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História Fine Line - Capítulo 15


Escrita por:


Capítulo 15 - She


She lives in daydreams with me 

She's the first one that I see

And I don't know why

I don't know who she is 

she - Harry Styles


🥀


Depois de decidirem que se agarrar na sala de Yoongi não era nem de longe a melhor coisa a se fazer enquanto o prédio estava lotado de gente curiosa, os Hoseok e Yoongi estavam agora no carro atravessando a cidade a caminho de Eroda. 

E aquele percurso nunca fora tão longo para Yoongi, ele dirigia no limite permitido mas todo o seu corpo gritava para que ele acelerasse o máximo possível e chegasse no quarto vermelho o quanto antes, o fato de Hoseok ter deixando displicentemente sua mão escorregar até a coxa de Yoongi não estava ajudando em nada o jovem empresário. 

Hoseok sabia que estava provocando Yoongi e estava satisfeito com isso. Não podia negar é claro, que parte dele se encontrava tão ansiosa quanto o loiro, mas ele fazia o possível para não transparecer isso, se manteria calmo e tranquilo, não podia deixar suas emoções cederem tão facilmente. No entanto, Yoongi agora o encarava de forma distinta enquanto estavam presos no sinal vermelho, e aquele olhar fazia Hoseok querer mergulhar naquelas íris escuras e se afogar eternamente. Nenhum par de olhos jamais o olhou de modo tão profundo e intenso. Era como se Yoongi pudesse enxergar cada mísero centímetro da sua alma, mesmo estando completamente vestido Hoseok nunca se sentira tão exposto, tão visto, quanto naquela fração de minutos. 

Quando o sinal abriu Hoseok se sentiu aliviado, não seria capaz de sustentar o olhar intenso de Yoongi sobre si por muito mais tempo. 

E agora estavam tão perto, mais algumas curvas e o prédio de Eroda poderia ser visto ao longe. Estavam tão perto…

Hoseok deixou sua mente divagar por um tempo, o silêncio que mantinham dentro do carro não era incômodo, mas dava espaço para que muitos pensamentos assumissem o controle. Como agora, estando a poucos metros de Eroda, Hoseok se perguntava, “e depois?”. 

Era estranho para si toda essa dinâmica. Havia passado tanto tempo sendo somente um companheiro, um suporte, para Yoongi, que ele se perguntava, o que fariam depois? O que seriam depois? De que forma as coisas mudariam? Será que Yoongi já havia entendido que, apesar de tudo, Hoseok jamais seria qualquer coisa além de um garoto de programa? Será que Yoongi pensava o mesmo? O que aconteceria depois? 

Mas nenhum dos dois teve a chance de tentar resolver essas perguntas. 

Quando o carro de Yoongi cruzou a avenida que separava eles do seu local destino, ambos puderam ver as luzes piscantes em vermelho que eram lançadas do veículo branco parado em frente a Eroda.

Uma ambulância. 

A visão do carro estacionado bem em frente à porta principal de Eroda foi o bastante para que ambos trocassem um olhar rápido, alguma coisa estava errada. 

E conforme o carro deles se aproximava da cena o coração de Hoseok ia se apertando um pouco. As mil dúvidas que tomavam sua cabeça minutos atrás foram logo substituídas por mil pressentimentos ruins, mil previsões possíveis de tudo que poderia ter dado errado em Eroda. 

Quando Yoongi estacionou o carro do outro lado da rua eles mal tiveram tempo de se mexer antes que a cena seguinte tomasse conta de tudo ao redor. 

Através dos vidros escuros do carro Hoseok viu quando uma maca atravessou a enorme porta de entrada de Eroda e cruzou a calçada até ser levada aos fundos da ambulância. Dois paramédicos empurravam a maca enquanto um terceiro ia sobre ela segurando uma máscara de ar em frente ao rosto desacordado de quem estava sobre a maca. 

Era Yina. 

O reconhecimento de que era a amiga ali desacordada fez Hoseok puxar com força o ar para dentro dos pulmões, respirar nunca parecera tão difícil quanto agora. E o som pavoroso que saia de sua garganta enquanto ele lutava para devolver ar aos pulmões não era parecido com um grito, mas era tão assustador quanto. 

Yina estava desmaiada.

Yina estava sobre aquela maca de hospital. 

