História Flares - Capítulo 36


Escrita por:

Postado
Categorias Supergirl
Tags Dor, Drama, Kara Danvers, Lena Luthor, Sofrimento, Supercorp, Supergirl
Visualizações 318
Palavras 5.442
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Aventura, Famí­lia, LGBT, Literatura Feminina, Mistério, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Yuri (Lésbica)
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Hey! Voltei!
Bom, não vou delongar demais aqui. Eu escrevi esse cap e ele não saiu bem como eu queria, porque existem fatos que eu quero abordar e que precisavam ser introduzidos novamente aqui. Então, alguns outros momentos terão que esperar.
Obrigada a todos que comentaram e deixaram favs <3 Vcs sao demais!!

boa leitura!

Capítulo 36 - Capítulo 35


“Há uma tempestade se formando e eu estou no meio disso tudo. E isso toma o controle da pessoa que eu pensei ser, da garota que eu costumava conhecer. Há uma luz na escuridão e eu sinto seu calor em minhas mãos, em meu coração. Isso vem e vai em ondas; é sempre assim. Nós assistimos enquanto nossos jovens corações desapareciam na inundação.”

Lena Luthor

Acordei com a luz do sol se esgueirando pelas frestas da cortina. Kara continuava adormecida e nada no mundo conseguia me transmitir mais paz do que vê-la ali com a respiração calma e o rosto relaxado. Tinha sido um dia difícil, uma noite horrível, mas nós tínhamos que encontrar um equilíbrio para o que viria a seguir. Meu coração ainda lateja quando penso em cada palavra que ouvi e em cada verdade que foi posta a minha frente. Tudo tinha desmoronado em tão pouco tempo, com tão poucas palavras. A montanha russa de sentimentos que enfrentei e que ainda vou enfrentar vai fazer com que muita coisa se torne mais palpável para mim, inclusive o fato de que minha filha estava viva.

Eu sequer consigo colocar o que sinto em forma de frase. Quatro anos e eu velei a morte dela, quatro anos e eu deixei seu quarto intacto, quatro anos e eu visitei todos os domingos seu túmulo vazio. A sensação é de que nada fez sentido e tudo foi em vão. Querendo ou não é como se eu tivesse enfrentando um sentimento de perda novamente, a perda da estabilidade emocional que conquistei, a perda da minha rotina e a perda do controle que eu tinha sobre cada fato da minha vida. Não é que eu não esteja feliz e aliviada por saber a verdade, por poder ter a minha filha de volta, mas ainda sim eu sinto como se os quatro anos que se passaram fossem apagados e tirados de mim de forma brusca. Como se nunca tivessem me pertencido.

Não, não será nada fácil daqui para frente e eu sei que tanto eu quanto Kara teremos muito o que conversar e ajustar. Espero apenas que sejamos fortes o suficiente para aguentar. Não consigo imaginar uma vida onde eu tenha que abdicar de alguém que amo, não agora e nem nunca; nem de novo.

Me aproximei mais do corpo de Kara e inalei seu perfume adocicado, deixando que cada partícula daquela fragrância invadisse meus pulmões. Como se conseguisse me sentir, ela me puxou para um abraço e escondeu o rosto no meu pescoço. Era sim todas as manhãs. Afaguei seus cabelos embaraçados por terem ficados úmidos a noite toda e suspirei aliviada por saber que a loira continuava ali comigo, que ela não tinha ido embora. Kara gemeu baixinho ao sentir meus dedos acariciarem seu couro cabeludo e soltou uma lufada de ar quente, me fazendo arrepiar.

─ Bom dia ─ sussurrei.

─ Hummm ─ murmurou ─ bom dia ─ se afastou apenas para me encarar. Seus olhos tão azuis ainda estava opacos, com todas as cores ainda turvas e as bolsas negras ainda presentes ─ você ainda está aqui…

─ Eu ainda estou ─ confirmei sorrindo.

─ Me desculpe.

─ Pelo o que? ─ franzi o cenho.

─ Por tudo isso ─ suspirou, deixando todas suas inseguranças transparecerem ali ─ queria poder fazer mais.

─ Kara ─ coloquei minha mão sobre sua bochecha ─ você faz o suficiente. Eu não preciso de mais ou de menos, preciso apenas de você ─ ela concordou ainda temerosa e eu pressionei nossos lábios, sentindo falta do seu gosto misturado ao meu.

