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História Filha da Alquimia - Tocada pelo ar ( Livro 1) - Capítulo 2


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Capítulo 2 - 1- O garoto da praia


Fanfic / Fanfiction Filha da Alquimia - Tocada pelo ar ( Livro 1) - Capítulo 2 - 1- O garoto da praia

Às vezes acontecem coisas em nossas vidas que parecem inexplicáveis e sem sentido. Pessoas são tiradas de nós, outras se afastam por vontade própria, ambas deixando nossos corações com um espaço que achamos que jamais poderá ser preenchido novamente.

   Alguns tentam nos confortar dizendo que tudo acontece por um motivo, que no futuro conseguiremos compreender o porquê de certas coisas. Como se ouvir isso pudesse melhorar algo! Se esse clichê era verdade então sempre fui egoísta, pois nunca quis servir a um propósito maior. Tudo o que eu queria era ter a minha mãe de novo ao meu lado.

   Ela havia morrido por causa de uma enfermidade rara e violenta. Foi repentino e muito agressivo. Fiquei sabendo sobre a doença autoimune e logo já estava acompanhando-a enquanto ela era internada e medicada com drogas fortes. Remédios que no fim, não serviram para nada! Antes que pudesse sequer entender aquilo tudo, vi-me no seu funeral cercada por um monte de estranhos me abraçando sem saber o que dizer para me consolar.

   Naquele triste e terrível dia, um resumo dos últimos meses passou como um filme na minha cabeça: em um momento tudo estava tranquilo e minhas preocupações não passavam de coisas banais de adolescente. Meses depois, estava perdida sem saber quem cuidaria de mim ou para onde me levariam.

   Lembro-me de me trancar no quarto e caminhar calmamente até a janela. Com uma faca rasguei toda a tela de proteção e me sentei no peitoril. O vento açoitava o meu rosto secando as lágrimas enquanto observava os meus pés descalços balançando no vazio do décimo sexto andar. Naquele momento, milhares de pensamentos dançavam na minha mente. Eu estava sozinha no mundo e não iria sobreviver sem ela.

   Recordo-me de me questionar sobre como seria se jogar naquele breve vazio até a calçada. Seria tão fácil, era só me inclinar um pouco para frente e a gravidade faria o resto. Será que iria doer? Com certeza a dor não seria maior do a que estava em meu coração naquele momento. Mães não eram eternas, eu sabia disso. Mas não era justo a minha ter sido arrancada de mim tão cedo!

   Em meio aos meus devaneios alguém gritou do outro lado da porta: era Beatriz minha irmã menor de quatro anos de idade. O som de sua voz infantil trouxe-me de volta à realidade. Que tipo de pessoa horrível eu era? Pensando em acabar com a minha própria dor e deixando desprotegida a pessoa que mais precisava de mim naquele momento? Imediatamente voltei para o chão e fechei a janela com força enquanto me apoiava no vidro tentando me recompor. Se viver por mim mesma não fosse suficiente, eu teria que seguir em frente por ela.

   Alguns dias depois do velório, a questão da nossa guarda se resolveu com a aparição de Lúcia. Era a irmã mais velha da minha mãe que havia deixado de falar com ela logo que nasci. Apesar de nunca a termos visto antes, a conexão da mulher com Beatriz foi instantânea e isso bastou para mim.

   Após resolverem toda a burocracia sobre a nossa tutela, novamente fui arrastada para mais uma mudança repentina. Tive que sair da minha cidade natal para morar em Ilha Berilo, um lugar pequeno, ensolarado e com pouquíssimos habitantes. Desde então, meus dias se resumiam em fingir participar das aulas, voltar para casa, me trancar no quarto escuro e viver o meu luto.

   O meu objetivo ao aceitar a mudança para um lugar que ninguém me conhecia era conseguir ficar sozinha. Enganei-me profundamente a esse respeito. Assim que comecei a frequentar a escola local, ao invés do isolamento que tanto desejei acabei ganhando uma sombra.

   Ellen era uma garota tagarela e excêntrica que me seguia para todo o lado no Colégio novo. Ela não respeitava a minha vontade de ficar sozinha e isso tornava-me hostil e agressiva. A maluca parecia não se importar e continuava insistindo. Tia Lúcia preocupada com a minha saúde mental, de bom grado abriu as portas da nossa casa para a garota, feliz com a possibilidade de eu ter uma amiga na nova cidade.   

