1. Spirit Fanfics >
  2. Five Night at Freddy's >
  3. A Cerimônia

História Five Night at Freddy's - Capítulo 8


Escrita por:


Notas do Autor


Oiiiiii
Boa leitura 💋
Capítulo revisado ✅

Capítulo 8 - A Cerimônia


Fanfic / Fanfiction Five Night at Freddy's - Capítulo 8 - A Cerimônia

POU. POU. POU.

Jimin acordou assustado, desorientado. Alguém batia na porta, tentando arrombá-la.

- Ah, pelo amor de Deus - resmungou Yoongi, mal-humorado, e Jimin piscou e se sentou na cama.

Certo. O hotel. Hurricane. Alguém estava batendo à porta. Enquanto Yoongi ia atender, Jimin se levantou e conferiu o relógio. Eram dez da manhã. Olhou pela janela para o novo dia. Seu sono tinha sido pior do que de costume, não por causa de pesadelos, mas sonhos sombrios que ele não foi capaz lembrar com clareza, imagens que ficaram gravadas lá no fundo de sua mente, que ele não conseguia capturar.

- Jiminiiiiieeeeeee! - deram um grito estridente.

Quando abriu a porta, foi capturado em um abraço, os braços fortes de Seokjin o espremendo como um tronco. Jimin retribuiu o abraço, que acabou saindo mais forte do que planejara. Jin se afastou, abrindo um sorriso. Os ânimos dele sempre foram tão intensos que contagiavam quem quer que cruzasse seu caminho. Quando estava melancólico, era como se uma mortalha caísse sobre os amigos e o sol se escondesse atrás de uma nuvem. Quando estava feliz, como naquele momento, era impossível evitar a explosão de alegria. Ficava constantemente sem fôlego, um pouco disperso, sempre parecia estar atrasado, embora na verdade nunca estivesse. Jin usava uma blusa larga vermelho-escura que lhe caía bem, realçando a pele clara e os cabelos castanho-escuros.

Foi com ele que Jimin mais manteve contato. Era o tipo de pessoa que facilitava a comunicação, ainda que a distância. Mesmo quando criança, sempre enviava cartas e cartões-postais, e não desistia ainda que Jimin não respondesse algumas vezes. Jin era um garoto otimista e presumia que todos gostavam dele, a menos que deixassem claro que não, com algum comentário impróprio. Jimin admirava isso no amigo - embora não fosse tímido, ele se perguntava o tempo todo: Será que fulano gosta de mim? Ou está apenas sendo educado? Como as pessoas sabem a diferença? Jin fora vistá-lo uma vez, quando tinham doze anos.  Encantou tia Ye e fez amizade com seus colegas da escola em tempo recorde, mas sempre deixando bem claro que era amigo de Jimin e que estava ali por causa dele.

Enquanto Jin observava Jimin, como se tentasse identificar as diferenças entre o garoto do presente e a versão da última vez em que se viram, seu sorriso ficou sério.

- Você continua pequeno. - Pegou as mãos de Jimin. - E está magro demais. Você não come, não?

Ele as soltou e seguiu avaliando o quarto de hotel com desconfiança, como se não estivesse muito certo do que se tratava.

- É a suíte de luxo - disse Yoongi, o rosto impassível, enquanto procurava algo na bolsa.

O amigo estava descabelado, e Jimin escondeu um sorriso. Era bom ver algo em Yoongi fora do lugar pelo menos uma vez na vida. O garoto encontrou a escova e a ergueu, triunfante.

- Ha! Toma essa, frizz matinal!

- Entra - convidou Jimin, se dando conta de que Jin e ele continuavam plantados no corredor.

Jin assentiu.

- Um segundinho só. JOONG! - gritou para trás. Ninguém apareceu. - Kim Seokjoong!

Um menininho entrou, marchando. Era baixo e magro, mais moreno do que o irmão. A camiseta do Batman e o short preto eram largos para o seu tamanho. Os cabelos eram cortados rente à cabeça, e ele estava todo sujo de terra.

- Você estava brincando na rua? - perguntou Seokjin.

- Não?

- Estava, sim. Não faz isso. Vai acabar morrendo, e a omma vai colocar a culpa em mim. Entra. 

Seokjin empurrou o irmão mais novo para dentro do quarto e balançou a cabeça.

- Com quantos anos você está agora? - indagou Jimin. 

- Onze - respondeu Joong.

O menino foi até a televisão e começou a mexer nos botões.

- Joong, para com isso - ordenou Jin. - Vai brincar com seus bonequinhos.