─ Que horas são?

─ Não sei, mas acho que temos que descer e buscar as crianças ─ observei Kara ficar pensativa por alguns segundos ─ algum problema?

─ Não ─ mentiu. Eu sabia que ela estava mentindo ─ quero dizer… talvez?

─ Tenho certeza que tem algo te incomodando ─ suspirei ─ é sobre a Alex, não é?  ─ ela assentiu que sim. Ambas nos levantamos e começamos a recolher nossas roupas. Sorte a nossa que tanto eu quanto ela tínhamos roupas a mais na mansão.

─ É só que… eu estou chateada ─ confessou enquanto me ajudava com o fecho do sutiã.

─ Com o que exatamente? ─ ela se virou de costas e deixou que eu ajustasse seu sutiã.

─ Ela agiu pelas minhas costas, Lena ─ bufou ─ ela podia ter me contado, podia ter pelo menos conversado comigo e pedido a minha permissão. Eu podia ter te perdido, eu podia perder a Elisa, podia perder a minha família e Alex sequer pensou nisso ─ seus olhos marejaram ─ se eu te perdesse… ─ suspirou ─ Alex não estava lidando com uma informação simples, com algo cotidiano. Era a minha vida! A minha família! Eu já perdi muito… muito mesmo.

─ E como você se sente sobre isso? ─ segurei em seus braços carinhosamente.

─ Me sinto traída ─ confessou amargamente ─ me sinto deixada de lado pela única pessoa que eu pensei que faria isso. Estou com raiva, chateada e decepcionada ─ pela primeira ela falava o que sentia em voz alta e eu estava orgulhosa daquilo.

─ Você tem todo o direito de se sentir assim, sunshine ─ pontuei ─ e o que você sente não muda o fato de que Alex é sua irmã e de que você a ama, mesmo estando chateada.

─ Não sei o que fazer ─ murmurou.

─ Primeiro, se permita sentir ─ sorri ao me lembrar do que ela mesma me disse tempos atrás ─ um pessoa me disse que a vida não tem muita graça se a gente não se permite sentir ─ seu olhar encontrou com o meu e ela sorriu aliviada e encantada.

─ Essa pessoa não sabia muito o que estava dizendo.

─ Está me dizendo que ela me enganou? ─ arqueei a sobrancelha. Kara meneou a cabeça negativamente e riu de si mesma ─ foi o que pensei. Agora, pense no que eu vou te falar ─ ela me encarou atenta ─ sua irmã não agiu por mal. Sim, eu sei que te fez mal, mas não era a intenção dela e caso você não diga como isso te chateou ela jamais vai adivinhar. Às vezes coisas ruins acontecem, a gente se magoa com alguém e espera que essa pessoa simplesmente leia nossos pensamentos porque nós mesmos não queremos falar. Mas não é assim. Alex te ama e fez o que achou que era melhor, mesmo errando. E sei que ela está tão frustrada consigo mesma quanto você está com ela.

─ Você acha?

─ Eu tenho certeza ─ confirmei ─ durante toda a minha vida eu quis ter um irmão ou irmã que pudesse sair em minha defesa sempre que eu me metesse em problemas. Infelizmente ou não, nunca tive essa oportunidade, apesar de ter sentido algo assim uma vez no passado ─ eu não queria tocar no nome dela, não ali e nem agora. Isso era uma história que nunca tive a oportunidade ou vontade de contar.

─ Com a Diana? ─ Kara perguntou com cuidado e minha única reação foi suspirar. Eu confirmei que sim.

─ Como sabe?

─ A Diana uma vez mencionou sobre ter se apaixonado por você e depois a Sara me disse que vocês tiveram uma amizade, até que tudo… enfim ─ bufou ─ o que realmente aconteceu?

─ Ela se apaixonou ─ respirei fundo ─ e eu não pude… ou não consegui retribuir. Nunca me senti dessa forma com ela, entende? Nós éramos amigas, eu achei que finalmente tinha encontrado alguém em quem eu pudesse confiar, conversar e simplesmente passar o tempo. Diana era como… era como uma irmã para mim.

─ Talvez ela também se sentisse assim, mas tenha confundido os sentimentos.

