1. Spirit Fanfics >
  2. Fios do Destino (Em Correção) >
  3. Sobreviva

História Fios do Destino (Em Correção) - Capítulo 39


Escrita por: Saori76

Capítulo 39 - Sobreviva


No decorrer das horas seguintes, Ivan fez o que pôde para se manter acordado e buscar em sua mente um meio de refrear a dor a ponto de poder lutar. Ele sabia que não tinha grandes chances. Nur era ágil e difícil de combater e com ele ferido, era ainda mais impossível. A sua única chance era o fato desse estar dormindo agora, ao menos, era isso que sua respiração calma dava a entender. Sabia que podia ser morto no momento em que Nur percebesse sua tentativa de fuga, mas ele precisava arriscar.

Seria morto de todo jeito. Se fosse morrer, era melhor morrer lutando.

Ele foi paciente, esperou a madrugada vir adentro e o cansaço ter jogado o guerreiro no que parecia ser um profundo sono. A caverna era muito silenciosa, só com o barulho da água cercando o ambiente. Era arriscado fazer barulho, mas ele tinha que arriscar. Para começar, analisou bem a caverna ao redor dele. Havia muitos buracos nas paredes por onde o vento passava, mas todos eram pequenos demais para ele passar.

A única passagem era a sua direita, aonde também se encontrava o cavalo que poderia facilmente ser sua saída dali se conseguisse o alcançar. As mãos estavam amarradas as costas ainda e os pés também, uma corda fina o mantinha preso a pedra fria. A adaga que Nur jogara antes estava poucos metros dele, o escuro fazia a lâmina brilhar e ele podia a ver perto da água. Para começar, ele teria que dar o primeiro passo; Ivan começou a lentamente esfregar as cordas na pedra, na tentativa de afrouxar a mesma.

Levou mais tempo do que ele queria, houve várias pausas quando Nur pareceu acordar, ou se remexer. Sorte que o sono do guerreiro parecia profundo o bastante para o manter dormindo. A pedra era grossa e grande, mas também era muito afiada, a corda em si já era fina e só fora amarrada envolta dele para o manter no lugar.

Com alguma insistência, Ivan conseguiu afrouxar a corda o bastante para lentamente se deslizar para fora dela. A dor no tornozelo de Ivan era a mais evidente, a esse ponto a mordaça foi útil para o manter calado, visto que mover a perna era uma tortura, mas ele precisava fazer isso, não importa o que. Já fora das cordas, com os olhos focados em Nur, Ivan se arrastou em muito lentos movimentos para perto do pequeno riacho.

Com manobras descuidadas, ele consegue alcançar a adaga e lentamente começa a cortar as cortas em suas mãos. O processo estava mais longo do que o necessário, obrigando Ivan a forçar os pulsos para fora das cordas. Uma dor excruciante o fez pagar por esse ato, quase não conseguiu segurar a voz. Nur se remexeu mais uma vez, quase acordando agora. O jovem parou de se mexer, esperando a morte iminente se o guerreiro o visse. Por algum tipo de milagre dos céus, Nur não acordou e ele conseguiu se recuperar da dor. Com as mãos soltas, Ivan desdobrou de si mesmo para soltar as amarras nos pés.

O milagre de antes o deixou tão depressa quanto veio, a faca esbarrou no chão, produzindo um ruído alto que dessa vez acordou Nur. Ivan não queria estar nas mãos desse lunático de novo, tomando a única ação que conseguiu pensar, como o guerreiro não pareceu tê-lo visto em primeiro momento, Ivan entrou na água gelada do pequeno rio.

A água fria quase o paralisou quando afundou. Nur olha envolta da caverna e não encontra Ivan, e nem sinal da adaga. Ele vê as cordas jogadas no chão. Está muito escuro sem a fogueira e não vendo o outro atrás de algumas pedras, corre para fora imaginando que ele tinha fugido, empunhando a espada.

Ivan por outro lado, ainda embaixo da água resolve nadar na busca de alguma saída. Embora, a água fosse paralisante, havia causado um efeito de dormência em seu corpo, o ajudando a nadar. Ele procura nos arredores do pequeno rio, mas não havia saída por ali. Ele submerge, buscando todo o ar que precisa numa única respiração. A caverna está vazia, e o cavalo continua parado no mesmo lugar.