   Depois de todos esses meses conturbados, finalmente ali estava eu a caminho de uma festa na praia tentando agir como se nada de ruim tivesse acontecido. Ao meu lado, Ellen dirigia enquanto fazia uma dancinha esquisita ao som de uma canção melosa e animada demais. Não pude deixar de soltar um suspiro de insatisfação.

 — Entendo que agora você está desanimada por ter mudado de cidade e deixado os seus amigos para trás, mas tenho certeza de que essa na festa vai melhorar o seu astral!

   Ela dizia aquilo com a certeza de quem realmente acreditava que aquela seria a solução para todos os males do mundo.

 — Com certeza uma festa vai me ajudar a me recuperar da morte recente da minha mãe, por que não? — Respondi de forma irônica enquanto olhava a paisagem. 

 Um silêncio profundo e constrangedor se instalou por alguns minutos.

 — Sinto muito, eu não sabia. — Murmurou.

 — Não tem importância. — Dei de ombros.

— Eu só quero ser a sua amiga. Nem posso imaginar o que você está passando nesse momento. Sei que não nos conhecemos direito, mas quando sentir vontade de falar com alguém pode confiar em mim. — Disse com me lançando aquele olhar de pena que eu tanto odiava.

— Só preciso de um pouco de paz e tempo para me adaptar. — Resmunguei indiferente.

   Estacionamos perto da areia. De longe já dava para escutar a música alta e o barulho de vários adolescentes sem supervisão aproveitando uma festa à beira-mar. Barris de cerveja estavam posicionados por toda a parte enquanto as pessoas faziam filas para encher os seus copos descartáveis.

 — Achei que não viria mais. — Um garoto alto se aproximou de nós. — Quem é a sua amiga?

 — Essa é Verônica. Ela é nova na cidade e o atraso foi porque estava tentando convencê-la a vir.

 — Que bom que conseguiu. — Disse dando um meio sorriso. — Sou Aquiles.

 — Os seus pais curtem mitologia grega? — Perguntei.

— Acho que não. Mas adoram contar histórias sobre a descendência que minha família tem com bruxos e magos do passado.

Deixei escapar um risinho incrédulo.

Ellen explicou:

— Na verdade, muitas pessoas daqui acreditam que a ilha foi fundada por um por um grupo de magos e bruxas que vieram para cá fugindo de algo. É só sair por aí conversando com os mais idosos e eles vão contar histórias que farão os seus cabelos se arrepiarem. Magia existe!

Me virei para o garoto:

— Acredita nessas coisas? 

— Existem coisas no mundo que ninguém é capaz de explicar. Acredito que existem forças maiores do que nós e que nos regem à sua vontade.

— É uma tremenda besteira. — Não pude evitar revirar os olhos com indiferença.

— Não acha que o universo pode ter guiado você até aqui para que nos conhecêssemos? — Perguntou com uma piscadela.

Era impressão minha ou ele estava me paquerando?

— Nunca gostei dessa história de esperar o destino ou o universo guiar nosso caminho! Em minha opinião, eles podem até dar uma forcinha, mas somos nós que escolhemos para onde seguir.

— Uma mulher de opinião. Gosto disso! — Disse ele ainda na falha tentativa de flertar comigo.

   Olhei para Ellen pedindo socorro enquanto tentava pensar em uma forma gentil de afastá-lo. Felizmente ela entendeu o recado e mudou o assunto:

— Alguém quer cerveja?

— Obrigada, eu não bebo. — Falei.

— Que bom! Então você volta dirigindo enquanto fico mais à vontade. 

Dizendo isso ela saiu puxando o menino até o barril mais próximo.

   Comecei a caminhar pela orla da praia sem ter noção de para onde estava indo, apenas queria me afastar daquela festa. Eu tinha um plano formado: ficar por tempo suficiente para que tia Lúcia acreditasse que eu tinha me esforçado para interagir, e então voltar para casa deixando a maluca da Ellen sozinha.