─ Talvez ─ sentei sobre a cama, me perdendo em pensamentos ─ eu sempre senti essa conexão estranha entre nós duas, como se a gente pudesse se compreender até mesmo sem falar nada. Mas tudo acabou quando ela confessou que estava apaixonada por mim…

─ Sente falta dela? ─ perguntou ainda cuidadosa com as palavras ─ digo… falta de conversar e essas coisas.

─ Estaria mentindo se dissesse que não ─ confessei ─, mas não posso dizer que quero perdoá-la pelo o que fez com a Sam e também com a Alex.

Kara concordou comigo e também ficou pensativa. O silêncio imperou entre nós por alguns minutos, até que ela retornou a falar.

─ O que faremos agora? ─ essa era uma pergunta que rondava minha cabeça desde a madrugada. O que exatamente nós faríamos? ─ sua mãe… ela parecia ter um objetivo, como se tivesse planejado tudo. Ou talvez eu esteja louca ─ bufou.

─ Minha mãe é capaz de qualquer coisa ─ murmurei tristemente ─ quando ajudei Diana a descobrir sobre sua mãe verdadeira, o que não deu muito certo, acabei descobrindo algumas coisas ─ Kara franziu o cenho ─ Lilian é capaz de qualquer coisa ─ repeti ─ e tenho certeza que ela pensa que se saiu bem sucedida do que fez ontem.

─ E o que acontece agora?

─ Nós não podemos deixar que ela faça isso de novo ─ pontuei ─ não podemos estar despreparadas. Minha mãe vai me procurar de novo, vai querer saber o resto da história que ela mesma está controlando e se souber que tudo deu errado…

─ Ela não… ela não faria nada… bom, nada fora do normal ─ meu corpo inteiro arrepiou-se ao imaginar do que minha mãe seria capaz e um súbito mal estar me fez sentir enjoada ─ certo?

─ Sim, ela faria ─ murmurei ─ Lilian não pode saber o que vamos fazer. Temos que nos mudar.

─ Como é que é? ─ seus olhos se arregalaram.

─ Minha mãe sabe onde eu moro e onde você mora, ela pode aparecer a qualquer momento e só de pensar que nossos filhos ficam desprotegidos eu sequer consigo responder por mim ─ minha voz soava bem mais desesperada do que eu imaginava.

Nossos ─ ela repetiu baixinho ─ e você… você quer eu vá? Digo, eu sei que praticamente temos morado juntas, mas isso… isso é diferente. Quero dizer, tudo bem para você?

─ Eu preciso de você ─ suspirei, sentindo o peso de toda aquela situação cair sobre meus ombros novamente. Kara me abraçou forte, beijou meus cabelos e eu firmei meus braços ao redor da sua cintura. Era o lugar onde eu me sentia segura.

─ Eu te amo, cherry pie ─ sussurrou ─ nós vamos conseguir.

***

Após sairmos da mansão ainda em silêncio ─ parando apenas para agradecer a Sara por tudo e dizer que ficaríamos bem ─ Kara foi para seu apartamento, depois de eu seriamente insistir que tirasse o dia de folga. Confirmei que iria buscar as crianças e deixá-las na casa da Astra, onde eu aproveitaria para conversar sobre seu súbito desaparecimento. Astra era como uma mãe para mim, uma que realmente me amava e fazia questão de ser carinhosa. Se hoje eu sei como ser mãe devo isso totalmente a ela.

Assim que Sam abriu a porta para mim, ela me abraçou forte e sequer deixou eu respirar direito. Não a culpo, eu teria agido da mesma forma se estivesse no seu lugar. Obviamente que minha amiga queria conversar, queria saber do que tinha acontecido e isso demoraria demais. Sem contar que logo atrás dela surgiu dois pequenos furacões agitados vestindo pijamas iguais.

─ Mama!

─ Mamãe!

Me agachei para abraçá-lo e tive que me policiar para não chorar mais uma vez. Eles eram meus e estavam juntos. Não havia mais aquele sentimento de vazio no meu peito, não havia mais aquele buraco que sempre me sugava para dentro e isso era extremamente libertador.

Beijei cada um e eles sorriram para mim, com aquela cara de sapeca que só aqueles dois sabiam fazer.