Era a sua chance.

Ele sai da água e vai se arrastando até a saída da caverna. Com a ajuda de uma pedra, consegue se pôr de pé. Exatamente no segundo que deixaria o lugar, Nur aparece diante dele. A espada está erguida, dessa vez, não haverá misericórdia ou novas chances. Nur imediatamente vem na direção de Ivan. O único braço bom é o que usa para se defender com a ataque da espada. Ele treme, caindo alguns passos para trás com o golpe forte. Uma simples adaga nunca vai ser o bastante para uma espada, não importava se essa havia sido feito com o mesmo fio das espadas, não era o bastante.

Nur é brutal enquanto ataca, encurralando Ivan tão logo possível. Com somente uma adaga contra uma espada, Ivan sabe que não pode ganhar. Só lhe resta agir por instinto. Há muitas pedras ao redor do chão e Ivan chuta uma delas na direção do rosto de Nur. A pedra erra o rosto, mas bate no braço do guerreiro, o fazendo recuar um passo. Ivan não perde tempo, com o braço bom, parte para cima do homem que é maior do que ele e soca no rosto duas vezes.

Os golpes mal feriram o guerreiro, mas o jogaram para trás pela surpresa. Ele provavelmente não era acostumado com vítimas lutando contra ele diretamente. Ivan é implacável, chuta o ponto ferido do guerreiro. O golpe lhe custou uma queda acidental. O golpe pode ter causado dor no outro, mas esse logo se recupera, o atacando novamente.

Ivan tem que se esquivar dos golpes de espada, rolando no chão. Ele bate o braço numa pedra mediana que ele atira na direção de Nur, dessa vez, o objeto acertou o rosto do guerreiro, causando um sangramento imediato. Ivan aproveita a chance e o ataca de novo, dessa vez, usando a adaga. Ele consegue fazer um ferimento no ombro dele, fincando a faca no ombro desse.

Nur agarra o braço de Ivan, o jogando longe. A adaga é retirada junto a uma expressão forte de dor e jogada no chão. Ivan corre para aonde a adaga está; quase sendo alcançado. Nur é muito maior e mais forte do que ele, nunca vai ganhar uma luta físico a físico. Ele corre para fora com todo o fôlego e força que consegue juntar.

A corrida assusta o cavalo que corre para longe. Nur já está em seu encalço. Ele corre para o norte, tentando buscar abrigo na floresta desconhecida.

Ele não conhecia essa área, se escondendo no primeiro ligar que encontra; uma grande árvore de mais de três metrôs de altura. No chão, vai ser descoberto, tendo como única escolha, subir alguns dos longos galhos. A habilidade de subir em árvores na infância é útil, e ele consegue com extrema dificuldade escalar seis galhos até estar a uma altura que considera segura. Escorado contra a árvore, Ivan toma um tempo para respirar.

A segurança que pensa ter conseguido se esvazie depressa; Nur está rondando a árvore, seguindo suas pegadas. Esse homem era muito melhor em rastrear alguém do que ele pensara. Ele bate a cabeça algumas vezes, estava preso numa teia como uma mosca. Como sairia dali se não podia lutar contra ele e Nur também não o deixaria ir? Não era mais uma questão de fuga, e sim de vingança. Nur sabia que estava morrendo, e não iria embora enquanto não tivesse a cabeça de Ivan.

O cavalo é uma boa maneira dele sair dali, mas esse estava longe e ele sozinho. Como chegar até lá?

Ivan quebra a cabeça, tentando encontrar uma maneira. Ele está fraco, com muita dor, se ficar vai morrer e se descer agora, vai morrer. Que escolha ele tem?

Perto dali, avista um ninho de passarinhos vazio. A mãe deve ter deixado o ninho depois dos passarinhos terem crescido, ou talvez, algum passarinho estivesse construindo um. Aquele ninho lhe deu uma ideia. Ele se estica como pode no galho grosso até pegar o ninho. Esse era um pouco mais pesado do que pensara, e serviria bem ao seu propósito. De onde estava podia ter uma boa vista de baixo, havia muitos arbustos para todos os lados, lados que seriam bons esconderijos no meio da escuridão.