Yina estava sendo empurrado ambulância adentro e logo desaparecia com o fechar das portas geladas de metal. 

O mundo começou a correr em câmera lenta para Hoseok. 

Ele viu quando Namjoon saiu do prédio e falou com um dos paramédicos, ele parecia desesperado. Viu também quando da garagem logo ao lado Jimin vinha dentro do carro dele e gritava para que Namjoon entrasse logo. 

Viu quando o som agonizante da sirene da ambulância foi ativado e o veículo saiu depressa pela rua e foi seguido rapidamente por Jimin. 

Por fim viu quando Yoongi prendeu de volta seu cinto de segurança — que ele havia tirado quando intencionara sair do carro para correr até Yina — e ligou novamente o carro seguindo o caminho feito pela ambulância. 



🥀


O frio congelante do ar-condicionado do hospital atingiu em cheio a Hoseok que estava acostumado ao clima quente externo, mesmo debaixo do terno ele sentiu sua pele se arrepiar enquanto caminhava a passos rápidos em direção à recepção. 

Yoongi seguia em seu encalço, mas estava difícil acompanhar o ritmo apressado em que Hoseok seguia. 

Eles encontram Namjoon na recepção, ele terminava de informar os dados de Yina para uma senhora de cabelos grisalhos que parecia entediada, Jimin estava com ele, como de costume o baixinho parecia prestes a explodir enquanto Namjoon tentava manter as aparências. 

Mas Hoseok não poderia se importar menos com aparências num momento como aquele. Yina estava ferida. Sua Yina estava sabe se lá onde neste hospital passando por sabe se lá o que, Hoseok não precisava manter as aparências, ele precisava saber de Yina. 

— Onde ela está? — Hoseok perguntou a Jimin. Sua voz saiu entrecortada, parte por culpa da correria até ali, parte por culpa do nó em sua garganta. — Me fala onde ela tá! 

Tanto Namjoon quanto Jimin se espantaram com a presença de Hoseok ali, principalmente porque ele havia levado companhia. 

— Hoseok, calma! — foi Namjoon quem falou. Ele assinava alguns papéis e devolvia-os à senhorinha — Ela está com os médicos e está sedada. — explicou. 

— Mas… O que aconteceu? O que… Por que ela está aqui?? — o tom imperativo de Hoseok foi se apaziguando e dando lugar a um lamento dolorido. 

— A gente ainda não sabe direito. — foi Jimin quem falou, mas seu olhar denunciava que a verdade não era exatamente aquela — Vem cá. — ele puxou Hoseok pelo braço e o guiou para longe da recepção até uma área com menos movimentação  onde haviam algumas poltronas vazias. 

— Jimin… O que fizeram… Quem fez isso com ela? — a voz de Hoseok tremia. 

— Hobi calma. — Yoongi se aproximou deles — Senta aqui, — ele indicou a poltrona vazia e esperou Hoseok se sentar, parando ao seu lado como um sentinela — eu vou pegar uma água para você. — Yoongi completou. Mas a verdade era que ele sabia que nada seria revelado enquanto sua presença permanecesse ali, por isso optou por dar espaço para que eles conversassem. 

Sozinhos ali os três se encararam, muitas dúvidas pairavam no ar, mas só uma delas importava de verdade. 

— Hobi, — Namjoon tomou a palavra — a Yina, ela… ela sofreu um ataque. 

— Como assim?! — Hoseok levantou de súbito — O que você quer dizer com isso?? — ele praticamente gritava.

— Hoseok pelo amor dos céus, estamos tentando não criar um alarde! — Jimin o repreendeu — Senta por favor, escuta a gente. 

— Olha, — Namjoon continuou — não sabemos exatamente o que aconteceu, não temos câmeras nos quartos, você sabe, mas ela estava com um cliente… eles passaram a tarde juntos e ele foi embora por volta de uma hora antes da gente descobrir o que estava acontecendo. — ele fez uma pausa e massageou as têmporas antes de prosseguir — O fato é: de alguma forma ele a estrangulou, não sabemos exatamente como nem porquê, mas ele fez isso até que ela perdesse os sentidos. — Namjoon suspirou e encarou complacente a face apavorada de Hoseok — Ela… ela estava desmaiada, e só descobrimos porque o outro cliente que ela tinha agendado para aquela noite chegou e estranhou a demora dela. 