   Conforme me afastava, a luz da enorme fogueira ia diminuindo enquanto a escuridão me envolvia. Tirei os sapatos e resolvi me sentar na areia para curtir aquele silêncio enquanto observava as ondas do mar que molhavam as pontas dos meus dedos. Por um momento desejei que fossem capazes de levar embora toda a tristeza que habitava a minha alma.

— Não tem medo de ficar no escuro?

   Me sobressaltei ao ouvir a voz soando ás minhas costas. Me virei para o garoto que se aproximava. Sem ao menos pedir licença ele se sentou ao meu lado.

— Tenho medo é das pessoas dessa cidade que não respeitam a privacidade alheia. — Respondi secamente.

 — Nossa, alguém acordou de mau humor hoje! 

   Apenas lancei um olhar de censura para ele. Pelo jeito seria impossível ter um pouco de paz.

 — Prometo que vou ficar quieto, só quero observar o mar. 

 — Desde que fique em silêncio. — Dei de ombros. 

 — Tudo bem. — Concordou, mas manteve um meio sorriso no rosto. Era como se tivesse se divertindo com meu mau humor.

   De canto de olho o observei melhor. Não parecia em nada com as pessoas que viviam aqui. A pele pálida, que parecia proveniente de alguém que não costumava se expor ao sol, entrava em contraste com o cabelo castanho escuro. O garoto vestia uma camiseta vermelha que tinha a estampa de uma cobra mordendo a própria cauda e formando um círculo bizarro.

 — Você não é daqui. — Me amaldiçoei internamente por ter quebrado a regra que eu mesma havia imposto.

 — Estou só de passagem. Você também não parece em nada com as garotas da ilha.

— Alta e bronzeada? — Encarei-o erguendo uma sobrancelha.

 — É a primeira que me trata com tanta antipatia e não tentou me arrastar para a festa. 

    Como era convencido! Pensei em alguma resposta malcriada que o afastasse e cogitei a hipótese de sair dali e voltar para perto de Ellen. Mas depois de alguns segundos, senti que apesar de tudo ainda era preferível ficar com um desconhecido atrevido do que voltar e me misturar com um grupo de adolescentes inconsequentes.

— Me mudei recentemente. — Expliquei por fim. — E você, o que faz aqui? 

 — Minha mãe tinha alguns assuntos para resolver, eu e meu irmão viemos ajudá-la.

 — E isso inclui ficar sentado no escuro com uma desconhecida? — Não pude evitar alfinetá-lo mais uma vez, era mais forte do que eu.

 — Tenho um dilema, então decidi vir sentir a brisa do mar enquanto espero uma resposta cair do céu. — Disse encarando o escuro.

 — Também tenho um: não sei se vou embora imediatamente ou se dou um tempo para fazer minha tia acreditar que me esforcei para ficar na festa. 

Ele parou de olhar as ondas por um momento e virou-se para mim:

 — É a primeira menina que conheço que não gosta de festas. 

 — Ainda não me sinto no clima para esse tipo de evento. 

 — Deixou algum namorado em outra cidade e está chateada por ter se mudado? 

   Seu olhar era sincero. Ele realmente queria saber sobre mim e não apenas jogar conversa fora.

— Minha mãe faleceu e fiquei sozinha com minha irmã de quatro anos de idade. Ainda não descobri como lidar com tudo isso.  — Aquele seria o momento onde ele não saberia o que dizer e iria embora.

— Talvez pareça difícil de acreditar nisso agora, mas você me parece alguém capaz de lidar com isso e muito mais.

   Aquela foi a primeira vez falei sobre aquilo com alguém que não reagiu demonstrando pena ou constrangimento.

— Não tenho ideia de como lidar com a minha própria dor, como posso explicar para uma criança tão pequena que agora somos só eu e ela? — Desabafei a dúvida que vinha assombrando minha mente há dias.

— Ainda tem sua tia.

— Não é a mesma coisa. — Respondi enquanto mexia na areia sentindo os grãos escorrerem por meus dedos.

— Como sua mãe era?

— Livre, despojada e de mente aberta. Cada momento com ela era único. No meu primeiro dia de aula no jardim de infância, eu estava nervosa e com medo. Ela chegou em casa com um par de tênis vermelhos brilhantes cheios de lantejoulas e muito extravagantes. Me disse que eram mágicos e que enquanto os usasse tudo daria certo. E foi assim tive coragem para enfrentar o primeiro ano na escola. 