─ Se comportaram com a tia Sam e a tia Alex? ─ perguntei e eles confirmaram que sim ─ eu estava com saudade.

─ Mama eu posso ir no seu tlabalho hoje? ─ Elisa fez um bico igualzinho o da Kara, impressionante.

─ Trabalho, querida ─ a corrigi ─ e hoje não posso te levar, mas prometo que levo outro dia e aí o Josh também vai. Agora peguem seus brinquedos e calcem os sapatos, precisamos ir para casa.

─ De pijama, mamãe? ─ Josh perguntou curiosos. Realmente, eu sempre pedia para que ele trocasse de roupa pela manhã.

─ Hoje é o dia do pijama então não precisa trocar ─ Josh e Elisa pularam empolgados e correram para o corredor. Sam e Alex me encaravam sorrindo.

─ Como você está? ─ Alex me abraçou e eu apenas sussurrei um “vou ficar bem” ─ e a Kara? Onde ela está?

─ Fique tranquila, eu a mandei para casa e pedi que tirasse o dia para descansar ─ respondi.

─ Eu preciso ir vê-la ─ a ruiva falou apressadamente e eu segurei em seu braço pensando em como diria a ela para ter calma.

─ Alex, acho que agora não seria um bom momento ─ recebi um olhar triste, fazendo meu coração se contorcer um pouco com aquela preocupação que escapava de seus olhos ─ apenas a deixe ter um tempo sozinha, ela vai te procurar. Eu prometo.

─ Mama! ─ Elisa nos interrompeu gritando ─ me ajuda no banheilo!

─ Eu ajudo! ─ Josh gritou de algum lugar do corredor.

─ Você não! Você é um bebê! ─ a pequena gritou de volta, nos fazendo rir ─ Mama! ─ sorri ternamente para a ruiva antes de seguir para o corredor. Aquela situação estava acabando com todas nós.

***

Liguei para Astra no caminho e perguntei se haveria algum problema em deixar as crianças na casa dela. Se eu bem me lembro, sua casa era ainda era grande e tinha um jardim imenso de margaridas e plumérias, um que eu particularmente amava. Astra aceitou tranquilamente e pediu para que eu apenas levasse os brinquedos, afinal isso ela não tinha. Elisa e Josh estava no banco de trás e cantavam animados a música que tocava no rádio. Acho que fui sorrindo o caminho inteiro enquanto escorriam algumas lágrimas. Essa era a minha vida agora e parecia surreal.

Quando chegamos, Elisa correu para o colo de Astra e Josh grudou em sua perna. Não adiantou nem eu pedir para que eles não fizessem esse tipo de coisa, era tarde demais. Depois dos cumprimentos, Astra e eu entramos, depois que pedi a ela para conversarmos. Observei sua sala de estar e tudo continuava do mesmo jeito de antes, as mobílias, as fotos, os enfeites sobre as estantes e sobre a mesa de centro. A casa ainda tinha inclusive o mesmo cheiro, o que me trazia muitas lembranças boas.

─ Alguma coisa errada, minha querida? ─ Astra nos levou até a varanda dos fundos, onde havia uma pequena mesa de madeira e um conjunto de chá sobre ela ─ sente-se, eu vou servir.

─ Fiquei preocupada ─ confessei sincera ─ você nunca foi de sumir assim. Quando aconteceu pensei apenas no pior, me desculpe.

─ Não precisa se desculpar ─ sorriu carinhosamente e me estendeu a xícara de porcelana ─ as coisas ficaram… meio complicadas.

─ O que houve? ─ Astra riu baixo, me fazendo corar.

─ Você sempre foi uma garotinha curiosa ─ pontuou e eu ri sem graça.

─ E levei muitas punições por isso.

─ Você era apenas uma criança e sua… a Lilian sempre teve métodos nada amorosos para te educar ─ pontuou ─, mas caso você não fosse curiosa, não teria se tornado uma grande cientista. A ciência precisa de pessoas curiosas.

─ Então vai me contar? ─ insisti ainda corada. Maldita curiosidade.

─ Minha irmã voltou ─ ok, isso me pegou de surpresa ─ sim, eu também fiz essa cara.

─ Pensei que ela estivesse longe…

─ Eu também, mas aparentemente ela não estava e simplesmente resolveu aparecer aqui ─ seu olhar estava preocupado e Astra suspirou cansada ─ Alura tem um passado complicado e isso custou muitas coisas em sua vida.