- Não sou mais criança - retrucou ele. - Além do mais, ficaram todos no carro. - Mas o menino se afastou do aparelho e foi olhar pela janela.

Jin esfregou os olhos.

- Nós acabamos de chegar. Tivemos que sair às seis da manhã, e alguém - disse ele, em um tom acusatório, lançando um olhar para o irmão por cima do ombro - não parava de mexer no rádio. Estou tão exausto.

Não aparentava, mas é que Jin nunca parecia cansado mesmo. Sempre que dormiam na casa de alguém. Jimin lembrava de vê-lo pulando feito doido enquanto todos os outros se preparavam para ir para a cama. E então do nada o menino caía no sono, que nem um personagem de desenho animado que tinha sido golpeado na cabeça com um rolo de macarrão.

- A gente devia começar a se arrumar - disse Yoongi. - Combinamos de nos encontrar com os meninos na lanchonete daqui a uma hora.

- Vamos logo! - exclamou Jin. - A gente também tem que trocar de roupa. Não queria ficar todo sujo dirigindo.

- Joong,você pode ficar assistindo à TV - sugeriu Jimin, e o menino olhou para o irmão.

Jin assentiu, e ele sorriu e ligou o aparelho, começando a zapear pelos canais.

- Por favor, escolhe logo um canal - pediu Jin.

Jimin foi se arrumar no banheiro enquanto Yoongi brigava com os cabelos.



Pouco menos de uma hora mais tarde, entraram no estacionamento da lanchonete e encontraram uma vaga. Os outros já haviam chegado e ocupado a mesma mesa do dia anterior.

Ao entrar, Jin fez outro escândalo, com direito a gritinhos e abraços, só que dessa vez, em público, foi um pouco mais discreto. Ofuscado pelo entusiasmo do mais velho, Namjoon se levantou e acenou para Yoongi e Jimin, esperando que Jin se sentasse.

- E aí, gente - cumprimentou ele, enfim.

Usava uma gravata escura e um terno cinza-escuro. Era alto e forte, branco, os cabelos compridos cobrindo sua nuca; as feições delicadas e atraentes, e parecia um pouco mais velho do que o restante do grupo, apesar de não ser. Talvez fosse o terno, mas Jimin achou que tinha mais a ver com a postura: Namjoon agia como se ficasse à vontade onde quer que estivesse.

Todos tinham se arrumado mais para a cerimônia. Jin se trocara no hotel, e tanto ele quanto Yoongi estavam de terno. O de Yoongi era preto com uma camisa social branca e uma gravata preta com bolinhas brancas. O de Seokjin era todo preto com uma gravata da mesma cor. Jimin nem sequer pensara em levar um terno para a viagem e torceu para não estar parecendo deslocado em sua camisa branca e calça jeans azul clara. A camisa de gola alta que Jungkook escolhera para a ocasião era preta, e o rapaz acrescentou um blazer preto com uma calça social da mesma cor para compor o visual. Taehyung estava com uma calça solta cinza-escura, uma camisa social branca e um sobretudo da mesma cor que a calça. Sentaram-se.

- Estamos tão chiques - comentou Jin, alegre.

- Cadê o Seokjoong? - perguntou Yoongi, virando a cabeça de um lado para outro.

Jin resmungou.

- Já volto.

Ele deslizou para fora do banco e saiu depressa pela frente da lanchonete.

- Namjoon, como anda a vida? - perguntou Jimin.

Ele abriu um sorriso largo.

- Namjoon vai para uma das faculdades mais prestigiadas dos EUA - respondeu Taehyung pelo amigo, em tom de aprovação.

Namjoon olhou para a mesa, mas estava sorrindo.

- Eles me aceitaram antecipadamente. - Foi tudo o que disse.

- Qual faculdade? - indagou Yoongi.

- Cornell.

- Espera, como assim, você já foi aceito? - questionou Jimin. - Faculdade é um assunto só para o ano que vem. Ainda nem sei para quais vou tentar.

- Ele pulou o sexto ano - explicou Jungkook. Um brevíssimo lampejo de emoção cruzou o rosto dele, e Jimin sabia o que tinha sido. Jungkook forçou um sorriso, e o momento passou. - Parabéns - acrescentou, sem nenhum indício de que não estava sendo totalmente sincero.

Jin irrompeu lanchonete adentro, dessa vez puxando Kim Seokjoong pelo antebraço. Ele o obrigara a vestir um blazer e uma calça cáqui, embora o menino ainda estivesse com seu tênis Nike.

