História Filho da Perdição - Capítulo 11


Escrita por:

Postado
Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Anjos, Anticristo, Apocalipse, Arcanjos, Demonios, Diabo, Drama, Fantasia, Gay, Horror, Lucifer, Romance, Terror
Visualizações 25
Palavras 2.326
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Fantasia, Ficção, Lemon, LGBT, Magia, Mistério, Romance e Novela, Sobrenatural, Suspense, Terror e Horror, Violência, Yaoi (Gay)
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Drogas, Estupro, Homossexualidade, Incesto, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Pansexualidade, Sexo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 11 - Vamos ser um


Theo


‘‘Acredito que estou no Inferno, portanto estou nele. ’’


                                                                                              – Arthur Rimbaud


Não consegui voar de volta pra casa porque precisava de sangue demoníaco para entrar na Ilha Thris. Lamentei por ter deixado minhas roupas caídas no sofá quando me transformei naquela águia. Foi tudo tão rápido que nem tive tempo de pegá-las com o bico, só conseguia pensar em salvar meu Christian. Ele podia estar correndo perigo naquele exato momento.

Uma lancha me esperava, demônios a rondavam a espreita. Livrei-me da transformação só quando entrei nela, pois não queria que alguém me visse nu, ainda mais o meu corpo sendo tão defeituoso como era.

— Preciso de um celular — falei depressa, usando o primeiro pano que encontrei para cobrir minha nudez. Os demônios não se importavam com o defeito em meu peito, então apenas fizeram o que mandei sem questionar. Me respeitavam do mesmo modo que respeitavam Christian, o que era gratificante e útil.

— Aqui está, senhor — disse, oferecendo um aparelho metálico e disquei o número familiar quase danificando a tela.

A lancha começou a sair dos limites do país e me senti cada vez mais relaxado, embora a adrenalina ainda corresse solta pelo meu corpo.

— Darling — sussurrou e fiquei aliviado ao ouvir o som de sua voz. — Tá tudo bem? — Sorri, já era típico dele se preocupar demais comigo e esquecer de si mesmo.

— Tá sim, é que... — Fechei os olhos com força. Não queria dizer aquilo e preocupá-lo, mas era questão de vida ou morte e meu anjinho precisava ficar alerta. — Acabei esbarrando com Gabriel.

 Nunca gostei de mentira e achei um erro começar agora, ainda mais com ele que sempre foi muito bom pra mim. Não era justo mentir para ele só para que a imagem que tinha de mim não ficasse manchada.

— Não esbarrei na verdade — reformulei, aproximando o fone, quase encostando os lábios nele. — Fui atrás dele. Ele comprou um clube. É uma longa história. O que importa é que Gabriel sabe quem você é e tenho quase certeza de que toda a hierarquia também tem conhecimento, então tem como você voltar pra casa hoje? Preciso ter você em segurança, meu anjinho. Não me perdoaria se algo ruim acontecesse com você.

— Droga, Theo — Deixou escapar uma lufada de ar que acabou deixando a voz meio falha e a ligação ruim por alguns segundos. — Não posso sair daqui, tive a entrevista dos meus sonhos e estamos a um passo de conquistar tudo que Lúcifer ficou séculos planejando. Aline e eu estamos indo para o hotel com alguns demônios, é seguro aqui. Se quiser posso manter você na linha e podemos dormir ouvindo a respiração um do outro como fazemos quando estamos separados.

— Não sei se é o suficiente. Estou me sentindo muito fraco — expliquei, assim que senti sangue saindo dos meus ouvidos. Geralmente só saia das narinas, contudo, sei que abusei do meu poder naquele dia e estava pagando o preço. — Meu corpo dói, Christian — lamentei, o movimento da lancha também não ajudava.

— Darling, amanhã eu tenho outra entrevista e prometo que assim que ela acabar estarei de volta e passaremos o dia juntos, apenas nós dois.

 Nem sequer ouvi direito o que falou, estava muito ocupado me contorcendo e sentindo minhas entranhas praticamente saindo pela boca.

— O que houve? — Pelo tom de voz, sua preocupação era evidente. — Tomou seu remédio?

— Tomei, é que me transformei umas três vezes e meu corpo não está mais aguentando. Como eu disse, estou muito fraco — Minha voz enfraqueceu ao ponto de até o mais leve dos tons darem a impressão de que um gavião arranhava minha garganta, que parecia ter virado lixa.  

— Theo — Dava pra sentir sua respiração descontrolada, era como se ele estivesse ali comigo e querendo ou não era uma boa forma de morrer se eu for ignorar os respingos de água que molhavam meus cabelos e meu corpo nu e a poça de vômito que se formou antes mesmo que eu pudesse responder a seu chamado.

