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História Flames - Capítulo 5


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Capítulo 5 - Capítulo 5


A almôndega que Bernardo preparava não era a melhor de todas. O cheiro, sem dúvidas, era a única coisa positiva daquele prato. Divino, com uma mistura dos temperos que ele usou. Mas cortar cada pedacinho da almôndega parecia como tentar quebrar um osso. Cozinhar não era para ele. Deveria ser proibido Bernardo chegar na cozinha e pegar os ingredientes para preparar algo louco.

Encarei o rosto esperançoso de Bernardo.

O cheiro e o gosto do sangue daquele humano idiota continuava impregnados em mim. Comi pimenta para tentar arrancar aquela podridão que parecia morar em meu estômago. Pode ser que a almôndega de pedra funcionasse melhor.

Antes de deixarmos ele morrer na sala subterrânea, Leonardo disse apenas mais uma informação sobre o bebê que procuram: era uma criança que estava condenada à morte pela magia das peônias. Bom, ele nem precisava dizer isso. Nenhum humano sobreviveria muitos anos após consumir nossa flor, então a mãe e o bebê já deveriam estar mortos à essa hora.

Suspirei, largando o garfo e a faca com um ruído estridente no prato.

— Por que você insiste nisso? É horrível.

Bernardo desmanchou o sorriso, estalando a língua.

— Estou tentando.

— Você é velho o suficiente para saber cozinhar uma carne decente.

Ele semicerrou os olhos, como se aquilo fosse me intimidar.

Agucei meus ouvidos. Sons de saltos finos contra a madeira tornavam-se mais claros e altos. Ajeitei minha postura, deixando o lado da ilha e esperando minha mãe se aproximar da entrada da cozinha.

Ela não tardou em se aproximar. Olhava-nos de cima a baixo, pensando em algo muito sério. Com certeza era como estávamos desempenhando. Minha mãe, Áurea Moura, era de quem eu puxara os cabelos loiros, embora seus olhos fossem negros como corvo — assustadores quando ela queria. Minha mãe usava seu vestido vinho, que caía ao joelho e demonstrava mais o corpo que ela conservava do que eu ou meu pai gostaríamos, já que ela continuava linda e consideravelmente jovem, com pouquíssimos sinais da idade. Sem as peônias, nós estávamos condenados a envelhecer quase no mesmo ritmo que humanos. Os lábios tingidos de vermelho ergueram-se em um sorriso orgulhoso conforme ela descruzava o braço.

Seu olhar alcançou os de Bernardo.

— Você deve falar com seu pai — anunciou nossa mãe. — Haverá uma ida à Europa para encontrar a criança. Precisamos colocar as mãos nela antes dos religiosos. Ela é a nossa única chance de recuperarmos as peônias. Então você irá encontra-la, roubar seu sangue e matá-la.

Sempre ele! É claro que tinha de ser Bernardo. Apesar de ele ser velho e ter alguma experiência com as missões da família, ele não era tão bom quanto eu. Mesmo nosso líder concordava com isso! Por que tinham de enviar alguém como meu irmão para a missão, não eu? Em questão de tarefas, eu já completei mais do que Bernardo e com mais precisão. Não era justo eu ficar ali à toa.

Nossa mãe olhou para mim.

— Não fique irritado. Bernardo é o melhor para essa tarefa.

Soltei todo meu ar inconscientemente.

— Não estou irritado — menti, fazendo o melhor para convencê-la disso. — Eu apenas penso que você deveria ter indicado alguém mais competente que Bernardo. Talvez o Michel, filho dos Ventura. Ele é o melhor do Rio de Janeiro, não?

Como se eu acreditasse nisso, claro, mas ela confiava cegamente que Michel — meu único amigo — era o mais perfeito dos feiticeiros nascidos no Rio de Janeiro. Ele era bom, muito bom, mas não o melhor.

Áurea pressionou os lábios, cruzando os braços e deixando-nos quietos por alguns segundos.

— Muito bem.

— Minha mãe — chamou Bernardo, desfazendo a pose de futuro “chefe de família” —, não acredite nele. Maël só está com ciúmes. Ele nunca é enviado para fora do Estado.

Lancei um olhar inquisidor ao meu irmão.

— Michel é bom em magia, mas ele é irresponsável e sentimental demais. Não conseguiria matar uma criança. Sabe que ele sempre evita missões que envolvam os filhotes de humanos.