— Quando chegamos no quarto dela, — Jimin tentou continuar — quando chegamos lá ela estava caída no chão. — ele posicionou uma mão ao redor do pescoço e engoliu em seco — As marcas no corpo dela, no pescoço… — seu corpo estremeceu — Eu não consigo nem lembrar. 

Àquela altura lágrimas silenciosas escorriam pela face de Hoseok, ele tentava sufocar o choro, mas isso se tornava cada vez mais difícil conforme ele visualizava em sua mente a cena de Yina sendo carregada na maca, seu corpo inerte, seus olhos fechados. 

— Não, não! — a voz de Hoseok havia se tornado um sussurro. 

Ele esfregou o rosto com as mãos e tentou não pensar no pior, não podia pensar no pior. 

— Quem fez isso com ela? — apesar de baixa Hoseok ainda conseguiu soar duro. 

— Nós mandamos a segurança analisar as imagens das câmeras externas e levantarem a ficha de pagamento dele. Estamos tentando conseguir as imagens das câmeras da rua também. — Namjoon explicou — Mas não tivemos tempo de esperar, achamos melhor ter acompanhado ela até aqui. 

Namjoon se calou quando viu que Yoongi retornava até onde eles estavam com três garrafinhas de água nas mãos. Ele se aproximou lentamente e entregou uma garrafa a cada um, ainda se sentindo um intruso em meio àquela situação. Depois ele se sentou sobre o braço da poltrona onde Hoseok estava e segurou em seu ombro, apesar de tudo ficaria ali por Hoseok. Yoongi ainda não sabia o que exatamente estava acontecendo, mas queria poder transmitir segurança para ele, queria que Hoseok soubesse que podia contar consigo. 

— Obrigado, Yoon. — Hoseok agradeceu baixinho. 

As horas passavam lentamente naquela sala de espera. As paredes brancas pareciam querer devorar Hoseok, um relógio no final do corredor silencioso tiquetaqueava tão alto que o som parecia perfurar seu cérebro numa tentativa de ocupar cada espaço em branco que houvesse ali. Ele estava a ponto de gritar. 

Jimin parecia hiperativo, ele não conseguia se manter parado, quando sentado sua perna esquerda pisoteava o chão freneticamente como num tic nervoso, e quando levantava ele simplesmente circulava a sala inteira mexendo em cada pequena coisa que havia ali, desde revistas ultrapassadas até os objetos de decoração. 

Enquanto isso Namjoon e Yoongi pareciam travar uma batalha de quem passava mais tempo parado e em silêncio. Namjoon estava sentado num sofá bege que certamente já tivera dias melhores, sua cabeça atirada contra o recosto parecia ter se fixado ali tamanha a quantidade de tempo em que ele se encontrava na mesma posição. Já Yoongi estava agora sentado ao lado de Hoseok num sofá menor, e Hoseok não sabia dizer exatamente a quanto tempo Yoongi segurava a sua mão, mas fora tempo o bastante para que ela começasse a suar mesmo no frio gélido daquele ar condicionado, ainda assim Hoseok apreciava o ato. 

Quando um médico chegou informando a eles que Yina estava acordada o sol já começava a despontar no céu. Eles mal viram a noite passar, sequer conseguiram dormir. 

O doutor só permitiu que ela recebesse uma única visita, e mesmo a contragosto Hoseok concordou que era melhor que fosse Namjoon. Ele afundou o corpo no sofá e sentiu um calafrio correr sua espinha, fechou os olhos e deixou a mente ser dominada por um único pensamento. 

Yina estava bem. 



🥀


Desde muito nova Yina já se destacava entre as outras garotas. Qualquer um com olhos poderia ver claramente a beleza distinta que a jovem exibia. Cada traço de Yina gritava perfeição. O rosto milimetricamente desenhado, os olhos escuros e profundos pareciam cintilar na luz do dia, seu sorriso perfeito, a forma como seu cabelo emoldurava sua face como se sua principal função fosse aquela. Cada detalhe, fazia de Yina um destaque em meio à multidão. 

E seus pais faziam questão de ressaltar aquele fato. 

Logo quando criança Yina já participava e já vencia os mais diversos concursos de beleza, e para sua sorte, além de linda ela também era graciosa, seu jeito encantava, contagiava. Ela atraia as pessoas para si como se fossem um enxame de abelhas procurando por mel. 

Yina era perfeita. 


