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História Flames - Capítulo 2


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Capítulo 2 - Capítulo 2


Defronte ao colégio onde a garota entrou, tudo o que conseguia pensar era sobre como ela conseguia me ver. Só poderia ser capaz através de magia. Sem peônias, poucos feiticeiros são capazes de utilizar seus poderes, e nada além da pura natureza possui magia. A garota teria nascido com ela ou encontrado uma forma de utilizá-la sem ser uma feiticeira?

Espere, existem filhos mestiços. Os piores, as aberrações. Filhos de feiticeiros e humanos. Alguns não possuíam a essência de um feiticeiro, mas era capaz de utilizar magia. Quando nós encontramos uma dessas crianças, aprisionamos. A existência delas só irá destruir o que restou de nós, por isso é tão perigosa. Mesmo tendo essa possibilidade, se a garota fosse uma mestiça, eu saberia. Eles nunca passavam dos quatro anos fora das prisões. E aquela ruiva era completamente normal.

Só restou uma teoria mais plausível. Ela era humana e tinha alguma relação com magia.

Não vou negar que eu detestei entrar naquele ambiente que mais parecia um zoológico que uma escola. Crianças e adolescentes corriam de um lado para o outro, conversando alto e fofocando.

A ruiva não parecia se incomodar com elas. Estava concentrada demais em alguma coisa para notar o quão barulhento o local estava ao redor.

Recuei para as sombras das árvores. Ela era capaz de me ver, então somente estando nas sombras dificultaria a garota de me perceber. Essa era uma das vantagens dos feiticeiros. Com ou sem a magia da invisibilidade na qual estamos fadados a morrer, quando estamos nas sombras, as pessoas não prestam atenção em nós, embora continuemos ali.

A ruiva parou a alguns metros de distância, olhando ao redor.

— Fran! — um sorriso de orelha a orelha surgiu no rosto da garota, que pulou ao encontro dos braços de um homem moreno e alto.

Ele era familiar. O rapaz era menor que eu, no entanto, e a marca de nascença na bochecha era uma característica pertinente de uma certa família inimiga. Sim, os Galvão. Exatamente. Aquela família dona do supermercado possui essa característica. Poderia ser apenas uma coincidência infeliz, embora houvesse mais quatro membros daquele núcleo com uma marca similar do mesmo lado do rosto.

Suspirei.

Estava tirando o foco do que realmente importava: observar a ruiva.

Ela ficou na ponta do pé, beijando a bochecha do rapaz.

— Senti saudades! Como foi a viagem?

— Foi ótima — o homem ajeitou mechas vermelhas que caíam à frente do rosto de leite da garota. — Embora eu tenha sentido sua falta.

O rosto dela copiou a cor dos cabelos.

— Não diga isso — a menina recuou, ajustando a alça da mochila. — Bem, eu o vejo após a aula então.

Ele fez que sim, deixando-a após um sorriso.

Estremeci. Humanos eram tão... humanos. Se o garoto era um Galvão, ele não seria poupado da vingança de meus pais. Pensando bem, era melhor fazer isso agora. Ele não parecia nada amigável.

A ruiva o observou partir, e eu esperei até que ela se afastasse da multidão. Não havia mais nada de extraordinário para ver. Ela cumprimentou outras duas garotas e sentou-se para assistir à aula de História — o que me fez querer partir a professora em dois pedaços, pois a aula era totalmente baseada em falsos registros.

Olhei para o relógio. Estava atrasado para a tarefa que foi designada a mim. Eles eram meticulosos quanto ao horário, e eu havia passado quase quarenta minutos do combinado. Bernardo saberia e ele viria atrás de mim.

Ninguém poderia saber da garota, não até que eu comprovasse a utilidade dela. Eles iriam temer o quão perigosa a ruiva poderia ser e a matá-la-iam.

 

Assim que cheguei ao supermercado, misturei-me com as sombras para não correr o risco de ser visto por outra pessoa como aquela menina.

Fogo não era bem a minha especialidade ou a forma pela qual eu gostava de agir, porém era um requisito de Cláudio Moura — o nome brasileiro de meu pai, um dos líderes dos Fulton e o melhor dos feiticeiros, não sendo suspeito de falar sobre isso —, cujo louvor pelas labaredas era embasado nas caças aos feiticeiros da Idade Média. Segundo ele, queria devolver tudo o que fizeram a nós.

Observei o gerador, batendo as mãos encardidas pela sujeira. Franzi o rosto. O cheiro era terrível ali embaixo. Parecia que os ratos dali tinham sido mortos e apresentados como uma oferenda malfeita.