Ela ergueu uma das sobrancelhas claras e perfeitamente desenhadas.

— Nada mudaria minha decisão. Você, Desmond Fulton, irá representar nossa família nessa missão. Como se eu fosse enviar a cria de outro feiticeiro que defende... humanos — nojo era evidente quando pronunciou a última palavra.

Áurea não disse mais nada, apenas deu às costas e foi-se encontrar com nosso pai.

Só então é que senti meu corpo zunindo como se eu tivesse acabado de ser eletrocutado.

— Álvaro — Bernardo virou-se para mim quando nossa mãe estava distante demais para nos ouvir —, você está com ciúmes. É infantil demais isso.

— Cuide de sua própria vida — cuspi essas palavras sem me preocupar com minha expressão facial.

Apressei os passos em direção à saída dos fundos. Não ficaria mais um minuto sequer lá dentro.

Qual é o propósito de enviar Bernardo em uma missão dessas? Ele tinha um péssimo hábito de deixar as tarefas para depois, embora apresentasse aquela postura pomposa. Eu sabia que ele preferia feiticeiras e bebidas às missões. Feiticeiras eram perda de tempo quando tínhamos de recuperar a honra de nossa família e nos vingar daqueles alienados, enquanto bebidas eram suficientes para alguns momentos, como uma comemoração.

Ergui meu olhar, vendo Michel caminhando em minha direção gesticulando com as mãos.

— Não venha — ordenei. — Quero ficar sozinho.

Ele parou, hesitante. Não olhei para trás.

O caminho que escolhi levava-me à praça do bairro. Estava escurecendo, o vento tornava-se frio cada minuto mais. Algumas pessoas caminhavam e bebiam, rindo de idiotices.

Suspirei.

Meu corpo ainda estava elétrico, pedindo para surrar alguém. Que seja! Que Bernardo fracasse e meus pais vejam quem ele realmente é nessas horas. Não me importo com isso. Só tenho um foco agora. É melhor realmente não ir à Europa.

Desviei de uma criança correndo com sorvete. Cessei meus passos, acompanhando a trilha da menininha.

Ergui meu olhar aos poucos até encarar a figura de cabelos avermelhados à minha frente.

Emília encarava-me sem cor no rosto. As amigas dela estavam ao lado, encarando a garota pálida.

— Que houve, Mimi?

— N-nada — ela engoliu em seco, sorrindo. — É que eu me lembrei que esqueci o feijão ligado — riu sem graça.

Que desculpa esfarrapada.

Balancei a cabeça. Ouvi conversas alheias ao meu lado. Eram quatro homens discutindo sobre jogos de futebol enquanto bebiam sem controle.

Abri minhas palmas das mãos. Havia algo que eu queria testar. Provavelmente me deixaria de cama por um tempo, mas valeria à pena.

Aproximei-me dos quatro, erguendo uma das mãos na direção do cimento.

Terra. Terra era difícil de manipular quando se tem pouca magia nos dias atuais, mas essa era a diversão. Por que usar algo fácil como a água?

A energia borbulhando começou a diminuir. Ela concentrou-se nas minhas mãos. O chão tremeu sob meus pés. A energia dentro de mim escapou. Dei um passo para trás, observando os homens erguerem-se com olhos arregalados. Pequenas rachaduras surgiam ao redor deles. O chão parecia rugir. Eu conseguia sentir a energia da Terra.

A garrafa de bebida caiu ao chão. Vidro se espalhou pelo cimento. As cadeiras tremiam. As rachaduras aumentavam e...

Fogo atingiu minhas costas.

— MERDA!

Pisei para o lado imediatamente. As costas queimavam. Perdi o fôlego, caindo sobre o chão. Respirar era difícil. Meus pulmões não se expandiam totalmente. Tossi, tateando minhas costas e sentindo o tecido parcialmente queimado.

Ergui meu olhar para os tênis à minha frente.

Apoiei-me sobre os joelhos, encontrando os olhos brilhantes de raiva de Emília. Aquela humana infeliz tinha me tocado para me queimar de propósito!

Eu vou matá-la. Dane-se meu plano!

Cerrei meus punhos, ignorando a dor que corroía meus pulmões. Ela iria queimar no fogo mais puro quando eu encontrasse as merdas das peônias!



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