Ele se debruça, calcula como pode, atira o ninho o mais longe que pôde num dos arbustos. A queda do objeto causa um barulho baixo de farfalhar, mas o bastante para chamar a atenção de Nur que vai na direção do som. Ivan desce da árvore o mais rápido que pode e corre, ou tenta, para o lado em que viu o cavalo correr.

A alguns metros da caverna, ele avista o cavalo, comendo grama em outro lado. Particularmente, Arlo nunca gostou das aventuras do filho, nunca permitindo que ele mesmo tivesse um cavalo próprio. Sendo assim, ele era acostumado a usar vários cavalos diferentes para cavalgar, só para desafiar o pai. Ele sabia quão assustados cavalos podem ser, e apesar da situação, se aproxima cautelosamente.

— Cavalinho, por favor, eu preciso de ajuda. Não vou machucar você, não fuja de mim.

Ivan se aproxima devagar, quando está bem próximo ao animal, esse tenta fugir dele, mas Ivan consegue agarrar a rédea e o acalma com carinhos no focinho.

— Não vou te machucar, está bem? — Ele sussurra, tentando acalmar o cavalo. — Me ajude a sair daqui e vou te dar muitas frutas, está bem?

Ivan consegue acalmar o cavalo que o deixa analisar o que carrega. Não há muita coisa no cavalo, apenas água e alguns suprimentos básicos. Sem espada para ele se defender, mas até que ele encontra algo útil; um arco e duas flechas. O arco está um pouco gasto, mas ainda pode ser usado. Segundos depois, passos são ouvidos atrás dele. Ivan não aguenta mais fugir, e sabe que não vai sair vivo se continuar assim.

Ele leva o cavalo consigo quando se esconde atrás de uma pedra. Ele fica fora de vista, mas o cavalo não. Não há mais importância agora. Ele se senta atrás da pedra, e examina o arco e a flecha. Ele não era tão bom com essas coisas, mas Oskar o ensinara o bastante para ele saber manusear e atirar. As mãos dele tremem, ele não quer fazer isso, mas está sem escolha agora. Ele não pode mais se esconder, não pode mais lutar.

Ao fechar os olhos por alguns segundos, Ivan respira fundo e toma a decisão.

— Saia e venha morrer como um homem. — Nur se anuncia, já estando bem próximo a ele, deixando claro que esse jogo de gato e rato está ganho.

Ele se levanta uma última vez, o arco e flecha nas mãos. Nur ri alto ao ver aquela cena.

— F-Fique longe de mim, ou vou atirar em você. — A ameaça não sai tão firme como deveria, muito menos quando as mãos dele tremem tanto.

Nur ri mais alto, a cena é patética. Ivan está tão ferido que mal consegue segurar o arco, quem dirá acertar o alvo, pensa o arrogante Nur.

— Fique parado e te matarei rápido. 

Ivan não se lembra muito das aulas de arco e flecha, estava ocupado demais observando a beleza e habilidades de Oskar. No entanto, lembra o bastante. Fixa o seu olhar num ponto específico do corpo do outro. A linha está traçada, a morte virá para alguém.

Ele ergue a espada ao céu e vem correndo na sua direção.

Ivan só consegue firmar as mãos por um único segundo, o qual ele atira a flecha. A flecha acerta o meio do peito de Nur. O guerreiro cai no chão na hora. Ivan sobe no cavalo e tenta cavalgar para longe. A força da flecha, no entanto, não foi fatal, causando um ferimento superficial.

O guerreiro pôde arrancar a flecha do corpo com facilidade, flecha essa que é atirada na direção de Ivan. Essa acertou a parte de trás do ombro de Ivan que cai do cavalo. O alvo foi acertado com facilidade, visto que o jovem estava tendo dificuldades em lidar com o cavalo. Ivan cai de costas no chão. Nur pega a espada e vai até o caído Ivan na grama.

Nur ergue a espada na direção do pescoço do outro, diz algo em seu dialeto natal.