- Já estou indo. Para com isso - gemeu ele.

- Esse aí é o Seokjoong? - perguntou Taehyung.

- Sou eu - respondeu o menino.

- Você se lembra de mim?

- Não lembro de nenhum de vocês - retrucou Joong, sem um pingo de remorso.

- Fica sentado ali - ordenou Jin, apontando para a mesa ao lado.

- Está bem - resmungou ele.

- Jin, ele pode sentar com a gente - disse Yoongi. - Ei, Seokjoong, vem pra cá.

- Obrigado. Quero ficar aqui mesmo. - E se sentou atrás do grupo.

Tirou um videogame portátil do bolso e esqueceu o mundo à sua volta.

A garçonete foi até a mesa, e todos fizeram seus pedidos; Jin pediu que colocasse o café da manhã de Joong na conta deles.

- A gente não tem muito tempo - disse Jimin quando a comida chegou.

- Vai dar pra chegar na hora - garantiu Taehyung. - Não fica longe daqui.

Um pedacinho de comida caiu do canto da sua boca enquanto ele gesticulava para a rua.

- Você já foi visitar a cidade? - perguntou Namjoon, e Taehyung deu de ombros.

- Passo ali em frente de vez em quando. Sei que essa é uma viagem nostálgica para vocês, mas eu moro aqui. Não é como se ficasse passeando pelos lugares e relembrando a época do jardim de infância o tempo todo.

Fizeram silêncio por um momento, os bipes do jogo de Joong preenchendo o vazio.

- Ei, você sabia que o Namjoon vai para Cornell ano que vem? - comentou Yoongi.

- Sério? Você não está um pouco adiantadinho, não? - Jin brincou, e Namjoon encarou o prato.

Quando voltou a erguer a cabeça, estava um pouco corado.

- Faz tudo parte do plano quinquenal - disse ele. Todos riram, e o rubor no rosto dele ficou ainda mais forte. - É meio esquisito estar de volta - comentou, mudando de assunto de pressa.

- Acho mais esquisito ser o único que continua morando aqui - retrucou Taehyung. - Ninguém sai de Hurricane. Nunca.

- Mas será que é estranho mesmo? - indagou Yoongi, pensativo. - Os meus pais... Vocês estão lembrados, né? A minha mãe é de Nova Iorque, ela sempre brincava que queria voltar. " Quando eu voltar para Nova Iorque", mas podia muito bem ser a mesma coisa que dizer "quando eu ganhar na lotearia". Não era sério. E aí depois o Hoseok mo... Logo depois do que aconteceu, ela parou de brincar com isso, e três meses depois estava todo mundo dentro de um avião indo visitar a irmã dela no Queens, e a gente acabou nunca mais voltando. O meu avô morreu quando eu tinha nove anos, e todo mundo veio a Hurricane para o enterro, menos eu. Não queriam que eu voltasse, e, sinceramente, eu também não queria. Fiquei meio ansioso todo o tempo em que eles estiveram fora. Olhava pela janela, torcendo para que voltassem antes, como se alguma coisa ruim fosse acontecer se ficassem muito tempo aqui.

Entreolharam-se, pensativos. Jimin sabia que todos, menos Taehyung, haviam se mudado, mas nunca refletira muito sobre aquilo - as pessoas estavam sempre se mudando. Taehyung tinha razão, no entanto. Ninguém saía de Hurricane.

- A gente se mudou porque meu pai conseguiu outro emprego, no verão depois do terceiro ano do ensino fundamental - contou Jungkook. - Não tem nada de misterioso na história. Namjoon, você foi embora no meio do semestre aquele ano.

- É. Mas isso foi porque, quando os meus pais se separaram, fui morar com a minha mãe em Indianápolis. - Franziu a testa. - Mas o meu pai também saiu daqui. Hoje em dia mora em Chicago.

- Os meus pais se mandaram por causa do Hoseok - revelou Jin. Todos se viraram para ele. - Depois do que aconteceu, minha mãe não conseguia mais dormir. Ficava dizendo que os espíritos estavam vagando pela cidade, inquietos. Papai disse que ela estava sendo ridícula, mas mesmo assim demos o fora daqui o mais rápido possível. - Ele olhou para os amigos em volta. - O quê? - perguntou, na defensiva. - Não sou eu quem acredita em fantasmas.

- Eu acredito - interveio Jimin. Parecia estar falando de algum ponto muito distante, ficou quase surpreso que pudessem escutá-lo. - Tipo, não em fantasmas, mas... nas lembranças. Acho que elas ficam por aí, sempre no mesmo lugar, mesmo que não tenha mais ninguém lá. 