─ É algo perigoso? ─ ela segurou em minhas mãos, como se lesse minha preocupação com as crianças.

─ Não se preocupe, não é nada do que está pensando ─ afirmou ─ ela apenas está constantemente fugindo do passado, não porque tenha uma escolha e sim porque alguém está sempre a lembrando do que tem que cumprir.

─ Eu não consigo entender ─ bufei ─ o que exatamente ela fez?

─ Só posso dizer que Alura se envolveu com o homem errado ─ ouvimos alguns passos e então eu me virei para a porta atrás de mim.

Meus olhos encontraram uma mulher alta, de cabelos castanhos e olhos azuis. Sua beleza era diferente, mas me lembrava muito a de Astra. Ela parecia bem mais nova, talvez a idade de minha mãe e seu sorriso era incrivelmente encantador. Seu olhar me encarava com um mistura de espanto e carinho, algo que não entendi.

─ Alura, pedi que ficasse em seu quarto ─ Astra resmungou e se levantou para puxar a irmã.

─ Eu estava no meu quarto, mas ele foi invadido por duas crianças ─ sorriu divertida ─ eles queriam me mostrar o que tinham feito na sala e eu apenas obedeci.

─ Me perdoe por isso ─ falei sem graça ─ vou conversar com Elisa e Joshua antes de sair ─ me levantei, mas Alura ficou a minha frente e segurou meus ombros.

─ Não há razão para fazer tal coisa, não se preocupe, Lena ─ algo em seus olhos me assustava e fazia meu coração acelerar. A forma como pronunciou meu nome me causou um frio na barriga.

─ Sabe quem eu sou? ─ arqueei a sobrancelha.

─ Astra me falou muito sobre você ─ finalmente soltou meus ombros ─ eu jamais esqueceria esses olhos verdes.

─ Ok, agora volte para o seu quarto, por favor ─ Astra novamente a puxou e ela sumiu no corredor, me deixando intrigada com sua reação. Ela me lembrava alguém.

Alguns minutos depois Astra  estava de volta.

─ Me desculpe por isso, querida ─ sorriu ─ as coisas estão um pouco confusas para minha irmã.

─ Não, não precisa se desculpar ─ falei após sair de um transe ─ eu preciso ir de qualquer forma, tenho uma reunião importante.

─ Toma cuidado naqueles laboratórios, por favor ─ me alertou ao sairmos pela porta da sala ─ e não esqueça de se alimentar.

─ Eu prometo que tomarei cuidado e que me alimentarei ─ beijei sua bochecha e então nos despedimos.

***

Imra estava me esperando para rodarmos a quinta fase dos nossos testes e, até agora, tínhamos falhado apenas em um deles e sucedido nos outros quatro, o que era um ótimo resultado. Sam não pode descer conosco dessa vez para o laboratório, seu setor na Luthor-Corp estava em reunião de final de mês e, como ela é a chefe, tinha que receber todos os relatórios e escutar tanto as reclamações como também as sugestões. Sendo sincera, era bem raro quando alguém reclamava de algo para ela, afinal Sam sempre fora muito atenciosa, carinhosa e simpática. Minha amiga se preocupava com cada um, sabendo o nome de cada subordinado seu e sobre coisas básicas de suas famílias; apenas o suficiente para mandar Bryan para casa mais cedo no aniversário de sua filha ou para dizer para Gus não esquecer de levar flores no final de semana para a namorada que morava em Metrópolis.

Após concluirmos a série de experimentos necessárias para rodar o teste, Imra e eu pedimos para os técnicos observarem cada passo e nos chamar caso fosse preciso. Não posso mentir, queria que tudo desse certo o mais rápido possível. Imra me acalmou o caminho todo, dizendo que estávamos no rumo certo e que ela estava fazendo cada análise minuciosamente. Nunca duvidei da capacidade da morena, ela era firme em suas decisões e palavras, era inteligente e sempre estava disposta a ouvir; algo difícil de encontrar hoje em dia.