A primeira vez que Im Jonggyu se deparou com a perfeição de Yina a garota não deveria ter mais do que doze anos, ela havia acabado de vencer mais um concurso de beleza e estava nos bastidores com a mãe. As outras crianças a cumprimentavam e elogiavam, e tanto Yina quanto sua mãe deixavam seu ego se inflar a cada elogio recebido. Os elogios eram quase melhores que o prêmio de cada concurso para sua mãe, ela vibrava a cada vez que alguém ressaltava a beleza distinta do rostinho de sua filha, ela sentia a sensação de dever cumprido. 

Yina e a mãe se preparavam para voltar para casa com mais um troféu de vitória naquela noite quando um rapaz jovem e magricela, porém elegantemente vestido, levou até elas uma mensagem de Im Jonggyu. Ele dizia ter visto a presença graciosa da garota no concurso e por isso gostaria de marcar um encontro com os responsáveis pela garota, de acordo com ele poderia tornar Yina uma modelo famosa no mundo todo em pouquíssimo tempo. 

A proposta encheu os olhos da mãe de Yina, pensar na possibilidade da sua garotinha ser reconhecida em todo o globo a deixava eufórica. O pai de Yina também não foi contra, ambos acreditavam no potencial da garota e deixavam que a ambição e o sonho da glória guiasse o caminho. 

Bastaram poucos encontros com Jonggyu e a família de Yina já estava fascinada. Ele sabia bem como enganar e iludir. Ele arquitetou a situação para que realmente parecesse que tudo que ele queria era tornar Yina famosa no mundo da moda. Nem mesmo alguém que estivesse prestando atenção poderia ter notado as dúzias de mentiras que ele despejava, os papéis fraudados, os contratos que de nada valiam, encontros com supostos poderosos da indústria… tudo falso, tudo um plano para ter o rostinho bonito de Yina em sua coleção. 

E os pais de Yina se deixaram cair na rede doentia de mentiras de Im Jonggyu. 

Foi fácil demais. 

Em certo momento das negociações ele afirmou que seria necessário levar a garota para uma espécie de treinamento em outro estado, os pais de Yina não viram problema, a mãe iria acompanhar a viagem e Yina estava tão empolgada com tudo aquilo… Se ao menos eles tivessem sido mais cautelosos… Se eles tivessem visto os sinais… Mas eles nunca questionaram nada. 

A ambição tomou Yina deles. 

Tudo aconteceu numa fração de hora. 

Bastou uma distração para a mãe da garota e um chamariz para Yina e tudo estava feito. Em menos de uma hora Jonggyu e seus comparsas haviam fugido com a menina sem deixar o menor rastro, em menos de uma hora a Karma havia destruído mais uma família. 

Yina não via os pais desde aquele dia. 

Os pais de Yina não pararam de procurá-la desde aquele dia. 



🥀


Quando Yina recebeu alta todos concordaram que o melhor era que ela ficasse afastada de Eroda por um tempo. Ela não discordou. Somado a isso, Hoseok impôs que o único lugar em que ela ficaria era no apartamento dele. Yina também não discordou. 

Agora ela estava deitada no sofá enquanto Hoseok lhe fazia o almoço. 

Os dias vinham sendo assim, e de forma lenta e preguiçosa ela se recuperava. Com Hoseok e Taehyung sempre grudados nela como pequenas pulgas insistentes, é claro, mas ela adorava essa parte. Taehyung até passou duas noites no apartamento de Hoseok com eles, de acordo com ele era uma festa do pijama. 

No geral era bom fingir ser normal por um tempo. Para todos eles. 

Mesmo após vários dias as marcas vermelhas em seu pescoço ainda eram altamente visíveis, e elas davam calafrios em Hoseok todas as vezes em que ele parava para refletir a causa delas. Mas Yina não tocava muito no assunto. Sempre que Hoseok tentava fazê-la se abrir ela desviava do assunto, geralmente de forma autodepreciativa (o que incomodava Hoseok em níveis incalculáveis). Quando o assunto eram suas mágoas Yina era como uma rocha, firme e imponente contra as ondas que se quebravam sobre ela. 

Nesse sentido ela lembrava Hoseok de sua própria mãe. Tanto em sua força quanto em suas marcas. 