A casa, sua antiga casa, estava inundada de memórias, perda, anseio. Pairavam no ar feito umidade; as paredes estavam impregnadas, como se a própria madeira tivesse sido embebida naquilo. Já estavam lá antes de ele chegar e continuavam lá depois; para sempre. Tinham que estar. Era demais, vasto e pesado demais, para que Jimin levasse consigo.

- Isso não faz nenhum sentido - argumentou Yoongi. - As lembranças ficam no cérebro. Tipo, literalmente armazenadas no cérebro. Dá até para ver numa ressonância magnética. Elas não existem fora da cabeça das pessoas.

- Não sei - retrucou Jungkook. - Pensa em todos os lugares que têm uma... atmosfera. Casas antigas, às vezes, lugares onde você entra e sente tristeza ou nostalgia, mesmo sem nunca ter ido lá antes.

- Mas isso não tem nada a ver com as memórias das pessoas - contra-argumentou Namjoon. - São, tipo, sugestões inconscientes, coisas que nem nos damos conta de que estamos reparando, mas que acabam determinando como nos sentimos. Tinta descascando, mobília velha, cortina de renda, detalhes que sugerem um sentimento de nostalgia. A maior parte disso a gente tirou de filmes, provavelmente. Me perdi num parque de diversões aos quatro anos. Nunca senti tanto medo na vida, mas duvido que no geral as pessoas fiquem desesperadas e aflitas quando passam por uma roda-gigante. Não é uma reação comum.

- Pode ser que fique - retrucou Jin. - Mas não sei, às vezes tenho esses momentos em que fico achando que estou esquecendo alguma coisa, algo que me causa remorso, ou que me deixa feliz, ou até alguma coisa que me faz querer chorar, mas a sensação só dura uma fração de segundo. Depois some. Vai ver estamos todos deixando nossos medos e arrependimentos e esperanças nos lugares por onde passamos, e ao mesmo tempo vamos captando pedacinhos dos sentimentos das pessoas que nunca vimos na vida. Vai ver isso acontece o tempo inteiro.

- E qual é a diferença entre acreditar nisso e em fantasmas? - perguntou Namjoon.

- É totalmente diferente - respondeu o garoto. - Não tem nada de sobrenatural, e não estou falando, sei lá, de almas penadas. É só... a marca que as pessoas deixam no mundo.

- Então são os fantasmas dos vivos? - insistiu Namjoon.

- Não.

- O que você está dizendo é que as pessoas têm algum tipo de essência que pode ficar para trás num lugar específico mesmo depois de terem ido embora - concluiu o garoto. - É a mesma coisa que um fantasma.

- Não é nada! Não estou conseguindo me expressar direito - exclamou Jin. Fechou os olhos por um minuto, pensativo. - Ok - disse, enfim. - Vocês se lembram da minha avó?

- Eu lembro - disse Joong. - Era minha avó também.

- Exatamente. Mas, de qualquer jeito, você só tinham um ano quando ela morreu.

- Mas lembro - retrucou o menino, baixinho.

- Está bem - continuou Jin. - Então, ela colecionava bonecas desde criança. Ela e o vovô passaram a viajar muito depois que ele se aposentou, e ela trazia esses suvenires de todos os cantos do mundo: tinha boneca da França, do Egito, da Itália, do Brasil, da China, de tudo quanto é país. Ela guardava todas num quartinho lotado, prateleiras e mais prateleiras de bonecas. Algumas eram suerpequinininhas, outras deviam ter o meu tamanho. Eu adorava aquilo. Uma das primeiras lembranças que tenho é de estar brincando naquele quarto com elas. Lembro que meu pai sempre me dizia para largar as bonecas e ir brincar com carrinhos, e a minha vó ria dele, respondendo: "Brinquedos não tem gênero e foram feitos para se brincar, deixe o menino."