Obviamente que ela percebeu meu cansaço naquele dia e eu apenas resumi ─ cortando alguns fatos ─ o que tinha acontecido. Imra me lançou aquele olhar de mãe e pediu para eu ir para casa ficar com Kara, achou até engraçado o fato de eu ter pedido para minha namorada descansar enquanto eu trabalhava, sendo que eu precisava do mesmo. No entanto eu não conseguiria ficar sem fazer nada o dia todo, certamente que minha mente ficaria ruminando cada palavra dita no dia anterior, cada verdade e cada medo. Não, eu não conseguiria, precisava ocupar minha cabeça com outras coisas.

─ Senhorita Luthor ─ Jess apareceu em minha porta, parecia um pouco assustada ─ a senhora…

─ Jess, não há motivo para me anunciar ─ ouvi aquela voz conhecida e meu coração acelerou. Certo, Lena, mantenha a calma ─ sua secretária é sempre mal educada assim? ─ resmungou e eu acenei para Jess sair. Ela não precisava e nem merecia ficar recebendo insultos.

─ O que veio fazer aqui? ─ arqueei a sobrancelha e Lilian apenas sorriu.

─ Não posso vir saber como minha filha está? ─ tentei respirar fundo ─ eu me preocupo.

─ Ambas sabemos que isso não é verdade ─ pontuei ─ o que quer? Seja breve, tenho uma reunião em meia hora.

─ Veja a mulher que se tornou e ia perder tudo isso ficando com aquela enfermeira ─ sua voz era ríspida e seca ─ eu fiz o que tinha que ser feito e espero que você não tenha sido enganada novamente, seria extremamente estúpido da sua parte. Eu não te eduquei para ser estúpida.

─ O que eu faço ou deixo de fazer diz respeito apenas a mim ─ minha voz não saía tão firme quanto eu queria.

─ Oras, Lena ─ ela se sentou a minha frente, colocando a bolsa sobre minha mesa ─ você sempre teve esse lado emotivo, o qual te faz esquecer que você precisa racionalizar tudo a sua volta. Sentimentos não vão te levar a lugar algum, sempre repeti isso quando…

─ Quando me deixava de castigo por horas ou dias no meu quarto ─ a interrompi, sentindo a raiva me tomar naquele momento ─ quando me dizia que eu não valia a pena o esforço, que eu jamais seria uma mulher forte e bem sucedida.

─ Fiz isso pelo seu bem, fiz isso porque te amo.

─ Já pode parar de mentir, mãe ─ ri irônica ─ se eu ainda tivesse nove anos de idade, talvez eu acreditasse e lutasse com todas as minhas forças para ser aceita pela senhora. Porém eu não sou mais uma criança e isso não vai acontecer.

─ Aí está a mulher que eu criei ─ falou contente ─ você não é tão diferente de mim. Me diga, o que resolveu fazer com a enfermeira e aquela criança?

─ Aquela criança é minha filha ─ falei firme ─ e ela tem um nome.

─ Não me importa, precisa que eu demita Kara Danvers e contrate outra? ─ meu coração quase parou de bater com aquela ideia. Kara precisava do emprego, precisava trabalhar e ficaria arrasada caso perdesse aquele trabalho ─ seria o certo a se fazer.

─ Achei que não misturasse problemas pessoais com profissionais, Lilian ─ retruquei e ela arqueou a sobrancelha, me fazendo arrepiar ─ não precisamos tomar tais medidas. Ka- ─ pigarreei ─ a senhorita Danvers pode continuar no seu posto de enfermeira chefe e isso não vai afetar em nada nas minhas decisões.

─ Eu consigo ver a Luthor que está se tornando ─ comentou satisfeita ─, mas devo te alertar a algo. Não acho prudente da sua parte assumir aquela… criança, não seria bom para sua imagem e nem para a Luthor-Corp ─ novamente eu senti raiva e tive que me controlar para não estragar tudo ─ seu pequeno bastardo já está como herdeiro único de todo esse império, algo que eu não concordo, e caso você assuma e registre aquela menina, tudo vai ser dividido com ela ─ era impressionante como sua preocupação sempre era sobre imagem e dinheiro ─ convenhamos, ninguém aqui na empresa quer isso.

─ Ninguém aqui tem que querer nada, eu sou a CEO e eu tomo as minhas decisões ─ respira. Tenho que me lembrar de respirar.