Ivan rola para o lado, consegue se esquivar no último segundo. A adaga ainda está em sua mão, e ele a atira no peito dele. Nur grita de dor, cambaleando um pouco. A espada cai da mão de Nur. Ivan tomado pela adrenalina, pega a espada e a atravessa no corpo do guerreiro. A espada atravessou o outro lado do corpo do outro, o golpe foi fatal.

O guerreiro caiu morto no chão. Ivan também caiu, em choque.

Ele não olha mais para o guerreiro, sabe que está morto e não quer mais olha para aquilo. Cambaleia até o cavalo, coberto de sangue, com a adaga em mão. Dessa vez, o cavalo não fugiu dele. Ivan bebe a água que encontrou num cantil velho, devora um pedaço de pão duro, enrola no corpo um pedaço de pele de animal que estava enrolado dentro de uma das sacolas. O dia já está a raiar quando Ivan sobe no cavalo e cavalga para longe dali.

             (...)

A manhã chegou, e nada foi encontrado, a não ser os rastros deixados para trás. Os homens de Oskar encontraram outro corpo na saída da Cidadela, era um pobre comerciante estrangeiro que tivera a má sorte de encontrar Nur. Oskar viu o longo corte na garganta do homem, um pai de família que não vai voltar para seus filhos essa tarde. Cortar a garganta não era um tipo de ataque comum para Nur. Era claro a pressa que ele detinha.

— Alguém sabe quem é ele? — questiona Oskar, se afastando do corpo recém-coberto, jogado seminu numa moita perto dos portões da cidade, fora da vista dos guardas que estavam muito ocupados guardando o portão principal.

— Os comerciantes locais disseram que ele era um vendedor de peles e hortaliças. Vinha todo o mês vender suas peças aqui. — replica um soldado do rei. A forma como alguns soldados reais respondiam a Oskar causava olhares curiosos dos transientes e também dos outros membros da guarda real.

— O portão está trancado desde de ontem, ele então, deve ter feito o caminho contrário, para as florestas. — Oskar diz, pensando alto. Ele lança um olhar a Elias que estava próximo a ele, muito mais quieto do que o habitual. — Nessa rota, ele só pode ter ido em direção aos bosques do rei, dali a saída é certa.

— Ele pode estar longe a essa altura, senhor. — Elias argumenta, o momento não é o mais oportuno para dizer esse tipo de coisa. Oskar praticamente o ignora. 

— Vamos para a floresta.

— A alteza não vai se irritar?

— Que ele se irrite. — Oskar caminha até Oya, e sobe nesse. — Vou encontrá-lo, custe o que custar.

Os soldados seguiram Oskar, Elias também foi atrás. Tiara que se encontrava no grupo, é atrevida o bastante para aproximar o cavalo de Elias e perguntar baixinho:

— O que está acontecendo com você, tenente? Como pode ser tão indiferente quanto a essa situação grave?

Elias a encara, ideias inapropriadas de violência lhe passaram a mente.

— Se mantenha no seu lugar, soldado! — Elias apressa o cavalo, a confusão das emoções claramente afetava seu julgamento, embora estivesse cego demais para notar isso, só conseguindo culpar o comportamento do general.

Ignorando o território real, Oskar e somente seus homens, — visto que os soldados reais se recusaram a desobedecer o príncipe, atravessaram o bosque. Separados em grupo de quatro, buscas intensas foram feitas por toda metade de um dia. Sem sucesso na busca, seguiram para fora dos limites do território real, na floresta selvagem e sem dono que cercava toda a região e era caminho para outros países e cidades vizinhas.

Nesse território, os soldados reais aceitaram acompanhar a caravana de buscas, aumentando o grupo de quatro para seis. Isso, no entanto, não foi o bastante para acelerar a busca em uma área tão grande.

Já no início da noite, e a busca continua. A floresta era muito grande, uma busca completa levaria dias. Ainda assim, Oskar não estava disposto a desistir, insistindo na busca sem descanso e sem comer desde da noite passada. Um dos soldados do rei aparece, fazendo um movimento abrupto do cavalo.

— Senhor! Achamos o corpo de um homem, há tatuagens no rosto. Ele parece ter sido flechado por alguém. Há uma espada fincada no corpo.