"Eu tinha minha favorita, uma bonequinha de uns cinquenta centímetros, cabelos vermelhos e vestidinho branco curto brilhoso, estilo Shirley Templo. Dei o nome de Hye para ela. Era da década de 1940, e eu amava aquela boneca. Contava tudo para ela e, quando me sentia sozinho, imaginava que eu estava naquele quarto, brincando com a Hye. Minha avó morreu quando eu tinha seis anos, e quando fui com o papai visitar o vovô depois do funeral, ele me disse para escolher uma boneca da coleção. Quis pegar a Hye, mas assim que entrei no quarto, senti que havia algo errado. Era como se a iluminação tivesse mudado, ficado mais escura, menos acolhedora. Olhei em volta, e as poses alegres e brincalhonas das bonecas começaram a me parecer artificiais, desconjuntadas. Como se estivessem todas me encarando. Eu não sabia mais o que elas queriam. A Hye estava num canto, e dei um passo naquela direção, mas parei. Olhei nos olhos da boneca e, em vez de vidro pintado, vi uma estranha. Virei e fui embora correndo. Passei às pressas pelo corredor como se alguma coisa estivesse me perseguindo, sem olhar para trás, até voltar para o meu pai. Ele perguntou se eu já tinha escolhido, e balancei a cabeça. Nunca mais entrei naquele quarto.

Todos fizeram silêncio. Jimin estava em transe, ainda visualizando o pequeno Jin correndo, desesperado.

- O que aconteceu com as bonecas? - perguntou Taehyung, quebrando apenas parte do encanto.

- Nem sei. Acho que a mamãe vendeu tudo para outro colecionador depois que o vovô morreu.

- Desculpa, Jin - disse Namjoon -, mas isso foi só uma peça que a sua mente pregou em você. Estava sentindo saudade da sua avó, estava com medo da morte, e bonecas já são bizarras por natureza.

Jimin interrompeu, querendo colocar um ponto final na discussão.

- Todo mundo já acabou de comer? A gente tem que sair daqui a pouco.

- Ainda tem bastante tempo - retrucou Taehyung, olhando para o relógio. - A escola fica a cinco minutos daqui.

Algo mais caiu da boca dele, indo parar ao lado do primeiro pedacinho de comida cuspido.

Jungkook olhou ao redor da mesa, de um amigo para outro, como se estivesse esperando algo.

- A gente tem que contar para eles - disse, olhando para Jimin.

- Ah, é, pode crer! - concordou Yoongi.

- Contar o quê? - intrometeu-se Joong, espiando por trás do assento de Jin.

- Shhh - fez o irmão, sem muita energia por trás da reprimenda. Estava encarando Jungkook. - Contar o quê? 

O garoto baixou o tom de voz, forçando todos a se debruçarem na mesa. Jimin se aproximou também, ansioso por ouvir, embora já soubesse o que iria dizer.

- A gente foi na Freddy's ontem à noite.

- A Freddy's continua lá?  - exclamou Jin, alto demais.

- Shhhh! - fez Yoongi, balançando a mão freneticamente.

- Foi mal - sussurrou Jin. - É só que não dá para acreditar que a pizzaria continua lá, no mesmo lugar.

- Não continua - retrucou Taehyung, erguendo as sobrancelhas e abrindo um sorriso enigmático para Namjoon.

- Está escondida agora - explicou Jungkook. - Era para terem demolido tudo e construído um shopping, mas não fizeram isso. Acabaram construindo... Meio que em volta dela. Basicamente, sepultaram a pizzaria.

- E vocês entraram mesmo assim? - perguntou Namjoon. Quando Jimin assentiu, ele exclamou: - Vocês estão de brincadeira!

- Como é que estava lá dentro? - perguntou Jin.

- Tudo igualzinho - respondeu Jungkook. - Mas era como...

- Era como se todo mundo tivesse evaporado - completou Jimin, baixinho.

- Quero ir também! Vocês têm que levar a gente lá! - gritou Jin.

Yoongi pigarreou, hesitante, e todos olharam para ele.

- Não sei, não - disse, devagar. - Tipo, hoje? Será? 

- A gente tem que ir - reforçou Namjoon. - Vocês não podem contar uma coisa dessas e depois não deixar a gente ir lá ver também. 

- Quero ir - intrometeu-se Seokjoong outra vez. - O que é a Freddy's?

Todos ignoraram o menino. Os olhos dele estavam arregalados, prestando atenção a cada palavra.

- O Yoongi pode ter razão - disse Jungkook com relutância. - Ir hoje pode ser um pouco desrespeitoso da nossa parte.

Houve um momento de silêncio, e Jimin sabia que estavam todos esperando que ele se pronunciasse. Era ele quem tinham medo de ofender: precisavam de sua permissão.

- Acho que a gente devia ir, sim. Não acho que seja desrespeito. É quase um jeito de prestar uma homenagem... ao que aconteceu.

Jimin olhou ao redor da mesa. Yoongi assentia. Seu argumento não lhe parecia muito persuasivo, mas os outros não precisavam ser convencidos. O que queriam era uma desculpa.

Jin se virou para verificar o estado do prato do irmão.