─ Lena você tem tanto potencial ─ continuou, como se eu tivesse ficado calada ─ e poderia dar um herdeiro digno para nossa empresa, alguém que possa realmente tomar conta de tudo o que construímos.

─ De tudo o que meu pai construío.

─ Seu pai não é um santo ─ falou com remorso, um que eu nunca havia reparado. Seus olhos se encheram de raiva e uma dor desconhecida.

─ Não, ele não é, mas também não é um monstro ─ afirmei ─ e vamos superar esse assunto, mãe. Eu não posso mais engravidar.

Houve um silêncio da parte dela e eu achei que ela sequer tinha me ouvido. Mas aparentemente Lilian estava apenas tentando processar aquela novidade.

─ Como? ─ sorri vitoriosa.

─ Foi o que ouviu ─ não iria repetir, não sou mulher de repetir ─ agora, por favor, eu preciso voltar ao trabalho.

***

Diana Prince

─ Você está bem? ─ Imra me encarou da porta de seu apartamento e franziu o cenho.

─ Posso entrar? ─ meu nervosismo estava me corroendo. Ela me deu espaço para passar e eu rumei direto para a sala. Depois de vir aqui algumas vezes, tudo já me era familiar. Não, não tínhamos transado ou qualquer coisa assim. Imra havia se tornado uma amiga, algo que eu já não sabia o que significava e nem sabia mais como lidar.

─ Diana, se acalme ─ ela segurou em meu braço ─ porque está tão nervosa?

─ Eu procurei a Maggie ─ falei rapidamente e esperei pela sua reação. Para minha surpresa, ela não reagiu como pensei que faria.

─ E o que aconteceu? Pelo visto você só ficou pior que antes ─ me puxou para o sofá e eu bufei mais nervosa ainda. Me joguei sobre as almofadas e fechei os olhos, tentando me acalmar.

─ Ela teve o primeiro encontro com o advogado da esposa ou ex esposa, não sei ─ suspirei ─, mas Maggie disse que não vai assinar nada, que quer continuar casada e que eu devia superar o fato de que fui apenas a amante. 

─ Essa Maggie tem um ponto ─ arregalei os olhos espantada ─ você quer que eu minta? ─ assenti que não ─ então ótimo. Você foi a amante e continua sendo.

─ Não queria me apegar assim, mas qual o problema comigo? Qual a porra do meu problema? ─ quase gritei.

─ Seu problema é esperar que algo seja seu quando já pertence a outra pessoa ─ ela tinha razão e isso me fez sentir uma raiva imensa ─ seu problema é não construir algo seu, começar de baixo e conquistar o que quer. Você quer o que é fácil, o que te traz prazer imediato e adrenalina, convenhamos Diana, você gosta da sensação do perigo. No entanto, isso jamais vai te trazer o que quer ─ pontuou.

─ Como assim?

─ Diana, você vê o relacionamento dos outros e sente inveja, porque de alguma forma você quer estar no lugar de um deles e acha que nunca vai conseguir isso por si mesma, você não acha que merece tal afeto ─ seus olhos verdes me encaravam com intensidade e isso me assustava ─ acontece que você não é a Alex, não é a Sam e nem as outras mulheres. A forma como eu te enxergo não é a forma como outra pessoa vai te enxergar e isso serve para os sentimentos, não adianta querer que Maggie te olhe como ela olha para a Alex, porque você não é a Alex e nunca vai ser ─ aquela verdade me atingiu em cheio e eu me controlei ao máximo para não chorar ─ você quer o que não é seu, o que nunca te pertenceu e enquanto ficar insistindo nisso, nunca vai parar de doer como está doendo.

Deixei aquilo pesar nos meus pensamentos. Maggie nunca foi minha e nem nunca seria, porém foi assim desde o início. Ser amante não te garante o carinho depois do sexo, não te garante o café da manhã na cama no dia seguinte, não te garante a preocupação depois de um dia corrido e nem nada disso. No fim, era tudo… vazio. Minha vida e meu coração estavam vazios. Imra tinha razão, mas ouvir a verdade e aceitar a verdade eram coisas muito diferentes. No entanto, que escolha eu tinha?

─ Consegue entender o que eu digo?

─ Claro que consigo, não sou idiota ─ respondi e ela riu.

