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História Flor de Violeta - Capítulo 3


Escrita por: e Dattebaste


Capítulo 3 - Capítulo Três


Sete semanas.

Quase dois meses, passaram-se desde que iniciaram aqueles encontros. A mudança era lenta, mas os olhos bem atentos de Gilbert conseguiam notar. Na aula de sexta, ela não conseguia controlar os dedos que tamborilavam de leve na mesa por causa da tamanha vontade de que o tempo passasse mais rápido. Um professor até comentou que a pegou olhando para a janela da sala pela primeira vez, em uma demonstração de falta de interesse na aula. Obviamente, ela se policiou e voltou a prestar atenção no conteúdo, mas aquilo foi bem promissor. Para completar, depois da última história que ouviu, Violet puxou assunto pela primeira vez.

— Eu não sei o que estou sentindo…

Ela tinha novamente aquele olhar profundo enquanto encarava a xícara de chá. Naquele momento ela parecia mais velha do que era, o que fez Gilbert até se sentir um pouco intimidado. Sentia-se pressionado, pois ela precisava de ajuda e ele deveria fazer seu papel naquele momento.

— Consegue expressar o que sente em palavras?

Ele pediu com educação, pois precisava que ela falasse. Infelizmente, não conseguia ler mentes e não teria a mínima ideia do que Violet sentia se ela não lhe dissesse. 

— Eu me sinto leve... aqui. — ela apontou para o centro do peito, começando a falar devagar e desviando o seu olhar para o último livro recontado. — Um leve que não me lembro de ter sentido antes. É… algo bom. Livros são… incríveis, entende?

Ela puxou um pouco de ar. Era difícil mesmo escolher as palavras, dizer algo que fosse relevante, mas tinha que tentar. Não pelo professor, porém por si mesma. 

— Não há limites, não há física, não há regras. Você pode criar e recriar, viver e reviver, contar e omitir.  Pode ser profundo quanto a ideologia de um ladrão que rouba ricos porque pessoas precisavam da ajuda dele ou pode ser sutil e gentil como um ladrão que acha uma princesa e abre mão de sua ganância por um amor…

Gilbert quase não acreditou no que estava ouvindo. Não havia mais uma pose de soldado ou uma formalidade fria. Não haviam olhos vazios ou uma máscara sem sentimentos. Violet estava ali sorrindo, porque pela primeira vez encontrou algo no qual se apaixonou profundamente. Era um sorriso pequeno, singelo. Poderia até ser chamado de tímido, entretanto, foi a emoção mais verdadeira que teve dela em todo esse tempo. Por isso, sorriu também, aliviado por ter tomado a decisão certa.

— Eles inspiram! Eu tive tantas idéias nessas semanas. Sobre um dragão temido preso dentro de uma caverna ou sobre uma fada que perdeu suas asas… Sobre uma criança que se sentia diferente porque podia ouvir o que ninguém mais ouvia e isso é… surreal!

Ela pausou para pegar fôlego. Tinha se empolgado de verdade, já que estava dizendo aquilo mais para si mesma do que para qualquer outro. 

— Mas… eu não posso desapontar meu pai. Ele passou a vida inteira me treinando para ser um soldado como ele, não posso simplesmente chegar até ele e dizer que não quero.

Ela não quer decepcioná-lo.

Foi a vez de Gilbert morder o lábio, nervoso. Ele só tinha 24 anos e entrou como professor porque conseguiu se formar muito cedo, mas isso ia muito além de conhecimentos de graduação ou pós. Tinha que pensar bem no que iria falar.

— Você disse que não sabia o que era amor, certo?

Gilbert começou vago, sem muita certeza do que falaria, porém não se permitiria parar por ali. Era uma chance e ele tinha que tentar. Devia isso a si mesmo.

— Então, vou tentar colocar em algumas palavras: o amor faz com que pensemos nos outros, com que a alegria do outro seja a nossa alegria. Faz com que desejemos o melhor para aqueles a quem estimamos. Um pai faz isso e muito mais por um filho. Você ser capaz de decidir o que quer para si mesma não é decepcioná-lo, é mostrar que cresceu.

Ele nunca foi muito bom com discursos, porém sentiu que naquele momento tinha feito um bom trabalho. Bem, um trabalho bom o suficiente para fazê-la refletir. E depois de todo em que eles tiveram esse contato extracurricular, podia dizer que estava bom em ler os sinais mínimos. A loira não estava se sentindo muito segura, mas estava disposta a tentar.

Por alguns segundos lembrou da história do menino de madeira que queria se tornar um menino de verdade. Se analisasse friamente, ela seria a versão mais real da história. Contudo, ali não havia magia, apenas pessoas e seus sentimentos sendo colocados a prova. Ele só esperava que tudo desse certo no final.

 

[...]