- Já acabou de comer?

- Já - respondeu ele.

Jin apontou para o videogame.

- Você sabe que não vai poder ficar jogando durante a cerimônia, né?

- Sei.

- É sério, Joong. Vai ter que deixar isso no carro.

- Por que você não me deixa no carro também? - respondeu o menino.

- Eu adoraria - retrucou Jin entredentes ao se virar de novo para o grupo. - Ok, a gente já pode ir.

O grupo seguiu para o antigo colégio em uma caravana de automóveis: os garotos no de Taehyung, Jin logo depois, e Jimin por último.

- A gente devia ter combinado de ir só em dois carros - comentou Yoongi, distraído, olhando pela janela.

A ideia não tinha ocorrido à Jimin.

- Devia mesmo.

- Por outro lado, não sei se ia querer ficar com Jin e o Seokjoong - afirmou Yoongi.

- É, eles são bem intensos - concordou Jimin.

Quando chegaram, o estacionamento já estava lotado. Jimin deixou o carro em uma rua próxima, onde torceu para que fosse permitido parar, e seguiram para a escola por uma calçada que lhes era familiar.

Yoongi sentiu um calafrio.

- Estou todo arrepiado.

- É estranho voltar aqui - concordou Jimin.

O colégio parecia igual por fora, mas a cerca era nova e lustrosa, de ferro com revestimento de plástico preto. A cidade inteira era daquele jeito, uma mistura de velho com novo, uma coisa familiar e desconhecida ao mesmo tempo. O que havia mudado parecia deslocado, e o que tinha permanecido igual fazia com que Jimin, por sua vez, se sentisse deslocado. Deve ser tão estranho para Taehyung continuar aqui, pensou. "Sei que esta é uma viagem nostálgica para vocês, mas eu moro aqui", dissera ele. Por algum motivo, Jimin não tinha certeza de que acreditava naquilo.

Quando chegaram ao campo de atividades esportivas atrás da escola, as arquibancadas já estavam cheias. Fileiras de cadeiras dobráveis tinham sido colocadas na grama para abrir novos lugares, e Jimin avistou Jin e os garotos nas duas primeiras.

- Ah, maravilha! Não quero ficar sentado na frente.

- Não me importo - respondeu Yongi, e Jimin olhou para ele

Claro que não, foi o que teve vontade de dizer. Você é... você. Mas acabou falando:

- É, não tem problema. Metade da cidade deve ter vindo - observou enquanto seguiam para se juntar ao grupo, que tinha reservado dois lugares. Um deles ficava na primeira fila, ao lado de Taehyung, e o outro ficava logo atrás, ao lado de Seokjin. Yoongi piscou para Jimin e escolheu se sentar ao lado do Taehyung. Inclinou-se na direção dele, e os dois começaram a cochichar. Jimin repetiu o que dissera a Yoongi, só que dessa vez para Jin: - Tem um monte de gente aqui hoje.

- É - concordou o amigo. - Sabe como é, cidade pequena... E o que aconteceu com Hoseok... Foi chocante. Além disso, os pais dele continuam morando aqui. As pessoas lembram.

- As pessoas lembram - repetiu Jimin, baixinho.

Havia um pequeno palco montado diante deles, com um púlpito e quatro cadeiras. Atrás delas havia um telão suspenso, onde estava projetada uma fotografia imensa de Hoseok. A imagem mostrava bem o rosto dele. Não era das mais bonitas: a cabeça estava inclinada para trás em um ângulo estranho, a boca aberta no meio de uma gargalhada, mas era perfeita. Um momento de alegria, capturado na hora exata e conservado, autêntico. Ele parecia feliz.

- Droga - disse Jin, baixinho.

Jimin olhou para o amigo. Estava secando os olhos com um lenço de papel. Jimin passou o braço pelos ombros dele.

- Eu sei.

A caixa de som deu sinais de vida com um guincho repentino que foi se esvaindo aos poucos. Quatro pessoas subiram ao palco: um homem robusto de terno, que foi diretamente para o microfone, uma senhora e um casal. O homem de terno parou diante do púlpito, e a senhora foi se sentar em uma das quatro cadeiras. O casal se afastou um pouco do tablado mas continuou de pé. Jimin sabia que deviam ser os pais de Hoseok, mas não os reconheceu. Quando criança, eles eram só "pais", uma espécie desinteressante de modo geral. Ele se deu conta de que nem sequer sabia os nomes deles; os pais de Hoseok jamais fizeram esforço para interagir com os amigos do filho, e Jimin literalmente se dirigia a eles como "mãe do Hoseok" e "pai do Hoseok", como se fossem formas de tratamento adequadas.

