for, eu lamento, mas por mais que te ame, eu não estou disposto a abrir a minha mão por ti, e eu espero que te apercebas disso o mais depressa possível. (18H45)


|Jungkook Querido

Fui para casa. Se quiseres, aparece lá em casa amanhã. Até amanhã. (18H45)


Notas Finais


Cinquenta dólares canadenses⁴ — Equivalem a trinta e cinco (35) euros.

A atualização atrasou uma semana e eu realmente lamento por isso. Foi uma semana de testes, trabalhos e apresentações, então não poderia dar-me ao luxo de escrever :(

O capítulo acabou de sair do forninho, então lamento pelos erros que nele possam estar presentes

Esta fanfic é yoonseok/sope (Yoongi + Hoseok) e não importa o tempo que leve para o Hoseok aparecer, o shipp por si só já diz de quem vai contar a história. Deixem-na desenvolver-se devagarinho para poderem entender tudo direitinho, sim?

Não fiquem ansiosos, eu prometo que no capítulo 4 ou 5 já teremos a aparição do nosso treinador <3

Agora chegou a hora de um avisinho que não sei se vou conseguir respeitar: provavelmente a próxima atualização demore cerca de um mês ou mais a sair, isso porque irei começar amanhã a desenvolver um trailer para a fanfic! Provavelmente desistirei da ideia, e caso isso realmente aconteça, daqui a duas semanas vocês saberão com a atualização de um novo capítulo kkkkkk

Bom, este aqui teve quase 5k de palavras e eu nem sei o que falar dele, digam-me vocês

Quero falar um pouquinho do Yoongi de FIGHTER... A fase de crescimento pela qual ele passou foi um tanto complicada. Ele cresceu sem amor, e isso é uma consequência para ele não saber reagir corretamente com as pessoas. Ao mesmo tempo em que ele é incompreendido, o Yoongi também não quer compreender, mas isso é algo que ele vai trabalhar muito muuuuito

Já disseram que amam os BTS hoje? Aproveitem e digam agora <3

Acho que não tenho mais nada a comentar, a não ser que ando bastante focada em escrever FIGHTER e que por vezes, nas aulas em que uso o computador, acabo por fazer os trabalhos propostos um bocadinho à pressa para poder dedicar-me a escrever kkkkkkkk por sorte nunca fui apanhada

É isto, meus amores, sigam-me no twitter (@viisaw) para uns possíveis spoilers e termos alguma interação. Criei um curioucat.me para caso queiram fazer críticas à fanfic (mas também aceito miminhos, hm?)

Um beijinho para todos, vemo-nos em breve <3

Playlist do capítulo: selena gomez — lose you to love me, look at her now || zedd, selena gomez — i want you to know || ciara — thinkin bout you, dance like we're making love || beyoncé — dance for you || rihanna — needed me || halsey — bad at love, colors || bts — spring day, house of cards (full length edition) || ariana grande — 7 rings || one direction — you and i


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