— Bando de porcos.

Cuspi para o lado, deixando o subsolo do mercado. Em pouco tempo aquele lugar seria queimado e o prejuízo seria considerável.

Olhei sobre os ombros para o gerador que agora estava condenado a falhar. Condenado, assim como nós, à morte. Eu não poderia deixar aquilo acontecer sem uma marca que dissesse aos Galvão que o autor daquilo era a gente.

Um sorriso impensado perpassou meus lábios, fazendo minha musculatura do rosto doer. Eu deveria praticar sorrisos outras vezes.

Caminhei para a loja, amaciando as bochechas.

Contei as primeiras pessoas que vi. Seis, no total, naquela ala. Dois açougueiros, um casal, um faxineiro e um homem repondo refrigerantes de latas nas prateleiras. Idiotas, todos eles. Ignoram o que veem ao redor e depois dizem que são bons, que são humanos. Pouco importava se eles morreriam ali.

Virei meu rosto em direção a outro rapaz trabalhador.

Eu já o vira uma vez. Não iria esquecer-me dele. O nariz torto e o queixo com uma enorme cicatriz eram traços inconfundíveis.

Esgueirei-me ao açougue, roubando uma das facas de corte. Ninguém notou uma faca saindo sozinha.

Deixei um riso escapar.

Tolos, tolos.

Provavelmente a faca estaria oculta agora. Graças ao feitiço de invisibilidade, objetos acabam tornando-se parte de nós se os segurarmos por um tempo, então são invisíveis aos olhos humanos de modo igual. Era um destino desditoso que eu iria mudar.

Sopesei a faca, com uma careta por conta do sangue da carne na lâmina.

Dei de ombros. Iria servir, não?

Puxei o homem da cicatriz pela gola da camisa. Um grito de confusão ecoou dele. Precisei fazer força para não o deixar escapar. O homem era um javali selvagem. Poderia terminar tudo com um golpe no pescoço dele, mas desejava que ele estivesse vivo para relatar como algo no ar fez aquilo a ele.

Ele debateu-se. Pressionei o cabo da faca e passei-a pelas costas dele, rasgando roupa e pele.

Galvão entenderia quando visse Fulton gravado.

O grito dele atraiu funcionários e clientes confusos. O sangue escorreu pelas costas e em minhas mãos. Soltei o homem e deixei a faca cair. Os humanos correram na direção dele, que já estava ajoelhado e gritando de dor, tentando tocar nas costas feridas.

Fulton.

Clap, clap, clap.

Ah, droga. Aquilo só poderia ser de uma pessoa.

Crispei os ombros, caminhando na direção do homem encostado em uma prateleira a três metros de mim.

Bernardo esbanjava um sorriso irritante para mim. Como sempre, lá estava ele de branco — calça e blusas brancas demais, como se ele fosse um anjinho. Ah, combinava com os cabelos cacheados dele. Nós somos loiros, mas ele puxou o tom de ouro de nossa mãe, afinal, e os olhos cinzentos. A única diferença é que Bernardo tinha a altura de nossa mãe, uns cinco centímetros menor que eu, embora ele fosse dois anos mais velho que eu.

— Não se contentaria em causar uma explosão, certo? — afastou-se da prateleira de molhos de tomate.

— Do que adiantaria explodir o gerador deles? — isso me lembrou que a máquina estava engatilhada e falharia a qualquer momento. — Vamos.

De longe, observando o fogo consumir grande parte do mercado. Como esperado, alguns clientes se feriram. E até o momento, alguns funcionários não foram encontrados. Os bombeiros chegaram, tentando controlar as chamas revoltas e a nuvem negra.

— Parabéns — pronunciou Bernardo, meia-hora depois do gerador falhar.

— Você poderia ter feito isso — repliquei, encarando as mãos ensanguentadas. — Dê-me sua blusa, vai combinar com esse tom de vermelho — ergui a palma para ele, sem me importar se estava rindo ou não.

Bernardo conteve um sorriso.

— Estava ocupado com algo mais importantes.

Olhei-o como se tivesse acabado de comer um limão azedo.

— Isso fere a minha honra.

Não que eu realmente ligasse para isso. No fundo, seria melhor ter recebido uma missão que requeresse algo mais de mim. Eu sou bom, consigo lidar com magia, coisa rara para muitos feiticeiros da minha geração. Por que era Bernardo quem deveria completar as outras tarefas?

Ele recuou até uma sombra. Antes de pisar nela, murmurou:

— Você estava atrasado.

— Que bom que consegue perceber o tempo — respondi o mais rápido possível antes de ele ir embora.



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