— E Ivan?

O guarda olha na direção do general. Há um genuíno pesar em seus olhos, como alguém que lamenta sinceramente.

— Há muito sangue e encontramos as roupas do jovem mestre Ivan.

— Me mostre!

Oskar vai na direção em que o soldado o guia. Elias que estava no grupo o segue. Em uma área de mata completamente fechada, perto de uma caverna, havia um longo rastro de pegadas, sangue e cavalgadas violentas. Não muitos metros longe, perto de uma grande árvore se encontrava caído o corpo do guerreiro Nur, cheio de múltiplo ferimentos, e uma espada que atravessava o corpo caído no chão.

O general anda até o corpo, o vira com uma mão. Era de fato Nur, como ele logo reconheceu. A espada fincada no corpo era obviamente do comerciante, a flecha caída com a ponta coberta de sangue era de origem desconhecida. Oskar pega a flecha, a analisando de perto.

— Senhor... — Um dos soldados se aproxima, carregando consigo um pedaço de roupa que fora relatado como sendo a peça que Ivan usava quando desapareceu, essa peça estava coberta por sangue.

— Não há sinal dele?

— Não, senhor.

O general se põe de pé. Muitas imagens cruéis vieram a sua mente.

— Ele não pode estar morto, está? — questiona Fran preocupado, quase assustado. Nunca é respondido.

O coração dele se partiu em mil pedaços. Era possível ouvi-lo se partindo, a dor o consumindo com a mesma velocidade da morte. Oh, sim, a morte que parecia lhe perseguir aonde quer que ele fosse. A morte sempre esteve em seu encalço, e estava lá hoje para o lembrar da dor do sangue derramado.

O grande general se perde em alguns passos. Por um milésimo de segundo, o grande corpo oscila e parece que ele vai cair. A cicatriz em sua face se deforme conforme as linhas da angustia derretem sua alma mais uma vez.

Todos começaram a notar a expressão do general se alterando. Elias tentou se aproximar.

— Senhor...?

O general nem mesmo o olhou, caminhou pesadamente até seu cavalo e fez todo o caminho de volta para o castelo real. O céu já estava escuro quando chegou e foi se encontrar com o príncipe e o pai de Ivan. Não havia guardas nos portões do castelo, que até se encontravam abertos, todos estavam concentrados em manter o quarto do rei protegido. Por coincidência, ou não, o príncipe Jamir estavam muito próximos no salão principal, davam a impressão de que estavam discutindo, ou tendo uma conversa muito tensa.

— Você não é o rei.

— Quando for, me certificarei de te chutar para a sarjeta. — Jamir ficou frente a frente ao conselheiro, falando mais alto. — Acha que pode brincar comigo? Devo então, dizer ao seu filho seus segredinhos sujos?

Seja qual for o segredo escondido, o conselheiro perdeu a compostura na hora.

— Não se atreva.

— Vossa alteza. — Oskar chama o príncipe, a voz está ainda mais morta que seu filho. — Encontramos o corpo de Nur.

O conselheiro se volta a Oskar, cortesias são esquecidas.

— E meu filho?

O general está preso ao silêncio. Pela primeira vez, ele não sabia o que responder.

— Oskar....  — Uma voz muito familiar o chama a alguns metros as costas dele, a voz fraca chama a atenção de todos.

Ele está ouvindo fantasmas agora, é o que pensa ao ouvir a voz ofegante, baixa e arrastada de Ivan atrás dele. Os olhos de todos, no entanto, se arregalam quando no recinto é avistado um Ivan coberto por sangue, sujeira, feridas e inchaços, uma adaga numa mão e um arco velho noutra. Elias e o príncipe o observam como se fosse um fantasma, Fran quer ir até o amigo, mas não se atreve. Oskar está surpreso demais para se mover, sendo um pouco mais lento do que o normal.

— Filho! — O conselheiro exclama, correndo em direção ao jovem desnorteado.

O conselheiro Arlo, no entanto, não consegue ser mais rápido do que Oskar. Os movimentos do homem sequer foram percebidos pelos presentes na sala. Em um segundo, lá estava o general ao lado de Ivan. A mão de longos dedos tocam ligeiramente o queixo dele, o fazendo olhar para cima.