Enquanto falava sobre ela, não pude deixar de sorrir com as recordações.

— Parece ter sido uma pessoa incrível! 

— Era sim. Quando morreu aos quarenta anos de idade já tinha vivido mais do que muitas pessoas mais velhas que ela. Ninguém nunca pode entender Amélia Furlan, e acho que era por isso que todos se encantavam com ela. Era o tipo de pessoa que fazia coisas que muitos desejavam e não tinham coragem. Apesar da doença e das fortes medicações, não deixou de sorrir um único dia, e quando chegaram os seus momentos finais não demonstrou medo do que estava por vir.

— Pessoas como ela não sentem medo da morte porque já viveram plenamente e sem arrependimentos. Espero um dia ter liberdade para ser assim também.  — Comentou.

— Agora entende como é difícil seguir a vida depois de perder alguém assim? — A tristeza que transbordava em minha voz era difícil de esconder.

— Sei que sou apenas um garoto estranho que apareceu para atrapalhar sua noite. No entanto, se pudesse lhe dar um conselho, diria para parar de afastar as pessoas. A melhor forma de honrar a memória da sua mãe é sendo tão extraordinária como ela foi e repassando para a sua irmã o que ela ensinou a você. Mostre para a pequena que apesar de tudo, vocês foram criadas para se tornarem pessoas fortes e felizes. O fato de deixar pessoas novas entrarem na sua vida não significa que irá esquecer ou substitui-la.

Mesmo sem eu dizer claramente ele conseguiu entender meu maior receio.

— Talvez você tenha uma certa razão menino desconhecido.

Sem perceber eu havia baixado a guarda.

— Acho que o universo quis que nos encontrássemos. — O mesmo sorriso provocativo voltou a iluminar seu rosto.

De novo aquela história de destino e universo.

— Agora que conseguiu fazer com que eu me sinta melhor, quer me contar sobre o seu dilema? — Perguntei soando mais amigável.

— Sem saber você já me ajudou, e muito! — Um sorriso singelo iluminou seu rosto.

   Talvez ele não estivesse preparado para entrar em detalhes sobre seus assuntos e eu respeitava isso. Dei de ombros e estendi-lhe a mão:

— Á propósito, sou a Verônica.

   Quando ele abriu a boca para me dizer o seu nome, Ellen apareceu arfando cansada pela corrida até ali.

— Finalmente te encontrei, não suma mais assim sua doida! Achei que tinha se perdido.

— Estou bem, só precisei me afastar um pouco. Fiquei aqui conversando com ... — Quando me virei para apresentar o garoto percebi que não estava mais ali.

— Quem? — Perguntou confusa.

Olhei em torno ainda na esperança de vê-lo se afastando e me convencer de que não estava ficando maluca, mas tudo o que enxerguei foi areia, mar e escuridão.

— Ninguém, deixa para lá.

   Me perguntei como ele havia conseguido sumir de vista tão rápido. Talvez o garoto sensato e bonito que vi fosse uma projeção da minha mente, minha própria consciência tentando me dar conselhos. Decidi esquecer aquilo e segui com Ellen de volta até a festa enquanto ela falava sem parar.

   Coloquei em prática o conselho do garoto desconhecido. Ele poderia não ser real, mas suas palavras estavam carregadas de razão. Deixei que Ellen me apresentasse para algumas pessoas, fingi um pouco de felicidade e até dancei como uma adolescente normal.

   Em um certo momento enquanto pegava meu celular do bolso para ver se tia Lucia havia mandado uma mensagem ou me ligado, senti que alguém esbarrou bruscamente em mim. Meu aparelho caiu dentro de um copo com cerveja.

— Olhe por onde anda! — Gritei irada enquanto o estranho se afastava com a cabeça coberta por um capuz.

   Foi a primeira vez que coisas inexplicáveis aconteceram comigo. Senti uma energia imensa invadindo o meu corpo, era como se milhares de correntes elétricas percorressem minha pele. Imediatamente várias imagens começaram a invadir minha mente, era tudo tão rápido que eu não consegui assimilar nenhuma. Pressionei minhas têmporas com as mãos sem saber o que estava acontecendo. Meus olhos lacrimejavam enquanto eu sentia o ar indo embora de meus pulmões.