─ Você não é idiota, mas banca bem o papel de uma ─ me encarou. Novamente, ela tinha razão ─ saiba que não estou aqui para te julgar, estou aqui como amiga.

─ Eu sei e isso é… estranho.

─ Estranho porque? ─ perguntou franzindo o cenho.

─ Porque eu não faço a linha da amizade, eu apenas chego, transo e vou embora ─ ela não se assustou com as minhas palavras e eu fiquei de certa forma aliviada ─ geralmente não converso.

─ Podemos pular essa parte e ir transar, se preferir ─ brincou e eu rolei os olhos ─ relacionamento, seja ele amizade ou namoro, se constrói com conversa e não com sexo. É por isso que você só quebra a cara, fica mergulhando em pessoas rasas de almas vazias.

─ Detesto quando você tem razão ─ bufei.

─ Vai se acostumando, eu adoro ter razão ─ sussurrou a última parte, me fazendo arrepiar.

De repente, ouvimos o leve toque do meu celular em minha bolsa e quando vi o nome na tela, já sabia que estava com problemas. Puta que pariu, será que eu não posso ter um dia de sossego?

Aparentemente não.

***

Peguei um táxi para o lugar em que Lilian disse estar me esperando. Na ligação, ela apenas disse que precisava conversar urgentemente e que eu não iria querer perder o que ela tinha a dizer. Meu estômago se contorcia dentro de mim e eu pressentia algo ruim, muito ruim. Nada com Lilian Luthor era bom, afinal. Durante o caminho, eu pensei sobre o que Imra havia me dito e tudo ficou confuso depois que suas palavras se misturaram com a minha ansiedade momentânea. Inferno de vida.

O carro parou em frente a uma casa, num bairro afastado da cidade e eu senti calafrios percorrerem meu corpo. Tentei repetir a minha mesma que tudo ficaria bem, que seria apenas uma conversa e eu iria embora. Certo, respira.

Lilian foi quem me recebeu após eu bater na porta e ela parecia mais intimidadora que antes. A casa era antiga e parecia fechada há muitos anos, tive essa impressão principalmente ao ver os móveis cobertos com lençóis brancos e a madeira coberta de poeira. De quem seria aquela casa? Reparei em cada pedaço daquele lugar e eu não fazia ideia do que estávamos fazendo ali no meio da tarde. Era assustador e a brisa fria que entrava pela janela quebrada não me ajudava a relaxar.

─ Você realmente me surpreende ─ resmunguei nervosa ─ que inferno de lugar é esse? Puta merda, estou congelando!

─ Olha os modos ─ foi apenas o que disse e eu ri. Ela tinha mesmo dito aquilo?

─ Não é minha mãe para me dizer isso.

─ Não, mas eu sei quem ela era ─ meu coração errou a batida ─ sim, eu sei exatamente quem ela era e sei muito bem o que ela fez. Sorte a nossa ou sorte a minha, que sua querida mãe não está mais entre nós.

─ O que… o que quer dizer com isso? ─ o pânico daquelas palavras começava a me fazer pensar em correr daquele maldito lugar e nunca mais voltar. Mas por algum motivo, eu fiquei. Fiquei parada no lugar sem conseguir me mover, talvez eu quisesse saber mais sobre a minha mãe ou talvez eu apenas quisesse saber a verdade.

Mas antes que eu pudesse dizer algo, senti algo pesado me atingir na cabeça. A dor me cegou e eu senti algo quentes escorrer na minha nuca. Um gosto amargo chegou aos meus lábios quando atingi o chão e meu corpo doía, latejava com o impacto que me atingiu. Tentei olhar para cima e tudo estava embaçado.

Antes que eu apagasse completamente, ouvi apenas uma voz dizendo “ela vai me dar o que eu quero, antes que eu conte a verdade”.

E então, tudo escureceu.

 


Notas Finais


Quero alertar a vocês que o drama ainda não acabou e que talvez as coisas fiquem um pouco pesadas, mas peço que confiem em mim. Nada vai sair da coerência esperada, ok?
Deixe eu esclarecer algumas coisas:
- Kara não é adotada nessa fanfic, então Alura não é sua mãe ou qualquer outra mulher.
- Alura e Astra são irmãs, mas não gêmeas.
- Maggie ainda vai ter seu momento e o seu desfecho, ok?
É isto.
Até a próxima.


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...