O mesmo que lhe chamou o nome agora pouco não tem o mesmo brilho nos olhos do que saiu de sua casa para estar com o príncipe. Arlo fica perplexo por um momento enquanto observa a forma como o general fita seu filho. O sentimento ali é óbvio para todos que queiram admirar, invejar ou odiar.

Arlo aperta as mãos ossudas, com raiva tenta em vão afastar aquele homem de perto do seu filho.

— Deixe-o!

— Pai. — Ivan pede, o rapaz está quase sem forças.

— Olhe para seu estado! Precisa de um médico imediatamente. — insiste o homem muito agitado.

— Eu mesmo tratarei dele. — garante Oskar, novamente assumindo as rédeas da situação.

— Quem pensa que é?

— General Oskar, não está sendo egoísta privando um pai dos cuidados do próprio filho? Temos o melhor médico da região, e creio que melhores condições de cuidar do jovem Ivan. 

Ainda assim, Oskar se recusa a se afastar, ou até mesmo deixar que Ivan se afaste. Não há essa vontade por parte do outro de todo modo.

— Ivan, venha. — Arlo estica o braço, a preocupação é genuína, embora não soe nenhum pouco paternal. — Vamos cuidar dos seus ferimentos.

Completamente esgotado, física e mentalmente, Ivan não quer lidar com nada complicado agora. E diante dele, está o seu pai complicado, um príncipe ganancioso complicado, e até mesmo o complicado homem que ele ama. Mas, essa complicação ele é capaz de ignorar pelas horas seguintes.

— Eu agradeço, mas prefiro ir com ele agora. — A voz quase nem sai, mas ele se esforça para falar. — Falamos mais tarde.

Ivan mal se mantém de pé, falar parece difícil. Na verdade, parte dele nem acredita como está vivo, ou de pé. Não há nada que ele precisa mais agora do que descanso e algum conforto. Isso, ele pode ter nos braços do seu amante. O resto, seria lidado mais tarde. Oskar controla o impulso de carregar nos braços o quase desacordado Ivan, e começa a ajudá-lo a ir embora. Os outros só o seguem.

— Me ausento por algumas poucas semanas, e aqui se torna um circo?

— Vossa majestade!

O rei com a aparência bastante pálida e tossindo um pouco, em suas vestes de descanso aparece acompanhado de uma jovem dama de cabelos ruivos, que parecia o ajudar a se manter de pé, seja por necessidade, ou comodidade. 

O rei se aproxima de todos, o olhar é severo e julgador.

— Pai.

— Fico um pouco afastado e todos resolvem ignorar minha existência!?

— Apenas não quis preocupá-lo, meu pai.

— E acha que eu sou cego e surdo?

Jamir fica com raiva da resposta do pai que sempre o privilegiou por ser o único filho, mas agora o repreende, mas guarda a raiva. Afinal, ainda há um rei nesse reino e não é Jamir.

— Perdão, pai.

O rei olha torto para seu filho.

— Mais tarde, conversaremos sobre seu comportamento inadequado.

Contrariado, Jamir só abaixa a cabeça, embora os olhos brilhem em raiva. O rei, então, direciona a sua raiva ao conselheiro. O dedo longo do rei é apontado na direção deste.

— E você? Para que me serve além de me trazer problemas? É um inútil que deixa o príncipe pisar em sua cabeça, e ainda com um filho que só arranja problemas para meu reinado. Deveria manter enforcar vocês dois.

— Me perdoe, senhor, mas o príncipe insistiu que...

— Não importa o que ele insistiu, ou não. Aonde está sua lealdade? Enquanto eu estiver vivo, eu sou o rei! Eu! — O rei gritou, a voz alterada custou uma tosse rouca.

— Certamente, vossa majestade.

— Sua incompetência é gritante, deveria te rebaixar a lavador de pratos. Talvez, assim faça um bom serviço.

Não importa quão humilhado Arlo esteja, sem escolha, ele só abaixa a cabeça e aceita as ofensas.