Mas Hoseok não conseguia evitar tocar no assunto, em sua mente (que é uma mente determinada a cuidar das pessoas, diga-se de passagem) ele acreditava que a garota precisava conversar com alguém, ninguém tinha que passar pelo que ela passou e permanecer em silêncio, não era justo. 

E por isso ele insistia. 

— Yna, o almoço chegou! — Hoseok anunciou enquanto levava a bandeja com a refeição até onde Yina estava deitada — Mas você vai ter que soltar o Mickey e ir lavar as mãos. Anda, anda eu também tô com fome. 

A garota resmungou mas se pôs de pé, sabia como Hoseok era meticuloso com relação a higiene. 

— Está feliz? — Yina voltava do banheiro exibindo as palmas das mãos ainda brilhando pela água. 

— Estaria mais se você não estivesse derramando água sobre meu carpete. — Hoseok rebateu.

Yina simplesmente revirou os olhos. 

— Como está hoje? — Hoseok perguntou quando ela sentou no chão em frente à mesinha de centro onde estava a comida. 

— Em que aspecto? Emocional? Social? Financeiro? — A garota brincou. 

— Físico. — Hoseok respondeu sério — Como se sente? — ele apontou para seu próprio pescoço e fez uma careta piedosa. 

— Você é médico? — ela encarou Hoseok que balançou a cabeça negativamente — Sabe receitar analgesicos? — novamente Hoseok negou — Então pra que quer saber? — Yina finalizou enquanto começava a comer. 

— Quero saber porque eu me importo, sua praga! — Hoseok respondeu e atirou uma ervilha do seu prato na garota. 

— Eu sei, Hobi! — Yina suspirou — Mas eu to legal, relaxa. 

— Legal… — Hoseok revirou os olhos — Até parece, você acha que eu não ouço você suspirar contra seu próprio reflexo toda vez que se olha no espelho? Isso não é estar “legal”. 

— O que você quer que eu diga então? — Yina parou de comer e encarou o amigo — Quer que eu passe o dia me queixando do quanto estou horrível? Do quanto ainda dói cada vez que eu respiro? Do quanto eu sou burra e estúpida e isso tudo é minha culpa? Eu só quero esquecer tudo isso…

Hoseok encarou seu prato, agora com bem menos fome do que estava, e suspirou. 

— Yina, isso não é sua culpa. — ele olhou com carinho nos olhos da amiga — Não é sua culpa!! 

— Claro que é, Hobi. — ela suspirou — Eu fiz isso comigo. 

Hoseok estava aturdido, não conseguia entender como Yina podia se culpar por algo assim. Como assim ela havia feito isso?

— Yina, o que você quer dizer com isso? Não foi sua culpa, não foi.

— Foi sim. — pela primeira vez Hoseok enxergou uma rachadura na armadura firme onde Yina se escondia — Eu poderia ter evitado… eu tive a chance de evitar e eu deixei isso acontecer por um capricho meu. 

Hoseok nada respondeu, somente continuou a encarar a amiga na esperança de que ela esclarecesse melhor tudo aquilo. 

— Naquela noite eu tinha sido solicitada pelo velho Song, novamente ele continuava insistindo em mim, mas eu estava tão cansada dele, tão enjoada de ter que me deitar com ele… eu só… eu não aguentava mais, então eu me atirei no primeiro cara que apareceu em Eroda, eu só queria qualquer desculpa para não ter que ficar com o velho Song novamente… Eu só… Se eu tivesse aceitado, se eu não tivesse sido uma boba mimada que se acha no direito de escolher alguma coisa. 

— Yina para! Para agora mesmo. — Hoseok a interrompeu — Não tem o menor cabimento, não tem a menor chance disso ter sido culpa sua em hipótese alguma. — ele se levantou e foi até a amiga — Você não é responsável pelas ações alheias. Você não é responsável pela maldade alheia. Você não pode se culpar por ter sido a vítima! Não foi culpa sua! — ele afirmou tudo aquilo com mais certeza do que com a qual ele afirmava o próprio nome. 

— Mas Hobi-

— Nem mas nem meio mas! Você não vai mais repetir isso. 

Um silêncio se firmou ali diante do ultimato de Hoseok. No fundo ele temia ter forçado demais a situação, talvez devesse ter deixando Yina lidar com isso da maneira dela, mas agora, depois de saber o que ela sente de verdade… Não, ele não poderia ter deixado isso em silêncio, ele não poderia deixar que ela continuasse se sentindo assim. 