— Desculpe te incomodar essa hora — consegui falar, embora minha barriga ainda doesse demais. Tentei soar calmo para não preocupar Christian, querendo ou não, ele tinha uma vida e eu não podia tirar isso dele só porque estava me sentindo um pouco mal e temendo por ele. Se ele disse que estava tudo bem, cabia a mim acreditar. Meu Christian não era capaz de mentir pra mim, não é? Sabia que não era verdade por conta das memórias de Ângelo, e para isso foi preciso enterrá-las em minha mente para conseguir falar aquilo com clareza. — Pode dormir tranquilo, meu anjinho. — Deixei escapar um gemido de dor, o suor escorria e a corrente fria indo de encontro com minha pele em chamas não ajudava muito, na verdade piorava.

— Não vou conseguir dormir tranquilo com você assim — Estava meio choroso, o que me fez ficar assim também. Quis pedir para ele não chorar, mas não tive forças para isso. — Vou pra casa agora mesmo.

— Não! — berrei, com um misto de dor e todas as outras sensações horríveis dentro de mim. — Vou ficar bem, não se preocupe comigo. Tem que estar descansado para a sua entrevista. Vá dormir com Aline.

— Darling... — interviu, mas desliguei antes que pudesse falar algo mais.

Quando o telefone começou a tocar de novo, joguei-o no mar e me encolhi no banco acolchoado agora manchado com as gotas de sangue que escapava do meu nariz e ouvidos.

Mal notei quando chegamos à ilha, mas fui acordado por um dos demônios. Ainda me sentia fraco, cada fragmento do meu corpo queimava. Esticar as pernas para ficar de pé teve como consequência uma tontura que me fez cair de novo no banco e bater a cabeça no metal que havia em volta. Não foi forte o bastante para abrir um corte, no entanto, deu para sentir indícios de um hematoma.

Um demônio me carregou, levando-me para o quarto sem falar uma palavra. Só de fazerem isso já foi uma surpresa, eles não eram muito hospitaleiros com as pessoas, nem mesmo comigo e com Christian. Só seguiam ordens de forma mecânica, sem sentir nada. Demônios não possuíam compaixão, empatia, pena e nem nada do tipo, apenas o apelo e um desejo incontrolável por destruição.

 Tremendo debaixo dos lençóis, puxei-os até que cobrissem parte da minha cabeça. Estava morrendo de frio, tanto que meus dentes batiam como se fossem quebrar tamanho o impacto. Os pontos em meu tórax ardiam e torci para não vomitar de novo. Christian ficaria com raiva por eu ter sujado toda a sua lancha com sangue, era tudo tão branco. Estraguei tudo, sempre estrago tudo.

Comecei a chorar de novo, sujando os lençóis com minhas lágrimas de sangue. Não me incomodei porque apenas eu dormia ali e sabia que podia trocá-los sempre que quisesse. A dor ia e voltava com ainda mais força, trazendo uma avalanche consigo. Era como ter seu corpo posto em uma fogueira e ao mesmo tempo jogado no Alasca. Fogo e gelo colidindo, a tortura era imensa e me fazia revirar na cama, gritando tão alto que tive a impressão de que os vidros das janelas tremeram.

— Vamos dividir o sangue? — Rafael disse, era uma memória distante, uma daquelas que geralmente eu nunca trazia a tona. Porém, estava fraco e dolorido demais para controlar meu corpo e minha mente.

— Isso é muito intimo, Rafael — Era estranho ouvir minha própria voz. A tortura pareceu cessar durante o momento em que essa cena rodava em minha cabeça, tomando conta de todos os meus pensamentos. — Não posso fazer isso.

— Somos muito íntimos — Ele acariciou meu rosto, deixando que eu visse seu sangue brilhar sob a luz fraca do sol permanente em uma das camadas do Paraíso. — Fomos feitos um para o outro, sou seu e você é meu, não há o que temer.

— Não posso — Virei o rosto. Recusar aquela oferta foi o que deu inicio a nossa primeira discussão, não foi nem de longe tão grandiosa e devastadora quanto a última e nem por isso machucou menos. — Desculpa, Rafael.

— Darling — Uma voz me chamou, me distanciando daquela memória ainda vivida. — Não grite, estou aqui.

— Desculpa, Rafael — murmurei de novo. Tendo dificuldade para enxergar, tudo estava um pouco embaçado. — Devia ter dividido o sangue com você, sou seu.

— Theodoro — Fui chacoalhado e gritei de novo, porque aquilo doeu. Meus ossos não responderam bem a aquilo, então comecei a chorar porque era apenas isso que eu conseguia fazer. — O que houve com você, darling?

Alguém começou a acariciar meus cabelos cobertos de suor, era bom. Fui capaz de sorrir mesmo sofrendo tanto. Consegui sentir a textura de um corpo ao meu lado tão quente quanto o meu. Era grande e tomava muito cuidado ao me tocar. Demorei um pouco para recuperar o foco e ouvir o som da voz de Christian e ser capaz de reconhecê-la.