O homem ao microfone se apresentou como o diretor da escola. Disse algumas palavras sobre a perda e comunidade e a preciosidade fugaz da juventude. Falou brevemente da bondade de Hoseok, em todos que conheceu. Era verdade, refletiu Jimin. Hoseok fora uma criança excepcionalmente carismática. Não era bem o líder da turma, mas todos se viam sempre querendo agradá-lo, fazê-lo sorrir, e com frequência davam o que o menino queria apenas para deixá-lo feliz.

O diretor concluiu seu discurso e apresentou os pais de Hoseok, o casal Jung. Foram até o púlpito um tanto sem jeito, ambos olhando para o rosto de cada um na plateia, como se não soubessem ao certo como tinham chegado ali. A esposa, enfim, deu um passo à frente.

- É estranho estar aqui em cima. - Foi a primeira coisa que ela disse, e a plateia se manifestou concordando, mas sem fazer estardalhaço. - Somos muito gratos a vocês por terem vindo aqui hoje, mais ainda aos que vieram de outras cidades. - Olhou para a primeira fileira, se dirigindo a Jimin e aos outros. - Alguns dos amigos de Hoseok vieram de vários lugares diferentes, e acho que isso é uma prova de como ele era querido. Mesmo dez anos depois, todos já tomaram novos rumos, passaram para um novo estágio... - Tão próximo do palco, Jimin via que a mulher estava prestes a chorar, as lágrimas marejando seus olhos, mas sua voz permaneceu firme: - Agradecemos a presença de vocês aqui hoje e pedimos que entendam a ausência de minha filha mais velha, Dowon, nesta cerimônia, não está sendo fácil para nenhum de nós. Queríamos dar ao Hoseok um legado com esta bolsa, mas está claro que ele mesmo já deixou por conta própria.

Jin segurou a mão de Jimin.

- Você lembra da Dowon? - perguntou o menino.

- Não muito. Mas acho que ela já tinha doze anos na época, então, agora, ela deve ter vinte e dois anos, se eu não me engano, ela é cinco anos mais velha que a gente. - Respondeu o menor, logo tendo a atenção voltada a mulher no palco.

- Eu queria dizer - continuou a senhora - algumas coisas sobre as famílias que não estão aqui. Como sabemos, Hoseok não foi a única criança que perdemos naqueles meses terríveis. - Leu mais quatro nomes, o de duas meninas e dois meninos.

Jimin olhou de relance para Jin. Sabiam que houvera outros, mas a morte de Hoseok teve um efeito tão devastador na vida deles que nunca sequer tinham falado sobre as outras vítimas. Jimin sentiu uma pontada de culpa. Para alguém, aquelas crianças tinham sido tão vitais quanto Hoseok. Para alguém, aquelas perdas significavam o fim do mundo. Fechou os olhos por um instante. Não posso lamentar a morte de todos, pensou. Ninguém pode.

A mulher ainda falava:

- Embora as famílias tenham se mudado, essas crianças ocuparão para sempre um lugar em nossos corações. Agora, eu gostaria de dar a palavra a um jovem rapaz que era muito próximo do meu filho. Taehyung, poderia vir aqui?

Todos observaram, surpresos, Taehyung levantar e subir ao palco, parando diante do púlpito. A mãe de Hoseok lhe deu um abraço apertado e permaneceu perto do garoto, que tirou do bolso um pedacinho de papel amassado. Pigarreou, olhando para os rostos na plateia, depois voltou a fazer uma bolinha com o papel e o guardou.

- Não me lembro tanto do Hoseok quanto gostaria - começou, enfim. - Muita coisa daqueles anos são um borrão para mim. Sei que a gente se conheceu quando ainda usava fralda, mas por sorte não me lembro dessa parte. - Risinhos contidos percorreram a multidão. - O que sei é que, das lembranças que tenho, Hoseok está em todas. Lembro que a gente brincava de super-herói, desenhava e dançava, o que ele fazia muito melhor do que eu, e quando fomos ficando mais velhos, lembro... Bom, a gente continuou brincando de super-herói, desenhando e dançando. Mas se tem uma coisa que não esqueço é que meus dias eram sempre mais empolgantes quando ele estava comigo. Hoseok era mais esperto do que eu. Era sempre ele que vinha com as ideias novas, sempre inventava uma maneira diferente de nos colocar em encrenca. Aliás, desculpa por aquelas lâmpadas, senhora Do. Se eu tivesse pulado do jeito que Hoseok me disse para pular, provavelmente só teria quebrado uma.