— Você está com medo? — Hoseok perguntou. 

— Eu tenho andado com medo durante toda a minha vida. — a garota suspirou — Nesse ponto eu já nem sei mais o que é medo. Já faz parte da minha rotina. — Yina desviou o olhar de Hoseok e focou em Mickey que pedia manhosamente por um pouco da comida dela. — E você? Está com medo? — ela decidiu desviar a conversa ara Hoseok. 

— Eu tive medo quando vi o Youngjae, você sabe, o que aconteceu com ele ainda está fresco na minha memória. — Hoseok fez uma pausa e pensou um pouco — Sinto medo às vezes, muitas vezes para ser sincero, — ele riu um pouco — eu sinto medo quando acordo e quando vou dormir, sinto medo do dia seguinte e sinto medo do passado. Mas agora não estou só com medo, estou com raiva. Estou com raiva de quem fez isso com você. 

Yina não respondeu, não havia muito o que ser dito. 

— Você acha que um dia vamos conseguir viver sem medo? — Hoseok questionou. 

— Talvez. — Yina deu de ombros — Quem sabe, sempre podemos sonhar com uma luz no fim do túnel. 

Uma luz no fim do túnel

Hoseok se lembrou que Seokjin havia se referido assim a ele, sobre como ele era a luz no fim do túnel para Yoongi. 

E com isso ele passou a refletir, e se Yoongi fosse a sua luz no fim do túnel? 



🥀


Jimin encontrou Namjoon no terraço. 

Ele estava recostado sobre o parapeito e observava a silhueta da cidade se estender ao longe conforme o sol se punha levando consigo todas as cores que antes vibravam ali. 

Ele não vinha falando muito desde o que ocorrera com Yina, e Jimin não o culpava, ele sabia bem que algumas feridas simplesmente permaneciam por mais tempo, e às vezes era como se alguém arrancasse o band aid que as mantinha coberta, de repente tudo estava exposto e pingando sangue novamente. 

Haviam arrancado os bandaids das feridas de Namjoon e agora tudo doía. 

— O Hoseok mandou uma foto! — Jimin anunciou enquanto se aproximava do amigo — Yina parece bem, as marcas já estão bem menos visíveis. — ele mostrou a tela do celular para Namjoon. 

Na foto estavam Yina, Hoseok e um gato branco e peludo. Hoseok sorria grandemente e Yina tinha um ar blasé, ela parecia estar imitando a expressão do gato. 

— O Taehyung está lá com eles, foi ele quem tirou a foto. — Jimin explicou. 

Namjoon observou a foto e em seguida sorriu, as charmosas covinhas em suas bochechas aparecendo após dias de seriedade. 

— É bom que ela estava bem, que todos eles estejam bem. — Namjoon comentou — Alguém precisa trabalhar. — ele brincou e riu. 

— Pelo visto você também está melhorando, — Jimin respondeu — o que é isso que estou presenciando…  um pouquinho de bom humor? 

— Estou literalmente rindo para não chorar. — Namjoon esfregou as mãos no rosto e suspirou — As imagens das câmeras de segurança do quarteirão chegaram hoje. — ele apontou com o queixo para um envelope pardo que estava sobre a mesinha ali. — O agressor da Yina… — Namjoon engoliu em seco — ele fugiu e entrou num carro antes de sair na rua principal. 

Jimin pegou envelope e retirou as fotos de dentro. O culpado estava visível nas fotos, vestido inteiramente de preto, mas sua cabeça estava baixa em todas as imagens e um gorro preto lhe escondia o rosto. 

As fotos perdiam um pouco a qualidade conforme avançavam, algumas câmeras da rua não eram tão boas, ainda assim era visível o momento em que ele entrou num carro preto de luxo pela porta dos fundos, haviam mais alguns cliques do carro indo embora e um foto com zoom na placa do automóvel. 

— Temos como conseguir outras pistas com isso? — Jimin segurava a foto da placa do carro. 

— Acho que sim, só não sei se vai ser suficiente. Porém esse carro não é um carro comum, talvez consigamos rastrear todas as pessoas com esse modelo na cidade. — Namjoon respondeu. 

— Se temos essa chance, então o que está te incomodando tanto? 

— A gente conhece uma pessoa que tem esse modelo na sua coleção particular de carros. — Namjoon encarou o mais novo. 