— Não estava na Ilha dos Cisnes? — eu quis saber, assim que nossos olhares se encontraram.

— Estava — Seus dedos tocaram minha pele, fazendo cócegas. Aninhei-me ainda mais em seu peito, nem havia notado de que estava em cima dele. — Vim correndo assim que você desligou na minha cara.

— Desculpa — Minha voz saiu meio embargada, quase estrangulada. — Não quis preocupar você.

— Achou mesmo que eu iria dormir sabendo que você podia estar machucado? Ouvi você vomitando e deu para notar o quanto estava fraco. Sua voz estava diferente, você tá pior do que pensei.

— Desculpa — Era a única palavra que consegui soltar.

— Pare de se desculpar, Theo — Chegou o rosto mais perto do meu e aquilo me desarmou. Nunca iria me acostumar com aquela aproximação exagerada. Quando ele fazia aquilo, parecia que meu coração estava prestes a sair pela boca de tão descontrolado que ficava e eu tinha certeza de que ele podia ouvir.

 Eu estava enrolado com os lençóis, eles me separavam de Christian. Tirando eles, eu estava completamente nu, o que não ajudava muito a disfarçar. As pontadas eram mais leves, no entanto, ainda sentia sangue saindo do meu ouvido.

— Você dividia sangue com esse Rafael? — puxou assunto no momento em que decidi fechar as pálpebras enquanto brincava com um de seus botões da camisa que usava.

— Nunca dividimos — murmurei, ainda de olhos fechados. Estar com ele deixava a dor quase suportável, talvez ele fosse um sonho ou uma daquelas alucinações que eu devia estar tendo como consequência por abusar de meu poder. — É algo muito intimo para o meu povo e perigoso também.

— Como assim?

Quase ronronei quando começou a fazer carinho em meu cabelo, massageando a cabeça e tomando cuidado para não usar as unhas. Os dedos dele eram macios, o que deixava a experiência ainda mais grandiosa.

— Sangue nos conecta a outra pessoa. Sua dor se torna a dela também, os sentimentos, ambições. Nos tornamos um. É perigoso porque podemos sentir o medo um do outro, ter vislumbres de onde o outro está mesmo estando separados, mas é claro que para isso é necessário beber ao menos uma gota do sangue do outro por dia. Se eu tivesse dividido com o Rafael ele teria me encontrado caso tivesse com meu sangue em seu sistema antes de eu fugir. Trocar sangue é algo poderoso demais.

— É como eu faço com os demônios? Nunca senti nada disso — Deixou meus cabelos para afagar minhas costas, percorreu os dedos pela minha coluna espinhal, passando por baixo do pano que me cobria. Senti meu rosto enrubescer com o toque e cada pelo do meu corpo ficar arrepiado. Seus dedos pareciam conter uma espécie de corrente elétrica, era fascinante e cruel ao mesmo tempo porque sabia que Christian jamais me olharia de outra forma e era melhor assim. Nós dois nunca daríamos certo, eu era imortal e ter esse tipo de relação com um mortal seria não só devastador para mim, mas também para ele. Era desnecessário partir dois corações ao invés de um. Se eu tivesse que partir algum, que fosse apenas o meu por almejar alguém que jamais poderia ter, pelo menos não por completo.

— Com você é diferente porque não tem sangue celestial. Os seres da hierarquia são muito reservados e não saem dividindo sangue com todo mundo, é algo sagrado e que só fazemos quando encontramos a suposta alma gêmea. É como se soubéssemos que aquela pessoa é confiável o bastante para costurarmos nossa vida a dela — Respirei fundo antes de continuar, foi uma péssima ideia porque o grito agudo saiu rasgando minha garganta já maltratada. Christian me abraçou um pouquinho mais forte e pude sentir seus lábios em minha testa, onde estava o hematoma ainda meio dolorido. Ele pressionou de leve os lábios ali. Não doeu, mas ainda assim fiquei todo arrepiado. Era estranho. — Se fossemos ligados, por exemplo — continuei, voltando a falar a fim de afastar aquela dor. — Eu conseguiria te sentir onde quer que estivesse caso nossa conexão fosse forte, caso a dieta fosse mantida e nós dois bebêssemos o sangue um do outro regularmente. Seriamos um, Christian.

Agarrou minha cintura e me puxou para cima a fim de nossos rostos ficarem um de frente para o outro. Pousou uma das mãos em meu peito, sentindo meu coração bater contra seus dedos. Aquilo o fez sorrir, não o sorriso cruel e macabro que dava em frente ao espelho, era o tipo de sorriso que me arrancaria suspiros se suspirar não doesse tanto àquela altura.

— Vamos ser um, Theodoro — disse, implorando com o olhar. — Troque sangue comigo.

E foi quando aquelas temíveis presas apareceram, fazendo com que o encantamento acabasse e só restassem gritos emitidos pela minha garganta puída. 



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...