O tão irritado rei agora se direciona ao seu terceiro alvo. Andando vários passos até Oskar, ele o encara. O rei é um pouco mais baixo do que o general, e a diferença de idade, e compostura quase fazem qualquer confundir quem é o verdadeiro rei ali. Oskar age protetoramente ao institivamente esconder Ivan atrás de si. O jovem se apoia nas costas dele para se manter de pé.

— E você... quanta ingratidão. Te acolhi no meu reino, te dei o cargo de Vizir e tudo o que ganho é um risco iminente ao meu reinado e a minha família?

— Eu fiz tudo o que estava ao meu alcance, senhor.

— Que tipo general você é? Um aprendiz qualquer é que tem que matar um simples selvagem ferido. E ainda por cima, me causa toda essa algazarra, andando por ai como se fosse dono de tudo. Minha bondade para você tem limites, general.

O rei se afasta, as mãos estão as costas, e ele roda Oskar com arrogância.

— Se quer pode proteger um pupilo, como acha que pode proteger a Cidadela?! Estou começando a achar que os rumores sobre você são falsos. Não vejo o grande general que me apresentaram. Na verdade, estou começando a pensar que você não passa de um verme a ser esmagado.

Ivan aperta as vestes de Oskar. É tão humilhante e agoniante ter que vê-lo ser humilhado assim e não poder dizer nada. Oskar engole toda as ofensas inexpressivamente. Na verdade, nesse momento, ele sequer se importa com seu próprio ego.

— Posso te dizer que estou cercado por vermes. — O rei para na frente do general mais uma vez. — Eu te acolhi para que protegesse minha cidade, trabalhasse para mim, e não para que inimigos seus me batessem a porta.

— Sinto muito pelo ocorrido, senhor.

O rei se afasta. Oskar não faz questão de olhar, mas se o fizesse, veria o triunfo no rosto do príncipe e até do conselheiro Arlo que esquecera a preocupação com o filho por esse segundo. O prazer de ver seu inimigo humilhado lhe amaciou bem o ego.

— Já que obviamente não me vale todas as riquezas que tenho gastado contigo, de agora em diante, pagará o triplo de impostos, como todos na cidade.

— Como quiser, majestade.

O rei não está satisfeito. Geralmente, há uma certa graça em humilhar os outros, seja o medo, ou a raiva. Já esse é tão inexpressivo quanto uma pedra. O rei logo perde o interesse e sua raiva também se dissipa. Ele anda até a moça que lhe dá o braço novamente. 

O rei dá uma última olhada em Oskar e lhe diz ameaçador:

— Cuide bem dos seus passos, General. Se acontecer de novo, vou mandar executar você e todos que você protege.

O rei se retira após sua ameaça.

— Oskar... — Ivan o chama preocupado. No fim, ele ainda causa problemas a outro, mesmo sem querer.

— Vamos cuidar de suas feridas primeiro. — Oskar o interrompe. Ivan está vivo, e pela primeira vez, nada mais importa a não ser esse fato.

Elias que observava toda a cena em completa revolta, direcionando seu olhar de ódio a direção do ferido e quase desmaiado Ivan. O que se passa na mente dele é sombrio, mas mantém segredo absoluto.

— Elias, traga Oya para mim.

O tenente demora alguns segundos a mais para responder, e quando o faz é com completo desgosto.

— Sim.

— Mande Tiara buscar a médica. — ordena a outro.

— Sim.

Ivan mal se aguenta, Oskar esquece do decoro e o coloca sobre suas costas, o levando embora consigo. O conselheiro Arlo está preocupado com o jovem filho e ao mesmo tempo, triunfante. Fran que ficou parado esse tempo é ordenado.

— Vá com eles e me dê notícias.

— Sim, senhor.

Fran os segue tão silenciosamente como esteve todo esse tempo.

O conselheiro olha de soslaio para o príncipe e então, se retira. O que ele viu a pouco ainda o deixa pensativo. O rumo que as coisas estavam tomando não era bom, provavelmente deixar que aquele estrangeiro salvasse Ivan tenha sido um grande erro. Agora, seu bom filho estava arrastando o nome da família para a lama e ainda colocando um alvo nas costas a todo momento. Aquilo precisava acabar.



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...