— Você está bem? — Alguém perguntou.

   Um vento muito forte começou a açoitar as palmeiras e fazer a areia voar para todo lado. As meninas começaram a correr tentando segurar suas saias no lugar. A fogueira estava quase se apagando e algumas pessoas olhavam para o céu procurando algum sinal de tempestade. O mais inexplicável era que eu parecia estar causando aquilo.

   Dava para sentir a energia do ar que emanava e fluía pelo meu corpo, quanto mais assustada eu ficava, mais o vento se intensificava. A fogueira se apagou por completo e todos se olhavam assustados.  Senti meu corpo enfraquecer como se eu tivesse me esgotado e assim que caí de joelhos a ventania cessou, tão de repente como quando havia começado. Enquanto tentava assimilar o que havia acontecido escutei gritos desesperados.

— Alguém chame uma ambulância! 

   Aquiles, o mesmo menino que conversara conosco no início da festa agora jazia no chão com os olhos abertos e sem vida. Água escorria de sua boca.

— O que aconteceu? — Perguntou histericamente uma das meninas.

— Eu não sei, estávamos dançando e de repente ele caiu no chão tossindo como se estivesse se afogando. — Respondeu a outra.

   Enquanto olhava ainda em choque para o garoto no chão, pude perceber nas pontas de seus dedos uma centelha que logo se apagou.

— Ele está ... morto? — Perguntou Ellen chorando.

Abracei-a tentando acalmá-la:

— Vai ficar tudo bem.

   Logo a polícia chegou acompanhada de uma ambulância. Levou um tempo para nos liberarem já que os policiais precisaram coletar os depoimentos de todos que estavam ali. Vendo que Ellen não tinha condição nenhuma de dirigir, liguei para Tia Lucia que logo chegou desesperada.

— Você está bem? Te obriguei a sair e olha o que aconteceu! — Disse aflita.

— Não foi culpa sua. — Respondi.

— Vamos para casa. Prometo que vou respeitar sua vontade de ficar sozinha.

— E o meu carro? — Perguntou Ellen, com a voz enrolada devido ao tanto de cerveja que havia tomado.

— Amanhã a gente vem buscar. — Disse Tia Lucia.

— E é melhor dormir lá em casa para sua mãe te ver nesse estado. — Ofereci.

— Você será uma ótima amiga. — Respondeu a bêbada enquanto encostava em meu ombro e começava a roncar.

   Ela estava claramente exausta pelo abalo emocional que aquela noite lhe causara. Com certeza o dia seguinte seria mais difícil quando estivesse sóbria o suficiente para assimilar a morte do amigo.

***

   Pela manhã, quando abri a porta para tirar o lixo mais uma coisa estranha aconteceu. Lembro-me de ver alguém se aproximando e depois tive um lapso de memória. Quando voltei ao normal estava em pé próxima ao portão com uma caixa nas mãos. Eu não fazia ideia de como havia ido parar ali. Dentro havia um par de tênis vermelhos e brilhantes, quase iguais aos que minha mãe havia me dado na infância. No fundo da caixa havia também um bilhete:

  "Todo sonho não realizado se transforma em uma triste sombra que se espreita na noite vazia desse mundo cheio de arrependimentos. Lute pelos seus sonhos, batalhe para realizá-los e transforme-os em lindas estrelas brilhantes. Use-as para iluminar a sua caminhada e nunca permita que ninguém diga que você não é capaz! Não desanime, seja forte e apesar da sua perda siga em frente. O seu futuro será grandioso e lindo. 

 Ps: Espero que goste dos tênis. Pense que eles são mágicos e sempre que os usar te darão força para ser feliz, autêntica e confiante. "

   Por mais que tentasse me lembrar da noite anterior ou de quem poderia ter deixado a caixa na minha porta eu não conseguia. Os tênis acabaram se tornando uma espécie de amuleto da sorte e não os tirei mais dos pés. Como não consegui pensar em quem poderia tê-los deixado ali, apenas inventei que fora um sinal mandado por minha mãe. Um sinal para me confortar e me lembrar que enquanto eu os usasse tudo ficaria bem, da mesma forma que ela havia feito no passado. Era a certeza que de alguém ainda zelava por mim.



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