 

A loira chegou em casa confiante, mas isso se desfez no momento que encontrou seu pai. Ele estava na poltrona da sala e encarava a porta da sala, claramente à sua espera. Entrou em silêncio, deixou os pães que tinha comprado na cozinha, voltou até onde ele se encontrava e colocou os braços para trás como um soldado se apresentando para seu superior.

E por um momento, Decim não falou nada. Seus olhos analíticos observaram a estranha mudança dela nos quase últimos dois meses e ele avaliou por si mesmo se aquilo era ou não ruim. Desde que sua esposa Chiyuki morreu, quando a filha deles tinha apenas dois anos, seu objetivo de vida foi criar uma boa filha, mas além de tudo, criar uma filha da melhor maneira que podia.

Ele era um Coronel. Tudo que sabia era criar soldados. Dessa forma, ele deu o seu melhor e criou uma mini soldada. Ou seja, ela seria forte, tanto fisicamente para os desafios do dia-a-dia quanto psicologicamente contra aqueles que tentarem a diminuir ou para quando tiver algum problema que pareça impossível. Ela saberia o jeito de resolver as coisas e que era capaz de tudo que quisesse.

Contudo talvez ele tenha falhado em um ponto, porque de tanto dar ordens finalmente percebeu que ela não tinha vontade própria. Sempre seguindo ordens, ela desaprendeu o que é decidir por si mesma. Naquele momento ele fechou os olhos por alguns instantes e refletiu. Havia falhado tão gravemente como pai? Como pode ter feito isso mesmo com a promessa que fez diante do túmulo de sua amada?

— Quer me falar alguma coisa, sim? — Sentia que não era assim que deveria começar o diálogo, no entanto quem sabia se comunicar com os outros era Chiyuki, não ele. Mas daria o seu melhor. E Violet, sem titubear, respondeu:

 — Sim..

Mais um momento de silêncio vindo da parte do pai, já que Violet esperaria ali a autorização para falar, não importava se demorasse horas. Então ele tomou mais coragem para falar, pois a dificuldade de se expressar da mais jovem foi espelhada do pai.

— Não quer ir para o Internato na Costa do Sul, correto?

— Correto. — A velocidade das respostas poderiam assustar qualquer outro, porém a comunicação entre os dois sempre foi assim, sempre muito formal.

— O que quer fazer?

— Escrever.

E pela primeira vez ele foi pego de surpresa. Violet tinha algum envolvimento com literatura?

— Fale mais.

— Passar a vida desenvolvendo personagens, mundos, histórias e realidades… Me parece muito satisfatório. Foi a primeira vez que entendi o que gostar de algo significa.

Agora foi a vez de Violet ficar surpresa. Seu pai, uma das pessoas mais sérias que conhecia, sorriu. Ele sorriu e se levantou, o que claramente era um sinal para que ela o acompanhasse, então o fez.

— Eu nunca lhe falei de sua mãe, imagino. Foi um pouco difícil para mim, confesso. E vocês duas são tão parecidas, que se tornou mais complicado ainda, porém não posso adiar mais isso.

Ele abriu a porta do quarto dele, no qual ela nunca teve permissão de entrar. Lá dentro, havia mais uma porta, a qual ele abriu devagar. Naquele pequeno espaço escondido, haviam as fotos de Chiyuki e alguns livros.

— Ela era filha de um antigo general, nos conhecemos porque nossas famílias eram amigas. Passou sua vida inteira devotada a arte, nunca haverá uma cantora de ópera melhor que ela. — Sua postura estava relaxada, pois falar de sua esposa já o deixava em paz — Mas além disso, Chiyuki era uma poetisa.

Pegou um dos três livros que tinha ali, todos bem finos, mas muito bem cuidados. Claramente, eles eram especiais para Decim. Ele os entregou a filha que parecia confusa.

— Esse foi o primeiro que ela publicou. Era um pouco mais velha que você na época e por nossa amizade com a família, eu estava no dia para prestigiar o lançamento. Eu sempre tive noção de como era linda, entretanto, depois de ter o prazer de conhecer sua visão de mundo, foi imediato minha paixão por ela.

Então, ele fez mais uma coisa que nunca havia feito: colocou a mão sobre a cabeça dela e bagunçou um pouco os fios com um carinho desajeitado e sorriu:

— E você, Violet, é o fruto desse amor intenso. Sempre será meu orgulho e meu maior presente. Se decidir seguir uma carreira parecida com de sua mãe, isso me deixará mais feliz do que pode imaginar. — ele esticou o corpo, mas ainda a olhava nos olhos. — Eu te amo, minha filha.

Violet chorou. Ela nem se lembrava se alguma vez havia o feito, mas algo bateu tão forte no seu coração, que subia pela garganta e inebriou seu cérebro. O sorriso foi o maior que deu em toda sua vida e num impulso, que não sabe de onde veio, pulou nos braços do mais velho. Ele não esperava aquela reação, porém logo se recompôs e a abraçou de volta. Ele chorou também, entretanto, ninguém viu e nem poderia provar.

 



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