O pai de Hoseok riu, um som engasgado e desesperado. Jimin se mexeu, desconfortável, em sua cadeira e largou a mão de Seokjin tentando se desculpar com um meio sorriso. Assistir àqueles pais expondo seu sofrimento daquela forma era difícil demais. Estavam em carne viva, uma ferida aberta, e ele não suportava olhar.

Taehyung desceu do palco e se sentou com os amigos. A avó de Hoseok falou, depois o pai, que tinha se recomposto o suficiente para compartilhar a lembrança de levar o filho à sua primeira aula  dança. Falou sobre a bolsa de estudos, que seria destinado a um formando que tivesse demonstrado tanta excelência acadêmica quanto paixão pela dança e arte, e anunciou a primeira subsidiada, Anne Park, uma jovem magrinha e delicada que subiu depressa ao palco para aceitar a placa e os abraços dos pais de Hoseok. Devia ter sido estranho para Anne, pensou Jimin, receber aquela honra tão ofuscada pelo motivo daquilo tudo. Mas, então, entendeu : a garota também devia ter conhecido Hoseok, mesmo que só de vista.

Após a cerimônia, foram todos cumprimentar os pais de Hoseok, abraçando e dizendo  palavras de condolência. O que se diz a alguém que perdeu um filho? O tempo pode mesmo facilitar as coisas? Uma década faz diferença, ou eles acordam todas as manhãs sentindo a mesma dor que no dia em que ele desapareceu? Em uma longa mesa de refeitório ao lado do palco, aos poucos se formava uma pilha de fotografias e cartões - as pessoas tinham trazido flores, mensagens para os pais de Hoseok ou até mesmo para o próprio menino. Lembranças, palavras que desejavam ter dito a ele. Jimin se aproximou e passou os olhos pela mesa. Havia fotografias dele e dos outros, e, claro, de Hoseok. Não devia ter sido uma surpresa - estavam sempre juntos: um grande grupo, ou em dupla e trios. Em uma delas, estava fazendo pose com Hoseok e Jungkook, todos cobertos de lama, com Yoongi um pouco afastados deles e, como sempre, a imagem da perfeição, limpinho, mantendo distância dos amigos. Jimin sorriu. Essa foto diz tudo. Em outro retrato, o pequeno Jin com cinco anos se esforçava para aguentar o peso do irmão recém-nascido, Namjoon espiando, desconfiado, por cima do ombro dele, a coisinha estranha nos braços do amigo. Alguns dos desenhos de Hoseok estavam expostos também, rabiscos de lápis de cera destoando da moldura profissional.

Jimin pegou um deles. Interpretou como o desenho de um tiranossauro esmagando a cidade. Notou, admirado, que o talento do menino era mesmo incrível. Enquanto o resto do grupo desenhava bonequinhos de palito, a arte de Hoseok era realista, ou quase isso.

- Bem bonito esse - disse Jungkook por cima do ombro do menor.

Jimin deu um pulinho.

- Você me assustou.

- Foi mal.

Jimin voltou a contemplar o desenho. O que quer que fosse, era melhor do que ele seria capaz de fazer ali, aos dezessete anos.

Sentiu um aperto no peito, uma mistura de perda e ira. Não era apenas a morte prematura de Hoseok - era o significado real daquilo: tinha sido impedido de viver, anos, décadas de vida foram arrancados dele. Jimin se sentiu tomado por uma indignação juvenil, como se tivesse voltado a ser criança, querendo fazer birra: não é justo!

Respirando fundo, ele recolocou a ilustração de volta no lugar e se virou. A reunião continuava, mas Jimin precisava ir embora. Encarou Jin, e o jovem, como sempre assustadoramente intuitivo e sensível, assentiu e puxou a manga de Namjoon. De suas várias posições estratégicas, os adolescentes  rumaram em direção ao estacionamento. Ninguém pareceu notar que eles estavam indo embora, o que era compreensível. Com exceção de Taehyung, eram todos estranhos ali.


Notas Finais


Mortalha: É basicamente um tecido fino que se coloca em cima dos cadáveres.
Kim SeokJoong é o irmão mais velho
do Jin.

Espero que tenham gostado 😄
Eu fiquei fucking 3 DIAS escrevendo essa bagaça por que o Spirit não tava salvando. Tive que escrever 2 vezes do começo 😭
Bom, muitos 💋s, abraços e 🍞s pra vcs.


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...