Nada mais precisava ser dito. 



🥀


Hoseok não conseguia dormir. Não era a primeira vez naquela semana. Seu sono vinha se tornando extremamente escasso já haviam alguns dias, e nem mesmo a presença acolhedora de Yina ao seu lado na cama tornava as coisas mais fáceis. 

Sua cabeça estava sendo tomada pelo mesmo pensamento desde sua conversa com a amiga. Seus sonhos febris e sua mente inquieta não o deixavam esquecer do que conversaram, sem contar que ele vinha somando os pontos e chegando a conclusões que não esperava chegar. 

Mas já era tarde, ele havia cruzado barreiras demais, ele havia deixado que cruzassem suas próprias barreiras, e agora? Bem, agora ele refletia se haveria mesmo um porto seguro, uma chance de viver sem medo, uma luz no final do túnel. 

Tudo isso levava Hoseok até o jovem loiro de óculos e de aparência intimidadora que sorria feito criança quando estava consigo. 

Uma luz no final do túnel. 

Ele se levantou da cama com cuidado para não acordar Yina, pegou seu celular que estava na mesa de cabeceira e foi até a cozinha, precisava de água para clarear seus pensamentos. Precisava pensar direito, limpidamente. 

Na cozinha Mickey estava sobre a bancada da janela fechada, ele observava a rua escura e deserta lá fora com seus olhos felinos atentos. A madrugada era sempre um horário intrigante para os gatos. 

Hoseok buscou seu copo de água e se aproximou do gato, deixou seus olhos se perderem na mesa a direção em que o bichano olhava. 

Ele lembrou de quando havia encontrado Yoongi encharcado sob a chuva torrencial. 

Bem, talvez aquilo fosse sinal o bastante, ou talvez Hoseok já estivesse decidido e só buscava alguma desculpa para onde se esquivar futuramente, não importava de fato agora. 

Ele pegou o celular e ligou para o número já conhecido. 

— Yoongi? — Hoseok chamou após a ligação ser atendida no quarto toque. 

— Hobi? — a voz arrastada de quem havia sido acordado respondeu devagar — Tá tudo bem? — Yoongi perguntou e Hoseok conseguiu perceber a ponta de preocupação externada na voz do loiro. 

— Te acordei, né? — Hoseok perguntou sem graça — Me desculpe. 

— Não, não faz mal. — Yoongi respondeu. 

Do outro lado da ligação Hoseok conseguiu ouvir o som de algo sendo derrubado e em seguida Yoongi praguejou. 

— Algum problema? — Hoseok quis saber o que havia acontecido. 

— Não, eu só cai da cama. — Yoongi respondeu e Hoseok riu — Você não me respondeu, tá tudo bem? Por que você tá ligando a essa hora? 

— Ah, sim, eu to bem… tá tudo bem. — Hoseok hesitou por um minuto, um minuto onde ele duvidou do que estava prestes a fazer. 

— Hobi? Você ainda tá aí? — Yoongi perguntou diante da linha muda. 

— Eu tô… tô aqui sim. — então Hoseok tomou fôlego e falou de uma vez — Yoongi, eu liguei por que preciso saber… preciso saber se sua proposta ainda está de pé. 

— Minha proposta? Que proposta? — Yoongi estava confuso, havia acabado de acordar não sabia nem seu nome direito. 

— A proposta sobre me querer só para você. — Hoseok esclareceu. 

Em sua cozinha Hoseok não pode ver a forma como os olhos de Yoongi se dilataram ainda no escuro, ele também não pode ouvir como o coração deste começou a bater mais alto e mais forte contra seu peito, mandando sangue o bastante para todas as partes do seu corpo e o obrigando a acordar completamente. Seus neurônios trabalhando a mil e criando todas as conexões necessárias para responder a pergunta de Hoseok. 

— Hoseok, — Yoongi disse sério — você tem certeza- 

— Não me pergunta nada Yoongi! — Hoseok respondeu depressa, ele pisava o pé repetidamente no chão, estava ansioso — Não questiona nada, não agora, depois você faz isso. Agora só me responde uma coisa, a sua proposta ainda está válida? Sim ou não? 

— Sim, sim! — Yoongi respondeu mais depressa do que pretendia. 

— Então eu aceito. 


🥀





Notas Finais


#VamosDeEroda


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